Mostrando postagens com marcador Literatura Colombiana. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Literatura Colombiana. Mostrar todas as postagens

14 de fevereiro de 2024

Os Abismos - Pilar Quintana



Literatura Colombiana
Título Original: Los abismos
Tradutora: Elisa Menezes
Editora: Intrínseca
Edição de: 2022
Páginas: 272

Sinopse: Novo livro da autora de A cachorra aborda, pelos olhos de uma criança, a solidão feminina e as imposições sociais na vida de mulheres.

Claudia mora com os pais em Cáli, na Colômbia, em um apartamento tomado por plantas e rodeado por precipícios físicos e metafóricos. O ambiente, exuberante e bem-cuidado, é um contraste, uma oposição à mãe indiferente e apática que está em conflito com os caminhos escolhidos e impostos para a própria vida. Como muitas famílias, a de Claudia passa por uma crise, e basta o casamento de seus pais estremecer para que ela comece a entender a fragilidade dos limites que mantêm a previsibilidade do cotidiano.

A partir da expectativa e de seu olhar agudo e ao mesmo tempo inocente de criança, é a menina que narra os acontecimentos que abriram as fendas por onde entraram seus piores medos, aqueles que são irreversíveis e podem levar à beira dos abismos. Nos últimos anos da infância, Claudia percebe que a vida chega ao fim e que essa ruptura pode ser uma escolha pessoal. É pelos relatos da mãe, obcecada por revistas de celebridades ― em especial pelas figuras femininas com finais trágicos, como Grace Kelly ―, que ela faz a correspondência entre a morte e as escolhas e passa a temer pelas decisões de sua progenitora.

Em meio à beleza e à violência da natureza, confrontando desejos inconfessos, criança e mãe se encontram e, assim, o destino da mais velha parece se debruçar sobre o abismo contra o qual tantas outras mulheres também já se depararam.



"Aos poucos o apartamento foi se enchendo de plantas até se transformar numa selva. Sempre pensei que a selva eram os mortos da minha mãe. Seus mortos renascidos." 

Impacto. Dor. Desespero. Reflexão. Certeza da brevidade da vida e de como escolhas podem nos abrir portas ou nos colocar num precipício, lutando entre a vontade de viver e de simplesmente acabar com tudo. 

Quando iniciei esta leitura não tinha sequer noção do que encontraria. O livro me atraiu pela capa e por seu título que te faz pensar de que tipos de abismos a história tratará... Isto porque o livro estava embalado e eu nunca tinha visto ninguém falar sobre ele. Comprei primeiro para só depois ler a sinopse e entender que ele acabaria por abordar transtornos psicológicos através da visão e narrativa de uma criança. 

"Pensei nas mulheres mortas. Debruçar-se em um precipício era olhar em seus olhos."

A leitura fluiu bem, mas foi bastante difícil justamente pelos temas abordados e por tudo ser mostrado através do olhar de uma menina, que entende o que os adultos se esforçam em negar: sua mãe estava doente, caindo lentamente num abismo do qual ela talvez não conseguisse tirá-la. É doloroso acompanhar o dia a dia dela na casa, rodeada pelas plantas (que são os mortos de sua mãe, como ela diz), tendo que lidar com os altos e baixos de sua genitora enquanto o pai prefere fingir que nada está acontecendo, preso em seu silêncio e em seu trabalho. 

Claudia, que tem o mesmo nome de sua querida mãe, é uma menina solitária e observadora. Tudo o que mais deseja da vida é receber da mãe a atenção que tanto tenta atrair. A atenção que ela dava para as plantas... que dava para suas revistas sobre celebridades e que dedicava aos finais trágicos de outras mulheres. Sua mãe mergulhava naqueles assuntos, como se ansiasse estar no lugar das mulheres cuja vida acabou tão de repente, de um golpe, deixando no ar a suspeita (mas nunca a confirmação) de suicídio. 

Através dos fragmentos que obtém do passado de sua mãe, e da relação existente entre ela e a avó, Claudia, com tão pouca idade, traça um paralelo com sua própria vida e a relação com sua mãe. Os erros cometidos por sua avó e repetidos em sua mãe, que jura que jamais seria como a outra, mas repete os mesmos comportamentos e palavras como se num ciclo inquebrável. 

"Fechei os olhos e surgiu um precipício. Abri e continuei vendo."

A Claudia mãe é uma mulher triste, que não admite para si mesma o quanto a tristeza a está consumindo. As escolhas de seus pais, o quanto não teve coragem para enfrentá-los e realizar seus sonhos. Como deu ouvidos somente para o que esperavam dela e se conformou com um casamento sem amor e em ser mãe quando na verdade não era o que queria. O que sonhava viver. Estar presa naquela vida era sentir-se morta. Amava a filha, mas gostaria de poder voltar no tempo... Teria aceitado o que aceitou? Novamente teria abandonado seus sonhos? Ou teria ido embora sem olhar para trás? Teria cursado a universidade? Teria fugido com o rapaz que amava? Queria apenas poder voltar e descobrir se tudo poderia ter sido diferente. 

Com a indiferença de um marido que só viu nela a sua beleza e a desejou como uma esposa "perfeita", padrão, e as obrigações da maternidade, Claudia encontra refúgio nas tragédias de outras mulheres... até que isso deixa de ser um escape. Então, seu humor começa a subir e descer de forma descontrolada, mas com alegrias bem fugazes e momentos prolongados de depressão, quando viver parece o pior dos castigos. 

A Claudia filha tenta conseguir a ajuda do pai, da tia... mas ninguém acredita que sua mãe está doente. Não era algo que se falasse, era mais confortável negar. E a menina precisa lutar para não permitir que sua mãe vá... que encontre o precipício, ao mesmo tempo que também só quer ser criança, estudar e brincar. Mas o abismo da mãe começa a invadir e destruir sua infância, transformando sonhos em pesadelos, brincadeiras em medos. 

"- Mamãe...
Não se via nada. 
- Mamãe!
[...] Quis me jogar no chão e começar a chorar. Parar de procurá-la. Que ela se jogasse do precipício e não voltasse. Que me deixasse sozinha com meu pai, afogada com ele no seu mar de silêncio."

Este é um livro muito sensível. Realmente impactante. Ainda não li A cachorra, o livro aclamado da escritora. Os Abismos foi meu primeiro contato com sua escrita e foi um início que me marcou e me fez desejar ler todos os seus escritos. Ela escreve com um cuidado, uma delicadeza que transborda pelas páginas. Conseguimos nos colocar no lugar da mãe e da filha e temer pelo final da história. Temer que seja uma luta perdida, até porque nenhuma das duas tem alguém que lhes estenda a mão, que as ajude naquele momento tão frágil.

Durante a leitura eu senti raiva. De todas as personagens que contribuíram para que mãe e filha chegassem àquele ponto. É verdade que a Claudia mãe fez as suas escolhas. Mas seus pais tiveram grande participação nisso. Ela estava sufocada. Eu sentia a agonia daquela mulher. Lendo era como se eu própria me sentisse presa naquela situação, na vida não desejada, condenada a seguir somente pelas obrigações. Ninguém queria que ela fosse ela de verdade. Tinha que ser o que esperavam dela. E ponto final. Como escapar? 

"Então eu o vi em seus olhos. O abismo dentro dela, igual ao das mulheres mortas [...], uma fenda sem fundo que nada pode preencher. 
- Este lugar é perfeito para desaparecer."

Ao mesmo tempo você sabe que existe amor entre mãe e filha. Ambas perdidas naquela situação. Com a filha em muitos momentos tendo que ocupar o lugar de mãe, tendo que cuidar daquela que lhe deu a vida. Quando a menina sentia medo de perdê-la, eu sentia uma dor dentro do meu peito. Sem saber como tudo terminaria, com medo do fim. Com medo de que nada fosse suficiente. 

É um livro que merece cinco estrelas e passagem direta para os favoritos. Me atingiu em cheio. Me fez refletir muito e de certo modo contribuiu para que eu dissesse "não" para certas situações que estava aceitando em minha vida. Viver é um privilégio. Mas a vida... ela é fugaz. Tudo pode acabar de um momento para o outro. E no que dedicamos os nossos dias? Em realizar nossos sonhos ou em ser o que esperam de nós, nos anulando pelos outros?

"Queria guardar aquele cheiro dentro de mim [...] O cheiro da minha mãe, para que eu nunca esquecesse. Acariciei sua testa e depois seus cabelos. Desembaracei os fios com os dedos até deixá-los lisos e brilhantes. Dei um beijo na sua testa e me deitei ao seu lado."


31 de maio de 2020

Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez

Literatura Colombiana
Título Original: Cien Años de Soledad
Tradutor: Eric Nepomuceno
Editora: Record
Edição de: 2019
Páginas: 448

28ª leitura de 2020

Sinopse: Neste que é um dos maiores clássicos da literatura, o prestigiado autor narra a incrível e triste história dos Buendía – a estirpe de solitários para a qual não será dada “uma segunda oportunidade sobre a terra” e apresenta o maravilhoso universo da fictícia Macondo, onde se passa o romance. É lá que acompanhamos diversas gerações dessa família, assim como a ascensão e a queda do vilarejo. Para além dos artifícios técnicos e das influências literárias que transbordam do livro, ainda vemos em suas páginas o que por muitos é considerado uma autêntica enciclopédia do imaginário, num estilo que consagrou o colombiano como um dos maiores autores do século XX.





Olha, eu não sei nem o que começar a falar desta história pela qual senti coisas tão distintas, tão contraditórias. Ao mesmo tempo que digo que é um livro que não tem nenhuma chance de entrar para os meus preferidos e que não sentirei falta de personagem algum... também digo que jamais esquecerei esta história e que todos os membros da família Buendía conseguiram marcar a minha vida... de uma forma ou de outra.

Mas antes de tentar colocar em palavras a confusão de sentimentos que tomou conta do meu interior, preciso avisar que a resenha poderá conter SPOILER. E mais do que isso, que existem gatilhos no livro. Avisos dados, prosseguirei.

*Gatilhos: Pedofilia, incesto, exploração sexual, violência, assassinatos. 

Quando você lê um suspense ou um livro de terror, ninguém precisa te avisar que poderá conter cenas pesadas, pois você já espera que coisas assim se passem naqueles gêneros. Mas quando se trata de um livro assim, com capa bonitinha e colorida, aparentemente mais leve de ler, acho importante avisar. 

"Os filhos herdam as loucuras dos pais."

Nesta história acompanhamos sete gerações de uma mesma família. Suas dores, sua solidão, seus erros, seus pecados, suas conquistas e perdas... Uma família, de certa forma, amaldiçoada, condenada pelo destino a viver uma série de repetições. E do destino não era possível escapar.

Tudo começa quando dois primos, José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán decidem se casar, mesmo que existisse na família a lenda de que casamentos entre parentes resultassem em filhos que nasciam com partes de animais, sobretudo rabo de porco. Ainda que tomada pelo medo de vir a ter filhos que não seriam totalmente humanos, Úrsula acaba se casando, mas se recusa a entregar-se ao marido, o que acarreterá na primeira grande tragédia a perseguir a família: sofrendo com o deboche de alguns homens da cidade, um dia José Arcádio Buendía perde a cabeça e acaba assassinando um vizinho. Acontecimento este que o atormentará até o fim de sua vida.

Após o assassinato, perseguidos pelo fantasma do morto, que não os deixava em paz, José Arcádio e Úrsula partiram, dispostos a reconstruírem a vida em outro lugar. Diversos vizinhos resolveram acompanhá-los, acreditando numa vida melhor, e assim fundaram, no meio do nada, a aldeia que ficaria conhecida como Macondo, onde nenhum morador era melhor que ninguém, onde todos viviam de maneira igualitária e construíam com as próprias mãos o necessário para mobiliar suas casas, arrumar a aldeia e criar seus filhos.

12 de julho de 2018

Do Amor e Outros Demônios - Gabriel García Márquez

(Título Original: Del Amor y Otros Demonios
Tradutor: Moacir Werneck de Castro
Editora: Record
Edição de: 2016)


Em 1949, o então jovem repórter Gabriel García Márquez acompanha a remoção das criptas do convento histórico de Santa Clara, e o túmulo de uma menina o faz lembrar as lendas contadas por sua avó. Segundo ela, no Caribe, havia uma marquesinha que tinha uma "cabeleira que se arrastava como a cauda de um vestido de noiva". Venerada por seus milagres, ela foi mordida por um cachorro e morreu de raiva. Seria ela ali enterrada? García Márquez conta a história da filha única de um marquês, criada no convívio de escravos e orixás, e um padre incumbido de exorcizar os demônios que se acredita terem possuído a pequena, cujos cabelos só seriam cortados em seu casamento.



Palavras de uma leitora...


- Não faço ideia de como começar a falar desta história tão perturbadora. Eu bem sabia que tinha razão ao fugir tanto dos livros do Gabriel García Márquez. Para o bem da minha saúde mental

Alguns anos atrás, eu ganhei uma edição de Cem Anos de Solidão e Lolita (o segundo livro não é do Gabriel, mas de outro autor que também evito). Como já tinha ouvido falar dos livros do autor e tinha medo dele me convenci que o melhor era me desfazer da obra, pois "não fazia meu gênero".kkkkkkk... Lolita eu troquei porque o tema da história me enojava e eu me negava a ler um livro narrado por um pedófilo (estou falando que o personagem principal é um pedófilo, não o autor da obra). Enfim... Nunca me arrependi de ter me desfeito de Lolita, mas o livro do Gabriel, Cem Anos de Solidão, eu gostaria de ainda ter, pois faz parte dos livros que pretendo ler no futuro. Isso se tiver coragem de encarar outra vez uma obra dele.rsrs

Do Amor e Outros Demônios entrou na minha lista de leituras do ano por causa do Desafio 12 Meses Literários. O tema de julho era ler um livro publicado no ano em que nasci. E como foi difícil!kkkkkkk... Como esta história do autor estava entre os livros lançados naquele ano resolvi adquiri-lo e apostar nele. Afinal de contas, era uma narrativa curta. Apenas 191 páginas. Não existia muita chance do Gabo (como os fãs gostam de chamá-lo) me traumatizar. Ledo engano!kkkkkk

- Quando terminei a leitura, já extremamente angustiada com a quantidade de crueldades e misérias encontradas na história, cheguei à conclusão que praticamente todos os personagens eram loucos. E que eu estava ficando bastante perturbada também.rs... Sério! O livro me deu vários socos no estômago, me provocou náuseas, revolta, desespero, vontade de esmurrar determinados personagens que mais pareciam ter um pacto com o coisa ruim, como, por exemplo, a abadessa preconceituosa que via o demônio em tudo e usava isso como desculpa para seu comportamento vil. Como eu odiei essa mulher! Víbora! Escória! Ela é que merecia ser tratada como tratou a Sierva María, a menina de doze anos protagonista do livro. Uma desgraçada que apenas PENSAVA que servia a Deus. Eu diria que ela servia a outra coisa! Ninguém que trate uma criança como ela e suas noviças trataram a menina pode se considerar servo de Deus. A vontade que tenho é de xingá-las de todos os nomes nos quais consigo pensar. Faz horas que terminei a leitura, mas continuo muito furiosa. 

Mas tenho que respirar fundo para que possam compreender do que se trata o livro...

- No dia 26 de outubro de 1969, um dia sem grandes notícias, Gabriel García Márquez, um jovem jornalista, recebeu a informação de que estavam esvaziando as criptas funerárias do antigo convento de Santa Clara, que cerca de um século antes tinha se transformado num hospital e agora daria lugar a um hotel cinco estrelas. Naquelas criptas estavam enterradas gerações de bispos e abadessas e outras pessoas importantes. Valia a pena acompanhar a retirada do que restara dessas pessoas há tanto tempo falecidas. 

"Quase meio século depois, ainda sinto o estupor que me causou aquele terrível testemunho da passagem devastadora dos anos."

Por mais que os anos tenham se passado desde o fatídico dia em que acompanhara a retirada dos ossos e pertences daquelas pessoas, Gabriel jamais conseguiu esquecer o acontecido. Ficou nele uma forte impressão, sobretudo por conta de uma misteriosa menina. Que o fez recordar uma antiga lenda, contada por sua avó. A história de uma marquesinha que era venerada por acreditar-se que operava milagres. Sua cabeleira era impressionante e nunca tinha sido cortada por causa de uma promessa. Seus cabelos só deveriam ser cortados após seu casamento. Que nunca ocorreu, pois a criança morreu aos doze anos de idade, vítima da mordida de um cachorro contaminado pela raiva.  

"No terceiro nicho do altar-mor, do lado do Evangelho, é que estava a notícia. A lápide saltou em pedaços ao primeiro golpe da picareta, e uma cabeleira viva, cor de cobre intensa, se espalhou para fora da cripta."

Na pedra estava escrito o seu nome: Sierva María de Todos los Ángeles. Claro que a história contada pela avó do autor era apenas uma lenda, não existia nenhuma ligação entre a criança da cripta e a marquesinha que teve um fim tão trágico. Todavia, na mente do autor se construiu uma história... E utilizando o nome real gravado na lápide ele escreveu Do Amor e Outros Demônios, uma obra de ficção chocante, que mostra a loucura da obsessão, do desamor, do fanatismo religioso e tantos outros males que os seres humanos insistem em manter em suas vidas não para destruir apenas a eles próprios, mas também para prejudicar outras pessoas. 

"A ideia de que aquele túmulo pudesse ser dela foi a minha notícia do dia, e a origem deste livro."

- Publicado em 1994, o livro já começa nos mostrando o momento em que Sierva María, nossa pobre protagonista, é mordida por um cachorro raivoso, que ainda atacou outras pessoas que cruzaram seu caminho antes de morrer. Como a ferida era muito pequena e quase insignificante, a criada que a acompanhava não deu muita importância ao caso. Limpou o machucado e seguiu em frente com os preparativos do aniversário de doze anos da menina que seria comemorado entre os escravos, sua verdadeira família. 

"Naquele mundo opressivo em que ninguém era livre, Sierva María o era: só ela e só ali. Por isso era ali que se celebrava a festa, em sua verdadeira casa e com sua verdadeira família."

Embora fosse branca, uma marquesa de nascimento, Sierva María conhecia o abandono desde o instante em que sua mãe lhe deu à luz. Odiada pela mulher que a pariu e tratada como se não existisse pelo pai, a pequena encontrou refúgio entre os escravos que a acolheram de braços abertos. Como não recebeu uma educação padrão já que seus pais preferiam fazer de conta que não tinham filha alguma, foi pelos escravos que foi educada, aprendendo seus costumes, música, religião. Sua língua era a língua deles. Seus hábitos também. Tudo o que ela tinha de branca, conforme sua mãe dizia nas poucas vezes que a mencionava, era a cor. De resto, ela era africana. E a menina, que não deixava de sentir a ausência da família, se sentia orgulhosa de quem era. Quando a dor não a consumia. 

Quando os casos de raiva humana se espalharam e pessoas mordidas por aquele cachorro começaram a enlouquecer e morrer, os escravos se preocuparam e procuraram utilizar seu conhecimento de cura para livrar a menina do mal. Bernarda, a "mãe" de Sierva María, já sabia da mordida que a menina sofrera, pois a criada não demorou a lhe comunicar. Sua única preocupação era a mancha que uma morte por raiva provocaria na honra da família. Ela estava mais do que preparada para fingir um grande luto pela filha que odiava profundamente, mas não queria que a real causa de sua morte fosse divulgada. 

- Ao tomar conhecimento do que acontecia, o pai da menina, o marquês de Casalduero sofreu um grande abalo. Sempre acreditou que odiasse a filha. Não gostava de tê-la por perto, ela não dormia sequer sob o mesmo teto que ele e a esposa. Era com os escravos da propriedade que vivia. Mas ao saber que aquela pequena criatura que levava seu sangue possivelmente estava condenada, ele sofreu uma considerável transformação. Desejou ter um maior contato com ela. Procurar fazê-la feliz. 

Três meses após a mordida, quando todas as demais vítimas já tinham padecido, Sierva María seguia sem apresentar qualquer sintoma da raiva. Seu pai, aliviado pela segunda chance que recebera de ter a filha ao seu lado, estava preparando uma grande viagem para os dois. Todavia, num determinado dia, já bem próximo da viagem, a criança acordou queimando de febre. Todos se desesperaram (menos a mãe dela). E aí começou um verdadeiro inferno na vida da menina: curandeiros, feiticeiros, médicos, o que fosse... Todos queriam tentar algo. Alguma forma de "tirar o mal" de dentro dela. Eram rasgos na ferida, sangrias, bebidas, diversas tentativas de "cura". A ferida que antes estava cicatrizada infeccionou pelos cortes provocados pelos curandeiros. O sofrimento que a faziam passar era tão grande que Sierva María começou a ter crises terríveis, gritando incontrolavelmente, debatendo-se... Para alguns, sintomas inequívocos da raiva. Para a Igreja Católica, evidência de uma possessão demoníaca. 

"No fim de tudo, o mais longe possível e largado pela mão de Deus, havia um pavilhão solitáro que durante sessenta e oito anos serviu de cárcere da Inquisição, e continuava a sê-lo para clarissas desgarradas. Foi na última cela desse recanto de esquecimento que encerraram Sierva María, noventa e três dias depois de ser mordida pelo cachorro e sem nenhum sintoma de raiva."

Intimado pelo Bispo, o marquês foi convencido pelo mesmo e pelo padre Cayetano Delaura a entregar a filha aos seus cuidados, pois através do exorcismo (que bem poderia matá-la) a alma da criança ficaria livre do demônio que a possuía e tentava levá-la para o inferno. Mesmo não acreditando de verdade que a filha estivesse possuída, ele a deixou no convento de Santa Clara, não sem se arrepender. Todavia, não teve coragem de voltar atrás. Deixou a filha à própria sorte. 

E é nesse convento que Sierva María conhecerá tipos diferentes de dor e até onde o fanatismo religioso pode ir... e quanta destruição é capaz de provocar. 

"Às vezes atribuímos ao demônio certas coisas que não entendemos, sem cuidar que podem ser coisas que não entendemos de Deus."

- Talvez muitos de vocês saibam que sou católica. Desde o ano passado. Minha Crisma aconteceu em maio deste ano e não me arrependo nem por um instante. Fui evangélica a vida quase toda, mas me tornar católica foi uma decisão que tomei com o coração, apesar de toda a resistência que tive na família. De todos os que foram contra.rs 

Na sexta série, nas aulas de História, eu ouvia falar muito sobre a Inquisição, apesar do meu professor ser católico. Ele próprio reconhecia o passado obscuro que a Igreja Católica possuía. Sabia dos crimes cometidos. E não deixava de falar sobre isso para os alunos. Eu nunca esqueci. Lembro até o nome do meu professor. Ele foi um dos poucos a não negar esse passado tão terrível. E em Do Amor e Outros Demônios eu vi bastante desse fanatismo e do poder que a Igreja tinha de condenar quem quer que fosse por coisas que acreditava, por faltas que julgava terem sido cometidas. Pessoas perseguidas por lerem "livros proibidos", chamadas de hereges e sendo assassinadas em fogueiras, doenças que a medicina já conhecia sendo vistas pela Igreja como possessões demoníacas... Isso tudo me fez muito mal. Não era falta de conhecimento. Era querer ver as coisas de determinada maneira para poder julgar as pessoas. Uma criança, gente! Sierva María era uma criança e foi vítima dos preconceitos, do fanatismo religioso, da prepotência e até mesmo do desejo de pessoas que tinham sua vida nas mãos. 

"Mal começaram os curativos, a menina fixou nele uns olhos aflitos e falou com voz trêmula:
- Vou morrer.
Delaura estremeceu."

- Meu coração se partiu em vários pedaços por essa criança. Negligenciada pelos pais, abusada por uma determinada pessoa (conto no spoiler daqui a pouco), torturada pela abadessa, pelas noviças, pelo Bispo e seus cúmplices. Ela nunca foi amada ou compreendida de verdade. Talvez os escravos tenham sido os únicos que lhe deram um pouco de amor, mesmo que vivessem em condições desumanas, mesmo que não fossem livres. Eles a aceitavam. Eles a queriam e respeitavam. Seu pai se arrependeu por sua indiferença, mas de que adiantou? De que valeu se depois lavou as mãos e a entregou ao inferno que era aquele convento?! Antes não tivesse se arrependido. Porque seu passageiro amor apenas deu algo à menina para depois retirar abruptamente. Seria preferível que ela nunca tivesse se apegado a ele. 

"- Estou com medo - disse ela.
Jogou-se na cama e desatou num pranto dolorido. Ele se sentou mais próximo e consolou-a com paliativos de confessor. Só então Sierva María soube que Cayetano era o seu exorcista e não médico.
- Então por que me cura? - perguntou.
Ele falou com voz trêmula:
- Porque gosto muito de ti."

- Este é um livro para pessoas que não se impressionam fácil, para quem tem estômago forte. Não era uma história para mim.rsrs Todavia, não me arrependo de ter lido. É um livro muito bem escrito, que lemos em poucas horas e nos envolve por completo. Só que é uma história que machuca. A criança do livro é vítima de muitos maus-tratos. Não dá para ler algo assim e ficar bem. 

GRANDE SPOILER: No trecho que coloquei logo acima vocês podem ver a conversa entre a Sierva María e outra pessoa. O padre Cayetano, encarregado de exorcizá-la, embora ele não acreditasse que ela estava possuída por demônio algum. Era uma pessoa culta, inteligente, que não se deixava cegar pelas doutrinas da Igreja. E se apegou muito à menina. Eu gostava imenso dele. Achava que ele faria algo pela criança. Que a ajudaria. E ele conseguiu me decepcionar de uma forma... Ainda estou muito arrasada. De pessoa culta, instruída, ele se transformou num homem enlouquecido pelo desejo. Um homem de 36 anos que passou a ver sua protegida como mulher. Que enxergou numa criança de 12 anos alguém por quem tinha se apaixonado. Ele seduz a menina, ele impõe seu "amor" à ela, passa a visitar o convento todas as noites e dormir na mesma cama que a criança. Embora ele não a tenha penetrado, isso não muda o fato de que era estupro e era pedofilia, gente!!! Ele toca nela, ele a beija, fala coisas que não devia. Eu sentia fortes náuseas quando lia essas cenas. Ela era só uma criança. Foi fácil para ele convencê-la de que aquilo era certo. Mas não era! Não posso aceitar algo tão absurdo! 

O autor coloca misticismo na história para explicar a relação que surge entre os dois, mas nada justifica ou torna aceitável algo assim. Sierva María era uma criança. O interesse de Cayetano, que ainda por cima era padre, pela menina é algo criminoso, doentio. Repugnante. Não senti pena alguma dele. O seu final ainda foi pouco. Porque o da menina foi terrível demais. E não. Ela não morre de raiva. Sequer contraiu raiva alguma. E também não estava possuída por demônio. O que entendi é que quando ela teve febre, que poderia ter diversas causas, as pessoas se desesperaram e foi por conta de tantas tentativas de "cura" que ela foi levada ao seu limite e começou a gritar, pois a faziam sofrer com seus experimentos. Enfim... Não houve raiva nem possessão. Ela morreu por outras causas e aos doze anos de idade. :(



Como eu disse, em julho a proposta do Desafio 12 Meses Literários é "ler um livro publicado no ano em que você nasceu". Minha escolha foi um desafio e tanto! Um livro que me provocou tormento, mas que eu não me arrependo de ter lido. Como um todo valeu a leitura.rs Dei 4 estrelas. 
Topo