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7 de abril de 2020

O Jardim Secreto - Frances Hodgson Burnett

Literatura Inglesa
Título Original: The secret garden
Tradutor: João Sette Camara
Editora: Ciranda Cultural
Edição de: 2019
Páginas: 286
17ª leitura de 2020

Sinopse: Após ficar órfã, Mary Lennox se muda da Índia e vai morar com seu tio viúvo em uma grande casa cheia de segredos na Inglaterra. A mansão tem quase cem quartos e seu tio se mantém trancado lá. Durante a noite, ela ouve o som de choro em um dos longos corredores. Os jardins que cercam a grande propriedade despertam a curiosidade de Mary. Ao decidir explorá-los, a órfã descobre um jardim secreto, cercado por muros e trancado com uma chave perdida. Com a ajuda de dois companheiros inesperados, Mary descobre um caminho e se torna determinada a trazer o jardim de volta à vida. 



Está aí uma autora que conseguiu me conquistar com suas belíssimas histórias de amor e superação. E não aquele "amor romântico", mas o amor pela vida, pelos familiares, amigos e por si mesmo. Este ano eu já resenhei A Princesinha, que se tornou um dos meus livros queridinhos, por trazer uma protagonista que apesar de ser apenas uma criança que deveria ser protegida, era mais forte do que eu jamais conseguiria ser (sejamos realistas.rs) e me ensinou muito. A Princesinha é aquele livro que fica no seu coração. É inesquecível. O Jardim Secreto só comprova que a autora realmente tinha o dom de encantar. 

No caso do livro anterior, eu já conhecia o filme e ele marcou a minha infância. Quanto ao livro O Jardim Secreto, eu mergulhei no escuro. Porque não tinha assistido o filme e não conhecia nada da história, não sabia o que esperar e todas as surpresas, as descobertas que a Mary fez ao longo da narrativa, eu fiz junto. Tudo era uma surpresa para mim também. Foi mágico acompanhá-la em sua jornada de crescimento, de cura interior. Me senti transportada para dentro daquele jardim, ouvindo os risos das crianças e vendo a vida surgindo como se o mundo estivesse mesmo cheio de mágica. E sabe de uma coisa? Ele realmente está. Existe magia no simples fato de respirarmos. E agora que estamos todos passando por esse período tão sombrio, nunca imaginado, deveríamos valorizar ainda mais o ar que respiramos, o oxigênio que nos mantém vivos. Entender o quanto somos nada diante da Natureza que trabalha incansavelmente para nos dar tudo o que precisamos para viver.

13 de janeiro de 2020

A Princesinha - Frances Hodgson Burnett

Literatura Inglesa
Título Original: The little princess
Tradutora: Carla Bitelli
Editora: Ciranda Cultural
Edição de: 2019
Páginas: 208

3ª leitura de 2020
Sinopse: Sara Crewe é uma menina rica trazida da Índia por seu pai para estudar em uma escola de moças em Londres. Quando seu pai morreu, perdeu tudo e foi obrigada a trabalhar como empregada na escola, e apesar de passar frio e fome, conseguiu preservar sua nobreza e generosidade. Dona da grande imaginação, ela foi capaz de criar histórias fantásticas e conquistar suas amigas que não a abandonaram. No entanto, as coisas mudam quando um indiano doente chega à cidade procurando uma menina perdida.





Talvez você, assim como eu, já conheça a história por conta do filme de 1995, que muitas e muitas vezes assisti e marcou a minha infância, assim como a de milhares de outras crianças. Lembro do quanto eu me revoltava com as injustiças que Sara era obrigada a suportar, sendo ainda uma menina, e como o final me encantava, mesmo já sabendo tudo o que aconteceria. Era sempre como se fosse a primeira vez e se tornou um dos meus filmes queridinhos. 

"[...] ela mesma não conseguia se lembrar de qualquer momento que não estivesse pensando sobre adultos e o mundo ao qual eles pertenciam. Ela sentia como se já tivesse vivido por muito, muito tempo."

Somente já adulta é que eu descobri que aquele filme que eu tanto amava era uma adaptação do livro "A Princesinha", da autora Frances Hodgson Burnett, de quem eu nunca tinha ouvido falar. E durante bastante tempo desejei ter a oportunidade de ler o livro, mas sempre priorizava outras leituras, que faziam parte das minhas metas literárias. Todavia, ano passado eu recebi este livro de presente e ao decidir incentivar minha priminha de 10 anos a mergulhar no universo das histórias é que finalmente pude lê-lo e perceber que o livro é muitíssimo mais especial que o filme, se tornando um dos livros que mais me impactou, com uma mensagem que jamais esperei encontrar nele. 

"Ela gostava de livros mais do que de qualquer outra coisa e, na verdade, estava sempre inventando histórias sobre coisas lindas e contando-as para si mesma."

Sara Crewe nascera e passara todos os seus sete primeiros anos de vida na Índia, sendo mimada por todos que a conheciam, o que de modo algum a estragou, pois era uma menina bastante madura para sua idade e que jamais permitiu que os privilégios que recebera mudassem a sua essência. Tendo crescido sem mãe, que falecera quando do seu nascimento, era muito apegada ao pai, a quem amava acima de tudo. Com ele tinha uma belíssima relação e ele a chamava carinhosamente de "Senhorinha", por conta da maneira antiquada, solene, com que a filha sempre se expressava, como se fosse uma pequena adulta de séculos passados. Ele também a amava mais que tudo e por isso mesmo decidira que chegara a hora de enviá-la para longe, por mais que aquilo partisse seu coração, pois sua filhinha precisava iniciar seus estudos e retornar para casa apenas quando já fosse uma jovem adulta. Era o que se esperava dele como pai, embora a sua vontade fosse manter Sara ao seu lado para sempre, protegida de um mundo vasto e tão cheio de riscos.

22 de julho de 2019

Mar da Tranquilidade - Katja Millay

Título Original: The Sea of Tranquility
Tradutora: Carolina Alfaro
Editora: Arqueiro
Edição de: 2014
Páginas: 368

Sinopse: Nastya Kashnikov foi privada daquilo que mais amava e perdeu sua voz e a própria identidade. Agora, dois anos e meio depois, ela se muda para outra cidade, determinada a manter seu passado em segredo e a não deixar ninguém se aproximar. Mas seus planos vão por água abaixo quando encontra um garoto que parece tão antissocial quanto ela. É como se Josh Bennett tivesse um campo de força ao seu redor. Ninguém se aproxima dele, e isso faz com que Nastya fique intrigada, inexplicavelmente atraída por ele. A história de Josh não é segredo para ninguém. Todas as pessoas que ele amou foram arrancadas prematuramente de sua vida. Agora, aos 17 anos, não restou ninguém. Quando o seu nome é sinônimo de morte, é natural que todos o deixem em paz. Todos menos seu melhor amigo e Nastya, que aos poucos vai se introduzindo em todos os aspectos de sua vida. À medida que a inegável atração entre os dois fica mais forte, Josh começa a questionar se algum dia descobrirá os segredos que Nastya esconde – ou se é isso mesmo que ele quer. Eleito um dos melhores livros de 2013 pelo School Library Journal, Mar da Tranquilidade é uma história rica e intensa, construída de forma magistral. Seus personagens parecem saltar do papel e, assim como na vida, ninguém é o que aparenta à primeira vista. Um livro bonito e poético sobre companheirismo, amizade e o milagre das segundas chances.



Às vezes um livro nos machuca muito, nos provoca feridas que quase parecem reais, como se as sentíssemos no corpo, de tão marcados que ficamos pela história. Mas existem livros que não só nos ferem, mas também nos curam... curam as feridas que eles mesmos causaram... Mar da Tranquilidade é um destes livros. 

Quado comecei a lê-lo deixei de lado todos os outros livros, todas as outras leituras em andamento. Porque senti que a historia contida nessas páginas precisava de atenção exclusiva. Era para ser apenas o livro e eu. E foi assim. Se eu queria encarar esta leitura agora precisava aceitar tudo, até mesmo que ela partisse meu coração. 

"O peso da realidade nos meus ombros é tão grande que às vezes me pergunto como ainda consigo erguer os pés para caminhar."

Eu não sabia nada sobre este livro. Nada mesmo. Anos atrás vi muitos leitores falando sobre ele e tinha em mente que era um livro forte, do tipo que mexe com as emoções, mas não lembro se cheguei a ler alguma resenha. Só sei que alguma leitora amiga o recomendou e eu comprei em 2016, criando coragem de ler apenas este ano. 

Senti um golpe no coração logo nas primeiras páginas. Não sabia ao certo o que tinha acontecido com a Nastya, mas dava para ter uma ideia de que foi grave, muito grave. Que, cerca de dois anos e meio antes, alguém a matou. Quando ela estava indo para a escola. Quando tinha apenas 15 anos e toda uma vida pela frente. Alguém simplesmente cruzou seu caminho e destruiu tudo. Matou a garota que ela era. 

14 de junho de 2019

Helena - Machado de Assis

Literatura Nacional
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2016
Box Todos os Romances e Contos Consagrados de Machado de Assis 
Volume 1: Ressurreição/A mão e a luva/Helena/Iaiá Garcia
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Estão reunidos aqui os quatro primeiros romances de Machado de Assis, que compõem o que se convencionou chamar de fase romântica do escritor. O próprio Machado na "Advertência" a uma nova edição de Ressurreição, sugere essa divisão de sua obra: "Este foi o primeiro romance, escrito aí vão muitos anos. Dado em nova edição, não lhe altero a composição nem o estilo, apenas troco dois ou três vocábulos, e faço tais ou quais correções de ortografia. Como outros que vieram depois, e alguns contos e novelas de então, pertence à primeira fase da minha vida literária."



Apesar deste primeiro volume conter quatro romances do autor, neste post trarei apenas a resenha de Helena, uma história que me envolveu intensamente e aumentou todo o amor que eu já sentia pelo Machado de Assis. É um dos meus autores da vida! 

E pensar que houve um dia em que falei do autor com indiferença, até com certo desprezo, na verdade. Lembrei dessa ocasião recentemente. Acho que aconteceu nos meus primeiros anos como blogueira. Quem lê romances contemporâneos, de época, de banca ou outros livros considerados "insignificantes" por uma certa parcela de leitores com certeza já passou por situação de raiva, ao ter que suportar o desdém de outros que se consideram "verdadeiros leitores", "cultos", "intelectuais", por lerem clássicos. Foi num momento assim, em que eu estava com muita raiva, que falei do autor com desprezo, sem sequer conhecer as suas obras. Eu lembro de ter dito que não precisava ler clássicos para ser uma leitora e que não fazia a menor questão de ler Machado de Assis. E eu tinha razão no que disse. Continuo acreditando que não importa o que a pessoa lê, desde que leia e seja capaz de interpretar o que leu, de absorver algo da história, de tornar-se alguém melhor. 

Porque como certo autor um dia disse (e não recordo o seu nome) "os livros não mudam o mundo, os livros só mudam as pessoas". E um romance de época pode mudar alguém, um chick lit, até um romance erótico (que é um gênero que eu particularmente não aprecio muito). Livros sempre são capazes de nos transformar (para melhor) se dermos a eles a oportunidade de fazerem isso. Por isso esse preconceito literário que existe aos montes na blogosfera me irrita tanto. Porque eu posso achar que um livro é inútil para minha vida, posso considerar uma história a pior de todas, mas tenho que respeitar o fato do outro não ser obrigado a ter o mesmo gosto que eu, e poder retirar daquela mesma história que odiei algo de bom para sua vida. Talvez seja a história que aquela pessoa precisava ler. Enfim... Mas de todos os preconceitos literários que existem um dos mais insuportáveis é em relação aos que não leem clássicos. E só posso considerar quem julga alguém por não ler clássico um pseudointelectual, que para ser um intelectual de verdade, evoluído, deveria no mínimo respeitar o gosto literário das pessoas. 

9 de junho de 2019

O Fantasma da Ópera - Gaston Leroux

Título Original: Le Fantôme de l'Ópera
Tradutor: Gustavo de Azambuja Feix
Editora: L&PM Pocket
Edição de: 2016
Páginas: 330
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Somente a música e o amor são imortais. Que aterrorizante segredo esconde-se nos subterrâneos da Ópera de Paris? Que mistério atormenta um dos mais majestosos palácios dedicados à arte na capital francesa? Uma das histórias de terror e amor mais famosas do século XX, O fantasma da Ópera combina romance e suspense para narrar o triângulo amoroso entre a linda e talentosa cantora lírica Christine Daaé, o frágil e apaixonado visconde Raoul de Chagny e o sinistro e obcecado gênio da música que habita os porões do teatro. Com contornos de relato histórico, a narrativa conduz o leitor pelos labirintos da Ópera e do coração humano, revelando o que há de mais obscuro em ambos.



Faz poucas horas que concluí esta leitura e nem sei por onde começar a falar dela. É um livro que se tornou um querido do meu coração. Um daqueles especiais, sabe? Do qual não abro mão, que levaria comigo se precisasse viajar e carregar apenas algumas histórias deixando o resto para traz. É precioso como O Morro dos Ventos Uivantes, As Relações Perigosas, O Quarto Arcano, Jane Eyre e algumas outras histórias que marcaram minha vida... Comecei a ler este livro sobretudo por conta do filme no qual o fantasma foi interpretado pelo Gerard Butler, mas não foi pelo filme que o amei. Afinal de contas, embora existam semelhanças, o livro acaba por ser bem diferente em muitos aspectos. 

É uma história que me provocou diversas emoções, que me deixou com o coração acelerado e sentindo muito pânico na última semana de leitura, temendo pela Christine e por seu amado Raoul, bem como por outros personagens da história. Que outras atrocidades ainda seriam cometidas pelo Érik, nosso odiado fantasma da ópera? Que outros crimes cometeria em nome daquele doentio amor? 

8 de abril de 2019

Jane Eyre - Charlotte Brontë

Título Original: Jane Eyre
Tradutora: Heloisa Seixas
Editora: Folha de São Paulo
Edição de: 2017
Páginas: 608
Coleção Folha Mulheres na Literatura #28
Onde comprar (em outras edições): Amazon

Sinopse: Romântica e austera, despojada e passional, modesta e belicosa, a órfã Jane Eyre é a protagonista e a narradora deste romance da inglesa Charlotte Brontë (1816-1855). Longe de ser apenas uma versão ultrarromântica da Gata Borralheira, essa quase adolescente sem beleza nem recursos se torna a porta-voz do agudo, ainda que controlado, senso crítico da autora. Duas variedades do conservadorismo religioso - a fria rigidez moral e o fanático senso missionário - são retratados por Charlotte Brontë em personagens plausíveis e situações excruciantes. O engajamento moral que tenhamos com relação às aventuras e desventuras de Jane Eyre faz com que, apesar de narrada sem pressa, esta história seja das que parecem rapidíssimas de ler. Escrito, sem dúvida, com um olho no sucesso comercial - que foi grande desde seu lançamento, em 1847 -, "Jane Eyre" também é, por sua construção equilibrada, pela inteligência e pela qualidade das paixões que põe em cena, um dos grandes romances do século 19. 
Marcelo Coelho - Colunista da Folha. 



Quando você termina uma leitura e só pensa: "Meu Deus do céu!!! Como fui tão estúpida por não ter apostado nesta história antes!!!" É um daqueles livros que realmente são dignos de serem considerados clássicos mundiais. Que você lê e se sente próximo da autora, como se fossem grandes amigos. Já é comum eu sentir esta conexão em relação às irmãs Brontë. Foi assim com a Emily e agora com a Charlotte. Elas tinham aquilo que nem todo escritor tem: o dom. Existem muitos e muitos autores sensacionais por aí, amados profundamente por nós leitores. Mas aquele "algo mais", aquele dom tão único, são poucos os que possuem. Jane Eyre me arrebatou, me envolveu por completo, me transformou.... simplesmente me marcou a vida. E eu amo isso. Amo ser marcada por uma história. Que fique em mim como uma cicatriz, uma tatuagem... É tão bom amar tanto assim um livro! Suspiros...

21 de fevereiro de 2019

Antígona - Sófocles

(Tradutor: Jean Melville
Editora: Martin Claret
Edição de: 2013)


Sófocles foi, juntamente com Ésquilo e Eurípedes, um dos maiores poetas dramáticos da Grécia antiga. 
Sua obra-prima é Édipo Rei (c. 430), que o consagrou como o maior trágico da antiguidade grega. A peça narra a tragédia do homem que, perseguido pelo destino traçado pelos deuses, mata o pai e casa-se com a mãe. 
Antígona (c. 442) é a tragédia da boa filha que morreu por obedecer aos mandamentos divinos em contraposição à vontade despótica de um tirano. 
Seu tema predileto, como o de toda tragédia grega, era o destino. Sófocles, embora tivesse o homem como o centro do mundo, acreditava no poder dos deuses e na predestinação. 


Palavras de uma leitora...


- Eu já resenhei Édipo Rei aqui no blog. Foi em 2017, quando enfrentei meu problema com peças teatrais e arrisquei a leitura de um clássico tão importante, que eu já conhecia desde a época da escola. Embora tenha apreciado muitíssimo a leitura e visto como as obras de Sófocles são diferentes das de Shakespeare, sendo muito mais agradáveis e envolventes, eu tive dúvidas se de fato conseguiria ler Antígona, outra história que eu já conhecia e que me provocava enorme fascínio. 

27 de julho de 2018

O que Dizem seus Olhos - Florencia Bonelli

(Título Original: Lo que Dicen tus Ojos
Tradutora: Sandra Martha Dolinsky
Editora: Planeta, selo Essência
Edição de: 2018)

Livro que antecede a Trilogia Cavalo de Fogo

Córdoba (Argentina) 1961. Apesar de suas origens humildes, Francesca De Gecco conseguiu ter uma sólida educação. Sua carreira começou no jornal dirigido por seu rico padrinho e mentor, mas seus planos de se tornar uma jornalista de sucesso foram interrompidos pela história de um amor impossível.

Após sofrer uma terrível desilusão que só o tempo e a distância poderiam curar, seu tio consegue um emprego para a jovem em uma embaixada distante, e Francesca se muda para Genebra. No entanto, essa cidade será apenas a primeira parada de uma viagem muito mais longa. Ao redor do mundo, nos palácios mais deslumbrantes dos desertos do Oriente Médio, Francesca terá uma segunda chance de ser feliz.



Palavras de uma leitora...


"Cada voz que canta o amor não diz
Tudo o que quer dizer,
Tudo o que cala fala
Mais alto ao coração.
Silenciosamente eu te falo com paixão...

Eu te amo calado,
Como quem ouve uma sinfonia
De silêncios e de luz.
Nós somos medo e desejo,
Somos feitos de silêncio e sons,
Tem certas coisas que eu não sei dizer..."
[Certas Coisas - Lulu Santos]

- Não poderia deixar de mencionar esta música tão linda. Ela se encaixa perfeitamente na história... Muitas vezes o Kamal, meu amado protagonista, me fazia recordar esta canção. Com sua reserva, seus silêncios que pareciam gritar sentimentos que ele não sabia colocar em palavras. Com seu amor que era muito mais atitudes que palavras, que frases feitas e que repetimos porque elas nos servem como formas de expressar o que levamos dentro e não sabemos como demonstrar ao outro. Dizemos "eu te amo", mas esta simples frase, tão cheia de significados e por vezes utilizada de forma banal, não é capaz de traduzir a essência do sentimento. 

Palavras... vejo magia nelas.Todavia, quando encontro nos livros declarações de amor como as do Kamal, ditas sem dizer... traduzidas em lágrimas, em renúncia, num olhar que parece conter toda a dor do mundo... penso que as palavras não são nem sequer um reflexo do que sentimos. 

"Sempre amarei este lugar, mesmo que se passem anos, mesmo que nunca mais torne a vê-lo."

Embora não fosse a primeira vez que passava as férias na fazenda Arroyo Seco, algo estava diferente. Francesca nunca tinha sido uma pessoa supersticiosa, mas sentia que alguma coisa estava para mudar... Sentia saudades do que ainda não tinha perdido. Sentia que, talvez, nunca mais retornasse. Que aquela seria a última vez. Era absurdo, claro. Sua mãe estava ali, sua melhor amiga Sofía e ainda tinha Rex, seu cavalo amado, que jamais deixaria para trás. Mas ainda assim a sensação não a abandonava. 

Ela tinha apenas seis anos de idade quando perdeu o pai. Sua mãe e ele tinham fugido da Sicília para a Argentina, na esperança de ter uma vida melhor. Longe dos parentes que não aceitavam seu amor, que queriam vê-los separados. Antonina estava grávida quando partiram e os primeiros anos, por mais difíceis que tenham sido, foram felizes. Mas então veio a perda... e com ela se foram os sorrisos. Sem estudos e tendo uma filha pequena para criar, conseguiu emprego como cozinheira dos Martínez Olazábal, uma das famílias mais influentes de Córdoba, com suas próprias tragédias e segredos. 

Francesca cresceu ali, sendo vista pelos patrões de sua mãe como nada além da filha da cozinheira, por mais que tenha recebido uma excelente educação, estudado nos mesmos colégios que a filha mais nova deles e fosse tão ou mais culta que eles. Afilhada de um homem importante, ela tinha um futuro cheio de possibilidades pela frente... o que poderia ser destruído pela chegada de Aldo, filho dos Martínez Olazábal, que durante dez anos esteve longe. 

Não era sua intenção olhá-lo. Desejar o que não poderia ter. Mas quando, naquela noite, ele se aproximou dela... algo em seu interior se alterou. Era a primeira vez que se apaixonava. Foi impossível não aguardar com ansiedade a próxima vez que ele lhe dirigiria a palavra, que trocaria confidências, que a beijaria como se ela fosse única... como se a amasse. 

Ela acreditou nele. Em sua palavra. Em seu amor. E de que valeu? No fim, Aldo optou pelo caminho mais fácil... casou-se com alguém de sua posição social. Fez o que sua família desejava. Porque Francesca não tinha o necessário para ser sua esposa. 

Destroçada pela traição do homem em quem confiou, ela tentou seguir com sua vida. Tinha apenas vinte e anos e superaria. Sobreviveria àquela decepção. Mas Aldo não a deixou em paz. Porque não bastava ter destruído seus sonhos, a magoado como ninguém... ele ainda precisava insistir. Querer fazer dela sua amante. Humilhá-la mais do que já tinha feito. 

Ainda amando-o mesmo sabendo que ele não a merecia, Francesca só desejava ir para bem longe... Esquecer toda aquela dor. E quando seu padrinho conseguiu uma oportunidade para ela na embaixada em Genebra, não hesitou. Agarrou sua chance com todas as suas forças. Sim, seria duro partir. Tudo o que ela tinha vivido... tudo o que contribuíra para torná-la o que era ficaria para trás. Mas, talvez, apenas talvez, seu futuro estivesse em outro lugar. 

"Conhecer-te foi um disparo ao coração
Me atacaste com um beijo a sangue frio
E eu sabia
Que era tão letal a ferida que causou
Que este louco aventureiro morria
E esse dia começou
Com teu amor com um disparo ao coração

Não entendi como aconteceu 
Com a destreza de um bom franco-atirador
Cada uma de tuas balas na alma me acertou"
[Tradução livre da música Disparo al Corazón, de Ricky Martin]

- Publicado originalmente em 2006, Lo que Dicen tus Ojos foi o primeiro livro escrito pela minha querida autora Florencia Bonelli, embora não tenha sido o primeiro a ser publicado. Ela lançou Bodas de Odio, Marlene e Indias Blancas antes de finalmente nos presentear com a história que a tornou escritora. Que a fez perceber que amava a escrita, que criar personagens e histórias complexas e arrebatadoras era o seu sonho. 

A inspiração para escrever este livro surgiu depois de ela ler El Árabe, romance de Edith Hull (que ainda não tive a oportunidade de conhecer) e um dos seus livros preferidos da vida (juntamente com O Cavaleiro de Bronze que já foi resenhado aqui). Ela seguia uma carreira totalmente diferente (em Economia) e quando descobriu seu dom para a escrita, sua verdadeira paixão, decidiu dedicar-se de corpo e alma e hoje é uma escritora de sucesso, cada vez mais conhecida dentro e fora da Argentina. 

- Lembro como se fosse hoje da primeira vez que li uma história dela. Minha amiga Carla (que chamo carinhosamente de Carlita) me falava maravilhas de O Quarto Arcano. Ela era tão apaixonada pela história que eu desejava com desespero conhecer os personagens que tanto a tinham encantado. Foi um dos mais lindos presentes receber a duologia dela. A FB nem sonhava em ser publicada aqui no Brasil e a Carlita, que é portuguesa, me enviou a versão lá de Portugal. Eu sorrio como boba sempre que recordo o momento em que abri a caixa e vi "meus filhos". Foram muitos gritos de felicidade!kkkkkk... E não demorei a largar tudo e mergulhar na história. Ali aconteceu: me tornei fã incondicional da FB. Do tipo que não consegue amar nenhuma autora como ela. Tenho sim autoras especiais, muito queridas. Mas me diga para mencionar apenas uma escritora amada e direi o nome dela. O Quarto Arcano é meu livro, meu número perfeito.rs Uma história incomparável, com personagens que se cravam dentro de nós de uma forma... As lágrimas vêm... porque não dá para recordar a quantidade de coisas que vivi com essa duologia sem chorar. Roger e Isaura. Meu casal querido. Que tanta coisa me ensinou.... Como sinto falta deles dois! 

A Carlita também me deu de presente outros livros da autora: Marlene, Cavalo de Fogo - Paris, Cavalo de Fogo - Congo (que ela e a Moniquita me deram). E a Moniquita me presenteou com Lo que Dicen tus Ojos, que é um dos livros favoritos dela. Todos eles possuem resenhas no blog. Sim, não é a primeira vez que falo de O que Dizem seus Olhos aqui.kkkkkk

- Ao longo destes mais de seis anos que conheço a Florencia Bonelli sonhei com o dia em que uma editora brasileira abriria os olhos, criaria juízo e traria seus livros para cá. Recebi tantas negativas ao entrar em contato com as editoras que com o passar dos anos acabei desanimando, acreditando que nunca apostariam nela, que muitos leitores brasileiros jamais teriam a chance de mergulhar em suas histórias, de entender por que a amo tanto. E, então, vocês podem imaginar como surtei aqui em casa quando vi a notícia de que a editora Planeta publicaria este livro. Foram gritos de assustar qualquer pessoa (risos), danças, pulos e mais gritos. Meu coração batia tão forte que eu chegava a ter medo de ele não suportar e parar.kkkkkkkkkkk...

Por isso, por amar tanto a FB, não poderia deixar de correr para a livraria e adquirir meu exemplar quando o livro foi lançado em maio deste ano. Eu tinha que ter o meu "bebê" na estante, pertinho da sua versão em espanhol, que foi a primeira que li e me apaixonou. Era minha chance de voltar ao livro. De reviver cada momento... mesmo aqueles que me machucaram, que partiram meu coração em vários pedaços. Porque se você ainda não conhece a FB vou te contar um segredo: existe muito amor em seus livros, mas também muito sofrimento. Tem que ler com o coração preparado. O que Dizem seus Olhos é mais leve que os outros, confesso. Você não chegará a ficar encolhido no chão, em prantos, como se cada golpe tivesse sido em seu corpo e coração. Todavia, ainda assim, vai te atingir. Ela é especialista em livros arrebatadores. Lindos... e dolorosos. A chamo carinhosamente de sádica. :D

"Feridas ainda abertas sangraram de novo. As velhas dores misturaram-se às novas e assolaram sua alma."

- Genebra é apenas um lugar de passagem na vida de Francesca. A verdadeira história da nossa protagonista, que tinha entregado seu coração apenas para vê-lo ser destruído pelo egoísmo de um homem que nunca a mereceu, começa na Arábia Saudita, um país do outro lado do mundo, tão belo e ameaçador. Após passar alguns meses trabalhando como secretária do embaixador em Genebra, ela foi repentinamente transferida para ser assistente de outro embaixador na Arábia Saudita. Sem entender o que motivara a solicitação de transferência, Francesca se viu novamente tendo que abandonar algo que conhecia por conta da vontade dos outros. Não queria ir. A ideia que tinha dos árabes era a pior possível e temia o que poderia se passar se colocasse os pés naquele lugar. 

"Arriscando-se, descobriu o rosto para observar mais claramente, entre a filigrana de uma janela, o brilho de uns olhos que a contemplavam com tristeza, cheios de lágrimas. [...] A tristeza daquele olhar impressionou Francesca. Sem dúvida, era o olhar de uma mulher, de uma mulher sofrida que queria gritar aos quatro ventos sua dor, mas que só podia desabafar olhando pela intrincada grade de uma janelinha."

Logo que chega ao seu novo destino, Francesca encara uma realidade muito diferente da sua. Uma cultura complexa, que limitava e oprimia as mulheres. Seu livro de Artes foi apreendido, por ser considerado proibido pelo Alcorão, e os olhares hostis dos homens locais pareciam perfurá-la, julgando-a por suas roupas, por seu comportamento, por sua religião... por ser uma mulher ocidental e cristã. O motorista designado para levá-la até a embaixada a enxergava como uma prostituta, uma mulherzinha qualquer indigna de pisar o solo sagrado de sua terra. Não foi um bom começo. 

Mas segura entre as paredes da embaixada, ela não demora a se adaptar ao novo trabalho. Seu chefe era uma pessoa incrível e os outros funcionários, com exceção do motorista que a olhava com ódio, eram gentis e atenciosos, dispostos a recebê-la como parte da equipe. E é lá que seu caminho se cruza com o de Kamal Al-Saud... pela primeira vez? 

"Nada é por acaso", dissera certa vez seu tio Fredo. "Cada um de nós é uma parte minúscula de um plano enorme e infinito, onde nossos fios se cruzam ou não, segundo a vontade do Arquiteto que o traçou."

- Ele fazia parte da família que governava o país, era um príncipe, muito mais inalcançável que o homem que a tinha feito conhecer o amor e a dor. E, de início, Francesca o rejeita. Tudo o que ele era e representava a repelia. Não suportava aquele país, o comportamento bárbaro, a violência... e um árabe era tudo o que ela não gostaria de ter em sua vida. Mas Kamal, pouco a pouco, começa a invadir seu espaço. Ele era um homem que ela não conseguia compreender. Distante, reservado, dado a silêncios que ninguém se atrevia a quebrar, mas que de repente se aproximava e a olhava com uma intensidade que a desconcertava e tornava impossível esquecê-lo. Quem ele era, afinal? O que se escondia por trás do homem fechado, o que existia em seu interior? 

- A história entre Francesca e Kamal é uma das mais belas que já li. Nada acontece rapidamente. O relacionamento se constrói aos poucos, mas quando finalmente se entregam aos sentimentos que já não conseguiam negar, é tudo muito intenso. Dá para notarmos, antes mesmo que coloquem em palavras, o que sentem. Sabemos que se amam. E que tal sentimento pode feri-los profundamente. Não porque não estejam dispostos a ficar juntos. Mas sim porque a Arábia Saudita estava vivendo uma crise séria e a família de Kamal se encontrava dividida. Tudo era arriscado... e podia ser letal. Além disso, Francesca era uma moça do Ocidente, tinha sido criada na religião católica e o povo árabe nunca a aceitaria. Não só isso. Tentaria tirá-la do caminho. Por bem... ou por mal. 

"Eu a protegerei e não permitirei que nada nem ninguém lhe faça mal."

- Enquanto relia o livro e me aproximava de determinadas cenas chorava com antecedência.kkkkkkkk... Eu sabia o que iria acontecer. Não importava o quanto desejasse modificar as páginas, mudar o rumo das coisas, ainda assim tudo iria ocorrer como da primeira vez que li. E, impotente, eu veria o meu casal amado ir ao inferno e voltar destroçado. Foram cenas que me marcaram quando li em 2013 e que tornaram a me ferir agora. Não posso dizer o que acontece, claro. Mas é forte. E acaba com a gente. 

"Existiria algo bonito e bom que durasse para sempre?"

Quando concluímos esta leitura podemos responder facilmente a pergunta acima. Com a certeza que sim, existe algo lindo e bom que dura para sempre. Que não se extingue nem com a morte. O amor. Não o que muitos consideram amor, mas é fugaz e superficial. Mas sim aquele amor de verdade. Que vai além do desejo, da paixão... o sentimento que resiste à passagem dos anos e à dor. O sentimento que é transferido para os filhos e que se prolonga nas gerações seguintes. Mas ainda que se limitasse ao próprio casal, ainda que não existisse descendência, seguiria sendo algo que sobreviveria à morte. Porque eu acredito que existem amores que nada, absolutamente nada, destrói.

Recomendo este livro? Nem precisam perguntar!kkkkkk... Deixarei logo abaixo o link de todos os livros da autora que já li e resenhei aqui. Foram dez até agora.rsrs Está nos meus planos ler Indias Blancas e depois o último livro da trilogia Cavalo de Fogo. E por falar nessa trilogia... 

- Esqueçam a ideia de prequel!!! Detesto quando utilizam esta palavra para se referir ao livro O que Dizem seus Olhos. Porque dá uma ideia de que a história não é principal. E, como eu disse, este livro foi o primeiro escrito pela autora. Muito, muito, MUITO antes de ela decidir escrever a trilogia Cavalo de Fogo. 

E o que é a trilogia? A segunda geração.rs Nesta trilogia temos como protagonistas Eliah Al-Saud, (filho de Francesca e Kamal) e Matilde Martínez (filha de Aldo, o primeiro amor de Francesca e sua grande decepção). Nos dois temos a continuação da história de seus pais. Diferente do livro do qual a trilogia derivou, a história de Eliah e Matilde ocorre ao longo de três volumes, divididos em: Paris, Congo e Gaza. E, acreditem, são livros que meu Deus do céu! É impossível ficar imune. Impossível não se envolver com a quantidade de história, de riqueza, de beleza e crueldade que existem nesses livros. Eles nos mudam. Nos tornam pessoas melhores. Nos fazem conhecer realidades muito distintas da nossa... principalmente Congo (digo isso porque Gaza eu ainda não li), que só pelo nome dá para ter uma ideia dos assuntos que serão abordados. É romance? Claro! Mas é muito mais que isso. Os livros da FB sempre vão além do simples romance. Eles têm História. 

É isso, queridos! Espero que deem uma chance ao livro! E que se apaixonem!

Resenhas publicadas no blog

O Anjo Negro (O Quarto Arcano 1)
O Porto das Tormentas (O Quarto Arcano 2)
Marlene
Lo que Dicen tus Ojos (primeira resenha)
Lo que Dicen tus Ojos (resenha da Carla)
Lo que Dicen tus Ojos (resenha da Mónica)
Cavalo de Fogo - Paris
Cavalo de Fogo - Congo
Me Llaman Artemio Furia
Bodas de Ódio
Nascida sob o Signo de Touro (Série Nascidas 1)
Nascida sob o Sol de Aquário (Série Nascidas 2)


Todos os livros da Florencia Bonelli 

Livros independentes
Bodas de Odio (Bodas de Ódio)
Marlene
Me llaman Artemio Furia (Me Chamam Artémio Fúria)

Duologia Indias Blancas
Indias Blancas (Índias Brancas)
Indias Blancas. La vuelta del Ranquel (Índias Brancas, a volta do Ranquel)

Duologia O Quarto Arcano
O Anjo Negro - O Quarto Arcano 1
O Porto das Tormentas - O Quarto Arcano 2

Trilogia Cavalo de Fogo
O que Dizem seus Olhos (antecede a trilogia)
Cavalo de Fogo - Paris
Cavalo de Fogo - Congo
Cavalo de Fogo - Gaza

Trilogia do Perdão
Jasy
Almanegra  
La Tierra sin Mal 

Série Nascidas
Nacida bajo el signo del Toro (Nascida sob o Signo de Touro)
Nacida bajo el sol de Acuario (Nascida sob o Sol de Aquário)
Nacida bajo el fuego de Aries (Nascida sob o Fogo de Áries)

Observação: em breve a autora irá publicar a história de la Diana, personagem importante na trilogia Cavalo de Fogo que ganhou nosso coração e nos fez desejar ler sua própria história. Ela merece, gente! 

6 de maio de 2018

O Caçador de Pipas - Khaled Hosseini

(Título Original: The Kite Runner
Tradutora: Maria Helena Rouanet
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2005)


O caçador de pipas é uma narrativa insólita e eloquente sobre a frágil relação entre pais e filhos, entre os seres humanos e seus deuses, entre os homens e sua pátria. Uma história de amizade e traição, que nos leva dos últimos dias da monarquia do Afeganistão às atrocidades de hoje. 



Palavras de uma leitora... 



- Esta edição do livro não vem com sinopse na contracapa. Então eu peguei apenas um trechinho do resumo que tem nas "orelhas" dele e coloquei acima. Só para terem uma ideia significativa do que é esta história. Acreditem: o trecho acima diz muito. É a essência do que você vai encontrar ao mergulhar nessas páginas... Esteja preparado, pois é uma viagem muito turbulenta e que deixará marcas impossíveis de apagar. Cicatrizes que duram toda uma vida. Parece que as minhas ainda sangram. 

Sabe aquela história que você tem há anos parada na sua estante não porque não teve tempo de ler, mas por puro e completo medo? Sempre fugi deste livro. Ganhei em 2011 e desde o começo me sentia tensa quando me aproximava dele. Até mesmo quando ia limpar a estante. Pensei em me desfazer dele várias vezes, confesso. Não sabia exatamente spoilers da história, mas tinha lido resenhas que me provocaram pavor. Que me indicavam que não era um livro para ler e esquecer, seguir com a vida normalmente depois. E o fato de eu ter uma noção do que era o Afeganistão quando ganhei o livro também contribuiu para isso. Quem nunca leu nada ou assistiu uma reportagem sobre esse país e o inferno na Terra que as pessoas suportavam? 

Ele entrou para minha lista de leituras do ano por causa do desafio 12 Meses Literários. Era para ser minha leitura de abril, mas o medo acabou falando mais alto outra vez e só o encarei no final do dia 29, quando não dava mais tempo de terminá-lo a tempo já que são mais de 360 páginas de história. 

- Incrível que tenha se tornado um dos melhores livros que li. Uma história que merecia ganhar uma centena de prêmios por toda a riqueza, por todo o talento do autor... pela maneira como me fez entrar no livro e acompanhar de perto a vida dos personagens... Amir, meu querido Hassan (meu coração ainda dói tanto por ele), baba, Sohrab, Ali. Mesmo se eu vivesse outras vidas não seria capaz de esquecê-los. 

"Pensei na vida que eu levava até que aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo. E fez de mim o que sou hoje."

Tudo começou num inverno, em 1964, quando Hassan nasceu, cerca de um ano depois de Amir. Enquanto o segundo era filho de um homem rico e muito importante em Cabul, Hassan não passava de um hazara, alguém visto com desprezo pela sociedade, e filho do empregado mais antigo da família. Ali, seu pai, havia crescido com o pai de Amir, era seu companheiro de brincadeiras, mas nunca houve um dia em que o outro o tivesse chamado de amigo. E a história entre Amir e Hassan era uma repetição da dos seus pais. Todavia, o final foi diferente... abrupto e cruel para todos.

Tendo perdido a mãe logo ao nascer, Amir passou boa parte da vida tentando ganhar o amor do pai e sentindo que estava abaixo de todas as suas expectativas, que nunca seria alguém digno do orgulho e respeito daquele que tinha lhe dado a vida. Dividia suas frustrações, segredos e esperanças com Hassan, embora nem sempre fosse necessário, pois com um simples olhar seu companheiro de travessuras parecia lê-lo, saber o que ele pensava. Mas Amir não considerava Hassan um amigo. Como poderia? Alguém como ele não poderia ser amigo de um hazara, seria se rebaixar, descer demais. Brincava com Hassan porque ele estava disponível, porque era seu empregado e deveria fazer o que ele quisesse, certo? Assim como limpava o chão de sua casa, preparava seu café da manhã e passava suas roupas, deveria brincar sempre que ele quisesse. 

Enquanto Hassan o adorava e seria capaz de tudo por ele, numa lealdade cega que só se fortaleceu conforme eles cresciam, Amir se ressentia do laço que os unia, da necessidade que tinha de sempre estar com ele, de sua bondade e humildade. Não entendia como ele podia ser tão fiel e feliz levando uma vida tão distinta da dele, num casebre em seu quintal, não podendo frequentar a escola como ele, não sabendo ler e sendo humilhado por outras pessoas. Não entendia como podia sempre manter um sorriso no rosto e perdoá-lo mesmo quando suas atitudes eram imperdoáveis. 

Não sabendo definir bem que tipo de relação tinha com aquele menino que era sua lembrança mais remota, Amir o amava e odiava, se sentia mal quando o faziam chorar, mas também zombava dele quando tinha oportunidade. Torcia por sua felicidade, mas o invejava mesmo sabendo que era o lado privilegiado, que tinha tudo o que o outro jamais teria. Todavia, invejava sim: sua coragem, sua certeza, seus sonhos... Porque Hassan era a metade boa daquela relação doentia. Porque ele era o que Amir nunca conseguiria ser. 

E, então, um dia aconteceu. Do mesmo modo que um inverno os uniu, cerca de doze anos antes, também foi num inverno que tudo se rompeu. Para sempre. Era o ano de 1975. A monarquia já havia caído e Cabul não demoraria a enfrentar uma guerra desigual e, anos mais tarde, a chegada dos Talibãs. Tudo o que conheciam seria extinto. Muitas vidas seriam destruídas. Mas para Amir e Hassan tudo terminou bem antes, em 1975. O que restou depois? O vazio... o vazio deixado pela mais terrível das traições. Porque o sangue derramado naquele dia afetaria o futuro de muitas pessoas.

"Porque foi justamente nesse inverno que Hassan parou de sorrir."

- Sempre gostei do inverno. Não do frio (simplesmente não suporto tempo frio), mas por sua melancolia, por me fazer pensar... por me levar tão longe em pensamentos. Todavia, sinto que nunca mais conseguirei ver o inverno com os mesmos olhos. Que sempre verei aquele menino na minha frente, conformado com algo que não merecia... sofrendo uma grande crueldade, mas... pior que isso... sendo traído de uma maneira insuportável. Ah, Hassan! Como eu queria ter te ajudado. Como queria fazer o que Amir não fez. Não é preciso vencer todas as guerras. Algumas estão perdidas desde o início. Sabe o que importa? Ter alguém lutando ao seu lado. Saber que você não está sozinho. Que alguém se importa o suficiente para não te abandonar mesmo sabendo que irão perder. 

"Mas havia algo de fascinante, embora de um jeito doentio, em implicar com Hassan. Era um pouco como brincar de torturar insetos."

- Eu odiei o Amir. Durante boa parte da história o sentimento permaneceu, intensificando conforme ele me mostrava mais e mais claramente o seu lado podre. Odiava a criança cruel, que sugava tudo de bom que o Hassan lhe oferecia, dando em troca maldade. Sentia vontade de agredi-lo quando ele zombava daquele menino que sempre esteve ao seu lado, que o defendia de qualquer pessoa, que arriscava a si mesmo para vê-lo bem, mesmo que o preço a pagar fosse alto. Quando ele mentia para o Hassan... quando se aproveitava do fato de ele não poder ler ou frequentar a escola... Enquanto meu pequeno e querido personagem era de uma inocência tocante e uma lealdade sem limites, Amir já tinha dentro de si um lado obscuro e covarde. Era um egoísta. Do tipo que sempre colocaria a si mesmo em primeiro lugar. Que se visse alguém apanhando ao seu lado, fingiria que nada estava acontecendo e ainda culparia a pessoa por se atrever a apanhar perto dele. E durante muitos anos ele realmente permanece igual. Mas um dia... um dia o passado retorna. Cobrando com juros os seus pecados. E é aí que meu ódio por ele se transforma em algo diferente. Não sei se amor, mas um sentimento forte. Um dia ele finalmente se torna digno do meu perdão. Embora fosse tarde demais de muitas formas. 

"No inverno de 1975 vi Hassan correr atrás de uma pipa pela última vez."

- Na madrugada de ontem, enquanto todos aqui em casa dormiam, eu chorava. Porque era tudo o que eu podia fazer. Não chorava apenas por Hassan, Ali, Amir e todos os personagens que de um modo ou de outro conquistaram meu coração. Chorava por um mundo que não posso mudar. Que não tem salvação. Chorava pelas crianças aterrorizadas na Síria, por aquelas que ficaram órfãs, por aquelas que foram vítimas de tantas barbaridades... por aquelas que morreram. Chorava por aqueles que são sufocados por governos totalitários e não sabem o que é viver em liberdade. Sofria pelas vidas perdidas em guerras passadas e pelas guerras que atormentam o mundo atualmente, enquanto grandes potências apenas observam ou se movem em interesse próprio. Sofria pela maldade espalhada pelo mundo que parece sempre sair ganhando. E sentia tanta raiva! Tanta revolta! 

Sofria também por todas as crianças que tiveram a sua infância roubada. Que tiveram o seu direito à inocência violado. Seja num país em guerra ou não... existem milhares, talvez milhões, de crianças que tiveram que crescer cedo demais, que tiveram a luz da ingenuidade apagada dos seus olhos. 

"E ouça o que lhe digo, Amir jan: no final, o mundo sempre sai ganhando. As coisas são assim, pura e simplesmente..."

- A história começa cerca de vinte e seis anos após aquele maldito inverno. Conhecemos primeiro o Amir adulto, já com seus trinta e oito anos, atormentado por fantasmas do passado... por uma época longínqua. Um telefonema inesperado, por alguém que estava do outro lado do mundo e que unia de diferentes maneiras a sua vida atual ao que um dia ele viveu, traz de volta tudo aquilo que ele tanto tinha tentado esquecer. A partir daí seguimos com ele por suas lembranças... numa viagem extremamente dolorosa. É assim que conhecemos Hassan... é assim que nos apegamos a ele. Pelas lembranças daquele que um dia o traiu. Que lhe virou as costas, mas que nunca foi capaz de livrar-se do sangue derramado. Do sangue que sujava as suas mãos. 

Mas o que aconteceu com Hassan? Ele morreu? Naquele inverno? Amir fez algo contra ele ou permitiu que alguém fizesse? E por que tantas vidas foram afetadas, mesmo décadas depois, como num efeito dominó? Eu também fiz suposições. Muitas. E consegui acertar o que era antes mesmo que fosse revelado, conforme conhecia os personagens. Fiquei tão conectada a eles que era capaz de prever o próximo passo de cada um. E, não. Não contarei o que acontece. Talvez vocês achem que já sabem por conta do que falei, mas não. Tudo o que eu disse não revela nada. Apenas faz com que criem teorias. 

"Existe um Deus, tem que existir, e agora vou rezar, vou pedir que Ele me perdoe por não ter Lhe dado a devida importância durante todos esses anos, que me perdoe por eu ter traído, mentido e pecado impunemente, e só ter pensando em recorrer a Ele nos momentos de necessidade; pedir-Lhe que seja clemente e misericordioso como o Seu livro diz que Ele é."

- Nada do que eu disse é suficiente para fazê-los sentir tudo o que essa história provoca dentro de nós. Não contei nem um décimo. É muito mais que um livro sobre a amizade (de muitas maneiras unilateral) entre dois meninos que mamaram no mesmo seio e cresceram juntos, um vivendo na casa grande e tendo todos os privilégios, e outro passando seus dias num casebre do mesmo quintal sabendo que provavelmente terminaria seus dias ali, sem nunca sequer poder ler os livros que tanto amava e só conhecia através das palavras de seu agha (senhor), quem ele amava como a um irmão e idolatrava como um deus. É mais que isso. A história vai além, interligando a vida de vários personagens, nos fazendo mergulhar no Afeganistão de 1964 até 2001, nos fazendo conhecer sua História, sua cultura, costumes, religião. Nunca tive um contato tão próximo com o islamismo e o Corão antes de ler esse livro. Nunca entendi bem. Sempre soube que não era uma religião que pregava ódio, pois tive uma professora, uma historiadora fantástica, que conhecia bem o Alcorão. Mas eu desconhecia as semelhanças que ele tem com a Bíblia que conhecemos, com os personagens bíblicos. Há em O Caçador de Pipas uma referência direta a Abraão e o sacrifício do cordeiro, quando Abraão esteve prestes a sacrificar seu filho Isaac, mas Deus enviou o cordeiro e mandou que ele não tocasse no filho. Eu não fazia ideia que Abraão também era um personagem importante para os muçulmanos. 

- O livro também nos traz a realidade das guerras enfrentadas no Afeganistão. A queda da monarquia após um golpe efetuado por parentes do rei, a invasão soviética que provocou a morte de tantas pessoas e o pior de tudo: a ascensão do governo extremista Talibã. Quem nunca tremeu ao ouvir a palavra "talibã"? Eu gelo até hoje. Em O Caçador de Pipas podemos ter uma noção do que os talibãs fizeram com o povo afegão, da destruição em massa que eles provocaram. Violências em público, apedrejamento, enforcamento, estupros e assassinatos gratuitos. Qualquer um que fosse contra o governo talibã pagava bem caro. Foi nesse período que ocorreu o genocídio dos hazaras, quando soldados talibãs invadiram muitas casas numa região de predominância hazara, disparando em diversas famílias e arrastando homens e meninos para execuções públicas nas ruas. Milhares de pessoas morreram. Foi um grande massacre. 

- É possível que, como eu, vocês também tenham se perguntado o que são "hazaras". Hassan, meu personagem preferido do livro, era um hazara, algo que intensificava as humilhações que ele sofria e fazia com que a sociedade o considerasse menos valioso que o objeto mais medíocre. Portanto, eu fui pesquisar quem eram os hazaras. Segundo a Wikipédia: "Os hazaras são um povo que sofre profunda discriminação étnica dentro do seu próprio país, pois a maioria fundamentalista sunita, viam os hazaras como infiéis que mereciam morrer. Eles não tinham a aparência que devia ter um afegão e não faziam suas devoções como devia fazer um muçulmano. Dizia um ditado afegão: "Aos tadjiques o Tadjiquistão, aos usbeques o Usbequistão, e aos hazaras o goristão (cemitério)." 




Este foi o meu livro escolhido para ler em abril no Desafio 12 Meses Literários. Todavia, pelos motivos que expliquei no início da resenha, adiei a leitura e não concluí a tempo. Mesmo assim li. :) 

15 de abril de 2018

O Retrato de Dorian Gray - Oscar Wilde

(Título Original: The Picture of Dorian Gray
Tradutor: João do Rio
Editora: Martin Claret
Edição de: 2014)

Escrito em 1890, este romance revela almas que se entregam a paixões e que são atormentadas por seus próprios pecados. Dorian Gray e Lord Henry mostram ao leitor duas faces diferentes de pecado e purificação. É considerada a mais intrigante obra de Oscar Wilde.



Palavras de uma leitora...


- Está aí uma sinopse que nada diz da história.rs Mas como a edição que possuo não vem com sinopse tive que colocar essa que encontrei no site da própria editora. 

Eu tinha toda a intenção do mundo de ler este livro até a quarta-feira passada e depois me dedicar a um romance ou um suspense. Apenas desejava cumprir meu Desafio Mensal. Se eu dissesse que estava ansiosa para ler este livro estaria mentindo descaradamente: eu não estava. Sabia que era uma história perturbadora e que iria provocar um nó na minha cabeça. Eu já tinha todos os spoilers do livro e me julgava preparada para o que encontraria, mas não ansiava pelo momento. 

Todavia, como a semana foi muito corrida e fiquei de lá para cá mal tendo tempo de respirar, não passei da página 40. Assim, tive que ler todas as outras 212 páginas do livro no sábado. O resultado foi que não tive um dia agradável e cogitei a possibilidade de ir até o latão de lixo e jogar o livro lá. Pensei seriamente em fazer isso. Por que a história é ruim? Longe disso! É um livro fantástico, muito bem escrito, único, para o qual dei 5 estrelas no Skoob (embora tivesse hesitado um pouco.rs). A questão é que é uma história podre, sórdida, maquiavélica. E não poderia ser diferente já que adentra pelo psicológico, mostrando com maestria a natureza humana, o comportamento patológico de certas pessoas que tendem para o que é destrutivo e que sentem verdadeiro prazer em desgraçar os outros. Se tem uma história que não te provoca nenhum sentimento bom com certeza é esta. E eu que achava que não poderia encontrar clássicos mais "sórdidos" que O Morro dos Ventos Uivantes e As Relações Perigosas!

- A história começa antes mesmo de conhecermos o jovem cujo quadro dá título ao livro. Primeiro conhecemos seu pintor, aquele para quem ele posava e nutria pelo modelo de suas obras um amor cada vez mais profundo, uma espécie de adoração... como se Dorian Gray tivesse se convertido em seu deus. 

Naquele dia em particular, conversava com seu amigo, lorde Henry, sobre o Dorian e num impulso lhe confessara seus sentimentos pelo rapaz. Intrigado pela paixão contida nas palavras de Basil, a quem julgava insípido e incapaz de despertar interesse em qualquer pessoa, mais quis saber sobre a obra-prima inspiradora de tão peculiar comportamento. 

"Subitamente, eu me encontrei face a face com o jovem cuja personalidade me havia tão singularmente intrigado; quase roçamos um no outro e, de novo, nossos olhares se cruzaram."

- Ao colocar os olhos pela primeira vez em Dorian Gray, Henry soube que aquele rapaz seria seu. Sua beleza era fascinante, mas o que despertava verdadeiramente a sua cobiça era ver naqueles olhos a pureza que se encontra naqueles que ainda não foram manipulados. Dorian era como uma página em branco na qual Henry poderia escrever o que bem quisesse. Ele ainda não possuía mácula. Cabia às suas mãos hábeis estragá-lo... e ele se divertiria muito no processo. Todavia, mais que as mãos ele utilizaria as palavras. Afinal de contas, existiria maneira mais eficaz de envenenar alguém? 

"- Porque considero que influir sobre uma pessoa é transmitir-lhe um pouco de sua própria alma. Esta pessoa deixa de pensar por si mesma, deixa de sentir suas paixões naturais. Suas virtudes não são mais suas. Seus pecados, se houver qualquer coisa semelhante a pecados, serão emprestados. Ela tornar-se-á eco de uma música estranha, autora de uma peça que não se compôs para ela."

- Pressentindo o perigo que seu objeto de adoração passava a correr por ter despertado a atenção do lorde Henry, Basil tenta apelar para qualquer vestígio de humanidade que exista em seu "amigo", implora que ele se mantenha afastado de Dorian, porque sua influência seria nociva. Mas mesmo antes de abrir a boca sabia que era em vão, embora, no fundo, desejasse acreditar que nada poderia roubar a beleza que Dorian possuía, algo que ia além da simples beleza física. Henry poderia tentar, mas certamente não o corromperia. 

"Ele tentaria dominá-lo, como aliás, já havia feito."

Determinado a iniciar o jogo que o divertiria nos próximos meses, Henry não espera um só segundo para atrair a sua presa. Hábil com as palavras como poucos, sabia exatamente o que dizer para provocar sedução, para que Dorian quisesse estar ao seu lado, aprender o que só ele poderia ensinar. E não demorou para acontecer. Acompanhou com prazer as transformações que ocorriam no rosto do rapaz enquanto o mesmo experimentava novos sentimentos e uma deliciosa confusão. 

"Ele apenas lançara ao ar uma flecha. Esta alcançara o alvo?"

Naquele dia tão decisivo para tantas vidas, Dorian posou mais uma vez para Basil, só que tudo foi diferente. Contaminado pela admiração que começava a sentir pelo lorde Henry, seduzido pelo que quer que existisse no outro, ele possibilitou ao artista pintar o mais magnífico retrato. Era como se sua alma tivesse sido transferida para o retrato. Nunca ninguém criou uma obra tão bela. 

Com as palavras do outro correndo por seu corpo como sangue, Dorian olhou para o próprio retrato e enxergou nele tudo o que deixaria de ser um dia. Uma forte inveja de si mesmo tomou conta dele. Por que aquele retrato possuía o direito de ser imutável enquanto ele estava condenado a envelhecer, definhar e morrer? Por que não poderia conservar-se belo para sempre? Parar no tempo como aquele quadro? 

"[...] Ah! se fosse possível mudar os destinos; se fosse eu quem devesse conservar-me novo e se essa pintura pudesse envelhecer! Por isto eu daria tudo!... Nada há no mundo que eu não desse... Até minha alma!...

Voltado para si mesmo e para a paixão por sua própria aparência, mal é capaz de notar que seus pensamentos já não são seus, que suas escolhas não são suas. Que tudo o que julgava acreditar na verdade era resultado do que Henry acreditava. Ele era uma marionete, um brinquedo para alguém experiente e astuto, que nutria um desprezo por tudo o que fosse bom e abraçava o que era perverso. 

Com o passar do tempo, Henry passa a ser o centro da vida de Dorian. Onde quer que um estivesse o outro também estava. Como consequência, ele se afastava cada vez mais de Basil e da inocência que um dia possuiu. Porém, embora já não se sentisse capaz de resistir à influência do outro enxergava que seu "amigo" seria sua ruína, que já mal conseguia reconhecer-se na pessoa que era. E é quase com desespero que ele busca uma saída... uma chance de escapar do mundo no qual estava mergulhando. E é quando ele a encontra. 

Sibyl Vane, uma atriz de dezessete anos, era tudo o que Dorian gostaria de ser. Bela, bondosa, dona de uma alegria e pureza emocionantes, ela lhe provocava sentimentos que ele nunca antes experimentara. Era como um anjo. Disposto a agarrar-se com força à sua oportunidade de salvação, ele acredita estar apaixonado por ela e promete-lhe casamento. Sabia que ao seu lado teria forças para se afastar de Henry, para ser o que era antes, para reencontrar sua própria alma. 

E o que será mais forte? A bondade de Sibyl que o faz querer ser melhor ou a depravação que Henry lhe apresenta e parece tão impossível de resistir? Ainda existia realmente alguma chance? 

- Houve uma época em que ouvia sem parar uma vez mesma música: Destino - Lucas Lucco. Realmente considero a música muito bonita e com aquele "ar triste' que aprecio nas canções.rs Só que o que mais me atraía era o clipe, que mostrava duas vozes falando na cabeça do personagem. Uma, quase inaudível, tentando convencê-lo do que era certo. E a outra, muito mais "viva" e atraente, dizendo exatamente o que ele deveria fazer e ia na contramão do que era bom. Qual foi a voz que o personagem da música Destino preferiu ouvir? É bem óbvio, verdade? 

"Sim, Dorian, tu sempre me amarás; eu te represento todos os pecados que não tiveste a coragem de cometer.."

- Este livro me perturbou muito. Mesmo se eu não conhecesse spoilers da história antes de começar a lê-la seria capaz de prever o rumo que ela tomaria. Quanto mais profundamente conhecemos o Dorian, sua fraqueza de caráter e falta de inteligência própria... E, em contrapartida, observamos Henry, astuto, inteligente e sedutor, mover lentamente as cordas que guiam o protagonista... mais fácil é descobrir o final. 

"Há não sei o quê de fatal num retrato."

Dorian cresce muito ao longo do livro. Melhor dizendo: ele decresce bastante. Não nego nem por um instante que a manipulação do lorde Henry contribuiu e muito para torná-lo o ser baixo e repulsivo que se tornou. Mas há um determinado momento da história em que, estando o protagonista exatamente onde e da forma que ele queria, Henry solta as cordas. E Dorian passa a seguir com as próprias pernas. É possível, então, percebermos que Dorian gostava da podridão que era a sua vida, que ele sentia prazer em fazer com outras pessoas o que seu amigo tinha feito com ele, superando, em vários aspectos, o seu mentor. Embora tivesse "crises de consciência" em que jurava para si mesmo que lamentava profundamente o que acontecera com outros personagens, nós sabemos que é mentira. Que ele desempenhava um papel para si mesmo, tentando convencer-se que nunca tinha a culpa de nada. Não dava a mínima para quantas vidas havia destruído. Já não tinha amor no coração. E não queria ter.

"Um ódio sombrio vivia no seu coração."

- E é aí que entra o quadro, que representa na história a própria alma do protagonista. O retrato de Dorian Gray, pintado na ocasião do primeiro encontro entre o lorde Henry e ele, era uma obra de tirar o fôlego, jamais vista por ninguém. Henry desejou comprá-la de Basil, mas este a deu de presente para seu modelo, apesar da crise de ciúmes e inveja que Dorian teve ao ver a própria imagem, por ser muito injusto o fato da imagem ali eternizada jamais envelhecer enquanto ele, que servira para criá-la, estar condenado ao definhamento e morte. Pois bem... Ao longo da história, conforme o protagonista se corrompe o quadro sofre transformações. Após seu primeiro ato de crueldade, por exemplo, as marcas de perversidade que deveriam estar em seu rosto aparecem no retrato e daí por diante. Quanto mais desumano ele se torna pior fica o retrato e, tomado pelo terror, ele decide esconder o quadro de todos, trancar à chave no local mais afastado na casa, impedindo que outros percebam o que estava acontecendo no seu interior. Ele acredita que lançara uma espécie de "maldição" contra si mesmo ao proferir aquelas palavras quando da pintura do quadro. 

"O que os vermes são para um cadáver seus pecados seriam para a imagem pintada nessa tela."

Não sei o que pensar sobre isso. Ao mesmo tempo que enxergo que o retrato era a representação da alma do personagem, sei que não tenho explicação para certos acontecimentos envolvendo esse quadro. Deixo que os estudiosos encontrem as respostas devidas.kkkkkkkk... 

- Impossível dizer que apreciei esta leitura. Com certeza é um livro que não tenho a menor intenção de voltar a ler um dia!kkkkkk Tudo o que quero é esquecê-lo. Na história, Dorian chega a dizer ao lorde Henry que ele o envenenou através de um livro. Bem... eu não penso em ser intoxicada por esta história.rs

Recomendo o livro? Gente, é um clássico que realmente é digno de ser considerado como tal. O autor foi brilhante ao escrever algo assim e acredito que é válido lê-lo. Só que não é um livro saudável. Recomendo mais para quem estuda Psicologia ou aprecia livros voltados para temas psicológicos. 
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