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23 de junho de 2020

Antologia Poética - Florbela Espanca

Literatura Portuguesa
Editora: Martin Claret
Edição de: 2015
Páginas: 298

32ª leitura de 2020 
(releitura)

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada.. a dolorida... (...)
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!...




Este é um livro que eu já tinha lido e relido algumas vezes. Tenho uma grande conexão com os poemas da Florbela, como não acontece quando leio nenhum outro poeta. Então, sempre que me sinto bem triste ou ansiosa tenho dois refúgios: o livro O Morro dos Ventos Uivantes (meu preferido da vida!), da autora Emily Brontë e os poemas da Flor.

Foi o que aconteceu em abril deste ano. Com essa pandemia provocando tantas tragédias e mexendo profundamente com nossas vidas e emoções, eu precisei mais do que nunca recorrer aos escritos da Florbela, aos seus versos tão tocantes, seus sonetos que me arrebatam. Precisei tocar, abraçar o livro, ler cada soneto em voz alta, na tentativa de calar o mundo por uns momentos. De esquecer a realidade.

Em abril eu li até a metade e depois fui lendo um poema vez ou outra, sempre quando me sentia "sufocada", angustiada. Mas agora em junho eu peguei o livro novamente e o li por inteiro. Porque se em abril estava desesperada, agora em junho, quando o Brasil ultrapassou mais de um milhão de pessoas infectadas pelo coronavírus e mais de 50 mil mortes, "desespero" seria um eufemismo. Estou para além disso... me sinto destroçada. Nem sei expressar o que sinto. Lamento muito por cada vida perdida, cada família que está atravessando esse luto tão insuportável. Só posso pedir que Deus conforte cada coração. E que tenha misericórdia de todos nós.

Me refugiar nos poemas da Flor era uma das melhores coisas que poderia fazer para não afundar numa crise de ansiedade. Vocês sabem que já falei desta minha querida poetisa aqui no blog outras vezes. Falei especificamente sobre ela no post Minha poetisa querida: Florbela Espanca, falei do soneto A Um Livro e ainda fiz resenha sobre um de seus livros, o meu preferido Livro de Mágoas. Mas esta é a primeira vez que falarei da Antologia Poética completa, que reúne seis livros da autora.

A Antologia Poética é o trabalho mais caprichado que já vi uma editora fazer dos livros da minha poetisa amada. Publicada pela editora Martin Claret, ela é em capa dura, com detalhes delicados, com uma página em azul abrindo cada um dos livros presentes na antologia. Reúne todos os livros de poemas publicados pela Flor em vida, bem como aqueles que só se tornaram de conhecimento dos leitores após sua morte.

Como abertura do livro, temos as duas únicas coletâneas de poemas publicadas enquanto a autora era viva: Livro de Mágoas, que eu considero o mais profundo, aquele que me toca como nenhum outro; e Livro de Sóror Saudade, que também traz sonetos que falam com a gente, como se a autora dissesse que sentia exatamente o que sentimos, que compreende nosso coração. Sim, quando falo de poesia eu sou assim sentimental mesmo! E com orgulho!rs

Dos 33 poemas presentes em Livro de Mágoas, dezessete são meus preferidos. Entre eles:

"Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo."

[Trecho do soneto Este Livro...; página 17]


Já o Livro de Sóror Saudade possui 37 poemas e entre eles tenho como um dos mais queridos:

"A luz desmaia num fulgor d' aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

[Trecho do soneto Anoitecer; página 69]


Os quatro outros livros que fazem parte da antologia só vieram a ser publicados postumamente. Muitos dos poemas que fazem parte deles foram escritos pela autora vários anos antes de ela falecer, mas que por um motivo ou outro acabaram não sendo lançados. Charneca em Flor, por exemplo, ela estava tentando publicar quando sua vida chegou ao fim. Ela morreu aos 36 anos, exatamente no dia do seu aniversário. Charneca em Flor foi publicado meses depois. Ele possui 47 poemas, entre eles tenho como um dos meus favoritos:

"Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjúrio?
Para onde vai a alma, que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!"

[Trecho do soneto Quem Sabe?; página 131]


Os outros livros de poemas da autora, presentes nesta antologia da Martin Claret são: Reliquiae (com 34 poemas); Trocando Olhares que possui 53 poemas e a curiosidade é que muitos deles não são sonetos (regra geral, a autora seguia a estrutura dos sonetos); e O Livro D'Ele, com 31 poemas. De todos os seis, o único que posso dizer que não gosto tanto assim é justamente este último. Do Livro D'Ele eu só tenho um poema que amei, mas ironicamente é um dos meus preferidos de toda a obra poética da autora:

"Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma, 
Gargalhadas de luz, cantos dispersos.
Ou pétalas que caem uma a uma..."

[Trecho do soneto Versos; página 298]


Eu recomendo muito, muito, muito esta antologia! Porém, os poemas da Flor são quase sempre melancólicos, carregados de sentimentos intensos, de dor, de angústia... são como montanha-russa, ora você encontra versos cheios de alegria, ora cheios de lágrimas (na maior parte das vezes falam de sofrimento ou saudade). Como sinto uma forte conexão com a escrita da autora, com a maioria dos seus versos, eles acabam provocando sentimentos positivos em mim, me consolam, me acalmam... Mas não posso afirmar que você sentirá o mesmo ao lê-los, claro.

O que quero muito é conhecer os contos da autora. Sim! Ela não escreveu apenas poesia. Ficou mais conhecida por conta delas, mas também é autora de contos. E ainda não li nenhum. Preciso corrigir isso logo! :D



-> DLL 20: Um livro de autor português



14 de junho de 2020

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

Literatura Russa
Título Original: Prestuplênie i nakazánie
Tradutor: Oleg Almeida
Editora: Martin Claret
Edição de: 2016
Páginas: 681

30ª leitura de 2020

Sinopse: Crime e castigo é um daqueles romances universais que, concebidos no decorrer do romântico século XIX, abriram caminhos ao trágico realismo literário dos tempos modernos. Contando nele a soturna história de um assassino em busca de redenção e ressurreição espiritual, Dostoiévski chegou a explorar, como nenhum outro escritor de sua época, as mais diversas facetas da psicologia humana sujeita a abalos e distorções e, desse modo, criou uma obra de imenso valor artístico, merecidamente cultuada em todas as partes do mundo. O fascinante efeito que produz a leitura de Crime e castigo - angústia, revolta e compaixão renovadas a cada página com um desenlace aliviador - poderia ser comparado à catarse dos monumentais dramas gregos. 



É óbvio que esta resenha não será digna do livro. Será impossível transmitir um pouquinho que seja da riqueza desta história, que provoca tantas reflexões, que mexe com nossos sentimentos e envolve por inteiro. Faz alguns dias que terminei a leitura, mas não conseguia escrever sobre ela. O que se passou comigo ao ler Fahrenheit 451 também ocorreu com Crime e Castigo.

"Não refletia em nada, nem sequer conseguia refletir, mas de repente sentiu, com todo o seu ser, que não tinha mais liberdade espiritual nem força de vontade, e que tudo já estava decidido em definitivo."

O livro nos traz a história de Raskólnikov, um jovem muito pobre que sai de sua cidade e vai para São Petersburgo na tentativa de melhorar de vida, cursando Direito. Só que as coisas não são como ele imaginava. O dinheiro que sua mãe mandava, com tanto sacrifício, não era suficiente para ajudá-lo nem com o aluguel de um quartinho humilde, e mal tinha dinheiro para comer. Não demorou para ele ter que abandonar os estudos e os planos de vir a ter uma vida diferente, o que afetou de maneira drástica a sua mente que já era um tanto inquieta. Sabia que era inteligente, que tinha potencial para ser o que quisesse, mas a sua situação, sua falta de recursos era um obstáculo praticamente intransponível para a realização dos seus sonhos. O que era extremamente injusto.

Enquanto o desespero tomava cada vez mais posse de sua mente, a depressão o debilitava e não conseguia mais se relacionar de maneira saudável com ninguém, afastando-se até de quem queria ajudá-lo; uma idosa calculista enriquecia às custas das desgraças dos outros que precisavam empenhar tudo o que tinham para pagar um aluguel ou smplesmente para ter algum dinheiro para se alimentar e à sua família. Além disso, aquela mulher também escravizava a própria irmã, submetendo-a a diversos maus-tratos. Assim, com a mente já transtornada e tendo como incentivo um artigo que ele próprio escrevera algum tempo antes, Raskólnikov decide que a resposta para todos os seus problemas se encontrava no assassinato daquela mulher... Os fins justificam os meios... Certo?!

"A sensação de infinito asco, que começara a apertar e enfastiar o seu coração ainda quando ia visitar a velha, tornou-se agora tão grande e explícita que o moço não sabia mais onde se esconder da sua angústia."

Acontece que após cometer o crime, Raskólnikov não sente a paz, o alívio que esperava. Não fica tranquilo com sua decisão, com suas mãos sujas de sangue. A febre que o alucinava, a angústia que jamais o deixava... tudo se intensifica. Se vivia num inferno antes de se transformar num assassino, as coisas apenas pioram depois.

31 de dezembro de 2019

Cântico de Natal / Os Carrilhões - Charles Dickens

Literatura Inglesa
Título Original: A Christmas Carol / The Chimes
Tradutor: John Green
Edição de: 2004
Páginas: 183

Sinopse: Os historiadores de literatura consideram Charles Dickens uma figura proeminente no romance inglês do século XIX, chegando mesmo alguns a apontá-lo como o maior romancista que a Inglaterra já produziu. 
Sua obra, impregnada de mistério, é aparentada com o romance gótico e constitui um vasto painel melodramático da Londres industrial de 1830-1850. 
Entre romances e contos, Dickens escreveu várias obras-primas. Sua postura essencialmente sentimental expressou-se com muita nitidez em seus contos de Natal. Cântico de Natal (1843) é quase um conto de fadas; tornou-se parte integrante da mitologia natalina anglo-saxônica. Outro texto de Dickens sobre a mesma temática é Os Carrilhões (1845), incluído neste volume. 



"Sua maior felicidade era abrir caminho através das estradas atravancadas da vida, tendo sempre a distância toda e qualquer simpatia humana."

Em Cântico de Natal, Ebenezer Scrooge era um homem muitíssimo rico, que não tirava qualquer proveito do dinheiro, fosse para si mesmo ou para os outros. Gostava de saber que tinha dinheiro e o guardava como seu bem mais precioso, seu único amor. Maltratava seu empregado e lhe pagava o mínimo possível, mesmo sabendo que não era o suficiente para ele sustentar sua família. 

Não ajudava o próximo, não amava ninguém e recusava toda e qualquer tentativa de aproximação de seu sobrinho, que era sua única família. Era uma pessoa fria, até mesmo cruel, e desprezava com todas as suas forças o Natal. Não se permitia ser amado e estava muitíssimo satisfeito com sua existência solitária e vazia. Até que...

... seu antigo sócio, Jacob Marley, aparece em sua casa. Não seria nada surpreendente, exceto pelo fato de que Marley tinha morrido há alguns anos. Chocado por tão inesperada visita, ele recebe, de um profundamente triste ex-sócio, que vagava pelo mundo por conta de todos os seus inúmeros erros passados, a notícia de que será visitado por três espíritos, um após o outro. O Espírito dos Natais Passados, o Espírito dos Natais Presentes e o Espírito dos Natais Futuros. 

Embora Scrooge acredite que tudo não passou de um terrível pesadelo, não demora a perceber que aquela era a mais incrível realidade e que deveria considerar tais visitas como uma segunda chance. Uma oportunidade que se desperdiçada poderia condená-lo a um futuro que nem ele mesmo desejaria ao pior inimigo. 

"- A conduta de um homem pode fazer prever o seu fim - disse Scrooge -, mas se ele muda de vida, também o seu fim não será modificado?"

Eu já tinha ouvido falar muito desse conto, mas não sabia de fato do que se tratava. Acho que teve até uma adaptação dos filmes da Barbie (lembram dos filmes da Barbie que eram releituras de contos de fadas? Eu assistia sempre!), mas eu assisti muito tempo atrás e já não lembrava da história. 

Scrooge é aquele tipo de pessoa que precisa passar por um grande susto para aprender a dar valor à vida. Ele era amargo, frio, um homem que não se importava com absolutamente ninguém, que ficava feliz em fazer os outros sofrerem, principalmente seu funcionário, a quem tratava com toda ignorância. Então, quando recebe a visita dos espíritos, que o levam ao seu passado, a alguns momentos do presente e, por fim, ao futuro que poderia ter (e certamente teria), ele se vê diante de uma realidade que não queria encarar e o medo enorme de ter um fim como o que lhe é mostrado. 

É um conto que fala de compaixão, solidariedade, amor ao próximo. Que trata dos valores que realmente importam... que ensina a olhar para as outras pessoas, que passam por dificuldades piores que as nossas, e estender a mão, oferecer a ajuda que você puder dar. Às vezes até mesmo um sorriso pode tornar o dia de alguém melhor. E nem isso Scrooge fazia. Nem mesmo sorrir para outra pessoa ou dizer "Bom dia!". Ele estava condenando a própria alma com sua crueldade, com sua frieza. Felizmente, ele aprende a lição. 

"História mágica de uns sinos que anunciavam a saída de um ano velho e a entrada de um ano novo"

O trecho acima pode nos dar a ilusão de que em Os Carrilhões encontraremos um levíssimo conto sobre a virada de ano. Uma ilusão mesmo, pois de leve este conto não tem nada. Muito pelo contrário! É um conto que me fez chorar, me provocou uma enorme revolta e sensação de impotência.

Nele temos Toby Veck, um senhor de mais de sessenta anos de idade, que trabalhava como "moço de recados", único trabalho que encontrara e que o tornava dependente da boa vontade dos outros, que sempre lhe pagavam o que consideravam "suficiente" (e estava longe de sê-lo). Eram tempos muito difíceis para as pessoas pobres, que muitas vezes não tinham o que comer ou onde morar.

Toby tinha o hábito de conversar com os carrilhões, conjunto de sinos que ficavam no alto da Igreja, pois acreditava que, inexplicavelmente, eles eram capazes de consolá-lo, de dizer-lhe palavras de conforto. Naquela noite, com fome, mas sem esperanças de se alimentar, foi surpreendido por sua linda filha, uma jovem trabalhadora, que mesmo levando uma vida tão terrível era capaz dos mais belos sorrisos, de uma alegria contagiante. Ela levou o jantar do pai, dobradinhas, "um verdadeiro luxo", algo que ele não imaginava poder comer nem tão cedo, vez que era um alimento caro naquelas épocas. Meg usara todo o dinheiro que ganhara naquele dia (quando nem imaginava que fosse ser paga, pois os patrões pagavam quando queriam) para poder dar aquela alegria ao pai. Ele comeu com imenso prazer, fazendo todo o possível para fazer aquele jantar delicioso render e assim poder apreciá-lo devagar.

Ocorre que ele estava jantando em umas escadas que faziam parte de uma residência desconhecida. Logo descobriria que ali vivia um juiz, homem aparentemente afável, generoso, mas que não passava de um corrupto que sentia prazer em condenar aqueles que não podiam se defender, ou seja, os pobres.

"Não sei o que será de nós, os pobres. Meu Deus, faz com que caminhemos para algo melhor no Novo Ano que se aproxima!"

Através deste encontro extremamente desagradável com o juiz, Toby acaba sabendo das intenções dele e do chamado "Pai dos Pobres" de condenar à prisão um tal de Will Fern, homem que fora para Londres em busca de emprego, mas que foi encontrado à noite dormindo num alpendre com a sobrinha de nove anos, vez que não tinham onde dormir. Não tinham dinheiro para nada. Aquilo foi considerado uma grande "afronta" para o "justo" juiz, que decidiu fazer de Will um exemplo ao prendê-lo por ser "um vagabundo". E o digníssimo "Pai dos Pobres" concordava completamente com aquela "sentença".

Quis o destino que Toby, após saber de tão injusto castigo que estava reservado para aquele homem, esbarrasse num desconhecido, que caminhava tristemente com uma criança nos braços. Logo descobriu que se tratava do tal Will Fern e fez o que qualquer ser humano digno de ser chamado de ser humano faria: informou o que o juiz pretendia fazer com ele e, vendo que ele não tinha onde ficar, ofereceu sua humilde casa para abrigá-lo e protegê-lo dos olhos das autoridades.

Este conto mexeu demais comigo, me causou um grande impacto. Foram muitas as cenas que provocaram um nó na minha garganta, mas uma das que mais me emocionaram foi aquela na qual o Toby pegou todas as moedas que tinha para comprar um pouco de chá e toucinho para alimentar o Will e a pequena Lilian. Como a quantidade não era suficiente para alimentar os quatro, ele fingiu não gostar de chá nem de toucinho e sua filha Meg fez o mesmo. Assim, os dois ficaram vendo o Will e a pequena Lilian comerem e beberem e o que mais doeu em mim foi a imensa alegria que eles sentiram ao fazer aquilo por aqueles dois desconhecidos. Eles se sentiam muito bem em poder dar aquele pequeno alimento para o Will e a sobrinha, se sentiam em paz por terem feito aquilo, por eles terem se alimentado. Gente, o Toby não tinha nada! Nada, nada! Mas mesmo assim se privou de comer para alimentar outras pessoas que também não tinham o que comer. São os pobres ajudando os pobres, enquanto aqueles que têm condições financeiras de fazer algo ficam em suas bolhas, achando que os menos favorecidos estão nessas condições porque querem.

Há muito amor neste conto. Aquele amor que não espera nada em troca, que é humilde e puro. Lendo esta história você sente um imenso desprezo por aquelas autoridades imundas, aquela gente corrupta e odiosa, mas ao mesmo tempo sente imenso amor por Toby, Meg, Will e Lilian, além de outras pessoas humildes como eles, mas que tinham um coração maravilhoso e ajudavam uns aos outros.

Não vou dar spoiler dos acontecimentos mais importantes do conto. Só digo que Os Carrilhões é especial e deveria ser mais conhecido e amado que Cântico de Natal.

"E, assim, possa o Ano Novo ser um ano feliz para vós e para muitos outros cuja felicidade depende de vós! E, assim, que cada ano seja mais feliz que o anterior, e que os mais humildes dos nossos irmãos não sejam privados do legítimo quinhão de felicidade que Deus lhes destinou."

Feliz Ano Novo! 

4 de setembro de 2019

Contos Escolhidos - Machado de Assis

Literatura Brasileira
Editora: Martin Claret
Edição de: 2012
Páginas: 375

Sinopse: Machado de Assis é um dos mais renomados contistas da literatura brasileira. Transitando entre os diversos tipos de contos - do tradicional ao moderno -, seus textos são originais e complexos. São contos cheios de acontecimentos intensos - quase sempre envolvidos num clima de tensão -, repletos de personagens polêmicos e ambíguos e de jogos e armadilhas textuais que induzem à dúvida, relativizando a maior parte das ideias e levando o leitor a refletir sobre suas "certezas". Contos escolhidos é uma seleção baseada em antologias preparadas pelo próprio autor, com seus contos mais marcantes, quais sejam: Missa do galo, Conto de escola, Cantiga de esponsais, Teoria do medalhão, O espelho, A cartomante, A causa secreta, Mariana, O enfermeiro, Um cão de lata ao rabo, A chinela turca, Uns braços, Frei Simão, Aurora sem dia, O segredo do bonzo, Verba testamentária, Conto alexandrino, Noite de almirante, Ex cathedra, O caso da vara, Uma noite, Maria Cora, Um homem célebre, Miss Dollar, Marcha fúnebre, Pai contra mãe, Capítulo dos chapéus, Uma senhora, Dona Paula, A igreja do diabo. 



Olá, queridos!

Quem estiver acompanhando meus posts mensais sobre os contos que estou lendo desde o início do ano, vai perceber que esta resenha na verdade é apenas uma junção de todos os comentários que já fiz sobre cada conto presente na coletânea Contos Escolhidos, do Machado de Assis. Ao todo são 30 contos presentes neste livro. Dez deles eu li em 2017 e fiz resenhas individuais, portanto deixarei o link de cada uma delas neste post. Os outros vinte contos eu li agora em 2019 e reunirei aqui todos os comentários que fiz mensalmente. :)

Link das resenhas dos 10 primeiros contos, lidos em 2017:


Todos os meus comentários sobre os demais contos:

Em A Chinela Turca temos um jovem numa noite normal da vida de um moço abastado, cuja maior preocupação é encontrar sua amada num baile. Só que no momento em que ele estava se preparando para sair um amigo de seu pai o visitou, meio que o intimando a ler seu manuscrito, vez que o indivíduo resolvera se tornar escritor de drama. Claro que ele poderia ter dito não, que estava de saída, mas o outro com sua lábia o convenceu a se atrasar para o compromisso. Você pensa que nada de mais vai acontecer. Que é apenas um conto do cotidiano. Só que as coisas dão tal reviravolta que no final ficamos de queixo caído. Pelo menos, eu fiquei.kkkkkkk.. Simplesmente chocada e encantada pela forma como o autor desenvolveu o conto para segurar a surpresa que seria o final. Foi um dos melhores contos que já li do meu amado Machado. 

1 de janeiro de 2019

A Utopia - Thomas More

(Título Original: Utopia
Tradutora: Alda Porto
Editora: Martin Claret
Edição de: 2013)

Escrita no mesmo ano (1516) em que Maquiavel lançava seu fundamental O príncipe - A Utopia do inglês Thomas More descreve uma ilha imaginária permeada de justiça, liberdade e igualdade, opondo-se ao mundo em que o autor vivia: a Inglaterra dominada pelo rei Henrique VIII. 

Como em um jogo de espelhos, a ilha fictícia de Utopia é o oposto da Inglaterra do século XVI: dominada por conflitos entre a monarquia e a Igreja, por uma estrutura econômica que privilegiava algumas camadas da sociedade em detrimento de outras e pelo autoritarismo. 

A obra de More é um registro do universo humanista e se tornou modelo de todas as concepções posteriores do gênero. 



Palavras de uma leitora...


- Não. Eu não acordei num belo dia e pensei: por que não leio A Utopia? Não foi assim.kkkkkkk... Embora eu utilizasse esta palavra frequentemente (dizendo que isso ou aquilo é uma utopia/ilusão) e até soubesse que ela tinha sido inventada pelo Thomas More, nunca tive um real interesse em conhecer a obra. Era algo que fugia muito do tipo de leitura que costumo fazer. Ainda que esteja me habituando a ler cada vez mais clássicos, A Utopia ia um pouco além do que costumo ousar ler. A mesma coisa eu diria de O Príncipe, de Maquiavel, que está parado na minha estante, sem que eu tenha a coragem de ler.rs

Mas quem me conhece bem sabe que sou apaixonada por contos de fadas, especialmente o da Cinderela. :) E que minha adaptação preferida da vida é o filme Para Sempre Cinderela, brilhantemente protagonizado pela Drew Barrymore. Acredito até que meus motivos para amar tanto o conto é esta adaptação.rsrs Porque foi feita uma releitura maravilhosa da história, fazendo da nossa cinderela uma mocinha forte, determinada, que não se curva diante das situações e não espera que o príncipe encantado a salve. Muito pelo contrário! Danielle sempre salva a si mesma.rs Além disso é bastante instruída e seu livro preferido é... A Utopia.rs Agora já dá para entender por que decidi ler este livro!

Danielle, a cinderela neste filme, acredita na possibilidade de um mundo melhor, mais justo, em que as pessoas possam viver de maneira digna e não constantemente exploradas. Onde o pão não falte na mesa, onde o trabalho não seja insalubre e o salário seja suficiente para satisfazer as necessidades básicas e não seja quase todo consumido em impostos. Ela acredita em equidade. E isso porque uma vez, quando ainda era bem pequena, seu pai lhe trouxe de viagem um livro chamado A Utopia. Foi o último presente que recebeu do pai, pois pouco tempo depois ele morreu. Aquele livro se tornou seu bem mais precioso e um guia de vida. Ao tocar naquelas páginas sentia que o pai estava perto dela. 

- Há um trecho do filme em que Danielle está defendendo um criado que foi preso. Ela consegue juntar uma quantia para comprar a liberdade dele, mas não consegue. Então, diante do príncipe, defende sua causa: 

"Se o senhor submete seu povo a uma má educação e as maneiras são corrompidas na infância, e ainda por cima os castiga por aqueles crimes onde a educação os confinou... o que mais podemos concluir, Alteza, além do fato de que cria ladrões para depois puni-los?" [Filme Para Sempre Cinderela]

No trecho acima Danielle cita livremente um trecho presente no livro, conforme abaixo:

"[...] Vocês permitem que essas pessoas sejam criadas da pior forma possível e corrompidas de modo sistemático desde os primeiros anos de vida. Por fim, quando elas crescem e cometem os crimes que foram sem dúvida destinadas a cometer, desde a infância, começam a puni-las por roubarem!" [trecho do livro A Utopia. Editora Martin Claret, página 39]

No decorrer do filme são feitas outras menções ao livro e isso acabou por ir despertando o meu interesse ao longo dos anos. Assim resolvi apostar nesta obra e ver se ela conseguia provocar em mim a mesma paixão que a Danielle sentia. E não. Não me apaixonei pelo livro.rsrs

- A proposta do livro é boa e muito ousada, se considerarmos que Thomas More a escreveu no século XVI, quando a Inglaterra era controlada pelo rei Henrique VIII. Sim, o mesmo que rompeu com a Igreja Católica, fundou a Igreja Anglicana, se divorciou de Catarina de Aragão por capricho para casar-se com Ana Bolena e depois mandou executar a Ana porque sentiu vontade. Fora outras execuções pelas quais ele foi responsável, incluindo a do próprio Thomas More, que simplesmente foi condenado à morte por se negar a reconhecer o vaidoso rei como chefe da nova Igreja. Ele foi decapitado e seu corpo exposto para servir de exemplo, como era comum em vários momentos da História do mundo. Eu considero que foi arriscada a publicação de A Utopia já que o livro faz uma crítica explícita à forma de governo do referido rei. Todavia, considerando que o livro só veio a ser publicado na Inglaterra vários anos após a morte do autor... não foi tão arriscado assim. Ele publicou o livro em vida, mas em outro país.rs

- No livro conhecemos a famosa ilha Utopia através de um diálogo entre Raphael, o viajante que viveu em Utopia por cinco anos, e o próprio Thomas More. Raphael conta para seu novo amigo como era incrível aquele lugar, onde todos viviam de maneira digna e não existia o que chamamos de propriedade privada. Tudo pertencia à coletividade e várias famílias viviam numa mesma grande casa antes que ocorresse um novo rodízio e fossem mudadas de local para que uma nova família habitasse aquele lugar e trabalhasse no campo, se fosse o caso. Mas antes de continuar falando da maneira como as pessoas viviam nessa ilha fictícia é preciso voltar um pouco.rsrs

O livro é dividido em duas partes: Livro I e Livro II. Na primeira parte nota-se de maneira mais clara a crítica feita ao governo da Inglaterra quando Raphael expõe sua forma de ver o mundo e seus motivos para se negar a fazer parte da Corte de Henrique. 

"Para começo de conversa, a maioria dos reis está mais interessada na ciência da guerra - sobre a qual nada sei e nem quero saber - do que em técnicas úteis de tempos de paz."

Embora não ataque diretamente o monarca, Raphael parece reprovar a maneira como os reis (e aquele especificamente) gostavam de produzir guerra, de estar sempre em conflito com outros países. Algo que vai na contramão do que um verdadeiro rei deveria buscar: a paz. 

Entre as diversas críticas presentes nesta primeira parte do livro temos a pena capital a qual os condenados por roubo eram sentenciados. Daí aquele trecho presente no filme, lembram? Para Raphael era costume dos reis educarem através da opressão e da extrema miséria as pessoas para que elas se tornassem ladras, vez que a vida lhes dava apenas duas opções: roubar ou morrer de fome. Assim, condicionava as pessoas daquela forma e quando elas se viam tão desesperadas ao ponto de cometerem o roubo para poderem comer eram condenadas à morte. Este é o "criar ladrões para depois puni-los". Sobre este assunto o personagem Raphael ainda menciona o fato da pena capital violar o mandamento bíblico "Não matarás" dizendo que a interpretação dada como desculpa para admissão deste tipo de pena concede espaço para que a Bíblia seja sempre interpretada conforme os interesses de quem detém o poder. Sim, algo assim presente num livro escrito no século XVI! Fantástico, não é mesmo?rs

Boa parte da discussão presente nesta primeira parte é sobre o tratamento concedido aos criminosos, vez que Raphael considera a vida muito mais valiosa do que bens materiais, sendo inadmissível condenar alguém à morte por conta de um roubo. Ele defende como opção o trabalho forçado; em outras palavras: o trabalho escravo. E vou logo dizendo que o brilhante livro A Utopia não considera a escravidão como algo abominável. É errado matar alguém (a pena de morte é aceita em determinados casos em Utopia), mas ter escravos é perfeitamente aceitável. Tornar alguém escravo não é errado, sobretudo se essa pessoa cometeu algum crime. E na ilha fictícia em que a igualdade reinava, todos eram felizes e tratados de forma justa também existiam escravos. Então, a igualdade não era um direito de todos. 

Ainda entre os assuntos presentes na primeira parte e a afronta explícita ao rei, temos a questão levantada de que juízes podem ser de certa forma influenciados a satisfazer as vontades do monarca. Raphael fala de forma hipotética. Que algo assim poderia acontecer. 

"Um quinto recomenda-o exercer certo domínio sob os juízes, para que eles sempre deem um veredicto a seu favor. [...] Logo cada juiz expressará uma opinião diferente, um caso bastante claro começará a parecer controvertido, e se questionarão os mais simples fatos. Isso dará ao rei uma esplêndida chance de interpretar a lei em proveito próprio."

De maneira mais direta ainda ele insinua que um rei que vive no luxo enquanto boa parte da população passa fome não é digno de ser considerado rei. E se deixa o seu povo nestas condições é porque acredita que assim manterá tais pessoas sob controle, submissas às suas vontades. Logo, sendo incapaz de governar homens livres, exceto através da opressão, não sabe ser rei. 

São diversas as formas pelas quais o autor critica seu monarca no Livro I. E, na minha opinião, é a parte mais interessante de todo o livro. A segunda parte (Livro II), quando conhecemos mais profundamente a tal Utopia, não despertou tanto o meu interesse. E por isso digo que não me apaixonei pelo livro. Não vi nada de grandioso em Utopia, apenas uma verdadeira ilusão, em que as pessoas estavam condicionadas a uma forma de vida que também oprimia e elas não eram capazes de perceber. Uma sociedade que buscava uma suposta justiça social, mas admitia a escravidão. Em que mulheres tinham mais liberdade que na Inglaterra da época, mas que ainda assim estavam sujeitas ao controle dos parentes do sexo masculino. Em que as pessoas não eram tão livres assim para exercer qualquer ofício. E não tinham direito sequer a terem sua própria casa, nada sendo delas realmente. Que sociedade ideal é esta?! Como eu disse, a proposta é boa, a intenção ao mostrar uma sociedade mais evoluída, em que boa parte das pessoas viviam em igualdade de condições, felizes e se acreditando livres, em oposição à situação miserável em que os súditos do rei da Inglaterra viviam, é até legal. Mas as pessoas que viviam em Utopia também eram controladas. Estavam presas àquela forma de vida. Não eram livres para ter uma vida diferente daquela que lhes era determinada. E se desobedecessem de alguma forma às regras poderiam ser condenadas à escravidão. 

"A pena normal para qualquer crime importante consiste na escravidão. Os insulares afirmam que ela é tão desagradável para os criminosos quanto a sentença de morte, e mais proveitosa para a sociedade do que se livrar deles de imediato, pois trabalhadores vivos são mais valiosos que mortos, além de exercer uma influência dissuasória mais prolongada. Entretanto, se os condenados se revelarem recalcitrantes sob esse tratamento, e não obedecerem a nenhum tipo de disciplina na prisão, eles apenas os abatem como animais selvagens."

E falando em desobediência... Imagine que alguém numa determinada cidade da ilha quisesse visitar uma cidade vizinha para estar com um amigo. Ela podia simplesmente ir? NÃO. Tinha que ter permissão do Prefeito que lhe concederia um passaporte estipulando quando a pessoa deveria retornar. Caso alguém se atrevesse a viajar sem permissão e fosse pego seria conduzido de volta em "desgraça" e punido como desertor. Se cometesse tal infração pela segunda vez a pena era a escravidão. 

Não vou falar de todos os aspectos desagradáveis da ilha. Existiam pontos positivos como o incentivo para que as pessoas estudassem (para cargos pontuais em benefício da ilha), hospitais avançados e gratuitos, comida boa para todos (incluindo os escravos?), "liberdade religiosa"... Em resumo  posso dizer que o livro não conseguiu mais do que três estrelas. Porque não concordei com muitas das coisas aplicadas na tal ilha. Me pareceram bárbaras, por demais opressoras. A forma como a população era tão fortemente controlada e sequer notava me dava náuseas. Não leria esse livro novamente e está longe de representar um "mundo ideal". 

- Utopia, como eu disse, é uma palavra inventada pelo Thomas More. Significa literalmente "não lugar", lugar que não existe. Como também lhe foi dado o significado de algo fantasioso, imaginário, ilusório por conta da própria obra, eu costumo usar a palavra quando quero dizer que algo é ilusão.rs

Thomas More foi reconhecido como mártir e canonizado pela Igreja Católica por conta da causa de sua execução, que foi sua fidelidade aos ensinamentos católicos e sua fé em Deus. Ele era um homem muito religioso e culto e incentivava seus filhos (fossem meninos ou meninas) a estudarem, não fazendo distinção entre eles no que se refere à educação. 

- Um lado meu pensa que o autor, ao criar este "não lugar" estava agindo com ironia, debochando não só do governo da Inglaterra, mas também da sua ilha imaginária e sociedade ideal. Todavia, um outro lado acredita que para o Thomas More, Utopia realmente representava um modelo de sociedade e governo ideal se a outra opção era a realidade miserável da Inglaterra do século XVI. Naquela época realmente poderia ser um sonho maravilhoso viver num lugar como naquela ilha imaginária. E algumas coisas deveriam sim fazer parte de todas as sociedades: a valorização do trabalho humano, a diminuição de carga horária de trabalho (em Utopia trabalhavam seis horas diárias), o incentivo à educação, o desprezo pelo acúmulo de riquezas, no intuito de obter uma situação de maior igualdade. Utopia tinha aspectos muito positivos, mas tendo em vista que é um livro do século XVI, que tinha muito da mentalidade da época, também possui pontos negativos, como os que citei. Mas foram vários os trechos que marquei e que representam o que toda sociedade e governo deveriam praticar em nome de uma verdadeira equidade. 

8 de outubro de 2018

Persuasão - Jane Austen


Persuasão foi o último trabalho completo de Jane Austen. O livro conta a história de Anne Elliot, uma moça que "fora obrigada a ser prudente na juventude, e aprendera o romantismo à medida que envelhecia: a sequela natural de um começo antinatural". Anne é uma das heroínas mais tranquilas e reservadas de Austen, mas, ao mesmo tempo, é uma das mais fortes e abertas às mudanças. O livro enaltece a constância do amor numa época turbulenta na história da Inglaterra: as guerras napoleônicas. Escrito nesse período, o romance descreve como uma mulher pode permanecer fiel ao seu passado e, ainda assim, pensar em um futuro feliz. Austen expõe de maneira sutil como uma mulher pode passar por cima das convenções sociais e das restrições femininas em busca da felicidade.




Palavras de uma leitora...



- A capa acima não é da edição que li, mas sim da que desejo com todo o meu coração.rs Eu a namoro sempre que a vejo nas livrarias, mas sempre acabo tendo que comprar outros livros. :( Faço isso porque tenho vários livros na lista de prioridades e essa edição de Persuasão acaba não sendo por eu já ter o livro em outra edição (que é aquela rosa linda que vem com três histórias). A sinopse acima também não é da que li. 

De qualquer forma, a tradução é a mesma e ambas as edições são da Martin Claret. Amo todos os detalhes da minha rosa, é realmente linda. Ocorre que é pesada e um tanto desconfortável para a leitura (letras muito juntas, apertadas ao ponto de você misturar as linhas e ter que voltar a leitura). Tive que ler o livro só quando estava em casa, pois era impossível carregar por aí.rsrs Por isso que quando li Razão e Sensibilidade foi numa edição de bolso. Eu tenho a edição azul de luxo também, contendo outras três histórias da autora, mas não há a menor possibilidade de lê-las nela. Terei que comprar livrinhos de bolso ou ler em e-book. É uma edição que serve para colecionar, mas dificulta muito ler. Enfim...

- Vocês sabem que me apaixonei perdidamente por Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade. E que coloquei como meta ler todos os livros que a autora escreveu. Todavia, mesmo guardando com carinho essas duas histórias no coração, Persuasão conseguiu um canto exclusivo, especial. A construção dos personagens foi perfeita e a ambientação como sempre nos faz desejar estar nos lugares mencionados, sentimos até que estamos realmente lá, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. E das protagonistas que conheço a Anne consegue se destacar, mesmo com seu jeito reservado e tímido, mesmo tendo cometido o grave erro de se deixar persuadir pelos outros. De abrir mão do homem que amava porque seus familiares e sua amiga não o aceitavam, não o consideravam digno dela. O preço que pagou foi alto, sem dúvidas. E ter a noção disso tornava tudo pior. 

"Passaram-se poucos meses entre o começo e o fim daquele relacionamento; mas alguns meses não foram suficientes para pôr um fim nos sofrimentos que ele provocara em Anne."

Talvez jamais o revisse na vida. Ou, quem sabe, seus caminhos poderiam voltar a se cruzar quando ele já estivesse casado e pai dos filhos que deveriam ser deles. Nem sempre o destino nos permite consertar os erros do passado, as escolhas que tomamos podem alterar todo o nosso futuro, com consequências que nos marcam de uma forma ou de outra. E ao longo dos oito anos que se passaram desde que Frederick partiu, após o rompimento do relacionamento, Anne nunca conseguiu deixar de pensar nele. Mas tentava. Dia após dia levava a vida a qual se condenou, não aceitando nenhum outro homem, nenhuma outra proposta de casamento, porque sabia que não poderia ser feliz com alguém que não fosse ele. Vivendo numa casa com familiares que sabia que não faziam a menor questão de sua companhia ou se importavam se ela estava bem ou não. Foi a essas pessoas que ela deu ouvidos anos antes. E mesmo que sua amiga sim tivesse boas intenções, ao contrário de seu pai e irmã, a verdade é que nunca deveria ter rejeitado aquele que seu coração desejava. 

Agora aos vinte e sete anos e prestes a ter que abandonar o lar no qual crescera para ir viver em Bath com o pai e a irmã, Anne não sabia bem o que sentia. Sobretudo porque os inquilinos de seu pai, que passariam a viver em seu antigo lar, eram parentes dele, do homem que não esquecera. E não demora nada para que Frederick retorne à sua vida, mas não para reatar qualquer laço rompido. Não retorna por ela, mas para estar próximo de seus entes queridos e encontrar uma noiva adequada para finalmente estabelecer-se. Assim, obrigada a vê-lo por conta dos conhecidos em comum Anne acaba acompanhando dolorosamente de perto o progresso de sua relação com Louisa, a mocinha aparentemente perfeita e dona dos afetos dele. Alguém que não se deixaria persuadir, que não teria o defeito que para Frederick era o pior de todos. Que era imperdoável. 

"Ele a amara ardentemente e nunca amara outra mulher tanto quanto a ela; mas, a não ser por um natural sentimento de curiosidade, não tinha nenhum desejo de tornar a encontrá-la. O poder dela sobre ele acabara para sempre."

Mas teria o amor do passado morrido com a dor e a distância? Seria Frederick realmente indiferente à Anne do presente? Seria incapaz de perdoar os seus erros e recomeçar? O tempo... ele pode destruir muitas coisas, mas nunca um amor verdadeiro...

- Eu me emocionei muito com a história deste casal. É a primeira vez que os casais formados pela autora me causam tal impacto e olha que o Frederick durante o livro quase todo não recebe tanto destaque assim, sendo a história concentrada mais na Anne. Mesmo assim eu senti muito por eles. Por tantos anos perdidos, por tudo o que poderiam ter vivido. Não posso culpar o mocinho pelo fim do relacionamento. Sei que foi a Anne a errar, mas tenho que considerar que ela tinha apenas dezenove anos na época e nada conhecia do mundo, deixando que os "adultos" decidissem o que era adequado ou não e fortemente influenciada pela amizade com Lady Russell, cujos conselhos lhe eram tão importantes. Fez o que os outros queriam, mas enquanto sua família e sua amiga tão bem seguiram com suas próprias vidas foi ela a sofrer. Foi ela quem perdeu. E passou tantos anos sem realmente viver, estando à sombra da irmã, sendo praticamente invisível em sua casa. Ela era quem tinha ficado vazia. 

"Antes, eram tudo um para o outro! Agora, nada!"

- Não suportei nem por um instante a família da Anne. Que gente mais insuportável! Pessoas hipócritas, superficiais, que só se importavam com posição social e assuntos fúteis. Ao que parece a Anne tinha puxado à falecida mãe, mas acho que sua personalidade forte e sua inteligência eram muito próprias. Ela era uma mulher incrível, capaz de causar admiração em muitos dos personagens, mas insignificante para a própria família. A insensibilidade deles, o desprezo latente com o qual a tratavam me causou muita revolta. Eu sentia vontade de esganá-los, sobretudo por ver a maneira como a Anne estava acostumada com aquele tratamento, em sempre ser anulada, menosprezada pelas pessoas que deveriam amá-la, mas que só se lembravam de sua existência quando queriam usá-la. Eu só queria que ela acordasse e fosse embora. Que os mandasse para o inferno! 

- Outra questão é a tal da lady Russell. Mesmo sendo uma mulher boa e quase uma mãe para a Anne também era cheia de preconceitos e se acreditando no direito de se meter na vida da mocinha. Não consegui gostar dessa mulher. A verdade dela não tinha que ser a verdade da Anne e foram os seus preconceitos e malditas boas intenções que tanto influenciaram a mocinha, por causa dos laços de afetos que as uniam. Eu não consegui suportá-la. Gente intrometida assim só causa problemas para aqueles que julgam amar. E não posso perdoá-la por preferir a posição social que a felicidade daquela que tanto protegia. 

- Foi um livro que me provocou muitos sentimentos confusos. Revolta, amor, tristeza, alívio, medo... eu sentia muito medo do casal não ficar junto. Temia que tudo estivesse perdido, que não existisse retorno. Não vou dizer se o final é feliz ou não, mas posso afirmar que foi o livro da Jane Austen que mais me provocou angústia. Quando eu via o Frederick e a Louisa juntos eu é que sentia vontade de chorar. 

"Anne não desejava mais aqueles olhares e palavras. A fria polidez e a cerimoniosa graça demonstradas por ele eram piores do que tudo."

Enquanto a Anne estava lá forte e com aquela tranquilidade exterior que escondia seus sentimentos dos olhares das outras pessoas. Ela estava conformada. E eu querendo que ela fosse até ele e o obrigasse a escutá-la! Mas as coisas vão dar uma baita reviravolta, lhes garanto!rsrs E provocar sentimentos ainda mais intensos em nós leitores. É simplesmente a melhor história da autora para mim. E não sei se conseguirei amar mais algum outro livro dela do que esse. Se sentirei o mesmo, se eles conseguirão chegar aos pés deste livro. 

- Acredito que uma lição ensinada por esta história é não deixarmos que os outros tomem decisões por nós, não importa o quão bem intencionadas elas sejam. Temos o direito de fazermos nossas próprias escolhas e suportarmos as consequências delas. E nunca deixarmos de fazer algo, de seguir um sonho porque nossa família ou nossas amizades não acham que aquilo é bom para nós. Ouvir conselhos é importante, mas sermos incapazes de pensarmos e decidirmos por nós mesmos é muito grave. :( Anne aprendeu isso de maneira dolorosa e muitas eram as chances de nunca mais recuperar o que tinha perdido. A vida não é piedosa. Ela não vai ficar nos dando várias oportunidades de consertar nossos erros. E o tempo definitivamente não para. Ele passa... e como passa!

"[...] ele não conseguia vê-la sofrer sem desejar reconfortá-la."

- Este livro foi minha última leitura do mês de setembro e nem sabia se conseguiria fazer a resenha. Não encontrava as palavras, não sabia nem por onde começar. Só me pegava pensando... refletindo... e analisando minhas próprias escolhas.rs Sim, a história realmente mexeu muito comigo. Demais. 

10 de setembro de 2018

Norte e Sul - Elizabeth Gaskell

(Título Original: North and South
Tradutores: Carlos Duarte e Anna Duarte
Editora: Martin Claret
Edição de: 2016)


Publicado em 1854, Norte e Sul retrata os efeitos da Revolução Industrial no solo inglês. As personagens principais: Margaret e Sr. Thornton dualizam o sul (bucólico e aristocrático) e o norte (industrial, sujo e sem modos). O relacionamento entre os dois pode evocar no leitor lembranças de Orgulho e Preconceito, pois, assim como na obra de Austen, os personagens de Gaskell também precisam passar por cima das convenções sociais e dos pré-conceitos, em busca do amor e da realização. 



Palavras de uma leitora...



- Norte e Sul é um livro que não estava sequer nos meus planos futuros de leitura. Ele não fazia parte de nenhuma das minhas metas. No entanto, quando a Amanda, do blog Confissões Femininas, propôs que continuássemos o nosso projeto de leitura coletiva e apostássemos nessa autora eu nem hesitei. Não tinha o livro. Ele furaria fila e ainda poderia ser uma decepção, mas mesmo assim eu quis participar. Simplesmente por ter amado a experiência da leitura coletiva e desejar continuar com o projeto. E não é que foi uma das melhores decisões que já tomei em minha vida?! Porque ler essa história... mergulhar no mundo criado pela Elizabeth Gaskell, um mundo baseado nas realidades da época e que tanto mexiam com a própria autora foi simplesmente um privilégio. Ler este livro é um presente que ninguém deveria recusar. 

E falando em presente... Ele foi um dos meus pedidos de aniversário. :D Minha mãe aceitou me fazer tão feliz (risos) e permitiu que eu o escolhesse, por mais que ela achasse que eu já tinha livro demais e fosse doença ler tanto.rs As pessoas que não gostam de ler não conseguem compreender que às vezes desejamos ler uma história que ainda não temos.kkkkkkk

"De bom grado ela se teria agarrado às bordas do tempo que se despedira e rezaria para que ele voltasse e lhe devolvesse aquilo que tivera outrora e valorizara tão pouco como sendo seu. Como a vida parecia um espetáculo sem sentido! Quão insignificante e frágil e passageira! Era como se de algum campanário, lá do alto acima da agitação e do barulho da terra, houvesse um sino batendo continuamente. "Tudo são sombras - tudo é passageiro - tudo é passado!"

- Após passar anos sendo criada por sua tia materna, tendo sua prima Edith como uma irmã, Margaret estava ansiosa para voltar para casa. Foram nove anos de distância, mal vendo sua família, aquela que ela ainda considerava sua, porque compreendia as escolhas dos seus pais, que tudo o que desejaram foi que tivesse uma educação e os cuidados que eles sentiam que não poderiam lhe dar na casinha no interior. Ela tinha o direito de ter uma vida grande, rodeada pelas diversões proporcionadas por Londres. Mas a realidade é que tudo o que seu coração mais quis foi poder retornar... e reatar com os pais os laços de afeto. Queria a proximidade com a mãe, aquela que invadia suas lembranças. Queria sentar ao lado do pai e ouvi-lo falar de seus livros. Queria simplesmente estar em casa. 

Só que seu retorno não é bem como ela imaginava. Pouco tempo depois é surpreendida por uma revelação chocante do seu pai, do homem que ela achava que tinha as ideias e os princípios mais sólidos, que sabia exatamente o que queria da vida. Mas suas palavras mudam não só a maneira como ela enxergava sua família como também todo o seu mundo. De uma hora para outra é obrigada a sair da paróquia de Helstone, no sul da Inglaterra, para a desconhecida Milton, uma cidade do norte, cujo ar era contaminado pelas fábricas e todos eram grosseiros e mal-educados. Como conseguiria sobreviver tão longe dos amigos que amava, da vida que tivera até então? Como estar longe do lugar para o qual tanto quis voltar? E precisavam ir justamente para uma região que ela já desprezava. O pior de tudo era ter que se mostrar forte. Ser o amparo que a mãe necessitava e o ponto de reconciliação de seus pais, pois se a mudança era brusca para ela, para sua mãe era um tormento. 

Logo ao chegar em Milton, antes mesmo que sua família conseguisse se estabelecer, o caminho de Margaret se cruza com o de John Thornton, um industrial arrogante, que parecia considerar apenas a sua opinião como certa. Não demora para que primeiras impressões sejam formadas e mal-entendidos não sejam esclarecidos. De um lado, existia ela e sua aparente indiferença, tão dona de si e altiva, que ao conhecer as pessoas menos favorecidas da cidade se transforma em sua defensora contra a intransigência dele. De outro lado, John se via dividido entre o fascínio que aquela mulher lhe provocava e a irritação que seu orgulho e suas palavras lhe provocavam. Ele sentia o desprezo que ela sentia por ele e não fazia grande esforço para esconder. E embora quisesse retribuir o sentimento se via incapaz de calar o amor que o tempo tratou de nutrir em seu coração. Por que justamente ela? Por que tinha que se apaixonar pela única mulher que jamais olharia para ele e enxergaria mais que o homem de negócios cujas ideias e decisões ela repelia? E quando a greve que por tanto tempo ameaçara atingir os donos das fábricas finalmente estoura a relação de "antagonismo amistoso" que de mútuo acordo estabeleceram acaba por se transformar em algo mais violento... como se o destino conspirasse para que não existisse nenhuma possibilidade dos preconceitos serem superados e uma chance ser dada ao amor. 

"A questão é sempre a mesma: foi feito tudo que se podia para minorar o sofrimento dos menos privilegiados ao máximo? Ou, na vitória das massas, os desvalidos teriam sido pisoteados, em vez de serem gentilmente afastados do caminho trilhado pelo vencedor, cuja marcha eles não tinham força para acompanhar?"

- Se iniciamos a leitura de olhos fechados, sem conhecer muito sobre a obra, podemos acreditar que se trata de um romance entre duas pessoas que no princípio se odiavam. Mas logo que a família de Margaret chega em Milton e somos apresentados à realidade daquelas pessoas entendemos que é muito mais que isso. Que é um romance com forte contexto social, no qual a autora quis transmitir uma importante mensagem. Mostrar de maneira aberta e um tanto crua como era a vida das pessoas que trabalhavam e dependiam das fábricas, cujos patrões se mostravam cegos, como se operários e industriais tivessem que ser inimigos, onde concessões não eram admitidas. Conhecemos uma realidade de desespero e fome, de doenças causadas pelo trabalho extenuante e insalubre, de salários que não eram suficientes sequer para colocar comida na mesa, quando o preço da carne e dos outros alimentos subia e os salários em vez de aumentarem eram reduzidos sem que os patrões estivessem dispostos a darem explicações. Como não estourar uma greve? Se nenhum patrão estava disposto a olhar para o outro lado e enxergar que seus funcionários não eram máquinas? Que tinham famílias que precisavam sustentar? Que a angústia e as doenças os estava destruindo? 

"Creio que o sofrimento, ao qual a srta. Hale se refere e que está impresso no semblante do povo de Milton, não é outra coisa senão a punição natural pelo prazer desfrutado desonestamente em um período anterior da vida."

- Por me sensibilizar pelo sofrimento daquele povo eu não simpatizei muito com o John. Embora ele tenha construído sua carreira do zero, quando sua própria família se viu sem recursos ou perspectivas, embora tenha passado por enormes provações e soubesse o que era não ter nada, ele fechava seu coração para os outros. Porque acreditava que se estavam numa posição diferente era por serem preguiçosos, por não terem a mesma garra e coragem que ele teve. Então, segundo sua opinião, eles mereciam a vida que levavam. Isso me irritou profundamente e foi o que também fortaleceu o desdém da Margaret. Ela não podia gostar de um homem que tinha ideias tão insensíveis e não parecia sentir compaixão pelas outras pessoas, por aquelas que não tiveram a mesma força ou oportunidades que ele. 

"- Papai, eu acho realmente o sr. Thornton um homem fora do comum, mas pessoalmente não gosto nem um pouco dele."

Ainda que reconhecesse a inteligência e a garra dele, que admitisse que era um homem de negócios com inegável valor e admirasse o que ele construíra do nada, sua capacidade de não desistir até poder proporcionar uma vida confortável e segura à sua mãe e irmã, não podia gostar dele. Porque por mais que fosse um homem cujo exemplo devesse ser seguido, pelo menos no que se referia aos laços com a família e os amigos e o trato nos  negócios, as ideias dele entravam em choque com o que ela acreditava. E a antipatia que no início tentara esconder não demora a se tornar mais latente, ainda que um outro sentimento também a confundisse. 

"Penso se esta vida é a única e se não existe um Deus para enxugar as lágrimas de todos os olhos."

- É um livro que mexe profundamente com algo dentro de nós. Que nos desperta a compaixão e a revolta. E que ao mesmo tempo nos mostra os dois lados da moeda, tanto o lado dos operários e de suas famílias quanto os dos donos das fábricas, uma vez que John é um dos protagonistas e conhecemos bem a sua vida, chegando inclusive a compreender a sua maneira de ver algumas coisas, por mais que não concordemos. A autora tem todo o cuidado de tornar a sua história real. De ser imparcial quando tinha que ser, por mais que ela própria fosse forte defensora dos menos favorecidos, para poder dar voz também aos que poderiam ser vistos como "vilões", porém eram apenas seres humanos que não acreditavam realmente que estavam fazendo algo errado. Principalmente através das mudanças gradativas que ocorrem com o John é que percebemos como as coisas poderiam mudar... como só era necessário se permitir estar no lugar do outro, descer de seu pedestal e entender que empregados também têm sentimentos e necessidades. O John cresce muito ao longo da história e o desprezo que eu própria sentia por ele foi se transformando também até que só existia espaço para o amor. Ele é um personagem extremamente bem construído e seu amor pela Margaret é lindo e divertido. Lindo porque ele era capaz de fazer tudo por ela, mesmo sabendo que ela o odiava. São coisas simples, mas cheias de significados. E é também um amor divertido porque ele é bem passional, sabe.kkkkkk... Tudo é elevado a décima potência. Ele sente as coisas de maneira intensa e nesses momentos eu não conseguia controlar o riso. É muito drama num homem só, meu Deus! Mas isso só o tornava mais querido. :)

"O que queria saber era quais eram os direitos dos homens, fossem eles ricos ou pobres... Desde que fossem apenas homens."

- O romance que se constrói entre a Margaret e o John é lindo sim, mas, como eu disse, a história se concentra em outros pontos, é voltada para as questões sociais. Em muitos momentos eu senti meu coração apertar. Como não se comover quando uma jovem que deveria ter toda uma vida pela frente tem seu corpo e seu emocional destroçado por uma doença provocada pelo trabalho insalubre? Ela precisava trabalhar, no entanto, os patrões preferiam não gastar um dinheiro "desnecessário" com um exaustor que poderia evitar que as pessoas engolissem a penugem que se desprendia quando o algodão era fiado e as envenenava, provocando tosses e as fazendo cuspir sangue, diminuindo significativamente sua expectativa de vida?! Como não sentir um nó na garganta quando, por outro lado, existiam operários que até preferiam a ausência de exaustor, pois a penugem que engoliam pelo menos enganava a fome. É uma realidade desesperadora. E ainda vemos um pai de família angustiado porque não consegue trabalho, uma vez que participou de uma greve por melhorias e agora ninguém quer ter um "agitador" como empregado. Um homem que só lutou pelos seus direitos, ainda que tenha se excedido, e se via sem ter um centavo para dar de comer aos filhos, sabendo que quando voltasse para casa os encontraria chorando de fome. Isso dói dentro da gente. 

"Fale comigo de novo daquele antigo modo, mamãe. Não nos deixe pensar que o mundo endureceu os nossos corações. Se voltasse a falar aquelas palavras, eu voltaria a sentir um pouco da simples felicidade da minha infância."

- É um livro riquíssimo. Com personagens que nos marcam, que nos conquistam, que nos ensinam muito. Margaret é uma das minhas heroínas preferidas. Uma mulher cheia de contraste e de humanidade. Que sofre muito ao longo da história, mas que não permite que coisa alguma transforme a maneira como ela enxerga as coisas e como se sensibiliza com a dor dos outros. Ela tem uma inteligência que nos causa admiração. Seus diálogos são uns dos melhores do livro, as conversas que ela mantinha, a forma como expressava seu ponto de vista e ao mesmo tempo permitia que o outro também tivesse voz. Ela chega até mesmo a compreender os donos das fábricas, mesmo não concordando com eles. E foi uma personagem muito importante na vida de muitos dos outros personagens. 

Uma história que não fala só de sofrimento, mas também de compaixão. De como ainda existem pessoas boas nesse mundo, que mesmo não tendo nada ainda assim dividiam com o outro. Nicholas Higgins merece uma menção honrosa pelo homem maravilhoso que foi, um personagem pelo qual talvez não déssemos nada no início, mas que também cresceu bastante e se transformou num dos meus preferidos. Também não poderia deixar de mencionar a mãe do John, que mesmo sendo uma pessoa severa e que odiava a Margaret foi uma mãe incrível, apoiando o filho sempre e estando ao seu lado quando ele mais precisou. A relação dos dois era belíssima. 

Se recomendo o livro?! Com todo o meu coração!!! Queridos, simplesmente não percam a chance de ler essa história. Vocês não fazem ideia do quanto ela é preciosa. Do tanto que nos ensina. É um livro que guardarei num lugar exclusivo do meu coração e da minha estante. Um livro que não vendo, troco ou empresto. É uma das minhas joias mais queridas. E tem um final daqueles que nos deixam com um sorriso no rosto. Amo demais! 

- A leitura do livro teve a duração de cinco semanas por ter sido uma Leitura Coletiva. Iniciou em 04/08 e terminou em 09/09. Só que os debates no grupo do Facebook irão até o dia 16/09 quando então será realizado o sorteio do livro O Conto da Aia, nossa próxima leitura em grupo. Se você não conseguiu participar da leitura de Norte e Sul, mas gostaria muito de ler com a gente O Conto da Aia só precisará aguardar um pouquinho que logo, logo traremos todas as informações de como funcionará! Qualquer pessoa pode participar. Não é necessário seguir nenhum dos blogs organizadores ou seus perfis no Facebook. As regras geralmente são: ler o livro e participar do grupo de debate no Facebook. Mas nem mesmo a participação nos debates é obrigatória, só é uma maneira de interagirmos e dar a chance dos leitores concorrerem ao sorteio que fazemos sempre ao final do período de leitura. A Leitura Coletiva é um projeto que estamos levando muito a sério e que pretendemos continuar durante um longo tempo. :D 

2 de agosto de 2018

Hamlet - William Shakespeare

(Título original: Hamlet
Tradutor: José Antonio de Freitas
Editora: Martin Claret
Edição de: 2010)


Considerado o mais influente dramaturgo de todos os tempos e o maior escritor da literatura inglesa, William Shakespeare (1564-1616) escreveu poemas, comédias, tragédias e dramas históricos que foram traduzidos para os principais idiomas do mundo. Sua obra teatral, conservando toda a complexidade, mistério e encantamento no curso do tempo, é permanentemente representada no teatro e transposta para o cinema e televisão. 

Hamlet, a tragédia do triste príncipe da Dinamarca enredado em intrigas, traições e vinganças, é uma das peças mais conhecidas e apreciadas do Bardo de Avon. Muitos estudiosos se debruçam sobre esta obra, que pode ser examinada e interpretada por diferentes perspectivas, tendo sido como objeto de estudo para Freud e Lacan, e inspirado escritos notáveis, como Goethe, Joyce e Dickens, entre outros.



Palavras de uma leitora... 



- Cerca de dez anos atrás, curiosa por conta de todo o amor que muitas pessoas sentem pelas obras de Shakespeare, caí na besteira de dar uma chance ao livro Romeu e Julieta, uma das tragédias mais famosas do autor. Claro que já conhecia a história. É impossível passar pela vida sem obter spoilers desse livro.rsrs É uma história que costuma ser trabalhada nas salas de aula, que faz parte das bibliotecas escolares e vende aos montes ainda nos dias atuais. E não, eu nunca tive paciência para assistir nenhuma adaptação. Já tinha antipatia pela história antes de lê-la, confesso. Posso ser uma romântica incurável, mas Romeu e Julieta nunca me encantaram. Dois jovens apaixonados que se suicidam por amor. Ainda não consigo enxergar a magia que enfeitiça tantas pessoas. Tudo bem, eles não tinham intenção de se matar, pretendiam fugir juntos para viver seu grande amor, uma vez que suas famílias eram inimigas mortais e o amor entre eles era impossível. Mas fizeram tanta besteira, uma escolha mais estúpida que a outra que não consegui sentir compaixão, me comover nem nada. Tudo o que me prometi foi que nunca mais leria nada de Shakespeare.kkkkk...

Mas com o passar dos anos e os planos de ler mais clássicos, voltei atrás na minha decisão. Não custaria tanto assim pelo menos ler algumas de suas tragédias. Todavia, não estava na minha meta fazer isso este ano. Ocorre que a leitura de Emma, de Jane Austen, teve que ser adiada (era o clássico de julho) por causa do TCC e eu precisava incluir um novo clássico na lista, um que fosse mais curto e rápido de ler. 

Como a leitura seria em grupo, com outras amigas no WhatsApp, deixei que elas escolhessem entre Antígona (de Sófocles) e Hamlet. O segundo acabou ganhando, o que me provocou certo desespero.rsrs Deveríamos começar a lê-lo no dia 20/07 e encerrar em 31/07. Eu até comecei a leitura no dia programado, mas só fui até a página 21. O livro estava me provocando tanto tédio que o deixei de lado e fui ler O que dizem seus olhos. Voltei para a peça apenas no dia 28/07 e abandonei de novo.kkkkkkkk... Dessa vez para ler Rebelde e Um mundo novo.rs O que posso fazer se o autor não consegue me envolver, gente?! E não é que eu tenha um sério problema em ler peças (tudo bem, não gosto muito), pois amei a experiência de ler Édipo Rei, de Sófocles (embora, definitivamente, tragédias não sejam para mim), um escritor muito mais antigo que Shakespeare, e que poderia ter me causado maior dificuldade. A questão é que não consigo simpatizar com as histórias do autor. Não me convencem. Tudo parece forçado demais. 

- Concluí a leitura apenas no dia 31 e pode-se dizer que li o livro todo num dia, vez que antes só tinha chegado à página 21. E creio que ganhará o prêmio de história mais tediosa e estúpida do ano. Sério! Quanta baboseira num livro só! Começo a pensar que não existirá o dia em que verei as obras de Shakespeare com bons olhos.

"Há dois meses apenas que ele morreu... não, nem tanto... ainda não há dois meses..."

A história gira em torno de Hamlet e a quase certeza que ele tem de que seu pai foi traído e assassinado pelo próprio irmão, o atual rei da Dinamarca. 

Muito apegado ao pai, ele não consegue superar a perda, estando ainda de luto enquanto todos os outros parecem ter seguido muito bem com suas vidas. Especialmente sua mãe, que em prantos sofreu a morte do marido, mas cerca de um mês depois já estava casada com seu irmão, dedicando a ele palavras de amor eterno. Hamlet vê com muita ironia e desprezo a relação entre os dois, a considerando incestuosa e inaceitável, nutrindo em seu coração não apenas o ódio pelo tio, mas também um ressentimento profundo em relação à mãe, quem ele passou inclusive a ver como uma rameira. 

Paralelo a isso temos a jovem Ofélia, moça sonhadora e submissa, a quem Hamlet jura amor. Obediente ao pai, ela lhe confessa o interesse do jovem príncipe e Polônio proíbe terminantemente a filha de voltar a encontrar-se com o rapaz, pois seus mundos eram diferentes. E o príncipe nunca se casaria com alguém como ela. 

Ocorre que uns soldados e oficiais, bem como o amigo de Hamlet (Horácio) ficam assombrados com o aparecimento de um espectro, que era a imagem do falecido rei. Sem saber o que pensar e repetindo-se a aparição, resolvem comunicar o fato ao príncipe, que decide ficar de guarda com eles para o caso do fantasma retornar. 

Embora o espectro tenha se negado a falar com os outros pediu que Hamlet fosse com ele para lhe contar algo importante. Foi quando lhe revelou algo terrível: o fantasma que tanto se parecia com seu pai disse a ele que foi assassinado pelo irmão, inclusive relatando como ocorreu a morte e por que não houve suspeitas. 

"[...] Porém, sabe tu, ilustre jovem: a serpente que mordeu teu pai e lhe tirou a vida agora cinge-lhe a coroa."

Transtornado, sem saber bem o que pensar, mas no fundo do seu coração acreditando que aquilo era verdade, se vê dividido entre a vingança e a dúvida que corroía sua mente. Em seu coração sabia que o tio, seu próprio sangue, tinha assassinado o irmão. Mas sua mente não sabia ao certo e necessitava de provas. Porque não poderia cometer um homicídio sem ter certeza de que a vítima mereceria a morte. 

Hamlet, então, muda drasticamente de comportamento, o que faz o rei e a rainha desconfiarem que algo de errado se passava. Polônio, supondo que o príncipe enlouquecia de amor por ter sido privado da companhia de Ofélia, garante ao rei que aí residia o problema, algo que não tranquiliza o monarca, que começa a ver no sobrinho um obstáculo. Sua "loucura" era uma ameaça a todos ao seu redor e no amor que o povo sentia pelo jovem príncipe também existia um perigo. O melhor seria mandá-lo para longe...

Cada vez mais agitado e dizendo coisas aparentemente sem sentido, embora entremeadas de lucidez, Hamlet aproveita uma oportunidade única de testar o tio e comprovar se o que o espectro dissera era verdade ou algo vindo dos infernos para confundi-lo e fazê-lo perder a razão. 

E a partir daí que começa um jogo de armadilhas e traições em que a morte parece um destino certo para quase todos os envolvidos. 

- Eu não tenho nenhuma intenção de dar spoilers do livro. Embora todos saibamos começo, meio e fim da história de Romeu e Julieta sem sequer necessitarmos ler (risos), o mesmo não acontece com Hamlet. Eu, pelo menos, nada sabia antes de ler. Claro que pude prever os acontecimentos, afinal de contas, trata-se de uma tragédia. Bastava ter um leve conhecimento do que o autor gostava de colocar em suas peças para imaginar o rumo que as coisas tomariam. E não me surpreendi com absolutamente nada. 

"[...] Mãe, por amor da salvação, não derrameis sobre a vossa alma o bálsamo enganador de que não é o vosso crime, e sim a minha loucura quem fala; isso apenas serve para cobrir com uma tênue película o lugar da úlcera, enquanto a gangrena sem ser vista, minando por baixo, infecciona tudo."

- Não tive paciência com nenhum personagem desta tragédia. Também não senti compaixão alguma. Todos me pareceram completos imbecis, incapazes de guiar a própria vida com um mínimo de inteligência. Todavia, o fato do livro ter me feito revirar os olhos de tédio e os personagens apenas terem me provocado repulsa não faz com que eu deixe de mencionar certos pontos. Como, por exemplo, a maneira como o Hamlet tratava a mãe. 

Que ele estivesse de luto pela morte do pai eu entendo. E também não encaro muito bem o fato da mãe dele ter resolvido se casar com o cunhado um mês depois da morte do adorado marido. É algo que não seria bem visto nem nos dias atuais. Como o protagonista ironiza num determinado momento: o amigo não tinha chegado para o velório de seu pai, mas sim para o casamento de sua mãe, vez que é curto o intervalo de tempo entre um acontecimento e outro. Porém, nada dá a ele o direito de falar com a mãe daquela forma desprezível, nem ficar debochando ou chamando-a de rameira. Durante a leitura quase toda fica evidente como ele detesta a própria mãe, como julga e condena sem piedade. Impossível sentir um mínimo de afeto por um personagem desse tipo. Que se julgava tão acima de qualquer erro e considerava-se o dono de toda verdade e moral. 

- Outro ponto é a intenção (na minha opinião) do livro ser apenas um espetáculo. É uma peça, que foi escrita mesmo para ser representada. Mas que não teve a preocupação de ter personagens consistentes, que nos fizessem acreditar, pelo menos, em metade do que eles aparentemente sentiam. Dá para visualizar o "show", a dramatização de relações familiares, impregnadas de traições, para impressionar quem lesse/assistisse. É algo muito diferente do que encontrei em Édipo Rei, por isso penso que deveria ter apostado em Antígona e não em Hamlet.rs

- Sei que muita gente morre de amores pelas obras do autor e deve estar querendo me esganar, mas, infelizmente, Shakespeare não é para mim. Não tenho paciência com tanto drama forçado e sem sentido. Claro que não sou nenhuma estudiosa das peças do autor, não sou especialista alguma. Apenas uma leitora. E talvez tenha quem diga que o livro é precioso, fonte de diversas reflexões, riquíssimo, inspiração de outros grandes autores (Shakespeare SEMPRE é) etc. Que ele aborda assuntos importantes e é um clássico de peso. Eu diria que existem outros diversos livros, entre clássicos e não clássicos, que tratam dos mesmos assuntos e são mil vezes mais interessantes. 

- Uma curiosidade: descobri que muitas daquelas frases feitas que utilizamos (como: ser ou não ser, eis a questão) foram retiradas deste livro.rsrs Não posso negar que possui alguns trechos que realmente merecem destaque e eu marquei vários deles. 

É a segunda vez que me decepciono com o autor. Então, já não sei se apostarei nas outras obras dele. Preciso pensar sobre o assunto.rs

- Esta foi minha última leitura do mês de julho, mas vocês provavelmente terão acesso à resenha no dia 02 de agosto. :)
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