31 de dezembro de 2019

Cântico de Natal / Os Carrilhões - Charles Dickens

Tempo de leitura:
Literatura Inglesa
Título Original: A Christmas Carol / The Chimes
Tradutor: John Green
Edição de: 2004
Páginas: 183

Sinopse: Os historiadores de literatura consideram Charles Dickens uma figura proeminente no romance inglês do século XIX, chegando mesmo alguns a apontá-lo como o maior romancista que a Inglaterra já produziu. 
Sua obra, impregnada de mistério, é aparentada com o romance gótico e constitui um vasto painel melodramático da Londres industrial de 1830-1850. 
Entre romances e contos, Dickens escreveu várias obras-primas. Sua postura essencialmente sentimental expressou-se com muita nitidez em seus contos de Natal. Cântico de Natal (1843) é quase um conto de fadas; tornou-se parte integrante da mitologia natalina anglo-saxônica. Outro texto de Dickens sobre a mesma temática é Os Carrilhões (1845), incluído neste volume. 



"Sua maior felicidade era abrir caminho através das estradas atravancadas da vida, tendo sempre a distância toda e qualquer simpatia humana."

Em Cântico de Natal, Ebenezer Scrooge era um homem muitíssimo rico, que não tirava qualquer proveito do dinheiro, fosse para si mesmo ou para os outros. Gostava de saber que tinha dinheiro e o guardava como seu bem mais precioso, seu único amor. Maltratava seu empregado e lhe pagava o mínimo possível, mesmo sabendo que não era o suficiente para ele sustentar sua família. 

Não ajudava o próximo, não amava ninguém e recusava toda e qualquer tentativa de aproximação de seu sobrinho, que era sua única família. Era uma pessoa fria, até mesmo cruel, e desprezava com todas as suas forças o Natal. Não se permitia ser amado e estava muitíssimo satisfeito com sua existência solitária e vazia. Até que...

... seu antigo sócio, Jacob Marley, aparece em sua casa. Não seria nada surpreendente, exceto pelo fato de que Marley tinha morrido há alguns anos. Chocado por tão inesperada visita, ele recebe, de um profundamente triste ex-sócio, que vagava pelo mundo por conta de todos os seus inúmeros erros passados, a notícia de que será visitado por três espíritos, um após o outro. O Espírito dos Natais Passados, o Espírito dos Natais Presentes e o Espírito dos Natais Futuros. 

Embora Scrooge acredite que tudo não passou de um terrível pesadelo, não demora a perceber que aquela era a mais incrível realidade e que deveria considerar tais visitas como uma segunda chance. Uma oportunidade que se desperdiçada poderia condená-lo a um futuro que nem ele mesmo desejaria ao pior inimigo. 

"- A conduta de um homem pode fazer prever o seu fim - disse Scrooge -, mas se ele muda de vida, também o seu fim não será modificado?"

Eu já tinha ouvido falar muito desse conto, mas não sabia de fato do que se tratava. Acho que teve até uma adaptação dos filmes da Barbie (lembram dos filmes da Barbie que eram releituras de contos de fadas? Eu assistia sempre!), mas eu assisti muito tempo atrás e já não lembrava da história. 

Scrooge é aquele tipo de pessoa que precisa passar por um grande susto para aprender a dar valor à vida. Ele era amargo, frio, um homem que não se importava com absolutamente ninguém, que ficava feliz em fazer os outros sofrerem, principalmente seu funcionário, a quem tratava com toda ignorância. Então, quando recebe a visita dos espíritos, que o levam ao seu passado, a alguns momentos do presente e, por fim, ao futuro que poderia ter (e certamente teria), ele se vê diante de uma realidade que não queria encarar e o medo enorme de ter um fim como o que lhe é mostrado. 

É um conto que fala de compaixão, solidariedade, amor ao próximo. Que trata dos valores que realmente importam... que ensina a olhar para as outras pessoas, que passam por dificuldades piores que as nossas, e estender a mão, oferecer a ajuda que você puder dar. Às vezes até mesmo um sorriso pode tornar o dia de alguém melhor. E nem isso Scrooge fazia. Nem mesmo sorrir para outra pessoa ou dizer "Bom dia!". Ele estava condenando a própria alma com sua crueldade, com sua frieza. Felizmente, ele aprende a lição. 

"História mágica de uns sinos que anunciavam a saída de um ano velho e a entrada de um ano novo"

O trecho acima pode nos dar a ilusão de que em Os Carrilhões encontraremos um levíssimo conto sobre a virada de ano. Uma ilusão mesmo, pois de leve este conto não tem nada. Muito pelo contrário! É um conto que me fez chorar, me provocou uma enorme revolta e sensação de impotência.

Nele temos Toby Veck, um senhor de mais de sessenta anos de idade, que trabalhava como "moço de recados", único trabalho que encontrara e que o tornava dependente da boa vontade dos outros, que sempre lhe pagavam o que consideravam "suficiente" (e estava longe de sê-lo). Eram tempos muito difíceis para as pessoas pobres, que muitas vezes não tinham o que comer ou onde morar.

Toby tinha o hábito de conversar com os carrilhões, conjunto de sinos que ficavam no alto da Igreja, pois acreditava que, inexplicavelmente, eles eram capazes de consolá-lo, de dizer-lhe palavras de conforto. Naquela noite, com fome, mas sem esperanças de se alimentar, foi surpreendido por sua linda filha, uma jovem trabalhadora, que mesmo levando uma vida tão terrível era capaz dos mais belos sorrisos, de uma alegria contagiante. Ela levou o jantar do pai, dobradinhas, "um verdadeiro luxo", algo que ele não imaginava poder comer nem tão cedo, vez que era um alimento caro naquelas épocas. Meg usara todo o dinheiro que ganhara naquele dia (quando nem imaginava que fosse ser paga, pois os patrões pagavam quando queriam) para poder dar aquela alegria ao pai. Ele comeu com imenso prazer, fazendo todo o possível para fazer aquele jantar delicioso render e assim poder apreciá-lo devagar.

Ocorre que ele estava jantando em umas escadas que faziam parte de uma residência desconhecida. Logo descobriria que ali vivia um juiz, homem aparentemente afável, generoso, mas que não passava de um corrupto que sentia prazer em condenar aqueles que não podiam se defender, ou seja, os pobres.

"Não sei o que será de nós, os pobres. Meu Deus, faz com que caminhemos para algo melhor no Novo Ano que se aproxima!"

Através deste encontro extremamente desagradável com o juiz, Toby acaba sabendo das intenções dele e do chamado "Pai dos Pobres" de condenar à prisão um tal de Will Fern, homem que fora para Londres em busca de emprego, mas que foi encontrado à noite dormindo num alpendre com a sobrinha de nove anos, vez que não tinham onde dormir. Não tinham dinheiro para nada. Aquilo foi considerado uma grande "afronta" para o "justo" juiz, que decidiu fazer de Will um exemplo ao prendê-lo por ser "um vagabundo". E o digníssimo "Pai dos Pobres" concordava completamente com aquela "sentença".

Quis o destino que Toby, após saber de tão injusto castigo que estava reservado para aquele homem, esbarrasse num desconhecido, que caminhava tristemente com uma criança nos braços. Logo descobriu que se tratava do tal Will Fern e fez o que qualquer ser humano digno de ser chamado de ser humano faria: informou o que o juiz pretendia fazer com ele e, vendo que ele não tinha onde ficar, ofereceu sua humilde casa para abrigá-lo e protegê-lo dos olhos das autoridades.

Este conto mexeu demais comigo, me causou um grande impacto. Foram muitas as cenas que provocaram um nó na minha garganta, mas uma das que mais me emocionaram foi aquela na qual o Toby pegou todas as moedas que tinha para comprar um pouco de chá e toucinho para alimentar o Will e a pequena Lilian. Como a quantidade não era suficiente para alimentar os quatro, ele fingiu não gostar de chá nem de toucinho e sua filha Meg fez o mesmo. Assim, os dois ficaram vendo o Will e a pequena Lilian comerem e beberem e o que mais doeu em mim foi a imensa alegria que eles sentiram ao fazer aquilo por aqueles dois desconhecidos. Eles se sentiam muito bem em poder dar aquele pequeno alimento para o Will e a sobrinha, se sentiam em paz por terem feito aquilo, por eles terem se alimentado. Gente, o Toby não tinha nada! Nada, nada! Mas mesmo assim se privou de comer para alimentar outras pessoas que também não tinham o que comer. São os pobres ajudando os pobres, enquanto aqueles que têm condições financeiras de fazer algo ficam em suas bolhas, achando que os menos favorecidos estão nessas condições porque querem.

Há muito amor neste conto. Aquele amor que não espera nada em troca, que é humilde e puro. Lendo esta história você sente um imenso desprezo por aquelas autoridades imundas, aquela gente corrupta e odiosa, mas ao mesmo tempo sente imenso amor por Toby, Meg, Will e Lilian, além de outras pessoas humildes como eles, mas que tinham um coração maravilhoso e ajudavam uns aos outros.

Não vou dar spoiler dos acontecimentos mais importantes do conto. Só digo que Os Carrilhões é especial e deveria ser mais conhecido e amado que Cântico de Natal.

"E, assim, possa o Ano Novo ser um ano feliz para vós e para muitos outros cuja felicidade depende de vós! E, assim, que cada ano seja mais feliz que o anterior, e que os mais humildes dos nossos irmãos não sejam privados do legítimo quinhão de felicidade que Deus lhes destinou."

Feliz Ano Novo! 

Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

Um comentário:

  1. oi
    tenho visto muito o nome desse autor ultimente no meio literario mas a sua resenha e a primeira que leio sobre a obra dele
    deve ser um conto incrivel
    pela sua resenha da para perceber que e uma obra incrivel
    Feliz Ano Novo com muita paz saude alegria amor e claro otimas leituras !!

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