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3 de maio de 2021

A Letra Escarlate - Nathaniel Hawthorne



Literatura norte-americana
Título Original: The scarlet letter
Tradutor: Christian Schwartz
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 336

12ª leitura de 2021 (12ª resenha do ano)

Sinopse: Na rígida comunidade puritana de Boston do século XVII, a jovem Hester Prynne tem uma relação adúltera que termina com o nascimento de uma criança ilegítima. Desonrada e renegada publicamente, ela é obrigada a levar sempre a letra “A” de adúltera bordada em seu peito. Hester, primeira autêntica heroína da literatura norte-americana, se vale de sua força interior e de sua convicção de espírito para criar a filha sozinha, lidar com a volta do marido e proteger o segredo acerca da identidade de seu amante. Aclamado desde seu lançamento como um clássico, A letra escarlate é um retrato dramático e comovente da submissão e da resistência às normas sociais, da paixão e da fragilidade humanas, e uma das obras-primas da literatura mundial.




Paciência é algo que não venho tendo neste ano de 2021, em que tantas coisas ruins já aconteceram só nesta primeira metade do ano. Acredito que este tenha sido o principal motivo para o livro receber três estrelas e ter escapado por pouco das 2 estrelas. Não tive paciência com a maior parte dos personagens de A Letra Escarlate. E nem com o autor! Mas... Pensando bem... Mesmo se estivéssemos vivendo um período maravilhoso ainda assim teria sentido vontade de esganar a maioria dos personagens desta história.  

Eu cheguei a considerar não escrever esta resenha, de tão revoltada que esta história me deixou! Mas quando um livro consegue gerar um "incômodo" tão grande no leitor vale a pena falar sobre ele. 

"[...] convinha a uma gente para a qual religião e lei eram quase a mesma coisa, e em quem ambas se entrelaçavam profundamente, que o mais leve e o mais severo castigo público fossem tornados igualmente respeitáveis e terríveis. Escassa e fria era a condescendência que um condenado naquele limiar poderia esperar da plateia."

O século é o XVII, que por si só já diria muita coisa. Todavia, para completar a sorte da nossa protagonista, a jovem Hester, ela faz parte de uma comunidade puritana de Boston, que não admite erros, nada que fuja de suas regras. As consequências são sempre muito graves, em alguns casos até mesmo a pena de morte. E era o que algumas pessoas inclusive chegaram a desejar para Hester: que ela tivesse sido condenada à morte por seu "crime". E qual foi o grande crime desta mulher? Se envolver intimamente com um homem sem ser casada com ele. Considerada "adúltera", embora todos acreditassem que o marido dela tinha morrido no mar (considerando que tinha sumido desde a última viagem e isso já fazia muito tempo), foi severamente condenada por sua comunidade e presa para aguardar o julgamento legal, mesmo grávida. 

Após um tempo na prisão, e com sua bebê já nos braços, recebeu como sentença um período na cadeia e a eterna exposição pública ao ter que carregar presa ao peito a letra "A" escarlate, como marca do seu adultério. Qualquer pessoa que visse aquela letra saberia o seu significado e jogaria sobre ela toda a força do seu desprezo. Embora ainda fosse membro daquela sociedade, foi excluída de tudo, não tendo mais amigos, não podendo mais frequentar os lugares sem que recebesse olhares de ódio. Era muito para qualquer pessoa aguentar, mas Hester não estava disposta a simplesmente desistir. Por mais que o desespero ameaçasse levá-la à loucura, buscava em seu interior toda a força necessária para suportar toda aquela injustiça. 

3 de novembro de 2020

Frankenstein - Mary Shelley



Literatura Inglesa
Título Original: Frankenstein, or, The Modern Prometheus
Tradutor: Christian Schwartz
Editora: Penguin & Companhia das Letras
Edição de: 2015
Páginas: 424

62ª leitura de 2020 (56ª resenha do ano)

Sinopse: O arrepiante romance gótico de Mary Shelley foi concebido quando a autora tinha apenas dezoito anos. A história, que se tornaria a mais célebre ficção de horror, continua sendo uma incursão devastadora pelos limites da invenção humana. Obcecado pela criação da vida, Victor Frankenstein saqueia cemitérios em busca de materiais para construir um novo ser. Mas, quando ganha vida, a estranha criatura é rejeitada por Frankenstein e lança-se com afinco à destruição de seu criador. Este volume inclui todas as revisões feitas por Mary Shelley, uma introdução da autora e textos críticos de Percy B. Shelley e Ruy Castro. Há ainda um apêndice com textos de Lorde Byron e do dr. John Polidori.



Observe-se que esta leitura consta como a 62ª do ano, mas a de E Não Sobrou Nenhum consta como 63ª. Isso ocorre porque Frankenstein foi minha última leitura de outubro E Não Sobrou Nenhum foi a primeira de novembro.rs Eu só inverti a ordem das resenhas. 

Na resenha do livro da Agatha Christie (resenha aqui) eu comentei que recentemente tinha lido dois livros nos quais existiam personagens brincando de Deus. No da referida autora era um psicopata que tinha decidido julgar e condenar pessoas por seus pecados, aplicando a pena que ele considerava adequada. Só que se você pensar bem, a crueldade do assassino e seus jogos eram tão doentios, que não era bem "brincar de Deus", mas sim brincar de diabo.

Já em Frankenstein as coisas são bem diferentes. Não se trata de ninguém querendo "fazer justiça" com as próprias mãos, mas sim de um cientista que se considera o máximo, o "escolhido" para descobrir os mistérios da vida e decide que vai criar outro ser humano.... no laboratório. Que vai descobrir o que "dá vida", qual é essa essência que faz um ser humano surgir do nada e "respirar", como Adão, lá no livro de Gênese, na Bíblia Sagrada. Não estou mencionando religião porque sou cristã, mas sim porque o próprio livro vai fazer tais comparações, principalmente quando conhecemos o ponto de vista da Criatura feita por Victor Frankenstein. 

"[...] seguindo as pegadas já deixadas, serei o pioneiro de um novo método, explorarei forças desconhecidas e revelarei ao mundo os mais profundos mistérios da criação."

Só que na Bíblia, Deus criou Adão do pó da terra e "soprou o fôlego da vida em suas narinas, e o homem se tornou ser vivo." (Gênese 2, versículo 7). O Dr. Victor Frankenstein não pretendia criar nenhum novo ser humano do pó da terra, mas sim de restos de cadáveres que ele pegava em cemitérios, por mais horror que sua própria atitude lhe provocasse. Ele queria satisfazer seu desejo pessoal, seu ego, ao conseguir dar vida a alguém, e não lhe importava (naquele momento) que estivesse fazendo seu experimento com restos de corpos de outras pessoas, que tinham vivido e mereciam respeito, que ele estava violando os restos mortais de seus semelhantes. Ele chega a pensar o seguinte, como justificativa para o que estava fazendo: "Para examinar as causas da vida, devemos antes recorrer à morte." E logo através desse egoísmo e loucura do protagonista, percebemos que aquela experiência estava fadada desde o princípio a provocar resultados monstruosos. Que se ele realmente conseguisse dar vida ao que ele estava criando, os resultados seriam os piores possíveis. E que, definitivamente, ele estava mexendo com o que não devia, estava ultrapassando limites, sem ter a capacidade de lidar com as consequências

"O que poderá deter o coração determinado e o desejo resoluto de um homem?"

E eis que ele trabalha loucamente durante dois anos (creio que foram dois anos, já não lembro bem), se tornando irreconhecível para as pessoas ao seu redor, tão focado em seu experimento que já não se importava com nada mais, nem com a família que há muito não recebia notícias suas. Ele então cria um ser mais alto e forte do que qualquer outro ser humano, mais resistente aos climas, com capacidade de ser mais veloz, só que com a aparência de um monstro. Uma aparência capaz de provocar repulsa e pavor em qualquer pessoa. Só que sua criatura ainda não "respirava" e o livro não deixa claro qual é o "segredo da vida" que o Dr. Victor Frankenstein descobriu capaz de fazer alguém começar a respirar, ter vida. Já ouvi falar que em filmes inspirados no livro, isso ocorre através de eletricidade, raios, sei lá.rs Nunca vi nenhum filme sobre esta história, então não sei como é feito nos filmes. Mas no livro, quando eu passei pela cena, não entendi como aconteceu, pela minha leitura da cena eu digo que não ficou claro. Enfim... 

"Depois de dias e noites de esforço e cansaço inimagináveis, logrei descobrir a causa da geração da vida; e, mais importante, tornei-me capaz de reanimar matéria morta."

Depois de muitos esforços, ele finalmente consegue o que tanto queria: sua criação estava viva. Ele tinha se tornado o Criador de um ser humano único (ou algo próximo de um ser humano), tinha realizado o seu sonho. E o que ele faz quando a Criatura abre os olhos e sorri para ele?! Foge desesperado.

Sim, sabíamos desde o princípio que Victor era um covarde, um homem fraco e mimado, acostumado a ter o que queria, mas que não tinha maturidade nenhuma para lidar com suas próprias atitudes. Enquanto sua Criatura ainda não respirava, tudo estava perfeito. Ele estava feliz da vida, todo orgulhoso de si, com a certeza que a faria viver. Mas quando consegue que a Criatura tenha "fôlego de vida", se desespera. Percebe o que fez e foge, deixando à própria sorte o pobre coitado que não pediu para existir. Alguém que embora já fosse tecnicamente "adulto" em tudo era como uma criança inocente, jogada num mundo desconhecido, abandonada pelo pai, pelo seu Criador. É claro que ele iria colher as consequências de suas atitudes, embora pensasse que fugindo e se recusando a encarar o que tinha feito tudo ficaria perfeitamente bem. 

"E tu, no entanto, meu criador, detestas e rejeitas esta tua criatura, à qual tua arte te liga por laços que somente é possível romper pelo aniquilamento de um de nós. Estás disposto a me matar. Como te atreves a brincar assim com a vida?"

E o livro vai girar em torno justamente das consequências do que o Dr. Victor Frankenstein tinha feito, ao brincar de Deus e fugir de suas responsabilidades, abandonando seu "filho", fingindo que ele não existia. A história já começa anos depois, através das cartas trocadas entre um jovem aventureiro chamado Walton e sua irmã Margaret. Durante uma viagem, Walton e sua tripulação acabam encontrando um homem quase morto e o aceitam em seu navio, dando a ele todo o cuidado necessário na tentativa de que ele se recupere. Este homem doente é Victor. Logo, Walton começa a ver o desconhecido como um amigo e os dois se aproximam muito. Tudo isso ficamos sabendo através das cartas que Walton escreve para a irmã. 

Atormentado por seu passado, pelo terror que ele provocou e ao ver no amigo alguém muito parecido com ele em suas ambições de mexer com os mistérios da natureza, Victor decide contar toda a sua história e implora para o amigo não cometer os mesmos erros que ele cometeu. Assim, somos levados ao passado e descobrimos tudo o que aconteceu...

"Lembras que sou tua criatura; deveria ter sido teu Adão, mas parece que acabei como o anjo caído do qual tiraste a felicidade por pecado nenhum."

No trecho acima, um dos que mais me impactou, a criatura, atormentada por toda rejeição sofrida e pela forma como seu próprio criador queria sua morte, faz uma comparação com a história bíblica. Reflete sobre o fato que ele deveria ter sido para Victor como Adão foi para Deus, mas em vez disso acabou condenado como Lúcifer, o anjo caído que se transformou em demônio após ter desejado ser como Deus, ter tentado ocupar o lugar de Deus. Só que a diferença entre a criatura e o anjo caído é que ela não tinha cometido nenhum pecado. É essa injustiça, essa dor que mais machuca a criatura. Saber que não tinha feito nada para merecer a maneira como Victor a tratou e como queria sua destruição.

Claro que não vou contar tudo o que se passou entre criador e criatura porque seria spoiler, mas digo que essa é uma história que se fixa em nós por todas as reflexões que ela provoca, pela revolta que sentimos por todas as injustiças cometidas contra a Criatura e contra outros personagens no livro. A sensação de impotência, de não poder mudar coisas que até nos dias de hoje se repetem, como falhas do Poder Judiciário, preconceitos, descaso, a falta de empatia de muitos... O livro vai ter como tema central as questões referentes a relação entre um criador egoísta e irresponsável e sua criatura abandonada, mas também vai trazer muito da responsabilidade da sociedade pelas pessoas que ela rejeitou. O livro nos faz refletir sobre crianças abandonadas por suas famílias, pessoas humilhadas e seriamente afetadas pela sociedade... Enfim... Nós acabamos pensando em muitos assuntos e o que fica  ao término da leitura é uma sensação de tristeza. É algo parecido com o que sentimos quando lemos Capitães da Areia, do Jorge Amado.

"Tu, que és meu criador, serias capaz de destroçar-me em pedaços, triunfante; lembra disso e então me diz por que deveria eu apiedar-me do homem mais do que ele se apieda de mim?"


A autora aborda a seguinte discusão: é possível alguém nascer bom e ser corrompido pela sociedade? Se tornar cruel a partir da forma como é tratado pelos outros? E ela própria dá a resposta através do desenvolvimento da história: sim, é possível. Depois de apanhar tanto, de só receber ódio e agressão, um ser humano pode sim se revoltar e romper com a bondade que levava no coração e devolver aos outros exatamente o que estava recebendo deles. 

Frankenstein não é um livro de terror, embora seja considerado um. É muito mais um livro filosófico, creio. Uma história com o objetivo de fazer o leitor refletir... parar para pensar em questões sobre existência, injustiças, discriminação, abandono... A Criatura feita por Victor vai fazer várias coisas horríveis que vão sim nos revoltar, mas são as cenas em que ela conta a versão dela, o que se passou depois que foi abandonada por seu Criador, que nos fazem sentir vontade de chorar, que nos atingem a alma. Por uma coisa chamada empatia. Ao nos colocarmos no lugar dela, nos imaginando abandonados à própria sorte e recebendo de TODO MUNDO apenas ódio e violência, conseguimos compreender o que a levou a se tornar o que se tornou. Eu odiei a Criatura?! Sim, a odiei pelas coisas horríveis que ela fez. Mas também sofri muito por tudo o que ela passou. Eu pude compreender sua dor. E meu maior desprezo era pelo Victor e por aqueles que contribuíram para destruir aquela Criatura, destruir sua essência, os sentimentos bons que ela tinha. Eu senti muita tristeza e revolta com esta história. 

É fácil falarmos que não faríamos isso ou aquilo quando não passamos pelo que o outro passou. É muito fácil julgarmos de fora. Falta muito no mundo a capacidade de sentir empatia, de se colocar no lugar do outro. Se as pessoas pensassem mais no seu próximo, se refletissem antes de tomar uma atitude que pode causar mal ao outro, afetar a vida da outra pessoa... O mundo com certeza não seria o caos que é. Não seria um lugar perfeito e livre da maldade, claro. Não sou ingênua. Mas com certeza não seria o que é hoje. 


27 de julho de 2020

Úrsula - Maria Firmina dos Reis



Literatura Brasileira
Editora: Penguin & Companhia das Letras
Edição de: 2018
Páginas: 224

38ª leitura de 2020

Sinopse: Obra inaugural da literatura afro-brasileira, Úrsula é um dos primeiros romances de autoria feminina escritos no Brasil. Maria Firmina dos Reis, mulher negra nascida no Maranhão, constrói uma narrativa ultrarromântica para falar das mazelas sociais decorrentes da escravidão.

Tancredo e Úrsula são jovens, puros e altruístas. Com a vida marcada por perdas e decepções familiares, eles se apaixonam tão logo o destino os aproxima, mas se deparam com um empecilho para concretizar seu amor. Combinando esse enredo ultrarromântico com uma abordagem crítica à escravidão, Maria Firmina dos Reis compõe Úrsula, um dos primeiros romances brasileiros de autoria feminina, em 1859. Por dar voz e agência a personagens escravizados, é vista como a obra inaugural da literatura afro-brasileira. Retrata homens autoritários e cruéis, mostrando atos inimagináveis de mando patriarcal e senhorial em um sistema que não lhes impõe limites. Com rica introdução e contextualização histórica, esta edição de Úrsula celebra uma das autoras mais importantes da literatura nacional e conta com estabelecimento de texto e introdução de Maria Helena Pereira Toledo Machado e cronologia de Flávio Gomes. 




Este é um livro do qual eu não sabia o que esperar e que se tornou um dos meus favoritos. Como é que eu ainda não conhecia esta autora???!!! 

Faz horas que terminei a leitura e ainda estou atordoada. Este livro mexeu profundamente comigo. Mergulhei na leitura e em tudo o que acontecia... como se fizesse parte da história, como se estivesse acompanhando tudo de perto. E isso me atingiu em cheio. Porque é um livro doloroso. Que machuca o leitor. 

"Cadeia infame e rigorosa, a que chamam - escravidão?!... E entretanto este também era livre, livre como o pássaro, como o ar; porque no seu país não se é escravo." 

A história começa com o encontro inesperado entre Túlio, um jovem escravo que no fundo do seu coração sonha em ver-se livre das crueldades da escravidão, e Tancredo, um homem branco atormentado por traições familiares que desestabilizaram toda sua vida. Tancredo é salvo por Túlio após um acidente na estrada e, profundamente grato por alguém ter se importado tanto com ele como aquele desconhecido, busca conseguir sua liberdade logo após se recuperar. É a partir daí que entre os dois surge uma linda amizade, que os uniria até o fim de suas vidas. 

É para a casa da pobre Luzia B. que Tancredo é levado para se recuperar. Ali, a mulher vivia com sua filha Úrsula e seus dois escravos, Túlio e Susana. Doente, presa à cama há muito tempo e piorando dia após dia, Luiza é tomada pela angústia diante do provável destino de sua filha, que sem ela ficaria completamente só num mundo que nunca tinha sido bom para nenhuma das duas. O alívio vem com a chegada daquele desconhecido, que se apaixona por Úrsula e a pede em casamento. 

"Úrsula, eu vos amo! E se vossa alma simpatizar com a minha, meu coração vos tem escolhido para a companheira dos meus dias."

Tancredo não tinha nenhuma intenção de se apaixonar. Depois de todo o sofrimento que tinha suportado por conta da dupla traição provocada por aqueles a quem tanto amava, não acreditava que voltaria a abrir seu coração para o amor. Só que ao ver aquela jovem tão gentil e bondosa, que cuidava dele com tanta dedicação enquanto ele se recuperava, foi impossível não se apaixonar. Dormia e acordava pensando nela e não poderia simplesmente ir embora e esquecê-la. Precisava dela em sua vida.

O sentimento era recíproco. Úrsula, que até então desconhecia o amor, também se apaixona por Tancredo e sonha com o dia em que se casarão. Com a benção dada por sua mãe nada poderia impedir aquela felicidade. Nada poderia separá-los... exceto a obsessão e a maldade de um parente que tanto mal já tinha causado e retorna disposto a ter a jovem para si... mesmo que ela seja sua sobrinha. 

"Juro, mulher, que hás de ser minha esposa, ou o inferno nos receberá a ambos."

Num período da história do Brasil no qual a escravidão ainda existia, roubando a liberdade e a vida de milhares de pessoas, é que os acontecimentos deste livro se passam. Tendo como pano de fundo o romance entre Tancredo e Úrsula, o livro aborda as crueldades e injustiças da escravidão, bem como o machismo que oprimia e destruía mesmo as mulheres supostamente "livres", numa sociedade patriarcal na qual elas não tinham reais direitos, na qual não tinham voz. 

Quem inicia esta leitura achando que vai encontrar apenas um romance recheado dos elementos tão presentes no Romantismo se engana completamente. Sim, temos o romance melodramático entre o jovem Tancredo e a pobre Úrsula, duas pessoas apaixonadas e condenadas pela crueldade de seus familiares, cujo destino não parece que será feliz. Todavia, o livro vai muito além disso. É como se o romance entre o casal protagonista nem fosse o principal. A autora apenas usa a história deles para falar da escravidão, da violência sofrida pelas mulheres, das injustiças de sua época. 

É um livro que nos dá um golpe atrás do outro. Quando achamos que nada mais nos fará sofrer, lá vem mais um acontecimento doloroso para nos encher de revolta, de ódio, para nos fazer querer entrar na história e acabar com nossas próprias mãos com pessoas que nem são dignas de serem chamadas de seres humanos. Nos perguntamos como alguém consegue ser tão cruel. Como um ser humano é capaz de fazer coisas tão horríveis com seu semelhante! Muitas cenas nesta história me provocaram desespero, me fizeram pensar em todas as vidas que foram marcadas e destruídas pela maldade da escravidão. 

"E esse país de minhas afeições, e esse esposo querido, e essa filha tão extremamente amada, ah Túlio! Tudo me obrigaram os bárbaros a deixar! Oh! Tudo, tudo até a própria liberdade!" 

Túlio e Susana. Apesar de serem supostamente os personagens secundários, são na verdade os mais importantes de todo o livro. É através deles que a autora aborda a escravidão. Através de suas dores, de seu passado, das marcas físicas e emocionais que carregam. Susana era mãe e esposa em sua terra natal. Tinha família, amigos, toda uma vida de felicidade e liberdade antes que os europeus surgissem em seu caminho, antes que a sequestrassem e trouxessem para o Brasil, lhe roubando tudo o que ela tinha, rindo de suas súplicas, de seu sofrimento. Quando ela conta como foi a travessia, o tratamento desumano que acabou matando muitos dos africanos antes mesmo que a viagem terminasse, é impossível segurar as lágrimas. 

Basta nos colocarmos no lugar dessa mulher, nos imaginarmos perdendo tudo o que temos, todos os nossos entes queridos e sermos levados para sermos escravos de outras pessoas, como se fôssemos objetos, como se fôssemos uma coisa qualquer sem sentimentos. Basta nos imaginarmos passando por tudo isso para sentirmos o desespero, a impotência, a desesperança. O capítulo dedicado à Susana, no qual ela nos conta tudo o que passou durante e após o sequestro, o inferno de "pertencer" a um desgraçado sem coração, é o capítulo mais emocionante e importante de todo o livro. E só ele já valeria toda a leitura. É triste saber que uma preciosidade como este livro foi condenado por tanto tempo ao esquecimento. Que a autora foi quase que "apagada" da nossa história, da nossa literatura. 

"Foi embalde que supliquei em nome de minha filha, que me restituíssem a liberdade: os bárbaros sorriam-se das minhas lágrimas, e olhavam-me sem compaixão."

A dor da Susana me perseguiu durante toda a leitura. Fiquei imaginando o que aconteceu com a família dela, com seu marido e sua filha. Será que se lembravam dela? Que mesmo depois de todos aqueles anos ainda tinham a esperança de reencontrá-la? É tão horrível pensar em tudo o que ela passou. Ver como ela já não acreditava mais que pudesse ter outra vida, outra chance. Embora ao lado de Luiza e Úrsula ela não sofresse maus-tratos, era impossível apagar da memória tudo o que sofreu nas mãos do irmão de Luiza e depois nas mãos do marido dela. Nunca poderia esquecer nada daquilo. Todas as mortes que assistiu... como os seus semelhantes foram torturados até a morte por aqueles que se julgavam superiores apenas por causa da cor da pele. 

"[...] mas a dor, que tenho no coração, só a morte poderá apagar! - meu marido, minha filha, minha terra... Minha liberdade..."

Túlio também perdera muito para a escravidão. Nascido escravo, teve a mãe arrancada do seu lado ainda muito pequeno, vítima da crueldade do irmão de Luiza, que para se vingar da irmã descontou boa parte do seu ódio em quem ela mais gostava. Susana fez todo o possível para suprir o vazio deixado pela mãe da pobre criança, fez o que pode para que ele não sofresse, para que não conhecesse a verdade do destino daquela que lhe deu à luz. 

Ao encontrar Tancredo e salvar sua vida como salvaria a de qualquer semelhante, jamais imaginou que o outro o trataria com tanto respeito, com tanta consideração, como se fossem... iguais. E era exatamente assim que Tancredo o via: como seu igual, seu irmão. Ele abominava a escravidão e logo trata de conseguir a liberdade de Túlio, de quem se torna grande amigo. Embora gostasse muito de Luiza e Úrsula, Túlio nunca teve uma relação de amizade com alguém, nunca foi tratado daquela maneira e a relação entre Tancredo e ele se torna muito profunda. Eles passam a estar sempre juntos, se protegendo e ajudando mutuamente. Eu achei simplesmente linda e verdadeira a amizade entre os dois. Daquelas raras, sabe? Que quase não vemos mais hoje em dia. 

"A mente! Isso sim ninguém a pode escravizar!" 

Além de abordar profundamente o tema da escravidão, mostrando claramente como era bárbaro e desumano uma pessoa escravizar outra, como aquilo ia contra todos os ensinamentos de Cristo (a autora fala muito dos ensinamentos de Jesus ao longo da história), ela também nos traz a questão do machismo e da violência contra a mulher. Pense só nisso! Um romance abolicionista publicado em 1859, VÁRIOS ANOS ANTES do fim da escravidão. Escrito por uma mulher. E mulher negra. Um livro que além de ser abolicionista, também fala da violência contra a mulher numa sociedade que de modo algum iria querer que alguém falasse com tanta clareza de temas nos quais ninguém queria tocar, que fingiam que não existiam. 

"É que entre ele e sua esposa estava colocado o mais despótico poder: meu pai era o tirano de sua mulher; e ela, triste vítima, chorava em silêncio, e resignava-se com sublime brandura."

Para falar da opressão sofrida pelas mulheres supostamente "livres" naquela sociedade patriarcal, a autora contou a história de três personagens: a mãe de Tancredo, a mãe da Úrsula e a própria Úrsula. Através das lembranças do mocinho conhecemos os tormentos que sua mãe vivia nas mãos do marido, que era autoritário e violento, e tratava de fazer dos seus dias um completo inferno. Era alguém que, pelas próprias palavras do Tancredo, sentia prazer em fazer a esposa sofrer. Tudo o que aquela mulher tinha de felicidade em sua vida era a proximidade com o filho que ela tanto amava e é justamente por isso que o pai trata de mandá-lo para longe, para romper o laço que o unia à mãe, para causar mais dor à mulher. 

E aí temos a pobre Luiza. Que foi contra a própria família para se casar por amor, mas acabou presa a um homem que só lhe trouxe desgraças, que torturava os escravos lhe causando imensos sofrimentos, que era extremamente cruel e desumano. E como se não bastasse isso, ainda tinha que suportar o ódio de seu próprio irmão que, revoltado por ela tê-lo contrariado ao se casar com alguém que ele desprezava, trata de atormentar mais seus dias, principalmente depois da morte do marido, quando ela se vê completamente desamparada num mundo hostil. Seu próprio irmão a deixa na miséria e dia após dia lhe provoca mais dor, mais privações, mais sofrimentos. Paralítica e presa numa cama por conta de sua doença, ela não tem sequer um segundo de paz, pois sabe que sem ela, Úrsula ficaria sozinha nas mãos de um parente que só tinha ódio no coração. 

"Frágil, e já sem forças, eu vi Fernando à cabeceira do meu leito como se fosse o anjo do extermínio a falar-me de coisas, que só me poderiam abreviar os instantes."

E Úrsula também se vê vítima do poder e da maldade de um parente. Esse tio (Fernando) que tanto mal já tinha feito contra a própria irmã resolve que está "apaixonado" por ela e que ela irá se casar com ele por bem ou por mal. Porque ninguém jamais vai contra as suas vontades. Ele era seu tutor, seu dono. Ela tinha que fazer o que ele quisesse ou não viveria. 

Através da históra dessas três mulheres, a autora nos faz refletir sobre a situação desesperadora de tantas mulheres naquela época. Que se viam sob o poder de seus maridos, pais ou irmãos, que não tinham voz, que eram caladas e subjugadas. É horrível acompanhar seus destinos... Eu conseguia ver os olhares de dor daquelas mulheres, como aqueles que deveriam protegê-las eram quem mais sofrimento lhes causavam, que destruíam suas vidas. Dói dentro de nós a cena na qual a mãe de Úrsula diz que seu irmão regressou apenas para abreviar ainda mais os seus dias, para terminar o que ele tinha começado anos antes. O pavor que ela sente quando ele aparece... Não consegui parar de pensar em todas as mulheres vítimas de violência por seus próprios familiares. Que eram vítimas no passado. E seguem sendo nos dias atuais, pois em pleno século XXI a violência contra a mulher ainda é um dos nossos maiores males, uma das principais causas de morte de mulheres em nosso país. 

Este é um livro simplesmente precioso. Que todos deveriam ler. É essencial para a nossa literatura, um clássico digno de ser considerado um. O talento da autora é incontestável. Sua narrativa é profundamente envolvente. A história flui naturalmente, nos provocando uma confusão de sentimentos, nos fazendo sofrer com as injustiças e ansiar por um final que nos dê alívio, que conforte nossos corações. 

Por fazer parte do Romantismo, tem todo aquele "exagero" típico dos livros desse período, mas eu confesso que sou uma apaixonada por este tipo de narrativa. Amo o sentimentalismo que transborda, as cenas e diálogos intensos, que nos possibilitam sentir tudo com os personagens. 

Úrsula é uma história que eu recomendo muito! Eu a li numa leitura coletiva promovida pela Kelly do canal Aventuras na Leitura. Ela criou o Clube de Leitura - Clássicos da Literatura Nacional, no qual leremos um livro por mês. O projeto inicialmente irá até dezembro. Para saber como participar basta clicar AQUI. O livro escolhido para agosto é Capitães da Areia, do Jorge Amado. 



-> DLL 20: Um livro de capa laranja



25 de junho de 2020

A Falência - Júlia Lopes de Almeida

Literatura Brasileira
Editora: Penguin & Companhia das Letras
Edição de: 2019
Páginas: 304

33ª leitura de 2020
Sinopse: Ícone do modernismo brasileiro, Júlia Lopes de Almeida consegue oferecer um notável panorama das repercussões do boom do café no final do século XIX na formação da nascente burguesia urbana, e também retratar, com impecável maestria, os meandros de uma sociedade machista e hipócrita, em que subsistem as relações escravocratas e aprofundam-se as desigualdades sociais. Rio de Janeiro, 1891. Francisco Teodoro, um bem-sucedido e ambicioso comerciante de café, conhece Camila. Em busca de um casamento que traga estabilidade, ele não vê melhor opção que desposar tal jovem, bela e de boa e humilde família. Os filhos Mário, Rachel, Lia e Ruth crescem a olhos vistos, enquanto a empresa do pai continua a prosperar.Nem só de flores, contudo, vivem os Teodoro. Francisco, cada vez mais ganancioso, vê outros comerciantes se arriscando no trato com o café e decide fazer o mesmo. Afinal, é preciso aumentar o patrimônio familiar que Mário insiste em dilapidar. Camila, alheia aos movimentos econômicos e cada vez mais absorta em sua relação com o médico Gervásio, nada opina. Em um revés do destino, a fortuna da família acaba. Francisco Teodoro se suicida e todos, mãe e filhos, precisam aprender a lidar com a nova situação social.




A Falência é um livro sobre o qual ouvi falar pela primeira vez poucos anos atrás, quando começaram a surgir mais resenhas sobre a história por conta da cobrança do livro num determinado vestibular. É uma história que tinha "caído no esquecimento", apesar da autora ser considerada muito importante para a literatura brasileira.

Júlia Lopes de Almeida foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras e seu nome deveria constar entre os fundadores. Todavia, um pequeno (grande) detalhe a deixou de fora: o machismo da época. Pelo simples fato de ser mulher, seu nome foi excluído, pois os membros (todos homens) decidiram manter a Academia exclusivamente masculina. E no lugar de Júlia colocaram o marido dela. Revoltante, não é mesmo?!

Por conta de toda essa injustiça, que se tornou de conhecimento de boa parte dos leitores somente poucos anos atrás, é que desejei conhecer suas obras e quando a Jaqueline do canal Estante Alada propôs a leitura coletiva de A Falência, eu nem precisei pensar duas vezes. O livro simplesmente passou a frente de vários outros.rs

Talvez por isso eu tenha ficado um tanto decepcionada com a história. Gostei da leitura como um todo, mas senti falta de um "algo mais". Esperei muito do livro e como ele não conseguiu satisfazer todas as minhas expectativas, eu acabei me sentindo um pouco frustrada.
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