Mostrando postagens com marcador Editora Rocco. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Rocco. Mostrar todas as postagens

25 de agosto de 2026

Em Um Bosque Muito Escuro - Ruth Ware



Literatura Inglesa
Título Original: In a Dark Dark Wood
Tradutora: Alyda Sauer
Editora: Rocco
Edição de: 2016
Páginas: 288

7ª leitura de 2026 (5ª resenha do ano)

Sinopse: Em um bosque muito escuro é narrado por uma escritora reclusa que aceita o convite para a despedida de solteira de uma amiga de escola com a qual não tinha contato há anos. Quarenta e oito horas depois de chegar ao local da festa, uma casa de campo isolada, ela desperta numa cama de hospital, com a devastadora certeza de que alguém está morto. E mais do que tentar lembrar o que aconteceu no fatídico fim de semana, precisa descobrir o que fez. Com uma atmosfera inquietante, em que segredos do passado são revelados aos poucos e as relações se constroem pelo entrelaçamento de admiração, carinho, inveja e ressentimentos, Ruth Ware entrega um thriller arrebatador, que não à toa a colocou entre os principais nomes do novo suspense feminino, como Paula Hawkins e Gillian Flynn. Em um bosque muito escuro será adaptado para o cinema por Reese Whiterspoon.





Geralmente, opto por colocar a sinopse da Amazon (quando leio em e-book e não tenho o livro físico para verificar a contracapa, como é o caso deste livro), mas a achei muito reveladora e fiquei feliz por não tê-la lido antes da leitura da história.kkkk Por isso, preferi colocar a sinopse que se encontra no Skoob. 

Sei que desapareci por vários meses, mas é como falei no post de início de ano: no meio de toda a correria do dia a dia, do trabalho e muitos estudos, não estou mais me desesperando. Estou levando as leituras com leveza e não irei fazer resenha de todos os livros lidos ao longo do ano. Ler tem que ser um prazer acima de tudo. Acima da aquisição de conhecimento, das reflexões que determinadas obras possam provocar, dos estudos literários de algumas leituras escolhidas para serem estudadas... Tem que ser algo que me faça bem. A vida é curta demais para que eu transforme algo que amo tanto (que são os livros, minha eterna paixão) em peso. Que me cobre prazos, metas rígidas, para acabar me frustrando e desgastando. Já fiz muito isso e decidi que não faria mais. 

Então, vamos à história!

Em um bosque muito escuro é um suspense que não chego a considerar um thriller psicológico. Ele se desenvolve em torno de Nora, a jovem escritora de 26 anos, que vive praticamente reclusa, entre as quatro paredes do seu pequeno apartamento. O livro indica que ela tem uma certa amizade com Nina, colega da época de escola, mas vivem uma longe da outra, o que acaba por ser conveniente à necessidade de solitude de Nora. 

Isso não me provocou nenhuma estranheza. Porque me pareço com a personagem quanto a não gostar de uma vida agitada, de ficar encontrando com as pessoas, estar sempre na companhia de alguém. Eu gosto de estar sozinha, mas não de ser sozinha. Tenho amigos, mas sou a pessoa que prefere que o contato seja por telefone, WhatsApp. Encontros presenciais só de maneira bem ocasional. Gosto do silêncio do meu quarto, de "ouvir" o silêncio ou ouvir minhas músicas, aceitando e apreciando minha própria companhia. É uma forma de buscar a paz interior, refletir... Durante uma boa parte da minha vida me obriguei a contatos mais presenciais porque parecia o normal, o esperado, o aceitável. E isso sempre me sobrecarregava, ao ponto de me adoecer. Porque minha personalidade não combina com ambientes agitados, muito barulho, muita gente. Isso causa sobrecarga sensorial intensa em mim. 

Então, como disse, entendo demais a Nora. Ela precisa do seu espaço seguro, do seu refúgio. De estar consigo mesma. E isso para mim é completamente normal. Só que ao longo do desenvolvimento da história percebemos que a vida que a protagonista leva não é consequência apenas de sua personalidade, de sua necessidade de silêncio e paz. É também fruto de traumas provocados ainda na infância...

Era para ser mais um dia comum, de rotina conhecida e segura. Até que Nora recebe um e-mail totalmente inesperado. Um convite para a despedida de solteira de Clare, sua melhor amiga de infância, que ela não via fazia dez anos...

Desde que fugira de sua cidade, aos dezesseis anos, não manteve contato com ninguém, exceto Nina, excluindo de sua vida Clare e as demais pessoas. Sem explicação. Sem desculpas ou porquês. Simplesmente seguiu em frente... Assim, não entendia o motivo daquele convite e pensou seriamente em recusar. 

Mas... No fundo, sabia que as coisas entre ela e Clare ficaram indefinidas. Não foi um rompimento de amizade comum. Era como se tudo tivesse ficado em pausa. O que despertava sua curiosidade e também um sentimento que não sabia nomear... Queria recusar e continuar com sua vida, mas um outro lado seu entendia que talvez aquela fosse a oportunidade de ter uma conversa, de fechar aquele capítulo do seu passado. Só que... Por quê? Por que Clare a procurava depois de tanto tempo? E por que a convidava para a despedida de solteira, mas não para o casamento? 

Mesmo com dúvidas e receios, Nora decide aceitar o convite e segue com Nina, que também havia sido convidada, para uma casa de campo no meio do nada, completamente isolada, onde ela encontra outros três amigos de Clare que também participariam da sua despedida de solteira. Ao todo, seriam seis pessoas, contando com a noiva. Uma festa muito restrita, que começa a dar errado logo no início...

Cerca de 48 horas depois do início daquele final de semana de pesadelo, Nora desperta em um hospital, sem lembranças dos minutos que antecederam o acidente de carro do qual foi vítima. Só sabia que estava com muito sangue, um sangue que não era seu e que... uma pessoa estava morta. 

E se não quisesse ser acusada de homicídio precisaria lembrar... Lembrar o que acontecera naquela floresta...

Fazia muito tempo que um livro não me prendia desta forma. Estou lendo dez livros no momento (no meu ritmo, uns estou lendo há vários meses) e não sinto o desespero de terminá-los como senti com este. Eu não aguentava esperar para ler o próximo capítulo. Era para ser uma leitura em dupla, ao longo de quatro semanas, com uma amiga. Combinamos que leríamos 09 capítulos por semana.kkkkk Isto foi completamente impossível! Devorei o livro. Passei horas e horas da madrugada lendo e só me dei por satisfeita quando terminei. Eu já imaginava quem era o assassino e suas motivações, mas isso não tornou o livro menos interessante. Porque queria saber como tudo terminaria, torcendo muito para que Nora sobrevivesse. 

Ah, mas falando assim você já está descartando a Nora como culpada e isso é spoiler para quem não leu!rsrs De jeito nenhum! O fato de eu desejar e torcer para que ela chegasse ao fim viva, não significa automaticamente que ela não é o assassino. Vocês precisarão ler para saber. 

Após terminar a leitura e atualizar o Skoob, vi que tem muita gente que não apreciou o livro, que se decepcionou... Eu amei a história! Pensei um pouco antes de dar estrelas, analisei tudo o que a história provocou em mim durante a leitura e não achei que seria justo dar menos que 5 estrelas. Não encontrei furos na narrativa. Algumas atitudes da protagonista nos fazem querer sacudi-la, inclusive o fato de ela ter aceitado o maldito convite, mas são atitudes críveis, que qualquer pessoa pode ter. Nora me pareceu muito real, com dúvidas, medos, traumas, erros e acertos como qualquer pessoa. Então, analisando o livro como um todo o considero perfeitamente digno de 5 estrelas. E talvez seja uma das poucas a pensar assim. Só que leitura é algo bem pessoal. Só devemos ler um livro através dos nossos próprios olhos e não dos outros. Nossa opinião, nossa impressão de um livro deve ser baseada em nossa própria experiência de leitura. A vida é mais simples assim.rs


-> DLL26 (Desafio Literário Livreando): Ler um livro policial/suspense/detetive


23 de abril de 2021

A Morte da Sra. Westaway - Ruth Ware



Literatura Inglesa
Título Original: The death of mrs Westaway
Tradutora: Alyda Sauer
Editora: Rocco
Edição de: 2021
Páginas: 320

11ª leitura de 2021 (10ª resenha do ano)

Sinopse: "As cartas não dizem nada que você não saiba. Não podem revelar nenhum segredo nem ditar o futuro. Elas só podem mostrar o que você já sabe." Hal Westaway lê cartas de tarô no cais de Brighton e, desde a morte da mãe, luta diariamente para pagar suas contas e sobreviver. A notícia inesperada de uma herança pode mudar sua vida para sempre e, mesmo sabendo que tudo pode ser um enorme engano, ela decide acreditar... e jogar. Quando Hal Westaway recebe uma carta inesperada anunciando que ela herdou uma soma substancial de sua avó da Cornualha, aquilo lhe parece uma resposta às suas preces. Ela deve dinheiro a um agiota e as ameaças do sujeito estão cada vez mais agressivas: ela precisa botar a mão em dinheiro vivo o mais breve possível. Existe apenas um problema: as avós de Hal morreram há mais de vinte anos. A carta foi enviada à pessoa errada. Hal sabe, no entanto, que as técnicas que usa para “ler” as pessoas através do tarô podem ajudá-la a conseguir esse dinheiro. Se alguém tem habilidade para comparecer ao funeral de um estranho e reivindicar um espólio que não lhe pertence, é ela. Ao chegar à cerimônia, porém, Hal percebe que há algo muito, muito errado a respeito de toda aquela situação, e a herança está no centro de tudo. Mas Hal Westaway fez sua escolha, e não pode voltar atrás. Ela precisa continuar ou arriscar perder tudo. Até mesmo a própria vida. Uma velha casa, uma governanta assustadora, conflitos familiares e dilemas morais. Ingredientes clássicos que se tornam surpreendentes na voz de um dos grandes nomes contemporâneos do suspense, Ruth Ware.






Um thriller psicológico que bem poderia ser classificado como "um drama familiar letal"...

"Ela abriu o portão e as ferragens rangeram, um som baixo como um lamento através do barulho da chuva que a fez tremer mais ainda. Algo no tom daquele ruído lhe provocou um arrepio na nuca. Foi como se a casa estivesse morrendo de dor."

Sabe aquele tipo de livro que você não consegue parar de ler, que te rouba o sono e dá um nó na cabeça? A Morte da Sra. Westaway é exatamente assim. Eu pretendia seguir o cronograma que fiz, vez que foi uma história escolhida para leitura coletiva no grupo do Telegram, cujo debate só irá ocorrer em 05/05. Mas não consegui ser tão disciplinada.kkkk Eu encerrava um capítulo e já começava a ler o outro avidamente. Queria respostas e também descobrir se minha teoria estava certa, já que sempre tento adivinhar com antecedência o plot twist de um bom suspense.rs

Confesso que senti um pouco de medo durante a leitura, algo que não esperava. A atmosfera gótica, os passos silenciosos no escuro, luzes que não acendiam, cômodos proibidos... Quarto com grades na janela e trancas do lado de fora da porta... Tudo isso me provocava um certo pânico.

"Mas ali no alto só havia uma explicação, não eram grades para impedir alguém de entrar, e sim de sair."

A casa que se torna praticamente um personagem dentro da história, guardando terríveis segredos, é um lugar abandonado, com cômodos desgastados pelo tempo, cheios de poeira e teias de aranha. Não é que ninguém não morasse ali: a tal senhora Westaway, cuja morte desencadeia todo o drama e suspense do livro, viveu naquela propriedade até seu fim. A casa não estava "abandonada" por não ser habitada, mas sim porque ninguém se preocupou em conservá-la. 

"Ela descobriu que as verdades mais importantes muitas vezes estavam no que as pessoas não falavam [...]"

Ao longo da leitura senti como se aquela casa assustadora "falasse" e sentisse. Como se tivesse "apodrecido" por todo terror do qual foi testemunha. Toda dor e lágrimas sofridas entre suas paredes...

Harriet Westaway sabia o que era passar por privações em sua vida. Desde pequena precisava lidar com a falta de dinheiro, sendo sempre a criança mais pobre entre seus colegas de escola, vestindo roupas e sapatos usados e encarando de frente a situação com a coragem que sua mãe lhe ensinou. A mãe que era sua amiga, seu único familiar. A mãe que lutava dia após dia para sustentá-la, com quem ela viveu todos os bons e maus momentos. A mãe que morreu, vítima de um terrível acidente, dois dias antes do seu aniversário de 18 anos, deixando-a sozinha num mundo hostil, sem saber como seguiria em frente...

"Era a injustiça que machucava mais, feito ácido na garganta. Teve vontade de berrar contra a injustiça daquilo tudo. Quero uma trégua, ela queria soluçar. Só uma vez quero que aconteça uma coisa boa comigo."

Sendo jogada no mundo adulto de uma hora para outra, e sofrendo a dor de perder quem mais amava, ela buscou consolo no álcool e pegou um empréstimo com um agiota, na tentativa de continuar tendo um teto onde morar e algo para comer, mas este foi um dos piores erros de sua vida. Quanto mais trabalhava para pagar as dívidas mais elas aumentavam, num ciclo que não tinha fim. O que ela devia inicialmente se multiplica, tornando impossível quitar uma dívida que era muito superior ao valor que ela de fato tinha pego emprestado. Sem saber o que fazer e sem meios de fugir dos capangas do agiota, enviados para "cobrá-la", Hal tenta não ceder ao desespero... é quando uma misteriosa carta, endereçada à ela, tanto se apresenta como a solução para os seus problemas quanto a lança na direção de segredos do passado que deveriam ser mantidos enterrados...

Destinatário da carta: Harriete Westaway. Endereço: o seu, sem nenhum erro de digitação. Mas aquilo só poderia ser um estranho engano, pois era impossível que ela realmente fosse a pessoa que o remetente procurava. O advogado que lhe enviou a referida carta, comunicava o falecimento de sua avó, Hester Westaway, a data do funeral e o fato de Harriet ser uma das beneficiadas pelo testamento. Seria um alívio para todas as suas dívidas se não existisse um pequeno problema: seus avós tinham falecido muitos anos antes, o que a fazia ter a certeza de que não era a Harriet correta, que tudo não passava de um equívoco. 

Mas diante da situação desesperadora na qual se encontrava, e após sofrer mais uma ameaça do capanga do agiota ao qual devia dinheiro, ela decide arrumar suas coisas e ir até o funeral, se passar pela neta da falecida e colocar as mãos na sua parte da herança. Eram pessoas ricas, certo? Um pouco de dinheiro que ela conseguisse com aquele engano não afetaria suas vidas. Só que ao chegar à Igreja e ao longo do funeral, ela percebe que nada seria tão simples assim... Alguma coisa de muito errada havia naquela história. Por que nenhum dos filhos lamentava a morte da mãe? Por que se comportavam de forma tão estranha uns com os outros? 

"Não era apenas a sensação de uma casa negligenciada há muito tempo. Era algo mais sombrio, de um lugar que esconde segredos, onde pessoas foram tremendamente infelizes e ninguém apareceu para consolá-las."

Ao hospedar-se na casa para leitura do testamento, fica ainda mais surpresa ao perceber o quanto o local estava se deteriorando, como o ambiente era sombrio e triste... O quanto as pessoas que um dia viveram ali tinham sofrido? Sua vontade era de voltar correndo para sua antiga vida, mas tudo se complica gravemente quando descobre que todos os filhos da falecida haviam sido deserdados, sendo ela a única herdeira dos bens. O que parecia apenas um jogo inofensivo, pois um pequeno valor que ela acreditava que herdaria não afetaria ninguém, se torna extremamente perigoso após essa bombástica revelação. 

O que as pessoas estariam dispostas a fazer por dinheiro? Sufocada pelas próprias mentiras, ela decide escapar para a sua realidade, voltar para sua cidade, sua vida... Mas uma foto revira todo o seu mundo: ali, naquela imagem congelada no tempo, entre as pessoas reunidas, estava a sua mãe. O choque é grande demais e Hal tenta entender que ligação haveria entre sua mãe, aquela casa e aquelas pessoas. Que segredos se esconderiam no passado? Por que sua mãe nunca mencionou que tinha vivido ali? Disposta a descobrir toda a verdade, ela demora a perceber que o preço talvez fosse alto demais... Talvez custasse a sua própria vida. 

"[...] que segredo era esse, o segredo que era o cerne de todo aquele mistério, que tinha alguém disposto a matar para protegê-lo?"

Este é um livro que ao mesmo tempo que eu amei também odiei profundamente.kkkkkkk Fiquei muito mal com o final, embora tenha que reconhecer que uma vez que adivinhei os principais segredos bem antes da metade da leitura, poderia muito bem saber como tudo terminaria, mas a verdade é que me neguei a suspeitar dessa pessoa. Me deixei enfeitiçar, me deixei enganar. Eu não quis colocar tal pessoa na lista de suspeitos quando o mais lógico seria colocar a tal pessoa como principal suspeita, levando em conta tudo o que eu tinha adivinhado sobre os segredos da história. Mas eu fui imbecil, me apaixonei por uma personagem que era especialista em prender as pessoas em seus encantos para depois dar o bote. Eu caí direitinho, como a Hal também caiu. A diferença é que eu já tinha descoberto boa parte dos segredos que essa pessoa tentava esconder, Hal ainda não sabia, então... a grande estúpida fui eu mesma. Ainda não me perdoei por ter sido tão burra! E também sofro muito pelo monstro, psicopata do livro, ser justamente quem eu menos queria. 

"Hal podia ser qualquer coisa, menos um rato. E não seria presa de ninguém."

Eu conversava com uma amiga durante a leitura e dizia que o psicopata poderia ser qualquer pessoa, menos aquela pessoa. Que eu não suportaria que fosse quem eu tanto amava no livro. Sabe quando você descobre algo inconscientemente, mas não quer admitir aquilo conscientemente?rs No fundo eu sabia que poderia ser, mas me negava a aceitar. Dizia: "Não, não, não! A autora não pode fazer isso, a autora não vai fazer isso comigo!"kkkkkk Realmente, gente! Eu não imaginava que fosse sofrer tanto com o final deste livro. Vai demorar para eu conseguir superá-lo.

Não há nada mais que eu possa falar sobre a história sem correr o risco de soltar spoiler. Vocês podem ver que eu passo perto do spoiler nesta resenha, mas não chego a fazer nenhuma revelação importante, apenas passo bem pertinho disso.rs Dizer que o psicopata é quem eu menos queria, quem eu mais amava no livro, não significa dizer quem é, pois é impossível vocês saberem de qual personagem estou falando, exceto se já tiverem lido a história. :)

Se recomendo o livro? MUITO! Já quero ler outros livros da autora! 



11 de dezembro de 2020

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata - Mary Ann Shaffer e Annie Barrows


Literatura norte-americana
Título Original: The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society 
Tradutora: Léa Viveiros de Castro
Editora: Rocco
Edição de: 2009
Páginas:304

 69ª leitura de 2020 (60ª resenha do ano)

Sinopse: Janeiro de 1946: enquanto Londres deixa para trás a sombria realidade da Segunda Guerra Mundial, a escritora Juliet Ashton busca um novo tema para seu próximo livro. Quem poderia imaginar que o encontraria na carta enviada por um homem desconhecido?


Morador da longínqua Guernsey, ilha britânica ocupada pelos nazistas durante a guerra, Dawsey Adams havia se deparado com o nome de Juliet na folha de rosto de Seleção de ensaios de Elia. Foi assim que decidiu corresponder-se com a autora. Talvez ela o ajudasse a encontrar mais livros do ensaísta romântico Charles Lamb. 


Tem início, assim, uma correspondência intensa: na troca de cartas, Juliet toma conhecimento da Sociedade Literária de Guernsey, formada por Dawsey e seus amigos. De criadores de porcos a frenólogos, eles decidiram que um clube de livro seria o melhor álibi para não serem capturados pelos alemães. 


Nas cartas que recebe de Dawsey e, depois, dos outros membros da sociedade, Juliet passa a conhecer a ilha, o gosto literário de cada um e uma famosa receita de torta de casca de batata, além do impacto transformador que a recente Ocupação alemã teve na vida de todos. Cativada por suas histórias, ela parte para Guernsey, e o que lá encontra irá transformá-la para sempre. 


Escrito com senso de humor e delicadeza, este romance epistolar é uma celebração da palavra escrita em todas as suas formas. 



É sempre mais difícil falar de um livro que se torna um favorito do nosso coração. Parece que as palavras simplesmente somem, escapam, e não sabemos como expressar o imenso amor que sentimos por uma história, a forma como ela nos atingiu e nos arrancou muitas lágrimas e sorrisos... assim, bem misturado mesmo. Em alguns momentos eu realmente ria e chorava ao mesmo tempo. 


Histórias que possuem como tema a Segunda Guerra Mundial sempre são dolorosas, ainda que o escritor tente contar as coisas de forma mais leve, apelando para o humor para tornar menos pesados certos acontecimentos. Ainda assim, essas histórias machucam. Abrem feridas não totalmente cicatrizadas dentro de nós que nunca esquecemos o passado podre da humanidade. É o mesmo que se passa com livros que falam da escravidão, das ditaduras e diversas outras barbaridades que mancham de sangue o nosso mundo, que nós seres humanos insistimos em destruir ao mesmo tempo que destruímos uns aos outros. A Mary Ann Shaffer tenta muito tornar sua história bem leve, com muito humor, e embora eu tenha rido bastante com algumas cenas, eu também chorei muito. E o que mais me marcou neste livro foi justamente isso: o sofrimento que os personagens, por mais otimistas e corajosos que fossem, jamais seriam capazes de esquecer. Como um trecho do livro bem diz: "A guerra agora faz parte da história de nossas vidas, e não há como esquecê-la." 


Eu não vou fazer um resumo muito grande do livro, pois a sinopse é bastante completa e te dá uma clara noção do que encontrará na história. Aqui temos um início bem parecido com o de Querida Sue (outro livro que me arrancou muitas lágrimas), quando há uma troca de cartas entre um leitor e uma escritora que nunca tinham se visto na vida, mas que se conectam através das palavras escritas como se fossem amigos de longa data. 


Juliet, uma jovem escritora e jornalista de trinta e dois anos, não sabia sobre o que escrever agora que a guerra havia acabado e ela estava cansada da série de histórias que a tinha tornado famosa, mas que não lhe dava tanto prazer assim. Queria falar de algo diferente, mais profundo. Sua vida estava um tanto bagunçada, pois pouco antes do fim da guerra, seu apartamento foi bombardeado e ela perdeu tudo o que ali tinha, incluindo os livros que tanto amava. Mas o que lhe acontecera não era nada comparado com o que milhões de pessoas enfrentaram durante aquela sangrenta e desesperadora guerra. 


"Mas a verdade é que estou deprimida - mais deprimida do que jamais estive durante a guerra. Tudo está tão destruído, Sophie: as ruas, os prédios, as pessoas. Particularmente as pessoas."

 

A vida sem perspectiva de Juliet muda quando ela começa a se corresponder com Dawsey Adams, um morador das Ilhas do Canal, local invadido e ocupado pelos nazistas durante a guerra, cujos habitantes sentiram de perto o terror de conviver com os inimigos. Dawsey havia encontrado um antigo livro que tinha pertencido a Juliet (seu nome e seu antigo endereço estavam na contracapa), então ele lhe escreve para lhe pedir o favor de indicar alguma livraria em Londres, que pudesse lhe enviar mais livros do autor, pois embora os nazistas tivessem partido, já não existiam mais livrarias em Guernsey.


Através da troca de cartas, Juliet fica sabendo sobre a Sociedade Literária e Torta de Casca de Batata de Guernsey e a forma como ela surgiu. Assim, acaba decidindo escrever sobre os membros daquela sociedade e como a literatura desempenhou um papel importante para tornar mais suportável os cinco anos em que estiveram sob o domínio do exército nazista. As cartas que antes trocava apenas com Dawsey, se tornam ainda mais significativas quando diversos outros moradores de Guernsey passam a lhe escrever e compartilhar suas experiências de leitura e de vida. Não demora para que ela se sinta parte daquele lugar e deseje conhecer pessoalmente aquelas pessoas que já sentia serem suas amigas. 


E é assim que a narrativa é construída: por meio de cartas. Trata-se, portanto, de um romance epistolar, no qual a autora (e sua sobrinha Annie Barrows, que foi quem finalizou o livro, pois a tia adoeceu pouco antes de concluí-lo) mostra todo o seu talento. Sempre considerei a narrativa epistolar algo sensacional e muito difícil de funcionar se o autor não souber o que está fazendo. Tem que ter talento e tomar muito cuidado para não se perder e tornar a história algo sem nexo. Felizmente, as autoras fizeram um excelente trabalho, nos proporcionando uma leitura emocionante, fazendo com que nós leitores também nos sentíssemos parte de Guernsey e da vida dos personagens. Eu desejei muito me mudar para lá.rs Mas só se pudesse conhecer Dawsey, Amelia, Isola, Eli e seu avô, e a pequena Kit, o que é impossível, já que são todos fictícios (esta é a parte ruim da leitura, querermos que os personagens sejam reais). 


Os membros da sociedade literária de Guernsey são muito diferentes uns dos outros e a maioria não tinha o hábito de ler. Eles tinham se reunido uma noite para comer um porco que tinham conseguido esconder dos nazistas. Era um período muito difícil, em que havia pouco o comer, em que tudo faltava. Acontece que após o excelente e raro jantar, alguns deles acabaram sendo parados pelos soldados inimigos (tinham violado o toque de recolher) e Elizabeth, com bastante coragem, inventou a mentira sobre uma reunião literária e que tão distraídos com os livros acabaram não percebendo o tempo passar. Era uma mentira difícil de "colar", mas contra todas as probabilidades funcionou. Então, Elizabeth resolveu tornar a mentira real e fundou a sociedade literária. Algo que se tornou um refúgio para aquelas pessoas, que viram na literatura uma chance de escapar, mesmo que por poucas horas, do horror da guerra.


"Nós nos agarramos aos livros e aos nossos amigos; eles nos faziam lembrar que havia um outro lado em nós. Elizabeth costumava recitar um poema. Não me lembro dele todo, mas começava assim: 'Será algo tão insignificante ter apreciado o sol, ter se alegrado na primavera, ter amado, ter pensado, ter feito, ter cultivado amizades verdadeiras?' Não é. Eu espero que, onde quer que esteja, ela se lembre disso."

 

Eu não consigo falar da Elizabeth sem chorar. E não posso dar spoiler. Portanto, não me verão mencionando muito sobre ela. Só digo que é a personagem que mais me marcou neste livro. Aquela que tornou a leitura tão especial, tão emocionante. 


Como eu disse, o livro tem uma narrativa leve, divertida, que nos arranca sorrisos e até gargalhadas. Mas também não nos poupa das realidades brutais da guerra e é impossível segurar as lágrimas diante de certas lembranças dos personagens. Sentimos dor e sentimos ódio. Uma vontade enorme de matar aquelas pessoas cruéis, dignas de serem chamadas de monstros e que destruíram tantas vidas. 


O livro fala de literatura, amizade, recomeço, fé, esperança... bondade. Amor em suas mais diversas formas. Mas também fala de fome, perdas, tortura, desaparecimentos e assassinatos. Não dá para falar de Segunda Guerra Mundial sem mencionar toda essa dor. 


A história termina de forma engraçada e bonita, mas considerei um final tão abrupto! Eu cheguei a dar um grito aqui, chocada. Falei: "Não! Não acredito que elas terminaram o livro assim!"kkkkkk Fiquei frustrada?! Com certeza! Esperava um final diferente. Mesmo assim, isso em nada diminuiu o imenso amor que sinto por esta história. É uma querida do meu coração. 


P.S.: Eu pensei em assistir o filme baseado no livro, mas antes resolvi ver o trailer. Resultado: não gostei. Pelo trailer já percebi que fizeram várias mudanças, inclusive na personalidade dos personagens. E isso me fez tomar a decisão de não ver o filme. 



25 de outubro de 2020

Por que só as princesas se dão bem? - Thalita Rebouças


Literatura Brasileira
Literatura Infantil
Editora: Rocco
Edição: 2013
Páginas: 36

58ª leitura de 2020 (53ª resenha do ano)

Sinopse: Por que só as princesas se dão bem? é um conto de fada às avessas que vai conquistar as leitoras mirins. O livro traz o estilo bem-humorado da escritora que conquistou os adolescentes, agora contando a história de Bia, uma garota apaixonada por princesas... até se tornar uma!




Por que só as princesas se dão bem? é um livrinho voltado para um público infantil, é uma história para crianças pequenas, mas capaz de trazer leveza para pessoas de todas as idades, claro! É por isso que mesmo aos 26 anos eu decidi lê-lo!kkkkkk

Nele conhecemos a pequena Bia, uma criança muito esperta e questionadora, que está sempre enchendo a mãe de perguntas.rs E uma das coisas que ela não entende é por que só as princesas são felizes, só elas têm direito ao "felizes para sempre". Ela acredita que ser princesa é a melhor coisa do mundo e queria muito ser uma... E, como se uma fada madrinha ouvisse seu pedido, ela se torna princesa! Então percebe que as coisas não são bem como ela imaginava...

Sua mãe estava lendo um livro antes dela dormir e, misteriosamente, Bia vai parar dentro da história! Logo é cercada por várias assistentes e preparada para os milhares de eventos e obrigações e regras que toda princesa precisa seguir. Ela não podia fazer perguntas, tinha que vestir o que os outros escolhessem, comer somente o que outras pessoas decidissem, sequer poderia ir ao banheiro quando desejasse, mas somente quando os outros achassem apropriado!rs Eram muitas as regras, muitos os compromissos. Brincar?! Nem em pensamento! Enfim... Era uma vida muito infeliz. E tudo o que Bia mais desejava era voltar a ser ela mesma, voltar a ter sua vida. 

O livro traz uma visão nada cor-de-rosa dos contos de fadas. Nele, a vida de uma princesa é mais "real", não há "o felizes para sempre", com o príncipe encantado maravilhoso e uma vida de bailes e sorrisos e sonhos. Eu teria dó de ler uma história dessas para uma criança que ainda ama contos de fadas e sonha em ser princesa.rs Não leria, não!kkkkkk Mesmo assim, é uma história engraçada, com seu próprio final feliz e que nos faz pensar naquela questão de sempre considerarmos a vida do outro melhor que a nossa, a grama do vizinho mais verde, sabe? Através da experiência da Bia percebemos que muitas vezes o que consideramos "uma vida perfeita" não é nada daquilo e se trocássemos de lugar com a outra pessoa possivelmente iríamos desejar voltar correndo para nossa própria vida. Foi o que a Bia quis: apenas a sua própria vida de volta.

É uma historinha leve, bem rápida de ler, bastante engraçada e com um final bem feliz para nossa protagonista!rs



-> DLL 20: Um livro que tenha criança como personagem principal




30 de agosto de 2020

A Panqueca Fugitiva, o Resmungão e outros contos nórdicos


Adaptação de Augusto Pessôa 
Editora: Rocco
Edição de: 2015
Páginas: 96

47ª leitura de 2020 (45ª resenha do ano)

Sinopse: Os contos nórdicos são hstórias compartilhadas pelos povos germânicos que habitaram a Escandinávia, sobretudo a Islândia. Uma cultura transmitida oralmente, como toda cultura popular, de geração para geração. Essas narrativas chegaram até nós por meio de textos medievais escritos durante e após o processo cristianização da região. E, como acontece com toda cultura popular, são textos vivos, em permanente transformação, de acordo com as necessidades de cada sociedade. 

Com humor e perspicácia, Augusto Pessôa pesquisou e adaptou oito contos nórdicos, carregados de simbolismo e arquétipos que os tornam universais. 




Por estar lendo um livro que tem me provocado muita angústia (Capitães da Areia, do Jorge Amado), eu não consegui começar a ler o livro planejado para um dos temas deste mês do Desafio Literário Livreando 2020. Então, escolhi esta pequena coletânea de contos nórdicos bem no último momento, por acreditar que era algo leve, que leria rapidinho e que traria um certo alívio em meio a uma leitura que é densa e está acabando com o meu emocional.rs

E este livro é realmente muito leve, trazendo histórias simples e encantadoras, bem o que eu precisava para aquecer um pouco meu coração. 

Aqui temos oito contos, cada um mais envolvente que o outro. No primeiro, A boa mulher, conhecemos a história de um casal que vivia numa fazenda distante e que economizava para quando tivesse filhos. Eles eram muito felizes e em tudo a esposa era bondosa com o marido. Um dia, o marido resolveu vender uma das vacas e caminhou um longo tempo atrás de alguém que aceitasse comprá-la, mas não teve êxito, ninguém queria pagar pela vaca. Ao retornar, encontrou um homem com um cavalo e sugeriu uma troca, o que foi aceito. Então, ele seguiu adiante com o cavalo e a vaca passou a pertencer ao outro. Todavia, ao longo do caminho outras trocas de animais são feitas até o desfecho da história, que eu achei incrível. Gostei bastante deste conto. 

O segundo, Os sete potros, é ainda melhor que o primeiro. Nele temos um casal muito pobre que criara três filhos com bastante dificuldades. Um dia, o mais velho decide que vai sair pelo mundo em busca do próprio destino, mas não é bem-sucedido, pelo contrário, retorna ferido e disposto a nunca mais colocar os pés para fora de casa. O segundo resolve tentar a sorte e acaba encontrando os mesmos problemas que o irmão. Então, o caçula decide buscar emprego no mesmo local que seus irmãos e passar no desafio que eles não conseguiram. Os dois zombam, acreditando que ele também voltaria traumatizado. Simplesmente amei este conto! O segredo estava em fazer as coisas da maneira correta, sem enganar alguém que depositara a confiança em você. 

Não irei falar de todos os contos para não acabar tirando a graça de quem vai ler.rsrs O conto A raposa e o urso, por exemplo, dispensa comentários. Sabemos que as raposas, em todas as histórias, são sempre muito espertas e neste conto aqui não é diferente. 

O quarto conto é muito divertido e um dos meus preferidos. Florisbela e Bela Flor traz a história de uma rainha que queria muito ser mãe e suspirava de tristeza por não ter filhos. Até que a mulher do jardineiro lhe entregou uma semente, que ela deveria plantar seguindo várias instruções e uma delas era regar apenas com a mão direita, caso contrário ela iria acabar se arrependendo. Mas a rainha se esqueceu dessa regra e regou tanto com a mão direita quanto com a esquerda. Surgiu uma árvore e, tempos depois, da árvore nasceram duas meninas, uma linda e adorável e a outra desgrenhada e rebelde. A adorável ela chamou de Bela Flor e a rebelde de Florisbela. É um conto que nos surpreende, pois não imaginamos como a história iria se desenrolar e eu amei o que aconteceu! 

O conto O Resmungão traz uma história hilária e tão envolvente quanto as outras, até mais na verdade. Nele temos cinco mulheres que queriam muito ter filhos e um dia encontraram um ovo enorme, do tamanho de um homem. Cada uma quis o ovo para si e brigaram até decidir que todas ficariam com ele. E se revezavam para chocá-lo.rs Até que num determinado dia saiu uma voz de dentro do ovo, pedindo comida. A mulher terminou de abrir o ovo e dele saiu uma "criança".... Bem, não exatamente uma criança, mas um homem com rosto de menino. As mães fizeram de tudo para alimentá-lo, mas o "menino" nunca estava satisfeito, estava sempre pedindo mais comida e elas não tinham condições de sustentá-lo. Então, o mandaram embora. E o homem-menino foi. Não digo mais nada, pois vale a pena conhecer o final por conta própria.rs

Não existe nenhum conto neste livro do qual eu não tenha gostado, o que me surpreendeu, porque é raro apreciarmos todos os contos presentes numa coletânea. São ótimos para serem lidos em qualquer idade, pois divertem e encantam. Eu me senti bem mais leve, tranquila, depois de lê-los. Foi realmente uma ótima escolha! 


-> DLL 20: Um livro de sua cor preferida (minha cor preferida é azul)


 

21 de abril de 2020

Amoras - Emicida / Flávia e o Bolo de Chocolate - Míriam Leitão

Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letrinhas
Edição de: 2018
Páginas: 44
21ª leitura de 2020

Sinopse: Em seu primeiro livro infantil, Emicida conta uma história cheia de simplicidade e poesia, que mostra a importância de nos reconhecermos nos pequenos detalhes do mundo. Na música “Amoras”, Emicida canta: “Que a doçura das frutinhas sabor acalanto/ Fez a criança sozinha alcançar a conclusão/ Papai que bom, porque eu sou pretinha também”. E é a partir desse rap que um dos artistas brasileiros mais influentes da atualidade cria seu primeiro livro infantil e mostra, através de seu texto e das ilustrações de Aldo Fabrini, a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos — desde criança e para sempre.




Este é um livrinho que resolvi ler "do nada". Inicialmente não estava nas minhas metas, mas eu estava um tanto triste e queria apostar numa leitura rápida e leve, que me desse um pouco mais de ânimo. 

Aqui temos uma historinha simples, mas muito importante por falar de aceitação, de amor próprio e de tolerância religiosa. Há menções à religião africana, ao cristianismo, ao islamismo... De um modo direto e lindo, mostrando que são apenas maneiras diferentes de praticar a fé e buscar um mesmo Bem. 

"Nesse planeta, Deus tem tanto nome diferente que, pra facilitar, decidiu morar no brilho dos olhos da gente."

A protagonista é uma menininha muito esperta e observadora e durante um passeio pelo pomar ao lado do pai, enquanto ele explicava que quanto mais pretinhas mais doces eram as amoras, que eram "o melhor que há", ela ficou muito feliz por ser parecida com as amoras, por ser "pretinha também". E aqui temos a questão da aceitação, de amar a si mesmo, de valorizar a sua cor de pele... entender que cada detalhe em nós foi feito com amor por Deus. É um livro de fácil leitura e compreensão pelas crianças e já quero que a minha priminha o leia (no momento ela está lendo Harry Potter e a Câmara Secreta). 

O autor também menciona Zumbi dos Palmares e Martin Luther King, enfatizando assim a sua intenção ao escrever este livro. E ele não apenas os menciona, mas ao final da leitura as crianças têm acesso a um glossário que explica de maneira bem simples quem eles foram, além de explicar também quem foi Obatalá e o que significa orixás, quilombo, o que é a África e quem é Alá


Literatura Brasileira
Editora: Rocco
Edição de: 2015
Págnas: 36
22ª leitura de 2020

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: Em meio aos questionamentos da pequena Flávia sobre a sua pele marrom – tão diferente da pele branquinha da mãe –, a premiada jornalista Míriam Leitão aborda temas delicados como adoção e questões raciais de forma sensível e lúdica para os pequenos. Com belas ilustrações de Bruna Assis Brasil, a autora, ganhadora do Prêmio FNLIJ 2014 na categoria Escritor Revelação por seu livro infantil de estreia, A perigosa vida dos passarinhos pequenos, mostra que o mundo é feito de diferentes cores, pessoas e sabores. E que é justamente isso que o torna tão rico. Flávia e o bolo de chocolate é o terceiro livro infantil de Míriam Leitão, autora também de A menina de nome enfeitado.



Pense num livrinho apaixonante! Se gostei muito de Amoras simplesmente AMEI Flávia e o Bolo de Chocolate

Nele temos uma mulher que sonha muito em ser mãe, mas a vida não lhe permite engravidar. Ela era uma pessoa boa e querida por muitos, mas a tristeza por não ter um filho ia tomando conta dos seus dias. Até que ela encontrou a solução perfeita: adotar uma criança que não tivesse mãe e que a quisesse. Foi assim que Flávia, ainda bebezinha, se tornou parte de sua vida, se tornou a sua filhinha. Quando a viu pela primeira vez, Rita (a mãe) percebeu que aquela era sua menina, pois se apaixonou por ela naquele instante. 

Ao conseguir levá-la para casa, agora legalmente sua filha, Rita logo quis passear com a bebê e mostrá-la para todas as suas amigas, mas ainda que a maioria tivesse ficado feliz por ela, uma tratou de destacar as diferenças físicas entre as duas (a cor da pele) e dizer que seria impossível que aquela fosse a filha de Rita. Embora tenha ficado triste com a observação maldosa, que se preocupava mais com a diferença de cor da pele das duas, ela não se deixou desanimar e criou a filha com todo o seu amor. Elas aprendiam juntas, se divertiam, passeavam, eram muito unidas. Mas um dia...

"Flávia começou a chorar:
- Mãe, eu quero ser como você. 
- Como assim?
- Não quero ser marrom!
- É mesmo? Por quê?
- Eu quero ser branca como você.
- Mas por quê? Você é linda do jeito que é, toda marronzinha - falou a mãe."

Mesmo a mãe mostrando o quanto ela era linda e incrível do jeitinho que era, Flávia não se deixou convencer. Na sua opinião ela era feia por ter a pele marrom e queria ser branca como a mãe. Disse que tudo o que era marrom era feio e nada no mundo a fazia pensar diferente. Será que não?! É aí que o livro fica MARAVILHOSO pela maneira única e sensível que a Rita faz a filha abrir os olhos e enxergar a beleza de ser como era. Não vou dizer como ela faz isso, pois eu amei descobrir lendo. Só posso dizer que se tornou um dos meus livros queridinhos! 

Eu estava lendo "O Cortiço" para o tema deste mês do DLL 20, mas como Amoras e Flávia e o Bolo de Chocolate também se encaixam no desafio, resolvi continuar lendo O Cortiço, mas não mais para o projeto.


-> DLL 20: Um livro com um personagem negro


25 de novembro de 2019

Felicidade Clandestina - Clarice Lispector

Literatura Brasileira
Editora: Rocco
Edição de: 1998
Páginas: 160
Coletânea de contos

Sinopse: Publicado pela primeira vez em 1971, Felicidade clandestina reúne 25 contos que falam de infância, adolescência e família, mas relatam, acima de tudo, as angústias da alma. Como é comum na obra de Clarice Lispector, a descrição dos ambientes e das personagens perde importância para a revelação de sentimentos mais profundos. "Felicidade clandestina" é o nome do primeiro conto. Como em muitos outros, é narrado na primeira pessoa, e mostra que o prazer da leitura é solitário e, quando difícil de ser conquistado, torna-se ainda maior. A história, como outras do livro, acontece no Recife, onde a autora passou sua infância.
Temas caros ao universo clariceano estão presentes neste livro: a relação mágica com os animais, a descoberta do outro, as inúmeras possibilidades de se escrever uma história, a presença do inesperado no cotidiano previsível. Nos textos de cunho autobiográfico é possível flagrar, por exemplo, momentos da infância marcados pelos sentimentos mais diversos; da euforia das descobertas ao choque das frustrações, como em "Restos do carnaval" ou em "Cem anos de perdão".
Entre os 25 contos de Felicidade clandestina, há textos originalmente publicados em jornal e outros que faziam parte dos livros A legião estrangeira, Para não esquecer e A descoberta do mundo. A maioria trata de recordações familiares e de infância, mas todos testemunham os mais profundos segredos da alma humana.



Eu comecei a ler este livro em maio deste ano, depois de assistir a Isabella Lubrano, do canal Ler Antes de Morrer, falando do conto "O Grande Passeio". No mesmo dia adquiri o e-book na Amazon e iniciei a leitura. O que foi uma experiência maravilhosa! Mas após ler os sete primeiros contos, acabei tendo que priorizar a conclusão de outras coletâneas e deixei o livro um pouco de lado. :( Todavia, agora em novembro resolvi finalizar a leitura e trazer a resenha de cada um dos 25 contos presentes no livro, tudo reunido num único post. 

Antes de tudo, colocarei aqui os comentários que fiz sobre os sete primeiros contos:

"Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo."

O conto O Grande Passeio é para ser lido com um lenço ao lado, pois vai atingir um ponto sensível em seu interior. :( Ele traz a história de uma senhora idosa que sofre de demência, possivelmente Alzheimer, embora o texto não deixe claro. Ela é uma senhora adorável, muito doce e simpática, mas que sofreu severas perdas na vida, não tendo mais sua família ao lado. Seus filhos morreram de maneira muito triste e seu marido também se foi. Só restou ela. Sem ter quem se importasse. Precisando contar apenas com a "caridade" das pessoas que, no início, até sentiam pena, mas depois enxergavam nela um fardo, algo que não queriam mais em suas casas. Assim, ela acabava não parando por muito tempo numa casa e logo era enviada para a próxima pessoa "caridosa", que não demoraria a se cansar de sua presença, por mais boazinha e quase invisível que ela fosse. 

"Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco."

É muito duro acompanhar o quanto essa senhora sofre com o descaso, a negligência das pessoas. Entendo que ela não era da família delas, mas era um ser humano e a tratavam quase como um objeto qualquer. Isso dói dentro da gente, pois além de sentirmos pela personagem, sentimos por nós mesmos. Porque é fácil nos colocarmos no lugar de Mocinha (como ela preferia ser chamada, mas seu nome era Margarida) e imaginarmos nossa velhice. E se estivermos sozinhos? E se não tivermos forças para cuidar de nós mesmos, se dependermos da caridade dos outros? Só nos imaginarmos na situação de Mocinha já é duro, doloroso! :( E a forma como o conto termina destroça nosso coração. 

Este conto acaba por nos fazer pensar também nos tantos idosos que estão abandonados por aí, rejeitados por suas próprias famílias, tratados com desprezo pela sociedade... Quando estagiei por um tempo num determinado hospital eu vi idosos que não recebiam sequer uma visita, embora tivessem família. Isso partia meu coração. Porque eles ficavam olhando para o nada, sabendo que naquele horário outras pessoas internadas estariam recebendo seus familiares. Este foi apenas um dos motivos para eu ter ficado longe da Enfermagem por tantos anos... não tinha coração para suportar tanta dor. Era comum eu chegar em casa chorando quase todos os dias. Admiro muito as pessoas que trabalham cuidando daqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade, porque é preciso muita força para suportar, para não desmoronar e perder por completo a fé no ser humano. 

25 de maio de 2019

Harry Potter e a Ordem da Fênix - J. K. Rowling

Título Original: Harry Potter and the Order of the Phoenix
Tradutora: Lia Wyler
Editora: Rocco
Edição de: 2003
Páginas: 703

Sinopse: O Ministério da Magia começa a intervir em Hogwarts, não acreditando no retorno de Voldemort propalado por Harry Potter e Alvo Dumbledore. Indicada pelo Ministério como professora de Defesa Contra as Arte das Trevas, Dolores Umbrigde proíbe a matéria para alunos mais novos, o que leva Harry a fundar a Armada Dumbledore, para ensinar seus colegas a se defenderem do lorde e seus Comensais da Morte.
Na batalha Bem versus Mal, Harry vai enfrentar as investidas de Voldemort sem a proteção de Dumbledore, já que o diretor de Hogwarts é afastado da escola. E vai ser sem seu protetor que o jovem herói enfrentará descobertas sobre a personalidade controversa de seu pai, Tiago Potter, e a perda de alguém muito próximo.
Não foi por acaso que J. K. Rowling chegou às lágrimas escrevendo o quinto volume da série, lançado no Brasil em novembro de 2003.


Como vocês sabem esta edição de colecionador não vem com sinopse. Por isso, a sinopse acima é a que está disponível no Skoob. Além disso, eu não li Harry Potter e a Ordem da Fênix nesta edição (que é a que eu tenho), pois estava com medo de danificar o livro já que ele possui mais de 700 páginas e é um exemplar muito frágil. Preferi fazer a leitura no Kindle Unlimited, já que todos os livros da saga estão disponíveis lá, para minha alegria. :)

Quem leu Harry Potter e o Cálice de Fogo, quarto volume desta saga maravilhosa, já estava preparado para enfrentar situações muito difíceis e dolorosas no quinto volume. No livro anterior, se aproveitando do Torneio Tribuxo para atrair Harry Potter e assassiná-lo, Voldemort utilizou um de seus seguidores fiéis para entrar em Hogwarts sem levantar suspeitas e colocar o nome de Harry no Cálice de Fogo, para que ele fosse obrigado a concorrer com os outros campeões. Só que o maldito Lorde das Trevas não tratou apenas de obrigar nosso protagonista a concorrer, mas fez de tudo para que ele ganhasse... pois no momento que Harry colocasse as mãos na Taça Tribuxo eles estariam cara a cara. 

6 de janeiro de 2019

Harry Potter e o Cálice de Fogo - J. K. Rowling

(Título Original: Harry Potter and the Goblet of Fire
Tradutora: Lia Wyler
Editora: Rocco
Edição de: 2001)

No quarto ano em Hogwarts, Harry Potter, embora ainda sem idade suficiente, é misteriosamente selecionado pelo Cálice de Fogo para competir no arriscado Torneio Tribruxo. Estranhos sinais luminosos no céu mostram que Voldemort pode estar anunciando sua volta. Além disso, a marca na testa de Harry não pára de doer, o que sempre significa que algo muito tenso está para acontecer.

Harry e seus amigos precisam enfrentar testes terríveis, dentro e fora da gincana.

Será que estão preparados?



Palavras de uma leitora...


- A sinopse acima foi encontrada no Skoob. Como vocês sabem, a edição que eu possuo da história não vem com sinopse. 

Quanto mais leio Harry Potter melhor compreendo o enorme sucesso desta série. São livros simplesmente maravilhosos! Um universo mágico do qual a autora fala com tanta propriedade que chegamos a acreditar que realmente existe.rsrs

Após os acontecimentos impactantes de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, quando descobrimos que o tal Sirius Black, um suposto assassino perigoso (padrinho de Harry Potter acusado de ter traído seus pais, dando ao Lorde das Trevas a localização exata dos dois) é na verdade apenas mais uma vítima do jogo de traição e poder de Voldemort e seus seguidores. Sirius não foi responsável pelo massacre do qual era acusado, bem como também nunca traiu os pais do Harry, sendo outro o verdadeiro culpado. 

Todavia, quem leu o livro sabe que o real assassino fugiu antes que Sirius finalmente pudesse provar sua inocência. Assim, ele é obrigado a se esconder do Ministério da Magia para não ser obrigado a voltar para Azkaban ou pior que isso: receber o beijo fatal dos dementadores.

Harry, que acreditava que finalmente poderia se livrar de ter que passar os verões ao lado dos tios que o odiavam, já que poderia estar com seu padrinho, fica frustrado com a fuga do verdadeiro assassino e a consequente impossibilidade de Sirius ser inocentado. Desta forma, é obrigado a se contentar em comunicar-se com o padrinho apenas através de cartas, escondido das autoridades do mundo da magia. 

Em Harry Potter e o Cálice de Fogo, as coisas tomam um novo e inesperado rumo. Com o lorde das trevas cada vez mais forte a ameaça de seu retorno parece mais real do que jamais fora. A cicatriz de Harry volta a doer, pesadelos vívidos tomam conta de sua mente, como se tais momentos estivessem acontecendo em algum lugar, como se não fossem apenas pesadelos. E como se não bastasse, ocorre o desaparecimento misterioso de uma bruxa, bem como os Comensais da Morte, antigos seguidores de Voldemort, retornam para aterrorizar as pessoas. A Marca Negra, que sempre anunciava um massacre na época em que Voldemort liderava, também surge no céu. Será que era verdade? Voldemort, derrotado treze anos antes pela magia que protegeu Harry Potter de ser assassinado por ele, estaria de volta? Teria recuperado o seu poder? 

Quando as aulas em Hogwarts recomeçam há uma evidente tensão no ar, embora os professores e o diretor Dumbledore tentem aliviar o clima com o anúncio do Torneio Tribuxo, que tinha sido evitado por anos pelos perigos aos quais os campeões eram expostos. Com as novas medidas de segurança adotadas pelos responsáveis pela volta deste torneio nenhum participante correria risco excessivo de vida e os alunos das três escolas escolhidas poderiam se divertir ao longo do campeonato, sem medo. Pelo menos, era nisso que eles acreditavam. 

Uma das medidas de segurança era a limitação de idade. Nenhum estudante com menos de dezessete anos poderia colocar seu nome no Cálice de Fogo (artefato mágico que selecionaria o nome dos três campeões a concorrer no torneio). Para evitar que os alunos violassem tal regra, Dumbledore lançou um feitiço em torno do Cálice de Fogo, permitindo a aproximação apenas daqueles que fizessem parte da faixa etária indicada. 

Harry Potter, com seus quatorze anos, sabia que não poderia participar e não se importava com isso. Embora tenha cogitado, de brincadeira, concorrer tinha consciência de que não tinha aprendido o suficiente para estar preparado para um torneio deste porte. Assim, planejava apenas aproveitar o jogo com seus amigos, torcendo pelo campeão da escola. O que ele não poderia imaginar é que alguém, com o intuito de provocar a sua morte, colocaria seu nome no Cálice de Fogo, ocasionando, pela primeira vez na história deste torneio, que o artefato selecionasse o nome de quatro campeões. E uma vez selecionado nenhum campeão poderia se negar a concorrer, custasse o que custasse

- Este quarto volume da série foi, na minha opinião, o mais eletrizante de todos. Ele já começa tenso, pois as cenas iniciais nos mostram algo horrível, provocando medo. Pelo menos eu fiquei morrendo de medo.kkkkkk... E o tal Torneio Tribuxo já me deixou nervosa antes mesmo de saber o que cada campeão enfrentaria. 

Três escolas participariam do torneio: Hogwarts, claro, que além disso seria a escola que receberia os alunos e diretores das outras duas. Beauxbatons e Durmstrang, escolas das quais a gente nunca tinha ouvido falar e que representavam outros países do mundo da magia. Assim, cada uma teria seu próprio campeão para concorrer. Venceria aquele que, após as três tarefas a serem escolhidas, pegasse a Taça Tribuxo. Como alguém resolveu se aproveitar do torneio para matar o Harry, o Cálice de Fogo acabou por selecionar o nome de um quarto campeão e nosso protagonista foi obrigado a concorrer, mesmo que aquilo fosse um risco de vida. 

- Ao longo dos meses de torneio, coisas misteriosas acontecem, mas nada poderia nos preparar para o final. Eu fiquei com o coração acelerado e um nó na garganta. :( Foi um final chocante e muito triste. Ainda não me recuperei e não faço ideia do que se passará no quinto livro. Como conseguirão resolver algo tão grave. 

- Como eu digo desde que li o primeiro volume, Harry Potter é uma série que ensina grandes lições sobre amor, amizade, esperança... sobre fazer o bem e escolher o lado certo e não o mais fácil. Há desde o início da série uma evidente luta entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Os personagens que representam o bem não são pessoas isentas de erros, não são perfeitos. Eles são falhos como qualquer ser humano. O que os distingue é que, independente de qualquer coisa, não cedem às forças das trevas, ao comando de Voldemort. Não permitem que o mal os destrua. É uma série muito bonita que todo mundo deveria ler um dia. 

9 de dezembro de 2018

O Conto da Aia - Margaret Atwood

(Título Original: The Handmaid's Tale
Tradutora: Ana Deiró
Editora: Rocco
Edição de: 2017)

Visão assustadora de uma sociedade radicalmente anulada por uma revolução teocrática no século XXI, O conto da aia tornou-se um dos romances mais poderosos de nossos tempos. Nas palavras da própria Margaret Atwood, "a República de Gilead é construída sobre a base das raízes puritanas do século XVII que sempre estiveram por baixo da América moderna que pensávamos conhecer". 



Palavras de uma leitora...


Depois de tanto ter ouvido falar deste livro decidi que não havia momento melhor para adquiri-lo do que no Dia Internacional da Mulher, quando a Saraiva fez uma mega promoção, concedendo 50% de desconto na compra de cada livro. Foi a melhor promoção do ano, sem dúvidas.rs E embora eu tenha desejado ler o livro assim que o tive em minhas mãos o medo acabou falando mais alto, pois o pouco que sabia sobre a história era o suficiente para me deixar apavorada. 

Foi somente com o projeto Leitura Coletiva que tive coragem de apostar na história, uma vez que não faria a leitura sozinha e poderia desabafar com os outros leitores, sabendo que eles estariam passando pela mesma angústia.kkkkkk... Assim, ao longo de três semanas, fui atormentada pela realidade de O Conto da Aia, quando um governo teocrático e totalitário se levantou e anulou os direitos das pessoas após um repentino golpe de Estado, com o assassinato do presidente dos Estados Unidos e a execução dos membros do Congresso. E sabe de uma coisa? O livro se passa em pleno século XXI (final do século XX e início do século XXI pelo que pude perceber). Isso é o mais assustador. A história se passa numa época em que existia uma grande liberdade, direitos garantidos, mulheres trabalhando e sendo independentes, movimentos feministas e de LGBT, defesa do não preconceito racial, entre outros movimentos pela defesa dos direitos humanos. As pessoas eram livres e jamais passaria pela mente delas que um dia tudo poderia chegar ao fim. Que seus direitos não eram tão garantidos assim. Que uma Constituição poderia ser derrubada e direitos humanos ignorados. 

"Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção. Não havia nem um inimigo que se pudesse identificar.
Cuidado, disse Moira para mim, ao telefone. Está vindo por aí.
O que está vindo por aí?, perguntei."

- As coisas aconteceram tão de repente que as pessoas não tiveram nem tempo para reagir. Apavoradas com o ataque terrorista, que elas acreditavam ter sido praticado por radicais islâmicos, nem lutaram quando a suspensão da Constituição foi decretada e os direitos suprimidos. O estado de sítio era necessário, certo? Era uma situação de emergência, segurança nacional. Ninguém podia se preocupar com suas próprias liberdades quando o país inteiro estava ameaçado. Assim a população esperou, temerosa, sem entender o que de fato estava acontecendo. Mas quando tudo ficou claro já era tarde demais. Não havia mais chance de luta. Não tinha como escapar. 

"Então me lembrei de algo que eu tinha visto, mas não havia reparado na ocasião. Não era o exército. Era outro exército."

- Primeiro foram as prostitutas que desapareceram das ruas. Mas quem se importava? Elas incomodavam. Eram uma vergonha para as famílias de bem, destruidoras de lares. As demais mulheres até ficaram aliviadas com aquela "limpeza", embora não soubessem o que de fato havia acontecido com elas. Alguém precisava fazer algo, diziam. Uma providência precisava ser tomada e a população ficou contente. Qualquer objeto pornográfico (revistas, filmes etc) tornou-se proibido. Era crime grave possuir qualquer coisa do tipo em sua residência. Mas até aí tudo bem. 

Então num belo dia uma nova lei foi criada: a partir daquele momento mulheres não poderiam trabalhar. Ter uma profissão. Advogadas, médicas, engenheiras, bibliotecárias, o que fosse... todas dispensadas de uma hora para outra. Suas contas congeladas. Afinal de contas, a nova lei também dizia que mulheres não poderiam possuir bens. Maridos ou outros parentes próximos é que deveriam administrar as coisas. O dinheiro delas passaria para as mãos deles. 

"Houve passeatas, é claro, muitas mulheres e alguns homens. Mas foram menores do que se teria imaginado. Creio que as pessoas estavam com medo. E quando se tornou de conhecimento público que a polícia ou o exército, ou fossem lá quem fossem, abririam fogo quase que tão logo quaisquer das passeatas começassem, as passeatas pararam."

- Foi natural a leitura tornar-se proibida. Era algo venenoso, letal. Quem fosse pego lendo poderia sofrer um castigo severo, até mesmo ter uma de suas mãos amputadas. Os letreiros das lojas foram trocados por desenhos, livros foram recolhidos, alguns destruídos, outros guardados pelos que detinham o poder. Mulheres não podiam saber ler. Deveriam esquecer a vida que tinham tido até então. Tudo estava acabado e o melhor seria se conformar. Era hora de trazer de volta as leis do Antigo Testamento, ou o que o novo governo interpretava dele. Uma nova era começava. 

Quem possuía alguma religião cristã e era legalmente casado (leia-se: primeiro casamento) no início foi deixado relativamente em paz. Eram pessoas de família, cidadãos corretos. Desde que não se metessem no que acontecia com os outros tudo estaria bem para eles. Por um tempo. Mas homens e mulheres divorciados e que construíram uma nova família foram considerados adúlteros pela lei. Assim o casamento era ilegal e tais mulheres deveriam tornar-se propriedade do governo. Os filhos delas? Confiscados. Arrancados de seus braços e entregues aos escolhidos pelo governo. 

Assim foi que aconteceu com a protagonista, a aia que nos conta sua história e como o mundo que ela até então conhecia chegou ao fim. Como perdeu a sua filhinha e o homem a quem amava. Como passava cada dia sem saber se eles ainda estavam vivos. Se um dia seria o corpo de Luke que ela veria pendurado no Muro, onde ficavam expostas as pessoas executadas pelo regime. 

"Não há ninguém que eu possa amar, todas as pessoas que eu podia amar estão mortas ou em outro lugar. Quem sabe onde estão ou quais são seus nomes agora? Poderiam muito bem não estar em lugar nenhum, como eu estou para elas. Também sou uma pessoa desaparecida."

- Como Luke havia sido casado antes dos dois construírem sua própria família, Offred (nome dado pelo governo) foi uma das tantas mulheres sequestradas durante a República de Gilead e levadas para o Centro Vermelho, onde deveriam ser educadas (leia-se: lavagem cerebral) para se tornarem aias. Após uma rígida reeducação, com ensinamentos bíblicos distorcidos, punições e manipulações eficazes, essas mulheres seriam entregues nas casas de membros do alto escalão do poder, que possuíam o direito de terem aias, servas que tinham como missão procriar. Dar-lhes filhos. Como a taxa de natalidade havia caído muitíssimo ao longo dos anos; fosse por conta de doenças sexualmente transmissíveis que provocavam esterilidade, fosse porque mulheres tinham optado por ligarem as trompas, fosse por conta de acidentes radioativos, epidemias, a questão é que ter filhos tornou-se um privilégio. Crianças eram raridade e extremamente desejadas pelas famílias que se formaram durante o novo regime. Desta forma as aias eram comuns nas casas dos poderosos Comandantes e toleradas pelas Esposas, uma vez que seriam apenas um objeto utilizado para trazer ao mundo os filhos que seriam delas, das Esposas. 

Offred já havia passado por uma outra casa antes de chegar a do seu atual Comandante. As coisas não tinham dado muito certo e lhe foi concedida uma segunda tentativa. Ela sabia que após a terceira sua vida chegaria ao fim. Mas que vida? O que ela de fato possuía? Nada. Nem mesmo a sua identidade. Cada dia cumpria as ordens que lhe eram dadas. Nas noites escolhidas pela Esposa e pelo Comandante ela era obrigada a deitar-se e deixar que eles utilizassem seu corpo como bem entendessem. Tinha que engravidar. E após nove meses ver seu bebê ser entregue aos braços de outra pessoa. Ser retirado dela como um dia sua filha também tinha sido. Já não tinha forças para chorar. Estava se acostumando. E isso era o pior. Ela estava começando a esquecer o passado, a sua vida. Por isso precisava nos contar a sua história. Manter vivo o pouco que ainda recordava e também deixar registrado aquilo no qual se transformou o país em que ela tinha vivido. 

"Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
Ninguém disse quando."

- Dá para vocês terem uma ideia do quanto esta história mexeu comigo. Com minhas emoções e minha mente. Com a minha já inseparável ansiedade. Se já sou nervosa e temerosa por natureza, ao ler O Conto da Aia isso foi elevado a décima potência. Sobretudo após os acontecimentos dos últimos meses no Brasil. As semelhanças com o passado da nossa nação e com o presente são gritantes. A forma como as pessoas foram manipuladas, levadas a acreditar que tudo aquilo era para o bem, que uma mudança era necessária, que o país tinha que ser salvo do mal, de quem tinha levado a nação para o buraco. Mas a mudança era melhor para quem? Como uma famosa frase do livro: "Melhor?, digo, em voz baixa, apagada. Como ele pode pensar que isto é melhor? Melhor nunca significa melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns." E é exatamente assim que funciona. As pessoas pensam tanto em seus direitos, no que elas consideram correto, no que lhes agrada e esquecem dos outros. Amar ao próximo é desnecessário, certo? Para que amar ao próximo se pensar no meu próprio umbigo é mais conveniente? Tanta hipocrisia me enoja. E o mesmo se passa no livro. Enquanto eram os direitos dos outros que estavam sendo atingidos ninguém se importou. Foi somente quando aquela realidade também os atingiu que entenderam a gravidade do que estava acontecendo e aí já era tarde demais. 

- Eu sofri demais com esta história. Não só por tudo o que aconteceu com as mulheres e também com os homens que tentaram se rebelar. Mas sobretudo por ver tantas semelhanças com tragédias já ocorridas no mundo. E a grande probabilidade de algo pior um dia acontecer. As pessoas são tão ingênuas. Acreditam tanto na garantia dos seus direitos, nas constituições de seus países, na proteção dada pelos direitos humanos. Não entendem, não conseguem perceber como tudo é frágil. Nada é garantido. Se você pensa o contrário lamento dizer que está se iludindo. Qualquer direito um dia pode ser destruído. Basta que um governo forte deseje isso. Se não fosse assim ditaduras não existiriam em pleno século XXI. E olha que os direitos humanos estão aí, eles e vários tratados sobre o assunto, assinados e ratificados pelas nações. E o que é pior: a ditadura escancarada ou aquela que é disfarçada de democracia? (frase já existente antes de ser levianamente mencionada por aí nos últimos anos). Antes de responder é melhor ler O Conto da Aia

"Sinto-me enterrada."

- Durante a República de Gilead muitas atrocidades foram cometidas, como os salvamentos de homens e mulheres. Médicos, padres, outros religiosos que se rebelavam contra o governo, maridos que não aceitavam a nova situação... Enfim... Eram variados aqueles executados pelo regime. Os sentenciados à morte eram brutalmente enforcados e pendurados no Muro para servir de exemplo, como em épocas anteriores da História do mundo. Os salvamentos de mulheres eram mais raros, pois elas tinham sido tão massacradas e anuladas que já não tinham forças para se rebelar. Mesmo assim ainda acontecia. Eram assassinadas da mesma maneira, na presença de outras mulheres, que deveriam manifestar abertamente apoio aos assassinatos, quer quisessem ou não. Como os homens também tinham seus corpos pendurados no Muro, como uma coisa qualquer, sem direito a um enterro digno. 

"O momento da traição é o pior, o momento em que você sabe, além de qualquer dúvida, que foi traído: que algum outro ser humano desejou a você tamanho mal."

Mas nem todas as mulheres se tonaram aias (propriedades do governo para servirem de barriga de aluguel, escravas para procriação. Vestes vermelhas), ou Esposas ("privilegiadas" escolhidas para se casarem com os Comandantes. Vestes azuis), econoesposas (esposas concedidas a homens pobres. Vestes que eram mistura de cor vermelha, azul e verde), marthas (criadas das casas, que limpavam, cozinhavam, eram empregadas domésticas. Vestes verdes), Tias (religiosas da República que faziam a lavagem cerebral nas aias no Centro Vermelho). Muitas mulheres também se viram numa posição diferente: decretadas NÃO MULHERES. Eram as que iam imediatamente para a execução ou para as Colônias. Entre elas estavam as muito idosas e inúteis, as bissexuais ou homossexuais, as que tinham feito algum procedimento cirúrgico para não engravidarem, as feministas, ateias, as freiras que não se convertiam e mesmo após torturas não aceitavam a nova religião, entre outras. Nas Colônias elas viviam o inferno. Era como ser assassinada lentamente. Tinham no máximo, na melhor das hipóteses, uns quatro anos de vida. Antes que os produtos tóxicos com os quais eram obrigadas a lidar as matasse. Isso se a fome não matasse antes. Os campos de concentração passam por sua mente ao ler isso? Pois bem. Também me lembrei deles. É algo semelhante. Até porque boa parte da população do país (e do mundo) não sabia da existência das Colônias. E quando sabiam não faziam ideia de que eram campos de tortura, de despejo humano, onde as pessoas trabalhavam sem descanso, passavam fome e eram envenenadas lentamente. 

"Acredito na resistência do mesmo modo que acredito que não pode haver luz sem sombra; ou melhor, não pode haver sombra a menos que também haja luz. Tem que haver uma resistência [...]"

- Claro que como em qualquer parte do mundo e sob qualquer regime totalitário surgem as resistências. Sempre haverá alguém para lutar por um mundo melhor, sempre haverá alguém que tentará mesmo sabendo que não viverá o suficiente para ver a mudança. Em O Conto da Aia não é diferente. Duas resistências distintas e interligadas surgem e se fortalecem ao longo dos anos. Mas a pergunta é: são suficientes para sequer abalar um governo que esperou pacientemente o momento perfeito para dar o seu golpe? Um governo tão bem preparado? Isso vocês só irão descobrir lendo, claro. Tudo o que eu disse aqui.... não é nem um terço do que vocês encontrarão no livro. E nem pode prepará-los para o que sentirão. Eu chorava tanto... sobretudo na metade da segunda semana de leitura, quando enfrentamos boa parte dos capítulos pesados. Mas quando a terceira semana de leitura foi chegando ao fim e vieram capítulos chocantes... eu própria já não tinha forças para chorar. O final foi impactante. De me deixar de boca aberta e coração acelerado. 

"Não deixe que os bastardos esmaguem você."

- Esta leitura é extremamente necessária. O Conto da Aia é um livro que deve ser lido por todos. Porque serve de alerta, porque chama a nossa atenção, nos dá aquela sacudida capaz de nos despertar. Aproveitem o privilégio que têm de ler. Se uma ditadura fosse implantada hoje tenha certeza que este seria um dos livros que seriam rapidamente proibidos. Livros sempre foram considerados perigosos, queridos. Porque eles nos fazem pensar. Nos dão conhecimento, despertam o pensamento crítico. Os livros mudam as pessoas. 




O Conto da Aia, como eu disse, foi nossa escolha para a Leitura Coletiva de novembro/dezembro. Ele se tornou um dos meus livros preciosos da estante. Que merece uma posição de destaque por ser especial. Este é um livro que me mudou. Que alterou algo dentro de mim e me fez ainda mais consciente da realidade não só do Brasil, mas do mundo. E como os movimentos feministas e os demais existentes pela luta dos direitos humanos são necessários. Os defenderei sempre. 

E os livros, queridos! Temos que incentivar mais e mais a leitura. Um mundo que desvaloriza a leitura tende a regredir. As pessoas precisam ler, precisam desenvolver o pensamento crítico. Senão qualquer um com um mínimo de capacidade de persuasão, com a lábia perfeita, conseguirá manipulá-las. Deem livros de presente! Emprestem livros! Comprem livros! Leiam e convençam suas famílias e amigos a lerem! O mundo precisa de mais leitores. 

"Não permitas que sofram demais. Se tiverem que morrer, que a morte seja rápida. Poderias até oferecer-lhes um Céu. Precisamos de Ti para isso. O Inferno podemos fazer nós mesmos."
Topo