30 de março de 2021

Um carinho na alma - Bráulio Bessa


Literatura Brasileira
Editora: Sextante
Edição de: 2019
Páginas: 157

9ª leitura de 2021 (9ª resenha do ano)

 Sinopse: Depois de conquistar o coração dos brasileiros com sua Poesia que transforma e passar mais de um ano entre os autores mais vendidos do país, Bráulio Bessa volta a nos brindar com poemas que, como de hábito, nos fazem pensar e nos fazem sentir.

Sempre fiel às suas raízes, mas trazendo novidades, em Um carinho na alma o poeta cearense amplia a gama da sua poesia, indo além do cordel tradicional mas sem jamais abandoná-lo. Seus versos falam sobre os temas que pontuam sua obra, como o amor, a esperança e a amizade, mas também a seca, a injustiça e a falsidade, produzindo as rimas inspiradas que nunca deixam de levar um sorriso aos lábios.

Além de poeta, Bráulio é também um grande contador de histórias. Por isso, além dos poemas, o livro traz relatos de sua infância em Alto Santo, da vivência com a família e os amigos, e de suas andanças de norte a sul do Brasil, abraçando e falando com o povo que tanto lhe prestigia.

 


Quando comecei a ler Um carinho na alma, não imaginei que o livro fosse me emocionar tanto. Que fosse me tocar tão profundamente. Foi um retorno ao meu passado. Ler estes poemas foi viajar para lugares tão bons e tão distantes! Foi visitar a saudade que, na verdade, nunca me deixa só. Saudade de um período muito diferente do que vivemos hoje. Saudade de infância, de pessoas que ficaram pelo caminho, mas que marcaram muito a minha vida. Estou escrevendo e chorando, pois foi isso que o poeta provocou: lágrimas. A cada poema. Foram raros os que não me fizeram chorar. Mas não trocaria estes momentos. Porque lê-los me fez bem. Lembrar de momentos que nunca retornarão dói muito, mas ao mesmo tempo faz bem para a alma. 


Difícil dizer qual dos poemas presentes neste livro mais me tocou. Todos me emocionaram! O poeta escreve com o coração, com tanto sentimento que é como se as emoções saltassem das páginas. E são poemas autobiográficos (parte deles são), que falam de seu próprio passado, da infância e juventude, de familiares amados, de momentos que passam por suas lembranças. 


"Quando o tempo feroz acelerar
desviando da nossa juventude,
não há nada a fazer para que mude,
não há freio no mundo para frear.
O ponteiro insiste em não parar,
pro relógio todos nós somos iguais.
Pai e mãe são eternos, mas mortais,
é saudade que se torna oração."
[Trecho do poema Os cabelos prateados dos meus pais]

Talvez ler este livro no momento atual, com a pandemia tão grave e tantos recordes de mortes, tenha feito minhas emoções ficarem ainda mais à flor da pele. Ver as notícias tem me feito entrar em pânico. Em desespero. Hoje ao sentar para assistir o jornal eu não aguentei. É angustiante. Não sabemos o que o amanhã nos reserva, mas em nenhum outro momento da minha vida senti tanto medo do amanhã. Estamos vivendo um período muito incerto e isso faz eu me agarrar ainda mais à minha família, lembrar muito do passado. Teve um poema do autor que me rasgou o coração, pois ele falou de sua avó, de quando ela estava partindo. Que ela quis comer goiaba e isso me levou dezenove anos atrás, quando minha avó, que também estava indo embora por causa de um câncer, desejou a mesma fruta. E não podia comer. Ela foi embora com o desejo de comer goiaba. Este poema atingiu tão fundo em mim. E ainda por cima, no finalzinho dele, o autor fala do alívio de saber que sua avó teve várias pessoas para segurar sua mão na hora do fim. Isso nos destroça porque esse vírus maldito, que está levando milhões de pessoas no mundo, impede a despedida. Impede que você possa segurar a mão do seu ente querido, de estar com ele nesse momento tão doloroso. Talvez este tenha sido o poema que mais me fez em pedaços. 

"A dor foi terrível. A saudade é valente e latente. Mas saber que, no último suspiro de vida da vovó Maria, tanta gente segurou em sua mão, foi um pingo de felicidade naquela chuva de tristeza."
[Trecho do poema Goiaba tem cheio de vida]

Com palavras simples, mas que acertam em cheio o coração, Bráulio Bessa faz magia. Te faz reviver momentos. Como se eles de fato estivessem acontecendo. É uma viagem agridoce. Me entreguei totalmente à leitura, às emoções. No fim queria recomeçar. Ler tudo outra vez. E com certeza preciso ler tudo o que ele já publicou. Me tornei sua fã. Uma fã profundamente apaixonada por sua escrita tão simples e tão emocionante. 

Além dos poemas autobiográficos, o autor também fala de outros assuntos e "conta histórias", inclusive fechando com chave de ouro o livro com um poema intitulado A lição que a morte deu, que fala de um patrão muito cruel e um empregado que morreu para salvar a vida dele. E aí o poeta prossegue falando do que aconteceu após o fim deles na Terra e eu simplesmente amei este poema! Ele fala das injustiças deste mundo e da justiça de Deus. Me lembrou um pouco a parábola do Rico e Lázaro.

"Depois da viagem feita
pro mundo espiritual,
o lugar que deixa claro
quem é do bem ou do mal, 
fica tudo evidente, 
a justiça é transparente
e nunca é manipulada.
É a hora da verdade
em que toda a humanidade 
um dia será testada."
[Trecho do poema A lição que a morte deu]


Se recomendo este livro? Sem pensar duas vezes! Simplesmente leiam!!!



-> DLL 21: Um livro que termine em um dia 




29 de março de 2021

Como Deus cura a dor - Mark W. Baker



Título Original: How God Heals Hurt
Tradutora: Cynthia Azevedo
Editora: Sextante
Edição de: 2008
Páginas: 208

8ª leitura de 2021 (8ª resenha do ano)

Sinopse: "A felicidade não exclui o sofrimento, porque ele é inevitável. A felicidade depende da maneira como vamos sofrer. Foi isso que Jesus ressaltou em sua própria vida. Evitar o sofrimento não nos leva a uma vida mais feliz, mas a forma de enfrentá-lo conduz a uma vida mais significativa. " - Mark Baker

Autor de Jesus, o maior psicólogo que já existiu (900 mil exemplares vendidos no Brasil), Mark Baker mostra em seu novo livro como a trajetória de Jesus pode servir de inspiração para superarmos nossas dificuldades, traumas e sofrimentos.

Formado em Psicologia e em Teologia, com vasta experiência clínica como terapeuta, o autor estuda há 25 anos os sentimentos das pessoas e a maneira como elas reagem às oito emoções básicas que norteiam nossas vidas: sofrimento, medo, ansiedade, tristeza, culpa, raiva, felicidade e amor.

Suas conclusões deram origem a Como Deus cura a dor, um valioso instrumento de crescimento pessoal e de transformação. Analisando histórias de dezenas de pacientes sob o ponto de vista psicológico, Baker ensina como é possível lidar com o sofrimento associando o tratamento médico à sabedoria da Bíblia.

Com um profundo efeito terapêutico, este livro vai aumentar nossa fé no poder curativo de Deus e, assim, nos ajudar a atravessar os períodos difíceis da nossa jornada.



Fazia mais de um ano que eu estava lendo este livro. Precisamente desde outubro de 2019. Até já tinha lido algumas páginas antes disso, mas foi naquela data que reiniciei a leitura, mantendo-o como companhia ao longo de todo esse tempo, como livro para os momentos em que eu precisava de conforto. De uma palavra amiga, de uma esperança. Assim, eu o lia em doses homeopáticas. 

Não posso dizer que ele funcionou em todos os momentos de dor, mas na maioria sim. Não me dando nenhuma fórmula especial para escapar dos sofrimentos da vida, mas sim servindo como algo que me trazia de volta para mim mesma. Para o meu interior, minhas emoções. E encontrando auxílio de Jesus nas palavras que me confortavam. 

É um livro perfeito? Não. Tem alguns problemas. Mas de modo geral me fez muito bem. E era isso o que eu buscava neste livro: algo que fizesse eu me sentir tranquila, bem, em paz. 

Esta não foi minha primeira experiência com o autor. Li anos atrás Jesus, o maior psicólogo que já existiu e foi uma leitura tão maravilhosa que quando soube da existência de Como Deus cura a dor o quis imediatamente. Sem precisar pensar duas vezes. Do mesmo modo que adquiri O poder da personalidade de Jesus antes de concluir esta leitura aqui. Eu gosto da escrita do autor. Bem mais do que da do Augusto Cury, que é sim um ótimo autor, mas que não provoca em mim o mesmo efeito que as palavras dele. 

Vocês sabem que resenhas de livros de autoajuda não são frequentes aqui no blog, o que não significa que eu tenha algo contra este tipo de literatura. Não tenho e costumo adquirir autoajuda que contém temática religiosa, pois sou cristã e é uma literatura que me agrada, que me faz bem. Não trago resenhas desses livros com frequência porque costumam ser leituras muito pessoais. Gosto da relação exclusiva entre livro e leitora quando mergulho neste gênero e prefiro manter apenas dentro de mim tudo o que o livro me provocou. Porque é um momento em que me desligo de tudo e me ligo ao meu interior. 

Mas eu senti vontade de falar de Como Deus cura a dor. Simplesmente senti vontade. Não o considero maravilhoso como o anterior que li do autor, mas, como eu disse, gostei muito, me fez bem

Neste livro, através de sua experiência como terapeuta e sua formação em psicologia e teologia, o autor vai abordar os diversos tipos de dor sentidas pelos seres humanos em algum momento de suas vidas. E a maneira como reagimos diante delas. Se as dores nos fazem nos tornarmos pessoas melhores ou se nos empurram para baixo e para uma vida de amargura e medos. 

"O sofrimento é uma força poderosa. Não conseguiremos evitá-lo, mas poderemos escolher a direção em que ele nos levará."

Fácil falar, não é mesmo? O autor não diz que é fácil escolher o que o sofrimento, inevitável nesta vida, vai fazer com a gente. Não é nada fácil superar uma dor. Muitas vezes se passam anos, muitos anos e a dor ainda está ali, afetando nosso presente, nossas relações, nossa saúde mental. E a culpa não é nossa. Mas somos sim (cada um de nós) capazes de lutar contra as consequências da dor. Mesmo quando estamos no fundo do poço, acreditando que chegou o fim e que nada nunca vai melhorar. Até mesmo nesses momentos tão horríveis, seguimos tendo dentro de nós a capacidade de levantar. E é importante acreditarmos nisso, acreditarmos em nós. 

"A negação é uma tentativa de afastar o sofrimento. É um mecanismo de defesa psicológica, geralmente inconsciente, que usamos para nos proteger de sentimentos dolorosos. [...] A negação pode ser uma forma de fingir que não estamos sofrendo."

Eu costumo apreciar muito a maneira como o autor toca em temas delicados, como transtornos mentais e emocionais, depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, entre tantos outros. Eu estou lendo um livro do Augusto Cury chamado Armadilhas da Mente, que começou muito bem, mas depois foi ladeira a baixo. Estou quase na metade da leitura, mas não acredito mais que aquele livro consiga se salvar. O autor abordou o tema da depressão e da ansiedade, que são muito delicados para mim, de uma forma muito problemática. Que me fez mal. Ele era um autor que eu admirava, mas depois do que já li naquela história, perdeu muitos pontos comigo. Só ainda não abandonei o livro de vez porque preciso saber o que ele ainda fará na história. E aqui eu fiz a comparação porque o autor de Como Deus cura a dor não costuma me causar esse "incômodo", motivo pelo qual gosto de ler os livros dele.

"Perceber que você não é Deus e que precisa de alguém para ajudá-lo é um sinal de força, não de fraqueza."

Este é um livro que mistura psicologia e religião, então, se você não é cristão provavelmente vai se sentir incomodado com as referências bíblicas, os trechos selecionados como abertura para cada tema e a forma como o autor faz essa conexão, colocando Deus em tudo no livro. O título não foi escolhido ao acaso, claro. Leia ciente disso para não se decepcionar. O livro fala dos tipos de dor, ilustra cada tema com situações vividas neste mundo real no qual todos estamos. Mas sobretudo fala de como Deus, diariamente, nos ajuda a curar as dores que não podemos curar sozinhos. 

"A depressão distorce nossa visão das coisas. É inevitável. Quando estamos deprimidos, os pensamentos se tornam pessimistas. Apesar de todo o esforço, você pensa de modo negativo, o que o deixa ainda mais deprimido. A depressão já é penosa, mas ter de lutar contra os próprios pensamentos pode ser insuportável."

Eu já comentei com vocês antes que luto contra a depressão e o transtorno de ansiedade generalizado. Meu martírio é principalmente a ansiedade, que quando ataca me faz ficar depressiva. E nem sempre isso passa rápido. Já cheguei a ficar um mês inteiro tendo uma crise de ansiedade atrás da outra e mergulhada numa depressão que fazia com que eu não encontrasse paz em nada. Como se vivesse um inferno dentro de mim e nunca fosse sair daquela situação. Mas sempre passa. E é esse pensamento que eu gosto de alimentar dentro de mim. Para que quando a crise vier eu lembre, mesmo lá no fundo, que vai passar. Do mesmo jeito que veio, vai embora. E claro que eu faço tratamento psicológico. É essencial. 

Se você sofre de depressão ou ansiedade, ou qualquer outro problema emocional/mental procure ajuda profissional. Nunca deixe de procurar ajuda! O Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo telefone, chat ou e-mail. São voluntários dispostos a ouvir de maneira anônima. Não substitui um psicólogo ou psiquiatra, mas serve como uma ajuda para desabafar num momento de dor. Eu já recorri ao Centro de Valorização da Vida. O número é o 188. Sempre fui muito bem atendida. Todas as vezes que precisei conversar, geralmente em prantos, era tratada de maneira humana. 

"Quando perdemos a esperança, deixamos de acreditar que coisas boas possam acontecer conosco."


O livro é dividido em oito capítulos, sendo eles: Dor & sofrimento; Medo; Ansiedade; Tristeza; Culpa & vergonha; Raiva; Felicidade; Amor. E cada capítulo é subdividido em vários temas. Eles são ilustrados com situações pelas quais o autor passou como terapeuta e também como pastor numa universidade. Nos identificamos com alguns casos de pacientes, alguns sentimentos e experiências vividas por eles. Porque são coisas muito reais, comuns aos seres humanos. Mas cada pessoa passa por determinada situação na vida de forma muito individual, pois cada dor é única. Ninguém tem o direito de "medir" a dor do outro com base na sua. O que você consegue enfrentar de uma maneira não significa que o outro é obrigado a enfrentar igual. 

Eu gostei muito desta experiência de leitura. E este ano ainda, se Deus quiser, pretendo começar a ler O poder da personalidade de Jesus




-> DLL 21: Um livro de sua cor favorita na capa



23 de março de 2021

Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade


Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2012
Páginas: 95 (e-book)

7ª leitura de 2021 (7ª resenha do ano)

Sinopse: Publicado em 1940, Sentimento do mundo permanece, tantos anos depois, ainda um dos livros mais celebrados da carreira de Drummond. Não é para menos: o livro enfileira poemas clássicos como "Sentimento do mundo", "Confidência do Itabirano", "Poema da necessidade" - é possível que versos do livro inteiro tenham sido impressos no inconsciente literário brasileiro, tamanha é sua repercussão até hoje. Já estabelecido no Rio e observando o mundo (e a si mesmo) de uma perspectiva urbana, o Drummond de Sentimento do mundo oscila entre diversos polos: cidade x interior, atualidade x memórias, eu x mundo. Perfeita depuração dos livros anteriores, este é um verdadeiro marco - e como se isso não bastasse, é o livro que prepara o terreno para nada menos do que A rosa do povo (1945). Por isso a ênfase, ao longo de todo o livro, na vida presente.



É muito difícil escrever uma resenha sobre poesia; sempre foi. Mas é muito mais difícil eu não apreciar a leitura de um livro do gênero. Infelizmente, foi o que aconteceu com Sentimento do Mundo, primeiro livro que leio do Carlos Drummond de Andrade. 

Embora existam sim alguns trechos que me fizeram refletir, que li mais de uma, duas vezes por ter gostado muito, o livro como um todo não me cativou. E isso me surpreendeu bastante, pois lembro de já ter "esbarrado" em alguns poemas dele ao longo da vida e ter me sensibilizado, ter me emocionado com sua escrita. O que me faz pensar que escolhi o livro errado, já que Drummond possui "fases" e minha personalidade provavelmente teria amado ler um dos seus escritos de uma fase mais melancólica e introspectiva. 

Pelas resenhas de poesias que já fiz e o fato de minha poetisa preferida ser a Florbela Espanca, vocês podem ter uma noção de que amo poemas que "me rasgam o coração", que me fazem chorar, que tocam em feridas e me provocam identificação. O poema tem que tocar minha alma. Se isso não acontece, acaba sendo uma leitura perdida para mim. Tempo perdido. 

"Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes 
e roeu as páginas, as dedicatórias e
mesmo a poeira dos retratos. 
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas." 
[Trecho do poema Os Mortos de sobrecasaca]

Em Sentimento do Mundo, originalmente publicado em 1940, temos uma coletânea de 28 poemas do autor; poemas estes que passeiam por diversos assuntos, incluindo as guerras e as mortes causadas por elas; inquietações sobre o tempo e as transformações que estavam em andamento. O poeta aborda assuntos sim muito importantes e reflexivos, mas, como eu disse, seus poemas não conseguiram tocar minha alma, me atingir por completo. Existiam trechos que me tocavam, mas nunca um poema por inteiro, entende? Não existe um só entre os 28 que eu tenha amado do começo ao fim. 

"Também a vida é sem importância. 
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles,
A vida é tênue, tênue. 
O grito mais alto ainda é suspiro, 
os oceanos calaram-se há muito."
[Trecho do poema Canção de berço]


Tenho outros livros do poeta em meu Kindle e pretendo dar uma chance a outro de seus escritos ainda este ano. Não desisti do autor. Tenho certeza que vou encontrar o livro dele que me conquistará e se tornará um favorito. 



-> DLL 21: Um livro de literatura nacional 

 

17 de março de 2021

A Garota do Lago - Charlie Donlea


Literatura norte-americana
Título Original: Summit Lake
Tradutor: Carlos Szlak
Editora: Faro Editorial
Edição de: 2017
Páginas: 296

6ª leitura de 2021 (6ª resenha do ano)

Sinopse: ALGUNS LUGARES PARECEM BELOS DEMAIS PARA SEREM TOCADOS PELO HORROR...


Summit Lake, uma pequena cidade entre montanhas, é esse tipo de lugar, bucólico e com encantadoras casas dispostas à beira de um longo trecho de água intocada.
Duas semanas atrás, a estudante de direito Becca Eckersley foi brutalmente assassinada em uma dessas casas. Filha de um poderoso advogado, Becca estava no auge de sua vida. Era trabalhadora, realizada na vida pessoal e tinha um futuro promissor. Para grande parte dos colegas, era a pessoa mais gentil que conheciam.

Agora, enquanto os habitantes, chocados, reúnem-se para compartilhar suas suspeitas, a polícia não possui nenhuma pista relevante. 

Atraída instintivamente pela notícia, a repórter Kelsey Castle vai até a cidade para investigar o caso.

... E LOGO SE ESTABELECE UMA CONEXÃO ÍNTIMA QUANDO UM VIVO CAMINHA NAS MESMAS PEGADAS DOS MORTOS...

A selvageria do crime e os esforços para manter o caso em silêncio sugerem mais que um ataque aleatório cometido por um estranho. Quanto mais se aprofunda nos detalhes e pistas, apesar dos avisos de perigo, mais Kelsey se sente ligada à garota morta.

E enquanto descobre sobre as amizades de Becca, sua vida amorosa e os segredos que ela guardava, a repórter fica cada vez mais convencida de que a verdade sobre o que aconteceu com Becca pode ser a chave para superar as marcas sombrias de seu próprio passado...



Esta é uma resenha que eu realmente acreditei que não fosse escrever. Mesmo agora enquanto estou sentada na frente do computador, com a intenção de finalmente colocar em ordem meus pensamentos sobre a história, ainda não sei se conseguirei escrever algo coerente. E nada disso é culpa do livro, mas dos problemas que estou enfrentando (problemas de saúde na família) e que afetaram até meu prazer pela leitura. Os livros sempre funcionaram como refúgio na minha vida, mas são tantas coisas ao mesmo tempo que nem a leitura está conseguindo me tranquilizar, me dar a paz que sempre deu. 


Terminei de ler este livro já faz cerca de duas semanas e é sempre difícil falar de uma história depois que passou tanto tempo. Mas o li numa leitura coletiva e ontem consegui umas horas de "respiro" para fazer o debate com os outros leitores. Isso serviu para refrescar também minha memória sobre os acontecimentos do livro e considerar tentar escrever a resenha. Eis aqui minha tentativa.rs


Becca Eckersley era uma linda estudante de direito de vinte e dois anos, cursando a pós-graduação, como era desejo de seus pais, que sonhavam em ver a filha ser bem-sucedida na vida. Agradável, sorridente e gentil, mantinha fielmente seu núcleo de amizades conquistada logo no início da faculdade, e que não admitia a entrada de nenhum novo membro, por mais que eles tivessem outros amigos "por fora". O quarteto inseparável era composto por Becca, Gail, Brad e Jack, e causava admiração nos demais estudantes que entre eles não houvesse nenhum romance, pois era inviável que homens e mulheres conseguissem ser apenas amigos, ainda mais convivendo de maneira tão próxima (era comum as meninas dormirem, apenas dormirem, com os meninos em seu apartamento ou vice-versa) e compartilhando segredos e todos os momentos importantes. 


Todos os quatro tinham grandes planos para o futuro. Terminariam a faculdade com ótimas notas, cursariam a pós-graduação, alcançariam todo o sucesso sonhado. Mas tudo terminou de maneira violenta para Becca, na noite do dia em que chegou na casa de férias de seus pais, para passar um período sozinha, dedicado exclusivamente aos estudos. Naquela noite, após voltar de um café e passar algumas horas sentada na cozinha estudando, ela abriu a porta para o seu assassino. Para o homem que destruiria sua vida. Que a violentaria e agrediria, deixando-a largada para morrer, numa casa em que ela tinha vivido tantos momentos bons. Num lugar que ela considerava um refúgio. Jamais poderia imaginar que iria até ali apenas para ser assassinada. E muito menos que seria por ele... por alguém em quem confiava. 


"Ao longe, uma sirene ecoou na noite, baixinha no início, e depois, mais alta. A ajuda estava chegando, embora ela soubesse que era muito tarde."


A história começa de maneira brutal, com a cena da morte de Becca, assassinada em 17 de fevereiro de 2012. Quando eu disse que ela foi assassinada por alguém que conhecia e em quem confiava, é porque o livro deixa isso claro para a gente, logo nas primeiras páginas, pois ela sorri ao vê-lo aparecer, desliga o alarme e abre a porta para ele entrar. Era alguém de quem ela jamais esperaria uma traição tão grande, o que torna tudo pior para nós leitores. Porque nos apegamos muito à Becca e sentimos como se fosse com a gente a traição que ela sofre. Fico imaginando como seu coração despedaçou enquanto era atacada por alguém que ela deixou entrar, por alguém em quem tanto confiou. Sempre digo que a traição é o pior dos pecados. É da traição que parte todo mal. 


Após a cena de sua morte, o livro passa a intercalar presente e passado. No presente, duas semanas após o assassinato dela, conhecemos Kelsey Castle, uma jornalista que lidava com os próprios demônios e que foi enviada para a pequena cidade de Summit Lake para escrever sobre aquele chocante crime. Seu chefe não esperava que ela fosse enfrentar tantas complicações ao chegar ao local, incluindo tentativas misteriosas da polícia de abafar o crime e impedir qualquer pessoa de se aproximar da verdade. Tudo era muito estranho e a insistência das autoridades de que se tratava de um roubo seguido de morte era patética e surreal, pois a brutalidade do assassinato e o fato de apenas a bolsa de Becca ter sido levada (quando existiam muitos objetos de valor na casa) colocava em sérias dúvidas aquela tese. 


Ao mesmo tempo em que acompanhamos a luta de Kelsey para contar a história daquela jovem, cuja vida foi interrompida de maneira tão horrível, o autor nos leva ao passado de Becca, quatorze meses antes de sua morte, nos dando a oportunidade de conhecê-la, e de sofrer ainda mais por um destino que não poderíamos evitar. A vontade que temos é de mudar os acontecimentos, de avisá-la para não abrir a porta, de gritar que ela seria traída por alguém que amava. Queremos impedir sua morte, mesmo sabendo que é impossível. E o autor parte dos quatorze meses anteriores à tragédia e vai se aproximando, com o desenrolar da história, da noite de sua morte, para dessa vez revelar quem era o assassino. Essas cenas só se passam no final, claro, mas a repetição das cenas, só que com mais detalhes, causa uma imensa angústia em nós leitores, que somos obrigados a reviver aquele momento, sabendo como tudo terminaria. Isso nos causa muita tristeza.


O autor conseguiu escrever uma história tocante, abordando um tema muito real em nosso país e no mundo: o feminicídio. Mais uma vez digo que não estou falando demais, não é spoiler, pois são conclusões que qualquer leitor consegue tirar das primeiras páginas. Becca foi morta em razão de seu gênero. Foi brutalmente estuprada, agredida e deixada agonizando como se fosse um nada, como se sua vida fosse insignificante. Simplesmente por ser mulher. E isso fica completamente claro na cena inicial do livro, a cena em que ela é atacada e assassinada. 


A partir daquela cena, antes mesmo de conhecer seu passado, começamos a criar teorias. Quem seria o assassino? O pai, o irmão, algum outro parente, algum amigo, um namorado ou ex-namorado? Sabemos que era alguém em quem ela confiava muito e que sabia que ela estaria ali naquela noite. Alguém de quem ela não tinha medo. Que recebeu de braços abertos, sem jamais imaginar as intenções daquela pessoa. 


Digo que não é nada difícil descobrir quem é o desgraçado que a matou. O autor aponta para determinada direção e temos A CERTEZA de que foi tal pessoa. Sabe o que é não ter nenhuma dúvida de que tal pessoa foi o assassino? O autor nos joga na direção do monstro... apenas para confundir nossa cabeça depois. Ele provoca uma reviravolta interessante (e muito inteligente), fazendo com que descartemos nossa teoria e pensemos em outros suspeitos. E a surpresa acaba sendo grande no final. E nos faz refletir também sobre decisões que tomamos e que podem se voltar contra nós. Às vezes ajudamos sem esperar nada em troca. Ajudamos por amor, por nos colocarmos no lugar da outra pessoa. E ajudar é algo maravilhoso, claro. Nosso dever como seres humanos, de não olharmos apenas para nosso umbigo. Só que... às vezes temos que pensar antes de confiar. Antes de sairmos estendendo a mão. Porque pode acontecer de estendermos a mão para alguém que vai nos jogar no abismo depois. 


Este livro mexeu muito comigo e apreciei bastante a leitura como um todo, embora tenha sentido bastante angústia. Mas não pude dar cinco estrelas nem favoritar, pois por mais que seja um livro bem escrito e super envolvente, possui falhas evidentes. A história começa muito bem e de repente fica um tanto parada, apostando em repetições de pensamentos e diálogos que frustram um pouco o leitor. Mas esse não é nem o pior dos problemas, mas sim algumas pontas soltas e a forma como não conseguimos nos conectar com a Kelsey. 


O autor tinha a intenção de contar a história de duas mulheres, ligadas por um pesadelo em comum. Só que ele se concentra tanto na Becca e em nos fazer sofrer por ela, que esquece completamente da Kelsey. Ela parece estar ali apenas para solucionar o crime, quando percebemos pelo desenvolver da história que o autor queria que ela fosse protagonista também, mas não conseguiu nos conectar, nos fazer ter alguma ligação com a personagem. E não fui a única a sentir isso; como eu disse, li o livro numa leitura coletiva e os outros leitores também perceberam esse problema na história. É triste, pois a Kelsey tinha muito potencial e, infelizmente, não conseguimos sentir absolutamente nada por ela. 


Outro problema, tão grande quanto este, foi o fato de o autor, para desviar nossa atenção do assassino, criar situações que ficaram sem explicação, sem sentido. Determinados personagens agem de certa forma, mas no final não há nenhuma explicação. Ficaram pontas soltas, entende? Ficamos nos perguntando quais foram os motivos e a única conclusão é que o autor fez tal escolha apenas para nos desviar, só que ao deixar coisas importantes sem resposta, ele acabou prejudicando um pouco um livro que é muito bom. Mas creio que este é seu livro de estreia e para uma primeira história, sem dúvidas, ele arrasou! Então, crio ainda mais expectativas em relação aos seus próximos livros, que já quero ler!



-> DLL 21: Um livro que comprou pela capa



13 de março de 2021

O Castelo de Otranto - Horace Walpole


Literatura Inglesa
Título Original: The Castle of Otranto
Tradutor: Oscar Nestarez
Editora: Escotilha
Edição de: 2019
Páginas: 111 (e-book)

5ª leitura de 2021 (5ª resenha do ano)

Sinopse: O LIVRO QUE AJUDOU A FUNDAR O GÓTICO E O TERROR MODERNO

"Um conjunto de vívidos personagens ao estilo Harry Potter, aventuras sobrenaturais em cofres e adegas e eventos surpreendentes e inexplicáveis." – Telegraph


O principado de Otranto é governado pela família de Manfredo, herdeiro do título de príncipe e também de uma profecia. E, por causa disso, obcecado com sua linhagem – a única maneira de manter seu poderio. No entanto, às vésperas de concretizar o casamento de seu filho, estranhos fenômenos passam a assolar o castelo, culminando num terror sem fim.


Um clássico não se torna clássico à toa. E "O castelo de Otranto" é prova disso. Aqui nasce o pilar do gótico, do sobrenatural e do horror, responsável por influenciar nomes como Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft e Bram Stoker.


Esta edição, fielmente traduzida pelo autor e pesquisador Oscar Nestarez (que também é colunista da Revista Galileu), conta com extras como nota da editora, introdução do editor clássico e prefácios para a primeira e segunda edições.




Durante quase toda minha vida eu nem sabia que este livro existia. Foi somente há uns dois ou três anos que ouvi falar dele pela primeira vez e fiquei bem interessada, por ser considerado o fundador da literatura gótica, inspirando autores como Edgar Allan Poe e Bram Stoker. 

A minha curiosidade falou bem alto e resolvi dar uma oportunidade a este clássico. Confesso que com muitas expectativas, mesmo sem querer esperar demais. Sobretudo porque ainda não é um gênero que estou habituada a ler, ainda mais quando envolve "fantasmas" e outros elementos sobrenaturais. Sigo sendo muito medrosa.kkkkkk

Mas iniciei a leitura... e me surpreendi com a narrativa fácil e que fluía tão bem. Porém, o que a escrita do autor tinha de envolvente, seus personagens tinham de absurdos. Uns capazes das maiores maldades por terem poder para brincar com a vida das pessoas; e o que mais me irritava nesses vilões era a intromissão do autor na história, nos apontando motivos para justificá-los e compreender o imperdoável. Já outros personagens queriam ser santos e se sujeitavam a tudo, o que também tornou a história intragável para mim. Eram dois extremos que explodiriam com qualquer história: personagens cruéis livres para fazer o que quisessem, pois os bons nem sequer lutavam contra eles. O desfecho esperado seria o da vitória do mal, uma vez que os bons não resistiam. E livros assim deixam um gosto amargo na minha boca. 

Nesta história, que se passa no período medieval, temos um príncipe que parece nutrir um "ódio" todo especial pelas mulheres, que ele trata como se fossem suas propriedades, sem sentimentos e menos valiosas que o objeto mais medíocre sob seu poder. Sua esposa, apesar de ser constantemente maltratada o idolatra, chegando ao ponto de dizer que o ama até mais do que a seus próprios filhos e sendo o capacho no qual ele tanto ama pisar. 

A filha dele, Matilda, já está acostumada com os maus-tratos recebidos e nunca o enfrenta, temendo estar em sua presença e apenas sofrendo ao ver a maneira como a mãe, a quem tanto ama, é tratada. Matilda não quer se casar, pois não quer passar para as mãos de outro tirano, sonhando em entregar-se ao convento, onde poderia ter um pouco de alegria em sua vida. 

A única pessoa com quem Manfredo se importa é com seu filho, um rapaz com uma saúde muito fraca, mas que por ser homem é a esperança dele de dar continuidade a sua linhagem e evitar uma antiga profecia. Embora o rapaz ainda seja muito novo, o pai se apressa em casá-lo com uma bela e saudável jovem chamada Isabella, para que logo fossem providenciados os herdeiros (que deveriam ser meninos). Acontece que algo misterioso, violento e trágico acontece no dia do casamento, levando o príncipe ao desespero e à loucura... disposto a tudo para conseguir o que queria... não importando quem ele teria que machucar ou destruir no caminho. 

E a história vai girar em torno disso: da maldade do príncipe, a apatia das mulheres da família (tirando Isabella que é bastante corajosa mesmo acreditando não ser forte) e os estranhos fenômenos que ocorrem no castelo. Não é bem um livro de terror, mas tem toda a aura gótica esperada da história, já que foi o autor quem fundou a literatura do gênero. 

Se eu gostei do livro? Não muito. Eu me irritei bastante com os personagens e isso influenciou negativamente a história. 


-> DLL 21: Um livro clássico


Observação: Esta resenha já estava pronta há várias semanas, mas por estar enfrentando sérios problemas de saúde na família, eu não tive ânimo ou tempo de vir aqui para editá-la antes de publicar (algumas vezes faço as resenhas no blog e deixo no rascunho para depois com tempo editar). 2021 não começou bem e estou passando por problemas que têm me desgastado muito física e emocionalmente. Mas tenho fé que tudo ficará bem. 

Não abandonarei o blog. Logo, logo me organizarei para escrever a resenha de "A Garota do Lago" e finalizar algumas leituras que ficaram abandonadas nas últimas semanas. 

 

17 de fevereiro de 2021

O Navio Negreiro e outros poemas - Castro Alves

 


Literatura Brasileira
Editora: Melhoramentos
Edição de: 2013
Páginas: 163 (e-book)

4ª leitura de 2021 (4ª resenha do ano)

Sinopse: Como principal representante da poesia condoreira no Brasil, Castro Alves se utiliza de uma linguagem eloquente e grandiosa para denunciar os horrores da escravidão e lutar pela liberdade dos escravos. Nesta coletânea, destaca-se “O navio negreiro”, poema épico-dramático que narra o tráfico de negros trazidos da África para trabalhar como escravos no país. As atrocidades do sistema escravista ganham vida nestes poemas e transmitem toda a sensação de dor e privação das vítimas desse sistema.



Eu amo poesias, mas tenho uma dificuldade enorme para fazer resenhas sobre elas. Porque a experiência de lê-las é muito única, é um sentir que não dá para colocar em palavras. Sempre que mergulho num livro de poemas eu viajo para bem longe "do real", me perco em sentimentos e sensações... vou para bem longe de mim mesma. Me entrego ao que o poeta escreveu e me imagino na situação do eu lírico. O que nem sempre é uma experiência agradável.... Ainda mais quando lemos poemas que tratam da escravidão. 


Ler O Navio Negreiro e outros poemas foi muito desgastante emocionalmente. Eu fiquei abalada, inquieta, viajei para aquele período que marcou com sangue, tortura e muita dor a História do nosso país e do mundo. Não era capaz de ler muitos poemas por dia, pois sentia como se existisse um peso sobre mim, algo sufocante. E é admirável o talento e a sensibilidade do poeta para conseguir tornar tão vívidos os acontecimentos através de seus poemas. 


Castro Alves foi um jovem poeta da terceira geração do Romantismo e também um abolicionista, conhecido como "poeta dos escravos" ou poeta social, segundo informações que encontrei em pesquisas na internet. Teve uma vida bastante curta, falecendo aos 24 anos de idade, mas contribuiu de maneira importantíssima para sensibilizar outras pessoas a se envolverem com as causas sociais, humanitárias e abolicionistas. Me pergunto como pude passar pela escola e pela universidade sem jamais ter lido nem que fosse um dos seus poemas! Não acredito que tenha lido, pois teria sido impossível esquecê-los. Eles nos tocam profundamente, de uma maneira que tira o fôlego, que angustia. 


"Senhor, não deixes que se manche a tela
Onde traçaste a criação mais bela
De tua inspiração. 
O sol de tua glória foi toldado...
Teu poema da América manchado,
Manchou-o a escravidão." 
[Trecho do poema Ao romper d'alva]


Esta coletânea reúne 33 poemas que abordam temas imensamente dolorosos, que falam das mais diversas formas de violência praticadas ao longo dos séculos de escravidão. Da dor, fé e profunda tristeza de pessoas que apenas por sua cor de pele eram tratadas como objetos, como mercadorias, como algo sem sentimento. Que não eram vistas como seres humanos. Que foram roubadas de tudo... de sua liberdade, sua intimidade, sua família, sua vida... Tudo. Absolutamente tudo. A dívida que a sociedade possui não poderá ser paga nunca. 


Dói muito pensar nas pessoas que viveram e foram torturadas, subjugadas e mortas conforme a vontade de seus "senhores". Que foram separadas de suas famílias, que tiveram todos os seus direitos violados. É comum pensarmos, em momentos de grande desesperança, que "hoje em dia" falta amor no mundo. Que a ausência de amor é que provoca tanta violência, tanta crueldade. Mas não. Não é algo de "hoje em dia". Simplesmente sempre faltou amor no mundo. As pessoas, de maneira bastante seletiva, escolhem quem vão considerar seu "próximo", seu semelhante. Não é raro eu ter a dolorosa sensação de que tudo o que Jesus passou foi em vão. Não aprendemos nada. 


"Agora adota a escravidão por filha, 
Amolando nas páginas da Bíblia
O cutelo do algoz...
Sinto não ter um raio em cada verso
Para escrever na fronte do perverso:
'Maldição sobre vós!"

[Trecho do poema Confidência]



Quase todos os poemas me tocaram de alguma forma, me deixaram triste e revoltada, mas aquele que mais me abalou foi Tragédia no lar. Nossa! Apenas lembrar da história contada nele, a mãe que tem seu filho arrancado dos seus braços, pois seu "senhor" o vendeu... é de nos destroçar por dentro. É um poema de muita dor, as palavras dela, seus gritos, seu desespero... Nunca vou conseguir esquecer. 

A mãe, no poema Tragédia no lar, implora que aquele homem não leve o seu filho, que é apenas um bebê, inocente, que é tudo o que ela tem, que é sua única alegria. Suplica que ele se coloque em seu lugar, pois também tem filhos. O que ele sentiria se quisessem vender seus filhos? Se os levassem para serem escravos? Mas nada do que ela dissesse, suas súplicas... nada era capaz de comover aquele homem. E o poeta prossegue dizendo o motivo de tanta crueldade: 

"Porém nada comove homens de pedra, 
Sepulcros onde é morto o coração."

E eu concordo completamente. É preciso ser morto por dentro para fazer algo assim. Para arrancar um filho de sua mãe, para vender seres humanos, para escravizar pessoas. Este poema me abalou muito, me deixou em prantos, com tanta, tanta angústia. Porque não é um simples poema. Foi a realidade de muitas pessoas. Separadas de suas famílias... tratadas como se fossem nada. 

Eu recomendo os poemas deste livro, mas que leiam sabendo que vão se revoltar, que vão chorar, que ficarão com um sentimento muito ruim de desesperança, de tristeza por um passado que não podemos mudar. E um presente que ainda reflete esse passado. 

Quero ler tudo o que o Castro Alves teve a oportunidade de escrever, mas darei um intervalo de alguns meses, pois não tenho o emocional forte para ler muitos de seus poemas em sequência. Não tenho estrutura emocional para isso. As palavras dele são muito fortes. Sua escrita transborda sentimentos e nos inunda. Eu não estava preparada para tantos sentimentos dolorosos. Não estava preparada para a força de sua escrita. Mas já é um dos meus autores preferidos, com certeza! Só lamento ter demorado tanto para conhecê-lo. 



-> DLL 21: Um livro de autor brasileiro nunca lido. 




Topo