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25 de outubro de 2021

Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago


Literatura Portuguesa
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2001
Páginas: 312

30ª leitura de 2021 (23ª resenha do ano)

Sinopse: Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos vão se descobrir reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.

O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. 

Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, face à pressão dos tempos e ao que se perdeu - "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". 




Mergulhar nesta leitura foi como fazer uma viagem ao inferno... Me senti dentro de um pesadelo, de um filme de terror. Foi uma experiência angustiante, desesperadora. Quando cheguei ao capítulo onze, quando li todas aquelas atrocidades... o sentimento de desesperança em relação à humanidade se fez intenso. Ao mesmo tempo que me senti sem forças para prosseguir com a leitura, passei dias refletindo sobre a maldade humana, como somos capazes das coisas mais monstruosas... Como o ser humano consegue ser vil, abjeto, cruel! Como o próprio autor diz no livro através das palavras de um personagem:

"É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade."

Aqui temos a história de uma epidemia que foge completamente ao "normal": uma cegueira branca, que parece se espalhar com apenas uma troca de olhares entre alguém infectado e os outros. Do nada, um homem que estava dentro do seu carro, parado no sinal, começa a gritar em desespero ao se perceber cego. Mas ele não vê tudo escuro, ele vê uma luz, algo branco que o impede de enxergar tudo ao seu redor. Transtornado, é conduzido até sua casa por um "bom samaritano" que aproveita o seu momento de sofrimento para furtar seu carro e, logo em seguida, nem é capaz de desfrutar do seu crime, pois também é contaminado pela cegueira da qual ninguém nunca tinha ouvido falar e que não podiam fazer ideia de que era contagiosa. 

O primeiro cego, sentindo que a vida deixava de ter qualquer sentido, é consolado pela esposa e levado até uma clínica oftalmológica para que o estranho caso seja analisado por um médico. O oftalmologista nunca tinha se deparado com algo como aquilo antes... Nada nos olhos daquele homem indicava que ele estava cego e, no entanto, o homem via tudo branco. Decide passar alguns exames e voltar a vê-lo quando as análises estivessem prontas. Mas, após atender os demais pacientes do dia e ir para casa, não consegue tirar aquele caso de sua cabeça. Entra em contato com um colega e resolve consultar alguns livros... mas, de repente, também fica cego. 

"Nunca se pode saber de antemão de que são capazes as pessoas, é preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa, e tem na mão todas as cartas do baralho [...]"

A partir daí, ao comunicar seus chefes do ocorrido e o Ministério da Saúde ser informado, o verdadeiro inferno começa. As pessoas "contaminadas" são retiradas de suas casas, sob a falsa promessa de que receberão todos os cuidados necessários e trancadas num antigo manicômio, tratadas de uma maneira que nem mesmo os animais devem ser tratados e tendo que lutar, dia após dia, contra a morte e a loucura, vítimas das mais bárbaras formas de violência. 

Eu não consigo chamar a realidade desesperadora na qual os personagens são jogados de outra coisa que não seja inferno. Assassinatos, doenças provocadas pelas condições insalubres nas quais são obrigadas a viver, fome, sede, estupros... as pessoas trancadas naquele manicômio mal eram alimentadas, pois  o que os soldados encarregados de "cuidar" delas mais queriam era que morressem, pois "morrendo o bicho acaba-se a peçonha". Tinham sede, não podiam tomar banho, pois a água que vinha das tubulações eram podres. Até mesmo para fazer as necessidades básicas do corpo se viam sem dignidade, pois não era fornecido papel em quantidade suficiente, o encanamento para que os dejetos fossem eliminados estavam entupidos... e as pessoas foram colocadas ali para viverem dessa forma até que não aguentassem e morressem, fosse pela fome, por doenças provocadas por aquelas condições de enorme insalubridade ou mesmo que se matassem entre si, pois estavam ali reunidas pessoas das mais diversas personalidades. Não existia só gente "boa", mas também criminosos e nenhum segurança. Sem contar os momentos nos quais os próprios soldados atiravam para matar. Como eu disse, aquilo era o inferno. 

"[...] ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos"

Existiram momentos nos quais me senti doente lendo sobre tanto sofrimento, tanta crueldade e falta de esperança. Por estarmos vivendo uma pandemia provocada pelo Covid-19 e milhões de pessoas terem morrido, muitas sem reverem seus familiares, sem poderem se despedir, sozinhas num leito de hospital, onde o medo é um dos mais terríveis companheiros, a leitura se tornou mais dolorosa. Por diversas vezes eu tinha que fechar o livro e "respirar", pois me sentia esgotada, sufocada e com muito medo. Medo da pandemia atual, medo de que outras doenças ainda podem surgir e quanto inferno nós seres humanos poderíamos suportar sem enlouquecer, sem perdermos nossos sentimentos, sem nos perdermos. Sem que nossa alma também se acabasse... 

Mas, diante de algumas cenas capazes de nos jogar no chão e nos manter lá em pedaços, sem forças para levantar... Eu refleti sobre coisas nas quais não gosto de pensar: que nós já estamos perdidos. Que a humanidade já está se destruindo e que não são guerras, catástrofes, pandemias que podem provocar a maldade no ser humano. Ela já existe latente, esperando apenas uma desculpa qualquer para se manifestar. Saramago conseguiu me abalar muito com Ensaio sobre a Cegueira. Se ele queria, como na passagem do primeiro livro de A Divina Comédia (intitulado Inferno), do escritor Dante Alighieri, que abandonássemos toda esperança ao passarmos pelas portas do livro, ele conseguiu. 

"[...] a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."

Em muitos momentos, inclusive, lembrei bastante de Inferno de Dante. Não só da famosa passagem: "Deixai toda esperança, ó vós que entrais", mas do livro como um todo, que me marcou profundamente quando o li. Muitos e muitos versos de Inferno nos descrevem exatamente o que suportam e sofrem os personagens de Ensaio sobre a Cegueira, o que me faz pensar que o Saramago se inspirou bastante neste maravilhoso clássico para escrever sua impactante história. 

Todavia, por mais insuportáveis que muitas cenas presentes no livro sejam, tanto pela maldade quanto pelo sofrimento humano que desesperam nós leitores e nos fazem sentirmos impotentes, querendo fazer cessar toda aquela angústia vivida pelos personagens, mas sem nada poder fazer... Por mais dolorosos que tais momentos sejam e por mais pessimista e fatalista que o narrador se mostre, a esperança não é de todo perdida. Ele nos possibilita o alívio principalmente na figura da mulher do médico, mas também na de outros personagens. Mostrando que por mais que a maldade reine e se espalhe, sempre haverá quem dê tudo de si para ajudar os outros, quem escolherá fazer o bem, quem não pensará apenas em si mesmo. Há muitos exemplos da indiferença e ruindade que o autor menciona no livro, massa da qual ele diz que nós somos feitos. Mas também existem exemplos de bondade, solidariedade, compaixão... amor. E é isso que torna este um dos melhores livros que já li em minha vida. 

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

Busquei não dar spoilers em minha resenha, pois eu própria iniciei a leitura sem saber muito da história e isso tornou a experiência mais incrível. Mas, Luna, você mencionou assassinatos e estupros! Sim, mas não considero isso spoiler, mas sim informações necessárias a serem dadas, por conta dos intensos gatilhos que tais cenas representam. Por mais que tenha sido maravilhoso (e doloroso ao mesmo tempo) conhecer a história sem saber quase nada sobre ela, em relação às cenas de violação eu queria muito que alguém tivesse me avisado. Queria muito estar preparada para o que iria encontrar, pois foi um golpe terrível lê-las sem nenhum aviso. Foi de me fazer passar mal, literalmente. Por mais que seja impossível suportar tais cenas, com ou sem spoiler, eu preferia saber. Preferia ler ciente do que encontraria. 

São tantas as coisas que eu gostaria de falar sobre esta história e não posso para não estragar a experiência de leitura de vocês... Só digo que recomendo muito que deem uma chance ao livro! Mas que estejam preparados para sofrer porque não existe maneira de passar por esta leitura sem ficar destroçado, sem chorar, sem sentir uma espécie de dor não só emocional, mas física. Esta história é visceral. Este livro é uma alegoria sobre a vida e as relações humanas e nem sempre somos capazes de captar tudo o que está nas entrelinhas, todos os sentidos do texto e das cenas... Em alguns momentos me lembrou a Bíblia também e o autor até faz uma comparação irônica com algumas passagens das Escrituras Sagradas. É Saramago, então, quem conhece as obras do autor já sabe que ele gosta de fazer isso. 

"É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver"

Se estou preparada para ler Ensaio sobre a Lucidez ou algum outro livro do Saramago em breve?! Claro que não!rs Darei um tempo pelo bem da minha sanidade mental. Mas em algum momento dos próximos anos, estando viva, ainda pretendo ler outros livros do autor, que apesar das narrativas cruas e dolorosas, é, sem sombra de dúvidas, um grande escritor. Mesmo com as cenas mais pesadas, o leitor não consegue parar de ler, não consegue abandonar a leitura. Ao mergulharmos numa história dele sentimos a necessidade de chegar ao final, de saber como tudo termina. 


23 de junho de 2020

Antologia Poética - Florbela Espanca

Literatura Portuguesa
Editora: Martin Claret
Edição de: 2015
Páginas: 298

32ª leitura de 2020 
(releitura)

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada.. a dolorida... (...)
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!...




Este é um livro que eu já tinha lido e relido algumas vezes. Tenho uma grande conexão com os poemas da Florbela, como não acontece quando leio nenhum outro poeta. Então, sempre que me sinto bem triste ou ansiosa tenho dois refúgios: o livro O Morro dos Ventos Uivantes (meu preferido da vida!), da autora Emily Brontë e os poemas da Flor.

Foi o que aconteceu em abril deste ano. Com essa pandemia provocando tantas tragédias e mexendo profundamente com nossas vidas e emoções, eu precisei mais do que nunca recorrer aos escritos da Florbela, aos seus versos tão tocantes, seus sonetos que me arrebatam. Precisei tocar, abraçar o livro, ler cada soneto em voz alta, na tentativa de calar o mundo por uns momentos. De esquecer a realidade.

Em abril eu li até a metade e depois fui lendo um poema vez ou outra, sempre quando me sentia "sufocada", angustiada. Mas agora em junho eu peguei o livro novamente e o li por inteiro. Porque se em abril estava desesperada, agora em junho, quando o Brasil ultrapassou mais de um milhão de pessoas infectadas pelo coronavírus e mais de 50 mil mortes, "desespero" seria um eufemismo. Estou para além disso... me sinto destroçada. Nem sei expressar o que sinto. Lamento muito por cada vida perdida, cada família que está atravessando esse luto tão insuportável. Só posso pedir que Deus conforte cada coração. E que tenha misericórdia de todos nós.

Me refugiar nos poemas da Flor era uma das melhores coisas que poderia fazer para não afundar numa crise de ansiedade. Vocês sabem que já falei desta minha querida poetisa aqui no blog outras vezes. Falei especificamente sobre ela no post Minha poetisa querida: Florbela Espanca, falei do soneto A Um Livro e ainda fiz resenha sobre um de seus livros, o meu preferido Livro de Mágoas. Mas esta é a primeira vez que falarei da Antologia Poética completa, que reúne seis livros da autora.

A Antologia Poética é o trabalho mais caprichado que já vi uma editora fazer dos livros da minha poetisa amada. Publicada pela editora Martin Claret, ela é em capa dura, com detalhes delicados, com uma página em azul abrindo cada um dos livros presentes na antologia. Reúne todos os livros de poemas publicados pela Flor em vida, bem como aqueles que só se tornaram de conhecimento dos leitores após sua morte.

Como abertura do livro, temos as duas únicas coletâneas de poemas publicadas enquanto a autora era viva: Livro de Mágoas, que eu considero o mais profundo, aquele que me toca como nenhum outro; e Livro de Sóror Saudade, que também traz sonetos que falam com a gente, como se a autora dissesse que sentia exatamente o que sentimos, que compreende nosso coração. Sim, quando falo de poesia eu sou assim sentimental mesmo! E com orgulho!rs

Dos 33 poemas presentes em Livro de Mágoas, dezessete são meus preferidos. Entre eles:

"Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo."

[Trecho do soneto Este Livro...; página 17]


Já o Livro de Sóror Saudade possui 37 poemas e entre eles tenho como um dos mais queridos:

"A luz desmaia num fulgor d' aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

[Trecho do soneto Anoitecer; página 69]


Os quatro outros livros que fazem parte da antologia só vieram a ser publicados postumamente. Muitos dos poemas que fazem parte deles foram escritos pela autora vários anos antes de ela falecer, mas que por um motivo ou outro acabaram não sendo lançados. Charneca em Flor, por exemplo, ela estava tentando publicar quando sua vida chegou ao fim. Ela morreu aos 36 anos, exatamente no dia do seu aniversário. Charneca em Flor foi publicado meses depois. Ele possui 47 poemas, entre eles tenho como um dos meus favoritos:

"Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjúrio?
Para onde vai a alma, que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!"

[Trecho do soneto Quem Sabe?; página 131]


Os outros livros de poemas da autora, presentes nesta antologia da Martin Claret são: Reliquiae (com 34 poemas); Trocando Olhares que possui 53 poemas e a curiosidade é que muitos deles não são sonetos (regra geral, a autora seguia a estrutura dos sonetos); e O Livro D'Ele, com 31 poemas. De todos os seis, o único que posso dizer que não gosto tanto assim é justamente este último. Do Livro D'Ele eu só tenho um poema que amei, mas ironicamente é um dos meus preferidos de toda a obra poética da autora:

"Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma, 
Gargalhadas de luz, cantos dispersos.
Ou pétalas que caem uma a uma..."

[Trecho do soneto Versos; página 298]


Eu recomendo muito, muito, muito esta antologia! Porém, os poemas da Flor são quase sempre melancólicos, carregados de sentimentos intensos, de dor, de angústia... são como montanha-russa, ora você encontra versos cheios de alegria, ora cheios de lágrimas (na maior parte das vezes falam de sofrimento ou saudade). Como sinto uma forte conexão com a escrita da autora, com a maioria dos seus versos, eles acabam provocando sentimentos positivos em mim, me consolam, me acalmam... Mas não posso afirmar que você sentirá o mesmo ao lê-los, claro.

O que quero muito é conhecer os contos da autora. Sim! Ela não escreveu apenas poesia. Ficou mais conhecida por conta delas, mas também é autora de contos. E ainda não li nenhum. Preciso corrigir isso logo! :D



-> DLL 20: Um livro de autor português



20 de janeiro de 2020

Mensagem - Fernando Pessoa

Literatura Portuguesa
Editora: Novo Século
Edição de: 2018
Páginas: 79

4ª leitura de 2020

Sinopse: Obra repleta de símbolos enigmáticos, Mensagem é um mergulho no passado de Portugal por meio de alusões míticas que compõem o período de glória marítimo e o de declínio que a nação transpirava na época em que o livro foi escrito. Em tom muitas vezes apoteótico, Fernando Pessoa busca um sentido que explique a ascensão e a decadência de sua terra natal. 
Mensagem é o único livro do poeta editado em vida, e nos põe em contato com poemas sublimes em sua forma e conteúdo. Nele vemos, sobretudo, emergir a importância da memória do mito e da memória coletiva. 





Eu ouvi falar deste autor praticamente a minha vida toda, mas nunca antes tive a oportunidade de conhecer suas obras. Somente no final de 2018 ao receber um cartão presente de uma amiga é que resolvi aproveitá-lo para adquirir o box com três livros do autor, pois morria de vontade de ler, sobretudo, o Livro do Desassossego

Mensagem, publicado originalmente em 1934, é um dos livros que fazem parte do box e por ser o mais curto decidi começar por ele.rs O que não foi necessariamente uma boa ideia

"Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são 
Só o que passa!"

Dividida em três partes (Brasão, Mar português, O encoberto) esta é uma coletânea de poemas com um forte nacionalismo, que relembra antigas glórias portuguesas e lamenta a sua decadência. E é aí que surge o problema: para compreender todos o simbolismo presente na obra e as menções a antigos reis e heróis nacionais é preciso possuir certo conhecimento da História de Portugal, buscar lá na memória coisas que talvez tenha aprendido na escola, sendo que da maioria delas é possível que, na realidade, nunca sequer tenha ouvido falar. 

"Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal, 
Humano ventre do Império, 
Madrinha de Portugal!"

Foram poucos os nomes mencionados nos poemas dos quais eu consegui lembrar de ter aprendido algo muitos anos atrás, nas aulas de história. A maioria dos nomes nada significou para mim, por não saber nada sobre eles, mas é perceptível que para o autor significavam muito. 

Apesar de sentir falta de saber mais da história de Portugal para entender melhor o livro, isso não me impediu de ser impactada por alguns versos, além de o ar saudoso do autor ao relembrar o período dos descobrimentos, ter me levado de volta à sala de aula, quando eu ficava sentada escrevendo o que o professor ditava, com uma grande vontade de aprender. Faz tanto tempo que não sou aquela criança tão inocente, que passava a maior parte do tempo estudando, imaginando e sonhando, que a nostalgia dos poemas do autor realmente me deixaram nostálgica também.

" 'Screvo meu livro à beira-mágoa. 
Meu coração não tem que ter. 
Tenho meus olhos quentes de água. 
Só tu, Senhor, me dás viver."

Esta é uma coletânea de poemas bem curtinha, nesta edição possui apenas 79 páginas, e dá para ler em mais ou menos uma hora, até menos, e seria uma leitura bem fácil se não fosse todo o simbolismo e história do país que exigem de nós leitores uma pesquisa mais profunda para entender de verdade cada um dos poemas. 

Como um todo, foi uma leitura válida e apreciei a escrita do autor, tão cheia de sentimentos e amor por seu país. Apreciei como uma porta de entrada para as tantas obras dele. O próximo livro que lerei do autor, sem dúvidas, será o Livro do desassossego, para assim mergulhar um pouco mais nas profundezas dessa alma artística. 

"Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem, 
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro. 
Ó Portugal, hoje és nevoeiro..."


-> DLL 20: Um livro de poesia

8 de outubro de 2019

Caim - José Saramago

Literatura Portuguesa
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2009
Páginas: 172

Sinopse: Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. 
Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.




Esta é a primeira vez que me desafio a ler Saramago, um autor muitíssimo querido por milhares de leitores, mas também desprezado por outros.rs Afinal de contas, não é possível agradar todo mundo.

Eu acreditei, sinceramente, que teria sérios problemas com o autor. Tanto por ele tocar em temas bíblicos utilizando de muito sarcasmo quanto por sua escrita peculiar (sem travessão, com vírgula no lugar de ponto final, com perguntas sem ponto de interrogação, com nomes próprios com letra minúscula, com trechos que se confundem com fluxo de consciência, e por aí vai...), mas a verdade é que foi bem tranquilo ler Caim.

"A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele."

Este é um livro que precisei ler com a Bíblia do lado. Sério! Como o autor resolveu dar um passeio pelo Antigo Testamento (conjunto de livros bíblicos com os quais SEMPRE tive sérios problemas, mesmo sendo cristã desde a infância), fazendo uma releitura de vários acontecimentos, eu precisei da Bíblia para comparar. Já li os livros que o autor mencionou implícita e explicitamente, mas não tenho uma memória perfeita, capaz de lembrar de tudo o que li. Por isso, foi necessário pegar minha Bíblia para ver até que ponto as falas e cenas eram "reais", ou seja, estavam realmente nos livros sagrados.

"Ao contrário do que costuma dizer-se, o futuro já está escrito, o que nós não sabemos é ler-lhe a página"

Antes de iniciar a leitura, eu pensava que a história se concentraria apenas no livro de Gênesis, que é quando ocorre o primeiro homicídio registrado na Bíblia: o assassinato de Abel, pelas mãos de seu próprio irmão, Caim. Mas as coisas não são bem assim. O autor passa por outros livros da Bíblia, como Êxodo, Josué, Jó e por aí vai. Nós fazemos uma viagem por vários momentos terríveis, de grande violência e destruição. E fazemos essa viagem dolorosa ao lado de Caim, quem nutre, ao longo de todo o livro, um ódio profundo por Deus.

30 de janeiro de 2018

Sorrisos Quebrados - Sofia Silva

(Título Original: Sorrisos Quebrados
Editora: Valentina
Edição de: 2017)


Série Quebrados - Livro 1


- A escuridão nos ajuda a falar o que na luz temos receio.
- Por que motivo?
- A verdade reluz, mas durante o dia seu brilho não é forte o suficiente para fazer as pessoas olharem para ela. É na penumbra que a verdade é soberana. E mesmo quem não quer ver é obrigado, pois é a única que brilha.




Palavras de uma leitora...



- Foram muitas as vezes em que ouvi falar desta história. Sobretudo no final do ano passado, quando acompanhei as listas de melhores do ano de blogueiros e youtubers e vi este livro ser muito mencionado. Pensei: "O que será que ele tem de tão especial? Por que tantas pessoas o amam?" Então esbarrei na história um dia e, impulsivamente, decidi que iria lê-la. Porque eu também queria me apaixonar. Também queria sentir a emoção que o livro havia provocado nos outros leitores. Queria conhecer todas as cores de Paola e André. Mergulhar no mundo deles. 

Quem conhece a história sabe que caí de cabeça. Que foi uma queda bem feia, sobretudo no início. Que me machuquei, me feri profundamente com a dor dos protagonistas. Que sofri com eles. Que não havia outra opção. 

"Como alguém vai acreditar em mim se ele parece ser um príncipe: alto, louro, olhos claros e sorriso apaixonado? As mesmas fotografias em que, se alguém analisar com atenção, perceberá que o meu sorriso, com o passar do tempo, vai diminuindo e a mão dele na minha cintura vai aumentando, apertando, sufocando... Esmagando.
Matando."

 Aos 18 anos de idade, Paola acreditava que estava vivendo seu próprio conto de fadas. O homem que ela amava e poderia ter escolhido qualquer pessoa entre todas as suas amigas que nutriam uma paixonite por ele, também estava apaixonado por ela. A escolhera quando ninguém julgava que isso fosse possível. Nunca imaginou que pudesse ser tão feliz. Mas viveu um dos momentos mais especiais de sua vida quando ele a pediu em casamento. Quanto romantismo! Quanto carinho e atenção! Todos a parabenizaram por sua sorte. E ela, loucamente apaixonada, acreditou que aquele era o início de toda uma vida de amor e felicidade. Que juntos construiriam uma família e se apoiariam em seus sonhos. Nunca passou por sua cabeça que ao lado dele, daquele príncipe encantado de sorriso e olhos amorosos, mergulharia no inferno... e por suas mãos morreria. 

"Passei a ter receio de respirar perto dele, ou parar de respirar nas mãos dele."

O conto de fadas chega ao seu fim ainda na lua de mel. Paola não entendia por que ele se comportava de maneira tão estranha, como se não a quisesse, como se não a desejasse. Tentando compreendê-lo, ela vai relevando seu comportamento e não demora para que pedidos aparentemente provocados por ciúmes normais de um homem apaixonado sejam feitos: não saia hoje, fique comigo. Não vista essa roupa. Não prenda o cabelo assim... Pedidos que se tornam exigências. Palavras de carinho que se tornam agressões verbais até que o primeiro tapa vem. Logo os socos, os chutes, a vida de medo. 

Ela percebe que está presa num relacionamento abusivo. Que o homem que ela amava e um dia a tratou com carinho, não existia mais. Ou, talvez, jamais tivesse existido. Era obrigada a esconder as marcas da família, dos amigos. Não sabia como pedir ajuda, não ia a lugar algum sem ele, pois quando não estava, Roberto soltava os cachorros.... que não hesitariam em atacá-la se ela tentasse sair. Como escapar? Como deixar aquela vida de tormento? Sabia que o tempo estava contra ela. Que não demoraria para que ele resolvesse matá-la. 

"Choro com a certeza de que estes são os meus últimos minutos de vida. Vou morrer. Meu Deus, vou morrer pelas mãos do homem que amei."

Sem saber mais o que fazer, temendo cada passo, cada respiração, cada palavra que pudesse sair de sua boca e provocar novas agressões, Paola resolve fugir. Estava apostando muito, tudo na verdade. Mas continuar não era possível. Com o coração quase saindo pela boca, ela entra no carro... faltava tão pouco! Mais alguns segundos e estaria livre... Só que, o que era para ser o fim de tantos anos de sofrimento, desencadeia acontecimentos que destroem o que restava de sua vida. 

"- Por favor - peço entre lágrimas e choro, sem nunca parar de tentar sair daquele cárcere infernal. 
Desespero e medo. Dor e falta de esperança desabam sobre mim."

O homem a quem ela tinha dado tudo, se entregado por inteiro e aberto mão de sonhos, naquele dia resolveu roubar também a sua respiração. Por mais que implorasse, que gritasse e tentasse fazê-lo pensar, Paola sabia que morreria. Que ele estava decidido, que não existiria piedade. Mas ela luta até o fim. Cada golpe, cada sangue derramado a aproximava mais da morte, porém em nenhum momento ela deixou de tentar escapar, de tentar sobreviver. Até seu coração falhar uma batida e parar. 

"Hoje, cada passo dói. Talvez a dor seja maior porque é aniversário da minha morte."

Seis anos tinham se passado... Seis anos desde o momento em que seu coração parou e os médicos consideraram um milagre que ela tenha voltado, que tenha sobrevivido a todo dano que Roberto causara ao seu corpo. Finalmente estava livre. Não apanhava mais, não vivia presa dentro de sua própria casa. Todavia, agora enfrentava uma prisão diferente. Porque não era possível livrar-se dos fantasmas do passado e de todas as marcas físicas e emocionais que ele lhe deixara. 

Ela tinha apenas vinte e quatro anos quando ele a matou. Agora, com trinta anos de idade, vivia num quarto dentro de uma clínica que cuidava de pessoas que possuíam problemas como os dela, que carregavam cicatrizes de uma vida passada... marcas que recordavam a dor que o amor podia provocar, o dano que tal sentimento causava. Estava naquela clínica porque não tinha coragem de atravessar seus muros e retomar as rédeas de sua vida. Criara um mundo próprio ali, onde as pessoas não ficavam assustadas com sua aparência, onde era compreendida. Onde ninguém podia machucá-la. 

Naquele dia, aniversário de sua morte, a dor estava especialmente mais forte. Tantas lembranças... tanto desespero trancado dentro de si mesma... tentando sair, tentando encontrar consolo. Então ela foi fazer o que sempre lhe dava paz: pintar... colorir a tela com as cores que gostaria de ter em sua vida. Passar para a tela o que sentia. 

"Pinto e grito.
Passado muito tempo, paro.
Fico respirando fundo, olhando para tudo, e rio alto. Não consigo parar de rir. Rio com tanta força que acabo chorando ainda mais descontroladamente. 
Choro e rio ao mesmo tempo.
Sou livre, mais neste dia estou mais presa a ele."

É quando ele a vê pela primeira vez... André convivia com seus próprios demônios e conhecia bem aquela clínica, pois nela sua filhinha de quatro anos passava bastante tempo. Doía até mesmo recordar... saber o que levara seu bebê, sua preciosa menina, a necessitar de tratamento. Sentia o golpe de cada uma das suas falhas, de como não estivera presente quando ela mais precisou. Agora, sua garotinha não era capaz de conviver com outras pessoas, de ser uma criança normal. Vivia com medo, trancada dentro de si mesma. Será que algum dia seria diferente? Ela poderia ser curada? 

Naquele dia, perdido em seus próprios pensamentos, ele mal conseguiu acreditar no que via. Uma mulher estava no jardim da clínica, gritando e jogando tinta sobre si mesma. A cena era perturbadora, mas quando ela o viu, algo ainda mais chocante aconteceu: ela desmaiou. 

Sem saber o que fazer e não tendo ninguém próximo para pedir ajuda, André se aproxima e a pega nos braços, tentando despertá-la. Não consegue perceber que fora a causa do seu desmaio. Que, por algum motivo, ela entrara em pânico ao vê-lo. 

"- Eu não vou te fazer mal. Não sou mau. Não tenha medo. Está tudo bem. Respire. Não vou te fazer mal. Nunca te faria mal."

Aquele era para ser o fim de algo que sequer começara. Por tudo o que tinha passado, Paola instintivamente sente pavor do André ao conhecê-lo. Associá-lo ao Roberto era inevitável. Quanto mais perto ele ficava pior era a sensação de que, a qualquer momento, ele a atacaria e terminaria aquilo que seu marido iniciara. André, por sua vez, quando finalmente entende os sentimentos que provoca naquela desconhecida, se afasta, disposto a nunca mais encontrá-la em seu caminho. Tinha seus próprios dramas e realmente não necessitava fazer mal a ninguém. Porém, a vida tem seus próprios planos e não demora para o caminho dos dois se cruzar novamente... 

Poderiam dois corações quebrados voltar a amar? É possível confiar outra vez quando ainda carregamos as feridas causadas por uma decepção? E seria o amor suficiente para arriscarmos de novo? Para saltarmos mesmo sabendo que talvez não sobrevivamos à queda? 

"Posso estar sendo uma mulher que comete erro atrás de erro, mas há algo nele que vejo em mim. Algo quebrado."

- Não saberia nem como começar a falar desta história. De todos os sentimentos que ela provocou, da enorme angústia que senti ainda nas páginas iniciais quando fui obrigada a assistir tudo o que a Paola enfrentou, sem poder ajudá-la, sem fazer nada para tirá-la dali, para impedir tanta maldade. Eu lia a cena e tremia, sentindo-me no chão, desesperada porque sabia que ninguém a salvaria, que não era possível apagar o que estava acontecendo. Foi horrível. E pensei sinceramente em interromper a leitura. Porque eu não suportei tanta dor. Porque foi uma cena extremamente pesada para mim. 

Porém, se não podia salvá-la, o mínimo que eu poderia fazer pela Paola era acompanhar sua história. Vê-la voltar à vida, renascer das cinzas que o desgraçado, aquele maldito demônio a tornou. Então eu segui em frente com a leitura, mesmo que ainda estivesse trêmula e gelada. E temesse muito o que ainda estava por vir. 

"Será que estamos irremediavelmente quebrados? E se sim, qual dos dois está mais?"

Foi quando eu conheci o André e a pequena Sol... e todo o medo que eu pudesse sentir desapareceu. Sim. Eu sabia que ainda existia a possibilidade de enfrentar cenas traumáticas, de chorar com os personagens, mas estava disposta a suportar tudo se pudesse me encantar mais e mais com a presença deles na vida da Paola. Me angustiou o medo inicial que ela teve dele, embora fosse perfeitamente compreensível. André era um homem forte, de aparência agressiva, embora fosse incapaz de fazer mal para qualquer pessoa. Ela não o conhecia, tudo que via era o seu exterior e isso somado com os traumas que ela carregava era suficiente para fazê-la sentir medo. 

Mas Sol era a ponte para aproximá-los. A garotinha ferida, que não confiava em ninguém, que paralisava sempre que outro ser humano se aproximava dela... esse pequeno anjinho abre seu coração pela primeira vez ao conhecer a Paola. Ao ver as cicatrizes que tomavam um lado inteiro do seu rosto, Sol compreendeu que ela não lhe faria mal... que estava tão machucada quanto ela e se identificou. Enxergou em Paola a si mesma. Embora Sol não carregasse cicatrizes em seu corpo, viu nas marcas dela a sua própria dor. 

O amor entre as duas é natural e inesperado. Forte como se estivessem destinadas a se conhecer e curarem as feridas uma da outra. A inocência com a qual Sol confia nela, desperta em Paola sentimentos há muito adormecidos. Ela se torna responsável não mais apenas por si mesma, mas por outro ser humano, por uma criança que lhe suplicava ajuda. E assim se aproxima também do pai dela, daquele homem que ela temeu, mas estava tão destruído quanto elas duas. Talvez mais, pois a culpa é um dos sentimentos mais destrutivos que existem. 

"Minhas mãos fazem carinho no que alguém quebrou, e digo o que ela precisa ouvir:
- Paola, o lado feio não existe em você. Não para mim."

- É belíssimo acompanhar o relacionamento entre esses três. Lindo e muito emocionante. Nós choramos sem nem percebermos quando a primeira lágrima caiu. Sorrimos em momentos inesperados. Somos atingidos por toda a carga emocional deste livro. 

Quando pensamos que sobrevivemos ao pior no momento em que acompanhamos o pesadelo da Paola, enfrentamos também tudo o que se esconde no passado do André e da Sol, os tormentos que eles viveram, as marcas interiores que carregavam. Quando a autora finalmente revela o que fez com que uma criança de quatro anos ficasse tão traumatizada... Nossa! A raiva que eu própria senti! A vontade de gritar, de socar alguma coisa! Sempre digo que essa humanidade está perdida. Que esse mundo já não me surpreende. Mas ainda fico chocada ao ler coisas assim, ao ver o quanto o ser humano pode ser perverso e fazer mal até mesmo a uma criança, a um ser que não tem como se defender. Chorei muito pela Sol. E meu alívio era saber que a Paola tinha aparecido na sua vida. Que ao lado do André poderia fazê-la voltar a viver, a ser uma criança saudável de novo, feliz. 

"Beijo suas cicatrizes em vez do outro lado liso. Porque é este que me entende, que vê que, por dentro sou igual."

- O relacionamento entre Paola e André é profundo, real, doloroso e restaurador. Eles estavam intensamente quebrados, em vários pedacinhos. Qualquer um que olhasse de fora diria que seria impossível juntar todas as partes, que não havia conserto. Mas juntos eles se curam. Eram o que necessitavam para recomeçar, para acreditar de novo na vida, no amor, nas pessoas. 

O livro é escrito de maneira belíssima. Dolorosa em alguns momentos, não nego, mas linda. A escrita é poética, como se a autora não estivesse escrevendo de fato, mas pintando as cenas, colorindo como a Paola coloria com o pincel. Nunca li algo tão bonito! As cenas nos "chamam", fazem com a gente se sinta realmente parte da história. É como se estivéssemos lá, acompanhando tudo em primeira mão. E as cores... eu realmente as enxergava. Pura poesia! 

"É no meu encostar de lábios com os dela que a dor some completamente e todo o vazio é preenchido por ela. E só ela."

- Não recomendar este livro seria impossível! Já estou perdidamente apaixonada por esta série, pela escrita incrível da autora, pelo cuidado que ela tem na construção dos personagens, nas doses certas de emoção, no desenrolar dos acontecimentos... Ela criou uma história única utilizando um tema verdadeiro e atual. A violência contra a mulher e contra as crianças. A violência doméstica tão presente em tantos lares neste mundo em pleno século XXI. Quantas notícias não vemos diariamente? Quantas mortes? A autora criou uma personagem que sofre uma violência terrível e a partir disso construiu o seu romance, fazendo nossa protagonista recomeçar do que restou. Dando a ela o final feliz que ela merecia. Fazendo com que ela percebesse que merecia sim ser feliz, que tinha o direito de ser mulher, de ter sonhos, de ter voz e vontades, de dizer sim ou não para quem quisesse. Esta autora é maravilhosa! 

"- Eu sou como aquela Caixa, Paola. Sou grande e dou abrigo a todos que amo, mas sou oco por dentro. Eu era escuro, vazio... até você entrar e me iluminar. E... e eu não quero mais viver sem cor."

- Recomendo MUITO este livro! Não consigo imaginar que alguém possa ler esta história e se arrepender. É aquele tipo de livro que amamos ou amamos. :D 

Estou ansiosa para conhecer as outras histórias da série! Espero que a editora Valentina nos encante logo com o lançamento do segundo volume. Desesperada para lê-lo! 

20 de setembro de 2017

Livro de Mágoas - Florbela Espanca


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada.. a dolorida... (...)
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!...


Palavras de uma leitora...


- Antes de tudo... Infelizmente, não estou conseguindo postar pelo menos três vezes por semana, gente. A vida está corrida demais.kkkk... Está sendo impossível dar conta de tudo e como gosto de fazer as coisas com carinho, com todo cuidado, a partir da semana que vem as postagens ganharão novos dias pré-fixados: toda segunda e sexta-feira. Vamos ver se agora eu consigo!rsrs

"Sonhar um verso de alto pensamento,
E, puro como um ritmo de oração!
- E ser, depois de vir do coração, 
O pó, o nada, o sonho dum momento..." 
[Trecho de Tortura]

- Eu estava um tanto deprimida há alguns dias e resolvi carregar este livro comigo, para reler meus sonetos preferidos. Acabei relendo todo o Livro de Mágoas e arrisquei fazer uma resenha especialmente dele, que é de longe o meu livro preferido dentro dessa Antologia. 

Publicado originalmente em 1919, o Livro de Mágoas é sua primeira reunião de obras poéticas. Ele é composto por 32 sonetos (33 se considerarmos que dois que são aparentemente iguais, mas possuem alguns trechos diferentes são dois sonetos separados), que nos atingem em cheio a alma e nos fazem pensar em tantos assuntos ao mesmo tempo que é como se estivéssemos numa montanha-russa, subindo lentamente a princípio para de repente cair com violência. Ora nos sentimos leves, alheios ao mundo e a nossos próprios sentimentos, mergulhados no que a poesia quer transmitir.. envolvidos em suas palavras... Ora somos golpeados com força, sentindo que o que está escrito ali é o que sentimos e não conseguimos falar nem para nós mesmos. Que é a nossa alma no papel. Choramos pela confusão de sentimentos que eles provocam. Pelo que perdemos e nem sequer sabíamos. 

"Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas, 
Parece-me que foi numa outra vida..."
[Trecho de Lágrimas Ocultas]

- Lágrimas Ocultas é um dos meus preferidos não só do Livro de Mágoas, mas de toda a obra da Florbela. Já perdi a conta de quantas vezes o li e é sempre como se fosse a primeira vez. A mesma magia. Sinto uma nostalgia levemente dolorosa... Me pego revisitando o passado... Indo para outras épocas... Quando tudo era perfeito. Quando eu era criança e queria crescer, ser gente grande, acreditando que o mundo seria melhor quando me tornasse "adulta". Ao ler este soneto a vontade de ter de volta esses momentos, essa inocência, se torna mais forte. Desejo algo impossível de obter. Dói lembrar sabendo que não poderei ter esses dias novamente, mas ao mesmo tempo é uma saudade boa.

"Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh' alma
Que chorasse perdida em tua voz!..."
[Trecho de Alma Perdida]

Sempre que leio o soneto Alma Perdida, penso numa noite escura, com quase nenhuma estrela. A lua cheia no céu, um vento leve passando e balançando as folhas... Imagino uma pessoa sentada à mesa escrevendo e parando muitas vezes para olhar pela janela. Ela está triste e não sabe como colocar seus sentimentos no papel. É quando ouve o rouxinol chorar, num canto tão doloroso, como se lesse sua alma, como se cantasse o que ela sentia. Vejo a moça largar a caneta e o papel e ir até a janela de onde observa o pássaro até que os olhos dos dois se cruzam, num entendimento silencioso. Não importa quantas vezes eu leia este soneto, a imagem é sempre a mesma. Vejo exatamente as mesmas cenas em minha mente. Devo ser realmente um tanto louca.kkkkkkkk... 

De modo geral, essa coletânea traz sonetos muito parecidos, que tratam de sentimentos profundos e intensos. Que falam de dor, tristeza, perda, solidão... Que falam numa descrença no amor ao mesmo tempo em que parecem ainda guardar alguma esperança por mais tênue que seja de que o amor existe e que vai chegar. Em algum momento ainda que tarde demais. 

São versos que falam com a gente. Que transbordam sentimentos, que parecem possuir vida própria não se limitando às páginas do livro. Eu amo todos os livros da Florbela, mas o Livro de Mágoas é o meu preferido, aquele que releio mais vezes e nunca me canso. Ele é especial.

"Mesmo a um velho eu perguntei: 'Velhinho,
Viste o Amor acaso em teu caminho?'
E o velho estremeceu... olhou... e riu...

Agora pela estrada, já cansados,
Voltam todos pra trás desanimados...
E eu paro a murmurar: 'Ninguém o viu!...'"
[Em Busca do Amor]


- É isso, queridos. É a primeira vez que faço resenha de poesia. Nunca antes consegui. Não passei da tentativa.rsrs Claro que a resenha não ficou perfeita nem nada, muito menos chegou aos pés do que a autora merece, mas espero que tenham gostado. :)

Deem uma chance à Florbela!!! Vocês não vão se arrepender! Tenho certeza que também se apaixonarão pelos escritos dela!

6 de setembro de 2017

A Um Livro - Florbela Espanca


A Um Livro

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste,
Sombra roubada ao livro que ando a ler, 
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o e folheio, assim, toda a minh' alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!... Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!..


- Não tenho nenhuma intenção de fazer resenha sobre este soneto.rsrs Não conseguiria, é claro!kkkkk... Na verdade, só quis partilhar com vocês um dos meus sonetos preferidos da Florbela. :)

Foi difícil escolher. Fiquei em dúvida entre vários até me decidir por este. Como vocês sabem, sou perdidamente apaixonada pelos poemas desta autora. É a minha poetisa preferida e hoje que estou num dia bem ruim, corri para os escritos dela. Uma das melhores maneiras de tentar me desestressar.rsrs

Já gritei, bati portas, joguei coisas longe, mas nada conseguiu diminuir o nível de estresse causado pelo dia terrível que tive. A única coisa que me acalmou foi ler Florbela Espanca. Não é à toa que a amo tanto!

"Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!"

- Já reli diversas vezes muitos dos seus sonetos. E sempre me parece que foram escritos para mim. Como se ela colocasse em palavras o que não consigo ou não sei dizer. Suas palavras me fazem viajar... Vou ao passado... À épocas maravilhosas, lembranças boas de um tempo que ficou para trás. É tão bom recordar certos momentos... reviver determinados instantes que se eternizaram em minhas recordações... e em meu coração. 

- Passarei mais alguns minutos com minha poetisa querida, depois assistirei um pouco de Gilmore Girls e se tiver sorte ainda lerei mais alguns capítulos de O Resgate no Mar - Diana Gabaldon. Hoje não quero ver mais nenhum livro de estudos na minha frente nem ouvir a palavra "trabalho". Senão juro que surtarei!

Bjs, queridos! Até breve!
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