25 de fevereiro de 2020

Inferno (A Divina Comédia) - Dante Alighieri

Tempo de leitura:

Literatura Italiana
Título Original: La Divina Commedia - Inferno
Tradutor: Italo Eugenio Mauro
Editora 34
Edição de: 2017
Páginas: 232 
11ª leitura de 2020
A Divina Comédia - 1ª Parte

Sinopse: A meio do caminho, ou seja, da duração expectável de sua vida, Dante, consciente de se haver desviado do reto procedimento, encontra-se perdido numa alegórica "Selva Escura". Encontra aí a figura de Virgílio, o poeta latino que, a pedido da alma beata de Beatriz, o grande amor da juventude de Dante, vem se lhe oferecer como guia para o Inferno e o Purgatório onde, pelo exemplo dos pecadores e de suas penas, Dante poderá encontrar o caminho da sua salvação. Dante aceita, e os dois iniciam sua viagem. Antes da entrada para o Inferno eles passam por seu Vestíbulo: o "Limbo", onde não há castigo, porém a possibilidade de salvação, que abriga as almas dos infantes falecidos antes da instituição do batismo e alguns grandes personagens do passado anterior a Cristo. O Inferno, que eles então adentram, é constituído por uma imensa cratera escavada nas profundezas do globo terrestre na queda do corpo do anjo rebelde expulso do Paraíso. Começa nas proximidades da "selva selvagem" essa ampla cratera e vai se afinando até o centro da Terra onde se encontra o próprio Lúcifer que aí tem o encargo de Rei do Inferno.




Não tem como alguém passar por esta vida sem nunca ter ouvido alguma referência ao inferno de Dante. Por diversas vezes vi pessoas dizerem que tal coisa era "dantesca", que tal horror lembrava o inferno do autor, além de ter visto muitas menções a um famoso livro chamado A Divina Comédia. Só que eu demorei muito tempo para perceber que o inferno dantesco tinha ligação com esse tal livro, sendo na verdade "Inferno" nada mais, nada menos que o primeiro volume de A Divina Comédia, um dos maiores clássicos da literatura mundial. Clássico este que muitas pessoas passam a vida toda estudando (para terem uma ideia do peso desse livro!). 

Houve menções deste livro até mesmo nas aulas que assisti antes da minha Crisma, algo que me deixou muito curiosa, aumentando o desejo que eu já tinha de conhecer a obra. Mas quando surgiu o desejo de ler essa trilogia? A culpa foi toda do Dan Brown! Sim! Embora existam "pseudointelectuais" que torcem o nariz para os best-sellers, considerando-os literatura "inferior" por serem livros populares, tais livros muitas vezes nos despertam para os clássicos, conseguindo o que muitos professores lutam para despertar em seus alunos e não conseguem, vez que há aquela ideia de que clássicos são "chatos". A saga Crepúsculo é um belo exemplo, já que fez muita gente desejar loucamente conhecer livros como O Morro dos Ventos Uivantes, Romeu e Julieta, Orgulho e Preconceito, isto porque estou citando apenas alguns. Muitos foram os livros contemporâneos que me fizeram ansiar por mergulhar em histórias que nunca antes eu sequer tinha cogitado ler. O Inferno de Dan Brown fez exatamente isso comigo: me deixou louca para conferir a grande obra que não serviu apenas de inspiração para o livro do autor, mas guiou a história do início ao fim. 

"E sem o conhecimento profundo da cultura filosófica, teológica, religiosa, política, social e obviamente retórica da Idade Média, toda leitura da Comédia, mesmo guiada, acaba ficando desfocada, para não dizer falsa."

Embora eu pense que o autor do prefácio contido na minha edição do livro foi um tanto "superior" (de modo negativo) no trecho acima, não posso deixar de concordar em parte com ele. A Divina Comédia é uma obra muito difícil. Ela não é dividida em capítulos, mas sim em "cantos", sendo toda estruturada em forma de versos. A história inteira é contada em versos de difícil compreensão. Como se isso não bastasse para tornar a leitura uma experiência complexa, existem muitíssimas referências que se perdem se não temos um conhecimento histórico profundo do período em que Dante viveu. Conhecer a situação política da Itália ao longo da vida de Dante, o que motivou seu exílio, os dramas sociais, a visão religiosa e filosófica da época se faz necessário para uma maior compreensão da obra. Sem mencionar que também é preciso ter um certo conhecimento de mitologia grega e pelo menos saber do que se tratam obras como: Eneida (obra de Virgílio, autor transformado em personagem do livro e que será o Mestre que guiará Dante em seu tour pelo Inferno), Ilíada, Odisseia (ambas de Homero), Metamorfoses (de Ovídio), entre muitas outras mencionadas em Inferno (lembrando que estou falando apenas do primeiro volume da trilogia!). 

O que complica ainda mais as coisas é o fato de tais obras não serem apenas "mencionadas" no livro. Elas são importantes na construção dos versos, se tornam parte da história deste primeiro livro. E se não conhecemos essas obras não conseguimos fazer a conexão necessária, mesmo que as notas de rodapé contidas nesta edição da Editora 34 ajudem um pouco e o resumo presente no início de cada canto também nos "socorra", de certa forma. Ainda assim não é suficiente. 

Por tudo isso, eu reconheço que mesmo tendo lido este livro com toda a atenção e cuidado, de ter dado o meu melhor para compreendê-lo, ainda não estou nem engatinhando pelo caminho que terei que percorrer para realmente considerar que entendi pelo menos 70% do livro (porque não acredito que um dia compreenderei 100%). Eu precisaria estudar a época em que Dante viveu, precisaria ler todas as obras mencionadas no livro e ler a própria A Divina Comédia umas cem vezes antes de me considerar capaz sequer de escrever uma resenha sobre a obra. 

"Portanto, pra teu bem, penso e externo
que tu me sigas, e eu te irei guiando.
Levar-te-ei para lugar eterno

de condenados que ouvirás bradando, 
de antigas almas que verás, dolentes, 
uma segunda morte em vão rogando;"

Isto que agora faço não é uma resenha, não é algo digno do livro, mas apenas uma forma de compartilhar um pouco de como foi a minha leitura. Do que entendi (que posso ter entendido errado), do que senti, se amei ou não a experiência de leitura. Enfim... É uma conversa com vocês. :)

Ao longo de sua vida, Dante se desviou do caminho "correto" e graças à sua eterna amada Beatriz (mulher que o autor amou na vida real e que faleceu muito jovem) é lhe dada a chance de consertar a sua vida antes que seja tarde demais e, ainda, contribuir para tentar salvar o país que estava se destruindo. Assim, Dante tem a oportunidade única de conhecer o inferno, de "passear" por todos os seus nove círculos (que possuem várias subdivisões) e ver de perto o imenso sofrimento dos pecadores condenados. Essa viagem pelo inferno ocorre com o personagem vivo, o que é uma surpresa para as próprias almas condenadas e os demônios ali presentes, já que nenhum homem vivo poderia entrar naquele lugar. 

Como "guia" pelo inferno, Dante contará com o grande poeta Virgílio, autor que ele muito admira e que chamará de "Mestre" ao longo de todo este primeiro volume. Infelizmente, ao morrer, Virgílio não teve o direito de ir para o Paraíso, sendo condenado ao "Limbo", primeiro círculo do Inferno, onde estão pessoas "virtuosas", mas que por não terem sido batizadas e por terem existido antes de Cristo, não conquistaram o direito de ir para o Paraíso. Em tal local, Dante encontra vários dos seus autores amados, como Homero e Ovídio, por exemplo. No "Limbo" não há pena, ou melhor, segundo um dos versos do canto IV, a pena é somente uma: "sem esperança ansiar eternamente", desta forma o único sofrimento ali é desejar algo que nunca terá, desejar ir para o Paraíso, conhecer Deus verdadeiramente. 

"não pecaram, mas não têm validez, 
sem batismo, seus méritos, e isto 
faz parte dessa fé na qual tu crês;

e os que tenham vivido antes de Cristo
não adoraram Deus devidamente, 
e eu dessa condição também consisto."

E aí começam os choques que os leitores vão sofrendo ao longo da leitura, com a visão que Dante cria do inferno, dos pecadores condenados ao sofrimento eterno, das punições ali aplicadas. O Limbo já nos choca bastante e é só o primeiro círculo! E embora na Igreja eu já tenha ouvido falar dos "problemas" de crianças morrerem sem serem batizadas, vê-las serem condenadas ao Limbo simplesmente por isso na obra construída por Dante me deixou bem revoltada. Dizer que isso seria injusto é pouco; vai simplesmente contra tudo o que acredito, então a leitura já mexeu com minhas emoções logo no início. E ser católica de modo algum facilitou a leitura, vez que não concordo com muitos dos dogmas, dos ensinamentos da minha religião (sou um ser pensante, possuo um cérebro, logo não sou obrigada a acreditar ou concordar cegamente com nada que eu não queira). Além disso, sequer se pode dizer que A Divina Comédia é uma obra "cristã" por inteiro, pois muitas coisas presentes no primeiro volume da história vão contra alguns dos próprios ensinamentos cristãos. Acaba sendo um livro que mistura muitas coisas, mas que tem sim uma certa "força" religiosa. 

"Deixai toda esperança, ó vós que entrais."

Sempre guiado por Virgílio, que cria um forte laço de amizade com Dante ao longo do caminho, o protagonista vai descendo e conhecendo cada um dos nove círculos infernais, inclusive tendo a oportunidade de falar com alguns dos condenados (alguns deles sendo inimigos do próprio Dante e colocados no inferno porque o autor quis, claro.rsrs) e entender a história deles, que grande pecado os levou a passar a eternidade naquele lugar tão aterrorizante e sem esperança. 

"Do círculo primeiro fui descendo
ao segundo, onde o espaço se restringe, 
e cresce a dor, em brados irrompendo."

Sabemos que no primeiro círculo se encontra o Limbo, onde estão as pessoas virtuosas que não foram batizadas e não conheceram a palavra de Cristo, tendo nascido e morrido antes da vinda dEle. Já no segundo círculo começam as verdadeiras penas, os sofrimentos impostos aos pecadores, que são divididos de acordo com seus pecados. Assim temos que conforme os números vão aumentando, os círculos vão se estreitando e quanto maior o número mais próxima a pessoa fica do Rei do Inferno, ou seja, do próprio Lúcifer. 

Para entender: no círculo II estão os luxuriosos (sim, há conexão com os sete pecados capitais). Aqui os pecadores ainda estão bem no começo, no princípio da descida, então não está muito estreito ainda e eles estão muito longe do Lúcifer, para a sorte deles (se é que se pode ter sorte no inferno!). Já os pecadores que estão no círculo IX (o último e mais estreito) estão completamente ferrados. Estão pertinho do rei do inferno e recebem a pior punição. Neste círculo estão os traidores, já que para Dante o pior dos pecados é a traição (contra parentes, contra a pátria, contra hóspedes e contra aqueles que foram benfeitores, estando neste último caso o próprio Judas que traiu Jesus). 

"Os tristes sons começo a perceber
do lugar aonde eu vim, onde queixume
e muito pranto vêm me acometer;"

E ao acompanharmos Dante nesta descida e vermos tudo pelo olhar dele, nos sentimos aterrorizados por todo aquele terror sem fim. Parece que realmente conseguimos "ouvir" os gritos, os lamentos daquelas almas condenadas, de pessoas que pagariam eternamente por seus erros, sem nunca terem a chance do perdão, de um recomeço, de algo que não fosse eterna dor, eterno choro. Eu fiquei apavorada, porque ler os versos em que Dante descreve o que se passava em cada círculo, como cada grupo de pecadores era punido, provoca arrepios de terror em nós leitores, nos causa sofrimento, angústia, mesmo que não acreditemos no inferno criado pelo autor. Ainda que não acreditemos em nada daquilo, o autor consegue nos impactar com sua escrita, com as descrições tão vívidas e arrepiantes. 

É uma leitura que me fez crescer muito como leitora, mas que ao mesmo tempo fez eu me sentir muito burra.rs Não foi nada fácil ler esses versos. Tudo bem que não foi tão difícil como eu imaginava que seria, mas ainda assim foi complicado. Eu tinha que reler cada verso várias vezes para que entrasse na minha cabeça o que estava sendo contado ali. E se eu não tivesse lido o livro do Dan Brown antes teria ainda mais dificuldade, pois o autor através do seu tão conhecido protagonista, o professor Robert Langdon, nos apresenta ao Dante e à sua obra, com uma linguagem que faz com que não esqueçamos de alguns detalhes que nos auxiliam um pouco quando mergulhamos pela primeira vez neste livro. 

Valeu muito a pena finalmente ter criado coragem para apostar nesta leitura. O caminho foi complicado, desgastante, confuso, muito desafiador, mas não me arrependo. Me sinto contente por ter arriscado, por ter vencido um dos meus medos literários. Como eu disse, precisarei ler o livro umas cem vezes para de verdade compreendê-lo e é algo que estou disposta a fazer ao longo da minha vida.rs

E ainda não acabou! Que venha a leitura das outras duas partes da Divina Comédia: Purgatório e Paraíso! Todavia, dizem que Inferno é a parte mais difícil e se sobrevivi a ele conseguirei chegar viva ao final dos dois próximos volumes.kkkkkk

Antes de terminar: a palavra "comédia" no título da obra não significa que há algo de engraçado, cômico no livro. Não é comédia do tipo que vemos nos filmes, que nos fazem morrer de rir, que servem para nos divertir. Não sei se consigo explicar, mas a comédia era basicamente o contrário da tragédia. Enquanto a tragédia era um gênero que exaltava os deuses e trazia heróis que, por não fazerem a vontade divina ou por irritarem os deuses, eram cruelmente castigados, sendo todos os finais infelizes, geralmente com a morte dos protagonistas (exemplos já resenhados no blog: Hamlet, Édipo Rei, Antígona), na comédia tínhamos a história de personagens "inferiores", pessoas comuns e os finais eram felizes



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Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

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