16 de fevereiro de 2020

Os Sofrimentos do Jovem Werther - Johann Wolfgang von Goethe

Tempo de leitura:
Literatura Alemã
Título Original: Die leiden des jüngen Werthers
Tradutor: Marcelo Backes
Editora: Folha de São Paulo
Edição de: 2016
Páginas: 144
9ª leitura de 2020

Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura #15
Sinopse: Os sofrimentos do jovem Werther foi um dos primeiros best-sellers europeus. Lançou modas de comportamento e mesmo de roupas; é também uma história de amor impossível. Mas este primeiro romance de Goethe (1749-1832), mestre maior da literatura alemã, foi ainda uma obra que marcou uma virada importante nas ideais artísticas, morais e sociais da Europa do fnal do século XVIII, e se tornou precursora do romantismo. Publicado pela primeira vez em 1774, trata-se de um romance composto de cartas escritas por um jovem burguês hpersensível, Werther. Inclinações artísticas, modos e pensamentos levam o jovem Werther a entrar em conflito com convenções e preconceitos da sociedade aristocrática, na qual acaba esnobado e humilhado. Além do mais, apaixona-se por Lotte, jovem também sensível, mas já noiva e depois esposa de um homem de senso prático da vida. As frustrações de Werther acabam por levá-lo ao suicídio, atitude que foi imitada por vários de seus leitores e causou grande escândalo na época. 



Eu não sei como falar deste livro. Do impacto que ele provoca em quem o lê, da confusão de sentimentos... do "peso" que deixa em nossos corações.

"Tudo aquilo que me foi dado encontrar na história do pobre Werther, eu ajuntei com diligência e agora deposito à vossa frente, sabendo que havereis de me agradecer por isso. Não podereis negar vossa admiração e vosso amor ao seu espírito e ao seu caráter, nem esconder vossas lágrimas ao seu destino."

Esta é uma leitura que eu deveria ter feito no ano passado, mas tive medo de ler o livro e acabar ficando muito mal, pois tinha conhecimento que esta história havia provocado uma onda de suicídios quando de sua publicação. Muitos jovens infelizmente desistiram de viver e fico imaginando como o autor deve ter se sentido, pois com certeza não imaginava tamanha reação à sua obra. Só de imaginar aquelas pessoas colocando fim à própria vida, eu me sinto muito mal. Então o autor deve ter ficado arrasado.

"Tu sabes que não existe no mundo nada tão instável, tão inquieto quanto o meu coração."

O livro pesa, a sensação que nos deixa é de um imenso "peso nos ombros", porque lidar com todos os sentimentos do jovem Werther não é fácil, é desgastante emocionalmente. E acabamos sim nos identificando com muitos dos pensamentos e sentimentos do protagonista, que sente a vida de maneira intensa, apaixonada. Com ele não existe meio-termo. Nada é moderado. Ama e odeia com a mesma força. Está sempre sentindo o mundo e o enxergando de uma maneira que poucos sentem e veem. É isso que acaba tornando tudo forte demais. Insuportável para ele. :( E isso não é spoiler: sabemos desde o início da leitura que Werther se suicidou. A história é contada após a morte dele.


"Que a vida humana é apenas um sonho outros já disseram, mas também a mim esta ideia persegue por toda parte."

Após a morte de Werther, suas cartas são entregues a um suposto editor e por ele organizadas. É assim que nós leitores temos acesso a tudo. Claro que não é nada disso, pois Werther é um personagem, mas o autor inventou esse início para dar uma sensação de realidade à história. Assim, o livro se desenvolve através de uma narrativa epistolar, na qual só conhecemos as cartas escritas pelo protagonista. A primeira carta data de 4 de maio de 1771 e foi escrita (como a maior parte delas) para o seu grande amigo Guilherme, personagem que jamais aparecerá na história, bem como os demais tambem não aparecem. Tudo o que conhecemos da história do Werther, antes de sua morte, é o que ele escrevia nas cartas.

"Oh! Tanto é verdade que é o nosso coração, ele só, o artífice de sua própria sorte..."

Através da primeira carta ficamos sabendo que Werther tinha deixado seu amigo e a vida que ele até então conhecia e partira para outro lugar, escolha que o deixara muito feliz, embora não conseguisse imaginar que pudesse ser feliz em um lugar onde seu grande amigo não estivesse. E acredito que é por essa necessidade de estar em contato com o amigo que a maior parte das cartas foi endereçada a ele. Eles tinham uma conexão quase de irmãos.

Neste novo lugar, Werther sente a vida de outra maneira e conhece muitas pessoas que, de uma forma ou de outra, mexerão com seus sentimentos. É ali também que ele vê pela primeira vez o seu grande amor: Carlota. Por ela acaba se apaixonando à primeira vista e passa a se aproximar cada vez mais até passar a frequentar sua casa e fazer parte de sua vida e a de seus pequenos irmãos (a mãe de Carlota tinha falecido um tempo antes e a fizera prometer que seria uma mãe para os seus irmãos). Mesmo sabendo que a jovem era comprometida e logo se casaria, não conseguiu deixar de ansiar pelo que não poderia ter. E isso começa a consumir as suas energias e angustiar cada vez mais o seu já tão sensível coração.

"A natureza humana, prossegui, depois de breve pausa, "tem seus limites; pode suportar até certo ponto a alegria, a mágoa, a dor, mas passando deste ponto ela sucumbe. [...]"

Quando Alberto, o noivo de Carlota, retorna de uma viagem e a realidade que Werther tentara negar se torna tão evidente, ele entra em desespero, mas diz para si mesmo que não conseguirá se afastar de sua amada. Assim, passa a torturar o coração, frequentando a casa de Carlota mesmo quando Alberto está lá, criando amizade com o seu rival e sentindo real apreço pelo homem que tivera a sorte de ser o escolhido da mulher que ele sentia que nunca deixaria de amar. Essa tortura autoimposta o desgasta demais, vai roubando pouco a pouco o que restava de sua alegria, de suas forças. Se antes ele já era uma pessoa um tanto depressiva (tenho quase certeza que Werther sofria de depressão) e que vez e outra pensava em suicídio, após se apaixonar por Carlota e não ser correspondido isso passa a fazer parte de cada um dos seus dias.

"Não vejo outro fim para esta desgraça que não o túmulo."

A depressão vai se fazendo mais clara na segunda parte do livro, Werther diz não sentir mais ânimo para nada. Que não sabe por que se levanta pela manhã e por que à noite volta a dormir. Nada mais faz sentido, o desânimo se torna mais forte, a desesperança, a dor... Ele quer de Carlota algo que ela não pode lhe dar, pois ama outro homem, embora tenha por Werther um forte carinho. Ela precisa dele, de sua amizade, de sua presença e não parece querer abrir mão disso, embora saiba que causa sofrimento ao rapaz, pois é de seu conhecimento e de seu marido os sentimentos dele por ela. Mas a situação vai ficando insustentável conforme o desespero dele aumenta.

Impulsos que Werther antes não teria passam a ameaçar o lar de Carlota e a felicidade dela ao lado do marido. Todos os três envolvidos sabem que precisam colocar um ponto final naquela situação, que um afastamento é necessário, mas nenhum deles parece ter a coragem para dar o primeiro passo. E isso piora e muito o emocional do protagonista, que nesse momento da história já está destroçado.

"Apesar do abatimento vital em que me encontro, ainda me resta força suficiente para ir até o fim."

É um livro que merece ser este grande clássico da literatura mundial, pois o autor criou uma história que nos envolve desde a primeira página, que mexe com nossos sentimentos, que teve uma narrativa epistolar toda construída pelas cartas de um só personagem e que foi inspiração para muitos escritores que vieram depois. No entanto, você tem que estar preparado emocionalmente antes de ler. Se for uma pessoa sensível, vai chorar com a dor do Werther, vai sentir tudo com ele, toda aquela confusão angustiante de sentimentos, a montanha-russa que eram as suas emoções. E isso desgasta, machuca. Eu fiquei muito triste pelo protagonista, atormentada com a dor dele, sabendo que ele não se salvaria do poço no qual estava caindo. E isso fez com que eu terminasse a leitura me sentindo esgotada. Sentia que eu própria tinha ficado sem energia.

"Quando faltamos a nós mesmos, tudo nos falta."

A cena da morte do Werther é extremamente dolorosa. E é ainda mais insuportável quando sabemos que o jovem da vida real em quem o autor se baseou morreu da mesmíssima maneira. Nenhum ser humano merece ter uma morte assim.

A versão que li desta história foi a traduzida por Marcelo Backes e eu fiz a leitura tanto do exemplar físico que tenho e foi publicado pela Editora Folha de São Paulo (o da capa acima) quanto do e-book publicado pela editora L&PM Pocket. A edição em e-book me ajudou muitíssimo, pois conta com um prefácio maravilhoso e um adendo com "Cartas, fontes e datas para melhor compreender Werther" que nos possibilita entender o que inspirou Goethe sem que necessitemos recorrer a maiores pesquisas.

Nunca imaginei que teria acesso às cartas de tantas pessoas que, de uma forma ou de outra, fizeram parte do livro! A história inteira foi baseada em fatos. Não consigo dizer "inspirada" porque o autor praticamente reproduziu os acontecimentos da vida real na história de Werther. O protagonista é composto tanto das características e personalidade do próprio Goethe quanto do jovem Karl Jerusalem, que na vida real se suicidou da mesmíssima forma que Werther. Toda a narrativa do momento da morte do protagonista foi baseada na carta que Goethe recebeu descrevendo o que se passou quando da morte de Karl, alguém que Goethe conhecia e cuja morte o impressionou demais.

"Ah, terá havido antes de mim homem tão miserável?"

Deixa eu explicar algo: Goethe (o autor deste livro) viveu um amor impossível, assim como o seu protagonista Werther. Ele amou muito uma jovem chamada Charlotte que ele não sabia ser comprometida quando a conheceu e ficou encantado por ela. Ao tomar conhecimento do compromisso da moça, ele se "contentou" em ser amigo do casal, ou seja, não se tornou só amigo dela, mas também de Kestner, com quem criou uma relação de amizade um tanto tensa. Neste triângulo, todos os três conheciam os sentimentos uns dos outros. Goethe não fazia segredo de sua paixão, mesmo frequentando a casa deles e sendo um amigo íntimo da família. Charlotte necessitou deixar bem claro que não poderia nunca ser para ele mais do que já era. Em determinado momento, Goethe percebeu que o melhor seria se afastar e já não estava mais no local quando da morte de Karl Jerusalem. Ele foi informado do acontecido por Kestner.

Karl passava pelo mesmo que Goethe. Ele era apaixonado por uma mulher casada e seu amor também não era correspondido. Não poderia se contentar sequer com uma amizade, pelo que entendi, pois o marido de sua amada era muito ciumento. A frustração com questões de trabalho e a dor de amar alguém que nunca poderia ser nada dele acabaram por levá-lo ao suicídio, destino do qual Goethe escapou, apesar de sua história e a de Karl serem muito parecidas.

"Desânimo e desgosto haviam lançado raízes cada vez mais profundas na alma de Werther, apoderando-se pouco a pouco de todo o seu ser."

Eu recomendo muitíssimo a edição da L&PM justamente por conta de todos esses extras que enriquecem ainda mais a leitura e nos mostram como o livro baseou-se em várias pessoas reais e reproduziu momentos de suas vidas. Há, inclusive, uma carta de Kestner, após ler o livro de Goethe, na qual ele parece meio irritado pelo autor ter reproduzido tantos momentos reais e ter falado de pessoas reais. Ele não parecia nada contente e, em seguida, Goethe escreveu uma carta ao casal (Charlotte e Kestner) se desculpando, mas dizendo que escreveu com o coração. Eu não vou colocar nenhum trecho das cartas aqui, mas é importantíssimo que vocês as leiam e não sei dizer se em alguma outra edição do livro além do dessa editora elas foram colocadas como adendo. Sobretudo as cartas de Kestner nos dão uma visão ainda mais completa do livro. É incrível ler tais cartas! Incrível mesmo!


-> DLL 20: Um livro de capa colorida



-> Desafio Literature-se 2020: Narrativa epistolar


Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

3 comentários:

  1. Oi, Luna!
    Minha mãe já leu esse livro e lembro que ela tinha gostado bastante, mas como sempre acontece com os clássicos, sempre tenho aquele medo de ser muito difícil. Mas lendo a sua resenha, fiquei com a impressão que a escrita não é difícil de ser lida, então fico com mais vontade.
    Achei a sua resenha bem completa, pois não sabia dessas cartas reais que estão na edição da L&PM. Esse é o problema de ler os livros da Folha, pois eles colocam só o texto básico, sem nenhum texto complementar, então sempre que leio algo deles, procuro outras edições para ter conhecimento de alguns detalhes dos livros e autores.
    Ótima resenha!
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com/2020/02/resenha-desejo-um-role-pelo-mundo.html

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  2. Olá, tudo bem? Bem interessante, mesmo sendo algo fora da minha zona de conforto, achei suas considerações bem escritas e fiquei curiosa quanto a obra.

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  3. Olá Luna!!!
    Como estudante de Letras a gente ouve falar muito desse livro e semana passada novamente ele foi citado. Temos uma piadinha interna para o livro que não leríamos para não ter o mesmo fim dos leitores, sim e triste mas faz parte da história do livro e o que aconteceu após o mesmo.
    Eu gostei que você deu umas explicações acerca da edição e que esta é muito completa.

    lereliterario.blogspot.com

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