29 de junho de 2020

A Morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstói


34ª leitura de 2020

Sinopse: Obra do escritor russo Liev Tolstói, publicada em 1886, retrata a história de um juiz de instrução bem posicionado socialmente que fica doente de uma hora para outra. Ao se confrontar com a morte, Ivan Ilitch começa a perceber o vazio de uma vida baseada em aparências. Sua percepção se amplia à medida que observa a reação à doença da família e dos colegas de trabalho, para quem ele havia se tornado um estorvo a ser evitado. A narrativa, célebre pela profundidade que atinge em menos de cem páginas, é um acerto de contas de Ivan Ilitch consigo mesmo, quando se vê na mais absoluta solidão. Considerada por muitos literatos a mais perfeita novela da literatura universal, A morte de Ivan Ilitch ganha versão em HQ pelas mãos do quadrinista Caeto (premiado por Memória de elefante), com base na tradução de Boris Schnaiderman.






Literatura Russa
Título Original: Smiert Ivana Ilitcha
Tradutor: Irineu Franco Perpetuo
Editora: Folha de São Paulo
Edição de: 2016
Páginas: 80
35ª leitura de 2020

Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura #4

Sinopse: Célebre por romances monumentais como Anna Kariênina e Guerra e paz, o conde russo Lev Nikoláievitch Tolstói era também um mestre da narrativa curta, como fica evidente em A morte de Ivan Ilitch, que Paulo Rónai considerava "a mais perfeita e a mais vigorosa" de todas as novelas. Tolstói utiliza a agonia de um jurista bem-sucedido para refletir sobre questões filosóficas como o sentido da vida e a inevitabilidade da morte, e sua opção por uma linguagem simples e direta não deve ser confundida com falta de elaboração literária. Na opinião de Vladímir Nabókov, "ninguém na década de 1880 escrevia assim na Rússia", e a novela pode ser vista como precursora do modernismo russo, mesclando "toques de fábula", uma "entonação terna e poética" e um "tenso monólogo mental", no qual Tolstói aplica a técnica de fluxo de consciência. Despojamento vocabular e sofisticação estilística se unem em uma narrativa profunda e poderosa.





Como eu tinha que ler uma HQ para o Desafio Literário Livreando 2020 e escolhi A Morte de Ivan Ilitch, decidi que eu poderia ler também o texto integral, pois nunca dou preferência para uma adaptação. Sempre prefiro o texto completo e me sentiria muito incomodada se ficasse só com a HQ, até porque eu tenho o livro físico e é uma história com menos de 100 páginas.

Ironicamente, levei quatro dias para terminar a leitura da HQ e poucas horas para ler o texto integral.kkkkkk Isso provavelmente se deve ao fato de eu não ter o hábito de apostar em histórias em quadrinhos e a leitura me causou certa estranheza; eu queria voltar ao meu "normal" e ficava abandonando o livro o tempo todo. Só avancei na leitura da HQ quando peguei o texto integral para ler. Só assim é que deu certo.rs

"A história pregressa da vida de Ivan Ilitch era a mais simples e corriqueira, e a mais terrível."

O livro nos traz a história de Ivan Ilitch, um juiz de quarenta e cinco anos que se vê, de repente, diante da morte. Ele sempre manteve o total controle da própria vida, batalhando para chegar onde desejava, para se ver rodeado de pessoas importantes, para se sentir parte de um círculo social que ele tanto admirava. Mesmo com altos e baixos, tinha chegado a alcançar parte do que tanto sonhara e vivia a "fachada" ideal. Até que... um gosto "estranho" na boca e uma dor na lateral da barriga começa a incomodá-lo.

O que, inicialmente, ainda não era uma dor intensa nem nada, começa a se agravar. E com isso vem o mau humor. Tudo o irritava, tudo o tirava do sério. Não conseguia mais se concentrar direito no trabalho ao qual tanto se dedicara por quase duas décadas... nem mesmo seu jogo preferido era capaz de acalmá-lo. A dor estava ficando insuportável. E o médico que ele consultara não deixara claro se o que tinha era grave, se era possível levá-lo à morte. Só que ele estava ficando tão mais debilitado com o passar dos dias, que passou a te certeza da morte, mesmo que isso o levasse ao completo desespero.

Consultar outros especialistas se transformou em necessidade. Precisava de uma segunda, terceira, quarta... quantas opiniões fossem! Até mesmo buscara um homeopata. Mas todos os tratamentos sugeridos (cada médico dizia uma coisa e passava um tratamento diferente) não provocaram nenhuma melhora. Ele sentia a morte cada vez mais perto... até mesmo podia vê-la. Ela parecia determinada a levá-lo. Não importava quantos médicos buscasse ou quais tratamentos seguisse... a sua hora havia chegado.

"Não existirei, e o que existirá? Nada existirá. E para onde vou quando não existir mais?"

Quando a história começa, Ivan Ilitch já está morto. Isso não é spoiler para ninguém. Está na primeira página. Seus "amigos" ficam sabendo do ocorrido através do jornal. E o que eles sentem? Tristeza pela morte do amigo querido? Não mesmo! Eles ficam um tanto empolgados... porque a morte de Ivan Ilitch representaria transferências e promoções. Alguém ficaria com o cargo dele, agora desocupado. E aquele que ficasse no lugar dele também deixaria uma posição anterior vaga... Então, tudo gira em torno disso entre os amigos do falecido. Ninguém ali gostava dele de verdade.

Algo semelhante também ocorre em sua casa. Ele não se casara por amor. Passara boa parte da sua vida ao lado de uma mulher que desprezava e que parecia nutrir sentimentos semelhantes por ele. Um casamento de conveniência que se transformou em completa frieza com o passar dos anos. Nem mesmo se respeitavam. Assim, ela não lamentou com sinceridade a perda. Pensava apenas no que conseguiria tirar do governo em razão da morte de seu marido. Sua filha mais velha estava prestes a se casar e começar a própria família e seu filho caçula era o único que parecia sentir de verdade a sua morte.

Esta leitura nos provoca angústia por conta da agonia do protagonista. Embora o livro comece por sua morte, nós somos levados de volta ao seu passado e o narrador vai nos contando sobre o curso de Direito, os primeiros anos como funcionário público até que Ivan chegasse a juiz de instrução, se casasse, tivesse filhos (alguns deles tendo morrido ainda na infância), as dificuldades financeiras e os anos bons. Mas em todo tempo percebemos: tudo o que ele construiu foi uma fachada, uma vida de aparências. Ele ambicionava fazer parte dos círculos mais altos da sociedade e tudo o que construiu foi para aparentar algo que nunca existiu, foi para satisfazer seu orgulho. E no fim foi tudo tão... vazio. Simplesmente isso: puro vazio.

"Chorava devido ao desamparo, à terrível solidão, à crueldade das pessoas, à crueldade de Deus, à ausência de Deus." 

A HQ é bem fiel ao livro original. Ela mantém toda a essência da história e as ilustrações são muito boas, embora eu sinta uma estranheza por não estar acostumada a ler histórias em quadrinhos. É algo que ainda preciso aprender.rs Todo sofrimento físico e emocional do protagonista fica evidente nas imagens e as partes mais importantes do texto integral foram preservadas. Eu gostei das duas leituras. Não é uma história arrebatadora, mas mexe com a gente, nos faz refletir sobre a vida e a morte... sobre o sentido de existir e o destino de todos nós. Sentimos compaixão pelo protagonista, por sua dor... pelo tormento emocional que ele vive ao perceber que está mesmo morrendo, que nada o que fizesse impediria o inevitável fim.

É uma história que sim, vale a pena ler. Não se tornou inesquecível, mas foi uma boa leitura.



-> DLL 20: HQ



25 de junho de 2020

A Falência - Júlia Lopes de Almeida

Literatura Brasileira
Editora: Penguin & Companhia das Letras
Edição de: 2019
Páginas: 304

33ª leitura de 2020
Sinopse: Ícone do modernismo brasileiro, Júlia Lopes de Almeida consegue oferecer um notável panorama das repercussões do boom do café no final do século XIX na formação da nascente burguesia urbana, e também retratar, com impecável maestria, os meandros de uma sociedade machista e hipócrita, em que subsistem as relações escravocratas e aprofundam-se as desigualdades sociais. Rio de Janeiro, 1891. Francisco Teodoro, um bem-sucedido e ambicioso comerciante de café, conhece Camila. Em busca de um casamento que traga estabilidade, ele não vê melhor opção que desposar tal jovem, bela e de boa e humilde família. Os filhos Mário, Rachel, Lia e Ruth crescem a olhos vistos, enquanto a empresa do pai continua a prosperar.Nem só de flores, contudo, vivem os Teodoro. Francisco, cada vez mais ganancioso, vê outros comerciantes se arriscando no trato com o café e decide fazer o mesmo. Afinal, é preciso aumentar o patrimônio familiar que Mário insiste em dilapidar. Camila, alheia aos movimentos econômicos e cada vez mais absorta em sua relação com o médico Gervásio, nada opina. Em um revés do destino, a fortuna da família acaba. Francisco Teodoro se suicida e todos, mãe e filhos, precisam aprender a lidar com a nova situação social.




A Falência é um livro sobre o qual ouvi falar pela primeira vez poucos anos atrás, quando começaram a surgir mais resenhas sobre a história por conta da cobrança do livro num determinado vestibular. É uma história que tinha "caído no esquecimento", apesar da autora ser considerada muito importante para a literatura brasileira.

Júlia Lopes de Almeida foi uma das idealizadoras da Academia Brasileira de Letras e seu nome deveria constar entre os fundadores. Todavia, um pequeno (grande) detalhe a deixou de fora: o machismo da época. Pelo simples fato de ser mulher, seu nome foi excluído, pois os membros (todos homens) decidiram manter a Academia exclusivamente masculina. E no lugar de Júlia colocaram o marido dela. Revoltante, não é mesmo?!

Por conta de toda essa injustiça, que se tornou de conhecimento de boa parte dos leitores somente poucos anos atrás, é que desejei conhecer suas obras e quando a Jaqueline do canal Estante Alada propôs a leitura coletiva de A Falência, eu nem precisei pensar duas vezes. O livro simplesmente passou a frente de vários outros.rs

Talvez por isso eu tenha ficado um tanto decepcionada com a história. Gostei da leitura como um todo, mas senti falta de um "algo mais". Esperei muito do livro e como ele não conseguiu satisfazer todas as minhas expectativas, eu acabei me sentindo um pouco frustrada.

23 de junho de 2020

Antologia Poética - Florbela Espanca

Literatura Portuguesa
Editora: Martin Claret
Edição de: 2015
Páginas: 298

32ª leitura de 2020 
(releitura)

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada.. a dolorida... (...)
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!...




Este é um livro que eu já tinha lido e relido algumas vezes. Tenho uma grande conexão com os poemas da Florbela, como não acontece quando leio nenhum outro poeta. Então, sempre que me sinto bem triste ou ansiosa tenho dois refúgios: o livro O Morro dos Ventos Uivantes (meu preferido da vida!), da autora Emily Brontë e os poemas da Flor.

Foi o que aconteceu em abril deste ano. Com essa pandemia provocando tantas tragédias e mexendo profundamente com nossas vidas e emoções, eu precisei mais do que nunca recorrer aos escritos da Florbela, aos seus versos tão tocantes, seus sonetos que me arrebatam. Precisei tocar, abraçar o livro, ler cada soneto em voz alta, na tentativa de calar o mundo por uns momentos. De esquecer a realidade.

Em abril eu li até a metade e depois fui lendo um poema vez ou outra, sempre quando me sentia "sufocada", angustiada. Mas agora em junho eu peguei o livro novamente e o li por inteiro. Porque se em abril estava desesperada, agora em junho, quando o Brasil ultrapassou mais de um milhão de pessoas infectadas pelo coronavírus e mais de 50 mil mortes, "desespero" seria um eufemismo. Estou para além disso... me sinto destroçada. Nem sei expressar o que sinto. Lamento muito por cada vida perdida, cada família que está atravessando esse luto tão insuportável. Só posso pedir que Deus conforte cada coração. E que tenha misericórdia de todos nós.

Me refugiar nos poemas da Flor era uma das melhores coisas que poderia fazer para não afundar numa crise de ansiedade. Vocês sabem que já falei desta minha querida poetisa aqui no blog outras vezes. Falei especificamente sobre ela no post Minha poetisa querida: Florbela Espanca, falei do soneto A Um Livro e ainda fiz resenha sobre um de seus livros, o meu preferido Livro de Mágoas. Mas esta é a primeira vez que falarei da Antologia Poética completa, que reúne seis livros da autora.

A Antologia Poética é o trabalho mais caprichado que já vi uma editora fazer dos livros da minha poetisa amada. Publicada pela editora Martin Claret, ela é em capa dura, com detalhes delicados, com uma página em azul abrindo cada um dos livros presentes na antologia. Reúne todos os livros de poemas publicados pela Flor em vida, bem como aqueles que só se tornaram de conhecimento dos leitores após sua morte.

Como abertura do livro, temos as duas únicas coletâneas de poemas publicadas enquanto a autora era viva: Livro de Mágoas, que eu considero o mais profundo, aquele que me toca como nenhum outro; e Livro de Sóror Saudade, que também traz sonetos que falam com a gente, como se a autora dissesse que sentia exatamente o que sentimos, que compreende nosso coração. Sim, quando falo de poesia eu sou assim sentimental mesmo! E com orgulho!rs

Dos 33 poemas presentes em Livro de Mágoas, dezessete são meus preferidos. Entre eles:

"Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo."

[Trecho do soneto Este Livro...; página 17]


Já o Livro de Sóror Saudade possui 37 poemas e entre eles tenho como um dos mais queridos:

"A luz desmaia num fulgor d' aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

[Trecho do soneto Anoitecer; página 69]


Os quatro outros livros que fazem parte da antologia só vieram a ser publicados postumamente. Muitos dos poemas que fazem parte deles foram escritos pela autora vários anos antes de ela falecer, mas que por um motivo ou outro acabaram não sendo lançados. Charneca em Flor, por exemplo, ela estava tentando publicar quando sua vida chegou ao fim. Ela morreu aos 36 anos, exatamente no dia do seu aniversário. Charneca em Flor foi publicado meses depois. Ele possui 47 poemas, entre eles tenho como um dos meus favoritos:

"Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjúrio?
Para onde vai a alma, que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!"

[Trecho do soneto Quem Sabe?; página 131]


Os outros livros de poemas da autora, presentes nesta antologia da Martin Claret são: Reliquiae (com 34 poemas); Trocando Olhares que possui 53 poemas e a curiosidade é que muitos deles não são sonetos (regra geral, a autora seguia a estrutura dos sonetos); e O Livro D'Ele, com 31 poemas. De todos os seis, o único que posso dizer que não gosto tanto assim é justamente este último. Do Livro D'Ele eu só tenho um poema que amei, mas ironicamente é um dos meus preferidos de toda a obra poética da autora:

"Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma, 
Gargalhadas de luz, cantos dispersos.
Ou pétalas que caem uma a uma..."

[Trecho do soneto Versos; página 298]


Eu recomendo muito, muito, muito esta antologia! Porém, os poemas da Flor são quase sempre melancólicos, carregados de sentimentos intensos, de dor, de angústia... são como montanha-russa, ora você encontra versos cheios de alegria, ora cheios de lágrimas (na maior parte das vezes falam de sofrimento ou saudade). Como sinto uma forte conexão com a escrita da autora, com a maioria dos seus versos, eles acabam provocando sentimentos positivos em mim, me consolam, me acalmam... Mas não posso afirmar que você sentirá o mesmo ao lê-los, claro.

O que quero muito é conhecer os contos da autora. Sim! Ela não escreveu apenas poesia. Ficou mais conhecida por conta delas, mas também é autora de contos. E ainda não li nenhum. Preciso corrigir isso logo! :D



-> DLL 20: Um livro de autor português



17 de junho de 2020

Me Chame pelo Seu Nome - André Aciman

Título Original: Call Me By Your Name
Tradutora: Alessandra Esteche
Editora: Intrínseca
Edição de: 2018
Páginas: 288

31ª leitura de 2020

Sinopse: É verão na Riviera Italiana. Como todos os anos, o pai de Elio recebe na casa da família um jovem acadêmico para ajudá-lo com suas pesquisas universitárias. O escolhido dessa temporada é Oliver, um americano tão atraente quando evasivo, que aproveita o clima ensolarado do Mediterrâneo para trabalhar e, claro, se divertir nas horas vagas. Aos poucos, entre banhos de piscina, discussões sobre arte e literatura, passeios de bicicleta, festas no vilarejo e ausências repentinas, um romance intenso como o verão floresce entre Elio e o visitante. Conforme tateiam o instável e desconhecido terreno que os separa, aquilo que inicialmente parecia uma relação de indiferença supera o medo e a obsessão para culminar em uma troca tão íntima que marcará os dois pela vida inteira. Com rara sensibilidade, André Aciman destrincha as facetas do desejo, da descoberta da sexualidade e do início da vida adulta, fazendo de Me chame pelo seu nome uma crua e memorável elegia à paixão.



Este é um romance que teve um período de grande sucesso no Brasil e em todo canto eu ouvia falar dele. Li muitas resenhas na época, que me passaram a ideia de que encontraria no livro uma grande e arrebatadora história de amor. E como eu sou uma apaixonada por romances, logo procurei adquirir o livro e colocá-lo como prioridade na minha lista de leituras, passando a frente de livros que estavam há muito mais tempo na minha estante. 

E quando finalmente pude iniciar a leitura, estava cheia de expectativas. Nem me liguei no quanto a sinopse era clara, falando de "paixão" e não amor. Eu acreditava que encontraria um amor profundo, que me emocionaria muito, que me conquistaria. Por isso, foi grande a minha decepção ao encontrar um protagonista tão imaturo, obcecado, capaz de fazer uma tolice atrás da outra, que mais me irritava do que qualquer outra coisa. 

Luna, ele só tem 17 anos! Dá um desconto. Sim, esse foi meu principal motivo para continuar lendo. Tentava me lembrar de como eu própria era tola na adolescência, de como já tinha lido outros romances com personagens bem imaturos e os tinha tolerado.rs Acho que estou numa fase de pouca paciência para personagem imaturo e o Elio deu o azar de eu ler a história dele justamente nesta fase.

14 de junho de 2020

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

Literatura Russa
Título Original: Prestuplênie i nakazánie
Tradutor: Oleg Almeida
Editora: Martin Claret
Edição de: 2016
Páginas: 681

30ª leitura de 2020

Sinopse: Crime e castigo é um daqueles romances universais que, concebidos no decorrer do romântico século XIX, abriram caminhos ao trágico realismo literário dos tempos modernos. Contando nele a soturna história de um assassino em busca de redenção e ressurreição espiritual, Dostoiévski chegou a explorar, como nenhum outro escritor de sua época, as mais diversas facetas da psicologia humana sujeita a abalos e distorções e, desse modo, criou uma obra de imenso valor artístico, merecidamente cultuada em todas as partes do mundo. O fascinante efeito que produz a leitura de Crime e castigo - angústia, revolta e compaixão renovadas a cada página com um desenlace aliviador - poderia ser comparado à catarse dos monumentais dramas gregos. 



É óbvio que esta resenha não será digna do livro. Será impossível transmitir um pouquinho que seja da riqueza desta história, que provoca tantas reflexões, que mexe com nossos sentimentos e envolve por inteiro. Faz alguns dias que terminei a leitura, mas não conseguia escrever sobre ela. O que se passou comigo ao ler Fahrenheit 451 também ocorreu com Crime e Castigo.

"Não refletia em nada, nem sequer conseguia refletir, mas de repente sentiu, com todo o seu ser, que não tinha mais liberdade espiritual nem força de vontade, e que tudo já estava decidido em definitivo."

O livro nos traz a história de Raskólnikov, um jovem muito pobre que sai de sua cidade e vai para São Petersburgo na tentativa de melhorar de vida, cursando Direito. Só que as coisas não são como ele imaginava. O dinheiro que sua mãe mandava, com tanto sacrifício, não era suficiente para ajudá-lo nem com o aluguel de um quartinho humilde, e mal tinha dinheiro para comer. Não demorou para ele ter que abandonar os estudos e os planos de vir a ter uma vida diferente, o que afetou de maneira drástica a sua mente que já era um tanto inquieta. Sabia que era inteligente, que tinha potencial para ser o que quisesse, mas a sua situação, sua falta de recursos era um obstáculo praticamente intransponível para a realização dos seus sonhos. O que era extremamente injusto.

Enquanto o desespero tomava cada vez mais posse de sua mente, a depressão o debilitava e não conseguia mais se relacionar de maneira saudável com ninguém, afastando-se até de quem queria ajudá-lo; uma idosa calculista enriquecia às custas das desgraças dos outros que precisavam empenhar tudo o que tinham para pagar um aluguel ou smplesmente para ter algum dinheiro para se alimentar e à sua família. Além disso, aquela mulher também escravizava a própria irmã, submetendo-a a diversos maus-tratos. Assim, com a mente já transtornada e tendo como incentivo um artigo que ele próprio escrevera algum tempo antes, Raskólnikov decide que a resposta para todos os seus problemas se encontrava no assassinato daquela mulher... Os fins justificam os meios... Certo?!

"A sensação de infinito asco, que começara a apertar e enfastiar o seu coração ainda quando ia visitar a velha, tornou-se agora tão grande e explícita que o moço não sabia mais onde se esconder da sua angústia."

Acontece que após cometer o crime, Raskólnikov não sente a paz, o alívio que esperava. Não fica tranquilo com sua decisão, com suas mãos sujas de sangue. A febre que o alucinava, a angústia que jamais o deixava... tudo se intensifica. Se vivia num inferno antes de se transformar num assassino, as coisas apenas pioram depois.

10 de junho de 2020

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Literatura norte-americana
Título Original: Fahrenheit 451
Tradutor: Cid Knipel
Editora: Biblioteca Azul (Editora Globo)
Edição de: 2012
Páginas: 216

29ª leitura de 2020

Sinopse: Ray Bradbury (1920-2012) renovou a literatura quando, em plena Guerra Fria, escreveu Fahrenheit 451, um marco da ficção científica. Se fosse realmente ficção científica. Fahrenheit 451 é, na verdade, uma obra política, uma distopia - ou antiutopia. "Ficção científica é uma ótima maneira de fingir que você está falando do futuro quando, na realidade, está atacando o passado recente e o presente", afirmou o escritor. Fahrenheit 451 foi considerado um grande crítica aos regimes políticos opressores do século XX e previu transformações sociais simbolizadas atualmente pela influência da TV. Publicado originalmente em 1953, é uma obra atemporal, redescoberta a cada nova geração. 


Sabe quando você ama tanto um livro, mas tanto mesmo, que não consegue falar sobre ele?! Estou assim desde que concluí a leitura de Fahrenheit 451. Eu tinha muitas expectativas, mas o livro conseguiu superar todas elas! Desde então estou "travada", sem conseguir explicar nem mesmo para mim a forma como a história me marcou. Eu sei o que sinto, mas não consigo me expressar. Só sei que amo, amo, AMO e amo!

"[...] o que aconteceria se os livros fossem incinerados, varridos da face da Terra até o ponto em que o único vestígio de milênios de tradição humanista estivesse alojada na memória de alguns poucos sobreviventes? Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens, para apagar de vez a memória dos livros? [Trecho do Prefácio]"

Imagine o quanto é desesperador para nós leitores, amantes incondicionais dos livros, lermos uma história que fala sobre a queima dos livros. Não simplesmente da censura, mas da completa destruição do conhecimento, do senso crítico, de milhares e milhares de anos de História. Em Fahrenheit 451, os livros se tornam proibidos. Ninguém pode tê-los, ninguém pode lê-los. Quem ousasse ir contra a maioria esmagadora da população e contra o Estado, correria três riscos: ir para um hospício, ser preso ou... assassinado (com uma injeção letal ou queimado junto com os livros).

Nesta história, a maioria das pessoas vive feliz... ou tomada pela ilusão de felicidade. As pessoas têm tudo o que desejam e todo o entretenimento necessário para nem sequer saber o que é tristeza. Os televisores estão em cada uma das paredes de suas salas, interagindo com os moradores; os carros só podem ser dirigidos em altíssima velocidade (para que ninguém tenha o desprazer de PENSAR enquanto dirige) e quem se atreve a descumprir essa regra pode ser seriamente punido. As famílias não conversam, não alimentam mais quaisquer afetos uns pelos outros e isso as deixa felizes. Mal se dão conta da presença daqueles que deveriam amar, passam todo o tempo absorvidas, alienadas pela mídia, pelos programas feitos especialmente para manipulá-las a não pensar. Recebem as informações "maquiadas" pelo Estado e nem sequer passa por suas cabeças duvidar daquilo que lhes é mostrado. Todos os cidadãos perderam por completo a capacidade de agirem por si mesmos. São aquilo que o Estado deseja. E acreditam numa felicidade inexistente.

31 de maio de 2020

Cem Anos de Solidão - Gabriel García Márquez

Literatura Colombiana
Título Original: Cien Años de Soledad
Tradutor: Eric Nepomuceno
Editora: Record
Edição de: 2019
Páginas: 448

28ª leitura de 2020

Sinopse: Neste que é um dos maiores clássicos da literatura, o prestigiado autor narra a incrível e triste história dos Buendía – a estirpe de solitários para a qual não será dada “uma segunda oportunidade sobre a terra” e apresenta o maravilhoso universo da fictícia Macondo, onde se passa o romance. É lá que acompanhamos diversas gerações dessa família, assim como a ascensão e a queda do vilarejo. Para além dos artifícios técnicos e das influências literárias que transbordam do livro, ainda vemos em suas páginas o que por muitos é considerado uma autêntica enciclopédia do imaginário, num estilo que consagrou o colombiano como um dos maiores autores do século XX.





Olha, eu não sei nem o que começar a falar desta história pela qual senti coisas tão distintas, tão contraditórias. Ao mesmo tempo que digo que é um livro que não tem nenhuma chance de entrar para os meus preferidos e que não sentirei falta de personagem algum... também digo que jamais esquecerei esta história e que todos os membros da família Buendía conseguiram marcar a minha vida... de uma forma ou de outra.

Mas antes de tentar colocar em palavras a confusão de sentimentos que tomou conta do meu interior, preciso avisar que a resenha poderá conter SPOILER. E mais do que isso, que existem gatilhos no livro. Avisos dados, prosseguirei.

*Gatilhos: Pedofilia, incesto, exploração sexual, violência, assassinatos. 

Quando você lê um suspense ou um livro de terror, ninguém precisa te avisar que poderá conter cenas pesadas, pois você já espera que coisas assim se passem naqueles gêneros. Mas quando se trata de um livro assim, com capa bonitinha e colorida, aparentemente mais leve de ler, acho importante avisar. 

"Os filhos herdam as loucuras dos pais."

Nesta história acompanhamos sete gerações de uma mesma família. Suas dores, sua solidão, seus erros, seus pecados, suas conquistas e perdas... Uma família, de certa forma, amaldiçoada, condenada pelo destino a viver uma série de repetições. E do destino não era possível escapar.

Tudo começa quando dois primos, José Arcádio Buendía e Úrsula Iguarán decidem se casar, mesmo que existisse na família a lenda de que casamentos entre parentes resultassem em filhos que nasciam com partes de animais, sobretudo rabo de porco. Ainda que tomada pelo medo de vir a ter filhos que não seriam totalmente humanos, Úrsula acaba se casando, mas se recusa a entregar-se ao marido, o que acarreterá na primeira grande tragédia a perseguir a família: sofrendo com o deboche de alguns homens da cidade, um dia José Arcádio Buendía perde a cabeça e acaba assassinando um vizinho. Acontecimento este que o atormentará até o fim de sua vida.

Após o assassinato, perseguidos pelo fantasma do morto, que não os deixava em paz, José Arcádio e Úrsula partiram, dispostos a reconstruírem a vida em outro lugar. Diversos vizinhos resolveram acompanhá-los, acreditando numa vida melhor, e assim fundaram, no meio do nada, a aldeia que ficaria conhecida como Macondo, onde nenhum morador era melhor que ninguém, onde todos viviam de maneira igualitária e construíam com as próprias mãos o necessário para mobiliar suas casas, arrumar a aldeia e criar seus filhos.

27 de maio de 2020

O Último Dia de um Condenado - Victor Hugo

Literatura Francesa
Título Original: Le dernier jour d'un condamné
Tradutor: Paulo Neves
Editora: L&PM Pocket
Edição de: 2017
Páginas: 96
27ª leitura de 2020

Sinopse: Quais as sensações e os sentimentos de um prisioneiro que sabe que seu destino é ser executado? "Condenado à morte!" É assim que começa a história, narrada pelo próprio personagem, dos derradeiros dias de um homem que não nos diz seu nome, nem o crime que cometeu, mas que tem uma única certeza: a de que logo sua cabeça será ceifada. Ou caberá a ele um indulto? O condenado se vale da escrita como meio de escape, retratando a mudança psicológica, quase física, que vivencia no corredor da morte. Ao leitor, cabe prender o fôlego para acompanhar o que se passa na cabeça do protagonista. Autor de Os miseráveis, entre várias outras obras de grande envergadura, e um dos maiores nomes da literatura do século XIX, Victor Hugo mostra aqui sua faceta ativista e política, fazendo deste romance, publicado em 1829, um protesto contra a pena de morte.



Só o título desta história já te indica o que irá encontrar... Um livro que acompanha os últimos momentos de um homem que foi condenado à morte. Com a clara intenção de criticar a pena de morte, o autor nos possibilita mergulhar na mente do condenado, sentir com ele seu desespero, a angústia por saber que sua vida lhe seria arrancada por determinação da lei, da Justiça. 

"Condenado à morte! Há cinco semanas vivo com esse pensamento, sempre sozinho com ele, sempre gelado por sua presença, sempre curvado sob seu peso!"

Em nenhum momento ficamos sabendo qual foi o crime cometido pelo protagonista e nem mesmo qual é o seu nome. Mas ele próprio admite que é culpado, que é justo ser julgado pelo crime que cometeu, pelo sangue que derramou... o que nos indica que talvez ele tenha assassinado alguém, mas em que circunstâncias não fazemos ideia. 

Também somos informados que ele é um rapaz bem jovem, pai de uma menina de apenas três anos e responsável tanto por ela quanto pela esposa e pela mãe, e que as três ficariam desamparadas quando ele fosse executado. Mas a maior preocupação do condenado é com sua pequena menina, que pagaria para sempre por um erro dele, que seria desprezada pela sociedade, que talvez nem conseguisse chegar à idade adulta, por conta das privações pelas quais poderia passar, sem ele ali e com uma mãe que estava com a saúde muito debilitada. Isso consome o personagem. O medo pelo futuro de sua Marie. E é isso também que mais atormenta nós leitores: saber que aquela criança inocente estava marcada pelos crimes do pai, numa sociedade que não a perdoaria mesmo ela sendo inocente. Eu senti muito pela pequena Marie e isso me fez sentir raiva do protagonista, embora eu não saiba se ele realmente matou alguém e se não foi, por acaso, em legítima defesa. 

"Admito que sou justamente punido; mas essas inocentes, o que fizeram? Não importa; estão desonradas, arruinadas. É a justiça."

Embora soubesse que o julgamento tinha prosseguido de maneira "correta", foi um choque imenso para o protagonista receber a sentença de morte. Ele sabia que o risco era grande, mas seu advogado tinha esperanças e, no fundo, ele também imaginou que pudesse se salvar. Então, quando as horríveis palavras foram pronunciadas ele sentiu um imenso desespero, como se sufocasse. Porque até aquele momento não tinha entendido como tudo era definitivo, como sua vida jamais seria como antes. Estava com os dias contados. A guilhotina o esperava. 

"Até a sentença de morte, eu me sentia respirar, palpitar, viver no mesmo meio que os outros homens; agora, distinguia claramente como uma barreira a me separar do mundo."

Numa última tentativa de adiar o inevitável, mesmo sabendo que as sentenças dificilmente eram reformadas, o protagonista resolve recorrer e assim ganha mais seis semanas de vida. Período que ele passa dividido entre a angústia, a leve esperança de ser absolvido e a escrita... Como meio de colocar seus pensamentos no papel... de desabafar seu sofrimento, ele passa a escrever tudo o que está passando, como sofre por sua família, como pensa na morte... se irá doer, se será rápido... Enfim... Ele pensa em muita coisa... Relembra sua infância, sua adolescência... Momentos que não voltariam nunca mais. 

"E nesse registro por escrito do pensamento agonizante, nessa progressão sempre crescente de dores, nessa espécie de autópsia intelectual de um condenado, não haverá mais de uma lição para os que condenam?"

O autor foi muito claro ao criticar a pena de morte, bem como os trabalhos forçados perpétuos, deixando evidente que não queria simplesmente que os criminosos fosse inocentados, mas sim que as penas não fossem cruéis, desumanas. Criticou a sociedade da época que vibrava de felicidade com cada execução, ficando insensível para o fato de que era um ser humano que estava sendo executado. Criticou as leis e a maneira como mesmo ao cumprir suas penas (no caso daqueles que eram condenados a trabalhos forçados por alguns anos e depois eram libertados), a pessoa não tinha a oportunidade de recomeçar, pois todas as portas de emprego ficavam fechadas para ela e era preciso escolher entre passar fome ou fazer qualquer coisa para sobreviver. 

É um livro duro. Muito difícil de ler, pois ficamos mergulhados nas dores de uma pessoa que sabe que vai morrer, que vai ser executada por causa das leis de sua época. Sua tristeza toma conta de nós e tudo que desejamos é que um milagre aconteça e sua pena seja substituída por uma mais humana. Se ele era culpado, então que pagasse por seus crimes, mas a pena de morte era cruel, desumana. E era isso que o autor queria mostrar. Acredito que ele foi bem-sucedido, pois é impossível ficar indiferente aos sofrimentos do personagem. Impossível não refletir sobre a crueldade de uma pena que tirava a vida de alguém. 

Lembrando que no livro O Corcunda de Notre Dame, o autor volta a abordar o mesmo assunto só que, diferentemente de O último dia de um condenado, na história de Quasímodo e Esmeralda inocentes eram condenados à morte, forçados por tortura a confessar crimes que não cometeram



-> DLL 20: Um livro com duas cores na capa


25 de maio de 2020

Orlando - Virginia Woolf

Literatura Inglesa
Título Original: Orlando
Tradutora: Laura Alves
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2018
Páginas: 200

26ª leitura de 2020

Sinopse: A fascinante história de Orlando compreende mais de três séculos. O fato de ter envelhecido não mais que trinta anos ao longo desse período lhe permitiu viver a fantasia de assumir diversos papéis na sociedade inglesa, indo de um jovem membro da aristocracia elisabetana a uma mulher moderna do século XX. Somando experiências nesta jornada através da história, a personagem de Virginia Woolf é livre não apenas das restrições do tempo, mas também das imposições da sexualidade, numa narrativa brilhante que reflete de maneira espirituosa e feminista sobre a natureza dos sexos.




Sei que passei duas semanas longe do blog, mas é que meu ritmo de leitura não anda muito legal. Existem dias nos quais só pego no livro à noite, poucos minutos antes de dormir. Estamos vivendo um período muito complicado e às vezes eu só quero assistir um filme com a minha mãe e a minha irmã (moramos na mesma casa, portanto, estamos em isolamento social juntas), ouvir minhas músicas preferidas, falar com Deus ou simplesmente ficar no meu canto quietinha, sem pensar em nada, só descansando a mente. Estou lendo num ritmo diferente, bem mais lento. Mas não estou preocupada com isso. As resenhas virão conforme eu termine as leituras, não pretendo ficar me cobrando como fazia em anos anteriores.

Todavia, meus problemas com Orlando, que é um livro até mesmo curto e enganosamente "rápido de ler", não foram nem provocados por essa mudança no meu ritmo de leitura. Eu tive dificuldades com o livro em si, com a escrita da Virginia Woolf. Comecei a lê-lo acreditando que terminaria em, no máximo, uma semana e que encararia de boa a história. E a história de modo algum é ruim, mas eu levei uma baita surra do estilo narrativo da autora, que me fez avançar a passos de tartaruga e acreditar que NÃO chegaria o dia em que concluiria a leitura do livro.rs Sério, gente! Eu pensei: "É melhor desistir, não vou conseguir terminar." Mas vocês sabem o quanto detesto abandonar uma história, por isso me obriguei a seguir em frente. E, finalmente, trezentos anos depois (risos), encerrei este sofrimento.kkkk

"A casa não era mais inteiramente sua, suspirou. Pertencia agora ao tempo; à história; estava fora do contato e do controle dos vivos."

O livro traz a ideia de uma suposta biografia de uma pessoa chamada Orlando. O narrador seria o seu biógrafo, que em 1928 decidiria contar a incrível história de vida dessa pessoa que atravessou os séculos, vivendo diversas aventuras, sobrevivendo a quase todos que conheceu. Assim, para contar em detalhes a vida de Orlando, o biógrafo volta no tempo... e mergulhamos com ele no século XVI, período de nascimento do nosso protagonista.

"Voltou à primeira página e leu a data, 1586, escrita por sua mão de menino."

Nascido numa família tradicional, importantísima em sua época, Orlando vivia em contato com outros nobres e até mesmo teve uma grande proximidade com a rainha Elizabeth I, que veio inclusive a alimentar uma certa paixão pelo jovem, quando ele estava com pouco mais de quinze anos e passou a viver perto dela, a seu convite. Só que o rapaz não retribuiu os seus sentimentos. Sonhador e romântico, estava sempre apaixonado por uma moça diferente e "respirava" poesia. Na corte teve diversos amores e ficou noivo de uma mulher respeitável e perfeitamente adequada para se tornar sua esposa... até conhecer a misteriosa Sasha (nome que ele inventa para ela, pois gostava de dar nomes para as pessoas em vez de chamá-las por seus nomes verdadeiros), mulher que será responsável por sua primeira grande decepção amorosa e relevante, de certa forma, para os primeiros acontecimentos "fantásticos" do livro.

11 de maio de 2020

A Arte da Guerra - Sun Tzu

Literatura Chinesa
Título Original: Sun zi bing fa
Tradutor: André da Silva Bueno
Editora: Jardim dos Livros
Edição de: 2011

25ª leitura de 2020

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: O maior tratado de guerra de todos os tempos em sua versão completa em português. A Arte da Guerra é sem dúvida a Bíblia da estratégia, sendo hoje utilizada amplamente no mundo dos negócios, conquistando pessoas e mercados. Não nos surpreende vê-la citada em filmes como Wall Street (Oliver Stone, 1990) e constantemente aplicada para solucionar os mais recentes conflitos do nosso dia-a-dia. Conheça um dos maiores ícones da estratégia dos últimos 2500 anos.



Luna, ficou louca?! O que te levou a ler esse livro, criatura??!!! Sim, eu estou louca. Já era um tanto surtada antes desta pandemia, mas agora as coisas ficaram críticas.

Falando sério agora: não estou nada bem com todo este terror que estamos vivendo. Muitas vezes me pego acreditando que estou apenas tendo um terrível pesadelo e que logo irei acordar. Mas, infelizmente, sabemos que tudo isso é real. Milhões de pessoas foram infectadas no mundo todo. Milhares de pessoas morreram, milhares de sonhos interrompidos, milhares de famílias chorando a dor de perder seus entes queridos. Milhares de pessoas que nem puderam se despedir daqueles que amam. Isso tudo é real. Não é histeria da mídia. Não é uma farsa. É real. Então, FIQUE EM CASA!!! Só saia se você realmente precisar, só se for necessário!!! Se não for por você, fique em casa por quem você ama, por quem você quer que continue vivo. Essa doença não escolhe idade, cor, religião, classe social, nada! Ela atinge todo mundo. Fique em casa!!!

Por que você está falando isso, Luna? Você já tinha falado do assunto antes. Sim, eu tinha decidido não ficar falando da pandemia em cada resenha, pois sei que, assim como eu também faço quando leio outros blogs ou assisto vídeos nos canais, muitos leem as resenhas para se distrair, para esquecer um pouco esta realidade cruel que estamos vivendo. Mas ontem o Brasil atingiu mais de 11 mil mortes. E isso sem que contemos aqueles que morreram sem terem feito os exames, aqueles que nunca entrarão na lista, mesmo que tenham morrido dessa doença. Já são mais de 11 mil mortes oficialmente! E muita gente continua agindo como se nada estivesse acontecendo! Está acontecendo!!! Pessoas estão perdendo suas vidas! E tudo o que você precisa fazer para que a situação não fique pior, é ficar em casa, se puder!!! Não tem leitos para todo mundo. Não tem respiradores para todo mundo. Ontem foi Dia das Mães. Quantas mães perderam seus filhos para essa doença maldita? Quantos filhos perderam suas mães? Eu sei que morrem pessoas todos os dias, de diferentes causas, e toda dor causada por uma perda é insuportável. Mas em relação ao coronavírus, você pode fazer algo para ajudar: você só precisa ficar em casa. Sei que têm pessoas que não podem ficar em casa, mas quem puder, por favor, por favor, fique em casa! Não é hora de pensar só em si mesmo. É hora de pensarmos no próximo. De colocar em prática o que Jesus nos ensinou: amar ao próximo como a nós mesmos. E se amamos o nosso próximo, nós cuidamos! E mesmo que você seja de outra religião, ou até mesmo se não tiver religião: amar ao próximo, não pensar apenas em si mesmo é simplesmente fazer o Bem. É básico, é fundamental. Praticar o bem não depende de nenhuma religião.


Ok. Vou respirar fundo e tentar fazer esta resenha. Não estou em condições de falar de livro nenhum hoje, mas vou tentar. Porque também é uma forma de me distrair, de aliviar um pouco o coração. Embora falar de A Arte da Guerra seja algo complicado e eu não saiba nem por onde começar.rs

Já tinha ouvido falar muito deste livro e visto citações dele em vários lugares, mas nunca levei a sério a ideia de lê-lo, assim como só falo que vou ler O Príncipe, de Maquiavel, mas no fundo não tenha real intenção de ler. Só que um dos temas do Desafio Literário Livreando de 2020 é ler um autor chinês. E eu não tinha nada na lista. Aí lembrei do tal A Arte da Guerra e decidi que me obrigaria a lê-lo. Gostei? Não exatamente.

"A Lei da Guerra se baseia no engano."

O livro foi escrito séculos antes de Cristo. Não encontrei uma data certa, mas pelo que parece foi uns quatro séculos a.C. É uma obra de Sun Tzu (que ninguém sabe se existiu de verdade) e tinha como objetivo dar conselhos, instruções para se vencer uma guerra, para sair vitorioso sempre. São estratégias de guerra, estratégias militares. Ou seja, o tipo de livro que não é para mim, até porque não suporto guerras. E ver técnicas de engano e manipulações nesta obra não me agradou nada. Embora isso não me impeça de perceber o quanto é inteligente e veja que muitas dessas técnicas acabam sendo empregadas e úteis em outras áreas da vida de uma pessoa.

As estratégias presentes nesse livro são, hoje em dia, muito utilizadas no meio empresarial, pelo que li. Mas podem ser utilizadas por qualquer pessoa. Como qualquer livro, você pode absorver o que lhe faz bem, o que lhe é útil e descartar aquilo que não lhe serve. Eu descartei quase tudo.kkkkk

"Se as tropas inimigas estão em ordem, tente bagunçá-las; se estão unidas, semeie a discórdia."

Ao ler este livro conseguimos perceber como tanta coisa escrita nele é utilizada amplamente, até mesmo na política. Às vezes achamos que uma atitude de um político é pura tolice, mas na verdade ele sabe exatamente o que está fazendo, faz parte da estratégia dele. Cada passo é calculado. E o que muito já vimos ser praticado: a discórdia, a separação da população. É dividindo que se conquista, não é mesmo? E a população em vez de se unir, independentemente de opinião ou posição política, se deixa dividir. Sempre.

"Conheça a si mesmo e ao inimigo e, em cem batalhas, você nunca correrá perigo."

O trecho acima é um dos poucos com os quais eu concordo. Em tudo na vida, é necessário que conheçamos a nós mesmos, nossas qualidades e defeitos, nossos pontos de força e fraqueza. Bem como é importante que saibamos quem são as pessoas ao nosso redor. Para não permitirmos que o outro utilize nosas próprias qualidades e defeitos contra nós. Para não nos deixarmos enganar ou sermos manipulados. Também concordo e tentarei levar pra vida o trecho que diz: "Utilize a ordem para enfrentar a desordem, utilize a calma para enfrentar os agitados." 

O livro é bem curtinho e dá para ler em um dia. As instruções contidas nele são divididas em 13 capítulos, cada um com um título importante dentro do contexto da estratégia militar. É um clássico e reconheço seu valor, até mesmo, como eu disse, absorvi o que considerei bom, mas não é um livro que eu voltaria a ler.

"Uma pessoa com raiva pode recuperar a serenidade, e o ressentido pode ser apaziguado, mas um Estado arruinado não se recupera, e os mortos não podem voltar à vida."

Este último trecho é forte e nos serve para refletirmos... Sobre muitas coisas.


-> DLL 20: Um livro de autor chinês


30 de abril de 2020

O Mapa de um Desejo Impossível - Anuradha Roy

Literatura Indiana
Tradutora: Maria Fernanda Abreu
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2009
Páginas: 336

24ª leitura de 2020

Sinopse: Uma fotografia que se recusa a ficar parada. Retratada nela, uma casa que parece flutuar em um rio caudaloso de águas escuras... Com essa bela e instigante metáfora de sua própria narrativa, Anuradha Roy inicia o relato da história de três gerações de uma família bengalesa, de seus desejos e amores, seus dramas e correntezas mais profundas. Tudo começa na pequena cidade indiana de Songarh, onde Amulya e a esposa, Kananbala, constroem sua casa junto a um rio, com um belo jardim e um poço profundo, que nunca seca. Ali, a família vê crescer o número de vizinhos na rua pouco movimentada, envelhece, fala sobre amenidades durante o jantar... Certo dia, em 1927, Amulya salva Mukunda, uma criança nscida da relação entre o filho de um emprgado seu e uma moça de uma tribo, deixando-o num orfanato. Nesse meio-tempo, Nirmal, filho caçula de Amulya, casa-se com shanti, cuja casa paterna, em Manoharpur, também se situa às margens de um rio. É nessa casa que Shanti morre ao dar à luz Bakul. Quando a menininha está com quatro anos, Nirmal traz para a casa da família o garoto Mukunda, agora com seis anos. Apesar da oposição ferrenha de seu irmão e sua cunhada, uma vez que ninguém sabe a que casta o menino pertence, Mukunda passa a viver com eles, morando numa cabana no quintal e cuidando das tarefas domésticas. Bakul e Mukunda tornam-se amigos inseparáveis, mas, quando chegam à adolescência, essa amizade vai se transformando num sentimento mais profundo e as manobras familiares conseguem enfim afastar o rapaz da casa. Treze anos vão se passar até que Bakul e Mukunda voltem a se encontrar. E, a essa altura, a vida de todos mudou radicalmente. 



Um livro do qual eu pensei em me desfazer várias vezes. Eu o tinha adquirido através de uma troca em junho de 2013 e nunca sequer tinha ouvido falar da história. Creio que, na época, o que me chamou a atenção foi a capa melancólica, mas nem passou pela minha cabeça colocá-lo logo na lista de leituras. Simplesmente fui deixando o tempo passar... Cheguei a separar o livro algumas vezes, no intuito de trocá-lo ou doá-lo. Até o tirei da estante... Mas sempre sem entender o motivo, voltava atrás e decidia mantê-lo comigo. Talvez, bem lá no fundo, eu soubesse que não poderia abrir mão deste livro sem lê-lo. Talvez sentisse que ele se tornaria especial na minha vida. Que me marcaria

"Um dia ela desapareceria entre as árvores de verdade, e ninguém nunca mais a encontraria."

Não sei como falar de um livro tão complexo e intenso. Tão cheio de camadas, de dramas familiares, de escolhas equivocadas... Três gerações de uma mesma família. Mais de quarenta anos de uma história contada em 336 páginas. Ainda estou impressionada com o talento da autora em ter criado algo tão profundo, percorrendo tantos anos, em tão poucas páginas. Por incrível que pareça, elas foram suficientes...

Tudo começou em 1907. Amulya, sem se importar com a opinião de sua jovem esposa, resolveu se mudar de Calcutá para a pequena Songarh e ali estabelecer-se, construindo uma bela e sólida casa, que sobreviveria, quase sem deterioração, ao passar dos anos e guardaria em suas sombrias paredes os segredos daquela família. Aquele foi o começo do fim de Kananbala, a esposa de Amulya. O fim dos seus sonhos, das suas ilusões. Mas o início da história de seus dois únicos filhos: Kamal e Nirmal, que cresceriam juntos e cujos laços de sangue seriam colocados à prova pelos caminhos da vida. 

24 de abril de 2020

Um Pequeno Milagre - Carol Marinelli

Literatura Inglesa
Título Original: One Tiny Miracle
Tradutora: Fabia Vitiello
Editora: Harlequin
Edição de: 2014

23ª leitura de 2020

Sinopse: O renascer da alma. Passaram-se quatro anos desde que o médico Ben Richardson perdera sua esposa grávida. Mas ele ainda não conseguira superar a dor. A fim de buscar um recomeço, aceitou trabalhar na emergência. Um dia, durante uma caminhada pela praia, ficou estarrecido ao ver uma bela grávida. Logo descobre que ela se chama Celeste, e que é enfermeira no hospital onde Ben trabalha. Ficar perto dela era uma constante lembrança de todo o sofrimento que passara. Por isso, decidiu manter-se distante. Entretanto, Celeste enfrentava sozinha uma gravidez de risco, e Ben sabia que precisava ajudá-la. Presenciar o milagre do nascimento da filhinha de Celeste o faz perceber que ele ainda pode ser feliz... se estiver preparado para entregar o seu coração. 



Recentemente eu fiz a resenha de Amar Outra Vez, minha primeira experiência com um livro da Carol Marinelli. Claro que depois de ter amado tanto aquele livro eu não demoraria muito em mergulhar em outra história da autora! :)

Ler Um Pequeno Milagre foi conforto e dor, uma mescla confusa dessas duas sensações, pois é uma história com uma carga emocional tão forte quanto a de Amar Outra Vez. Enquanto no livro anterior o casal protagonista passou por uma dor insuportável que destruiu seu casamento e os manteve separados por DEZ anos... Aqui nesta história temos um mocinho completamente destroçado pela morte da mulher que ele amava. Ela estava grávida, perto de dar à luz, quando uma dor de cabeça, aparentemente sem importância, a matou em minutos. É desesperador ler a cena na qual ele relembra o momento em que chegou em casa, após um plantão no hospital, e a encontrou já sem vida. Ambos eram médicos e aquela gravidez foi cuidadosamente planejada, era o sonho de suas vidas, tudo o que mais queriam. Mas além de perder a mulher que jamais deixaria de amar... perdeu também a sua filhinha, que ele nunca sequer teve o direito de pegar em seus braços. 

"Ele ainda queria correr, mas não havia praia longa o bastante, nem um universo que pudesse conter a dor que o dividia no meio."

Ao longo dos quase quatro anos após aquele dia tão traumático, Ben praticamente não viveu. Apenas sobrevivia e cumpria as suas obrigações. Seus familiares e amigos queriam que ele retomasse o seu ânimo de antes, que voltasse a ser a mesma pessoa.... Mas como passar por duas perdas tão grandes e simplesmente voltar a sorrir? Como deixar Jen e sua filhinha descansarem? Ele não conseguia dizer adeus. 

Mas um dia, aparentemente igual a todos os outros, Ben sentiu algo diferente. O mundo parecia ter cores novamente. Os pássaros, o mar... tudo parecia conspirar para que ele voltasse à vida. E foi o que ele fez... até certo ponto, é claro. Se mudou, alugou um apartamento e assumiu a posição de médico da emergência de outro hospital, distante do seu antigo ambiente. Agora aguardava o leilão da casa que tanto desejava comprar, seu novo sonho... Tudo estava "perfeito". Ele tinha recomeçado... Não era verdade?

Foi passeando pela praia, próximo à sua futura nova casa, que ele a viu pela primeira vez. Ela era tão linda, tão cheia de vida, mas poucos instantes depois ele percebeu que algo estava errado. Ao vê-la de frente não só percebeu que ela estava bem grávida, como também estava sentindo dor. Aquele foi o início de um verdadeiro recomeço... Algo que Ben ainda não fazia a menor ideia... 

E ele lutaria... Com todas as suas forças. Celeste podia ser linda e estar claramente precisando de apoio. E sim, ele estava disposto a ser seu amigo e ajudá-la em tudo o que fosse possível. Mas não podia amá-la. Não iria amá-la... Não podia substituir a mulher e a filha que perdeu. Não podia....

"Ele queria arrancá-la dali, salvá-la da maré que avançava, mas estava com medo demais. Medo de amá-la. Só que, de certa forma, ele já a amava."

Mas às vezes... Não se trata de substituir... Simplesmente é preciso deixar ir quem se ama e guardar todos os momentos bons no coração... Porque ao continuar a viver finalmente daria ao ente querido a oportunidade de descansar... Ben nunca deixaria de amar Jen e a filha que se foram de maneira tão triste. Seriam sempre seu primeiro amor. Mas merecia se dar o direito de ter um novo amor... Ele só precisava entender isso...

Foi doloroso, mas também lindo acompanhar esta história. Ben e Celeste são dois personagens tão humanos, que realmente sentimos que são pessoas que poderíamos encontrar pela vida. Com seus erros, seus acertos, suas tentativas. Pessoas como qualquer de nós, que tentamos todos os dias fazer o nosso melhor, viver a vida da melhor maneira possível. E choramos, sofremos, caímos e levantamos. Sonhamos... Mesmo quando a vida se mostra dura demais. A humanidade desses personagens foi o que mais me fascinou no livro. Eles não eram idealizados, não eram perfeitinhos. Eram como nós. 

Eu sofri com a dor do Ben. Nossa! Não dá nem para imaginar o tamanho da dor que ele sentiu ao ver a esposa ajoelhada no chão, sem vida, sem que ele pudesse fazer nada. Saber que sua filhinha não teria nem o direito de nascer. Ele perdeu as duas ao mesmo tempo e desistiu de ter uma família. Ele tinha pavor de passar pela mesma dor. Relacionamentos estavam fora dos seus planos. E podem imaginar a angústia que sentiu quando conheceu Celeste. Sobretudo por ela estar grávida...

"Ele abaixou a cabeça e encostou os lábios nos dela, e se homens de verdade não choram, então, o grupo excluía Ben, porque ela sentiu a umidade dos cílios dele em seu rosto quando ele a beijou."

É bastante natural a luta dele para manter-se distante. Mesmo que sentisse atração por ela, que gostasse de sua companhia e a amizade tivesse se construído de maneira fácil e verdadeira, ele não queria ter contato com a gravidez dela, pois cada vez que via as roupinhas de bebê, as coisinhas sendo preparadas para a chegada daquela menininha, era como uma facada em seu coração. Não era justo. Não era certo estar próximo de tudo aquilo e saber que sua filha, o seu bebê, não teve nada daquilo. Que ela não teve nem o direito de nascer. Isso o matava todos os dias. Não o deixava ter paz. 

A maneira como a autora trabalha a dor e o recomeço do Ben é simplesmente incrível. Já sou fã dessa escritora maravilhosa, sensível, que cria histórias tão humanas, focadas nos sentimentos dos personagens e não em futilidades. Os dramas são convincentes e ela desenvolve a narrativa de uma forma que não torna tudo pesado. Tudo é devidamente equilibrado na história e sentimos um quentinho delicioso no coração no final e aquela sensação boa de que "sempre se pode ter esperança". 

"Ele estava lhe oferecendo esperança; oferecendo esperança a eles... de que o impossível pudesse acontecer."

A Celeste também é uma mocinha que nos conquista por completo. Ela passou pelo que muitas mulheres acabam passando em algum momento de suas vidas: se apaixonou e acreditou na pessoa amada. Confiou e pagou caro por isso. Ela não teve a sorte de se apaixonar pela pessoa certa, não estava "escrito na testa" que aquele ser era um lixo. De um momento para o outro se viu sozinha, grávida, com seus próprios pais lhe virando as costas e tendo que se sustentar mesmo sem saber como. Estava na graduação de enfermagem e não recebia tão bem assim pelos plantões na emergência. Precisava trabalhar e estudar até o último instante possível, pois o aluguel não se pagaria sozinho, sua bebê precisaria de berço, de roupas, de tudo o que um recém-nascido necessita.... 

"O pavor absoluto estava sempre à espreita dela. O que ela teria que enfrentar no futuro?" 

E tanta angústia em ter que lidar com todo aquele peso sem ter em quem se apoiar acaba tornando a gravidez mais delicada... Ver a Celeste passando por tudo isso nos faz desejar ajudá-la, ser sua amiga, fazer um chá de bebê para alegrá-la, reunir pessoas que pudessem fazer doações... Enfim... Sentimos muita empatia, conseguimos nos colocar no lugar dela e nos perguntar o que faríamos, como aguentaríamos tantas responsabilidades sem um amigo sequer, sem ninguém. Era só ela e ela mesma. 

Quando o Ben se aproxima, mesmo tendo pavor da gravidez dela, ela finalmente tem um amigo. Alguém para escutá-la, para abraçá-la quando ela chorava... É lindo ver que antes de surgir o amor profundo que um dia sentiriam um pelo outro, primeiro veio a amizade. Eu gostei muito disso. O Ben foi lindo com ela, até quando a situação era desgastante para o emocional dele. Quando ele doou o bercinho para a filha dela?! E justamente "naquele dia". Ele foi incrível. Este casal é APAIXONANTE.

"O amor cresce, se você deixar."

Eu poderia continuar falando e falando sobre esta história. Mas simplesmente recomendo que leiam! Deem uma chance e depois me digam se não é uma história lindíssima!


21 de abril de 2020

Amoras - Emicida / Flávia e o Bolo de Chocolate - Míriam Leitão

Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letrinhas
Edição de: 2018
Páginas: 44
21ª leitura de 2020

Sinopse: Em seu primeiro livro infantil, Emicida conta uma história cheia de simplicidade e poesia, que mostra a importância de nos reconhecermos nos pequenos detalhes do mundo. Na música “Amoras”, Emicida canta: “Que a doçura das frutinhas sabor acalanto/ Fez a criança sozinha alcançar a conclusão/ Papai que bom, porque eu sou pretinha também”. E é a partir desse rap que um dos artistas brasileiros mais influentes da atualidade cria seu primeiro livro infantil e mostra, através de seu texto e das ilustrações de Aldo Fabrini, a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos — desde criança e para sempre.




Este é um livrinho que resolvi ler "do nada". Inicialmente não estava nas minhas metas, mas eu estava um tanto triste e queria apostar numa leitura rápida e leve, que me desse um pouco mais de ânimo. 

Aqui temos uma historinha simples, mas muito importante por falar de aceitação, de amor próprio e de tolerância religiosa. Há menções à religião africana, ao cristianismo, ao islamismo... De um modo direto e lindo, mostrando que são apenas maneiras diferentes de praticar a fé e buscar um mesmo Bem. 

"Nesse planeta, Deus tem tanto nome diferente que, pra facilitar, decidiu morar no brilho dos olhos da gente."

A protagonista é uma menininha muito esperta e observadora e durante um passeio pelo pomar ao lado do pai, enquanto ele explicava que quanto mais pretinhas mais doces eram as amoras, que eram "o melhor que há", ela ficou muito feliz por ser parecida com as amoras, por ser "pretinha também". E aqui temos a questão da aceitação, de amar a si mesmo, de valorizar a sua cor de pele... entender que cada detalhe em nós foi feito com amor por Deus. É um livro de fácil leitura e compreensão pelas crianças e já quero que a minha priminha o leia (no momento ela está lendo Harry Potter e a Câmara Secreta). 

O autor também menciona Zumbi dos Palmares e Martin Luther King, enfatizando assim a sua intenção ao escrever este livro. E ele não apenas os menciona, mas ao final da leitura as crianças têm acesso a um glossário que explica de maneira bem simples quem eles foram, além de explicar também quem foi Obatalá e o que significa orixás, quilombo, o que é a África e quem é Alá


Literatura Brasileira
Editora: Rocco
Edição de: 2015
Págnas: 36
22ª leitura de 2020

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: Em meio aos questionamentos da pequena Flávia sobre a sua pele marrom – tão diferente da pele branquinha da mãe –, a premiada jornalista Míriam Leitão aborda temas delicados como adoção e questões raciais de forma sensível e lúdica para os pequenos. Com belas ilustrações de Bruna Assis Brasil, a autora, ganhadora do Prêmio FNLIJ 2014 na categoria Escritor Revelação por seu livro infantil de estreia, A perigosa vida dos passarinhos pequenos, mostra que o mundo é feito de diferentes cores, pessoas e sabores. E que é justamente isso que o torna tão rico. Flávia e o bolo de chocolate é o terceiro livro infantil de Míriam Leitão, autora também de A menina de nome enfeitado.



Pense num livrinho apaixonante! Se gostei muito de Amoras simplesmente AMEI Flávia e o Bolo de Chocolate

Nele temos uma mulher que sonha muito em ser mãe, mas a vida não lhe permite engravidar. Ela era uma pessoa boa e querida por muitos, mas a tristeza por não ter um filho ia tomando conta dos seus dias. Até que ela encontrou a solução perfeita: adotar uma criança que não tivesse mãe e que a quisesse. Foi assim que Flávia, ainda bebezinha, se tornou parte de sua vida, se tornou a sua filhinha. Quando a viu pela primeira vez, Rita (a mãe) percebeu que aquela era sua menina, pois se apaixonou por ela naquele instante. 

Ao conseguir levá-la para casa, agora legalmente sua filha, Rita logo quis passear com a bebê e mostrá-la para todas as suas amigas, mas ainda que a maioria tivesse ficado feliz por ela, uma tratou de destacar as diferenças físicas entre as duas (a cor da pele) e dizer que seria impossível que aquela fosse a filha de Rita. Embora tenha ficado triste com a observação maldosa, que se preocupava mais com a diferença de cor da pele das duas, ela não se deixou desanimar e criou a filha com todo o seu amor. Elas aprendiam juntas, se divertiam, passeavam, eram muito unidas. Mas um dia...

"Flávia começou a chorar:
- Mãe, eu quero ser como você. 
- Como assim?
- Não quero ser marrom!
- É mesmo? Por quê?
- Eu quero ser branca como você.
- Mas por quê? Você é linda do jeito que é, toda marronzinha - falou a mãe."

Mesmo a mãe mostrando o quanto ela era linda e incrível do jeitinho que era, Flávia não se deixou convencer. Na sua opinião ela era feia por ter a pele marrom e queria ser branca como a mãe. Disse que tudo o que era marrom era feio e nada no mundo a fazia pensar diferente. Será que não?! É aí que o livro fica MARAVILHOSO pela maneira única e sensível que a Rita faz a filha abrir os olhos e enxergar a beleza de ser como era. Não vou dizer como ela faz isso, pois eu amei descobrir lendo. Só posso dizer que se tornou um dos meus livros queridinhos! 

Eu estava lendo "O Cortiço" para o tema deste mês do DLL 20, mas como Amoras e Flávia e o Bolo de Chocolate também se encaixam no desafio, resolvi continuar lendo O Cortiço, mas não mais para o projeto.


-> DLL 20: Um livro com um personagem negro


Topo