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3 de dezembro de 2019

O Processo - Franz Kafka

Literatura Alemã*
Título Original: The trial
Tradutor: Caio Pereira
Editora: Novo Século
Edição de: 2017
Páginas: 272

*O romance é de língua alemã, mas Franz Kafka nasceu em Praga, pertencente ao Império Austro-Húngaro na época (atual República Tcheca). 
Sinopse: Romance dos mais importantes do século XX, O processo narra a história de Josef K., funcionário exemplar de um banco importante que, ao acordar na manhã de seu trigésimo aniversário, descobre-se réu de um processo sem saber os motivos que levaram a tal situação. Ao tentar desvendar as causas de ser processado por um crime não especificado, K. luta por seus direitos ao longo da narrativa, recorrendo a diversas pessoas no intuito de desvendar não apenas sua situação, mas também a causa de o processarem. Com um final inesperado, a obra nos leva a refletir sobre um poder judiciário que se mostra falho e vulnerável. Sem dúvida, um romance sobre a angústia e a frustração do ser humano em uma sociedade opressora e limitada pela burocracia.




Eu cheguei a um ponto em que acreditava, de verdade, que nunca terminaria de ler este livro. 

Iniciei a leitura em 20/08, na ingenuidade de que leria o livro em uma semana.kkkkkk... Mas logo nas primeiras páginas, com a loucura evidente que permeava cada cena, acabei cedendo ao desespero e passando longos períodos sem sequer tocar no livro. Eu o evitava o máximo que conseguia. 

Quem acompanha o blog sabe que Franz Kafka definitivamente não é um dos meus autores preferidos. Eu tenho sérios problemas com a escrita dele, não tanto pelo absurdismo presente em suas obras (afinal de contas eu li O Estrangeiro, de Albert Camus, e gostei), mas pela construção de personagens, pela narrativa que não me atrai, pelos caminhos que ele percorre no desenvolvimento de suas histórias. Dele, eu já li A Metamorfose (duas vezes), Carta ao Pai, O Artista da Fome e agora O Processo. E posso dizer, com certeza, que não chegará o dia em que amarei este escritor, embora reconheça sua importância mundial, sendo suas obras estudadas em tantos países e influenciado diversos escritores pelo mundo afora.

30 de agosto de 2017

Um Artista da Fome e Carta ao Pai - Franz Kafka


... Este volume traz ainda o conto "Um artista da fome", que retrata um protagonista (um arquétipo de Kafka) marginalizado pela sociedade, e "Carta ao pai", obra autobiográfica sobre a relação conturbada do autor com o pai.



Palavras de uma leitora...


- Antes de tudo, não estou pensando direito hoje. Sinto que toda lucidez se afastou temporariamente. Sabe quando você tem a sensação de que uma manada de elefantes passou por cima de você seguida de perto por um trem desgovernado? É bem o que acredito que aconteceu comigo. Em outras palavras: uma gripe terrível me nocauteou. Já não sou a mesma.rs

Sério, gente! Gripe é uma das piores coisas do mundo. Sempre fico muito mal. Ela me pegou em cheio na segunda-feira e desde então não sei o que é respirar direito ou dormir por pelo menos cinco horas. Sem mencionar as marteladas na cabeça por quase todas as vinte e quatro horas do dia. É realmente insuportável. Mas vamos às histórias! 

Kafka de novo, Luna?! Sério isso? Sim, queridos.rs Como a edição que tenho de A Metamorfose vem com um conto e uma carta do mesmo autor, decidi dar uma chance a eles. Um artista da fome apenas confirma as suspeitas que eu tinha de que o autor não jogava com o baralho todo. Ele era bem doido. 

- O protagonista deste conto é um homem com uma profissão bem peculiar: ele é um jejuador. Ganha a vida passando fome. Segundo o que o autor dá a entender, nosso jejuador era de uma época em que tal profissão era valorizada, em que as pessoas se reuniam para admirar a determinação e talento de pessoas de mesmo ofício. Mas, com o passar dos anos, tal profissão foi perdendo espaço, sendo relegada ao esquecimento. 

Todavia, o protagonista não se deixa desanimar pela diminuição do seu público. Embora lhe entristecesse que muitos que antes paravam para assisti-lo, acompanhar os dias de seu jejum, já não aparecessem mais, nada era capaz de fazê-lo desistir. Seguia jejuando, dedicando-se de corpo e alma ao que fazia. Mesmo que muitos o humilhassem, mesmo que seu próprio "chefe" fizesse questão de pisar nele. Era aquilo que ele amava. Era a única coisa que sabia fazer. 

-  Como conseguimos perceber em A Metamorfose, o autor gostava de apelar para a extravagância para transmitir certa mensagem, fazer determinada crítica à sociedade em geral, às estruturas familiares, ao mundo em si. Não sou nenhuma crítica profissional, especialista neste tipo de literatura nem nada. Sou uma leitora normal (um tanto louca, é verdade.rs) e na minha opinião, que pode estar equivocada, o autor quis falar de duas coisas ao mesmo tempo: a hipocrisia e superioridade da sociedade diante dos mais fracos, dos menos favorecidos, de quem ela zombava, às custas de quem se divertia, como se tais pessoas não fossem humanas ou possuíssem sentimentos. E também quis falar das profissões desvalorizadas. De pessoas que dedicavam toda sua vida à determinada arte e não tinham seu valor reconhecido. Profissões que em algum momento foram importantes, mas que acabaram sendo "esquecidas", ficando à sombra de outras que surgiram. O texto nos faz pensar nos próprios escritores que dedicam-se tanto, que passam meses e até mesmo anos escrevendo um livro e que não são reconhecidos, que são sufocados por contratos, editoras e recebem como pagamento a indiferença dos leitores. Escritores que em alguma época foram adorados, mas que depois ninguém mais recordava, por estarem ocupados com outras coisas. E diversas outras profissões que também já tiveram destaque e hoje em dia nem são lembradas mais. O autor, por mais louco que seja o conto, faz com que a gente sinta compaixão do protagonista, que amava o que fazia, não importando que aquilo não tivesse valor para os outros. Ele ficava arrasado com o descaso, com a indiferença, com a sensação de que deixara de ser útil, mas nem isso o fez abandonar sua escolha. 

No fim, numa frase que é preciso ler com muita atenção para entender, ele diz que era jejuador porque não tinha opção. Porque era obrigado àquilo. O motivo? Jamais encontrou uma comida que realmente apreciasse. Que o fizesse desejar parar com o jejum. O que pude entender é que nada nunca o apaixonou como aquela profissão. Nada nunca o tocou. Que se ele tivesse tido a oportunidade de amar outro ofício, não hesitaria em abandonar aquele que era tão ingrato. 

- Carta ao Pai é um texto, realmente uma carta, em que o autor expõe de maneira bastante clara e por vezes chocante a relação complicada que tinha com o pai e que foi responsável pela sua formação como ser humano, como a pessoa que era. Nesta carta, ele fala do medo que o pai lhe provocava, dos maus-tratos, da sensação de ser uma completa decepção para aquele homem que o educava de maneira particular e agressiva. Fala da sensação de inferioridade, da insensibilidade do pai... Da solidão e da perda da capacidade de se comunicar com os outros por conta dos traumas sofridos na infância, por influência daquele que deveria tê-lo preparado para o futuro e não frustrado todas as suas chances. 

São realmente impactantes as palavras do autor. Pelo que pesquisei na internet, ele escreveu essa carta na intenção de entregá-la ao pai, mas nunca chegou a fazê-lo. A carta foi publicada apenas após sua morte, apesar de ter sido escrita por volta do ano de 1919 (Kafka morreu em 1924 e a carta foi publicada em 1952, segundo o que diz a internet). 

"Meus escritos tratavam de ti; neles, lamentava o que não podia lamentar sobre teu peito."

Conforme lemos essa longa e triste carta, é impossível não percebermos como realmente o pai influenciava as obras do autor. Como até mesmo em sua escrita ele não era capaz de libertar-se da influência e das mágoas que carregava desde a infância. A Metamorfose me veio à mente diversas vezes durante a leitura. Kafka, na minha opinião, amava o pai, embora por vezes o odiasse, e tudo o que queria era que aquele homem um dia retribuísse seus sentimentos, que se orgulhasse dele, que fosse o pai que ele sempre tinha desejado e que não encontrou. No lugar disso, era sempre bombardeado por críticas e não suportava o comportamento do pai, sua tirania, sua autoridade e insensibilidade.

Embora diga muitas vezes que não culpa o pai por nada, deixa mais do que claro que o responsabiliza por todos os seus fracassos. Porque a criação, a "educação" que recebeu o marcou de tal forma que ele nunca foi capaz de ir adiante. Tornou-se alguém introspectivo e de baixa autoestima, desejava casar-se e construir a própria família, mas jamais realizou seu sonho, pois até nisso via o pai como um obstáculo. 

É muito evidente que a turbulenta relação do autor com o pai marcou profundamente toda sua vida. E me pergunto se ele encontrou um pouco de paz pelo menos em seus últimos momentos. 

- Bem... É isso, gente! Com esse post encerro o único livro que tenho do autor e que contém A Metamorfose, Um Artista da Fome e Carta ao pai. Kafka é um autor que mexe com a gente, embora eu não tenha amado profundamente nenhuma das suas histórias. Todavia, Um Artista da Fome ficou na minha mente e prefiro este conto à novela A Metamorfose. Talvez, um dia, venha a dar uma chance aos outros escritos do autor. Quem sabe?rsrs

28 de agosto de 2017

A Metamorfose - Franz Kafka

(Título Original: Die Verwandlung
Tradutor: Torrieri Guimarães
Editora: Martin Claret
Edição de: 2012)


Em uma manhã qualquer, ao acordar mais uma vez para o trabalho, o caixeiro-viajante Gregor Samsa percebe que, durante o sono, transformou-se em um inseto com "dorso duro e inúmeras patas". O jovem passa a analisar sua mudança, à primeira vista, de forma prática mas, posteriormente, sua análise torna-se psicológica e densa. 

Em A Metamorfose, Kafka faz uma profunda análise da desesperança e da alienação do homem moderno, imerso num mundo que não consegue compreender. Uma crítica contundente à sociedade, que despreza as diferenças, os enfermos e as pessoas improdutivas.



Palavras de uma leitora...



- Ao fazer o post sobre os Clássicos que já li, falei muito mal de A Metamorfose.rs Tal fato me levou a uma releitura da história, na tentativa de ver se hoje em dia eu enxergaria o livro de outra maneira. E, de certo modo, isso realmente aconteceu. 

"Quando certa manhã Gregor Samsa despertou, depois de um sono intranquilo, achou-se em sua cama convertido em um monstruoso inseto".

Gregor odiava o seu trabalho, mas acostumara-se a levantar bem cedo e trabalhar longas horas para não decepcionar seu chefe e sustentar toda a sua família. Sonhava com o dia em que se libertaria daquele emprego e poderia dedicar-se ao que realmente gostasse, mas a dívida que seus pais tinham para com o seu chefe o condenava àquela situação pelos próximos anos. Algo de que ele não reclamava. Mais do que habituara-se a viver pelos que amava, entregando praticamente todo seu salário a eles e deixando para si uma quantia ínfima. 

"O costume, tanto na família, que recebia agradecida o dinheiro de Gregor, como neste, que o entregava com gosto, fez com que aquela primeira surpresa e primeira alegria não se tornasse a se reproduzir com o mesmo valor". 

Enquanto os três outros integrantes da família ficavam com as pernas para o alto, Gregor carregava sobre as costas o peso das responsabilidades por aquela família, desculpando-os ao dizer que seu pai estava velho e cansado, que sua mãe tinha problemas de saúde e sua irmã era jovem demais para trabalhar. Não lamentava o fato de mal ter tempo para si mesmo e um dos seus maiores sonhos era poder pagar os estudos da irmã no Conservatório de música, algo que anunciaria feliz no próximo Natal. Mas todos os seus planos e alegria chegaram ao fim numa certa manhã... quando ele acordou de um sonho perturbado para ver-se transformado numa criatura asquerosa. 

"Durante alguns momentos permaneceu deitado, imóvel e respirando calmo como se esperasse voltar em silêncio ao seu estado normal".

Muitos em seu lugar provavelmente surtariam ao sentir que seu corpo não era mais humano e sim bem semelhante ao de um inseto gigante. Mas a primeira preocupação de Gregor foi com o atraso para o trabalho. Porque ele precisava chegar cedo, não podia atrasar-se. Seu chefe se zangaria e sua família dependia dele. Custasse o que custasse, precisava sair daquela cama e seguir com sua rotina de sempre. Sua aparência física não poderia ser um obstáculo, ele não podia dar-se ao luxo de ficar parado naquele quarto. 

Mas todas as suas tentativas para mover-se eram difíceis e conforme o tempo passava e ele não aparecia, sua família começava a preocupar-se, temendo que algo sério tivesse acontecido com ele. Momentos mais tarde, quando Gregor consegue finalmente levantar-se e tentar se comunicar com seus pais e irmã, o choque de todos não poderia ser maior. E com ele, veio o medo e o desespero. 

"Nas primeiras horas da manhã, quando se encontrava fechada a porta, todos tinham se esforçado para entrar, e agora que ele tinha aberto uma porta e que as outras tinham sido abertas, já não vinha ninguém, e as chaves ficavam por fora nas fechaduras".

Após o choque inicial e de perceberem que aquela coisa era Gregor, rapidamente decidiram que deveriam mantê-lo trancado no quarto, sendo alimentado no momento que eles quisessem e condenado a uma existência silenciosa e escondida dos olhos do mundo. Até mesmo dos olhos de sua própria família, que recusava-se a continuar considerando-o um ser humano.  

Preferindo esquecer, durante boa parte do tempo, que ele ainda existia e que poderia possuir sentimentos, preocupavam-se com suas próprias vidas, com o jeito que teriam que dar para se sustentarem uma vez que o bom filho agora transformara-se num inútil que apenas atrapalhava a vida deles. Seu pai rapidamente aprendeu de novo a trabalhar, sua mãe começou a costurar para fora e sua irmã também deixou de ser nova demais para ter um emprego. 

Enquanto isso, Gregor permanecia trancado, privado de qualquer contato humano, sendo obrigado a fugir das vistas da irmã quando ela se dignava a entrar para limpar o quarto e levar-lhe comida, mesmo que não se importasse muito se ele comia ou não. 

"Esvaziavam o seu quarto, tiravam-lhe tudo quanto ele amava [...]"

Naquela manhã, ele perdeu tudo. Não só sua "humanidade", mas também o amor da sua família. Pensavam que ele não podia ouvir, mas Gregor ouvia. Acreditavam que ele já não possuía sentimentos, mas suas palavras e atitudes o feriam. Dependente de uma família que queria ver-se livre dele, existiria alguma esperança? 

- Na época que li este livro pela primeira vez, após o assombro inicial e de chegar à conclusão que o autor era louco, fiquei perturbada. Mesmo não tendo apreciado a leitura, não tendo sequer gostado da escrita do autor, eu pude compreender a "mensagem" da história. E desprezei os pais e a irmã do protagonista. O passar dos anos não diminuiu a minha repulsa por eles. 

É impossível não sentirmos compaixão pelo Gregor, não lamentarmos profundamente pelo que aconteceu com ele, por mais que seja surreal alguém acordar um dia transformado num inseto. Mas eu entendi que o autor quis mostrar, dessa maneira extravagante, a realidade de muitas pessoas que são "diferentes", que possuem alguma deficiência física ou mental, que têm algo que os torna dependentes dos outros e assim sujeitos a tratamentos desumanos. O protagonista era muito querido pela família enquanto era útil, enquanto levava dinheiro para casa, mas no momento que transformou-se em alguém que lhes dava trabalho e que os envergonhava diante dos outros, tornou-se um peso, algo que deveria ser escondido e tratado pior que um animal. Claro que eles tinham seus momentos de "bondade", mas até mesmo um psicopata seria capaz de tais gentilezas para com aqueles que pretendesse matar. Caridades como as deles são dispensáveis! Pessoas como os pais e a irmã do Gregor me dão asco. 

"Pensava com emoção e carinho nos seus. Achava-se, se era possível, ainda mais firmemente convencido do que sua irmã de que tinha de desaparecer."

- O mais triste é que em nenhum momento o Gregor condena sua família ou deixa de pensar nela. Não importava o que fizessem, o impossível que tornassem sua vida, a insensibilidade que demonstrassem, ele seguia amando-os e desejando que eles deixassem de sofrer. Desejou até mesmo desaparecer para não ser mais um peso nas costas daqueles que ele tanto tinha ajudado durante anos dedicados exclusivamente a eles. Isso é ainda mais revoltante! E o final não poderia nos causar fúria e tristeza maiores...

- Não volto atrás no que disse antes. Continuo não vendo nada de especial neste livro. A história mexe com a gente sim, nos emociona, revolta, provoca raiva e compaixão. Nos faz refletir. Mas existem livros bem melhores que tratam de assunto semelhante. A Doçura da Chuva e A Canção de Annie são apenas dois exemplos. Não consigo entender o motivo de A Metamorfose ser considerado um clássico tão importante, mas tudo bem. 

- Esta história é uma novela, bem curtinha mesmo, e dá para ler em pouquíssimas horas. Recomendo que deem uma chance ao livro, que se permitam chegar às suas próprias conclusões sobre ele. Vale a pena! :)
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