30 de agosto de 2017

Um Artista da Fome e Carta ao Pai - Franz Kafka

Tempo de leitura:

... Este volume traz ainda o conto "Um artista da fome", que retrata um protagonista (um arquétipo de Kafka) marginalizado pela sociedade, e "Carta ao pai", obra autobiográfica sobre a relação conturbada do autor com o pai.



Palavras de uma leitora...


- Antes de tudo, não estou pensando direito hoje. Sinto que toda lucidez se afastou temporariamente. Sabe quando você tem a sensação de que uma manada de elefantes passou por cima de você seguida de perto por um trem desgovernado? É bem o que acredito que aconteceu comigo. Em outras palavras: uma gripe terrível me nocauteou. Já não sou a mesma.rs

Sério, gente! Gripe é uma das piores coisas do mundo. Sempre fico muito mal. Ela me pegou em cheio na segunda-feira e desde então não sei o que é respirar direito ou dormir por pelo menos cinco horas. Sem mencionar as marteladas na cabeça por quase todas as vinte e quatro horas do dia. É realmente insuportável. Mas vamos às histórias! 

Kafka de novo, Luna?! Sério isso? Sim, queridos.rs Como a edição que tenho de A Metamorfose vem com um conto e uma carta do mesmo autor, decidi dar uma chance a eles. Um artista da fome apenas confirma as suspeitas que eu tinha de que o autor não jogava com o baralho todo. Ele era bem doido. 

- O protagonista deste conto é um homem com uma profissão bem peculiar: ele é um jejuador. Ganha a vida passando fome. Segundo o que o autor dá a entender, nosso jejuador era de uma época em que tal profissão era valorizada, em que as pessoas se reuniam para admirar a determinação e talento de pessoas de mesmo ofício. Mas, com o passar dos anos, tal profissão foi perdendo espaço, sendo relegada ao esquecimento. 

Todavia, o protagonista não se deixa desanimar pela diminuição do seu público. Embora lhe entristecesse que muitos que antes paravam para assisti-lo, acompanhar os dias de seu jejum, já não aparecessem mais, nada era capaz de fazê-lo desistir. Seguia jejuando, dedicando-se de corpo e alma ao que fazia. Mesmo que muitos o humilhassem, mesmo que seu próprio "chefe" fizesse questão de pisar nele. Era aquilo que ele amava. Era a única coisa que sabia fazer. 

-  Como conseguimos perceber em A Metamorfose, o autor gostava de apelar para a extravagância para transmitir certa mensagem, fazer determinada crítica à sociedade em geral, às estruturas familiares, ao mundo em si. Não sou nenhuma crítica profissional, especialista neste tipo de literatura nem nada. Sou uma leitora normal (um tanto louca, é verdade.rs) e na minha opinião, que pode estar equivocada, o autor quis falar de duas coisas ao mesmo tempo: a hipocrisia e superioridade da sociedade diante dos mais fracos, dos menos favorecidos, de quem ela zombava, às custas de quem se divertia, como se tais pessoas não fossem humanas ou possuíssem sentimentos. E também quis falar das profissões desvalorizadas. De pessoas que dedicavam toda sua vida à determinada arte e não tinham seu valor reconhecido. Profissões que em algum momento foram importantes, mas que acabaram sendo "esquecidas", ficando à sombra de outras que surgiram. O texto nos faz pensar nos próprios escritores que dedicam-se tanto, que passam meses e até mesmo anos escrevendo um livro e que não são reconhecidos, que são sufocados por contratos, editoras e recebem como pagamento a indiferença dos leitores. Escritores que em alguma época foram adorados, mas que depois ninguém mais recordava, por estarem ocupados com outras coisas. E diversas outras profissões que também já tiveram destaque e hoje em dia nem são lembradas mais. O autor, por mais louco que seja o conto, faz com que a gente sinta compaixão do protagonista, que amava o que fazia, não importando que aquilo não tivesse valor para os outros. Ele ficava arrasado com o descaso, com a indiferença, com a sensação de que deixara de ser útil, mas nem isso o fez abandonar sua escolha. 

No fim, numa frase que é preciso ler com muita atenção para entender, ele diz que era jejuador porque não tinha opção. Porque era obrigado àquilo. O motivo? Jamais encontrou uma comida que realmente apreciasse. Que o fizesse desejar parar com o jejum. O que pude entender é que nada nunca o apaixonou como aquela profissão. Nada nunca o tocou. Que se ele tivesse tido a oportunidade de amar outro ofício, não hesitaria em abandonar aquele que era tão ingrato. 

- Carta ao Pai é um texto, realmente uma carta, em que o autor expõe de maneira bastante clara e por vezes chocante a relação complicada que tinha com o pai e que foi responsável pela sua formação como ser humano, como a pessoa que era. Nesta carta, ele fala do medo que o pai lhe provocava, dos maus-tratos, da sensação de ser uma completa decepção para aquele homem que o educava de maneira particular e agressiva. Fala da sensação de inferioridade, da insensibilidade do pai... Da solidão e da perda da capacidade de se comunicar com os outros por conta dos traumas sofridos na infância, por influência daquele que deveria tê-lo preparado para o futuro e não frustrado todas as suas chances. 

São realmente impactantes as palavras do autor. Pelo que pesquisei na internet, ele escreveu essa carta na intenção de entregá-la ao pai, mas nunca chegou a fazê-lo. A carta foi publicada apenas após sua morte, apesar de ter sido escrita por volta do ano de 1919 (Kafka morreu em 1924 e a carta foi publicada em 1952, segundo o que diz a internet). 

"Meus escritos tratavam de ti; neles, lamentava o que não podia lamentar sobre teu peito."

Conforme lemos essa longa e triste carta, é impossível não percebermos como realmente o pai influenciava as obras do autor. Como até mesmo em sua escrita ele não era capaz de libertar-se da influência e das mágoas que carregava desde a infância. A Metamorfose me veio à mente diversas vezes durante a leitura. Kafka, na minha opinião, amava o pai, embora por vezes o odiasse, e tudo o que queria era que aquele homem um dia retribuísse seus sentimentos, que se orgulhasse dele, que fosse o pai que ele sempre tinha desejado e que não encontrou. No lugar disso, era sempre bombardeado por críticas e não suportava o comportamento do pai, sua tirania, sua autoridade e insensibilidade.

Embora diga muitas vezes que não culpa o pai por nada, deixa mais do que claro que o responsabiliza por todos os seus fracassos. Porque a criação, a "educação" que recebeu o marcou de tal forma que ele nunca foi capaz de ir adiante. Tornou-se alguém introspectivo e de baixa autoestima, desejava casar-se e construir a própria família, mas jamais realizou seu sonho, pois até nisso via o pai como um obstáculo. 

É muito evidente que a turbulenta relação do autor com o pai marcou profundamente toda sua vida. E me pergunto se ele encontrou um pouco de paz pelo menos em seus últimos momentos. 

- Bem... É isso, gente! Com esse post encerro o único livro que tenho do autor e que contém A Metamorfose, Um Artista da Fome e Carta ao pai. Kafka é um autor que mexe com a gente, embora eu não tenha amado profundamente nenhuma das suas histórias. Todavia, Um Artista da Fome ficou na minha mente e prefiro este conto à novela A Metamorfose. Talvez, um dia, venha a dar uma chance aos outros escritos do autor. Quem sabe?rsrs

Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

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