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14 de fevereiro de 2024

Os Abismos - Pilar Quintana



Literatura Colombiana
Título Original: Los abismos
Tradutora: Elisa Menezes
Editora: Intrínseca
Edição de: 2022
Páginas: 272

Sinopse: Novo livro da autora de A cachorra aborda, pelos olhos de uma criança, a solidão feminina e as imposições sociais na vida de mulheres.

Claudia mora com os pais em Cáli, na Colômbia, em um apartamento tomado por plantas e rodeado por precipícios físicos e metafóricos. O ambiente, exuberante e bem-cuidado, é um contraste, uma oposição à mãe indiferente e apática que está em conflito com os caminhos escolhidos e impostos para a própria vida. Como muitas famílias, a de Claudia passa por uma crise, e basta o casamento de seus pais estremecer para que ela comece a entender a fragilidade dos limites que mantêm a previsibilidade do cotidiano.

A partir da expectativa e de seu olhar agudo e ao mesmo tempo inocente de criança, é a menina que narra os acontecimentos que abriram as fendas por onde entraram seus piores medos, aqueles que são irreversíveis e podem levar à beira dos abismos. Nos últimos anos da infância, Claudia percebe que a vida chega ao fim e que essa ruptura pode ser uma escolha pessoal. É pelos relatos da mãe, obcecada por revistas de celebridades ― em especial pelas figuras femininas com finais trágicos, como Grace Kelly ―, que ela faz a correspondência entre a morte e as escolhas e passa a temer pelas decisões de sua progenitora.

Em meio à beleza e à violência da natureza, confrontando desejos inconfessos, criança e mãe se encontram e, assim, o destino da mais velha parece se debruçar sobre o abismo contra o qual tantas outras mulheres também já se depararam.



"Aos poucos o apartamento foi se enchendo de plantas até se transformar numa selva. Sempre pensei que a selva eram os mortos da minha mãe. Seus mortos renascidos." 

Impacto. Dor. Desespero. Reflexão. Certeza da brevidade da vida e de como escolhas podem nos abrir portas ou nos colocar num precipício, lutando entre a vontade de viver e de simplesmente acabar com tudo. 

Quando iniciei esta leitura não tinha sequer noção do que encontraria. O livro me atraiu pela capa e por seu título que te faz pensar de que tipos de abismos a história tratará... Isto porque o livro estava embalado e eu nunca tinha visto ninguém falar sobre ele. Comprei primeiro para só depois ler a sinopse e entender que ele acabaria por abordar transtornos psicológicos através da visão e narrativa de uma criança. 

"Pensei nas mulheres mortas. Debruçar-se em um precipício era olhar em seus olhos."

A leitura fluiu bem, mas foi bastante difícil justamente pelos temas abordados e por tudo ser mostrado através do olhar de uma menina, que entende o que os adultos se esforçam em negar: sua mãe estava doente, caindo lentamente num abismo do qual ela talvez não conseguisse tirá-la. É doloroso acompanhar o dia a dia dela na casa, rodeada pelas plantas (que são os mortos de sua mãe, como ela diz), tendo que lidar com os altos e baixos de sua genitora enquanto o pai prefere fingir que nada está acontecendo, preso em seu silêncio e em seu trabalho. 

Claudia, que tem o mesmo nome de sua querida mãe, é uma menina solitária e observadora. Tudo o que mais deseja da vida é receber da mãe a atenção que tanto tenta atrair. A atenção que ela dava para as plantas... que dava para suas revistas sobre celebridades e que dedicava aos finais trágicos de outras mulheres. Sua mãe mergulhava naqueles assuntos, como se ansiasse estar no lugar das mulheres cuja vida acabou tão de repente, de um golpe, deixando no ar a suspeita (mas nunca a confirmação) de suicídio. 

Através dos fragmentos que obtém do passado de sua mãe, e da relação existente entre ela e a avó, Claudia, com tão pouca idade, traça um paralelo com sua própria vida e a relação com sua mãe. Os erros cometidos por sua avó e repetidos em sua mãe, que jura que jamais seria como a outra, mas repete os mesmos comportamentos e palavras como se num ciclo inquebrável. 

"Fechei os olhos e surgiu um precipício. Abri e continuei vendo."

A Claudia mãe é uma mulher triste, que não admite para si mesma o quanto a tristeza a está consumindo. As escolhas de seus pais, o quanto não teve coragem para enfrentá-los e realizar seus sonhos. Como deu ouvidos somente para o que esperavam dela e se conformou com um casamento sem amor e em ser mãe quando na verdade não era o que queria. O que sonhava viver. Estar presa naquela vida era sentir-se morta. Amava a filha, mas gostaria de poder voltar no tempo... Teria aceitado o que aceitou? Novamente teria abandonado seus sonhos? Ou teria ido embora sem olhar para trás? Teria cursado a universidade? Teria fugido com o rapaz que amava? Queria apenas poder voltar e descobrir se tudo poderia ter sido diferente. 

Com a indiferença de um marido que só viu nela a sua beleza e a desejou como uma esposa "perfeita", padrão, e as obrigações da maternidade, Claudia encontra refúgio nas tragédias de outras mulheres... até que isso deixa de ser um escape. Então, seu humor começa a subir e descer de forma descontrolada, mas com alegrias bem fugazes e momentos prolongados de depressão, quando viver parece o pior dos castigos. 

A Claudia filha tenta conseguir a ajuda do pai, da tia... mas ninguém acredita que sua mãe está doente. Não era algo que se falasse, era mais confortável negar. E a menina precisa lutar para não permitir que sua mãe vá... que encontre o precipício, ao mesmo tempo que também só quer ser criança, estudar e brincar. Mas o abismo da mãe começa a invadir e destruir sua infância, transformando sonhos em pesadelos, brincadeiras em medos. 

"- Mamãe...
Não se via nada. 
- Mamãe!
[...] Quis me jogar no chão e começar a chorar. Parar de procurá-la. Que ela se jogasse do precipício e não voltasse. Que me deixasse sozinha com meu pai, afogada com ele no seu mar de silêncio."

Este é um livro muito sensível. Realmente impactante. Ainda não li A cachorra, o livro aclamado da escritora. Os Abismos foi meu primeiro contato com sua escrita e foi um início que me marcou e me fez desejar ler todos os seus escritos. Ela escreve com um cuidado, uma delicadeza que transborda pelas páginas. Conseguimos nos colocar no lugar da mãe e da filha e temer pelo final da história. Temer que seja uma luta perdida, até porque nenhuma das duas tem alguém que lhes estenda a mão, que as ajude naquele momento tão frágil.

Durante a leitura eu senti raiva. De todas as personagens que contribuíram para que mãe e filha chegassem àquele ponto. É verdade que a Claudia mãe fez as suas escolhas. Mas seus pais tiveram grande participação nisso. Ela estava sufocada. Eu sentia a agonia daquela mulher. Lendo era como se eu própria me sentisse presa naquela situação, na vida não desejada, condenada a seguir somente pelas obrigações. Ninguém queria que ela fosse ela de verdade. Tinha que ser o que esperavam dela. E ponto final. Como escapar? 

"Então eu o vi em seus olhos. O abismo dentro dela, igual ao das mulheres mortas [...], uma fenda sem fundo que nada pode preencher. 
- Este lugar é perfeito para desaparecer."

Ao mesmo tempo você sabe que existe amor entre mãe e filha. Ambas perdidas naquela situação. Com a filha em muitos momentos tendo que ocupar o lugar de mãe, tendo que cuidar daquela que lhe deu a vida. Quando a menina sentia medo de perdê-la, eu sentia uma dor dentro do meu peito. Sem saber como tudo terminaria, com medo do fim. Com medo de que nada fosse suficiente. 

É um livro que merece cinco estrelas e passagem direta para os favoritos. Me atingiu em cheio. Me fez refletir muito e de certo modo contribuiu para que eu dissesse "não" para certas situações que estava aceitando em minha vida. Viver é um privilégio. Mas a vida... ela é fugaz. Tudo pode acabar de um momento para o outro. E no que dedicamos os nossos dias? Em realizar nossos sonhos ou em ser o que esperam de nós, nos anulando pelos outros?

"Queria guardar aquele cheiro dentro de mim [...] O cheiro da minha mãe, para que eu nunca esquecesse. Acariciei sua testa e depois seus cabelos. Desembaracei os fios com os dedos até deixá-los lisos e brilhantes. Dei um beijo na sua testa e me deitei ao seu lado."


14 de setembro de 2021

O Clube do Crime das Quintas-Feiras - Richard Osman

 


Literatura Inglesa
Título Original: The Thursday Murder Club
Tradutor: Jaime Biaggio
Editora: Intrínseca
Edição de: 2021
Páginas: 400
Série O Clube do Crime das Quintas-Feiras - Livro 1

25ª leitura de 2021 (18ª resenha do ano)

Sinopse: Fenômeno editorial que o mundo não via desde o lançamento de Harry Potter, O Clube do Crime das Quintas-Feiras é um exemplo concreto de como uma história de mistério e assassinato pode ser extremamente engraçada.

Toda quinta, em um retiro para aposentados no sudeste da Inglaterra, quatro idosos se reúnem para ― segundo consta na agenda da sala de reunião ― discutir ópera japonesa. Mas não é bem isso que acontece ali dentro. Elizabeth, Ibrahim, Joyce e Ron usam o horário para debater casos policiais antigos sem solução, confiantes de que podem trazer justiça às vítimas e encontrar os responsáveis por algumas daquelas atrocidades do passado.

Com todos os integrantes acima dos setenta anos, o Clube do Crime das Quintas-Feiras não é a equipe de detetives mais convencional em que se conseguiria pensar, mas com certeza está mais do que acostumada a fortes emoções. Afinal, Joyce foi enfermeira por décadas, Ibrahim ajudou pacientes psiquiátricos em situações dificílimas, Ron era um reconhecido líder sindical e Elizabeth... bom, digamos que assassinatos e redes de contatos sigilosas não eram nenhuma novidade para ela.

Quando um empreiteiro local com projetos bastante questionáveis na cidade aparece morto, o grupo tem a oportunidade de seguir as pistas de um caso atual. Apostando em seus semblantes inocentes e habilidades investigativas estranhamente eficazes ― além de trocas de favores clandestinas com a polícia, que, apesar de todos os esforços, parece estar sempre um passo atrás de seus colegas amadores ―, os quatro amigos embarcam em uma aventura na qual as mortes do presente se entrelaçam com antigos segredos, e em que saber demais pode trazer consequências perigosas.




Eu fiquei com muitas dúvidas entre dar 3 ou 4 estrelas ao livro. Estava mais inclinada a dar 3 estrelas, mas o fato da história ter me comovido tanto em sua reta final me fez mudar de ideia...

Foi graças ao grupo de leituras coletivas no Telegram que eu aceitei ler este livro que nem sequer estava na minha lista de futuras leituras. Ainda não tinha ouvido falar sobre ele e sua sinopse me pareceu no mínimo interessante, diferente do que estava acostumada a ler em suspenses ou romances policiais. 

O fato da sinopse mencionar que ele é um "fenômeno" me faz questionar se li o livro de maneira errada ou se apenas faço parte da minoria que não ficou 100% apaixonada pela história nem pelos personagens. Que o considerou até mesmo bem fraco tanto para um romance policial quanto para uma comédia, pior ainda para uma mescla dos dois! Mas, como eu disse, o livro ganhou 4 estrelas por ter me emocionado no final. Não pelo desfecho, pela revelação do assassino, mas sim por outros motivos bem diferentes. 

Não vou fazer um resumo detalhado do livro, pois a sinopse é bem completa e eu apenas acabaria repetindo muito do que já consta nela. Bem... Aqui nesta história temos quatro idosos que querem curtir o tempo que lhes resta de vida da melhor forma, ter o merecido descanso, lazer, depois de tantas décadas seguindo regras e trabalhando muito. Como parte da nova fase de suas vidas, está o clube do crime das quintas-feiras, que consiste basicamente em reuniões semanais para discutir casos antigos jamais solucionados. E nada poderia ser mais emocionante do que um assassinato recente, de alguém conhecido, para movimentar um pouco as coisas. 

Os quatro (Elizabeth, Joyce, Ibrahim e Ron) decidem assumir o trabalho da polícia e descobrir quem teve motivos e oportunidade para cometer o assassinato. E, para deleite deles, outro homicídio acontece, talvez tendo suas raízes num passado bastante distante... Com a ajuda de "fontes" e "contatos" que só eles possuem, estão dispostos a provarem que ainda podem ser muito úteis e se divertirem enquanto investigam. 

Eu não detestei a história. Nada disso. Gostei sim de vários momentos, não foi uma leitura que quis abandonar nem nada. Mas também não me deixava ansiosa pelo próximo capítulo, entende? Eu não me empolguei, não fiquei ansiosa para desvendar os segredos nem descobrir o assassino. É um livro que eu bem poderia passar sem ler, pois nem sequer me conectei aos personagens, exceto pela Joyce, que é a única no livro todo que posso realmente dizer que gostei. Pelos outros não senti absolutamente nada... e aqui tenho que mencionar novamente uma exceção, embora diferente: Elizabeth. Não a amei, nem gostei realmente dela como da Joyce... na verdade, foi uma personagem que em certas situações me provocou antipatia. Que queria controlar tudo e todos, que me parecia que só se importava em ser ela a decidir, em ser ela a resolver... Talvez eu tenha feito uma leitura equivocada e injusta da personagem, mas infelizmente foi essa a impressão que ela provocou em mim. Eu até me diverti com a personagem, até mesmo gostei um pouquinho dela, mas no fundo, no fundo não gostei.rsrs

E o que motivou as 4 estrelas? O passado do misterioso padre, Bernard, John e Penny, personagens que não possuem protagonismo no livro, mas que acabam tocando nosso coração de uma forma... Não posso falar muito deles, pois corro o risco de soltar spoilers, mas posso dizer que eu fiquei muito emocionada e mudei de ideia sobre as três estrelas por causa deles. 

Foi um tanto difícil concluir esta leitura, e nem foi por conta do livro em si, mas por ter perdido meu avô para a Covid-19 enquanto estava com a leitura em andamento. Foi complicado ler um livro protagonizado por idosos com mais de 70, 80 anos, sabendo que essa doença maldita o levou com apenas 68 anos. Alguém que sempre foi forte, que amava trabalhar, que acreditava que sobreviveria à essa doença e tinha tantos planos para sua vida... Ele tomou as vacinas. Estava se cuidando, mas de alguma forma o vírus o atingiu e o levou embora. Enquanto a maior parte da população não estiver totalmente vacinada, casos assim ainda serão "normais". É muito triste. Dói muito. 

Vacine-se! Não só por você, mas por quem você ama. Até mesmo por quem talvez você nem conheça. Apenas pare para pensar que mesmo pegando o vírus e tendo a sorte de não possuir sintomas, você pode transmitir para alguém que não só pode ficar em estado grave, mas morrer. Por isso, além de se vacinar, mantenha o distanciamento social o máximo possível, use máscaras, álcool! Se cuide por você e pelos outros! Milhões de pessoas já morreram por causa desse vírus. MILHÕES DE PESSOAS! Mais de 500 mil só no Brasil. Não são números, são seres humanos. Famílias destroçadas. Sonhos interrompidos. Grávidas que partiram com seus bebês ou deixaram seus recém-nascidos órfãos. Crianças, adolescentes, homens e mulheres, idosos... pessoas de todas as idades, com ou sem comorbidades, ricas ou pobres. Eu evito falar de Covid aqui no blog. Quero que o blog seja um lugar de refúgio, de prazer, mas tem hora que não dá, gente! Quando vejo notícias de aglomerações inacreditáveis em plena pandemia, quando pessoas desfilam por aí sem máscara como se tudo estivesse bem e perfeito... Não dá! Sinto vontade de gritar. De gritar muito. E uma desesperança enorme em relação aos seres humanos. 




10 de outubro de 2020

O Homem de Giz - C. J. Tudor



 Literatura Inglesa
Título Original: The Chalk Man
Tradutor: Alexandre Raposo 
Editora: Intrínseca
Edição de: 2018
Páginas: 272

55ª leitura de 2020 (50ª resenha do ano)

Sinopse: Assassinato e sinais misteriosos em uma trama para fãs de Stranger Things e Stephen King


Em 1986, Eddie e os amigos passam a maior parte dos dias andando de bicicleta pela pacata vizinhança em busca de aventuras. Os desenhos a giz são seu código secreto: homenzinhos rabiscados no asfalto; mensagens que só eles entendem. Mas um desenho misterioso leva o grupo de crianças até um corpo desmembrado e espalhado em um bosque. Depois disso, nada mais é como antes.

Em 2016, Eddie se esforça para superar o passado, até que um dia ele e os amigos de infância recebem um mesmo aviso: o desenho de um homem de giz enforcado. Quando um dos amigos aparece morto, Eddie tem certeza de que precisa descobrir o que de fato aconteceu trinta anos atrás.

Alternando habilidosamente entre presente e passado, O Homem de Giz traz o melhor do suspense: personagens maravilhosamente construídos, mistérios de prender o fôlego e reviravoltas que vão impressionar até os leitores mais escaldados.




Pensando bem aqui enquanto começo a escrever esta resenha chego à conclusão de que fui muito generosa ao dar 3 estrelas a este livro...

Esta história fez muito sucesso poucos anos atrás e claro que eu fiquei com vontade de ler (porque thrillers me atraem), mas decidi esperar o hype passar e só agora resolvi arriscar a leitura. Esperando, sinceramente, que fosse gostar. Que seria uma história que me perturbaria e até mesmo provocaria medo (não é à toa que a deixei para o mês do horror). Todavia, o livro se mostrou uma grande decepção. 

Nele temos Ed Adams como protagonista, um homem de 42 anos, que nunca esqueceu os acontecimentos de 30 anos atrás. A história inteira é contada pela perspectiva dele, o que contribuiu para o tédio que senti durante a maior parte da leitura. Ed não é um personagem muito objetivo. Ele dá muitas voltas e se repete até chegar a algum lugar, ou até levar nós leitores a algum lugar nesta história tão... previsível. 

Ed estava levando sua vida normalmente, bebendo cada vez mais (e mentindo para si mesmo ao dizer que não tinha problemas com bebida) e relembrando um passado que marcou a vida de seus amigos e dele, um passado nunca fechado, pois faltavam respostas que nem todos se preocupavam em descobrir. Até que Mickey, um dos seus amigos de infância, reaparece na cidade, após tantos anos, para uma visita aparentemente motivada pela saudade daqueles que foram seus companheiros de aventuras. 

Mas logo após a chegada de Mickey, um comentário do visitante desencadeia uma série de acontecimentos na vida de Ed e ele decide encontrar todas as respostas antes que fosse tarde demais. Quem realmente tinha matado aquela garota, trinta anos antes, e desmembrado seu corpo? Será que o assassino ainda estava vivo? Seria ele o responsável pelo envio misterioso do desenho de giz macabro que seus amigos e ele receberam? Será que ele... mataria novamente? 

A história tinha potencial. E isso é o que torna a experiência de leitura ainda pior, pois a história tinha tudo para ser do tipo de tirar o fôlego, mas (na minha opinião, claro) a autora se perdeu na narrativa e criou uma trama muito previsível e cansativa, com um protagonista que dava voltas e voltas e parecia ele próprio cansado, entediado. Ed contava os acontecimentos, intercalando presente e passado (ano de 2016 e 1986), como se estivesse com vontade de dormir. Sério! Era essa a impressão que eu tinha. Um personagem que não foi muito bem construído e contribuiu bastante para o tédio que o livro me provocou. 

Eu reconheço que o prólogo é muito envolvente, do tipo que nos faz querer devorar o livro para obter todas as respostas. Mas logo que terminamos a leitura do prólogo e passeamos pelos acontecimentos do ano de 2016 e o Ed nos leva a 1986, sempre intercalando presente e passado, as coisas começam a desandar. Apenas na reta final o livro ganha fôlego, as cenas ficam frenéticas e pensamos "agora sim vai acontecer algo incrível, agora sim a leitura vai valer a pena!", mas o Ed é tão imbecil que os acontecimentos finais acabam por ser mais do que decepcionantes. 

Como eu disse, as coisas são muito previsíveis neste livro. Eu já tinha adivinhado a maioria dos segredos bem antes do final, até mesmo quem era o assassino de trinta anos atrás. Estava óbvio demais, inclusive a motivação. Porque a autora deu excessivas pistas do que havia se passado, quem tinha feito e o motivo. Estava mais claro que água. Mas claro que o Ed demorou uma eternidade para descobrir. E por falar nele, a autora seguiu o padrão de alguns suspenses: criou um personagem não confiável. Ed não é nada confiável, tanto por seus problemas de memória (que são muitos) quanto por suas "manias", que ele carrega desde a infância. E foi graças a essas "manias" que a autora entregou um dos acontecimentos do prólogo logo de cara. Assim que descobrimos o que o Ed costumava fazer na infância já percebemos muita coisa. Enfim, tudo é óbvio neste livro. 

Se recomendo a leitura?! Não. Mas minha opinião é apenas isso: simplesmente minha opinião sobre a leitura e nada mais. Não sou crítica literária. E gosto é muito pessoal. Sei que existem muitas pessoas que amaram a história, que consideram o livro um dos seus favoritos. A história não funcionou para mim, mas pode perfeitamente te agradar. 



-> DLL 20: Um livro de capa preta



17 de junho de 2020

Me Chame pelo Seu Nome - André Aciman

Título Original: Call Me By Your Name
Tradutora: Alessandra Esteche
Editora: Intrínseca
Edição de: 2018
Páginas: 288

31ª leitura de 2020

Sinopse: É verão na Riviera Italiana. Como todos os anos, o pai de Elio recebe na casa da família um jovem acadêmico para ajudá-lo com suas pesquisas universitárias. O escolhido dessa temporada é Oliver, um americano tão atraente quando evasivo, que aproveita o clima ensolarado do Mediterrâneo para trabalhar e, claro, se divertir nas horas vagas. Aos poucos, entre banhos de piscina, discussões sobre arte e literatura, passeios de bicicleta, festas no vilarejo e ausências repentinas, um romance intenso como o verão floresce entre Elio e o visitante. Conforme tateiam o instável e desconhecido terreno que os separa, aquilo que inicialmente parecia uma relação de indiferença supera o medo e a obsessão para culminar em uma troca tão íntima que marcará os dois pela vida inteira. Com rara sensibilidade, André Aciman destrincha as facetas do desejo, da descoberta da sexualidade e do início da vida adulta, fazendo de Me chame pelo seu nome uma crua e memorável elegia à paixão.



Este é um romance que teve um período de grande sucesso no Brasil e em todo canto eu ouvia falar dele. Li muitas resenhas na época, que me passaram a ideia de que encontraria no livro uma grande e arrebatadora história de amor. E como eu sou uma apaixonada por romances, logo procurei adquirir o livro e colocá-lo como prioridade na minha lista de leituras, passando a frente de livros que estavam há muito mais tempo na minha estante. 

E quando finalmente pude iniciar a leitura, estava cheia de expectativas. Nem me liguei no quanto a sinopse era clara, falando de "paixão" e não amor. Eu acreditava que encontraria um amor profundo, que me emocionaria muito, que me conquistaria. Por isso, foi grande a minha decepção ao encontrar um protagonista tão imaturo, obcecado, capaz de fazer uma tolice atrás da outra, que mais me irritava do que qualquer outra coisa. 

Luna, ele só tem 17 anos! Dá um desconto. Sim, esse foi meu principal motivo para continuar lendo. Tentava me lembrar de como eu própria era tola na adolescência, de como já tinha lido outros romances com personagens bem imaturos e os tinha tolerado.rs Acho que estou numa fase de pouca paciência para personagem imaturo e o Elio deu o azar de eu ler a história dele justamente nesta fase.

28 de outubro de 2019

Ratos - Gordon Reece

Literatura Inglesa
Título Original: Mice
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Editora: Intrínseca
Edição de: 2011
Páginas: 240

Sinopse: Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem de que forma reagir — são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas. Vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, Shelley não frequenta mais a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso. Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe se refugiam em um chalé afastado da cidade. Confiantes de que o pesadelo acabou, elas enfim sentem-se confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Na noite em que Shelley completa dezesseis anos, porém, um estranho interrompe a tranquilidade das duas, e um sentimento é despertado na menina. O que acontece em seguida instaura o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite.



Lembro com clareza do momento em que desejei este livro pela primeira vez. Foi no início de maio de 2016. Eu estava passeando pelo site da Saraiva quando me interessei por alguns livros que estavam com uma baita promoção, um deles foi A Lista do Nunca, de Koethi Zan, que estava custando menos de dez reais na época (sim!!!!) e tinha uma sinopse de causar arrepios. Então, quando coloquei este livro no carrinho apareceu como sugestão Ratos, de Gordon Reece. A sinopse me deixou LOUCA! Eu queria muito esse livro, mas o preço não estava muito bom. Decidi que poderia aguardar uma promoção... aí quando resolvi comprá-lo apareceu como esgotado

Foi somente no ano passado que uma moça anunciou que estava vendendo alguns de seus livros no Facebook e eu o vi entre eles. Claro que não poderia deixar a oportunidade única passar e o adquiri por um preço que valeu a pena. Quis lê-lo imediatamente, mas as outras metas literárias me impediram. O que não foi tão ruim assim, pois acho que alguns livros acabam sendo lidos nos momentos certos...

"Não procurávamos um lar. Procurávamos um lugar onde pudéssemos nos esconder."

Shelley, uma adolescente de quinze anos, sabe o real significado da palavra sofrimento. Enquanto era obrigada a lidar com o pesadelo do divórcio dos seus pais e da briga dele por sua guarda, como forma de mostrar a sua mãe que podia vencê-la em tudo, ainda precisava esconder da mãe o terror que vivia todos os dias no colégio, vítima de agressões praticadas por aquelas que durante anos frequentaram sua casa, que foram suas "melhores amigas", com quem dividira segredos, com quem acreditara que sempre poderia contar. 

"Eu não imaginava o quanto os sentimentos delas por mim se tornaram nocivos. E não imaginava o perigo que corria."

No começo toda aquela violência a chocou muito mais do que feriu. Ela não conseguia entender o que fizera para despertar tanto ódio, como elas podiam fazer aquilo com ela. Mas com o tempo tudo foi piorando. Não se tratava mais de uma violência, de uma agressão verbal ou de vandalizarem seus objetos escolares. Não. Tudo se transformou em ataques diretos ao seu corpo. Não se contentavam mais em assustá-la, queriam machucá-la, fazê-la gritar de dor, fazê-la chorar. E então... o pior aconteceu e as cicatrizes em seu rosto e pescoço ainda contavam a história do dia em que Shelley quase morreu. 

Seu pai já tinha ido embora fazia algum tempo e nem se preocupara em ligar para saber se ela estava se recuperando. Tudo o que o interessava, desde que trocara dezoito anos de casado por uma qualquer, era agradar sua amante e lhe agradava muito ver Shelley fora de suas vidas. Ele já tinha arrancado delas todo o dinheiro que podia e até a casa na qual a filha crescera, tornando o que antes era seu lar em motivo de briga no divórcio. E no momento em que percebeu que não podia tirar a menina da mãe, mesmo com toda a sua experiência profissional (era um brilhante advogado), resolveu que castigaria a filha com sua ausência, fazendo de conta que ela estava morta. 

"Quando ele a abandonou, ela estava com quarenta e seis anos. Seu conhecimento jurídico estava completamente desatualizado - abandonado como uma fruta que apodrece no pé. Seu registro profissional não era renovado havia quatorze anos."

Ela sabia que seus pais haviam se conhecido na mesma firma de advocacia. Sua mãe era uma jovem profissional brilhante, com todo um futuro de sucesso pela frente. Mas o pai de Shelley surgiu em sua vida e em pouco tempo já estavam noivos. Embora fosse muitíssimo inteligente, Elizabeth não tinha forças para desagradar as pessoas. Não sabia dizer "não" e foi assim que, prestes a ser transformada em sócia na firma, ela se deixou convencer pelo marido a abandonar a profissão. A filha precisava dela em casa, ele disse. Podia sustentá-las. Ela não precisava trabalhar. Não passava de uma manobra para impedi-la de crescer profissionalmente, pois invejava o seu talento, invejava a sua inteligência. E conseguira sufocá-la, matar cada um dos seus sonhos. 

Ao ser abandonada pelo marido com não muito dinheiro após todos os anos de dedicação, Elizabeth não fez mais que se conformar. Ao longo do tempo se acostumara a aceitar tudo o que a vida tivesse a oferecer, sem nunca levantar a voz, sem se revoltar, sem dizer "já chega!". Assim, pegou a filha que se recuperava do bullying que quase a matou e foi em busca de uma nova casa onde pudessem morar... longe de todos. Bem longe da realidade cruel do mundo. Não queria enfrentar a vida. Não tinha forças para isso. Só queria fugir. Se esconder. 

"Docilmente, aceitamos, submetemo-nos, calamo-nos, não dissemos nada, não fizemos nada, porque a mansa submissão é tudo o que os ratos conhecem."

Quando a polícia não fez nada contra as agressoras e o colégio também se isentou de quaisquer responsabilidades, ela apenas abaixou a cabeça e aceitou tudo em silêncio, mesmo sendo uma advogada. Foi Shelley quem precisou sair do colégio, foi ela quem pagou pelos crimes das outras garotas, tendo que viver isolada de tudo e de todos, sendo visitada apenas por dois professores que deveriam prepará-la para os exames finais. Mas Shelley não se revoltava contra nada daquilo, contra toda aquela injustiça. Sabia que era um rato como sua mãe e ratos nunca enfrentam seus opressores... Ou será que sim? Será que até mesmo os ratos possuem um limite?!

"Quando um gato invade a toca de um rato, ele não vai embora sem fazer mal nenhum. Eu sabia como aquela história terminaria. Ele me estupraria. Ele estupraria minha mãe. E nos mataria."

Quando aquele homem invadiu sua casa, na madrugada de seu aniversário de dezesseis anos, Shelley soube que era o fim. Não adiantava fugirem da violência do mundo, pois até mesmo ali, naquele lugar tão afastado de todos, o mal conseguira atingi-las. Onde estava a justiça? Onde estava Deus?

"Percebi que não tremia de frio. Eu tremia de medo."

Embora não tenha superado minhas expectativas, este é sem sombra de dúvidas um thriller psicológico que vale muito a pena ler. Eu já tinha uma ideia do que aconteceria, pois a própria sinopse nos entrega muita coisa, mas o desenrolar dos acontecimentos é que torna a história tão fascinante. É impossível não sentirmos compaixão da Shelley e da mãe dela... ao mesmo tempo em que sentimos medo dessa personagem adolescente, dessa menina que após ser vítima de tantas violências se tornou capaz de qualquer coisa. Mas como culpá-la?! Como dizer que ela não tinha o direito de dizer: "Chega! Agora não vou mais aguentar tudo em silêncio. Eu vou me defender!" 

"Eu já não seria vítima de ninguém. Nunca mais."

Não diria que no lugar das protagonistas desta história eu teria agido diferente. Até porque era uma questão de defesa pessoal, de sobrevivência. Eu já estava cansada de vê-las permitindo que as pessoas as machucassem, que todo mundo se aproveitasse da vulnerabilidade delas. Entendo porque a Shelley as considerava "ratos". Elas estavam sempre ocupando a posição de vítimas, se escondendo em vez de enfrentar seus agressores, aceitando todas as injustiças, as perseguições, o abuso de patrões que pagavam o mínimo possível por um trabalho que a mãe da Shelley sabia que valia mais (ela recebia menos que as secretárias e fazia todo o trabalho de uma advogada). Então, quando elas finalmente agiram, quando resolveram se defender, pela primeira vez na vida, eu fiquei, de certa forma, feliz. Não foi uma felicidade completa, pois infelizmente os acontecimentos daquela madrugada marcariam suas vidas para sempre. E não de um modo bom, apesar de tudo. 

"A realidade era exatamente o oposto da ordem e da beleza; era o caos e o sofrimento, a crueldade e o horror."

Se você acha que pelo que falei já sabe tudo o que acontecerá no livro está muito enganado. A história tomará determinados rumos e quando você acreditar que nada mais poderá acontecer, que o autor só falará de "grandes nadas" até as páginas finais acabará se surpreendendo muito, pois antes do final o livro dará uma baita reviravolta! Eu definitivamente não esperava por nada daquilo. 

Elizabeth e Shelley são duas personagens que nos comovem. Embora queiramos sacudi-las por aceitarem tanta maldade também sentimos vontade de protegê-las durante boa parte do livro... mesmo após os acontecimentos da madrugada do aniversário da menina. Elas crescem bastante ao longo da história, aprendem a se impor, a não aceitar mais tudo caladas, mas ainda assim eu quis protegê-las, mesmo sentindo certo medo da Shelley.rs A verdade é que essa menina não passa de o resultado de tanta violência, de ter sido vítima de muitas crueldades. Não a culpo pelas escolhas dela e nem posso falar tudo o que gostaria para não dar spoilers importantes, mas apesar de compreender a personagem, penso que ela acaba se tornando um perigo para si mesma. 

"Acreditamos ter todo o controle, mas, na verdade, não temos nenhum."

Recomendo este livro para quem gosta de thrillers. Apesar de não ser tão pesado quanto A Lista do Nunca, por exemplo, possui algumas cenas fortes. 

27 de julho de 2019

A Viúva - Fiona Barton

Título Original: The Widow
Tradutor: Alexandre Martins
Editora: Intrínseca
Edição de: 2017
Páginas: 304
Onde comprar: Amazon

Sinopse: A ESPOSA. Ela levava uma vida maravilhosamente comum. Boa casa, bom marido. Ele era mais do que ela sempre quis: um príncipe encantado. Mas então tudo mudou. O MARIDO. Os jornais inventaram um novo nome para ele: MONSTRO. Os anos vão passando sem que nenhuma prova seja encontrada, e a vida do casal segue constantemente estampada nas primeiras páginas. A VIÚVA. Agora ele está morto e ela se vê sozinha pela primeira vez, livre para contar sua versão dos fatos. E ela vai falar tudo o que sabe. 




Estou aqui pensando em como falar deste livro sem soltar spoilers.rs Porque algumas informações fornecidas ainda no início da história são mais interessantes de serem descobertas quando nós mesmos fazemos a leitura, sem que outra pessoa revele. E vocês sabem que amo spoiler desde que NÃO seja de LIVRO DE SUSPENSE/THRILLER. Por isso, vou me conter ao longo da resenha para não revelar nada que estrague a leitura de vocês. 

Na capa do livro há a seguinte frase: "Um marido amoroso ou um assassino cruel? Depois de vinte anos, só ela poderia dizer." E pela sinopse, que graças a Deus não revela nada, tudo o que sabemos é que um crime foi cometido e o marido da "esposa", que depois se torna "a viúva" foi acusado por este crime. Não sabemos se ele é culpado. Não sabemos qual foi o crime. Estamos no escuro. E queremos permanecer assim até que lendo o livro pessoalmente descubramos os segredos da história. 

Utilizando um recurso comum em alguns livros de suspense/romance policial, a autora vai intercalando presente e passado para construir a história, soltando pequenas pistas e nos confundindo, ao ponto de duvidarmos não só do marido, mas da própria esposa e outros personagens que vão surgindo ao longo da história. Descobrimos qual é o crime terrível que foi cometido (a capa do livro diz "assassino cruel", mas a verdade é que não foi esse o crime pelo qual ele estava sendo acusado) e por que as investigações o apontaram como principal suspeito. Mas nada é certo. Não conseguimos ter certeza se o Glen é mesmo o culpado ou se não o incriminaram numa armadilha. E a esposa? Será que podemos confiar nela?

4 de maio de 2019

Contos Peculiares - Ransom Riggs

Título Original: Tales of the peculiar
Tradutor: Edmundo Barreiros
Editora: Intrínseca
Edição de: 2016
Páginas: 208
Onde comprar: Amazon

Sinopse: O menino que virou gafanhoto e fugiu com os gansos. A princesa com língua de cobra à procura de um príncipe com quem se casar. Canibais ricos que comem braços de peculiares. Essas são apenas algumas das histórias reunidas nesta coletânea pelo estudioso Millard Nullings, o menino invisível acolhido no lar da srta. Peregrine. Passados de geração em geração há séculos, os Contos guardam, em suas histórias sombriamente divertidas, informações valiosas sobre o mundo peculiar. Saiba como foi criada a primeira fenda temporal, acompanhe a batalha das pombas de Londres contra os humanos e descubra os detalhes inusitados nos surpreendentes comentários e notas de Millard. Um livro fascinante para qualquer leitor e um delicioso presente para os fãs da série. 


Olá, queridos! :D

Quem estiver acompanhando meus posts mensais sobre os contos que estou lendo desde o início do ano, vai perceber que esta resenha na verdade é apenas uma junção de todos os comentários que já fiz sobre cada conto presente na coletânea Contos Peculiares

Como vocês sabem, eu ainda não tive coragem de ler a série O Lar da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, então resolvi começar pelos contos deste livro para ver se assim, futuramente (risos), conseguirei apostar nos demais livros do autor. Foi uma escolha maravilhosa, pois amei muitos dos contos desta coletânea e me diverti com a maneira inteligente de escrever e passar "verdade" do autor. Muitos dos contos possuem notas de rodapé que fazem parte da fantasia, mas dão aquela impressão de realidade, sabe?rsrs Sabemos que o autor Millard não existe (ele é apenas um personagem da série), mas aparece aqui como o organizador da coletânea e seus comentários e explicações em alguns contos são incríveis. Eles te lançam dentro do livro, para que você acredite, pelo menos durante a leitura, que tudo aquilo é real. 

22 de janeiro de 2017

Um Mais Um - Jojo Moyes

(Título Original: The one plus one
Tradutora: Adalgisa Campos da Silva
Editora: Intrínseca
Edição de: 2015)


A mãe solteira de uma família caótica

As coisas andam ruins para Jess Thomas. Muito ruins. O marido se mandou. Ela tenta sustentar os dois filhos trabalhando em dois empregos. Sempre foi otimista. Sempre fez tudo certo. Como seria se, só uma vez, ela fizesse algo definitivamente errado, mas que poderia mudar a vida deles?

Um homem esquisito que ela acha repugnante

Ed Nicholls é um milionário do ramo da tecnologia cuja vida está desmoronando quando ele se depara com Jess e a família na beira da estrada. Em um ato de generosidade (talvez o primeiro de sua vida), ele concorda em lhes dar a carona que poderá mudar para sempre a história de Jess.

Um romance irresistível

Em Um mais um os opostos se atraem e duas pessoas ferozmente independentes aprendem que é possível encontrar o amor nos lugares mais improváveis. Jojo Moyes mostra seu melhor nessa história engraçadíssima e extremamente comovente. Quando virar a última página, você vai querer ler tudo de novo.




Palavras de uma leitora...



"Às vezes, dizia a si mesma, a vida era uma série de obstáculos que tinham de ser contornados possivelmente por um mero ato de vontade."

Jess aprendera desde cedo a sempre ver o lado bom das coisas, por mais difíceis que fossem. Desde que o marido saíra de casa, dois anos antes, ela assumira sozinha a responsabilidade por manter seus dois filhos vestidos e alimentados, se dividindo entre dois empregos que lhe consumiam e a impediam de estar perto deles e ainda tendo que lidar com as constantes idas para o hospital, pois os adolescentes da escola acreditavam que seu filho era saco de pancadas. Qualquer um em seu lugar teria motivos suficientes para desistir, se tornar uma pessoa amarga ou simplesmente sentar e chorar, acreditando que não havia solução para nada. Mas ela tentava. E sempre acreditou que tudo daria certo... Que se você é bom e faz a sua parte, em algum momento, isso vai retornar para você. Mas não era exatamente o que estava acontecendo...

Durante o dia ela trabalhava como faxineira, na casa de pessoas que muitas vezes sequer a enxergavam, e à noite era garçonete num pub onde alguns clientes acreditavam que tinham o direito de passar a mão nela, mas nada lhe roubava seu otimismo, nem mesmo saber que convivia com um adolescente que parecia ter desaprendido a falar e passava boa parte do tempo trancado no quarto, e uma filha que era um gênio da matemática e tinha sonhos que ela não tinha condições financeiras para realizar. Jess queria ter fé, acreditar que tudo era uma fase e logo sua família, até então desequilibrada, encontraria o caminho. E quando a chance de realizar o sonho de sua filha e tirar todos eles por um tempo daquela cidade aparece, Jess percebe que precisa agarrá-la. Com todas as suas forças. Ainda que, pela primeira vez na vida, tenha escolhido a maneira não politicamente correta de fazê-lo... Talvez os fins justificassem os meios. Tudo o que ela com certeza sabia é que não poderia desistir do sonho de Tanzie sem tentar. 

Ed Nicholls tinha a vida que muitos desejariam ter. Embora não ligasse muito para o dinheiro e os negócios, também não se privava dos privilégios que o dinheiro poderia comprar. Levava uma vida bastante confortável, com um trabalho que amava acima de tudo e tendo qualquer mulher que desejasse ter, ainda que tivesse saído recentemente de um casamento que lhe custara uma fortuna e fosse obrigado a lidar, quase diariamente, com a ex-mulher que parecia não entender o "ex" da palavra. Conseguia lidar perfeitamente com os desafios de seu dia a dia... até ela reaparecer. A garota da faculdade. Aquela que ele não conseguiu esquecer. Afinal de contas, não era qualquer mulher. Era a tal. Aquela que arruinaria sua vida em questão de pouquíssimo tempo. 

Ed e seu melhor amigo sempre tiveram uma quedinha pela jovem esnobe da faculdade, a que era muita areia para o caminhão deles e os fazia enxergar isso claramente. Quando se formaram e seguiram seu caminho, ambos acreditaram terem se livrado da paixonite que tinham por ela... até ela reaparecer, com uma repentina saudade do passado, querendo rever "velhos amigos". Ed sente de novo toda a atração e acreditava ser perfeitamente capaz de lidar com ela agora que adquirira confiança e deixara de ser um nerd. Só que ele não poderia sequer imaginar a metade dos problemas que a desequilibrada provocaria. Num dia, ele estava fazendo de tudo para se livrar do relacionamento que assumira com ela, por livre e espancada vontade, no outro... estava sendo processado por uso de informações privilegiadas e correndo o risco de perder tudo o que conquistara. E como se a maré de azar já não estivesse agradável o suficiente... uma mulher parada na estrada com duas crianças e um cachorro, tarde da noite, discutindo com a polícia, estava prestes a transformar o caos em algo que fosse além disso. Seria um carma? Isso só o tempo diria...rs

- Quando comecei a ler esta história o que eu mais esperava era me divertir. Eu queria rir, passar momentos bem leves ao lado dos personagens e, de quebra, ser completamente envolvida por eles. Afinal de contas, é um livro da autora de Como Eu era antes de Você! Preciso dizer mais alguma coisa?!rsrs Porém, nas primeiras páginas eu já percebi que o livro não era bem o que eu esperava. Na verdade, tudo é bem diferente do que eu tinha em mente. E isso não é necessariamente ruim.

- Apesar de ter momentos divertidos, eu nunca consideraria esta história como uma comédia romântica ou algo do gênero. Está mais para um romance com certo drama e um leve toque de comédia. Leve. Um toque bem leve mesmo. 

Jess, como a sinopse e o pequeno resumo que fiz já mostram, é uma jovem de vinte e poucos anos que cria sozinha os dois filhos. E o mais velho, de dezesseis anos, sequer é seu filho biológico. É um menino que foi deixado aos seus cuidados quando só tinha oito anos e era filho de seu marido com uma viciada que mal lembrava que ele existia. Enquanto muitas outras poderiam não querer assumir tal responsabilidade, Jess aceitou de braços abertos aquele menino, enxergando nele um pouco da criança que ela própria tinha sido e fazendo todo o possível para que ele se sentisse parte da família... para que se sentisse seu filho. E assim os anos se passam, até o dia em que seu marido adquire "depressão" e resolve que não aguenta mais nada e precisa ir para bem longe. Deixando Jess não apenas responsável por Tanzie, sua filha, mas também por Nicky, como se os filhos fossem apenas dela. Como se ele não tivesse nenhuma obrigação. Ela, então, é obrigada a passar ainda mais tempo trabalhando, tentando pagar as contas e fazer com que os filhos tenham o que comer, ainda que isso a desgaste e ela seja obrigada a aturar comportamentos como de alguém que bate a porta na sua cara e nem ao menos tem a capacidade de se sentir envergonhado. E esse alguém é nosso querido mocinho, claro!

A pressão sobre nossa mocinha é ainda maior, pois ela não tem ideia de como livrar Nicky do bullying que ele sofre na escola e que o faz se fechar ainda mais em si mesmo e no pequeno mundo que criou para ele. Como se não bastasse, sua filha também é uma menina diferente, tem uma paixão enorme pela matemática e corre sérios riscos de passar pelo mesmo que o irmão quando chegar ao ensino médio. É quando um professor percebe seu talento e consegue para ela uma bolsa de 90% numa das melhores escolas, uma bolsa jamais oferecida para outra criança. Só que os 10% restantes ainda eram uma pequena fortuna se fosse considerado que Jess mal tinha o suficiente para que eles comessem. Ainda assim, quando o prêmio de uma Olimpíada de matemática poderia ser capaz de fazê-la realizar o sonho de sua filha e impedi-la de sofrer o mesmo que Nicky, Jess não pensa em deixar a oportunidade escapar. E é quando é parada pela polícia... À caminho da Escócia, onde a olimpíada ocorreria. E é salva por nada menos que Ed... o cretino que batera a porta na sua cara e a tratara como se ela fosse nada além de uma faxineira. Por que, de todas as pessoas que existem no mundo, tinha que ser justamente ele? E é quando a história realmente inicia... Numa viagem de poucos dias de carro, que mudará para sempre a vida de todos eles... 

- Eu gostei muito da história e amei as duas crianças, que tocam nossos corações com seus jeitos de encarar o mundo e a força que ambas têm mesmo diante das coisas mais difíceis. Além, é claro, de admirar demais a nossa mocinha. Jess é uma personagem real, sabe. É como milhares, talvez milhões, de mães espalhadas pelo mundo, sobrecarregadas de serviços, suportando humilhações e salários que nem são dignos de ser chamados de salários para poder levar o que comer para casa, sustentar um teto e manter todas as contas pagas. Mães que esquecem de si mesmas para dar o que de melhor puderem aos filhos. Enquanto os merdas que contribuíram com o espermatozoide acham que elas fizeram os filhos sozinhas e ainda se sentem ofendidos quando são intimados para pagar pensão. Jess é muito real e isso é impossível de ignorar. Não tem como não admirar essa mulher guerreira e corajosa, que precisava tanto de apoio, que queria chorar nos ombros de alguém e saber que não estava sozinha, mas que ainda assim tentava ser forte para os filhos, pois sabia que eles precisavam de seu amor e dela como um alicerce para que eles não desabassem. E mesmo assim ainda tentava acreditar nos romances da ficção, que aproveitava qualquer segundo que a vida lhe desse para ler. Jess me conquistou totalmente. Queria que todas as mocinhas tivessem pelo menos a metade da força que ela tem.  

- E claro que achei bonito o romance que se inicia lentamente entre a Jess e o Ed. Porém, o problema está justamente aí. Achei apenas bonito. E queria muito ter achado arrebatador, belíssimo, inesquecível, entendem? A história deles não me provocou o impacto que eu desejava. Nem passou perto disso. 

Não é que eu não tenha gostado do mocinho. Na verdade, gostei bastante dele. Aprendi a gostar conforme fui conhecendo-o melhor e até o perdoei pela sua grosseria do início, quando ele se mostrou um verdadeiro idiota ao bater a porta na cara dela como se ela não fosse ninguém. E nem se dignar a pedir desculpas logo depois. Pouco me importa se ele estava com problemas, nada lhe dava o direito de agir daquela maneira. E quando ele ainda acha que ela tinha que aguardar alguns dias para receber o pagamento pelas faxinas que vinha fazendo em sua casa, senti vontade de bater nele. O miserável estava estressado diante da possibilidade de perder boa parte dos inúmeros recursos que possuía, mas achava que alguém que não estava limpando sua casa por droga de esporte nenhum tinha que esperar alguns dias ainda para receber seu pagamento! Se ele quisesse comer, era só fazer uma ligação e uma das melhores refeições logo surgiria em sua frente. E se ela e os filhos quisessem comer, droga?! Ele achava que eles deveriam se alimentar de vento?! Ele foi de uma idiotice tal no início que eu não simpatizei muito com ele. E nem senti pena pelo que ele estava passando. Até porque ele foi imbecil o suficiente para colocar a si mesmo naquela situação. Jess precisava muito mais da minha compaixão do que ele, sinceramente. 

Mas como eu estava dizendo...rsrsrs... Eu não desgostei do mocinho, mas no fundo fiquei com a sensação de que a Jess merecia alguém diferente. Uma pessoa que não demorasse tanto para valorizá-la e, sobretudo, um homem que depois de tê-la conhecido profundamente ao longo da quase uma semana que passou ao seu lado, não fosse canalha o suficiente para tratá-la daquela maneira quase no final e, consequentemente, não ter estado com ela quando nossa mocinha mais precisou. Eu posso ter perdoado a ignorância dele no início, mas a forma estúpida como ele se comportou ao descobrir uma coisa que a Jess fez num momento de desespero foi demais para mim. Se ele não a conhecesse, eu o entenderia. Mas aí é que está! Ele a conhecia. Bem de perto. Sabia tudo o que ela tinha passado. E o quanto ela era maravilhosa. Não pude perdoá-lo por tê-la feito chorar, por fazê-la se sentir culpada. Por roubar o otimismo que lhe restava e levá-la a se desfazer dos livros que tanto amava. Ele a lançou ao chão com sua reação imbecil, de retardado mental que não conseguiu absorver nada durante o tempo que passou com ela!!! Nem o ex-marido dela conseguiu deixá-la naquele estado. E aqueles que acham a Jess e o Ed um lindo casal, me perdoem por favor, pois não sou capaz de enxergar o mesmo. Na minha opinião, uma pessoa tão incrível como ela merecia um homem melhor. 

- As cenas que me tocaram foram sempre as das crianças e a linda relação que têm com a mãe. Quando o Nicky a chamou de mãe pela primeira vez meus olhos se encheram de lágrimas. Quando a Tanzie quis comprar um cartão escrito "eu te amo" para ela porque ninguém jamais tinha lhe dado isso eu me emocionei muito. E quando o Norman, o cachorro deles, salvou a vida da menina, numa das mais lindas demonstrações de amor, eu caí em prantos. Foram cenas assim que me atingiram. O romance entre a Jess e o Ed, não. Por isso, não pude dar 5 estrelas ao livro. Dei 4 estrelas. Pela Jess, os filhos e o cachorro.

- O Ed aprende a ser alguén menos centrado em si mesmo, gente. Não disse o contrário. Ele muda muito ao longo do livro. Só não o achei a pessoa certa para a Jess. Não achei que ele mudou o suficiente para ser digno dela. Mas é claro que torço muito pelos dois. Se ela o ama, é claro que quero que seja muito feliz com ele. Mas não vou mentir e dizer que não queria um mocinho diferente para ela.rsrs...

14 de outubro de 2016

Depois de Você - Jojo Moyes

(Título Original: After You
Tradutora: Adalgisa Campos da Silva
Editora: Intrínseca
Edição de: 2016)


Lou Clark tem muitas perguntas.

Por que acabou indo trabalhar no bar de um aeroporto, onde passa o expediente inteiro observando outras pessoas voarem para novos lugares? Por que o apartamento onde mora há um ano ainda não parece um lar? A família será capaz de perdoá-la pelo que ela fez dezoito meses antes? Algum dia ela vai superar ter perdido o amor de sua vida? Mas o que Lou sabe com certeza é que as coisas precisam mudar.


Até que, certa noite, uma pessoa desconhecida bate à sua porta. 

Será que ela tem as respostas que Lou procura... ou apenas mais perguntas? Se Lou fechar a porta, a vida vai continuar igual: simples, ordenada, segura.
Se abrir, estará arriscando tudo.

Lou prometeu que continuaria viva. 
E se vai cumprir isso, terá que convidar essa pessoa a entrar...



Palavras de uma leitora...



"Você não me deu uma vida, deu? De jeito nenhum. Só acabou com a minha antiga. Desfez em pedacinhos. O que eu faço com o que sobrou?"

- O livro Depois de Você é uma continuação daquela história que nos deixou em lágrimas. Sim. Como Eu era Antes de Você. Um livro que me deixou triste e ao mesmo tempo anestesiada quando terminei de ler. Que me fez pensar muito no quanto a vida é frágil e como tudo pode simplesmente mudar... No caso de Will, para pior. Até que...

Pois bem, como eu disse, este livro é a continuação da história de Will e Louisa. Portanto, quem não leu o livro anterior, pare imediatamente de ler esta resenha!rs Terá spoilers. Sem sombra de dúvidas. Ninguém pode dizer que não avisei. :)

"Dezoito meses. Dezoito meses inteiros. Até quando vai ser assim? - pergunto na escuridão. [...] - Porque isso não parece vida. Não parece nada."

- Quando conheci a história deles, eu já sabia como tudo iria acabar. Sou aquela que prefere saber com antecedência. Que implora às amigas por spoilers.rs Sendo assim, eu estava preparada para amá-los, viver cada momento com eles até o inevitável adeus. Até a morte de Will. Ou, pelo menos, eu acreditava estar preparada. Como se dizer adeus a ele fosse fácil. Não era. Não foi. Ele não fez em pedaços apenas o coração da Lou. Destruiu o meu também. Porque entender não tornava mais suportável a dor.

"Não pense muito em mim.
 Apenas viva bem.
 Apenas viva."

- Em Como Eu era Antes de Você, Louisa o conhece quando sua mãe a contrata como cuidadora. Embora não possuísse experiência alguma, existia em nossa mocinha algo que fez a mãe dele ter esperanças... No fundo, ela queria acreditar que aquela jovem pudesse devolver a Will a vontade de viver.

Porém... os momentos que eles passam juntos não é suficiente. Nem os esforços dela... nem todo seu amor. No fim, ele vai embora. E ela o deixa ir. Porque não havia mais qualquer opção. Não restava nada.

"O que você fez com a gente, Will?"

- Após a morte dele, Louisa tenta seguir em frente e, no início, chega realmente a acreditar que vai conseguir. Animada pela fé que ele depositara nela, decide viajar pela Europa, sempre levando consigo a carta que lhe foi entregue quando estava em Paris. As últimas palavras dele para ela. Que ela vivesse

Mas, pouco a pouco, as lembranças dos momentos que viveram e a forma como tudo terminou a fazem desistir. Sorrir se torna difícil. Já não era mais possível sentir o cheiro dele em suas roupas... só ficou o vazio. Um vazio que gritava que ela não tinha nada. Que jamais teve nada. Porque ele não a amou o suficiente para ficar. 

"Amei um homem que me mostrara o mundo, mas que não me amara o suficiente para permanecer nele."

Quase dois anos após a morte de Will, ela vivia num apartamento que não parecia seu, presa a um emprego que a fazia infeliz e buscando conforto no álcool e nas lembranças cada vez mais distantes. 

Até que um dia, bêbada e gritando para o céu (ou para Will) a sua dor, despenca do parapeito do telhado, sofrendo um grave acidente. E aquele que deveria ser o fim da sua história... se torna um recomeço. 

"Nunca se sabe o que vai acontecer quando se cai de uma grande altura."

Abalada pelo acidente e precisando recuperar-se, Louisa se vê diante da família com a qual sua relação ficara bastante complicada após sua decisão de estar com Will nos últimos momentos. Sua mãe jamais a perdoara por participar daquilo e mal lhe dirigira a palavra nos meses que seguiram... Mas, acreditando que a filha tentara colocar fim à própria vida se atirando do prédio, abre as portas para uma reconciliação. E é no meio de tudo isso que duas novas pessoas surgem na vida de Lou... 

... Uma, estava tão perdida quanto ela, revirando todo seu mundo e buscando uma ajuda que ela não podia lhe dar. A outra... lhe oferecia esperança e... amor. Mas, de diferentes maneiras, as duas se mostram essenciais para que ela possa reconstruir sua vida a partir das cinzas deixadas por Will. 

"Minha voz, quando saiu, estava falhando um pouco:
- Não estou apaixonada por um fantasma. [...]
- Então deixe ele ir, Lou."

- Quando Will tomou a decisão de seguir em frente com os seus planos mesmo após tudo o que a Louisa fez por ele... mesmo após tudo o que um significou para o outro, eu entendi. Aceitei sua escolha, porque eu imaginava como era grande o sofrimento dele... tão grande que ele já não via outra saída. Foram terríveis os momentos finais. Só de lembrar... Eu quis fazer algo. Mesmo aceitando, desejei com todas as minhas forças poder evitar. Implorei para que ele voltasse atrás. Para que olhasse nos olhos da Lou e percebesse que não poderia deixá-la. No entanto, ele se foi. E... Como ficamos nós? O sofrimento dele chegou ao fim. Mas o de sua família... daqueles que o conheceram e amaram... não. A vida depois de Will foi extremamente dolorosa para aqueles que ele deixou pra trás. 

"Olhei ao redor, como se de repente tivessem me entregado óculos limpos, e notei que quase todo mundo carregava a marca brutal do amor, fosse perdido, roubado ou simplesmente sepultado num túmulo."

- Não estava nos planos da autora escrever esta continuação. Foram os pedidos de fãs, que ansiavam por saber como ficou a vida da nossa mocinha após aquele final, que incentivaram a Jojo Moyes a escrevê-la. E agradeço muito a todas essas pessoas. Porque eu precisava deste livro, gente. Necessitava demais desta história. Existem aqueles que julgaram uma continuação desnecessária e decepcionante, mas para mim foi o desfecho que meu coração pedia. Porque a verdade é que não podia terminar como terminou. Não deveria ter sido assim. E quando iniciei a leitura de Depois de Você, cheia de medo de me decepcionar, pude perceber que nem a própria autora aceitara aquele final. Will e Lou ficaram na cabeça dela como ficaram na minha e na de vocês. Não nos deixariam seguir enquanto eles próprios não pudessem seguir. Queriam terminar aquela história. Tinham mais para contar. E então contaram. Me fazendo rir, chorar, me desesperar e ter esperanças com os personagens. E no final... ainda ficou a saudade. Mas também uma enorme sensação de consolo. 

"Eu não ia parar de chorar por Will, nem de amá-lo, nem de sentir falta dele, mas minha vida parecia ter aterrissado de volta no presente."

- Existe algo sobre este livro que não posso contar. Porque seria um spoiler e tanto. Só posso dizer que jamais passou pela minha cabeça algo assim. E que vocês não têm noção de como eu me senti quando soube... Eu ria e chorava ao mesmo tempo. Ah, Will! Quantas saudades você deixou. Nunca serei capaz de esquecê-lo. Ou superar tudo que lhe aconteceu. 

- Aqui temos de volta, através das palavras e lembranças da Lou, a cena dolorosa do labirinto, quando ela conta para Will o que sofreu quando era jovem e ingênua demais... cena que sempre foi uma das mais fortes e impactantes da história deles. E... as meia-calças de abelhinhas? Como esquecer? Aquele aniversário no qual o Will as deu de presente para a Lou. Incrível como ele a ensinou tanto em tão pouco tempo... Estava prestes a ir para a Dignitas e mesmo assim era quem mais a empurrava para a vida. Ele a amou muito. Mesmo sabendo que não estaria ao seu lado. Mesmo sabendo que um dia ela sorriria para outro homem... que construiria uma vida com outra pessoa. A amou tanto que quis que ela fizesse exatamente isso. Que vivesse. Que agarrasse a vida com as duas mãos. 

- No fim, mesmo sem entrar em detalhes, posso dizer que a Lou acaba fazendo exatamente o que ele sempre quis para ela. Começando por saltar de um prédio, claro.kkkkkkkkkk... Consigo visualizá-lo em minha mente, levantando uma sobrancelha e dizendo sem precisar utilizar palavras: "Só você mesmo para fazer algo tão estúpido." Mas, falando sério agora, ela consegue. Seguir em frente. Só que é um longo caminho. E todos sabemos que o Will estará para sempre em seu coração. Em seus pensamentos. Assim como está no nosso...

"Percebi que estava com medo de viver sem ele. Com que direito você destrói a minha vida - eu queria perguntar -, e eu não estou autorizada a dizer nada a você sobre isso
 Mas eu tinha prometido. E segurei-o, Will Traynor, ex-rapaz esperto da City de Londres, ex-mergulhador, ex-atleta, viajante, amante. Eu o mantive perto e não disse nada, durante todo o tempo repetindo, silenciosamente, que ele era amado." [Trecho do livro Como Eu era Antes de Você]


Adeus Will. É hora de me separar da sua história. Da história de vocês dois. Mas não vou esquecê-los. Nunca. 

26 de dezembro de 2015

Como Eu era Antes de Você - Jojo Moyes

(Título original: Me Before You
Tradutora: Beatriz Horta
Editora: Intrínseca
Edição de: 2013)

LOU CLARK SABE UMA PORÇÃO DE COISAS.

Ela sabe quantos passos separam sua casa do ponto de ônibus. Sabe que adora trabalhar como atendente em um café e sabe que provavelmente não ama seu namorado, Patrick.

O que Lou não sabe é que está prestes a perder o emprego, e que isso a obrigará a repensar toda sua vida.

Will Traynor, por sua vez, sabe que o acidente com a motocicleta tirou dele a vontade de viver. Ele sabe que o mundo agora parece pequeno e sem graça, e sabe exatamente como vai dar um fim a tudo isso.

O que Will não sabe é que a chegada de Lou vai trazer de volta a cor à sua vida. E nenhum deles desconfia de que esse encontro irá mudar para sempre a história dos dois.


Palavras de uma leitora... 


"Alcancei a mão de Will e a segurei entre as minhas. Pensei, por um instante, que nunca mais me sentiria tão intensamente conectada ao mundo, a outro ser humano, como naquele momento."

- Como a vida podia mudar assim, de um momento para o outro? Num dia, ela estava empregada, fazendo planos de viajar com o namorado... No outro, já não tinha emprego e nem rumo. Ela havia dedicado seis longos anos de sua vida àquele café. Amava trabalhar lá. Era seu porto seguro, um lugar no qual se sentia bem e útil. E, embora não pagasse o suficiente para que pudesse sair da casa dos pais, pelo menos permitia que pagassem as contas e tivessem o que comer. E agora... com o pai prestes a perder o trabalho, a irmã mais nova indo embora em busca dos próprios sonhos... Louisa sabe que por mais otimista que queira ser, seu mundo está desmoronando. E ela precisa de um novo emprego. Para ontem. Não. Para anteontem. 

"Existem horas normais e horas inúteis, nas quais o tempo para e escorre e a vida - a vida real - parece distante."

- Quando perdia-se em pensamentos... quando permitia que a mente viajasse para os lugares nos quais um dia estivera... Will conseguia recordar... Recordar que tivera uma vida. Uma vida muito boa, que muitos poderiam apenas sonhar em ter. Ainda que tudo tivesse durado poucos anos, ele sabia que havia aproveitado cada um dos momentos que agora não passavam de lembranças. Distantes... que o tempo tratava de levar com ele...

Um dia, ele fora um jovem alegre, extrovertido e que amava a vida. Que adorava praticar esportes, ser um gênio no mundo dos negócios e fazer sexo com belas mulheres. Não necessariamente nesta ordem. Mas após ser atropelado por um motoqueiro que dirigia em alta velocidade, ele era obrigado a suportar, dia após dia, a prisão que se tornou seu próprio corpo. Tetraplégico, consciente de que por mais avançada que a medicina pudesse estar, não havia cura para o seu estado, nenhuma possibilidade de melhora... ele dependia dos outros até para as mais básicas necessidades. Algo que ia matando-o lentamente e o fazia perguntar-se por que os outros consideravam tão errado e inaceitável o seu desejo de pôr um ponto final em toda aquela dor. Qual o sentido de seguir em frente quando se sabe que tudo o que lhe reserva o futuro é uma vida inteiramente dependente dos outros e à mercê de infecções e problemas respiratórios cada vez mais graves? Para que prolongar o sofrimento?

"Pela primeira vez na vida, tentei não pensar no futuro. Tentei apenas estar, simplesmente deixar as sensações passarem por mim."

- Contratada como cuidadora de Will, Louisa não sabia bem o que esperar, mas o que quer que fosse não era a antipatia e desprezo com que foi recebida por ele. Antes mesmo de conhecê-la, ele já a odiava e parecia empenhar-se para fazer de sua vida um inferno. Mas quando tudo o que ela mais queria era ver-se longe daqueles olhos frios, a convivência relutante acaba por mostrar aos dois o que realmente sentiam... quando olhares passam a dizer muito mais do que algum dia se permitiriam dizer. E a partir daí, surge um sentimento inesperado, mas que irá transformá-los para sempre... E os fará perceber que existe sim esperança... quando há amor. 

"- Não quero entrar agora. Quero ficar sentado aqui e pensar que... - Engoliu em seco.
  Mesmo no escuro, pareceu fazer esforço.
  - Quero... ser apenas um homem que foi a um concerto com uma garota de vestido vermelho. Só por mais alguns minutos."

- Não sei bem se era o momento certo para ler uma história tão impactante.... Porém, mesmo ainda caindo em prantos sempre que me lembro de certos momentos, certas cenas tão inesquecíveis... Mesmo que minha voz falhe e um nó doloroso se forme em minha garganta quando tento falar dela para os outros... não me arrependo de lê-la. Nem por um segundo. Sim, Louisa e Will acabaram comigo. Fizeram meu coração em pedaços várias vezes. Mas não conhecê-los? Ah, isso não era sequer uma opção!

"Eu não queria voltar para casa. Pensei que poderia nunca mais voltar."

- Por quase dois anos, eu fugi deste livro. Sabia exatamente o que ele faria comigo. Como bagunçaria minhas emoções e me faria encarar uma realidade na qual muitas vezes prefiro não pensar. A realidade de tantas pessoas... de tantas vidas... Enfim... Eu não queria sofrer com os personagens, ainda que soubesse que existiriam muitos momentos de risos. Eu não queria enfrentar a vida real. Por isso fugi, me refugiando em histórias mais leves e preferindo ignorar a existência do livro na minha estante.rs Nunca disse que era uma pessoa corajosa.kkkkkkkk...

"[...] de repente tive a sensação de ver o tempo passar e de perder grande parte dele nas pequenas idas e vindas pelo mesmo caminho."

- Sou completamente incapaz de falar desta história sem chorar. Comecei esta resenha várias vezes, ficando longos minutos perdida em pensamentos, desejando o impossível, querendo transmitir nem que fosse um pouquinho do que sinto. Porque há livros bons, ótimos, maravilhosos. Mas existem livros que vão bem além disso. Que nos marcam. Que nos dão mais do que esperamos receber e que, em troca, levam um pedaço de nosso coração. Como Eu era Antes de Você é exatamente este tipo de história. Marcou a minha vida. Para sempre. 

"Você só vive uma vez. É sua obrigação aproveitar a vida da melhor forma possível."

- Sempre que vejo a frustração da minha prima de doze anos quando lhe dou mais um livro de presente e ouço minha mãe repetir que não entende porque dou livros para ela se ela não os lê, eu não me importo. Sorrio, porque embora ela ainda seja muito nova para entender... Sei que estou lhe dando vida. A chance de realmente enxergar o mundo, de abrir a mente e viajar para lugares que ela jamais esquecerá. Sei que um dia ela tocará nesses livros e irá folhear suas páginas... começará a ler umas linhas por pura curiosidade... e então perceberá o que agora não consegue perceber. A magia que sinto toda vez que leio uma nova história. A marca que certas histórias deixam em nós.

"Ser atirada para dentro de uma vida totalmente diferente - ou, pelo menos, jogada com tanta força na vida de outra pessoa a ponto de parecer bater com a cara na janela dela - obriga a repensar sua ideia a respeito de quem você é. Ou sobre como os outros o veem."

- Não sei se vocês já sabem (provavelmente sim), mas a autora anunciou a continuação desta história, cujo lançamento no Brasil está previsto para 18/02/2016, segundo site da Saraiva. Sem falar no filme que estará nos cinemas em 2016! :D 

"Ali tinha nascido e morrido gente, corações tinham se enchido de paixão e se partido. Agora, no silêncio, você quase pode ouvir a voz deles, seus passos na trilha."
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