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23 de abril de 2021

A Morte da Sra. Westaway - Ruth Ware



Literatura Inglesa
Título Original: The death of mrs Westaway
Tradutora: Alyda Sauer
Editora: Rocco
Edição de: 2021
Páginas: 320

11ª leitura de 2021 (10ª resenha do ano)

Sinopse: "As cartas não dizem nada que você não saiba. Não podem revelar nenhum segredo nem ditar o futuro. Elas só podem mostrar o que você já sabe." Hal Westaway lê cartas de tarô no cais de Brighton e, desde a morte da mãe, luta diariamente para pagar suas contas e sobreviver. A notícia inesperada de uma herança pode mudar sua vida para sempre e, mesmo sabendo que tudo pode ser um enorme engano, ela decide acreditar... e jogar. Quando Hal Westaway recebe uma carta inesperada anunciando que ela herdou uma soma substancial de sua avó da Cornualha, aquilo lhe parece uma resposta às suas preces. Ela deve dinheiro a um agiota e as ameaças do sujeito estão cada vez mais agressivas: ela precisa botar a mão em dinheiro vivo o mais breve possível. Existe apenas um problema: as avós de Hal morreram há mais de vinte anos. A carta foi enviada à pessoa errada. Hal sabe, no entanto, que as técnicas que usa para “ler” as pessoas através do tarô podem ajudá-la a conseguir esse dinheiro. Se alguém tem habilidade para comparecer ao funeral de um estranho e reivindicar um espólio que não lhe pertence, é ela. Ao chegar à cerimônia, porém, Hal percebe que há algo muito, muito errado a respeito de toda aquela situação, e a herança está no centro de tudo. Mas Hal Westaway fez sua escolha, e não pode voltar atrás. Ela precisa continuar ou arriscar perder tudo. Até mesmo a própria vida. Uma velha casa, uma governanta assustadora, conflitos familiares e dilemas morais. Ingredientes clássicos que se tornam surpreendentes na voz de um dos grandes nomes contemporâneos do suspense, Ruth Ware.






Um thriller psicológico que bem poderia ser classificado como "um drama familiar letal"...

"Ela abriu o portão e as ferragens rangeram, um som baixo como um lamento através do barulho da chuva que a fez tremer mais ainda. Algo no tom daquele ruído lhe provocou um arrepio na nuca. Foi como se a casa estivesse morrendo de dor."

Sabe aquele tipo de livro que você não consegue parar de ler, que te rouba o sono e dá um nó na cabeça? A Morte da Sra. Westaway é exatamente assim. Eu pretendia seguir o cronograma que fiz, vez que foi uma história escolhida para leitura coletiva no grupo do Telegram, cujo debate só irá ocorrer em 05/05. Mas não consegui ser tão disciplinada.kkkk Eu encerrava um capítulo e já começava a ler o outro avidamente. Queria respostas e também descobrir se minha teoria estava certa, já que sempre tento adivinhar com antecedência o plot twist de um bom suspense.rs

Confesso que senti um pouco de medo durante a leitura, algo que não esperava. A atmosfera gótica, os passos silenciosos no escuro, luzes que não acendiam, cômodos proibidos... Quarto com grades na janela e trancas do lado de fora da porta... Tudo isso me provocava um certo pânico.

"Mas ali no alto só havia uma explicação, não eram grades para impedir alguém de entrar, e sim de sair."

A casa que se torna praticamente um personagem dentro da história, guardando terríveis segredos, é um lugar abandonado, com cômodos desgastados pelo tempo, cheios de poeira e teias de aranha. Não é que ninguém não morasse ali: a tal senhora Westaway, cuja morte desencadeia todo o drama e suspense do livro, viveu naquela propriedade até seu fim. A casa não estava "abandonada" por não ser habitada, mas sim porque ninguém se preocupou em conservá-la. 

"Ela descobriu que as verdades mais importantes muitas vezes estavam no que as pessoas não falavam [...]"

Ao longo da leitura senti como se aquela casa assustadora "falasse" e sentisse. Como se tivesse "apodrecido" por todo terror do qual foi testemunha. Toda dor e lágrimas sofridas entre suas paredes...

Harriet Westaway sabia o que era passar por privações em sua vida. Desde pequena precisava lidar com a falta de dinheiro, sendo sempre a criança mais pobre entre seus colegas de escola, vestindo roupas e sapatos usados e encarando de frente a situação com a coragem que sua mãe lhe ensinou. A mãe que era sua amiga, seu único familiar. A mãe que lutava dia após dia para sustentá-la, com quem ela viveu todos os bons e maus momentos. A mãe que morreu, vítima de um terrível acidente, dois dias antes do seu aniversário de 18 anos, deixando-a sozinha num mundo hostil, sem saber como seguiria em frente...

"Era a injustiça que machucava mais, feito ácido na garganta. Teve vontade de berrar contra a injustiça daquilo tudo. Quero uma trégua, ela queria soluçar. Só uma vez quero que aconteça uma coisa boa comigo."

Sendo jogada no mundo adulto de uma hora para outra, e sofrendo a dor de perder quem mais amava, ela buscou consolo no álcool e pegou um empréstimo com um agiota, na tentativa de continuar tendo um teto onde morar e algo para comer, mas este foi um dos piores erros de sua vida. Quanto mais trabalhava para pagar as dívidas mais elas aumentavam, num ciclo que não tinha fim. O que ela devia inicialmente se multiplica, tornando impossível quitar uma dívida que era muito superior ao valor que ela de fato tinha pego emprestado. Sem saber o que fazer e sem meios de fugir dos capangas do agiota, enviados para "cobrá-la", Hal tenta não ceder ao desespero... é quando uma misteriosa carta, endereçada à ela, tanto se apresenta como a solução para os seus problemas quanto a lança na direção de segredos do passado que deveriam ser mantidos enterrados...

Destinatário da carta: Harriete Westaway. Endereço: o seu, sem nenhum erro de digitação. Mas aquilo só poderia ser um estranho engano, pois era impossível que ela realmente fosse a pessoa que o remetente procurava. O advogado que lhe enviou a referida carta, comunicava o falecimento de sua avó, Hester Westaway, a data do funeral e o fato de Harriet ser uma das beneficiadas pelo testamento. Seria um alívio para todas as suas dívidas se não existisse um pequeno problema: seus avós tinham falecido muitos anos antes, o que a fazia ter a certeza de que não era a Harriet correta, que tudo não passava de um equívoco. 

Mas diante da situação desesperadora na qual se encontrava, e após sofrer mais uma ameaça do capanga do agiota ao qual devia dinheiro, ela decide arrumar suas coisas e ir até o funeral, se passar pela neta da falecida e colocar as mãos na sua parte da herança. Eram pessoas ricas, certo? Um pouco de dinheiro que ela conseguisse com aquele engano não afetaria suas vidas. Só que ao chegar à Igreja e ao longo do funeral, ela percebe que nada seria tão simples assim... Alguma coisa de muito errada havia naquela história. Por que nenhum dos filhos lamentava a morte da mãe? Por que se comportavam de forma tão estranha uns com os outros? 

"Não era apenas a sensação de uma casa negligenciada há muito tempo. Era algo mais sombrio, de um lugar que esconde segredos, onde pessoas foram tremendamente infelizes e ninguém apareceu para consolá-las."

Ao hospedar-se na casa para leitura do testamento, fica ainda mais surpresa ao perceber o quanto o local estava se deteriorando, como o ambiente era sombrio e triste... O quanto as pessoas que um dia viveram ali tinham sofrido? Sua vontade era de voltar correndo para sua antiga vida, mas tudo se complica gravemente quando descobre que todos os filhos da falecida haviam sido deserdados, sendo ela a única herdeira dos bens. O que parecia apenas um jogo inofensivo, pois um pequeno valor que ela acreditava que herdaria não afetaria ninguém, se torna extremamente perigoso após essa bombástica revelação. 

O que as pessoas estariam dispostas a fazer por dinheiro? Sufocada pelas próprias mentiras, ela decide escapar para a sua realidade, voltar para sua cidade, sua vida... Mas uma foto revira todo o seu mundo: ali, naquela imagem congelada no tempo, entre as pessoas reunidas, estava a sua mãe. O choque é grande demais e Hal tenta entender que ligação haveria entre sua mãe, aquela casa e aquelas pessoas. Que segredos se esconderiam no passado? Por que sua mãe nunca mencionou que tinha vivido ali? Disposta a descobrir toda a verdade, ela demora a perceber que o preço talvez fosse alto demais... Talvez custasse a sua própria vida. 

"[...] que segredo era esse, o segredo que era o cerne de todo aquele mistério, que tinha alguém disposto a matar para protegê-lo?"

Este é um livro que ao mesmo tempo que eu amei também odiei profundamente.kkkkkkk Fiquei muito mal com o final, embora tenha que reconhecer que uma vez que adivinhei os principais segredos bem antes da metade da leitura, poderia muito bem saber como tudo terminaria, mas a verdade é que me neguei a suspeitar dessa pessoa. Me deixei enfeitiçar, me deixei enganar. Eu não quis colocar tal pessoa na lista de suspeitos quando o mais lógico seria colocar a tal pessoa como principal suspeita, levando em conta tudo o que eu tinha adivinhado sobre os segredos da história. Mas eu fui imbecil, me apaixonei por uma personagem que era especialista em prender as pessoas em seus encantos para depois dar o bote. Eu caí direitinho, como a Hal também caiu. A diferença é que eu já tinha descoberto boa parte dos segredos que essa pessoa tentava esconder, Hal ainda não sabia, então... a grande estúpida fui eu mesma. Ainda não me perdoei por ter sido tão burra! E também sofro muito pelo monstro, psicopata do livro, ser justamente quem eu menos queria. 

"Hal podia ser qualquer coisa, menos um rato. E não seria presa de ninguém."

Eu conversava com uma amiga durante a leitura e dizia que o psicopata poderia ser qualquer pessoa, menos aquela pessoa. Que eu não suportaria que fosse quem eu tanto amava no livro. Sabe quando você descobre algo inconscientemente, mas não quer admitir aquilo conscientemente?rs No fundo eu sabia que poderia ser, mas me negava a aceitar. Dizia: "Não, não, não! A autora não pode fazer isso, a autora não vai fazer isso comigo!"kkkkkk Realmente, gente! Eu não imaginava que fosse sofrer tanto com o final deste livro. Vai demorar para eu conseguir superá-lo.

Não há nada mais que eu possa falar sobre a história sem correr o risco de soltar spoiler. Vocês podem ver que eu passo perto do spoiler nesta resenha, mas não chego a fazer nenhuma revelação importante, apenas passo bem pertinho disso.rs Dizer que o psicopata é quem eu menos queria, quem eu mais amava no livro, não significa dizer quem é, pois é impossível vocês saberem de qual personagem estou falando, exceto se já tiverem lido a história. :)

Se recomendo o livro? MUITO! Já quero ler outros livros da autora! 



18 de outubro de 2020

Colega de Quarto - Victor Bonini


Literatura Brasileira
Editora: Faro Editorial
Edição de: 2015
Páginas: 280

57ª leitura de 2020 (52ª resenha do ano)

Sinopse: Eric Schatz, carioca que se mudou para São Paulo por conta do curso universitário, começa a perceber indícios de que há mais alguém frequentando o seu apartamento. Primeiro, um par de chinelos. Então, uma outra escova de dentes. Depois, um micro-ondas que é ligado sozinho durante a noite, barulhos estranhos a qualquer hora e luzes que se apagam de modo misterioso. Até que, num final de tarde, Eric enxerga o vulto do colega de quarto entrar em seu apartamento pela porta da frente. Desesperado, o rapaz vai atrás de um detetive particular, mas parece ser tarde demais. Em menos de 24 horas, tudo acontece de modo acelerado e depois de uma ligação desesperada, cortada abruptamente, Eric despenca da janela do seu apartamento. Em seu livro de estreia, o autor nos apresenta uma história urbana de tirar o fôlego. Um mistério que passa por uma relação familiar complicada, suspeitas por todos os lados, e camadas e camadas de culpados. Há alguém inocente?





Lembro da primeira vez que vi este livro quando passei por uma galeria a caminho do meu estágio, alguns anos atrás. Até então não tinha ouvido falar da história, não sabia nada sobre o autor ou a obra e a capa simplesmente me atraiu. Muito! Então, quando li a sinopse descobri que precisava ler esta história, que tinha tudo para me envolver, para se tornar um dos meus livros de suspense preferidos! Realmente apostei tudo na obra, acreditando muito que iria amá-la. 

Por conta de outras leituras, não consegui ler o livro logo que o comprei e aí, com o passar do tempo, vi resenhas de outros livros do autor, como O Casamento e Quando Ela Desaparecer. Cheguei a pensar em comprar os referidos livros antes mesmo de ter lido Colega de Quarto, mas felizmente me segurei.rs 

E agora... Depois de ter concluído a leitura do livro... Não sei dizer qual livro de suspense me fez perder mais tempo este ano: se O Homem de Giz ou este sobre o qual agora escrevo. 

Sim, o livro se tornou uma grande decepção para mim. Principalmente porque eu estava cheia de expectativas. Porque acreditava com todo o meu coração que seria um 5 estrelas e favorito. Mas logo após as primeiras páginas já percebi o quanto estava equivocada em minhas esperanças. A história não era nada do que eu imaginava, a narrativa não me envolvia e os personagens eram caricatos e superficiais. Sem mencionar os diálogos! Eram a pior parte da história para mim, me faziam interromper a leitura e fechar os olhos, me recusando a acreditar que personagens adultos e supostamente maduros não sabiam conversar sem parecerem crianças birrentas. 

O livro traz o mistério em torno da morte de Eric Schatz, um estudante universitário que morava sozinho no seu apartamento num prédio de alto luxo, quando de repente começou a ser perturbado por estranhos acontecimentos. Primeiro apareceu no quarto de hóspedes um chinelo que ele nunca tinha visto. Depois, uma escova de dentes que não era sua. Micro-ondas sendo ligado de madrugada e o barulho da descarga, usada quando ele defnitivamente não estava no banheiro. Até que ele vê o vulto de um homem entrando em seu apartamento pela porta da frente. Apavorado, Eric procurou a ajuda de um detetive, sem saber no que acreditar: existiria alguém mais morando em seu apartamento? Ou... ele simplesmente estava enlouquecendo? 

Todavia, antes que pudesse obter as respostas que buscava, ele despenca da janela de seu apartamento, em aparente suicídio. É quando Conrado Bardelli, um advogado que também trabalhava como detetive particular, decide investigar o que haveria por trás da morte de Eric, até porque ele foi o detetive que o jovem procurou em busca de ajuda antes de supostamente resolver se suicidar. 

Durante suas investigações acaba esbarrando nos segredos de outras pessoas... e um crime é cometido, algo que pode ter ligação com a morte de Eric. São muitas as perguntas e vários os suspeitos. E ele não descansaria até descobrir toda a verdade. 

Sem somba de dúvidas, a premissa do livro era incrível e a sinopse faria qualquer pessoa desejar conhecer a história, pois prometia um suspense daqueles de nos deixar sem fôlego. O livro tinha potencial, motivo pelo qual dei 3 estrelas, mesmo não tendo gostado nada da leitura. 

O livro nos lembra as histórias da Agatha Christie, mas apenas isso. Só lembra, mas segue por um caminho bem diferente, com personagens de comportamento muito infantil e um detetive que rapidamente esquecerei e não desejarei reencontrar em nenhuma outra obra do autor. Sim, ainda pretendo dar outra chance a um livro do autor, mas apenas se não tiver esse detetive. Ele me desagradou desde o princípio. Talvez vocês não se lembrem, mas houve uma época em que comecei a ler uma série do James Patterson e que abandonei por conta do detetive idiota das histórias: o Alex Cross. Eu acreditava que ele seria o pior detetive que eu teria o desprazer de conhecer na minha vida como leitora, que nenhum outro conseguiria superá-lo em estupidez. Mas o Conrado Bardelli e o Alex Cross se dariam muito bem. Os dois são bem parecidos. Ambos são tão tolos que é difícil de acreditar que são os detetives das histórias, que tudo se "desvenda" graças a eles. Uma piada. Lembro de um livro no qual um vilão disse ao Alex Cross que ele era uma piada. É incrível como isso também se aplica perfeitamente ao Conrado Bardelli.rs

Estou sendo muito dura com o livro? Quem acompanha meu blog sabe que quando amo uma história eu digo com todas as letras, mas quando detesto também faço o mesmo. E não importa se o livro é inglês, alemão, americano, japonês, brasileiro ou o que seja. Têm leitores que consideram inaceitável fazer resenha negativa de um livro nacional e reagem com agressividade contra quem não enche o livro de elogios. Mas a leitura é algo pessoal e quem lê tem direito a sua opinião. 

Eu não gostei do livro. Achei o detetive uma piada e não recomendo a história. Se não fosse pelo potencial que o livro tinha sequer receberia 3 estrelas. Mas isso não significa que ao ler você terá a mesma opinião que eu. Existem muitos livros que eu amo e outras pessoas odeiam. É a vida.rs 



-> DLL 20: Um livro de suspense/terror

 

24 de janeiro de 2020

O Sorriso da Hiena - Gustavo Ávila

Literatura Brasileira
Editora: Verus
Edição de: 2017
Páginas: 266

5ª leitura de 2020

Sinopse: É possível justificar o mal quando há a intenção de fazer o bem?
Atormentado por achar que não faz o suficiente para tornar o mundo um lugar melhor, William, um respeitado psicólogo infantil, tem a chance de realizar um estudo que pode ajudar a entender o desenvolvimento da maldade humana. Porém a proposta, feita pelo misterioso David, coloca o psicólogo diante de um complexo dilema moral. Para saber se é um homem cruel por ter testemunhado o brutal assassinato de seus pais quando tinha apenas oito anos, David planeja repetir com outras famílias o mesmo que aconteceu com a sua, dando a William a chance de acompanhar o crescimento das crianças órfãs e descobrir a influência desse trauma no crescimento delas. Mas até onde William será capaz de ir para atingir seus objetivos? Em O sorriso da hiena, Gustavo Ávila cria uma trama complexa de suspense e jogos psicológicos, em uma história que vai manter o leitor fisgado até a última página enquanto acompanha o detetive Artur Veiga nas investigações para desvendar essa série de crimes que está aterrorizando a cidade.



Quando comecei a leitura deste livro não sabia bem o que esperar. Sabia, é claro, que se tratava de um suspense psicológico e este foi o meu principal motivo para apostar nele. Todavia, não sabia muito mais do que o que estava escrito na sinopse. Não imaginava que seria um livro tão brutal, que já começa com uma cena apavorante, que me fez perder o fôlego, em choque. 

"Era impossível distinguir o motivo do brilho nos olhos atrás da máscara. Havia, ao mesmo tempo, algo de vivo e de morto em seu jeito de olhar."

Um assassino extremamente sádico está destruindo famílias e traumatizando profundamente crianças de apenas oito anos, mas para ele tudo faz parte de um viciante jogo. Ele tem um plano. Nada foi feito por acaso e para conseguir atingir o seu objetivo final só precisaria de cinco crianças com o coração e a mente destroçados e um psicólogo disposto a fazer qualquer coisa "por um bem maior", até mesmo tornar-se cúmplice de um psicopata... ou não?

Marcelo, a primeira vítima, era apenas um menino de oito anos que tinha uma infância complicada por conta do pai agressivo e da mãe negligente, mas nunca imaginou passar por um pesadelo tão grande como o de estar amarrado e amordaçado enquanto um monstro mascarado cometia as piores crueldades contra as duas pessoas que ele mais amava na vida. E então o homem mau se foi... levando tudo... Deixando apenas o silêncio e uma dor confusa, pois não conseguia entender como podia existir pessoas tão malvadas, capazes de machucar quem não lhes tinha feito mal algum. Então, a polícia, que não fazia ideia de onde o assassino escondera os corpos dos pais do menino, decidiu que precisava que o menino traumatizado falasse e para isso nada melhor que encaminhá-lo para a terapia com o brilhante psicólogo infantil William, tão famoso no meio acadêmico, cujo maior sonho na vida é conseguir realmente ser capaz de ajudar os outros, mesmo que para isso precise seguir caminhos um tanto tortuosos. 

"Basta a vida tocar no lugar certo para despertar o pior em qualquer pessoa."

Ao receber o primeiro e-mail do assassino, ele sentiu como se alguém no mundo finalmente o entendesse e isso era assustador. Pior que isso era considerar a proposta do psicopata... O que ele se tornaria se aceitasse aquele acordo? Fosse qual fosse sua resposta, o monstro por traz daqueles e-mails seguiria matando. Mas se William aceitasse a proposta poderia tirar algum bem de todo aquele mal, como seu antigo professor dizia: "Não é errado usar uma coisa ruim pra fazer algo bom." Mas seriam os seus motivos tão altruístas assim, ou no fundo era mais parecido com o assassino do que suportaria admitir? 

Em meio aos assassinatos brutais cometidos por David e os dilemas morais de William, o detetive Artur Veiga tenta montar esse complexo quebra-cabeça e capturar o assassino que parece estar sempre um passo a frente da polícia.

"Um monstro assim pode estar em qualquer lugar."

Este é um livro que me causou grande angústia, pois, embora eu seja fã de suspenses psicológicos, não gosto quando há crianças no meio (motivo pelo qual até hoje não consegui ler o famoso "Quarto", mesmo tendo o livro há algum tempo). Se é difícil quando as vítimas são pessoas adultas, é insuportável quando elas são crianças. E aqui neste livro são meninos e meninas de apenas oito anos, que veem seus pais serem brutalmente assassinados e depois ainda precisam suportar assistir o assassino levar seus corpos para longe, enquanto ficam largados na cena do crime, esperando que alguém perceba que há algo errado e chame ajuda. São crianças que ficam quebradas pelo resto da vida, cuja lembrança daqueles momentos de horror nunca irá se apagar. Eu literalmente tremia só de imaginar o pesadelo que elas viveram, a dor insuportável de ver a vida se esvair do corpo daqueles que elas mais amavam: seus pais, seu porto seguro. Uma pessoa capaz de fazer isso com uma criança merece uma morte lenta e dolorosa... depois de passar muitos e muitos anos apodrecendo na cadeia!

"Você consegue entender por que eu estou fazendo isso? [...] Alguém entenderia?"

O psicopata desta história, como a sinopse bem diz, um dia foi uma vítima. Nós já começamos a leitura com a cena da morte terrível dos pais dele, executados diante dos seus olhos. É uma cena muito dolorosa e é preciso fechar o livro por alguns instantes e respirar fundo antes de continuar. Eu entendo que ele passou por uma dor insuportável, não consigo nem imaginar como foi difícil para ele crescer e seguir em frente. Um pesadelo como esse é impossível de superar, claro que entendo isso e sinto muitíssimo pela criança que ele foi, por tudo o que aquele monstro arrancou dele. Mas nada no mundo justifica o que ele fez com aquelas famílias inocentes... repetindo com outros o que fizeram com ele. Simplesmente se tornou tão demoníaco quanto o monstro que matou seus pais. Na verdade, se tornou alguém pior que ele... e David (o assassino) bem sabia disso. Mas precisava matar... não sentia prazer, mas necessidade. Principalmente depois que descobriu que poderia testar sua teoria. Queria descobrir se era um assassino por causa do trauma que sofreu ou se já nascera um monstro, se sua maldade era de nascença ou resultado da crueldade de outra pessoa. E nada melhor que observar o efeito da sua maldade naquelas crianças... enquanto acompanhasse o crescimento delas, depois da perda brutal dos pais. Não há dúvidas de que David não era apenas um ser humano profundamente cruel, incapaz de empatia, de sentir piedade. Ele também era muito doente, de uma forma assustadora. E conseguia se passar pela pessoa mais normal do mundo, o que acaba nos fazendo olhar ao nosso redor com mais atenção e... medo. 

"- Ainda há um coração batendo aí, sr. William. Não deixe ele endurecer, senão o senhor não vai poder ajudar ninguém."

Não há muito o que eu possa falar sobre o William sem dar spoilers. Apenas que meu sangue ferve quando penso neste personagem e a vontade de... Respira fundo, Luna! Paro por aqui, pois realmente correria o risco de dar muitos spoilers se falasse mais alguma coisa sobre o indivíduo. 

Já o detetive Artur Veiga... Ele é um homem que tem síndrome de Asperger e por conta disso possui dificuldades para interagir com outras pessoas, ser "sociável". Assim, é uma pessoa muito sincera (o que não é sempre uma boa coisa.rs), que fala o que pensa e entende tudo de maneira literal, para irritação de alguns de seus colegas, que são obrigados a suportar seu jeito duro e direto, já que ele é um dos melhores detetives do local. Embora seja brilhante, não é bom em lidar com as vítimas, preferindo se concentrar em solucionar os homicídios, já que para os sobreviventes traumatizados existiam os médicos. Seu papel, portanto, era pegar os criminosos. Não valia a pena esperar sensibilidade da parte dele, mesmo quando os sobreviventes eram crianças. Confesso que o jeito insensível dele me incomodou durante algum tempo, já que eu própria sou sensível, emotiva e não lido bem com pessoas frias. Mas ao longo da leitura eu passei a sentir uma espécie de carinho pelo personagem, pois sua inteligência, sua atenção aos detalhes e dedicação para solucionar o caso me impressionaram. Percebi que mais que demonstrar sentimentos, o importante para ele era parar o assassino antes que mais vítimas fossem feitas. E ao ver outras pessoas supostamente "sensíveis" provocarem mais estragos do que a insensibilidade dele seria capaz de causar, ele acabou se tornando o meu personagem preferido da história. Às vezes as pessoas que demonstram menos sentimentos são as que mais se importam, não é verdade? E aquelas que parecem tão boas... são verdadeiros demônios em pele de cordeiro. Não é algo que acontece só nos livros, infelizmente. 

"A vida simplesmente acertou o martelo no nervo certo, e o chute pegou o que estava pela frente."

Nem sei dizer o que neste livro causa mais frustração e sofrimento, se o fato do assassino parecer estar sempre em vantagem, conseguindo o que quer, ou a maneira como essas crianças e outras pessoas na história foram traídas. Como eu disse, é difícil falar de certas coisas sem dar spoiler e não quero estragar a leitura de ninguém. Por isso, não dá para explicar como certas cenas me revoltaram, como eu quis acabar pessoalmente com a vida de certos personagens. Enfim... Esta história mexeu muito comigo. Principalmente porque monstros como os presentes neste livro existem aos montes por aí. 

Gostei muito da escrita do autor e a maneira como ele explorou o psicológico de seus personagens, nos fazendo refletir sobre certas coisas e como todos nós somos capazes de tudo. A linha entre o certo e o errado nem sempre é tão óbvia e às vezes acaba sendo bem frágil, quase inexistente. A mente humana é complexa e pessoas boas podem sim se transformar naquilo que elas mais temem ou desprezam. 

O final deste livro foi simplesmente... Nossa! Vi poucos livros com um final tão perfeito, tão fechado e inesperado. Realmente não imaginava que fosse terminar assim! 

Quero ler outros livros do autor, mas precisarei de um tempo. Meu emocional não aguenta ler com frequência livros tão pesados assim. 



-> DLL 20: Um livro de autor brasileiro


28 de outubro de 2019

Ratos - Gordon Reece

Literatura Inglesa
Título Original: Mice
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Editora: Intrínseca
Edição de: 2011
Páginas: 240

Sinopse: Shelley e a mãe foram maltratadas a vida inteira. Elas têm consciência disso, mas não sabem de que forma reagir — são como ratos, estão sempre entocadas e coagidas. Vítima de um longo período de bullying que culminou em um violento atentado, Shelley não frequenta mais a escola. Esteve perto da morte, e as cicatrizes em seu rosto a lembram disso. Ainda se refazendo do ataque e se recuperando do humilhante divórcio dos pais, ela e a mãe se refugiam em um chalé afastado da cidade. Confiantes de que o pesadelo acabou, elas enfim sentem-se confortáveis, entre livros, instrumentos musicais e canecas de chocolate quente junto à lareira. Na noite em que Shelley completa dezesseis anos, porém, um estranho interrompe a tranquilidade das duas, e um sentimento é despertado na menina. O que acontece em seguida instaura o caos em tudo o que pensam e sentem em relação a elas mesmas e ao mundo que sempre as castigou. Até mesmo os ratos têm um limite.



Lembro com clareza do momento em que desejei este livro pela primeira vez. Foi no início de maio de 2016. Eu estava passeando pelo site da Saraiva quando me interessei por alguns livros que estavam com uma baita promoção, um deles foi A Lista do Nunca, de Koethi Zan, que estava custando menos de dez reais na época (sim!!!!) e tinha uma sinopse de causar arrepios. Então, quando coloquei este livro no carrinho apareceu como sugestão Ratos, de Gordon Reece. A sinopse me deixou LOUCA! Eu queria muito esse livro, mas o preço não estava muito bom. Decidi que poderia aguardar uma promoção... aí quando resolvi comprá-lo apareceu como esgotado. 

Foi somente no ano passado que uma moça anunciou que estava vendendo alguns de seus livros no Facebook e eu o vi entre eles. Claro que não poderia deixar a oportunidade única passar e o adquiri por um preço que valeu a pena. Quis lê-lo imediatamente, mas as outras metas literárias me impediram. O que não foi tão ruim assim, pois acho que alguns livros acabam sendo lidos nos momentos certos...

"Não procurávamos um lar. Procurávamos um lugar onde pudéssemos nos esconder."

Shelley, uma adolescente de quinze anos, sabe o real significado da palavra sofrimento. Enquanto era obrigada a lidar com o pesadelo do divórcio dos seus pais e da briga dele por sua guarda, como forma de mostrar a sua mãe que podia vencê-la em tudo, ainda precisava esconder da mãe o terror que vivia todos os dias no colégio, vítima de agressões praticadas por aquelas que durante anos frequentaram sua casa, que foram suas "melhores amigas", com quem dividira segredos, com quem acreditara que sempre poderia contar. 

"Eu não imaginava o quanto os sentimentos delas por mim se tornaram nocivos. E não imaginava o perigo que corria."

No começo toda aquela violência a chocou muito mais do que feriu. Ela não conseguia entender o que fizera para despertar tanto ódio, como elas podiam fazer aquilo com ela. Mas com o tempo tudo foi piorando. Não se tratava mais de uma violência, de uma agressão verbal ou de vandalizarem seus objetos escolares. Não. Tudo se transformou em ataques diretos ao seu corpo. Não se contentavam mais em assustá-la, queriam machucá-la, fazê-la gritar de dor, fazê-la chorar. E então... o pior aconteceu e as cicatrizes em seu rosto e pescoço ainda contavam a história do dia em que Shelley quase morreu. 

Seu pai já tinha ido embora fazia algum tempo e nem se preocupara em ligar para saber se ela estava se recuperando. Tudo o que o interessava, desde que trocara dezoito anos de casado por uma qualquer, era agradar sua amante e lhe agradava muito ver Shelley fora de suas vidas. Ele já tinha arrancado delas todo o dinheiro que podia e até a casa na qual a filha crescera, tornando o que antes era seu lar em motivo de briga no divórcio. E no momento em que percebeu que não podia tirar a menina da mãe, mesmo com toda a sua experiência profissional (era um brilhante advogado), resolveu que castigaria a filha com sua ausência, fazendo de conta que ela estava morta. 

"Quando ele a abandonou, ela estava com quarenta e seis anos. Seu conhecimento jurídico estava completamente desatualizado - abandonado como uma fruta que apodrece no pé. Seu registro profissional não era renovado havia quatorze anos."

Ela sabia que seus pais haviam se conhecido na mesma firma de advocacia. Sua mãe era uma jovem profissional brilhante, com todo um futuro de sucesso pela frente. Mas o pai de Shelley surgiu em sua vida e em pouco tempo já estavam noivos. Embora fosse muitíssimo inteligente, Elizabeth não tinha forças para desagradar as pessoas. Não sabia dizer "não" e foi assim que, prestes a ser transformada em sócia na firma, ela se deixou convencer pelo marido a abandonar a profissão. A filha precisava dela em casa, ele disse. Podia sustentá-las. Ela não precisava trabalhar. Não passava de uma manobra para impedi-la de crescer profissionalmente, pois invejava o seu talento, invejava a sua inteligência. E conseguira sufocá-la, matar cada um dos seus sonhos. 

Ao ser abandonada pelo marido com não muito dinheiro após todos os anos de dedicação, Elizabeth não fez mais que se conformar. Ao longo do tempo se acostumara a aceitar tudo o que a vida tivesse a oferecer, sem nunca levantar a voz, sem se revoltar, sem dizer "já chega!". Assim, pegou a filha que se recuperava do bullying que quase a matou e foi em busca de uma nova casa onde pudessem morar... longe de todos. Bem longe da realidade cruel do mundo. Não queria enfrentar a vida. Não tinha forças para isso. Só queria fugir. Se esconder. 

"Docilmente, aceitamos, submetemo-nos, calamo-nos, não dissemos nada, não fizemos nada, porque a mansa submissão é tudo o que os ratos conhecem."

Quando a polícia não fez nada contra as agressoras e o colégio também se isentou de quaisquer responsabilidades, ela apenas abaixou a cabeça e aceitou tudo em silêncio, mesmo sendo uma advogada. Foi Shelley quem precisou sair do colégio, foi ela quem pagou pelos crimes das outras garotas, tendo que viver isolada de tudo e de todos, sendo visitada apenas por dois professores que deveriam prepará-la para os exames finais. Mas Shelley não se revoltava contra nada daquilo, contra toda aquela injustiça. Sabia que era um rato como sua mãe e ratos nunca enfrentam seus opressores... Ou será que sim? Será que até mesmo os ratos possuem um limite?!

"Quando um gato invade a toca de um rato, ele não vai embora sem fazer mal nenhum. Eu sabia como aquela história terminaria. Ele me estupraria. Ele estupraria minha mãe. E nos mataria."

Quando aquele homem invadiu sua casa, na madrugada de seu aniversário de dezesseis anos, Shelley soube que era o fim. Não adiantava fugirem da violência do mundo, pois até mesmo ali, naquele lugar tão afastado de todos, o mal conseguira atingi-las. Onde estava a justiça? Onde estava Deus?

"Percebi que não tremia de frio. Eu tremia de medo."

Embora não tenha superado minhas expectativas, este é sem sombra de dúvidas um thriller psicológico que vale muito a pena ler. Eu já tinha uma ideia do que aconteceria, pois a própria sinopse nos entrega muita coisa, mas o desenrolar dos acontecimentos é que torna a história tão fascinante. É impossível não sentirmos compaixão da Shelley e da mãe dela... ao mesmo tempo em que sentimos medo dessa personagem adolescente, dessa menina que após ser vítima de tantas violências se tornou capaz de qualquer coisa. Mas como culpá-la?! Como dizer que ela não tinha o direito de dizer: "Chega! Agora não vou mais aguentar tudo em silêncio. Eu vou me defender!" 

"Eu já não seria vítima de ninguém. Nunca mais."

Não diria que no lugar das protagonistas desta história eu teria agido diferente. Até porque era uma questão de defesa pessoal, de sobrevivência. Eu já estava cansada de vê-las permitindo que as pessoas as machucassem, que todo mundo se aproveitasse da vulnerabilidade delas. Entendo porque a Shelley as considerava "ratos". Elas estavam sempre ocupando a posição de vítimas, se escondendo em vez de enfrentar seus agressores, aceitando todas as injustiças, as perseguições, o abuso de patrões que pagavam o mínimo possível por um trabalho que a mãe da Shelley sabia que valia mais (ela recebia menos que as secretárias e fazia todo o trabalho de uma advogada). Então, quando elas finalmente agiram, quando resolveram se defender, pela primeira vez na vida, eu fiquei, de certa forma, feliz. Não foi uma felicidade completa, pois infelizmente os acontecimentos daquela madrugada marcariam suas vidas para sempre. E não de um modo bom, apesar de tudo. 

"A realidade era exatamente o oposto da ordem e da beleza; era o caos e o sofrimento, a crueldade e o horror."

Se você acha que pelo que falei já sabe tudo o que acontecerá no livro está muito enganado. A história tomará determinados rumos e quando você acreditar que nada mais poderá acontecer, que o autor só falará de "grandes nadas" até as páginas finais acabará se surpreendendo muito, pois antes do final o livro dará uma baita reviravolta! Eu definitivamente não esperava por nada daquilo. 

Elizabeth e Shelley são duas personagens que nos comovem. Embora queiramos sacudi-las por aceitarem tanta maldade também sentimos vontade de protegê-las durante boa parte do livro... mesmo após os acontecimentos da madrugada do aniversário da menina. Elas crescem bastante ao longo da história, aprendem a se impor, a não aceitar mais tudo caladas, mas ainda assim eu quis protegê-las, mesmo sentindo certo medo da Shelley.rs A verdade é que essa menina não passa de o resultado de tanta violência, de ter sido vítima de muitas crueldades. Não a culpo pelas escolhas dela e nem posso falar tudo o que gostaria para não dar spoilers importantes, mas apesar de compreender a personagem, penso que ela acaba se tornando um perigo para si mesma. 

"Acreditamos ter todo o controle, mas, na verdade, não temos nenhum."

Recomendo este livro para quem gosta de thrillers. Apesar de não ser tão pesado quanto A Lista do Nunca, por exemplo, possui algumas cenas fortes. 

24 de junho de 2019

A Mulher na Janela - A. J. Finn

Título Original: The Woman in The Window
Tradutor: Marcelo Mendes
Editora: Arqueiro
Edição de: 2018
Páginas: 352
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Anna Fox mora sozinha na bela casa que um dia abrigou sua família feliz. Separada do marido e da filha e sofrendo de uma fobia que a mantém reclusa, ela passa os dias bebendo (muito) vinho, assistindo a filmes antigos, conversando com estranhos na internet e... espionando os vizinhos. Quando os Russells – pai, mãe e o filho adolescente – se mudam para a casa do outro lado do parque, Anna fica obcecada por aquela família perfeita. Até que certa noite, bisbilhotando através de sua câmera, ela vê na casa deles algo que a deixa aterrorizada e faz seu mundo – e seus segredos chocantes – começar a ruir. Mas será que o que testemunhou aconteceu mesmo? O que é realidade? O que é imaginação? Existe realmente alguém em perigo? E quem está no controle? Neste thriller diabolicamente viciante, ninguém – e nada – é o que parece. 



Quando este livro foi lançado eu li muitas resenhas sobre ele. A maior parte delas dizia maravilhas do livro, ao ponto de o considerar um dos melhores thrillers lidos, favorito do ano e coisas assim... Como sou uma apaixonada por suspenses, sobretudo os psicológicos, fiquei morrendo de vontade de ler a história, queria amar o livro também, me surpreender como outros leitores tinham se surpreendido, ficar fascinada com os acontecimentos... Enfim... Desejei tanto o livro que o adquiri e passei na frente de outros suspenses que estavam na pilha de leitura há muito mais tempo. O resultado? Uma baita decepção! Este livro até pode ser o favorito de muitos leitores, mas de modo algum entrou para a minha lista de amados. No máximo, merece 3 estrelas. Isso porque estou boazinha. Porque, para ser sincera, não o considero sequer digno disso. 

Eu comecei a leitura predisposta a amar o livro. Estava muito empolgada e o bom é que não conhecia spoilers. Se peguei spoiler em algum momento não me recordo, portanto, a história toda seria uma surpresa para mim. Só que logo nas primeiras páginas notei que as coisas não seriam bem como eu imaginava. A leitura era lenta, arrastada, do tipo que você não tem muito ânimo de seguir sem interromper, sabe? Eu conseguia me separar da história com tranquilidade, sem nenhum desejo de virar a noite lendo ou deixar de fazer outras coisas para estar com o livro. Pelo contrário! Quando o largava para ler outra coisa sentia até certo alívio. Sério. E isso é péssimo. Detesto quando pego um livro que só me provoca decepções e tédio. 

10 de maio de 2019

Flores Partidas - Karin Slaughter


Título Original: Pretty Girls
Tradutora: Carolina Caires Coelho
Editora: HarperCollins
Edição de: 2016
Páginas: 464
Onde comprar: Amazon

Sinopse: Irmãs. Estranhas. Sobreviventes. Quando Lydia contou para a irmã que o cunhado havia tentado estuprá-la, Claire não acreditou. Dezoito anos depois, porém, tudo o que Claire achava saber sobre o marido se prova uma mentira. Quando vídeos escondidos no computador de Paul mostram uma face terrível do homem que ela julgava conhecer, Claire percebe que o drama de sua família tem muitas camadas que precisarão ser descobertas antes que a assustadora verdade por fim venha à tona. 




Eu não deveria estar escrevendo esta resenha hoje, pois estou tão triste que até escrever é difícil. Me sinto meio entorpecida, como se meu corpo estivesse tentando se manter longe de tudo mesmo com todo este peso emocional em cima de mim. São muitos problemas na família. Problemas sérios, a maioria de saúde. Tudo aconteceu de uma vez e como são pessoas da minha família, que eu amo, acabo sendo atingida fortemente pela dor e pela preocupação. Tentando manter a fé em Deus, de que tudo ficará bem. Mas é difícil. Muito difícil. 

"Aquela era a maneira como um ser humano ficava quando partia para um mundo que não o valorizava, não o amava, não queria que ele voltasse para casa. Sua mãe estava certa. Os detalhes acabaram comigo."

Claro que não era o momento certo para ler um livro de suspense tão forte e doloroso. Mas eu estava querendo mergulhar numa história que me fizesse pensar apenas nos problemas dos personagens e esquecer os meus próprios. De certa forma funcionou. Enquanto lia esquecia minha própria vida. Todavia, esta história acabou por me fazer pensar em outras vidas. Em outras famílias.... Nas milhares, talvez milhões, de pessoas desaparecidas neste mundo imenso. Quantas devem ter desaparecido hoje? Quantas vão sumir amanhã e depois, depois, depois... Quantas estão presas em algum lugar neste exato instante, implorando por uma ajuda que nunca irá chegar? Sabemos que pessoas que somem raramente são encontradas com vida. Existem muitas famílias espalhadas pelo mundo que nunca tiveram o consolo de um corpo sobre o qual chorar, de um túmulo para visitar, pois seu ente querido nunca foi encontrado. Isso dói na alma. Se você possui um coração com certeza não consegue se manter indiferente a tanto sofrimento. Quase todos os dias da minha vida eu penso nas pessoas que estão sofrendo aí fora, sendo maltratadas e assassinadas por algum monstro chamado de ser humano. Deixei de assistir jornais, por não suportar mais tanta crueldade. Fico pedindo para minha família não comentar comigo sobre as notícias que viram ou leram, tenho tentado me afastar desta realidade tão brutal em que vivemos, num mundo em que você sai sem saber se vai voltar, um mundo no qual o medo vem fazendo parte da vida das pessoas. 

21 de maio de 2018

A Filha - Jane Shemilt

(Título Original: Daughter
Tradutora: Carolina Raquel Caires Coelho
Editora: HarperCollins
Edição de: 2015)


A NOITE DO DESAPARECIMENTO
Ela me contava tudo

A polícia, a foto dela. Isso vai ajudar.
Mas a foto não mostra como seu cabelo brilha como ouro sob o sol. 
Ela tem uma pintinha bem embaixo da sobrancelha esquerda.
Ela tem um leve perfume de limão.
Ela rói as unhas.
Ela nunca chora.
Ela ama o outono, eu quis contar aos policiais. 
Ela coleciona as folhas que caem, como uma criança. Ela é só uma criança. 
POR FAVOR, ENCONTREM MINHA FILHA.

UM ANO DEPOIS

Naomi permanece desaparecida. Jenny, sua mãe, está obcecada. A família se despedaçou. Será que descobrir a verdade sobre Naomi é a única forma de salvar essa família? Ou a verdade vai destruí-la de vez?




Palavras de uma leitora...



- Sabe aquele livro que você compra por impulso, sem nunca sequer ter ouvido falar? Foi bem o que aconteceu quando vi A Filha pela primeira vez. Não fazia ideia se era um livro querido ou não pelos leitores. Esbarrei nele. Sua capa me chamou a atenção ao indicar um suspense e aí li a sinopse. Confesso que a sinopse em si não me animou muito (achei confusa), mas comprei mesmo assim. Era um suspense sobre o desaparecimento de uma adolescente. A curiosidade e o meu fascínio por thrillers venceram.rs

Ainda estou um tanto em choque pelo final. A ficha está demorando para cair. Quando iniciei a leitura acreditei que descobriria o que tinha acontecido fácil, fácil. Ou que, pelo menos, chegaria bem próximo. Afinal de contas, já estou tão acostumada com esse gênero que ao prestar atenção aos detalhes e as pistas dadas pelos autores passo bem perto da verdade, isso quando não acerto. Pensei mesmo que seria igual. Ledo engano!kkkkkkkkk... E olha que a autora realmente dá pistas! Só que ela constrói a teia de tal maneira, intercalando passado e presente, em capítulos curtos, mostrando tudo do ponto de vista da protagonista... num emaranhado de segredos que vão sendo revelados lentamente... que acabamos não prestando atenção em tudo ou achamos que tal coisa não é importante. Que foi apenas algo jogado no livro para encher as páginas. Que nada! Eu fui muito ingênua e por isso fiquei de queixo caído quando as peças do quebra-cabeça foram se encaixando. Eu não pude prever aqui. E mesmo quando a verdade foi se desenrolando eu segui estando despreparada para a maneira como tudo terminaria. 

"As sextas-feiras ainda machucam."

Quando ela saiu pela porta naquele dia, uma quinta-feira, Jennifer não se preocupou. Era a penúltima noite de apresentação. Sua filha era a atriz principal da peça de teatro interpretada no colégio. Naquela quinta-feira seu pai não a buscaria, pois ela voltaria em grupo com amigos. Iriam jantar antes e ela estaria em casa às onze e meia da noite. Não havia motivos para preocupação. Só que Naomi não voltou. 

"E durante todo o tempo, eu ouvia seus passos; ela poderia chegar a qualquer momento, com uma desculpa pronta, surpresa com a comoção. E tudo isso desapareceria como um pesadelo."

Enquanto aguardava a filha, Jennifer acabou adormecendo. Estava esgotada após mais um dia difícil na clínica e embora tivesse toda a intenção de estar desperta quando Naomi chegasse o cansaço acabou por vencê-la. Acordou por volta das duas horas da madrugada de sexta-feira. E sua filha não estava em casa. 

Com o pânico acelerando seu coração e tentando bloquear as imagens ruins que começaram a se formar em sua mente, Jennifer tenta localizá-la através de amigos, o que não dá em nada. Sem outra alternativa senão acionar a polícia, ela vê sua vida até então perfeita transformar-se num verdadeiro inferno. Onde ela estaria? O que teria acontecido com sua menina? Ela só tinha 15 anos. Não podia estar perdida por aí, longe da segurança de sua casa. Alguém precisava encontrá-la! Ela precisava da sua filha! Queria sua menina de volta!

"Eu queria morrer, mas sabia, naquela época, como agora, que um dia eu poderia olhar para a frente e ela estaria ali, na porta."

As buscas começam. A polícia, a mídia, todos são envolvidos. Todos no colégio foram interrogados. Amigos, professores, vizinhos, a família... A investigação cobria todos os cantos, mas não avançava. Quanto mais o tempo passava pior era a possibilidade. E um ano mais tarde Naomi ainda não havia sido encontrada. 

"Seria possível que ela tivesse percebido no fim, se tivesse havido um fim, que seu coração estava desacelerando? Há sangue suficiente num cérebro agonizante para registrar que o coração parou?"

Tudo ruiu com ela, no momento do seu desaparecimento. Tudo o que Jennifer tinha e dava como certo desabou. Ao longo dos meses de investigação e procura ela percebeu que não conhecia de verdade as pessoas a sua volta. Nem mesmo sua própria família. Porque nunca notara os sinais... De que todos estavam mentindo. 

O que realmente acontecera com Naomi? Existia a chance de que alguém conhecido fosse o responsável? Por que sentia que Nkita, melhor amiga de sua filha, estava escondendo alguma coisa? E Ed, seu filho, por que seu comportamento se alterara tanto? Onde realmente Ted, seu marido, estava na noite em que a filha desapareceu? E Theo? Havia realmente inocência nas fotos que ele tirara de Naomi, sua irmã, para uma exposição artística? Eram muitas perguntas. Várias dúvidas. Em quem acreditar? O que não estava enxergando? 

"Fiquei na cozinha sozinha e ele veio. O medo forte, repentino e devastador."

A história começa no ano de 2010, doze meses após o desaparecimento de Naomi. A polícia parecia andar em círculos, não chegando a lugar algum. E o tempo era implacável, levando Jennifer, nossa protagonista, ao completo desespero. Porque quanto mais os meses se passavam maiores eram as chances de que sua filha estivesse morta. Não saber era o pior de tudo. Porque dava a sua mente a oportunidade de criar diversas imagens, umas mais assustadoras do que outras. Ela morria aos poucos imaginando as diferentes formas que sua menina poderia ter morrido... ou vendo imagens dela presa em algum lugar, assustada e sentindo dor. Precisava saber. Tinha que saber o que havia acontecido com ela ou enlouqueceria. 

"Quando a bile subiu pela garganta e pelo nariz, pensei de repente que aquele podia ser o momento em que ela estava morrendo, e por isso eu tinha a sensação de estar morrendo."

No intuito de aumentar o suspense e ir desvendando os segredos do livro camada por camada, além de nos levar à loucura, a autora vai intercalando, cuidadosamente, acontecimentos do passado e do presente. Os capítulos são curtos. Ora acompanhamos a vida da Jennifer atualmente, em 2010, ora voltamos ao ano de 2009. Caminhamos da noite do desaparecimento para trás, voltando, inclusive, dezessete dias antes. 

"No dia 2 de novembro, um ano atrás, eu não tinha como saber que tínhamos apenas mais dezessete dias."

Ingenuamente podemos pensar que essa volta no tempo não é tão importante assim para o livro. Dezessete dias antes? Mostrando cenas aparentemente normais, de dias quaisquer? Que importância isso poderia ter? Eu fui tão tonta!kkkkkk... Não notei. Passei longe de perceber o quanto cada instante era significativo para fazer e desfazer a trama... eu pensava que a intenção da autora era aumentar o número de páginas e ao mesmo tempo ir revelando segredos da família e das pessoas à volta. Não imaginava qual era a grande verdade escondida naquelas semanas que antecederam o desaparecimento de Naomi. 

"Em algum lugar, ela podia estar sussurrando meu nome."

Este livro é um thriller psicológico top de linha, gente! Eu até mesmo demorei um pouco a considerá-lo realmente um thriller psicológico, por ser de certa forma bem diferente daqueles que eu estava acostumada a ler. Todavia, por ter os elementos esseciais de tal gênero o considerei como tal.

Tudo é narrado em primeira pessoa pela Jennifer, mãe da menina desaparecida. E isso nos coloca em contato direto com seus pensamentos e sentimentos. O que abala nossas estruturas. Foi bem difícil acompanhar a dor dessa mãe, a sensação de culpa e impotência... a forma como ela deixa de viver, de sentir prazer em qualquer coisa, pois passa dia após dia esperando que sua filha volte, que esteja bem... mesmo sabendo, nos momentos de maior dor, que isso é praticamente impossível. Que as chances são mínimas. 

"O que eu tinha perdido? Quais pistas eu precisava entender antes que fosse tarde demais?"

A construção da história e dos personagens foi primorosa. Embora vejamos tudo do ponto de vista da Jennifer, os demais membros da família, bem como outros personagens, têm papéis significativos e personalidades próprias perfeitamente moldadas pela autora. Porque tudo precisava estar em seus devidos lugares para criar o que ela pretendia. E ela foi muito bem-sucedida. 

O suspense do livro quase me matou, claro.kkkkkkk... Os que mais me abalam são justamente os que se desenvolvem lentamente. Quando o livro é mais ágil, corrido, as cenas de ação me provocam um golpe atrás do outro, meu coração acelera e fico agitada, gelada, nervosa querendo saber e ao mesmo tempo temendo o que vem a seguir. Só que em livros em que os autores optam por uma narrativa mais lenta, desconstruindo tudo devagar, pouco a pouco mesmo... eu quase surto. Porque o suspense atinge um nível insuportável para mim.kkkkk... Eu fico mais tensa, temendo até o movimento mais inofensivo de cada personagem, como se a qualquer momento a bomba fosse explodir, entende? É angustiante isso.rs

"[...] o rosto dela está em todos os lugares. Às vezes, a necessidade de saber o que aconteceu é mais forte do que consigo aguentar."

Existem muitas coisas sobre as quais eu gostaria de comentar. Só que sinto que posso acabar revelando demais, uma vez que coisas aparentemente sem importância têm sim motivo para estarem no livro. Isso me limita na hora de escrever a resenha, pois em thrillers psicológicos o suspense é essencial e se eu falar demais estrago tudo. É aquele gênero em que spoiler realmente prejudica. 

- Não amei a protagonista em todos os momentos. Apesar de ter dado 5 estrelas ao livro (seria impossível não fazer isso, pois é maravilhoso!), existiram determinadas cenas em que tive vontade de esganar a Jennifer. Pela maneira como ela ficava apática, aceitando a culpa que lançavam sobre ela. Tudo tinha desmoronado, sua vida era um inferno, só Deus sabia o que tinha acontecido com sua menina, mas os outros estavam preocupados em culpá-la de uma forma ou de outra e ela aceitava isso! Não fazem ideia de quanta raiva eu sentia nesses momentos! Como todo ser humano e todas as mães, Jennifer não era perfeita. Cometia erros sim. E tinha todo o direito do mundo de ter uma carreira, trabalhar fora, ter o próprio hobby se quisesse. Ser mãe não a impedia de ser mulher e ser profissional. Mas todos queriam era jogar sobre seus ombros a culpa por tudo. Porque se ela estivesse em casa, se fosse presente teria evitado a tragédia. Pura hipocrisia isso! Nenhuma mãe é obrigada a abrir mão do trabalho só porque tem filhos. Eu não culpei a Jennifer em nenhum momento. Ela tinha suas falhas, não era uma máquina (sendo que até as máquinas falham), e não enxergava tudo, mas criara três filhos da melhor maneira que conseguiu. Cada qual tinha sua própria personalidade e ela não podia estar 24 horas do dia com eles, para saber tudo, para ver se alguém olhava para um deles de forma diferente, para adivinhar que alguém pretendia fazer algum mal. Como se não bastasse toda a dor que era obrigada a suportar ainda tinha que conviver com a culpa que jogavam sobre seus ombros e ela aceitava. Imaginem como não foram os dias dela! :(

Eu não sei se "amo" (bem entre aspas!) ou odeio com todas as minhas forças o final.kkkkkk... Como eu disse para vocês fiquei em choque. Não que eu não tivesse considerado aquilo. Quando lemos um livro de suspense aprendemos a suspeitar de tudo e todos e imaginar diversos finais. Claro que eu tinha pensado em algo do tipo, ainda assim foi um choque. Eu já tinha aprendido a odiar tal personagem... conforme o livro se desenvolvia, minhas desconfianças sobre o personagem aumentavam. Mesmo assim eu ainda duvidei, pensei que estava pegando implicância à toa. Mas não! Tinha realmente motivos para odiá-lo. Só que a autora solta as pistas tão lentamente e gira em torno de todos que é impossível não ficarmos horrorizados com a maneira como tudo termina, quando há o desfecho. Eu pensei naquela possibilidade, mas não podia prever que seria como foi. 

Já sabem que recomendo, certo? :) Quero ler outros livros da autora!



Com esta leitura cumpri o tema do mês de maio do Desafio 12 Meses Literários. E foi uma excelente escolha! :D

13 de fevereiro de 2018

Entre Quatro Paredes - B. A. Paris

(Título Original: Behind Closed Doors
Tradutor: Roberto Muggiati
Editora: Record
Edição de: 2017)


Grace é a esposa perfeita.

Ela abriu mão do emprego para se dedicar ao marido e à casa. Agora prepara jantares maravilhosos, cuida do jardim, costura e pinta quadros fantásticos. Grace mal tem tempo de sentir falta de sua antiga vida.

Ela é casada com Jack, o marido perfeito.

Ele é um advogado especializado em casos de mulheres vítimas de violência e nunca perdeu uma ação no tribunal. Rico, charmoso e bonito, todos se perguntavam por que havia demorado tanto a se casar.

Os dois formam um casal perfeito.

Eles estão sempre juntos. Grace não comparece a um almoço sem que Jack a acompanhe. Também não tem celular, que ela diz ser uma perda de tempo. E seu e-mail é compartilhado com Jack, afinal, os dois não guardam segredos um do outro. Parece ser o casamento perfeito. 

Mas por que Grace não abre a porta quando a campainha toca e não atende o telefone de casa? E por que há grades na janela do seu quarto?

Às vezes o casamento perfeito é a mentira perfeita.



Palavras de uma leitora...


- Como escrever se ainda estou tremendo? Se me sinto sem fôlego, com o coração querendo sair pela boca? Se ainda não acredito no que li? Em algo tão... tão... 

"- Eu desprezo homens que tratam suas esposas com violência - declara Jack, com firmeza. - Eles merecem pagar por tudo que fizeram."

Quando o viu pela primeira vez, Grace se sentiu imediatamente atraída por Jack, embora não tivesse alimentado qualquer esperança de conquistá-lo. Ele não a olharia duas vezes. Existiam mulheres bem mais interessantes naquele parque e, além disso, ela tinha Millie. 

Perdera a conta de quantos relacionamentos terminaram abruptamente quando seus companheiros ficaram sabendo da existência de sua irmã, uma menina linda, portadora da Síndrome de Down. Embora desejasse com todo o seu coração casar e ter filhos, abrir mão de Millie não era uma opção. Desde que ela nasceu, Grace a criava como filha, pois seus pais não desejavam criar outra criança e planejaram entregar a bebê para adoção. Transtornada com a decisão deles, Grace lutou com todas as suas forças e recorreu a uma atitude desesperada, conseguindo que eles voltassem atrás. Todavia, daquele momento em diante, a menina passou a ter somente a irmã, que a amava mais do que a própria vida. 

Após seu namoro mais recente e duradouro também ter chegado ao fim, ela começou a acreditar que terminaria sozinha. E não foi sem surpresa que aceitou a aproximação de Jack, que, diferente de todas as pessoas que tinham cruzado seu caminho, parecia nutrir um afeto por Millie, aceitando-a como parte de Grace. 

"Havia algo de conservador no jeito de Jack que eu achava revigorante: ele abria as portas para mim, me ajudava a vestir o casaco e mandava flores. Ele fazia com que eu me sentisse especial, amada, e, o melhor de tudo, adorava Millie."

Mal podendo acreditar em sua sorte, Grace se sentiu no céu durante os meses de namoro. Quando via a maneira linda como ele tratava sua irmã, compreendendo-a, amando-a como se também fosse parte da família dele, ela soube que tinha feito a escolha certa. Assim, quando ele a pediu em casamento, ela aceitou. Como dizer não? Como não realizar seu maior sonho se, apesar do pouco tempo que o conhecia, Jack se mostrava exatamente o homem que ela tanto tinha esperado? Estava apaixonada. E se sentia amada como jamais tinha se sentido na vida. Sabia que aquele era apenas o início de um casamento maravilhoso. 

"São noites como essa que me fazem lembrar por que me apaixonei por ele. Charmoso, divertido e inteligente, Jack sabe exatamente o que dizer e de que forma dizer."

Sempre que estava ao seu lado, ela se sentia protegida, como se nada no mundo jamais pudesse ameaçar sua felicidade. E como não se sentir assim? Jack era um advogado famoso, especializado em Direito Penal, defendendo mulheres vítimas de agressão e nunca perdia um caso. Se tinha alguém que ela sabia que não a machucaria era ele. 

Tal era a confiança que seu sorriso amoroso e seus olhares ternos lhe passavam, que ela não discutiu quando ele a pediu para abandonar o emprego. Ela procurou entendê-lo. Realmente viajava muito e se seguisse assim, eles passariam mais tempo separados do que juntos. Além disso, ela própria não suportava a carga de trabalho. O aceitara por causa de Millie, para poder pagar a escola na qual ela estudava e custava muito caro. Ela fizera enormes sacrifícios e se esforçara muito para ocupar a importante posição que hoje possuía na empresa, mas não precisava mais daquilo. Poderia relaxar um pouco. Depois consideraria arrumar outra coisa. Foi só o início. 

Logo ele sugeriu que ela vendesse a casa que tinha e aceitasse que ele lhe desse outra de presente de casamento. A casa dos seus sonhos. Não no centro de Londres, mas afastada de toda aquela agitação, onde pudessem ter privacidade como casal. Por mais que não quisesse se desfazer da casa, Grace aceita e entrega o dinheiro da venda a ele, para comprarem os novos móveis. 

Tudo parecia perfeito. Apesar das coisas que se viu obrigada a abandonar para agradá-lo, ela estava convencida que tinha tomado a melhor decisão. Feliz, com um sorriso estampado no rosto, ela caminhou em direção ao seu futuro, mas antes mesmo que dissesse "sim", seu lindo sonho começou a virar um pesadelo. 

"Onde estava o perfeito cavalheiro que eu tinha conhecido? Tudo não passara de uma fachada?"

Embora um acontecimento inesperado e as atitudes de Jack no dia do casamento a tenham desestabilizado, foi somente na lua de mel que Grace finalmente descobriu quem era o homem com o qual havia se casado. Desesperada, com o pânico ameaçando sufocá-la, ela tenta fugir, mas é tarde demais. Percebe que caíra numa armadilha. E arrastara sua irmã com ela. 

"- Eu não estou entendendo - falei, reprimindo um soluço - O que você quer?
- Exatamente o que eu tenho: você e Millie."

Agora, um ano mais tarde, Grace é a esposa perfeita. Não tem mais amigas, pois estava tão ocupada com as delícias de seu casamento, que não tinha tempo para elas e não foi uma surpresa quando, pouco a pouco, elas se afastaram. Já não tinha celular como no passado, pois percebera que aquilo era uma total perda de tempo. As pessoas de antigamente viviam sem eles, não é mesmo? E sua conta de e-mail é partilhada com Jack, pois eles sempre dividem tudo, não há espaço para segredos em suas vidas. Se perguntassem para alguém, todos responderiam que jamais viram Grace ir a um lugar sem Jack e que achavam aquilo muito romântico. 

Ela era uma excelente anfitriã quando recebiam em sua casa os amigos de Jack. Todas as mulheres a invejavam e desejavam estar em seu lugar. Ela brilhava, conduzindo todo o jantar e as conversas com perfeição. Mas quando as visitas iam embora e a porta era trancada, todo o seu inferno recomeçava. Com as persianas fechadas e o alarme ligado, Jack estava novamente livre para fazer tudo o que mais apreciava... Porém, todo o terror que ela vivia dia após dia ao lado de um psicopata não se comparava ao que a esperava dali a alguns meses, quando Millie deixasse a escola para morar com eles. Ela sabia que precisava correr contra o tempo. Fugir era sua única opção. Mas como fazer isso se todas as suas diversas tentativas tinham sido frustradas e só lhe provocaram mais sofrimento? Como escapar daquele inferno se Jack estava sempre um passo à frente? 

"Muitas vezes penso em matá-lo, mas não consigo. Para começo de conversa, não tenho os meios necessários. Não tenho acesso a remédios, facas ou outros instrumentos mortais, porque ele tomou todas as precauções possíveis."

- Durante a leitura deste thriller angustiante, é muito fácil nos sentirmos como a Grace: presas. A sensação é claustrofóbica, como se o ar não entrasse em quantidade suficiente nos pulmões, como se fôssemos sufocar. A situação dela é desesperadora, pois não importa o que ela faça, o quanto tente e arrisque, não há saída. E se tem uma heroína que não desiste nunca é a Grace. Em muitos momentos eu sorri em meio ao nó na garganta, orgulhosa de sua força, de sua vontade de viver. Me doía imenso ver suas tentativas serem frustradas e o preço que ela pagava por cada "falha", e quanto mais conhecia o Jack mais ódio sentia por ele. É um dos personagens que mais odeio na vida. Não foi difícil eu desejar sua morte. Nem imaginar várias maneiras de acabar com sua maldita raça. Eu tremia não só de pavor, mas de fúria. Sentia o meu sangue ferver, desejando estar na história para ter o prazer de ajudar a protagonista a mandá-lo para o inferno do qual ele jamais deveria ter saído. Ele não passa de um demônio. Se não era filho do coisa ruim, com certeza tinha um pacto com ele. 

"Não há livros, papel ou caneta para me distrair. Eu passo os dias suspensa no tempo, uma massa sem vida na humanidade."

- Hoje em dia, há vários anos já para dizer a verdade, a lei brasileira passou a considerar violência psicológica um crime, sendo punido pela mesma lei que defende as mulheres das agressões físicas. Psicólogos, psiquiatras e outros especialistas perceberam que uma agressão emocional provoca tantos danos (senão mais!) quanto as agressões físicas, como tapas, socos, chutes. A destruição emocional que um homem pode provocar numa mulher, com suas palavras, com as chantagens, ameaças e outras maneiras de tortura psicológica, pode ser irreparável. Jack parecia saber muito bem disso, pois o seu prazer era destruir Grace mentalmente, era levá-la para além do limite do medo. Ele se alimentava do pavor que ela sentia e sempre que ela estava se recuperando de mais um ataque, ele desferia outro golpe. Era isso que lhe dava prazer. Não existia nada melhor que o medo. 

"- Medo - sussurrou ele. - Não existe nada igual. Adoro o que ele causa, a sensação que provoca, seu cheiro. E especialmente o som. - Senti sua língua na minha bochecha. - Adoro até mesmo o sabor."

- Leio thrillers há muitos anos já e os psicológicos são sem sombra de dúvida os meus preferidos. Meus amigos e familiares, quando falo o que estou lendo, sempre me perguntam como consigo ler livros assim. Não tenho uma resposta para eles, porque a verdade é que nem eu sei!kkkkkkkk... Sofro horrores com essas histórias, tenho pesadelos, minha ansiedade (que já é natural) aumenta, fico com medo até da minha sombra. Mas não consigo evitar. Claro que sempre necessito ler algo bem leve depois.rsrs O meu thriller psicológico preferido é No Escuro, seguido de perto por Identidade Roubada e A Lista do Nunca. Sempre que leio algo do gênero, o comparo ao primeiro livro, me perguntando se ele é realmente digno de ocupar o mesmo lugar. Com Entre Quatro Paredes isso nem foi necessário. Não precisei me perguntar se o livro era tão bom quanto No Escuro. Porque desde as primeiras páginas eu soube que ele era melhor. 

No Escuro sempre será um grande thriller, maravilhoso, impecável, de tirar o fôlego e te deixar no chão. Nunca na vida vou esquecê-lo, mas a história de Grace consegue ser mais densa, pesada, angustiante. Ela mexe profundamente com nosso psicológico, nos fazendo realmente estar no lugar da protagonista. Algo que o livro da Cathy também consegue, só que Entre Quatro Paredes parece se passar todo na mente da protagonista. Tudo enxergamos à luz dos seus pensamentos e isso acelera literalmente nosso coração porque é uma carga emocional muito grande. Insuportável. Queremos fechar as páginas do livro nem que seja por alguns minutos, pois precisamos sair daquela prisão. Porque não conseguimos respirar. 

"Anseio que alguém comece a questionar, a suspeitar."

E o que falar daquele final???????!!!! Um dos melhores que já li! A autora soube amarrar bem a história, nos envolvendo do começo ao fim até o clímax perfeito. É raríssimo ver um autor não perder a mão ao fechar o último capítulo de sua história. Mas a B. A. Paris deixou o melhor para aquele momento, nos deixando de queixo caído. Confesso que eu esperava por algo do tipo, que tinha uma noção de como terminaria, pois tinha ficado óbvio para mim que alguns personagens não estavam ali por acaso. Não dá para falar muito para não entregar o final do livro, mas eu não fiquei surpresa com a forma como ele terminou. Ainda assim, foi incrível ler algo assim, gente! Me fez gritar!kkkkkkk... Minha mãe até mesmo olhou para minha cara e disse: "Temos uma louca em casa!"kkkkkkkk... 

Sabe que achei aquele fim poético, até?rs A autora, ao escrever algo tão "assim" me deu na ficção a justiça que eu gostaria que existisse na vida. Lei do retorno. Tudo que fazemos com alguém retorna para nós. Na vida as coisas não são assim tão justas, não há uma justiça perfeita. Mas no livro da B. A. Paris, sim! Será que estou falando demais?! Nem tanto, tenham certeza.rs

"Se era capaz de me enganar, se era capaz, mesmo que por alguns segundos, de me fazer esquecer quem ele era, como eu poderia convencer as outras pessoas de que era um lobo em pele de cordeiro?"

- Eu poderia ficar aqui falando sobre o livro por horas e não cansaria. Existe muita coisa que gostaria de dizer, mas além da resenha ficar gigante eu certamente acabaria soltando algum spoiler, mesmo sem querer.rsrs Por isso, paro por aqui. Mas lhes digo: LEIAM O LIVRO!!!! Vale muito a pena! Não me arrependi nem por um instante! E já quero ler tudo o que a autora escrever! :D


Esta foi minha segunda leitura para a Maratona Literária de Carnaval que criei para me incentivar a ler mais livros em pouco tempo. Meu objetivo era ler três livros de 10 a 14 de fevereiro. Já li dois! Resta apenas um! :) Comecei com uma biografia e vou encerrar com um romance! 
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