13 de fevereiro de 2018

Entre Quatro Paredes - B. A. Paris

Tempo de leitura:
(Título Original: Behind Closed Doors
Tradutor: Roberto Muggiati
Editora: Record
Edição de: 2017)


Grace é a esposa perfeita.

Ela abriu mão do emprego para se dedicar ao marido e à casa. Agora prepara jantares maravilhosos, cuida do jardim, costura e pinta quadros fantásticos. Grace mal tem tempo de sentir falta de sua antiga vida.

Ela é casada com Jack, o marido perfeito.

Ele é um advogado especializado em casos de mulheres vítimas de violência e nunca perdeu uma ação no tribunal. Rico, charmoso e bonito, todos se perguntavam por que havia demorado tanto a se casar.

Os dois formam um casal perfeito.

Eles estão sempre juntos. Grace não comparece a um almoço sem que Jack a acompanhe. Também não tem celular, que ela diz ser uma perda de tempo. E seu e-mail é compartilhado com Jack, afinal, os dois não guardam segredos um do outro. Parece ser o casamento perfeito. 

Mas por que Grace não abre a porta quando a campainha toca e não atende o telefone de casa? E por que há grades na janela do seu quarto?

Às vezes o casamento perfeito é a mentira perfeita.



Palavras de uma leitora...


- Como escrever se ainda estou tremendo? Se me sinto sem fôlego, com o coração querendo sair pela boca? Se ainda não acredito no que li? Em algo tão... tão... 

"- Eu desprezo homens que tratam suas esposas com violência - declara Jack, com firmeza. - Eles merecem pagar por tudo que fizeram."

Quando o viu pela primeira vez, Grace se sentiu imediatamente atraída por Jack, embora não tivesse alimentado qualquer esperança de conquistá-lo. Ele não a olharia duas vezes. Existiam mulheres bem mais interessantes naquele parque e, além disso, ela tinha Millie. 

Perdera a conta de quantos relacionamentos terminaram abruptamente quando seus companheiros ficaram sabendo da existência de sua irmã, uma menina linda, portadora da Síndrome de Down. Embora desejasse com todo o seu coração casar e ter filhos, abrir mão de Millie não era uma opção. Desde que ela nasceu, Grace a criava como filha, pois seus pais não desejavam criar outra criança e planejaram entregar a bebê para adoção. Transtornada com a decisão deles, Grace lutou com todas as suas forças e recorreu a uma atitude desesperada, conseguindo que eles voltassem atrás. Todavia, daquele momento em diante, a menina passou a ter somente a irmã, que a amava mais do que a própria vida. 

Após seu namoro mais recente e duradouro também ter chegado ao fim, ela começou a acreditar que terminaria sozinha. E não foi sem surpresa que aceitou a aproximação de Jack, que, diferente de todas as pessoas que tinham cruzado seu caminho, parecia nutrir um afeto por Millie, aceitando-a como parte de Grace. 

"Havia algo de conservador no jeito de Jack que eu achava revigorante: ele abria as portas para mim, me ajudava a vestir o casaco e mandava flores. Ele fazia com que eu me sentisse especial, amada, e, o melhor de tudo, adorava Millie."

Mal podendo acreditar em sua sorte, Grace se sentiu no céu durante os meses de namoro. Quando via a maneira linda como ele tratava sua irmã, compreendendo-a, amando-a como se também fosse parte da família dele, ela soube que tinha feito a escolha certa. Assim, quando ele a pediu em casamento, ela aceitou. Como dizer não? Como não realizar seu maior sonho se, apesar do pouco tempo que o conhecia, Jack se mostrava exatamente o homem que ela tanto tinha esperado? Estava apaixonada. E se sentia amada como jamais tinha se sentido na vida. Sabia que aquele era apenas o início de um casamento maravilhoso. 

"São noites como essa que me fazem lembrar por que me apaixonei por ele. Charmoso, divertido e inteligente, Jack sabe exatamente o que dizer e de que forma dizer."

Sempre que estava ao seu lado, ela se sentia protegida, como se nada no mundo jamais pudesse ameaçar sua felicidade. E como não se sentir assim? Jack era um advogado famoso, especializado em Direito Penal, defendendo mulheres vítimas de agressão e nunca perdia um caso. Se tinha alguém que ela sabia que não a machucaria era ele. 

Tal era a confiança que seu sorriso amoroso e seus olhares ternos lhe passavam, que ela não discutiu quando ele a pediu para abandonar o emprego. Ela procurou entendê-lo. Realmente viajava muito e se seguisse assim, eles passariam mais tempo separados do que juntos. Além disso, ela própria não suportava a carga de trabalho. O aceitara por causa de Millie, para poder pagar a escola na qual ela estudava e custava muito caro. Ela fizera enormes sacrifícios e se esforçara muito para ocupar a importante posição que hoje possuía na empresa, mas não precisava mais daquilo. Poderia relaxar um pouco. Depois consideraria arrumar outra coisa. Foi só o início. 

Logo ele sugeriu que ela vendesse a casa que tinha e aceitasse que ele lhe desse outra de presente de casamento. A casa dos seus sonhos. Não no centro de Londres, mas afastada de toda aquela agitação, onde pudessem ter privacidade como casal. Por mais que não quisesse se desfazer da casa, Grace aceita e entrega o dinheiro da venda a ele, para comprarem os novos móveis. 

Tudo parecia perfeito. Apesar das coisas que se viu obrigada a abandonar para agradá-lo, ela estava convencida que tinha tomado a melhor decisão. Feliz, com um sorriso estampado no rosto, ela caminhou em direção ao seu futuro, mas antes mesmo que dissesse "sim", seu lindo sonho começou a virar um pesadelo. 

"Onde estava o perfeito cavalheiro que eu tinha conhecido? Tudo não passara de uma fachada?"

Embora um acontecimento inesperado e as atitudes de Jack no dia do casamento a tenham desestabilizado, foi somente na lua de mel que Grace finalmente descobriu quem era o homem com o qual havia se casado. Desesperada, com o pânico ameaçando sufocá-la, ela tenta fugir, mas é tarde demais. Percebe que caíra numa armadilha. E arrastara sua irmã com ela. 

"- Eu não estou entendendo - falei, reprimindo um soluço - O que você quer?
- Exatamente o que eu tenho: você e Millie."

Agora, um ano mais tarde, Grace é a esposa perfeita. Não tem mais amigas, pois estava tão ocupada com as delícias de seu casamento, que não tinha tempo para elas e não foi uma surpresa quando, pouco a pouco, elas se afastaram. Já não tinha celular como no passado, pois percebera que aquilo era uma total perda de tempo. As pessoas de antigamente viviam sem eles, não é mesmo? E sua conta de e-mail é partilhada com Jack, pois eles sempre dividem tudo, não há espaço para segredos em suas vidas. Se perguntassem para alguém, todos responderiam que jamais viram Grace ir a um lugar sem Jack e que achavam aquilo muito romântico. 

Ela era uma excelente anfitriã quando recebiam em sua casa os amigos de Jack. Todas as mulheres a invejavam e desejavam estar em seu lugar. Ela brilhava, conduzindo todo o jantar e as conversas com perfeição. Mas quando as visitas iam embora e a porta era trancada, todo o seu inferno recomeçava. Com as persianas fechadas e o alarme ligado, Jack estava novamente livre para fazer tudo o que mais apreciava... Porém, todo o terror que ela vivia dia após dia ao lado de um psicopata não se comparava ao que a esperava dali a alguns meses, quando Millie deixasse a escola para morar com eles. Ela sabia que precisava correr contra o tempo. Fugir era sua única opção. Mas como fazer isso se todas as suas diversas tentativas tinham sido frustradas e só lhe provocaram mais sofrimento? Como escapar daquele inferno se Jack estava sempre um passo à frente? 

"Muitas vezes penso em matá-lo, mas não consigo. Para começo de conversa, não tenho os meios necessários. Não tenho acesso a remédios, facas ou outros instrumentos mortais, porque ele tomou todas as precauções possíveis."

- Durante a leitura deste thriller angustiante, é muito fácil nos sentirmos como a Grace: presas. A sensação é claustrofóbica, como se o ar não entrasse em quantidade suficiente nos pulmões, como se fôssemos sufocar. A situação dela é desesperadora, pois não importa o que ela faça, o quanto tente e arrisque, não há saída. E se tem uma heroína que não desiste nunca é a Grace. Em muitos momentos eu sorri em meio ao nó na garganta, orgulhosa de sua força, de sua vontade de viver. Me doía imenso ver suas tentativas serem frustradas e o preço que ela pagava por cada "falha", e quanto mais conhecia o Jack mais ódio sentia por ele. É um dos personagens que mais odeio na vida. Não foi difícil eu desejar sua morte. Nem imaginar várias maneiras de acabar com sua maldita raça. Eu tremia não só de pavor, mas de fúria. Sentia o meu sangue ferver, desejando estar na história para ter o prazer de ajudar a protagonista a mandá-lo para o inferno do qual ele jamais deveria ter saído. Ele não passa de um demônio. Se não era filho do coisa ruim, com certeza tinha um pacto com ele. 

"Não há livros, papel ou caneta para me distrair. Eu passo os dias suspensa no tempo, uma massa sem vida na humanidade."

- Hoje em dia, há vários anos já para dizer a verdade, a lei brasileira passou a considerar violência psicológica um crime, sendo punido pela mesma lei que defende as mulheres das agressões físicas. Psicólogos, psiquiatras e outros especialistas perceberam que uma agressão emocional provoca tantos danos (senão mais!) quanto as agressões físicas, como tapas, socos, chutes. A destruição emocional que um homem pode provocar numa mulher, com suas palavras, com as chantagens, ameaças e outras maneiras de tortura psicológica, pode ser irreparável. Jack parecia saber muito bem disso, pois o seu prazer era destruir Grace mentalmente, era levá-la para além do limite do medo. Ele se alimentava do pavor que ela sentia e sempre que ela estava se recuperando de mais um ataque, ele desferia outro golpe. Era isso que lhe dava prazer. Não existia nada melhor que o medo. 

"- Medo - sussurrou ele. - Não existe nada igual. Adoro o que ele causa, a sensação que provoca, seu cheiro. E especialmente o som. - Senti sua língua na minha bochecha. - Adoro até mesmo o sabor."

- Leio thrillers há muitos anos já e os psicológicos são sem sombra de dúvida os meus preferidos. Meus amigos e familiares, quando falo o que estou lendo, sempre me perguntam como consigo ler livros assim. Não tenho uma resposta para eles, porque a verdade é que nem eu sei!kkkkkkkk... Sofro horrores com essas histórias, tenho pesadelos, minha ansiedade (que já é natural) aumenta, fico com medo até da minha sombra. Mas não consigo evitar. Claro que sempre necessito ler algo bem leve depois.rsrs O meu thriller psicológico preferido é No Escuro, seguido de perto por Identidade Roubada e A Lista do Nunca. Sempre que leio algo do gênero, o comparo ao primeiro livro, me perguntando se ele é realmente digno de ocupar o mesmo lugar. Com Entre Quatro Paredes isso nem foi necessário. Não precisei me perguntar se o livro era tão bom quanto No Escuro. Porque desde as primeiras páginas eu soube que ele era melhor. 

No Escuro sempre será um grande thriller, maravilhoso, impecável, de tirar o fôlego e te deixar no chão. Nunca na vida vou esquecê-lo, mas a história de Grace consegue ser mais densa, pesada, angustiante. Ela mexe profundamente com nosso psicológico, nos fazendo realmente estar no lugar da protagonista. Algo que o livro da Cathy também consegue, só que Entre Quatro Paredes parece se passar todo na mente da protagonista. Tudo enxergamos à luz dos seus pensamentos e isso acelera literalmente nosso coração porque é uma carga emocional muito grande. Insuportável. Queremos fechar as páginas do livro nem que seja por alguns minutos, pois precisamos sair daquela prisão. Porque não conseguimos respirar. 

"Anseio que alguém comece a questionar, a suspeitar."

E o que falar daquele final???????!!!! Um dos melhores que já li! A autora soube amarrar bem a história, nos envolvendo do começo ao fim até o clímax perfeito. É raríssimo ver um autor não perder a mão ao fechar o último capítulo de sua história. Mas a B. A. Paris deixou o melhor para aquele momento, nos deixando de queixo caído. Confesso que eu esperava por algo do tipo, que tinha uma noção de como terminaria, pois tinha ficado óbvio para mim que alguns personagens não estavam ali por acaso. Não dá para falar muito para não entregar o final do livro, mas eu não fiquei surpresa com a forma como ele terminou. Ainda assim, foi incrível ler algo assim, gente! Me fez gritar!kkkkkkk... Minha mãe até mesmo olhou para minha cara e disse: "Temos uma louca em casa!"kkkkkkkk... 

Sabe que achei aquele fim poético, até?rs A autora, ao escrever algo tão "assim" me deu na ficção a justiça que eu gostaria que existisse na vida. Lei do retorno. Tudo que fazemos com alguém retorna para nós. Na vida as coisas não são assim tão justas, não há uma justiça perfeita. Mas no livro da B. A. Paris, sim! Será que estou falando demais?! Nem tanto, tenham certeza.rs

"Se era capaz de me enganar, se era capaz, mesmo que por alguns segundos, de me fazer esquecer quem ele era, como eu poderia convencer as outras pessoas de que era um lobo em pele de cordeiro?"

- Eu poderia ficar aqui falando sobre o livro por horas e não cansaria. Existe muita coisa que gostaria de dizer, mas além da resenha ficar gigante eu certamente acabaria soltando algum spoiler, mesmo sem querer.rsrs Por isso, paro por aqui. Mas lhes digo: LEIAM O LIVRO!!!! Vale muito a pena! Não me arrependi nem por um instante! E já quero ler tudo o que a autora escrever! :D


Esta foi minha segunda leitura para a Maratona Literária de Carnaval que criei para me incentivar a ler mais livros em pouco tempo. Meu objetivo era ler três livros de 10 a 14 de fevereiro. Já li dois! Resta apenas um! :) Comecei com uma biografia e vou encerrar com um romance! 

Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

4 comentários:

  1. Oi Lu!!!!
    Aeeeeeeeeeeeeeeeh! Fico tão feliz que tenha gostado hahahahahha, acho que essa é a parte mais gostosa, indicar um livro para um amigo e saber que ele gostou!!!
    Entre quatro parede me foi indicado por um amigo que sabe o quanto amo thrillers com histórias bem amarradas, e sinceramente entre quatro paredes é incrível demais.
    a forma como o autor conduz o enredo, te prende e e coloca no corpo da Grace é maravilhosa, desesperadora, mas maravilhosa hahahahah.

    Agora só posso aguardar mega ansiosa para saber o que você vai achar de flores partidas kkkkk meu preferido da vida! Ele também é bem pesado, mas vale muito á pena!

    Bjs

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  2. Olá, Kelly!

    Eu AMEI a história! Sofri horrores, claro, mas já é um dos melhores livros que li na vida!

    Sua resenha e também a do Ronaldo do blog Porque Livro Nunca Enguiça foram decisivas para eu ler esta história! :D Agradeço muito!

    kkkkkkkkk... Tenho medo de Flores Partidas, mas lerei! Estou preparando meu coração!kkkkkk...

    Bjs!

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  3. Ola, eu estou morrendo de curiosidade para ler esse livro e sua resenha me deixou muito curiosa eu já estou com a dica anotada

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  4. Oi
    Tudo bom?
    Adoro a temática desse livro é com certeza vou querer ler, ainda mais.que você disse que a autora conseguiu conduzir vem a historia e tendo um final maravilhoso.
    Beijos

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