4 de junho de 2021

Jogos do Prazer - Madeline Hunter



Literatura norte-americana
Título Original: Secrets of Surrender
Tradutora: Beatriz Horta
Editora: Arqueiro
Edição de: 2014
Páginas: 240
Série Os Rothwells - Livro 3


16ª leitura de 2021 (15ª resenha do ano)


Sinopse: A bela Roselyn Longworth já aceitou seu destino. Depois que o irmão fraudou o banco em que era sócio e fugiu do país levando o dinheiro dos clientes, suas finanças ficaram arruinadas, assim como suas chances de conseguir um bom casamento. Por isso foi fácil acreditar nas falsas promessas de amor de um visconde. Mas a desilusão não demorou a chegar: quando Rose não se sujeitou a seus caprichos na cama, o nobre se vingou leiloando-a durante uma festa em sua mansão. Ela acredita que o destino lhe reserva um fim trágico. Ainda mais ao ser arrematada por Kyle Bradwell, um homem que venceu na vida pelo próprio esforço, mas não é bem-vindo nos círculos mais exclusivos. Mas a jovem é surpreendida pela atitude dele, que a trata com um respeito e uma gentileza que ela não recebia desde antes do escândalo envolvendo o irmão. Quando Rose finalmente descobre o que está por trás do comportamento de Kyle, é tarde demais: já foi fisgada pelo homem que conhece seus segredos mais íntimos.




Sei que eu não estou aparecendo com a mesma frequência de antes, que passo a impressão de estar um tanto negligente com o blog, mas isso não é verdade. Meu amor por este cantinho segue sendo imenso. Escrever aqui alimenta minha alma, provoca um quentinho no meu coração. Ler e falar de livros é uma das maiores paixões da minha vida! Estou sempre cercada de livros, mesmo nos dias em que não consigo ler. Mas só ter livros por perto já me conforta, faz eu me sentir bem. Eu NUNCA vou abandonar o blog. Pode acontecer de a vida me fazer ficar ausente por semanas e semanas, mas nunca irei abandonar o meu cantinho querido. 

O Emoções à Flor da Pele é parte de mim. Escrevo aqui há mais de 11 anos. O blog acompanhou minha imaturidade e o longo e complexo processo de amadurecimento. Tanta coisa aconteceu ao longo dos anos! Tanta coisa mudou... Acredito que eu tenha evoluído bastante como pessoa e como leitora também... Mas sempre terei muito a aprender e os livros são ótimos professores! Eu mudei bastante... Não me vejo mais na menina que um dia sentou e resolveu criar este cantinho. Aquela menina ficou para trás, cresceu. E não foi nada fácil! Crescer não é fácil para ninguém. 

Muitos dos livros que li ao longo de todos os meus anos como leitora... Se os lesse hoje em dia, possivelmente discordaria do que sentia por eles no passado. É bem provável que não os visse com os mesmos olhos, com a mesma tolerância... Mas assim é a vida. Nós mudamos, nossa maneira de ler e analisar os livros também muda e isso é muito bom. Quando leio algumas resenhas minhas antigas eu sorrio encantada (quando é o caso) ou fico chocada com algumas emoções bem intensas que certas histórias me provocavam.kkkk Por isso o blog é tão importante para mim: além de ser o meu cantinho literário, guarda muito de mim. De todas as minhas fases de leitora. 


"Abrace-me, querida amiga. Logo estarei morta para vocês duas, e não suporto pensar nisso."


Quando conheci a Roselyn no livro As Regras da Sedução, eu já senti uma vontade enorme de ler sua história. Queria até mesmo pular o segundo livro e ir direto para Jogos do Prazer (os títulos dos livros desta série são HORRÍVEIS!), mas apelei para toda minha disciplina para não fazer isso.rs Eu queria muito saber como seria a história da moça que ao se iludir com um homem que se mostrou um verdadeiro canalha, acabou sendo vendida num leilão, contra sua vontade. Roselyn teve o azar de ter como irmãos dois homens irresponsáveis e que desprezavam completamente as leis, e por culpa deles, ela e a irmã mais nova acabaram se vendo numa situação de extrema vulnerabilidade, numa época em que mulheres desprotegidas se tornavam alvo fácil de abusos, em que a sociedade fechava os olhos para as canalhices dos homens e responsabilizava, sem hesitar, as mulheres por delitos cometidos por eles e não por elas. 

Ao descobrir o que seus irmãos tinham feito, a maneira como tinham roubado as economias de dezenas de pessoas que confiaram no banco que eles administravam, Roselyn sentiu uma profunda dor e a certeza de que a vida não tinha mais nada de bom a lhe oferecer. Qualquer chance que ela tivesse de fazer um bom casamento estava encerrada para sempre, pois nenhum homem toleraria ter o seu nome associado ao da irmã de criminosos. 

Embora o marido de sua prima Alexia (protagonista do primeiro livro) tenha lhe oferecido certa proteção, para que ela não se visse sem nada, Roselyn se recusou a aceitar. Não seria um peso na vida de ninguém. Daria um jeito de se sustentar... Mesmo que para isso tivesse que descer ao nível de se tornar a amante de um nobre. 

Quando aquele visconde tão elegante demonstrou interesse por ela, foi fácil mentir para si mesma. Fingir que existia afeto, que ele estava apaixonado... Entregou sua inocência para alguém que a via apenas como objeto, mas mentiu para si mesma o quanto foi possível... Porém, no momento de encarar a verdade, o golpe foi forte demais. Porque por mais que no fundo soubesse que ele nada sentia por ela, jamais imaginou que ao ser contrariado ele seria cruel ao ponto de vendê-la a quem pagasse mais, que seria capaz de arriscar a integridade física e a vida dela daquela maneira. Desprotegida no meio de homens que não se importavam se ela não queria participar daquele espetáculo horroroso, ela foi salva por quem menos esperava. Pelo único homem ali que não era "nobre". O único que se importou com o desespero em seus olhos. 

Kyle não estava em boas condições financeiras. Também fora seriamente atingido pelo golpe financeiro que os irmãos de Roselyn deram em seus clientes. Mas não poderia assistir insensível ao sofrimento dela sem fazer algo para protegê-la daqueles vermes que se consideravam acima de tudo. E a única maneira de salvá-la seria dando o lance mais alto, algo que poderia levá-lo direto à falência. 

Quem diria que o pior dia da vida daquela mulher lhe permitiria conhecer o homem que roubaria o seu coração e estaria com ela nos momentos mais importantes? O amor, às vezes, aparece nas ocasiões mais improváveis...

Eu terminei a leitura deste livro com um sorriso no rosto e o coração leve, algo que sempre acontece quando leio um romance daqueles que me fazem suspirar. Kyle é um mocinho digno de ser considerado herói de uma história de amor e Roselyn tem toda minha admiração por sua força e reencontro. Pela maneira como volta a amar a si mesma. A história deles dois me encantou e uma determinada cena que a autora criou para aquecer o coração de nós leitores deixou meus olhos cheios de lágrimas de felicidade. Ela foi perfeita no que fez! Porque depois daquela cena horrível na qual a Roselyn foi vendida por aquele lixo de homem, nós merecíamos uma cena que a recompensasse. Uma cena que compensasse sua humilhação pública e todo sofrimento interior que aquela maldade lhe provocou. Algo que empurrasse aquela lembrança para bem longe. E eu amei tanto a maneira que a autora encontrou de fazer isso por sua mocinha e por nós também!

Roselyn era uma mocinha que precisava ser salva. De muitas maneiras. Sabe quando uma pessoa está numa situação tão ruim que necessita de alguém que lhe estenda a mão, que esteja ao seu lado e a faça acreditar de novo? Nossa mocinha não se amava mais, não acreditava em mais nada de bom e por isso foi fácil para aquele lixo envolvê-la e usá-la. Porque ela achava que merecia aquilo. Porque tinha deixado de se importar com a própria vida, não se valorizava mais. Por crimes que não eram dela, ela estava se condenando. Então, Kyle realmente precisava salvá-la, não só do pesadelo daquela noite, mas de um futuro de sofrimento. Porque através dos olhos dele, de uma pessoa que estava presente em um momento tão humilhante, ela pode voltar a se ver. E saber que tinha valor sim! Que aquele momento não a definia, que ter sido amante de um verme como aquele visconde não a definia. Que ela era uma mulher incrível e que precisava voltar a ter amor por si própria. 

Está enganado quem pensa que por ter dado o lance mais alto e tirado a Roselyn dali, o Kyle exigiu algo pela fortuna que pagou. Ele era um homem de caráter e mesmo que a desejasse não iria querê-la naquelas condições, pois sabia respeitar uma mulher. E sabia que Roselyn estava numa situação desfavorável e que ele estaria se aproveitando da maneira mais vil. Ele pagou pela liberdade dela e não esperava ser "recompensado" de nenhuma maneira. A tirou dali para levá-la para a segurança da casa da prima e então cada um seguir o próprio caminho... Se viessem a ficar juntos, seria numa situação honrada e não daquele jeito. 

Claro que várias coisas vão acontecer para juntar o casal e depois para provocar problemas na relação, como em todos os romances. E eu amei todos os momentos! Amei a maneira como se construiu tanto a relação física quanto a emocional. Com ele, ela aprende que pode ser livre na cama, que não será julgada, que possui direitos. Havia uma conexão muito forte entre os dois mesmo antes de descobrirem que se amavam. Havia respeito e entrega de ambos os lados, o que tornava as cenas de amor bem bonitas, mesmo que um tanto explícitas. A construção do relacionamento deles é bem convincente. É um romance no qual eu não tive dúvidas do amor que os unia. E apreciei demais esta leitura!

Assim sendo, o único livro da série até agora que não me agradou foi o segundo, que é totalmente dispensável!rs Tanto o primeiro quanto o terceiro vale a pena! E só me resta ler o quarto livro, protagonizado pelo marquês Christian, um homem muito excêntrico e cheio de mistérios...rs



28 de maio de 2021

Cinzas na Neve - Ruta Sepetys



Literatura norte-americana
Título Original: Between shades of gray 
Tradutora: Fernanda Abreu
Editora: Arqueiro
Edição de: 2019
Páginas: 240
Ficção Histórica

15ª leitura de 2021 (14ª resenha do ano)
 
Sinopse: Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da história

Lina Vilkas é uma lituana de 15 anos cheia de sonhos. Dotada de um incrível talento artístico, ela se prepara para estudar artes na capital. No entanto, a noite de 14 de junho de 1941 muda seus planos para sempre.

Por toda a região do Báltico, a polícia secreta soviética está invadindo casas e deportando pessoas. Junto com a mãe e o irmão de 10 anos, Lina é jogada num trem, em condições desumanas, e levada para um gulag, na Sibéria.

Lá, os deportados sofrem maus-tratos e trabalham arduamente para garantir uma ração ínfima de pão. Nada mais lhes resta, exceto o apoio mútuo e a esperança. E é isso que faz com que Lina insista em sua arte, usando seus desenhos para enviar mensagens codificadas ao pai, preso pelos soviéticos.

Cinzas na neve conta a história de um povo que perdeu tudo, menos a dignidade, a esperança e o amor. Para construir os personagens de seu romance, Ruta Sepetys foi à Lituânia a fim de ouvir o relato de sobreviventes dos gulags durante o reinado de horror de Stalin.




Quando você vê a imagem na capa já te bate uma tristeza e a certeza de que a história te fará chorar... O título te dá mais uma dica e a frase: "Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da história" te provoca uma certa angústia. Pelo menos, foi isso que se passou comigo. Mas tudo foi intensificado por eu já ter lido e ficado em prantos com O Sal das Lágrimas, que é a sequência de Cinzas na Neve, embora eu tenha lido fora da ordem. Todavia, na verdade não há uma ordem a ser seguida, pois são histórias que podem ser lidas de maneira independente, vez que a única coisa que as liga é o parentesco entre a protagonista de Cinzas na Neve (Lina) e uma das protagonistas de O Sal das Lágrimas (Joana). Além, é claro, das duas histórias se passarem durante o reinado do demônio do Stálin e do outro demônio (Hitler). 

Eu não paro de pensar nesta história desde que terminei de lê-la. Sonhei com o livro mais de uma vez. Revejo as cenas em minha mente e fico refletindo sobre tantas coisas ao mesmo tempo... Eu gostaria de não escrever esta resenha de tão abalada que ainda me sinto. Gostaria de pular para outra história, falar de narrativas mais leves, de um romance água com açúcar daquele tipo que tanto amo e vocês sabem... Até mesmo falar de um suspense daqueles psicológicos e de dá calafrios seria mais fácil no momento. Tudo seria mais fácil do que falar de Cinzas na Neve. Do que revisitar toda aquela crueldade enquanto escrevo a resenha. 

Me vendo tão angustiada o dia inteiro ontem, minha mãe voltou a me fazer uma pergunta que ela já me fez várias vezes: "Por que leio este tipo de história se fico tão mal?" Porque preciso. Porque me obrigo a enfrentar as realidades das quais muitas vezes fugimos. Porque não quero esquecer. Nenhum ser humano deveria esquecer o que já aconteceu. A História existe não só para entendermos o presente, mas para que monstruosidades "perdidas" no passado não voltem a acontecer. 

17 de maio de 2021

Sempre Vivemos no Castelo - Shirley Jackson


Literatura norte-americana
Título Original: We Have Always Lived in the Castle
Editora: Suma
Edição de: 2017
Páginas: 152

14ª leitura de 2021 (13ª resenha do ano)

Sinopse: Merricat Blackwood vive com a irmã Constance e o tio Julian. Há algum tempo existiam sete membros na família Blackwood, até que uma dose fatal de arsênico colocada no pote de açúcar matou quase todos. Acusada e posteriormente inocentada pelas mortes, Constance volta para a casa da família, onde Merricat a protege da hostilidade dos habitantes da cidade. Os três vivem isolados e felizes, até que o primo Charles resolve fazer uma visita que quebra o frágil equilíbrio encontrado pelas irmãs Blakcwood. Merricat é a única que pressente o iminente perigo desse distúrbio, e fará o que for necessário para proteger Constance. "Sempre vivemos no castelo" leva o leitor a um labirinto sombrio de medo e suspense, um livro perturbador e perverso, onde o isolamento e a neurose são trabalhados com maestria por Shirley Jackson.





É... Eu dei 4 estrelas ao livro, o que não significa que realmente gostei tanto assim da história.kkkkk Ainda me sinto perturbada. Esta história me deixou bem doida. Minha cabeça ainda está girando.rsrs

Não existe nada que melhor defina este livro do que a palavra "doido". Sério! Fazia muito tempo (anos e anos) que eu não lia uma história tão maluca, tão capaz de mexer com nossa mente e nos deixar bugados. Tudo é surreal do início ao fim. Logo nas primeiras páginas já ficamos com vários pontos de interrogação na cabeça e sentimos como se estivéssemos num hospício. Eu me senti muito perturbada lendo aquelas páginas iniciais. E o sentimento permaneceu durante toda a leitura. 

A história é contada do ponto de vista da Mary Katherine Blackwood, uma jovem de 18 anos, que vive numa casa antiga, pertencente à uma família que foi muito importante e odiada ao mesmo tempo pelos moradores do vilarejo, que sempre tiveram inveja da riqueza e status dos Blackwood. Para ela é um tormento sair da segurança de sua propriedade, onde vive com a irmã mais velha, Constance, e com o tio Julian, um senhor muito doente e querido pelas sobrinhas. Duas vezes por semana, ela precisa sair do seu amado lar e ir até o vilarejo para comprar itens básicos de alimentação e higiene e sempre é hostilizada pelos moradores locais, que a perseguem e desesperam... Quanto mais o tempo passa e revive aquela mesma situação, mais ódio Mary sente por eles e deseja com todas as suas forças que morram. 

Se antes aquelas pessoas simplesmente sentiam inveja dos Blackwood, a perseguição à Mary (e Constance) é baseada no puro ódio causado pela tragédia ocorrida seis anos atrás, quando quase toda a família das jovens foi assassinada durante o jantar, envenenadas com arsênico. Constance, a responsável pelas refeições da família, foi presa acusada pelos homicídios, mas acabou inocentada por falta de provas. Todavia, aqueles moradores não necessitavam de uma sentença judicial para considerá-la culpada. Assim, ao longo de todos aqueles anos, Constance é obrigada a isolar-se dentro de sua propriedade, por medo do que seriam capazes de fazer se a vissem. Mary era quem assumia o risco de ser agredida física e verbalmente ao sair para comprar os mantimentos. 

Mesmo com o medo e o isolamento, as duas irmãs vivem de forma relativamente feliz. Constance segue amando cozinhar e Mary sente imenso prazer em habitar seu mundo imaginário, onde pode ser e fazer o que quiser. Cuidar do tio Julian não era nenhum sacrifício para elas e tudo estava correndo muito bem. De vez em quando recebiam a visita de antigos amigos de seus falecidos pais e isso desestabilizava um pouco a rotina que estabeleceram, mas não era nada que lhes causasse preocupação. Assim que iam embora e elas voltavam a deixar a casa do jeito de sempre, o equilíbrio retornava e tudo seguia bem. Até...

... a visita de Charles, primo delas. A família dele tinha rompido as relações quando a tragédia aconteceu, mas agora ele aparecia do nada, entrando na casa e na vida delas como se sempre tivesse pertencido àquele lugar... e como se elas fossem dele. Mary sente que a chegada dele irá destruir tudo. E precisa dar um jeito de impedi-lo. Mas como?!

Como eu disse, o livro é doido. Repito isso porque é a verdade. E não consigo nem pensar direito desde que terminei a leitura. Me sinto desnorteada, confusa, tentando juntar todas as informações dadas pela autora e o que foi dito nas entrelinhas e que considero importante para eu criar uma certa teoria sobre a história. Na minha opinião, a história é mais do que foi contado. A autora deixou algumas coisas "no ar", entende? E isso me faz pensar e pensar.... Quer dizer, tentar pensar.rs

Não consegui gostar de personagem algum deste livro. Todos são perturbados e um tanto assustadores e não estabeleci laço com nenhum, nem mesmo com o tio Julian, que foi quem chegou mais perto de me conquistar. Todavia, ainda que eu não gostasse da Constance ou da Mary, os personagens que eu de fato odiei (e muito!) foram Charles e os moradores do vilarejo. Que gente ruim do inferno!!! Aquelas pessoas me causaram enorme desprezo e consegui entender o ódio da Mary por elas. 

É uma história muito bem escrita, com um ótimo desenvolvimento e capaz de provocar diversos debates entre os leitores. Mas também é um tipo de livro que não gosto muito de ler, pois me perturba. Eu tive pesadelos, fiquei com uma sensação um tanto claustrofóbica provocada pela história e não gosto de me sentir assim. É por isso que resenhas de histórias de terror são raras por aqui!kkkkkkk Quero sim dar cada vez mais chances ao gênero, para me desafiar e perder o medo. Mesmo assim, não gosto muito do gênero e creio que nunca vou gostar.rs


3 de maio de 2021

A Letra Escarlate - Nathaniel Hawthorne



Literatura norte-americana
Título Original: The scarlet letter
Tradutor: Christian Schwartz
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 336

12ª leitura de 2021 (12ª resenha do ano)

Sinopse: Na rígida comunidade puritana de Boston do século XVII, a jovem Hester Prynne tem uma relação adúltera que termina com o nascimento de uma criança ilegítima. Desonrada e renegada publicamente, ela é obrigada a levar sempre a letra “A” de adúltera bordada em seu peito. Hester, primeira autêntica heroína da literatura norte-americana, se vale de sua força interior e de sua convicção de espírito para criar a filha sozinha, lidar com a volta do marido e proteger o segredo acerca da identidade de seu amante. Aclamado desde seu lançamento como um clássico, A letra escarlate é um retrato dramático e comovente da submissão e da resistência às normas sociais, da paixão e da fragilidade humanas, e uma das obras-primas da literatura mundial.




Paciência é algo que não venho tendo neste ano de 2021, em que tantas coisas ruins já aconteceram só nesta primeira metade do ano. Acredito que este tenha sido o principal motivo para o livro receber três estrelas e ter escapado por pouco das 2 estrelas. Não tive paciência com a maior parte dos personagens de A Letra Escarlate. E nem com o autor! Mas... Pensando bem... Mesmo se estivéssemos vivendo um período maravilhoso ainda assim teria sentido vontade de esganar a maioria dos personagens desta história.  

Eu cheguei a considerar não escrever esta resenha, de tão revoltada que esta história me deixou! Mas quando um livro consegue gerar um "incômodo" tão grande no leitor vale a pena falar sobre ele. 

"[...] convinha a uma gente para a qual religião e lei eram quase a mesma coisa, e em quem ambas se entrelaçavam profundamente, que o mais leve e o mais severo castigo público fossem tornados igualmente respeitáveis e terríveis. Escassa e fria era a condescendência que um condenado naquele limiar poderia esperar da plateia."

O século é o XVII, que por si só já diria muita coisa. Todavia, para completar a sorte da nossa protagonista, a jovem Hester, ela faz parte de uma comunidade puritana de Boston, que não admite erros, nada que fuja de suas regras. As consequências são sempre muito graves, em alguns casos até mesmo a pena de morte. E era o que algumas pessoas inclusive chegaram a desejar para Hester: que ela tivesse sido condenada à morte por seu "crime". E qual foi o grande crime desta mulher? Se envolver intimamente com um homem sem ser casada com ele. Considerada "adúltera", embora todos acreditassem que o marido dela tinha morrido no mar (considerando que tinha sumido desde a última viagem e isso já fazia muito tempo), foi severamente condenada por sua comunidade e presa para aguardar o julgamento legal, mesmo grávida. 

Após um tempo na prisão, e com sua bebê já nos braços, recebeu como sentença um período na cadeia e a eterna exposição pública ao ter que carregar presa ao peito a letra "A" escarlate, como marca do seu adultério. Qualquer pessoa que visse aquela letra saberia o seu significado e jogaria sobre ela toda a força do seu desprezo. Embora ainda fosse membro daquela sociedade, foi excluída de tudo, não tendo mais amigos, não podendo mais frequentar os lugares sem que recebesse olhares de ódio. Era muito para qualquer pessoa aguentar, mas Hester não estava disposta a simplesmente desistir. Por mais que o desespero ameaçasse levá-la à loucura, buscava em seu interior toda a força necessária para suportar toda aquela injustiça. 

27 de abril de 2021

Quincas Borba - Machado de Assis




Literatura Brasileira
Editora: Nova Fronteira 
Edição de: 2016
Box Todos os Romances e Contos Consagrados de Machado de Assis
Volume 2: Memórias Póstumas de Brás Cubas / Quincas Borba / Dom Casmurro

10ª leitura de 2021 (11ª resenha do ano)

Sinopse: Os três romances deste volume são considerados as obras-primas de Machado de Assis e representariam a introdução do realismo no Brasil. Desde a dedicatória, que não é escrita pelo autor, mas por um narrador defunto, as Memórias póstumas de Brás Cubas já mostram claros traços de inovação: "Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas Memórias póstumas."




Apesar deste segundo volume conter três romances do autor, neste post trarei apenas a resenha de Quincas Borba, pois já fiz as resenhas de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, livros lidos anteriormente. 

Como li Memórias póstumas de Brás Cubas cerca de três anos atrás, não vou me lembrar com detalhes da participação do Quincas Borba no referido livro. Lembro apenas que ele aparece na história e que sua jornada se encerra ali, o que me fez na época acreditar que o livro Quincas Borba se passaria antes da história do Brás Cubas, mas na verdade ambas as histórias acontecem mais ou menos no mesmo tempo e não há a necessidade de ler as duas para compreendê-las. Se o leitor quiser ler apenas este livro aqui não terá nenhuma dificuldade para entendê-lo por não ter lido o outro, vez que não se trata de uma continuação, são histórias independentes. 

Eu ainda não sei bem o que sinto por esta história. Dei 4 estrelas por reconhecer o quanto ela foi bem trabalhada pelo autor, que sempre consegue nos envolver em suas tramas e tornar qualquer história irresistível. Quanto mais eu lia mais queria ler, ainda que não estivesse suportando os personagens nem acompanhar o comportamento deles. Mas estou sendo repetitiva, pois vocês já sabem que não costumo simpatizar com os personagens do autor, ainda que ame suas histórias e seja um dos meus autores preferidos da vida. Ele tem a habilidade de criar personagens muito reais, que em sua maioria possuem defeitos que não conseguimos tolerar. É muito fácil odiá-los. Até agora o único livro do autor no qual gostei de mais de um personagem, que eu me lembre, foi Helena, que se tornou a minha história favorita dele. 

Em Quincas Borba, temos como protagonista não o personagem que dá título ao livro, mas sim o Rubião, grande amigo do Quincas, e aquele que vai desempenhar o papel de enfermeiro particular nos últimos tempos de vida do filósofo. 

Rubião era um professor e vinha de um lar humilde, não conhecendo outra realidade de vida. Ao se tornar amigo do Quincas Borba, um filósofo meio louco, mas muito rico, ele tinha a intenção de ter acesso à fortuna dele através de um casamento do amigo com sua irmã. Acontece que a moça falece antes que ele consiga realizar seu desejo e tudo o que lhe restava para tentar subir um pouco de vida, era seguir sendo um fiel cuidador do filósofo, na esperança de que quando o Quincas falecesse (ele estava muito doente) deixasse alguma coisa para ele, como gratidão por seus cuidados. 

E o amigo realmente falece em pouco tempo, deixando não apenas uma parte de sua fortuna como gratidão, mas sim a fortuna inteira. Rubião era o único herdeiro do Quincas e da noite para o dia se torna um homem muito rico. Dividido entre a felicidade e o choque, ele rapidamente faz todo o necessário para colocar as mãos em sua herança, tendo como única condição deixada pelo falecido, que ele cuidasse do cachorro que pertenceu ao amigo, e que levava o mesmo nome do filósofo. 

Um tanto desnorteado pela imensa boa sorte, Rubião sai de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, pretendendo fixar residência na corte, entre os ricos e privilegiados. Logo conhece Cristiano Palha e sua esposa Sofia, que se tornam seus grandes amigos e guias naquele mundo até então desconhecido. Deslumbrado por aquela nova vida, se torna presa fácil de interesseiros, que se aproximam para obterem uma parte do que ele possuía. Ingênuo demais para reconhecer quem de fato era seu amigo ou não, é muito gentil e mão aberta com todos, gastando bastante e permitindo que fizessem o que bem entendessem em sua casa, acreditando no carinho que diziam sentir por ele. 

E no meio de uma situação que qualquer leitor perceberia que não acabaria bem, Rubião ainda se apaixona por Sofia, a esposa de seu amigo e sócio nos negócios. Uma paixão avassaladora, que se torna tudo para ele, que o cega e confunde, e desequilibra por inteiro as suas emoções. Ainda que desejasse ser leal ao Palha, não conseguia evitar aquele sentimento que parecia dominá-lo. E o pior de tudo era não ser correspondido, vez que Sofia tinha planos para sua vida que não incluíam se relacionar amorosamente com um novo rico, que em nada a ajudaria a ascender socialmente. 

Qual a possibilidade de toda essa história terminar bem? Nenhuma.rs Mas o Machado de Assis é muito bom em nos surpreender....

Eu esperava um determinado final para este livro. Já dava como certo que sabia como tudo terminaria e foi um grande choque me deparar com um fim tão... inesperado. Não posso falar muito para não dar spoiler, mas digo que se você ainda não leu o livro e resolver dar uma chance sem antes procurar saber todos os spoilers, vai se surpreender bastante. E isso é bom. Eu, particularmente, gosto de ser surpreendida em minhas leituras. Exceto quando é um acontecimento final que não faria sentido, mas no caso deste livro foi um encerramento bastante lógico, embora eu não tenha chegado a cogitar que terminaria assim. 

Em nenhum momento gostei do Rubião, por mais que sentisse pena por ele estar tão cercado de gente falsa e interesseira. Ele confiava em pessoas que só queriam o seu dinheiro e não conseguia enxergar isso. No entanto, é um personagem que não me provocou empatia, por conta de seu caráter duvidoso. Ainda assim, reconheço que ele fez algumas coisas muito boas e não era um personagem de todo ruim. Os personagens que eu sim detestei profundamente foram o Palha e sua esposa Sofia. Eram duas pessoas que fariam qualquer coisa para conquistar um elevado status social, para terem poder. Palha é canalha, mas Sofia, a personagem que mais desprezei, é a frieza em forma de gente. 

O livro não se resume apenas à história do Rubião, mas possui outras histórias paralelas. É um livro cheio de camadas, que através da filosofia criada pelo Quincas Borba e passada para o Rubião, o tal do Humanitismo, faz uma baita crítica social, sempre cheia daquela ironia elegante do autor. A filosofia em si é bem confusa; defende que não há morte, que tudo acontece de acordo com equilíbrio no universo, que nunca devemos lamentar por quem perde e nem nos sentirmos culpados ao ganharmos, pois aquilo tinha que ser daquele jeito, e se alguém morre é para outra pessoa viver, mas que a pessoa que morreu não morreu de fato. É muito confuso.rs Mas uma coisa que pegamos dessa filosofia é o quanto ela é egoísta e nos faz lembrar daqueles que tudo fazem para serem vencedores, até mesmo pisar ou destruir os "perdedores". 

É como se essa filosofia humanitista defendesse que será vencedor o mais forte, o mais esperto, o que não se importa com os outros. E que o perdedor será o mais fraco, devorado pelos espertos. Que "o mundo é dos fortes". Que os fortes não precisam se sentir culpados por tudo o que conquistaram (muitas vezes sem merecer de fato), e que se existem pessoas desprivilegiadas é por serem fracas. Essa filosofia, criada pelo Quincas, é usada pelo autor para fazer uma importante e ferina crítica social ao pensamento vigente em sua época e que, na verdade, ainda é defendido hoje em dia por várias pessoas. 

"[...] o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso, e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas.
- Mas a opinião do exterminado?
- Não há exterminado. Desaparece o fenômeno; a substância é a mesma. Nunca viste ferver água? Hás de lembrar-te que as bolhas fazem-se e desfazem-se de contínuo, e tudo fica na mesma água. Os indivíduos são essas bolhas transitórias."

O mais importante no livro, para mim, é essa filosofia, pois é através dela que tudo se desenrola, embora ela praticamente não volte a ser mencionada na história após a morte do Quincas. Mas em tudo o que se passou, tanto com o Rubião quanto com os personagens secundários, como Dona Tonica e o pai dela, bem como com a Maria Benedita e até com a própria e desprezível Sofia, é clara essa filosofia humanitista em ação. Tudo acontece de acordo com ela e é fácil para o leitor perceber isso. Achei incrível a forma como o autor desenvolveu sua crítica e os acontecimentos do livro. Foi brilhante!

Eu não sei se amo ou detesto este livro.kkkkkkk Mas recomendo muito! Vale a pena a leitura, vale a pena mergulhar no mundo destes personagens tão complexos e acompanhar como cada um terminará na história. 

Apesar de amar muito o autor, li este livro recentemente apenas por conta da leitura coletiva promovida pela Isa, do canal Ler Antes de Morrer, senão eu teria lido outros livros do autor antes deste. Eu amo leituras coletivas, pois me incentivam a ler livros que eu talvez demorasse muito para ler se não fosse em conjunto. 


Até breve, queridos! :)



23 de abril de 2021

A Morte da Sra. Westaway - Ruth Ware



Literatura Inglesa
Título Original: The death of mrs Westaway
Tradutora: Alyda Sauer
Editora: Rocco
Edição de: 2021
Páginas: 320

11ª leitura de 2021 (10ª resenha do ano)

Sinopse: "As cartas não dizem nada que você não saiba. Não podem revelar nenhum segredo nem ditar o futuro. Elas só podem mostrar o que você já sabe." Hal Westaway lê cartas de tarô no cais de Brighton e, desde a morte da mãe, luta diariamente para pagar suas contas e sobreviver. A notícia inesperada de uma herança pode mudar sua vida para sempre e, mesmo sabendo que tudo pode ser um enorme engano, ela decide acreditar... e jogar. Quando Hal Westaway recebe uma carta inesperada anunciando que ela herdou uma soma substancial de sua avó da Cornualha, aquilo lhe parece uma resposta às suas preces. Ela deve dinheiro a um agiota e as ameaças do sujeito estão cada vez mais agressivas: ela precisa botar a mão em dinheiro vivo o mais breve possível. Existe apenas um problema: as avós de Hal morreram há mais de vinte anos. A carta foi enviada à pessoa errada. Hal sabe, no entanto, que as técnicas que usa para “ler” as pessoas através do tarô podem ajudá-la a conseguir esse dinheiro. Se alguém tem habilidade para comparecer ao funeral de um estranho e reivindicar um espólio que não lhe pertence, é ela. Ao chegar à cerimônia, porém, Hal percebe que há algo muito, muito errado a respeito de toda aquela situação, e a herança está no centro de tudo. Mas Hal Westaway fez sua escolha, e não pode voltar atrás. Ela precisa continuar ou arriscar perder tudo. Até mesmo a própria vida. Uma velha casa, uma governanta assustadora, conflitos familiares e dilemas morais. Ingredientes clássicos que se tornam surpreendentes na voz de um dos grandes nomes contemporâneos do suspense, Ruth Ware.






Um thriller psicológico que bem poderia ser classificado como "um drama familiar letal"...

"Ela abriu o portão e as ferragens rangeram, um som baixo como um lamento através do barulho da chuva que a fez tremer mais ainda. Algo no tom daquele ruído lhe provocou um arrepio na nuca. Foi como se a casa estivesse morrendo de dor."

Sabe aquele tipo de livro que você não consegue parar de ler, que te rouba o sono e dá um nó na cabeça? A Morte da Sra. Westaway é exatamente assim. Eu pretendia seguir o cronograma que fiz, vez que foi uma história escolhida para leitura coletiva no grupo do Telegram, cujo debate só irá ocorrer em 05/05. Mas não consegui ser tão disciplinada.kkkk Eu encerrava um capítulo e já começava a ler o outro avidamente. Queria respostas e também descobrir se minha teoria estava certa, já que sempre tento adivinhar com antecedência o plot twist de um bom suspense.rs

Confesso que senti um pouco de medo durante a leitura, algo que não esperava. A atmosfera gótica, os passos silenciosos no escuro, luzes que não acendiam, cômodos proibidos... Quarto com grades na janela e trancas do lado de fora da porta... Tudo isso me provocava um certo pânico.

"Mas ali no alto só havia uma explicação, não eram grades para impedir alguém de entrar, e sim de sair."

A casa que se torna praticamente um personagem dentro da história, guardando terríveis segredos, é um lugar abandonado, com cômodos desgastados pelo tempo, cheios de poeira e teias de aranha. Não é que ninguém não morasse ali: a tal senhora Westaway, cuja morte desencadeia todo o drama e suspense do livro, viveu naquela propriedade até seu fim. A casa não estava "abandonada" por não ser habitada, mas sim porque ninguém se preocupou em conservá-la. 

"Ela descobriu que as verdades mais importantes muitas vezes estavam no que as pessoas não falavam [...]"

Ao longo da leitura senti como se aquela casa assustadora "falasse" e sentisse. Como se tivesse "apodrecido" por todo terror do qual foi testemunha. Toda dor e lágrimas sofridas entre suas paredes...

Harriet Westaway sabia o que era passar por privações em sua vida. Desde pequena precisava lidar com a falta de dinheiro, sendo sempre a criança mais pobre entre seus colegas de escola, vestindo roupas e sapatos usados e encarando de frente a situação com a coragem que sua mãe lhe ensinou. A mãe que era sua amiga, seu único familiar. A mãe que lutava dia após dia para sustentá-la, com quem ela viveu todos os bons e maus momentos. A mãe que morreu, vítima de um terrível acidente, dois dias antes do seu aniversário de 18 anos, deixando-a sozinha num mundo hostil, sem saber como seguiria em frente...

"Era a injustiça que machucava mais, feito ácido na garganta. Teve vontade de berrar contra a injustiça daquilo tudo. Quero uma trégua, ela queria soluçar. Só uma vez quero que aconteça uma coisa boa comigo."

Sendo jogada no mundo adulto de uma hora para outra, e sofrendo a dor de perder quem mais amava, ela buscou consolo no álcool e pegou um empréstimo com um agiota, na tentativa de continuar tendo um teto onde morar e algo para comer, mas este foi um dos piores erros de sua vida. Quanto mais trabalhava para pagar as dívidas mais elas aumentavam, num ciclo que não tinha fim. O que ela devia inicialmente se multiplica, tornando impossível quitar uma dívida que era muito superior ao valor que ela de fato tinha pego emprestado. Sem saber o que fazer e sem meios de fugir dos capangas do agiota, enviados para "cobrá-la", Hal tenta não ceder ao desespero... é quando uma misteriosa carta, endereçada à ela, tanto se apresenta como a solução para os seus problemas quanto a lança na direção de segredos do passado que deveriam ser mantidos enterrados...

Destinatário da carta: Harriete Westaway. Endereço: o seu, sem nenhum erro de digitação. Mas aquilo só poderia ser um estranho engano, pois era impossível que ela realmente fosse a pessoa que o remetente procurava. O advogado que lhe enviou a referida carta, comunicava o falecimento de sua avó, Hester Westaway, a data do funeral e o fato de Harriet ser uma das beneficiadas pelo testamento. Seria um alívio para todas as suas dívidas se não existisse um pequeno problema: seus avós tinham falecido muitos anos antes, o que a fazia ter a certeza de que não era a Harriet correta, que tudo não passava de um equívoco. 

Mas diante da situação desesperadora na qual se encontrava, e após sofrer mais uma ameaça do capanga do agiota ao qual devia dinheiro, ela decide arrumar suas coisas e ir até o funeral, se passar pela neta da falecida e colocar as mãos na sua parte da herança. Eram pessoas ricas, certo? Um pouco de dinheiro que ela conseguisse com aquele engano não afetaria suas vidas. Só que ao chegar à Igreja e ao longo do funeral, ela percebe que nada seria tão simples assim... Alguma coisa de muito errada havia naquela história. Por que nenhum dos filhos lamentava a morte da mãe? Por que se comportavam de forma tão estranha uns com os outros? 

"Não era apenas a sensação de uma casa negligenciada há muito tempo. Era algo mais sombrio, de um lugar que esconde segredos, onde pessoas foram tremendamente infelizes e ninguém apareceu para consolá-las."

Ao hospedar-se na casa para leitura do testamento, fica ainda mais surpresa ao perceber o quanto o local estava se deteriorando, como o ambiente era sombrio e triste... O quanto as pessoas que um dia viveram ali tinham sofrido? Sua vontade era de voltar correndo para sua antiga vida, mas tudo se complica gravemente quando descobre que todos os filhos da falecida haviam sido deserdados, sendo ela a única herdeira dos bens. O que parecia apenas um jogo inofensivo, pois um pequeno valor que ela acreditava que herdaria não afetaria ninguém, se torna extremamente perigoso após essa bombástica revelação. 

O que as pessoas estariam dispostas a fazer por dinheiro? Sufocada pelas próprias mentiras, ela decide escapar para a sua realidade, voltar para sua cidade, sua vida... Mas uma foto revira todo o seu mundo: ali, naquela imagem congelada no tempo, entre as pessoas reunidas, estava a sua mãe. O choque é grande demais e Hal tenta entender que ligação haveria entre sua mãe, aquela casa e aquelas pessoas. Que segredos se esconderiam no passado? Por que sua mãe nunca mencionou que tinha vivido ali? Disposta a descobrir toda a verdade, ela demora a perceber que o preço talvez fosse alto demais... Talvez custasse a sua própria vida. 

"[...] que segredo era esse, o segredo que era o cerne de todo aquele mistério, que tinha alguém disposto a matar para protegê-lo?"

Este é um livro que ao mesmo tempo que eu amei também odiei profundamente.kkkkkkk Fiquei muito mal com o final, embora tenha que reconhecer que uma vez que adivinhei os principais segredos bem antes da metade da leitura, poderia muito bem saber como tudo terminaria, mas a verdade é que me neguei a suspeitar dessa pessoa. Me deixei enfeitiçar, me deixei enganar. Eu não quis colocar tal pessoa na lista de suspeitos quando o mais lógico seria colocar a tal pessoa como principal suspeita, levando em conta tudo o que eu tinha adivinhado sobre os segredos da história. Mas eu fui imbecil, me apaixonei por uma personagem que era especialista em prender as pessoas em seus encantos para depois dar o bote. Eu caí direitinho, como a Hal também caiu. A diferença é que eu já tinha descoberto boa parte dos segredos que essa pessoa tentava esconder, Hal ainda não sabia, então... a grande estúpida fui eu mesma. Ainda não me perdoei por ter sido tão burra! E também sofro muito pelo monstro, psicopata do livro, ser justamente quem eu menos queria. 

"Hal podia ser qualquer coisa, menos um rato. E não seria presa de ninguém."

Eu conversava com uma amiga durante a leitura e dizia que o psicopata poderia ser qualquer pessoa, menos aquela pessoa. Que eu não suportaria que fosse quem eu tanto amava no livro. Sabe quando você descobre algo inconscientemente, mas não quer admitir aquilo conscientemente?rs No fundo eu sabia que poderia ser, mas me negava a aceitar. Dizia: "Não, não, não! A autora não pode fazer isso, a autora não vai fazer isso comigo!"kkkkkk Realmente, gente! Eu não imaginava que fosse sofrer tanto com o final deste livro. Vai demorar para eu conseguir superá-lo.

Não há nada mais que eu possa falar sobre a história sem correr o risco de soltar spoiler. Vocês podem ver que eu passo perto do spoiler nesta resenha, mas não chego a fazer nenhuma revelação importante, apenas passo bem pertinho disso.rs Dizer que o psicopata é quem eu menos queria, quem eu mais amava no livro, não significa dizer quem é, pois é impossível vocês saberem de qual personagem estou falando, exceto se já tiverem lido a história. :)

Se recomendo o livro? MUITO! Já quero ler outros livros da autora! 



30 de março de 2021

Um carinho na alma - Bráulio Bessa


Literatura Brasileira
Editora: Sextante
Edição de: 2019
Páginas: 157

9ª leitura de 2021 (9ª resenha do ano)

 Sinopse: Depois de conquistar o coração dos brasileiros com sua Poesia que transforma e passar mais de um ano entre os autores mais vendidos do país, Bráulio Bessa volta a nos brindar com poemas que, como de hábito, nos fazem pensar e nos fazem sentir.

Sempre fiel às suas raízes, mas trazendo novidades, em Um carinho na alma o poeta cearense amplia a gama da sua poesia, indo além do cordel tradicional mas sem jamais abandoná-lo. Seus versos falam sobre os temas que pontuam sua obra, como o amor, a esperança e a amizade, mas também a seca, a injustiça e a falsidade, produzindo as rimas inspiradas que nunca deixam de levar um sorriso aos lábios.

Além de poeta, Bráulio é também um grande contador de histórias. Por isso, além dos poemas, o livro traz relatos de sua infância em Alto Santo, da vivência com a família e os amigos, e de suas andanças de norte a sul do Brasil, abraçando e falando com o povo que tanto lhe prestigia.

 


Quando comecei a ler Um carinho na alma, não imaginei que o livro fosse me emocionar tanto. Que fosse me tocar tão profundamente. Foi um retorno ao meu passado. Ler estes poemas foi viajar para lugares tão bons e tão distantes! Foi visitar a saudade que, na verdade, nunca me deixa só. Saudade de um período muito diferente do que vivemos hoje. Saudade de infância, de pessoas que ficaram pelo caminho, mas que marcaram muito a minha vida. Estou escrevendo e chorando, pois foi isso que o poeta provocou: lágrimas. A cada poema. Foram raros os que não me fizeram chorar. Mas não trocaria estes momentos. Porque lê-los me fez bem. Lembrar de momentos que nunca retornarão dói muito, mas ao mesmo tempo faz bem para a alma. 


Difícil dizer qual dos poemas presentes neste livro mais me tocou. Todos me emocionaram! O poeta escreve com o coração, com tanto sentimento que é como se as emoções saltassem das páginas. E são poemas autobiográficos (parte deles são), que falam de seu próprio passado, da infância e juventude, de familiares amados, de momentos que passam por suas lembranças. 


"Quando o tempo feroz acelerar
desviando da nossa juventude,
não há nada a fazer para que mude,
não há freio no mundo para frear.
O ponteiro insiste em não parar,
pro relógio todos nós somos iguais.
Pai e mãe são eternos, mas mortais,
é saudade que se torna oração."
[Trecho do poema Os cabelos prateados dos meus pais]

Talvez ler este livro no momento atual, com a pandemia tão grave e tantos recordes de mortes, tenha feito minhas emoções ficarem ainda mais à flor da pele. Ver as notícias tem me feito entrar em pânico. Em desespero. Hoje ao sentar para assistir o jornal eu não aguentei. É angustiante. Não sabemos o que o amanhã nos reserva, mas em nenhum outro momento da minha vida senti tanto medo do amanhã. Estamos vivendo um período muito incerto e isso faz eu me agarrar ainda mais à minha família, lembrar muito do passado. Teve um poema do autor que me rasgou o coração, pois ele falou de sua avó, de quando ela estava partindo. Que ela quis comer goiaba e isso me levou dezenove anos atrás, quando minha avó, que também estava indo embora por causa de um câncer, desejou a mesma fruta. E não podia comer. Ela foi embora com o desejo de comer goiaba. Este poema atingiu tão fundo em mim. E ainda por cima, no finalzinho dele, o autor fala do alívio de saber que sua avó teve várias pessoas para segurar sua mão na hora do fim. Isso nos destroça porque esse vírus maldito, que está levando milhões de pessoas no mundo, impede a despedida. Impede que você possa segurar a mão do seu ente querido, de estar com ele nesse momento tão doloroso. Talvez este tenha sido o poema que mais me fez em pedaços. 

"A dor foi terrível. A saudade é valente e latente. Mas saber que, no último suspiro de vida da vovó Maria, tanta gente segurou em sua mão, foi um pingo de felicidade naquela chuva de tristeza."
[Trecho do poema Goiaba tem cheio de vida]

Com palavras simples, mas que acertam em cheio o coração, Bráulio Bessa faz magia. Te faz reviver momentos. Como se eles de fato estivessem acontecendo. É uma viagem agridoce. Me entreguei totalmente à leitura, às emoções. No fim queria recomeçar. Ler tudo outra vez. E com certeza preciso ler tudo o que ele já publicou. Me tornei sua fã. Uma fã profundamente apaixonada por sua escrita tão simples e tão emocionante. 

Além dos poemas autobiográficos, o autor também fala de outros assuntos e "conta histórias", inclusive fechando com chave de ouro o livro com um poema intitulado A lição que a morte deu, que fala de um patrão muito cruel e um empregado que morreu para salvar a vida dele. E aí o poeta prossegue falando do que aconteceu após o fim deles na Terra e eu simplesmente amei este poema! Ele fala das injustiças deste mundo e da justiça de Deus. Me lembrou um pouco a parábola do Rico e Lázaro.

"Depois da viagem feita
pro mundo espiritual,
o lugar que deixa claro
quem é do bem ou do mal, 
fica tudo evidente, 
a justiça é transparente
e nunca é manipulada.
É a hora da verdade
em que toda a humanidade 
um dia será testada."
[Trecho do poema A lição que a morte deu]


Se recomendo este livro? Sem pensar duas vezes! Simplesmente leiam!!!



-> DLL 21: Um livro que termine em um dia 




29 de março de 2021

Como Deus cura a dor - Mark W. Baker



Título Original: How God Heals Hurt
Tradutora: Cynthia Azevedo
Editora: Sextante
Edição de: 2008
Páginas: 208

8ª leitura de 2021 (8ª resenha do ano)

Sinopse: "A felicidade não exclui o sofrimento, porque ele é inevitável. A felicidade depende da maneira como vamos sofrer. Foi isso que Jesus ressaltou em sua própria vida. Evitar o sofrimento não nos leva a uma vida mais feliz, mas a forma de enfrentá-lo conduz a uma vida mais significativa. " - Mark Baker

Autor de Jesus, o maior psicólogo que já existiu (900 mil exemplares vendidos no Brasil), Mark Baker mostra em seu novo livro como a trajetória de Jesus pode servir de inspiração para superarmos nossas dificuldades, traumas e sofrimentos.

Formado em Psicologia e em Teologia, com vasta experiência clínica como terapeuta, o autor estuda há 25 anos os sentimentos das pessoas e a maneira como elas reagem às oito emoções básicas que norteiam nossas vidas: sofrimento, medo, ansiedade, tristeza, culpa, raiva, felicidade e amor.

Suas conclusões deram origem a Como Deus cura a dor, um valioso instrumento de crescimento pessoal e de transformação. Analisando histórias de dezenas de pacientes sob o ponto de vista psicológico, Baker ensina como é possível lidar com o sofrimento associando o tratamento médico à sabedoria da Bíblia.

Com um profundo efeito terapêutico, este livro vai aumentar nossa fé no poder curativo de Deus e, assim, nos ajudar a atravessar os períodos difíceis da nossa jornada.



Fazia mais de um ano que eu estava lendo este livro. Precisamente desde outubro de 2019. Até já tinha lido algumas páginas antes disso, mas foi naquela data que reiniciei a leitura, mantendo-o como companhia ao longo de todo esse tempo, como livro para os momentos em que eu precisava de conforto. De uma palavra amiga, de uma esperança. Assim, eu o lia em doses homeopáticas. 

Não posso dizer que ele funcionou em todos os momentos de dor, mas na maioria sim. Não me dando nenhuma fórmula especial para escapar dos sofrimentos da vida, mas sim servindo como algo que me trazia de volta para mim mesma. Para o meu interior, minhas emoções. E encontrando auxílio de Jesus nas palavras que me confortavam. 

É um livro perfeito? Não. Tem alguns problemas. Mas de modo geral me fez muito bem. E era isso o que eu buscava neste livro: algo que fizesse eu me sentir tranquila, bem, em paz. 

Esta não foi minha primeira experiência com o autor. Li anos atrás Jesus, o maior psicólogo que já existiu e foi uma leitura tão maravilhosa que quando soube da existência de Como Deus cura a dor o quis imediatamente. Sem precisar pensar duas vezes. Do mesmo modo que adquiri O poder da personalidade de Jesus antes de concluir esta leitura aqui. Eu gosto da escrita do autor. Bem mais do que da do Augusto Cury, que é sim um ótimo autor, mas que não provoca em mim o mesmo efeito que as palavras dele. 

Vocês sabem que resenhas de livros de autoajuda não são frequentes aqui no blog, o que não significa que eu tenha algo contra este tipo de literatura. Não tenho e costumo adquirir autoajuda que contém temática religiosa, pois sou cristã e é uma literatura que me agrada, que me faz bem. Não trago resenhas desses livros com frequência porque costumam ser leituras muito pessoais. Gosto da relação exclusiva entre livro e leitora quando mergulho neste gênero e prefiro manter apenas dentro de mim tudo o que o livro me provocou. Porque é um momento em que me desligo de tudo e me ligo ao meu interior. 

Mas eu senti vontade de falar de Como Deus cura a dor. Simplesmente senti vontade. Não o considero maravilhoso como o anterior que li do autor, mas, como eu disse, gostei muito, me fez bem

Neste livro, através de sua experiência como terapeuta e sua formação em psicologia e teologia, o autor vai abordar os diversos tipos de dor sentidas pelos seres humanos em algum momento de suas vidas. E a maneira como reagimos diante delas. Se as dores nos fazem nos tornarmos pessoas melhores ou se nos empurram para baixo e para uma vida de amargura e medos. 

"O sofrimento é uma força poderosa. Não conseguiremos evitá-lo, mas poderemos escolher a direção em que ele nos levará."

Fácil falar, não é mesmo? O autor não diz que é fácil escolher o que o sofrimento, inevitável nesta vida, vai fazer com a gente. Não é nada fácil superar uma dor. Muitas vezes se passam anos, muitos anos e a dor ainda está ali, afetando nosso presente, nossas relações, nossa saúde mental. E a culpa não é nossa. Mas somos sim (cada um de nós) capazes de lutar contra as consequências da dor. Mesmo quando estamos no fundo do poço, acreditando que chegou o fim e que nada nunca vai melhorar. Até mesmo nesses momentos tão horríveis, seguimos tendo dentro de nós a capacidade de levantar. E é importante acreditarmos nisso, acreditarmos em nós. 

"A negação é uma tentativa de afastar o sofrimento. É um mecanismo de defesa psicológica, geralmente inconsciente, que usamos para nos proteger de sentimentos dolorosos. [...] A negação pode ser uma forma de fingir que não estamos sofrendo."

Eu costumo apreciar muito a maneira como o autor toca em temas delicados, como transtornos mentais e emocionais, depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, entre tantos outros. Eu estou lendo um livro do Augusto Cury chamado Armadilhas da Mente, que começou muito bem, mas depois foi ladeira a baixo. Estou quase na metade da leitura, mas não acredito mais que aquele livro consiga se salvar. O autor abordou o tema da depressão e da ansiedade, que são muito delicados para mim, de uma forma muito problemática. Que me fez mal. Ele era um autor que eu admirava, mas depois do que já li naquela história, perdeu muitos pontos comigo. Só ainda não abandonei o livro de vez porque preciso saber o que ele ainda fará na história. E aqui eu fiz a comparação porque o autor de Como Deus cura a dor não costuma me causar esse "incômodo", motivo pelo qual gosto de ler os livros dele.

"Perceber que você não é Deus e que precisa de alguém para ajudá-lo é um sinal de força, não de fraqueza."

Este é um livro que mistura psicologia e religião, então, se você não é cristão provavelmente vai se sentir incomodado com as referências bíblicas, os trechos selecionados como abertura para cada tema e a forma como o autor faz essa conexão, colocando Deus em tudo no livro. O título não foi escolhido ao acaso, claro. Leia ciente disso para não se decepcionar. O livro fala dos tipos de dor, ilustra cada tema com situações vividas neste mundo real no qual todos estamos. Mas sobretudo fala de como Deus, diariamente, nos ajuda a curar as dores que não podemos curar sozinhos. 

"A depressão distorce nossa visão das coisas. É inevitável. Quando estamos deprimidos, os pensamentos se tornam pessimistas. Apesar de todo o esforço, você pensa de modo negativo, o que o deixa ainda mais deprimido. A depressão já é penosa, mas ter de lutar contra os próprios pensamentos pode ser insuportável."

Eu já comentei com vocês antes que luto contra a depressão e o transtorno de ansiedade generalizado. Meu martírio é principalmente a ansiedade, que quando ataca me faz ficar depressiva. E nem sempre isso passa rápido. Já cheguei a ficar um mês inteiro tendo uma crise de ansiedade atrás da outra e mergulhada numa depressão que fazia com que eu não encontrasse paz em nada. Como se vivesse um inferno dentro de mim e nunca fosse sair daquela situação. Mas sempre passa. E é esse pensamento que eu gosto de alimentar dentro de mim. Para que quando a crise vier eu lembre, mesmo lá no fundo, que vai passar. Do mesmo jeito que veio, vai embora. E claro que eu faço tratamento psicológico. É essencial. 

Se você sofre de depressão ou ansiedade, ou qualquer outro problema emocional/mental procure ajuda profissional. Nunca deixe de procurar ajuda! O Centro de Valorização da Vida atende gratuitamente pelo telefone, chat ou e-mail. São voluntários dispostos a ouvir de maneira anônima. Não substitui um psicólogo ou psiquiatra, mas serve como uma ajuda para desabafar num momento de dor. Eu já recorri ao Centro de Valorização da Vida. O número é o 188. Sempre fui muito bem atendida. Todas as vezes que precisei conversar, geralmente em prantos, era tratada de maneira humana. 

"Quando perdemos a esperança, deixamos de acreditar que coisas boas possam acontecer conosco."


O livro é dividido em oito capítulos, sendo eles: Dor & sofrimento; Medo; Ansiedade; Tristeza; Culpa & vergonha; Raiva; Felicidade; Amor. E cada capítulo é subdividido em vários temas. Eles são ilustrados com situações pelas quais o autor passou como terapeuta e também como pastor numa universidade. Nos identificamos com alguns casos de pacientes, alguns sentimentos e experiências vividas por eles. Porque são coisas muito reais, comuns aos seres humanos. Mas cada pessoa passa por determinada situação na vida de forma muito individual, pois cada dor é única. Ninguém tem o direito de "medir" a dor do outro com base na sua. O que você consegue enfrentar de uma maneira não significa que o outro é obrigado a enfrentar igual. 

Eu gostei muito desta experiência de leitura. E este ano ainda, se Deus quiser, pretendo começar a ler O poder da personalidade de Jesus




-> DLL 21: Um livro de sua cor favorita na capa



23 de março de 2021

Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade


Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2012
Páginas: 95 (e-book)

7ª leitura de 2021 (7ª resenha do ano)

Sinopse: Publicado em 1940, Sentimento do mundo permanece, tantos anos depois, ainda um dos livros mais celebrados da carreira de Drummond. Não é para menos: o livro enfileira poemas clássicos como "Sentimento do mundo", "Confidência do Itabirano", "Poema da necessidade" - é possível que versos do livro inteiro tenham sido impressos no inconsciente literário brasileiro, tamanha é sua repercussão até hoje. Já estabelecido no Rio e observando o mundo (e a si mesmo) de uma perspectiva urbana, o Drummond de Sentimento do mundo oscila entre diversos polos: cidade x interior, atualidade x memórias, eu x mundo. Perfeita depuração dos livros anteriores, este é um verdadeiro marco - e como se isso não bastasse, é o livro que prepara o terreno para nada menos do que A rosa do povo (1945). Por isso a ênfase, ao longo de todo o livro, na vida presente.



É muito difícil escrever uma resenha sobre poesia; sempre foi. Mas é muito mais difícil eu não apreciar a leitura de um livro do gênero. Infelizmente, foi o que aconteceu com Sentimento do Mundo, primeiro livro que leio do Carlos Drummond de Andrade. 

Embora existam sim alguns trechos que me fizeram refletir, que li mais de uma, duas vezes por ter gostado muito, o livro como um todo não me cativou. E isso me surpreendeu bastante, pois lembro de já ter "esbarrado" em alguns poemas dele ao longo da vida e ter me sensibilizado, ter me emocionado com sua escrita. O que me faz pensar que escolhi o livro errado, já que Drummond possui "fases" e minha personalidade provavelmente teria amado ler um dos seus escritos de uma fase mais melancólica e introspectiva. 

Pelas resenhas de poesias que já fiz e o fato de minha poetisa preferida ser a Florbela Espanca, vocês podem ter uma noção de que amo poemas que "me rasgam o coração", que me fazem chorar, que tocam em feridas e me provocam identificação. O poema tem que tocar minha alma. Se isso não acontece, acaba sendo uma leitura perdida para mim. Tempo perdido. 

"Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes 
e roeu as páginas, as dedicatórias e
mesmo a poeira dos retratos. 
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas." 
[Trecho do poema Os Mortos de sobrecasaca]

Em Sentimento do Mundo, originalmente publicado em 1940, temos uma coletânea de 28 poemas do autor; poemas estes que passeiam por diversos assuntos, incluindo as guerras e as mortes causadas por elas; inquietações sobre o tempo e as transformações que estavam em andamento. O poeta aborda assuntos sim muito importantes e reflexivos, mas, como eu disse, seus poemas não conseguiram tocar minha alma, me atingir por completo. Existiam trechos que me tocavam, mas nunca um poema por inteiro, entende? Não existe um só entre os 28 que eu tenha amado do começo ao fim. 

"Também a vida é sem importância. 
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles,
A vida é tênue, tênue. 
O grito mais alto ainda é suspiro, 
os oceanos calaram-se há muito."
[Trecho do poema Canção de berço]


Tenho outros livros do poeta em meu Kindle e pretendo dar uma chance a outro de seus escritos ainda este ano. Não desisti do autor. Tenho certeza que vou encontrar o livro dele que me conquistará e se tornará um favorito. 



-> DLL 21: Um livro de literatura nacional 

 

17 de março de 2021

A Garota do Lago - Charlie Donlea


Literatura norte-americana
Título Original: Summit Lake
Tradutor: Carlos Szlak
Editora: Faro Editorial
Edição de: 2017
Páginas: 296

6ª leitura de 2021 (6ª resenha do ano)

Sinopse: ALGUNS LUGARES PARECEM BELOS DEMAIS PARA SEREM TOCADOS PELO HORROR...


Summit Lake, uma pequena cidade entre montanhas, é esse tipo de lugar, bucólico e com encantadoras casas dispostas à beira de um longo trecho de água intocada.
Duas semanas atrás, a estudante de direito Becca Eckersley foi brutalmente assassinada em uma dessas casas. Filha de um poderoso advogado, Becca estava no auge de sua vida. Era trabalhadora, realizada na vida pessoal e tinha um futuro promissor. Para grande parte dos colegas, era a pessoa mais gentil que conheciam.

Agora, enquanto os habitantes, chocados, reúnem-se para compartilhar suas suspeitas, a polícia não possui nenhuma pista relevante. 

Atraída instintivamente pela notícia, a repórter Kelsey Castle vai até a cidade para investigar o caso.

... E LOGO SE ESTABELECE UMA CONEXÃO ÍNTIMA QUANDO UM VIVO CAMINHA NAS MESMAS PEGADAS DOS MORTOS...

A selvageria do crime e os esforços para manter o caso em silêncio sugerem mais que um ataque aleatório cometido por um estranho. Quanto mais se aprofunda nos detalhes e pistas, apesar dos avisos de perigo, mais Kelsey se sente ligada à garota morta.

E enquanto descobre sobre as amizades de Becca, sua vida amorosa e os segredos que ela guardava, a repórter fica cada vez mais convencida de que a verdade sobre o que aconteceu com Becca pode ser a chave para superar as marcas sombrias de seu próprio passado...



Esta é uma resenha que eu realmente acreditei que não fosse escrever. Mesmo agora enquanto estou sentada na frente do computador, com a intenção de finalmente colocar em ordem meus pensamentos sobre a história, ainda não sei se conseguirei escrever algo coerente. E nada disso é culpa do livro, mas dos problemas que estou enfrentando (problemas de saúde na família) e que afetaram até meu prazer pela leitura. Os livros sempre funcionaram como refúgio na minha vida, mas são tantas coisas ao mesmo tempo que nem a leitura está conseguindo me tranquilizar, me dar a paz que sempre deu. 


Terminei de ler este livro já faz cerca de duas semanas e é sempre difícil falar de uma história depois que passou tanto tempo. Mas o li numa leitura coletiva e ontem consegui umas horas de "respiro" para fazer o debate com os outros leitores. Isso serviu para refrescar também minha memória sobre os acontecimentos do livro e considerar tentar escrever a resenha. Eis aqui minha tentativa.rs


Becca Eckersley era uma linda estudante de direito de vinte e dois anos, cursando a pós-graduação, como era desejo de seus pais, que sonhavam em ver a filha ser bem-sucedida na vida. Agradável, sorridente e gentil, mantinha fielmente seu núcleo de amizades conquistada logo no início da faculdade, e que não admitia a entrada de nenhum novo membro, por mais que eles tivessem outros amigos "por fora". O quarteto inseparável era composto por Becca, Gail, Brad e Jack, e causava admiração nos demais estudantes que entre eles não houvesse nenhum romance, pois era inviável que homens e mulheres conseguissem ser apenas amigos, ainda mais convivendo de maneira tão próxima (era comum as meninas dormirem, apenas dormirem, com os meninos em seu apartamento ou vice-versa) e compartilhando segredos e todos os momentos importantes. 


Todos os quatro tinham grandes planos para o futuro. Terminariam a faculdade com ótimas notas, cursariam a pós-graduação, alcançariam todo o sucesso sonhado. Mas tudo terminou de maneira violenta para Becca, na noite do dia em que chegou na casa de férias de seus pais, para passar um período sozinha, dedicado exclusivamente aos estudos. Naquela noite, após voltar de um café e passar algumas horas sentada na cozinha estudando, ela abriu a porta para o seu assassino. Para o homem que destruiria sua vida. Que a violentaria e agrediria, deixando-a largada para morrer, numa casa em que ela tinha vivido tantos momentos bons. Num lugar que ela considerava um refúgio. Jamais poderia imaginar que iria até ali apenas para ser assassinada. E muito menos que seria por ele... por alguém em quem confiava. 


"Ao longe, uma sirene ecoou na noite, baixinha no início, e depois, mais alta. A ajuda estava chegando, embora ela soubesse que era muito tarde."


A história começa de maneira brutal, com a cena da morte de Becca, assassinada em 17 de fevereiro de 2012. Quando eu disse que ela foi assassinada por alguém que conhecia e em quem confiava, é porque o livro deixa isso claro para a gente, logo nas primeiras páginas, pois ela sorri ao vê-lo aparecer, desliga o alarme e abre a porta para ele entrar. Era alguém de quem ela jamais esperaria uma traição tão grande, o que torna tudo pior para nós leitores. Porque nos apegamos muito à Becca e sentimos como se fosse com a gente a traição que ela sofre. Fico imaginando como seu coração despedaçou enquanto era atacada por alguém que ela deixou entrar, por alguém em quem tanto confiou. Sempre digo que a traição é o pior dos pecados. É da traição que parte todo mal. 


Após a cena de sua morte, o livro passa a intercalar presente e passado. No presente, duas semanas após o assassinato dela, conhecemos Kelsey Castle, uma jornalista que lidava com os próprios demônios e que foi enviada para a pequena cidade de Summit Lake para escrever sobre aquele chocante crime. Seu chefe não esperava que ela fosse enfrentar tantas complicações ao chegar ao local, incluindo tentativas misteriosas da polícia de abafar o crime e impedir qualquer pessoa de se aproximar da verdade. Tudo era muito estranho e a insistência das autoridades de que se tratava de um roubo seguido de morte era patética e surreal, pois a brutalidade do assassinato e o fato de apenas a bolsa de Becca ter sido levada (quando existiam muitos objetos de valor na casa) colocava em sérias dúvidas aquela tese. 


Ao mesmo tempo em que acompanhamos a luta de Kelsey para contar a história daquela jovem, cuja vida foi interrompida de maneira tão horrível, o autor nos leva ao passado de Becca, quatorze meses antes de sua morte, nos dando a oportunidade de conhecê-la, e de sofrer ainda mais por um destino que não poderíamos evitar. A vontade que temos é de mudar os acontecimentos, de avisá-la para não abrir a porta, de gritar que ela seria traída por alguém que amava. Queremos impedir sua morte, mesmo sabendo que é impossível. E o autor parte dos quatorze meses anteriores à tragédia e vai se aproximando, com o desenrolar da história, da noite de sua morte, para dessa vez revelar quem era o assassino. Essas cenas só se passam no final, claro, mas a repetição das cenas, só que com mais detalhes, causa uma imensa angústia em nós leitores, que somos obrigados a reviver aquele momento, sabendo como tudo terminaria. Isso nos causa muita tristeza.


O autor conseguiu escrever uma história tocante, abordando um tema muito real em nosso país e no mundo: o feminicídio. Mais uma vez digo que não estou falando demais, não é spoiler, pois são conclusões que qualquer leitor consegue tirar das primeiras páginas. Becca foi morta em razão de seu gênero. Foi brutalmente estuprada, agredida e deixada agonizando como se fosse um nada, como se sua vida fosse insignificante. Simplesmente por ser mulher. E isso fica completamente claro na cena inicial do livro, a cena em que ela é atacada e assassinada. 


A partir daquela cena, antes mesmo de conhecer seu passado, começamos a criar teorias. Quem seria o assassino? O pai, o irmão, algum outro parente, algum amigo, um namorado ou ex-namorado? Sabemos que era alguém em quem ela confiava muito e que sabia que ela estaria ali naquela noite. Alguém de quem ela não tinha medo. Que recebeu de braços abertos, sem jamais imaginar as intenções daquela pessoa. 


Digo que não é nada difícil descobrir quem é o desgraçado que a matou. O autor aponta para determinada direção e temos A CERTEZA de que foi tal pessoa. Sabe o que é não ter nenhuma dúvida de que tal pessoa foi o assassino? O autor nos joga na direção do monstro... apenas para confundir nossa cabeça depois. Ele provoca uma reviravolta interessante (e muito inteligente), fazendo com que descartemos nossa teoria e pensemos em outros suspeitos. E a surpresa acaba sendo grande no final. E nos faz refletir também sobre decisões que tomamos e que podem se voltar contra nós. Às vezes ajudamos sem esperar nada em troca. Ajudamos por amor, por nos colocarmos no lugar da outra pessoa. E ajudar é algo maravilhoso, claro. Nosso dever como seres humanos, de não olharmos apenas para nosso umbigo. Só que... às vezes temos que pensar antes de confiar. Antes de sairmos estendendo a mão. Porque pode acontecer de estendermos a mão para alguém que vai nos jogar no abismo depois. 


Este livro mexeu muito comigo e apreciei bastante a leitura como um todo, embora tenha sentido bastante angústia. Mas não pude dar cinco estrelas nem favoritar, pois por mais que seja um livro bem escrito e super envolvente, possui falhas evidentes. A história começa muito bem e de repente fica um tanto parada, apostando em repetições de pensamentos e diálogos que frustram um pouco o leitor. Mas esse não é nem o pior dos problemas, mas sim algumas pontas soltas e a forma como não conseguimos nos conectar com a Kelsey. 


O autor tinha a intenção de contar a história de duas mulheres, ligadas por um pesadelo em comum. Só que ele se concentra tanto na Becca e em nos fazer sofrer por ela, que esquece completamente da Kelsey. Ela parece estar ali apenas para solucionar o crime, quando percebemos pelo desenvolver da história que o autor queria que ela fosse protagonista também, mas não conseguiu nos conectar, nos fazer ter alguma ligação com a personagem. E não fui a única a sentir isso; como eu disse, li o livro numa leitura coletiva e os outros leitores também perceberam esse problema na história. É triste, pois a Kelsey tinha muito potencial e, infelizmente, não conseguimos sentir absolutamente nada por ela. 


Outro problema, tão grande quanto este, foi o fato de o autor, para desviar nossa atenção do assassino, criar situações que ficaram sem explicação, sem sentido. Determinados personagens agem de certa forma, mas no final não há nenhuma explicação. Ficaram pontas soltas, entende? Ficamos nos perguntando quais foram os motivos e a única conclusão é que o autor fez tal escolha apenas para nos desviar, só que ao deixar coisas importantes sem resposta, ele acabou prejudicando um pouco um livro que é muito bom. Mas creio que este é seu livro de estreia e para uma primeira história, sem dúvidas, ele arrasou! Então, crio ainda mais expectativas em relação aos seus próximos livros, que já quero ler!



-> DLL 21: Um livro que comprou pela capa



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