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25 de outubro de 2021

Ensaio sobre a Cegueira - José Saramago


Literatura Portuguesa
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2001
Páginas: 312

30ª leitura de 2021 (23ª resenha do ano)

Sinopse: Um motorista, parado no sinal, subitamente se descobre cego. É o primeiro caso de uma "treva branca" que logo se espalha incontrolavelmente. Resguardados em quarentena, os cegos vão se descobrir reduzidos à essência humana, numa verdadeira viagem às trevas.

O Ensaio sobre a cegueira é a fantasia de um autor que nos faz lembrar "a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam". José Saramago nos dá, aqui, uma imagem aterradora e comovente de tempos sombrios, à beira de um novo milênio, impondo-se à companhia dos maiores visionários modernos, como Franz Kafka e Elias Canetti. 

Cada leitor viverá uma experiência imaginativa única. Num ponto onde se cruzam literatura e sabedoria, José Saramago nos obriga a parar, fechar os olhos e ver. Recuperar a lucidez, resgatar o afeto: essas são as tarefas do escritor e de cada leitor, face à pressão dos tempos e ao que se perdeu - "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos". 




Mergulhar nesta leitura foi como fazer uma viagem ao inferno... Me senti dentro de um pesadelo, de um filme de terror. Foi uma experiência angustiante, desesperadora. Quando cheguei ao capítulo onze, quando li todas aquelas atrocidades... o sentimento de desesperança em relação à humanidade se fez intenso. Ao mesmo tempo que me senti sem forças para prosseguir com a leitura, passei dias refletindo sobre a maldade humana, como somos capazes das coisas mais monstruosas... Como o ser humano consegue ser vil, abjeto, cruel! Como o próprio autor diz no livro através das palavras de um personagem:

"É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade."

Aqui temos a história de uma epidemia que foge completamente ao "normal": uma cegueira branca, que parece se espalhar com apenas uma troca de olhares entre alguém infectado e os outros. Do nada, um homem que estava dentro do seu carro, parado no sinal, começa a gritar em desespero ao se perceber cego. Mas ele não vê tudo escuro, ele vê uma luz, algo branco que o impede de enxergar tudo ao seu redor. Transtornado, é conduzido até sua casa por um "bom samaritano" que aproveita o seu momento de sofrimento para furtar seu carro e, logo em seguida, nem é capaz de desfrutar do seu crime, pois também é contaminado pela cegueira da qual ninguém nunca tinha ouvido falar e que não podiam fazer ideia de que era contagiosa. 

O primeiro cego, sentindo que a vida deixava de ter qualquer sentido, é consolado pela esposa e levado até uma clínica oftalmológica para que o estranho caso seja analisado por um médico. O oftalmologista nunca tinha se deparado com algo como aquilo antes... Nada nos olhos daquele homem indicava que ele estava cego e, no entanto, o homem via tudo branco. Decide passar alguns exames e voltar a vê-lo quando as análises estivessem prontas. Mas, após atender os demais pacientes do dia e ir para casa, não consegue tirar aquele caso de sua cabeça. Entra em contato com um colega e resolve consultar alguns livros... mas, de repente, também fica cego. 

"Nunca se pode saber de antemão de que são capazes as pessoas, é preciso esperar, dar tempo ao tempo, o tempo é que manda, o tempo é o parceiro que está a jogar do outro lado da mesa, e tem na mão todas as cartas do baralho [...]"

A partir daí, ao comunicar seus chefes do ocorrido e o Ministério da Saúde ser informado, o verdadeiro inferno começa. As pessoas "contaminadas" são retiradas de suas casas, sob a falsa promessa de que receberão todos os cuidados necessários e trancadas num antigo manicômio, tratadas de uma maneira que nem mesmo os animais devem ser tratados e tendo que lutar, dia após dia, contra a morte e a loucura, vítimas das mais bárbaras formas de violência. 

Eu não consigo chamar a realidade desesperadora na qual os personagens são jogados de outra coisa que não seja inferno. Assassinatos, doenças provocadas pelas condições insalubres nas quais são obrigadas a viver, fome, sede, estupros... as pessoas trancadas naquele manicômio mal eram alimentadas, pois  o que os soldados encarregados de "cuidar" delas mais queriam era que morressem, pois "morrendo o bicho acaba-se a peçonha". Tinham sede, não podiam tomar banho, pois a água que vinha das tubulações eram podres. Até mesmo para fazer as necessidades básicas do corpo se viam sem dignidade, pois não era fornecido papel em quantidade suficiente, o encanamento para que os dejetos fossem eliminados estavam entupidos... e as pessoas foram colocadas ali para viverem dessa forma até que não aguentassem e morressem, fosse pela fome, por doenças provocadas por aquelas condições de enorme insalubridade ou mesmo que se matassem entre si, pois estavam ali reunidas pessoas das mais diversas personalidades. Não existia só gente "boa", mas também criminosos e nenhum segurança. Sem contar os momentos nos quais os próprios soldados atiravam para matar. Como eu disse, aquilo era o inferno. 

"[...] ainda o que nos vale é sermos capazes de chorar, o choro muitas vezes é uma salvação, há ocasiões em que morreríamos se não chorássemos"

Existiram momentos nos quais me senti doente lendo sobre tanto sofrimento, tanta crueldade e falta de esperança. Por estarmos vivendo uma pandemia provocada pelo Covid-19 e milhões de pessoas terem morrido, muitas sem reverem seus familiares, sem poderem se despedir, sozinhas num leito de hospital, onde o medo é um dos mais terríveis companheiros, a leitura se tornou mais dolorosa. Por diversas vezes eu tinha que fechar o livro e "respirar", pois me sentia esgotada, sufocada e com muito medo. Medo da pandemia atual, medo de que outras doenças ainda podem surgir e quanto inferno nós seres humanos poderíamos suportar sem enlouquecer, sem perdermos nossos sentimentos, sem nos perdermos. Sem que nossa alma também se acabasse... 

Mas, diante de algumas cenas capazes de nos jogar no chão e nos manter lá em pedaços, sem forças para levantar... Eu refleti sobre coisas nas quais não gosto de pensar: que nós já estamos perdidos. Que a humanidade já está se destruindo e que não são guerras, catástrofes, pandemias que podem provocar a maldade no ser humano. Ela já existe latente, esperando apenas uma desculpa qualquer para se manifestar. Saramago conseguiu me abalar muito com Ensaio sobre a Cegueira. Se ele queria, como na passagem do primeiro livro de A Divina Comédia (intitulado Inferno), do escritor Dante Alighieri, que abandonássemos toda esperança ao passarmos pelas portas do livro, ele conseguiu. 

"[...] a cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança."

Em muitos momentos, inclusive, lembrei bastante de Inferno de Dante. Não só da famosa passagem: "Deixai toda esperança, ó vós que entrais", mas do livro como um todo, que me marcou profundamente quando o li. Muitos e muitos versos de Inferno nos descrevem exatamente o que suportam e sofrem os personagens de Ensaio sobre a Cegueira, o que me faz pensar que o Saramago se inspirou bastante neste maravilhoso clássico para escrever sua impactante história. 

Todavia, por mais insuportáveis que muitas cenas presentes no livro sejam, tanto pela maldade quanto pelo sofrimento humano que desesperam nós leitores e nos fazem sentirmos impotentes, querendo fazer cessar toda aquela angústia vivida pelos personagens, mas sem nada poder fazer... Por mais dolorosos que tais momentos sejam e por mais pessimista e fatalista que o narrador se mostre, a esperança não é de todo perdida. Ele nos possibilita o alívio principalmente na figura da mulher do médico, mas também na de outros personagens. Mostrando que por mais que a maldade reine e se espalhe, sempre haverá quem dê tudo de si para ajudar os outros, quem escolherá fazer o bem, quem não pensará apenas em si mesmo. Há muitos exemplos da indiferença e ruindade que o autor menciona no livro, massa da qual ele diz que nós somos feitos. Mas também existem exemplos de bondade, solidariedade, compaixão... amor. E é isso que torna este um dos melhores livros que já li em minha vida. 

"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."

Busquei não dar spoilers em minha resenha, pois eu própria iniciei a leitura sem saber muito da história e isso tornou a experiência mais incrível. Mas, Luna, você mencionou assassinatos e estupros! Sim, mas não considero isso spoiler, mas sim informações necessárias a serem dadas, por conta dos intensos gatilhos que tais cenas representam. Por mais que tenha sido maravilhoso (e doloroso ao mesmo tempo) conhecer a história sem saber quase nada sobre ela, em relação às cenas de violação eu queria muito que alguém tivesse me avisado. Queria muito estar preparada para o que iria encontrar, pois foi um golpe terrível lê-las sem nenhum aviso. Foi de me fazer passar mal, literalmente. Por mais que seja impossível suportar tais cenas, com ou sem spoiler, eu preferia saber. Preferia ler ciente do que encontraria. 

São tantas as coisas que eu gostaria de falar sobre esta história e não posso para não estragar a experiência de leitura de vocês... Só digo que recomendo muito que deem uma chance ao livro! Mas que estejam preparados para sofrer porque não existe maneira de passar por esta leitura sem ficar destroçado, sem chorar, sem sentir uma espécie de dor não só emocional, mas física. Esta história é visceral. Este livro é uma alegoria sobre a vida e as relações humanas e nem sempre somos capazes de captar tudo o que está nas entrelinhas, todos os sentidos do texto e das cenas... Em alguns momentos me lembrou a Bíblia também e o autor até faz uma comparação irônica com algumas passagens das Escrituras Sagradas. É Saramago, então, quem conhece as obras do autor já sabe que ele gosta de fazer isso. 

"É um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver"

Se estou preparada para ler Ensaio sobre a Lucidez ou algum outro livro do Saramago em breve?! Claro que não!rs Darei um tempo pelo bem da minha sanidade mental. Mas em algum momento dos próximos anos, estando viva, ainda pretendo ler outros livros do autor, que apesar das narrativas cruas e dolorosas, é, sem sombra de dúvidas, um grande escritor. Mesmo com as cenas mais pesadas, o leitor não consegue parar de ler, não consegue abandonar a leitura. Ao mergulharmos numa história dele sentimos a necessidade de chegar ao final, de saber como tudo termina. 


23 de março de 2021

Sentimento do Mundo - Carlos Drummond de Andrade


Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2012
Páginas: 95 (e-book)

7ª leitura de 2021 (7ª resenha do ano)

Sinopse: Publicado em 1940, Sentimento do mundo permanece, tantos anos depois, ainda um dos livros mais celebrados da carreira de Drummond. Não é para menos: o livro enfileira poemas clássicos como "Sentimento do mundo", "Confidência do Itabirano", "Poema da necessidade" - é possível que versos do livro inteiro tenham sido impressos no inconsciente literário brasileiro, tamanha é sua repercussão até hoje. Já estabelecido no Rio e observando o mundo (e a si mesmo) de uma perspectiva urbana, o Drummond de Sentimento do mundo oscila entre diversos polos: cidade x interior, atualidade x memórias, eu x mundo. Perfeita depuração dos livros anteriores, este é um verdadeiro marco - e como se isso não bastasse, é o livro que prepara o terreno para nada menos do que A rosa do povo (1945). Por isso a ênfase, ao longo de todo o livro, na vida presente.



É muito difícil escrever uma resenha sobre poesia; sempre foi. Mas é muito mais difícil eu não apreciar a leitura de um livro do gênero. Infelizmente, foi o que aconteceu com Sentimento do Mundo, primeiro livro que leio do Carlos Drummond de Andrade. 

Embora existam sim alguns trechos que me fizeram refletir, que li mais de uma, duas vezes por ter gostado muito, o livro como um todo não me cativou. E isso me surpreendeu bastante, pois lembro de já ter "esbarrado" em alguns poemas dele ao longo da vida e ter me sensibilizado, ter me emocionado com sua escrita. O que me faz pensar que escolhi o livro errado, já que Drummond possui "fases" e minha personalidade provavelmente teria amado ler um dos seus escritos de uma fase mais melancólica e introspectiva. 

Pelas resenhas de poesias que já fiz e o fato de minha poetisa preferida ser a Florbela Espanca, vocês podem ter uma noção de que amo poemas que "me rasgam o coração", que me fazem chorar, que tocam em feridas e me provocam identificação. O poema tem que tocar minha alma. Se isso não acontece, acaba sendo uma leitura perdida para mim. Tempo perdido. 

"Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes 
e roeu as páginas, as dedicatórias e
mesmo a poeira dos retratos. 
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
que rebentava daquelas páginas." 
[Trecho do poema Os Mortos de sobrecasaca]

Em Sentimento do Mundo, originalmente publicado em 1940, temos uma coletânea de 28 poemas do autor; poemas estes que passeiam por diversos assuntos, incluindo as guerras e as mortes causadas por elas; inquietações sobre o tempo e as transformações que estavam em andamento. O poeta aborda assuntos sim muito importantes e reflexivos, mas, como eu disse, seus poemas não conseguiram tocar minha alma, me atingir por completo. Existiam trechos que me tocavam, mas nunca um poema por inteiro, entende? Não existe um só entre os 28 que eu tenha amado do começo ao fim. 

"Também a vida é sem importância. 
Os homens não me repetem
nem me prolongo até eles,
A vida é tênue, tênue. 
O grito mais alto ainda é suspiro, 
os oceanos calaram-se há muito."
[Trecho do poema Canção de berço]


Tenho outros livros do poeta em meu Kindle e pretendo dar uma chance a outro de seus escritos ainda este ano. Não desisti do autor. Tenho certeza que vou encontrar o livro dele que me conquistará e se tornará um favorito. 



-> DLL 21: Um livro de literatura nacional 

 

18 de julho de 2020

Histórias de Amor - Rubem Fonseca

Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 1997
Páginas: 136


37ª leitura de 2020

Sinopse: O título romântico deste livro dificilmente enganará os leitores de Rubem Fonseca. São histórias de amor, certamente, mas sem o sentimentalismo convencional do gênero. Na ficção aguçada desse grande prosador brasileiro, amor e morte estão sempre presentes. Nestas histórias, de inquientante ambiguidade e humor ferino, um lado claro (humanidade, compaixão, ternura) e outro escuro (angústia, dor) se contrapõem em perturbadora harmonia.




Esta foi minha primeira experiência com as obras do Rubem Fonseca e posso dizer que já estou traumatizada.kkkkk...

Pela sinopse eu já sabia que não encontraria no livro uma coletânea de contos de amor, que de "histórias de amor" o livro não tinha nada.rs Mesmo assim, fiquei em choque, pois de modo algum esperava por personagens e histórias tão... tão... perturbadores.

São ao todo sete contos, sendo o último o mais longo. No primeiro, temos um homem sofrendo uma imensa dor pela iminente morte de seu ente querido, que esteve ao seu lado por quase duas décadas. Esta foi a única história do livro que pude considerar como realmente uma história de amor. Fiquei muito tocada pelo sofrimento do personagem e desejando que a morte não ocorresse, que algo impedisse aquela tristeza, aquele adeus tão definitivo.

Já o segundo conto nos causa um choque e uma revolta enormes. Nele temos uma víbora, uma mulher perversa e vingativa, que pede ao namorado que mate uma criança, porque ela quer fazer a mãe do menino sofrer. Conseguem acreditar em algo assim?! Eu quis entrar na história e acabar com essa desgraçada! Mandá-la para o inferno de onde ela não deveria ter saído!

No terceiro conto temos um pai que decidiu nunca voltar a se casar depois da morte de sua esposa e que mandou a única filha para um colégio interno, no qual ela poderia receber toda a educação e atenção que ele não poderia lhe dar. Ele ia com frequência visitá-la e quando ela se formou e cursou a faculdade, tudo o que ele quis foi que sua filha estivesse ao seu lado por um tempo e depois pudesse se casar e dar a ele o neto que tanto desejava. Este pai havia descoberto que tinha pouco tempo de vida. E queria passá-lo com sua única filha. Só que essa filha tinha planos muito diferentes para sua própria vida...

No quarto conto, um assassino de aluguel é contratado para matar uma mulher. Ele não sabia os motivos, não perguntara. Só deveria fazer seu trabalho e sumir. Nada de muito complicado. Só que... ao conseguir um emprego na casa dela e passar a conviver com aquela atormentada senhora, que estava sendo aterrorizada constantemente e se acreditava louca, ele começa a se sentir incomodado, pois em tudo ela o fazia recordar a mãe que gostaria de ter... É quando ele percebe que precisará tomar uma séria decisão...

No quinto conto dois amigos resolvem se casar, para a alegria de seus familiares que sempre desejaram vê-los juntos. A moça sempre foi apaixonada pelo amigo, já ele só a via como irmã. Após o casamento, mesmo passando a vê-la como mulher e de desejá-la, ele tem grandes dificuldades para fazer amor. O problema não é com outras, mas apenas com ela, o que o deixa bastante confuso e frustrado.

No sexto conto, dois detetives investigam o assassinato de uma adolescente que estudava e morava num colégio de freiras. Ela havia sido estrangulada e o assassino levara a medalha que ela carregava presa a uma corrente no pescoço. O detetive Guedes estava disposto a prosseguir com a investigação e ouvir testemunhas e suspeitos de maneira imparcial e profissional, mesmo que a morte de uma menina de doze anos fosse algo que mexesse com qualquer ser humano. Já o seu parceiro, detetive Leitão, um católico fanático, que julgava e condenava a todos conforme sua visão da religião e de Deus, via um suspeito já como culpado baseado em seus preconceitos e seu fanatismo. Não ouvia nenhuma opinião que fosse diferente da sua. E não tinha nenhum problema em abusar de sua autoridade, inclusive agindo com clara violência. Este conto se concentra no fanatismo religioso, na intolerância religiosa e na violência policial, e isso é mostrado de uma forma que nos provoca muita angústia. Ficamos mais do que chocados com a injustiça que é cometida, com toda a crueldade. Eu fiquei muito abalada.

O sétimo e último conto da coletânea traz um casal que se conheceu por acaso durante uma festa de Ano Novo. De início, sequer confessaram seus nomes verdadeiros. Após aquela noite, se encontravam em segredo, cheios de mistérios, amando o gosto de "proibido" daquela relação. Mas depois de alguns meses aquilo deixou de ser excitante e passaram a querer mais. E conforme começam a confessar seus segredos e descobrem que ambos são casados... percebem que precisam fazer alguma coisa para transformar aquele relacionamento em algo duradouro. Queriam ficar juntos, queriam se casar. O fato de já serem casados era realmente um problema...

Nunca imaginei que as histórias do Rubem Fonseca eram tão... intensas. Eu não estava preparada para tudo o que encontrei nestes contos, mas a leitura valeu a pena sim. A escrita dele é envolvente, quando começamos a ler não conseguimos parar, mesmo que as histórias nos provoquem certo incômodo. 



-> DLL 20: Um livro de contos


21 de abril de 2020

Amoras - Emicida / Flávia e o Bolo de Chocolate - Míriam Leitão

Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letrinhas
Edição de: 2018
Páginas: 44
21ª leitura de 2020

Sinopse: Em seu primeiro livro infantil, Emicida conta uma história cheia de simplicidade e poesia, que mostra a importância de nos reconhecermos nos pequenos detalhes do mundo. Na música “Amoras”, Emicida canta: “Que a doçura das frutinhas sabor acalanto/ Fez a criança sozinha alcançar a conclusão/ Papai que bom, porque eu sou pretinha também”. E é a partir desse rap que um dos artistas brasileiros mais influentes da atualidade cria seu primeiro livro infantil e mostra, através de seu texto e das ilustrações de Aldo Fabrini, a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos — desde criança e para sempre.




Este é um livrinho que resolvi ler "do nada". Inicialmente não estava nas minhas metas, mas eu estava um tanto triste e queria apostar numa leitura rápida e leve, que me desse um pouco mais de ânimo. 

Aqui temos uma historinha simples, mas muito importante por falar de aceitação, de amor próprio e de tolerância religiosa. Há menções à religião africana, ao cristianismo, ao islamismo... De um modo direto e lindo, mostrando que são apenas maneiras diferentes de praticar a fé e buscar um mesmo Bem. 

"Nesse planeta, Deus tem tanto nome diferente que, pra facilitar, decidiu morar no brilho dos olhos da gente."

A protagonista é uma menininha muito esperta e observadora e durante um passeio pelo pomar ao lado do pai, enquanto ele explicava que quanto mais pretinhas mais doces eram as amoras, que eram "o melhor que há", ela ficou muito feliz por ser parecida com as amoras, por ser "pretinha também". E aqui temos a questão da aceitação, de amar a si mesmo, de valorizar a sua cor de pele... entender que cada detalhe em nós foi feito com amor por Deus. É um livro de fácil leitura e compreensão pelas crianças e já quero que a minha priminha o leia (no momento ela está lendo Harry Potter e a Câmara Secreta). 

O autor também menciona Zumbi dos Palmares e Martin Luther King, enfatizando assim a sua intenção ao escrever este livro. E ele não apenas os menciona, mas ao final da leitura as crianças têm acesso a um glossário que explica de maneira bem simples quem eles foram, além de explicar também quem foi Obatalá e o que significa orixás, quilombo, o que é a África e quem é Alá


Literatura Brasileira
Editora: Rocco
Edição de: 2015
Págnas: 36
22ª leitura de 2020

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: Em meio aos questionamentos da pequena Flávia sobre a sua pele marrom – tão diferente da pele branquinha da mãe –, a premiada jornalista Míriam Leitão aborda temas delicados como adoção e questões raciais de forma sensível e lúdica para os pequenos. Com belas ilustrações de Bruna Assis Brasil, a autora, ganhadora do Prêmio FNLIJ 2014 na categoria Escritor Revelação por seu livro infantil de estreia, A perigosa vida dos passarinhos pequenos, mostra que o mundo é feito de diferentes cores, pessoas e sabores. E que é justamente isso que o torna tão rico. Flávia e o bolo de chocolate é o terceiro livro infantil de Míriam Leitão, autora também de A menina de nome enfeitado.



Pense num livrinho apaixonante! Se gostei muito de Amoras simplesmente AMEI Flávia e o Bolo de Chocolate

Nele temos uma mulher que sonha muito em ser mãe, mas a vida não lhe permite engravidar. Ela era uma pessoa boa e querida por muitos, mas a tristeza por não ter um filho ia tomando conta dos seus dias. Até que ela encontrou a solução perfeita: adotar uma criança que não tivesse mãe e que a quisesse. Foi assim que Flávia, ainda bebezinha, se tornou parte de sua vida, se tornou a sua filhinha. Quando a viu pela primeira vez, Rita (a mãe) percebeu que aquela era sua menina, pois se apaixonou por ela naquele instante. 

Ao conseguir levá-la para casa, agora legalmente sua filha, Rita logo quis passear com a bebê e mostrá-la para todas as suas amigas, mas ainda que a maioria tivesse ficado feliz por ela, uma tratou de destacar as diferenças físicas entre as duas (a cor da pele) e dizer que seria impossível que aquela fosse a filha de Rita. Embora tenha ficado triste com a observação maldosa, que se preocupava mais com a diferença de cor da pele das duas, ela não se deixou desanimar e criou a filha com todo o seu amor. Elas aprendiam juntas, se divertiam, passeavam, eram muito unidas. Mas um dia...

"Flávia começou a chorar:
- Mãe, eu quero ser como você. 
- Como assim?
- Não quero ser marrom!
- É mesmo? Por quê?
- Eu quero ser branca como você.
- Mas por quê? Você é linda do jeito que é, toda marronzinha - falou a mãe."

Mesmo a mãe mostrando o quanto ela era linda e incrível do jeitinho que era, Flávia não se deixou convencer. Na sua opinião ela era feia por ter a pele marrom e queria ser branca como a mãe. Disse que tudo o que era marrom era feio e nada no mundo a fazia pensar diferente. Será que não?! É aí que o livro fica MARAVILHOSO pela maneira única e sensível que a Rita faz a filha abrir os olhos e enxergar a beleza de ser como era. Não vou dizer como ela faz isso, pois eu amei descobrir lendo. Só posso dizer que se tornou um dos meus livros queridinhos! 

Eu estava lendo "O Cortiço" para o tema deste mês do DLL 20, mas como Amoras e Flávia e o Bolo de Chocolate também se encaixam no desafio, resolvi continuar lendo O Cortiço, mas não mais para o projeto.


-> DLL 20: Um livro com um personagem negro


8 de outubro de 2019

Caim - José Saramago

Literatura Portuguesa
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2009
Páginas: 172

Sinopse: Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. 
Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.




Esta é a primeira vez que me desafio a ler Saramago, um autor muitíssimo querido por milhares de leitores, mas também desprezado por outros.rs Afinal de contas, não é possível agradar todo mundo.

Eu acreditei, sinceramente, que teria sérios problemas com o autor. Tanto por ele tocar em temas bíblicos utilizando de muito sarcasmo quanto por sua escrita peculiar (sem travessão, com vírgula no lugar de ponto final, com perguntas sem ponto de interrogação, com nomes próprios com letra minúscula, com trechos que se confundem com fluxo de consciência, e por aí vai...), mas a verdade é que foi bem tranquilo ler Caim.

"A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele."

Este é um livro que precisei ler com a Bíblia do lado. Sério! Como o autor resolveu dar um passeio pelo Antigo Testamento (conjunto de livros bíblicos com os quais SEMPRE tive sérios problemas, mesmo sendo cristã desde a infância), fazendo uma releitura de vários acontecimentos, eu precisei da Bíblia para comparar. Já li os livros que o autor mencionou implícita e explicitamente, mas não tenho uma memória perfeita, capaz de lembrar de tudo o que li. Por isso, foi necessário pegar minha Bíblia para ver até que ponto as falas e cenas eram "reais", ou seja, estavam realmente nos livros sagrados.

"Ao contrário do que costuma dizer-se, o futuro já está escrito, o que nós não sabemos é ler-lhe a página"

Antes de iniciar a leitura, eu pensava que a história se concentraria apenas no livro de Gênesis, que é quando ocorre o primeiro homicídio registrado na Bíblia: o assassinato de Abel, pelas mãos de seu próprio irmão, Caim. Mas as coisas não são bem assim. O autor passa por outros livros da Bíblia, como Êxodo, Josué, Jó e por aí vai. Nós fazemos uma viagem por vários momentos terríveis, de grande violência e destruição. E fazemos essa viagem dolorosa ao lado de Caim, quem nutre, ao longo de todo o livro, um ódio profundo por Deus.

6 de setembro de 2019

O Sol na Cabeça - Geovani Martins


Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2018
Páginas: 120
Onde comprar: Amazon


Sinopse: O sol carioca esquenta a prosa destes treze contos que retratam a infância e a adolescência de moradores de favelas como jamais foram retratados. O prazer dos banhos de mar, as brincadeiras de rua, a adrenalina da pichação, as paqueras e o barato do baseado são modulados tanto pela violência da polícia e do tráfico quanto pela discriminação racial indisfarçável no olhar da classe média amedrontada. Com a estreia de Geovani Martins, a literatura brasileira encontra a voz de seu novo realismo. 



Não sei nem por onde começar a falar de O Sol na Cabeça, livro que reúne treze impactantes contos do autor Geovani Martins, nascido em Bangu, que morou em outras comunidades do Rio de Janeiro, como a Rocinha, antes de ir para o Vidigal. Nesta coletânea, aborda assuntos que geralmente ficam à margem da literatura, mas que se propôs a mostrar, para cutucar a sociedade, incomodar até o ponto que não pudéssemos mais ignorar. Aqui temos a realidade nua e crua mesclada com a ficção. Temos situações das quais parte da sociedade sequer ouviu falar.. Uma realidade de desespero, onde já se parece nascer condenado. 

"Esses polícia é tudo covarde mermo, dando baque no feriado, com geral na rua, em tempo de acertar uma criança."

Eu já tinha ouvido falar bastante do livro, tanto li resenhas positivas quanto negativas. E foi a proposta da obra que me fez desejar conhecê-la. Porque puxando pela memória não conseguia recordar algum momento em que tenha lido algo semelhante. Ainda que tenha lido alguns livros que falam de situações de miserabilidade, violência e outras realidades tão angustiantes, nunca tinha passado por um livro que falasse das comunidades, do tráfico de drogas, das crianças e adolescentes que crescem nesse ambiente, sem oportunidades, sem esperanças, mas que ainda assim querem acreditar em alguma coisa... ainda assim brincam na rua, mesmo com o risco da troca de tiros a qualquer momento... que vão à praia para tomar banho e curtir o momento de lazer, como qualquer carioca, mas que acabam sendo vistos com desprezo pelos "playboys" e abordados pela polícia.... Enfim... São tantas situações mostradas pelo autor que sentimos um nó na garganta e uma sensação de vazio quando terminamos de ler. 

17 de janeiro de 2019

O Menino do Pijama Listrado - John Boyne

(Título Original: The boy in the striped pyjamas: a fable
Tradutor: Augusto Pacheco Calil
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2013)

É muito difícil descrever a história de O menino do pijama listrado. Normalmente, o texto de orelha traz alguma dica sobre o livro, alguma informação, mas nesse caso acreditamos que isso poderia prejudicar sua leitura, e talvez seja melhor realizá-la sem que você saiba nada sobre a trama. 

Caso você comece a lê-lo, embarcará em uma jornada ao lado de um garoto de nove anos chamado Bruno (embora este livro não seja recomendado a garotos de nove anos). E cedo ou tarde chegará com Bruno a uma cerca. 

Cercas como essa existem no mundo todo. Esperamos que você nunca se depare com uma delas. 



Palavras de uma leitora...


- Hoje aqui não há alegria. Esta é uma resenha triste sobre um livro que partiu meu coração. Talvez você já conheça a história. Eu a conheci anos atrás quando assisti a adaptação para o Cinema. Lembro do quanto chorei na época, mas mesmo assim quando soube que existia o livro quis lê-lo. Ainda que soubesse com antecedência que ficaria destroçada. Mas eu queria conhecer o Bruno e o Shmuel... de um modo que o filme não conseguiria mostrar. 

Esta é uma história de amizade. De amor. Mas também de guerra e ódio. Há um pequeno menino de nove anos chamado Bruno que não entende por que as coisas estão tão diferentes. Há uma cerca e um campo de concentração, onde meninos de sua idade usam sempre pijamas e parecem muito tristes. Entre esses meninos está Shmuel. Aquele que se tornaria o seu melhor amigo. 

- Bruno não entendia por que tinha que abandonar sua casa e seus amigos e mudar-se com a família para outro lugar. Não aceitava a decisão de seu pai e tudo o que sabia é que aquilo era culpa do tal Fúria, o homem desagradável que certa noite jantara em sua casa e provocara uma discussão entre os seus pais. Mas o Fúria transformou seu pai em comandante, o que quer que aquilo significasse, e todos precisavam se mudar por conta da nova "missão" que ele recebeu. Mesmo batendo o pé e deixando claro o quanto estava furioso com os acontecimentos, Bruno era apenas um menino de nove anos, cujos sentimentos não eram levados em conta diante de algo tão importante. 

O consolo de Bruno era que a mãe também não parecia muito feliz e isso talvez os fizesse voltar para casa num futuro previsível, como ela costumava dizer, embora ele não soubesse o que seria um futuro previsível. Talvez significasse três semanas. Ou menos. Era sua esperança. 

"Porém, havia algo a respeito da casa nova que fazia Bruno pensar que ninguém jamais ria por lá; que não havia motivo para riso e nada com que se alegrar."

Tudo era muito diferente na casa nova. Além de ela não ser tão grande quanto sua verdadeira casa, existiam soldados por toda parte, entrando e saindo como se fossem donos do lugar. Bruno não gostava deles, mas aquele que lhe provocava verdadeiro pavor era o tenente Kotler, um rapaz de dezenove anos que não hesitava em agir de maneira cruel com o servente que ia toda tarde até a casa de Bruno para cuidar dos legumes. O senhor Parvel. Aquele que era médico antes, mas agora não era mais, embora Bruno também não compreendesse isso. 

Seus dias naquele lugar eram muito solitários, pois só contava com a companhia da irmã, que era um Caso Perdido, e gostava de aproveitar o fato de ser alguns anos mais velha para poder infernizá-lo. Daí o fato de ser um caso perdido. Mas existia uma coisa que despertava a curiosidade de Bruno: a cerca e que o tinha além dela. O lugar que ele conseguia ver da janela de seu quarto. Por que todas aquelas pessoas usavam pijamas? E com tantas crianças naquele lugar ele não deveria estar tão sozinho. Todavia, no fundo de seu coração sentia que não deveria falar com os pais para convidá-los, que existia alguma coisa errada, embora ele não soubesse o quê. 

"Ah, aquelas pessoas", disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. "Aquelas pessoas... Bem, na verdade elas não são pessoas, Bruno."

Quando finalmente criou coragem para mencionar o que tinha visto, Bruno recebeu uma resposta muito estranha do pai. Porque quando olhava para aqueles seres humanos da janela de seu quarto eles certamente lhe pareciam pessoas. Um tanto diferentes dele, é verdade, pois estavam sempre com pijamas e pareciam muito pálidos e magros, mas ainda assim eram pessoas. E quando explorando o lugar escondido de seus pais ele conheceu Shmuel teve ainda mais certeza de que, independentemente do que o pai dissesse, não havia muita diferença entre ele e o outro menino. 

Assim uma amizade improvável foi se construindo. Bruno ia toda tarde até a parte da cerca que parecia menos fixa para sentar-se diante de Shmuel e conversar. Eles não podiam brincar. Bruno não podia atravessar para o outro lado, bem como Shmuel não podia vir para o lado dele. No entanto, ele nunca se sentiu tão próximo de outro ser humano, nem mesmo quando tinha seus outros amigos na casa antiga. Com aquele menino que tinha sua idade e nascera no mesmo dia, mês e ano que ele, uma coincidência fascinante, ele sentia que poderia falar de qualquer coisa. Porém, seu coração se entristecia quando olhava para Shmuel e via como ele era tão magro e parecia sempre faminto. E seus olhos... neles existia uma tristeza tão grande como Bruno jamais vira em outra pessoa. Ele não entendia nada. E tinha medo de entender. Mas se tinha uma coisa que sabia é que seria amigo dele até o fim. Seriam amigos para sempre. 

"Ele olhou para baixo e fez algo bastante incomum para a sua personalidade: tomou a pequena mão de Shmuel e apertou-a com força entre as suas. 
'Você é o meu melhor amigo, Shmuel', disse ele. 'Meu melhor amigo para a vida toda'. [...]"

- Posso dizer com toda sinceridade que não tenho muita força para fazer esta resenha. Este livro me deixou mal. E tudo o que chorei com o filme não se compara ao pranto que este livro provocou. Quando estava chegando às páginas finais tive uma crise tão forte que assustei minha mãe e minha irmã, que não entendiam por que eu estava daquele jeito. Minha mãe sentou do meu lado enquanto eu chorava tanto que nem conseguia falar. E quando a crise diminuiu e pude explicar disse: "Eu não suporto mais este mundo, mãe. Não suporto mais tanta crueldade." E realmente não suporto, gente. Estou cansada de ver tantas infâncias perdidas, tantas crianças passando por coisas que nenhum ser humano deveria passar. Estou cansada das notícias de estupros, assassinatos, desaparecimentos. Estou cansada de uma humanidade que só sabe fazer o mal ao próximo. Quando isso vai acabar? Acho que nunca. Porque se tem uma coisa que o ser humano aprendeu ao longo dos séculos foi a ser cada vez pior. 

"Mas, Luna, é apenas um livro." Acredito que todos aqui sabem que não. A Segunda Guerra Mundial existiu. Hitler existiu. O nazismo existiu, embora há quem diga que não e ainda há quem sabe que existiu e defende esse tipo de monstruosidade. O nazismo provocou a morte de milhões de pessoas. Não só com o Holocausto dos judeus, mas também com todos os vitimados pela guerra e outros grupos que eram perseguidos e eliminados: comunistas, deficientes físicos e/ou mentais, opositores do governo, religiosos, ciganos, homossexuais. E crianças não foram poupadas. Eu lembro que assisti uma resenha certa vez, de uma booktuber que tem um canal mais voltado para livros sobre História e crimes reais, na qual ela falou sobre o livro de uma mulher que viveu num campo de concentração. E o que me marcou nesta resenha foi que essa mulher tinha filhos e ela viu que as crianças mais novas, até determinada idade e os idosos eram enviados para uma parte diferente. Acreditando que aqueles grupos mais frágeis provavelmente estavam indo para um lugar melhor, que seriam poupados do trabalho forçado, ela mentiu sobre a idade de seus filhos, na esperança de salvá-los. Somente depois ela descobriu que aquele grupo separado (de crianças pequenas e idosos) foi o primeiro a ser executado. Porque as pessoas que faziam parte dele de nada serviam, por serem novos ou velhos demais. Foi nesse momento que parei de assistir a resenha. Não suportei continuar. 

"E os caminhões nos levaram a um trem, e o trem.." Ele hesitou por um instante e mordeu o lábio. Bruno pensou que ele ia começar a chorar e não entendeu por quê. 
"O trem era horrível", disse Shmuel. "Havia muitos de nós nos vagões, para começar. E não havia ar para respirar."

- Apesar de narrado em terceira pessoa o livro é contado de maneira simples, mostrando a visão de Bruno sobre os acontecimentos, da forma que uma criança tão nova enxergaria as coisas. E isso torna o livro mais difícil. Porque a gente consegue perceber o que Bruno não conseguia. Ele era muito inteligente e bondoso, nunca se esquecendo da educação que sua mãe lhe deu. E quando via algo que lhe parecia errado, como quando o tenente Kotler agrediu o servente Parvel (um dos judeus que estavam no campo de concentração, mas que era conduzido até a casa para descascar um monte de legumes todos os dias) ele não suportava. Enquanto seu pai, a mãe e a irmã viraram o rosto, desconfortáveis, Bruno caiu em prantos, pois aquilo estava muito errado e alguém precisava fazer alguma coisa. Não se devia bater num empregado. Aquilo não estava certo. E uma das coisas que atormentava a cabeça de Bruno sobre o Parvel era o fato de ele ter sido médico e ter deixado de ser. Nada daquilo fazia sentido para ele. Era tudo uma grande confusão. 

Quando a amizade entre Bruno e Shmuel começa nosso coração se aperta ainda mais, pois até mesmo quem desconhecesse por completo a história do livro saberia que tudo poderia terminar mal, pelo simples fato do livro se passar durante a 2ª Guerra Mundial e tratar da amizade entre o filho de um comandante, responsável por um campo de concentração, e um judeu preso neste campo. A gente até poderia não saber como as coisas terminariam, mas diversas seriam as teorias que se passariam por nossa mente. Eu não vou dizer se o livro realmente termina mal ou se as coisas tomam um rumo inesperado e têm um final feliz. Deixo que vocês descubram lendo. 

"Estamos corrigindo a história aqui."

- Como eu disse, o livro mostra a visão de Bruno sobre os acontecimentos, mesmo assim conseguimos perceber muita coisa através do que ele via ou escutava, embora ele próprio não entendesse. O trecho acima, por exemplo, mostra no que o pai dele e muitos outros personagens acreditavam. Bruno tinha um professor obcecado por História, mas uma História parcial, claro. E quando o menino confessou ao pai que odiava estudar história, seu pai lhe explicou a importância de tal matéria e que era justamente por conta disso que estavam onde estavam, corrigindo a história. Tais ensinamentos são transmitidos para a Gretel, irmã de Bruno, que tinha doze anos e compreendia melhor as coisas, embora não tudo. Foi Gretel que explicou ao menino que as pessoas do outro lado da cerca eram judeus e que, portanto, Bruno não poderia se misturar com gente daquela "laia". 

"Estou perguntando: já que não somos judeus, o que nós somos então?"
"Somos o contrário"

"[...] 'Então, por que não gostamos deles?', perguntou ele.
'Porque são judeus', disse Gretel.
'Entendi. E o contrário e os judeus não se dão bem.'
'Não, Bruno', disse Gretel [...]"

- Mesmo após descobrir pela irmã o que tanto o diferenciava dos seres humanos do outro lado da cerca, que segundo o pai não eram pessoas, Bruno não se importou. Sua amizade com Shmuel continuou, sendo o seu segredo, já que ele teve ainda mais certeza de que não poderia contar a ninguém. Quando olhava para o amigo e para si mesmo ele não enxergava um judeu e um contrário. Enxergava outro menino como ele. Alguém com quem ele se importava muito e com quem pretendia brincar quando tudo aquilo terminasse e todos pudessem voltar para suas verdadeiras casas. Por que o que quer que estivesse acontecendo um dia terminaria, certo? E tudo voltaria ao normal. 

A amizade entre os dois é muito bonita de acompanhar, mas também é triste demais. Várias coisas acontecem... sobre as quais nem comentarei. É doloroso ver a inocência das duas crianças que não entendiam o que havia de tão errado com o mundo, só sabiam que algo estava errado e que só podiam ser amigos se aquilo fosse um segredo. Bruno não sabia porque o amigo estava sempre com fome e tão magro, com a pele acinzentada, mas sempre levava um pouco de comida para ele quando se encontravam. Uma das cenas que me fez cair em prantos foi quando o Shmuel disse que já não sentia mais nada. O menino estava com o rosto todo machucado e Bruno acreditando que ele provavelmente tinha caído de uma bicicleta ou algum menino mais velho implicara com ele, perguntou:

"[...] Está doendo?
'Nem sinto mais', disse Shmuel.
'Parece que dói.'
'Já não sinto mais nada', disse Shmuel."

- Este "já não sinto mais nada" foi muito difícil para mim, pois resumiu numa só frase a situação desesperadora em que aquela criança estava, cada vez mais magra e debilitada, passando fome e fazendo trabalhos duros, sendo espancada pelos soldados (pois o livro diz isso nas entrelinhas) e encontrando um alento apenas nos momentos em que sentava de frente para o amigo para que conversassem. Shmuel era tão inteligente quanto Bruno, e ele parecia saber mais sobre a sua situação do que o outro garoto. E uma coisa bonita e muito triste era quando ele tentava poupar Bruno de certas verdades. Ele sabia que o amigo era muito bom e não merecia saber algumas coisas sobre o próprio pai, por exemplo. Então Shmuel o poupava, preferindo ficar em silêncio. A amizade entre os dois foi muito simples e verdadeira. E encerro esta resenha aqui porque sei que vou voltar a chorar. 

29 de março de 2018

A Revolução dos Bichos - George Orwell

(Título Original: Animal Farm: a Fairy Story
Tradutor: Heitor Aquino Ferreira
Editora: Companha das Letras
Edição de: 2007)

Cansados da exploração a que são submetidos pelos humanos, os animais da Granja do Solar rebelam-se contra seus donos e tomam posse da fazenda, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário, sob o slogan "Quatro pernas bom, duas pernas ruim".

Mas não demora muito para que alguns bichos - em particular os mais inteligentes, os porcos - voltem a usufruir de privilégios, reinstituindo aos poucos um regime de opressão, agora inspirado no lema "Todos os bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros."

A história da insurreição libertária dos animais é reescrita de modo a justificar a nova tirania, e os dissidentes desaparecem ou são silenciados à força. 



Palavras de uma leitora...


- Confesso para vocês: depois de ler romances tão maravilhosos nos últimos tempos eu não estava no clima para ler um livro com "pegada" política. Sobretudo considerando a atual situação política do país. Não era o tipo de leitura que eu queria fazer no momento, mas como o livro fazia parte do meu Desafio Mensal e o mês já está chegando ao fim não tive muita escolha.rsrs

Ao iniciar a leitura tinha uma boa noção do que encontraria. Todavia, por mais que esperasse me deparar com determinadas cenas de tortura e assassinatos, tão típicos de governos totalitários, nada me preparou para o que eu senti. Porque o livro desperta "memórias". De épocas que eu não vivi, mas estudei profundamente, revi em livros de ficção como A Menina que Roubava Livros e O Cavaleiro de Bronze, não ficção como O Diário de Anne Frank e filmes como O Menino do Pijama Listrado e Zuzu Angel. Além de documentários ao longo dos anos. Quanto mais lemos A Revolução dos Bichos mais evidente se torna a semelhança com diversos governos ditatoriais que marcaram o mundo e provocaram milhões de mortes. Que destruíram vidas de pessoas que o tempo tratou de condenar ao esquecimento. 

Não irei me aprofundar em temas políticos, mas uma coisa que me revolta bastante é ver determinados comentários na internet e fora dela (até mesmo de parentes) defendendo a volta de uma ditadura. Vocês já se depararam com textos assim? Eu já, para meu desespero e profunda decepção com a natureza humana. Me pergunto se essas pessoas têm alguma noção do que estão dizendo, se realmente sabem o que significa uma ditadura. Vários são os argumentos, mas essas pessoas parecem ignorar algo primordial: direitos humanos são violados quando uma ditadura é estabelecida. Sua opinião? Pode te condenar à morte se um governo ditador assim o decidir. Pessoas desaparecem, são torturadas, assassinadas por traições fictícias. Não se iluda: ditadura alguma consertaria um país. Muito pelo contrário. 

"O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre."

- Tudo o que os animais da Granja do Solar conheciam era uma vida de sofrimento. Trabalhavam de sol a sol e viam os frutos de seus esforços serem consumidos desenfreadamente pelos seres humanos, enquanto eles ficavam com o resto dos restos e, às vezes, nem isso. Pelo simples fato de serem animais eram escravizados, maltratados e humilhados. Estavam cansados daquela vida de miséria, mas não sabiam como acabar com tudo aquilo. Porque o Homem era mais forte, inteligente e reprimiria facilmente qualquer tentativa de revolta. Mas, um dia, alguém apareceu com a solução. 

Após um sonho estranho, o Major, um porco sábio e ancião, reuniu todos os animais da Granja com a profecia de que chegaria um tempo em que todos os animais seriam livres, tratados como iguais. Que a fome e os maus-tratos seriam apenas uma lembrança ruim. Mas que, para isso, era necessário que os animais se reunissem e se rebelassem para derrotar o gênero humano. Pouco tempo depois, o Major veio a falecer, porém a semente plantada por suas palavras ficou no coração daqueles animais e instigou alguns, guiados por seus próprios interesses, a tramar o necessário para concretizar a tal profecia. 

Num momento de particular agonia dos animais, que estavam passando fome por negligência do dono da granja, os porcos, considerados os mais inteligentes da espécie animal, incitaram a rebelião que, por pegar de surpresa os moradores do local, foi bem-sucedida. Bola-de-Neve, o porco carismático e aparentemente preocupado com a população, bem como Napoleão, astuto e observador, sabiam bem o que estavam fazendo. Tinham o apoio do povo que os idolatrava. Era o cenário perfeito para um jogo de poder. 

"[...] jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais."

No início, as coisas foram um verdadeiro mar de rosas. Qualquer animal, desde o mais belo cavalo até o pequenino rato possuía os mesmos direitos. Todos eram iguais e os frutos dos seus trabalhos pertenciam à coletividade. Havia equilíbrio, justiça, solidariedade. A felicidade se espalhava pela granja e os animais tinham a tão sonhada paz. Mas então...

... O leite retirado das vacas se tornou exclusivamente dos porcos. Nenhum animal poderia comer maçãs, pois os porcos, líderes da rebelião por serem os únicos que possuíam inteligência, precisavam mais delas do que os outros. Claro que tais privilégios não eram concedidos por vaidade ou egoísmo. Não. Tudo era pelo bem do povo. Os porcos comiam melhor e viviam em condições mais favoráveis, bem como tomavam todas as decisões, pelo bem dos outros animais. Eles eram completamente altruístas. 

E o que começou como uma sucessão de pequenos privilégios não demorou a se agravar. Mas o estopim veio quando Bola-de-Neve, o porco que queria melhorar a educação e as condições de trabalho (em tese) entrou em choque com Napoleão, o porco astuto, que em silêncio criava um exército pessoal e forte. Sabendo que Bola-de-Neve ganhava o apoio e simpatia dos demais, Napoleão decidiu instituir, a partir daquele momento, um governo intimidador, que venceria pelo medo. Acusando o adversário de diversas mentiras, o expulsou da Granja, utilizando seu exército para reprimir qualquer palavra em contrário. Logo em seguida, direitos começaram a ser suprimidos, vozes foram caladas, animais foram torturados e assassinados. E tudo era justificado com muita lábia e persuasão. 

"Ninguém mais que o Camarada Napoleão crê firmemente que todos os bichos são iguais. Feliz seria ele se pudesse deixar-vos tomar decisões por vossa própria vontade; mas às vezes poderíeis tomar decisões erradas, camaradas; e então, onde iríamos parar?"

Alguns animais, como o burro Benjamim, já não tinham mais qualquer ilusão: sabiam que tinham sido enganados e que qualquer coisa que lhes fosse dita tinha um tom de ameaça. Dominados, controlados por Napoleão e seus aliados, não tinham outra escolha senão se sujeitar à nova ordem. Sim, até existia outra alternativa: contrariar seu líder e morrer. Todavia, o pior era que a maioria dos animais sequer conseguia notar em que condições estava vivendo. Tão profundamente alienados e controlados estavam que não eram capazes de ver

"E assim prosseguiu a sessão de confissões e execuções, até haver um montão de cadáveres aos pés de Napoleão e um pesado cheiro de sangue no ar [...]"

- Inebriado pelo poder, querendo cada vez mais e com a política de eliminar qualquer um que ousasse pensar por si mesmo ou ganhasse a simpatia do povo que ele tinha controlado pelo pavor, Napoleão avançou o seu domínio, não se contentando apenas em possuir a Granja e todos os animais que viviam ali, mas unindo-se a outros líderes para expandir o seu controle e atingir outras fazendas. 

- Mentiras levantadas contra desafetos, traições fictícias punidas com a morte, condenações e execuções sem o devido julgamento, confissões provocadas por tortura... Isso com certeza te lembra não apenas um, mas diversos governos opressores que espalharam sangue ao longo dos anos, destruíram vidas por ambição, por poder. Sei que o autor provavelmente (leia-se: com certeza!) tinha em mente um determinado país ou regime político quando da criação de seu livro, sei que o livro foi vendido e utilizado como arma contra determinada ideologia política, mas ao lê-lo vi a síntese da maldade humana, um resumo chocante do que pode acontecer (e já aconteceu ao longo da História) quando entregamos o poder nas mãos das pessoas erradas, quando nos deixamos ser alienados, quando paramos de pensar por nós mesmos e seguimos a maré, apoiando e votando sem utilizar o cérebro. Muitos governos totalitários tiveram o apoio da população no princípio. As desgraças vieram depois.

"Aquelas cenas de terror e sangue não eram as que previra naquela noite em que o velho Major, pela primeira vez, os incitara à rebelião. [...] não podia compreender por quê - havia chegado uma época em que ninguém ousava dizer o que pensava, em que cachorros rosnadores e malignos perambulavam por toda parte e todos eram obrigados a ver camaradas feitos em pedaços após confessar os crimes mais chocantes."

- Este livro não me fez bem. Ainda assim, não me arrependo de lê-lo, pois ele nos provoca reflexões, nos faz pensar em assuntos que muitas vezes preferimos ignorar. A verdade é que vivemos num mundo em que muitos encontram-se tão alienados que, obviamente, não percebem. E seguindo essa maré, eu me pergunto, onde iremos parar... 

"As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco."
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