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27 de junho de 2022

Cartas a um jovem poeta - Rainer Maria Rilke

 

Literatura austríaca
Título Original: Briefe an einen jungen Dichter
Tradutor: Pedro Sussekind
Editora: L&PM Pocket
Edição de: 2006
Páginas: 96

Sinopse: Paris, fevereiro de 1903. Rainer Maria Rilke recebe uma carta de um jovem chamado Franz Kappus, que aspira tornar-se poeta e que pede conselhos ao já famoso escritor. Tal missiva dá início a uma troca de correspondência na qual Rilke responde aos questionamentos do rapaz e, muito mais do que isso, expõe suas opiniões sobre o que considerava os aspectos verdadeiros da vida. A criação artística, a necessidade de escrever, Deus, o sexo e o relacionamento entre os homens, o valor nulo da crítica e a solidão inelutável do ser humano: estas e outras questões são abordadas pelo maior poeta de língua alemã do século XX em algumas das suas mais belas páginas de prosa. 




Estou apaixonada. Como é incrível descobrir-se amando assim, do nada! E logo depois de conhecer o objeto do seu amor, aquele que despertou suas emoções... Eu o conheci faz menos de uma hora e já o quero comigo até o fim da minha existência aqui nesta Terra. Preciso comprá-lo. Tê-lo como meu, para carregá-lo comigo sempre que precisar

Estou falando do livro Cartas a um jovem poeta, do autor austríaco, Rilke. Não estava em minhas metas. Na verdade, nunca tencionei lê-lo. Mas hoje, enquanto passeava pelo site da Amazon, o livro apareceu como indicação e resolvi lê-lo, assim, de impulso. Peguei emprestado pelo Kindle Unlimited e fui arrebatada logo nas primeiras páginas. 

Como explicar os sentimentos que esta obra de arte epistolar despertou em mim? Não dá! É simplesmente inexplicável. 

"[...] e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa."

Depois de tudo o que se passou comigo no sábado, perdida em minhas emoções, sozinha com meus pensamentos e dores, este era exatamente o tipo de livro que necessitava ler. 

Não é o que se passa no exterior que vai ditar quem somos. É preciso nos voltarmos para dentro, onde estão todas as respostas que buscamos. Não é o que o outro pensa de nós que importa. Temos que aprender a ignorar as vozes que gritam do lado de fora, com acusações e falsas promessas. Que gritam tanto querendo calar justamente a voz que mais importa, aquela que fala baixinho, quase com timidez, de dentro de nós: a nossa voz interior, a voz da nossa essência. 

No sábado, eu permiti que todas as outras vozes gritassem. Na verdade, venho fazendo isso há muito tempo. Está na hora de parar. Espero encontrar dentro de mim toda a força necessária para ser diferente. Preciso mudar. Está mais do que na hora. 

"Investigue o motivo que o impele a escrever; comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se o senhor morreria caso fosse proibido de escrever. Sobretudo isto: pergunte a si mesmo na hora mais silenciosa de sua madrugada: preciso escrever?"

Como pode um livro te despertar do nada? Sempre disse que os livros são mágicos. Que assim como salvaram minha vida treze anos atrás, seguem me salvando dia após dia. Sem a literatura eu já teria retornado ao pó do que qual fui feita, do qual todos fomos criados. Eu já não seria nada. A literatura é parte de mim; necessito dela como do ar que respiro. 

"Não há meio pior de atrapalhar esse desenvolvimento do que olhar para fora e esperar que venha de fora uma resposta para questões que apenas seu sentimento íntimo talvez possa responder, na hora mais tranquila."

O dia de hoje, tão nublado e triste, chuvoso e frio, me presenteou com este livro. Acordei sem saber que o leria. E agora me sinto mais leve, até um tanto feliz. 

E, como eu disse, não dá para explicar o motivo para tanto amor por um livro tão simples, tão curto!

"Obras de arte são de uma solidão infinita, e nada pode passar tão longe de alcançá-las quanto a crítica. Apenas o amor pode compreendê-las, conservá-las e ser justo em relação a elas."

As palavras acima não fariam parte de uma resenha. Foram escritas no meu diário, na data de hoje, 26 de junho de 2022, logo depois de concluir a leitura deste maravilhoso livro. Eu senti a imensa necessidade de compartilhar com alguém tudo o que estava sentindo e que não conseguia explicar... A maneira como as palavras do autor se cravaram em mim. Como me impactaram. E eu sou aquela que, mesmo aos quase 28 anos de idade, tem o hábito de escrever num diário. 

Escrever me faz bem. Escrevo resenhas porque me sinto bem ao falar dos livros que li. Escrevo contos e até já concluí um romance (embora ainda não o tenha dividido com vocês) porque necessito disso. Do mundo das palavras. Da literatura, da escrita. E quando eu abro o meu diário, pego uma caneta e começo a escrever... consigo reorganizar minhas emoções. Me sentir viva de novo. 

Quando comecei esta leitura eu não fazia a menor ideia do que encontraria. Acreditava que era um simples livro em formato epistolar, que nos possibilitaria conhecer as cartas que Rilke trocou com o jovem poeta Kappus ao longo de alguns anos. 

Franz Kappus decidiu um dia escrever ao poeta Rilke, já bastante famoso em sua época, pedindo conselhos para se aventurar pelo mundo da poesia e acredito que nem ele imaginava tudo o que aprenderia com essa correspondência, a maneira como o autor abriria seu coração e compartilharia sua visão sobre diversos assuntos, capazes de despertar inúmeras reflexões em todos nós. E eu não sei, realmente não sei, colocar em palavras a maneira como ele consegue mexer com nossas emoções. Só posso recomendar que você reserve uma hora do seu dia para dar uma chance a este livro. E espero de verdade que ele te faça tão bem como me fez!

"Viva por algum tempo nesses livros, aprenda com eles o que lhe parecer digno de aprendizado, mas sobretudo os ame. Esse amor lhe será retribuído milhares e milhares de vezes, de modo que, seja qual for o rumo tomado pela sua vida, tenho certeza de que ele percorrerá o tecido de seu ser como um dos fios mais importantes entre todos os fios que compõem a trama de suas experiências, decepções e alegrias."





2 de agosto de 2020

Para Sempre - Kim e Krickitt Carpenter



Literatura norte-americana
Título Original: The vow
Tradutor: Ivar Panazzolo Júnior
Editora: Novo Conceito
Edição de: 2012
Páginas: 144

41ª leitura de 2020 (40ª resenha do ano) 

Sinopse: A vida que Kim e Krickitt Carpenter conheciam mudou completamente no dia 24 de novembro de 1993, dois meses após o seu casamento, quando a traseira do seu carro foi atingida por uma caminhonete que transitava em alta velocidade. Um ferimento sério na cabeça deixou Krickitt em coma por várias semanas. Quando finalmente despertou, parte da sua memória estava comprometida e ela não conseguia se lembrar de seu marido. Ela não fazia a menor ideia de quem ele era. Essencialmente, a "Krickitt" com quem Kim havia se casado morreu no acidente, e naquele momento ele precisava reconquistar a mulher que amava. Para sempre é uma história verdadeira sobre a reconstrução de um casamento depois de um evento traumático que poderia ter feito a maioria das outras pessoas desistir, mas que para eles foi a chance de um novo começo.




Quem olhando para esta capa não se lembra do filme?! A história da moça que ficou com amnésia após sofrer um acidente de carro e que não se lembrava mais que era casada conquistou milhares de fãs logo após seu lançamento. Um filme que eu assistia muito no passado. E que me encantava! Todo o amor do mocinho, seu sofrimento e sua dedicação em reconquistar aquela que tanto o tinha amado... E foi justamente por amar muito o filme que acabei adquirindo o livro, que contaria a história real de Kim e Krickitt Carpenter, que tiveram suas vidas profundamente modificadas após um sério acidente de carro. 

Eu tenho o livro desde 2012 e só agora em julho realizei a leitura.rsrs Não me perguntem os motivos para ter levado oito anos para ler a história, pois nem eu sei explicar!kkkkkk O importante é que finalmente li. 

Kim e Krickitt nunca imaginaram que se conheceriam, muito menos daquela maneira. Através de um telefonema. Para uma loja de produtos esportivos. Kim era técnico de beisebol de uma universidade e estava precisando de uma jaqueta nova, então telefonou para encomendá-la. Krickitt era atendente na referida loja e a conversa que tudo tinha de profissional acabou por encantá-lo. A voz dela... simplesmente mexeu com ele. A partir daquele momento ele sentiu uma necessidade de sempre ligar para a loja, com as mais estúpidas desculpas, só para poder ouvir sua voz... conversar com ela. 

Não demorou para que eles percebessem que aquela situação não poderia continuar. Estava na hora de trocarem os números de telefones pessoais e pararem de fingir que só queriam falar de produtos esportivos. As conversas foram se tornando mais íntimas, não desejavam desligar mesmo depois de horas conversando e o próximo passo seria conhecerem-se pessoalmente. 

Mesmo com a distância e as dificuldades para se verem, o relacionamento prosseguiu, tornando-se cada vez mai sério. Até que eles perceberam que precisavam se casar. Dar o passo que tanto desejavam, já que se amavam e acreditavam que Deus os tinha unido. E, no dia 18 de setembro de 1993, o casamento finalmente aconteceu, um dia que ficaria para sempre na memória de quase todos ali presentes, felizes por aquele casal tão jovem e tão apaixonado. 

11 de maio de 2020

A Arte da Guerra - Sun Tzu

Literatura Chinesa
Título Original: Sun zi bing fa
Tradutor: André da Silva Bueno
Editora: Jardim dos Livros
Edição de: 2011

25ª leitura de 2020

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: O maior tratado de guerra de todos os tempos em sua versão completa em português. A Arte da Guerra é sem dúvida a Bíblia da estratégia, sendo hoje utilizada amplamente no mundo dos negócios, conquistando pessoas e mercados. Não nos surpreende vê-la citada em filmes como Wall Street (Oliver Stone, 1990) e constantemente aplicada para solucionar os mais recentes conflitos do nosso dia-a-dia. Conheça um dos maiores ícones da estratégia dos últimos 2500 anos.



Luna, ficou louca?! O que te levou a ler esse livro, criatura??!!! Sim, eu estou louca. Já era um tanto surtada antes desta pandemia, mas agora as coisas ficaram críticas.

Falando sério agora: não estou nada bem com todo este terror que estamos vivendo. Muitas vezes me pego acreditando que estou apenas tendo um terrível pesadelo e que logo irei acordar. Mas, infelizmente, sabemos que tudo isso é real. Milhões de pessoas foram infectadas no mundo todo. Milhares de pessoas morreram, milhares de sonhos interrompidos, milhares de famílias chorando a dor de perder seus entes queridos. Milhares de pessoas que nem puderam se despedir daqueles que amam. Isso tudo é real. Não é histeria da mídia. Não é uma farsa. É real. Então, FIQUE EM CASA!!! Só saia se você realmente precisar, só se for necessário!!! Se não for por você, fique em casa por quem você ama, por quem você quer que continue vivo. Essa doença não escolhe idade, cor, religião, classe social, nada! Ela atinge todo mundo. Fique em casa!!!

Por que você está falando isso, Luna? Você já tinha falado do assunto antes. Sim, eu tinha decidido não ficar falando da pandemia em cada resenha, pois sei que, assim como eu também faço quando leio outros blogs ou assisto vídeos nos canais, muitos leem as resenhas para se distrair, para esquecer um pouco esta realidade cruel que estamos vivendo. Mas ontem o Brasil atingiu mais de 11 mil mortes. E isso sem que contemos aqueles que morreram sem terem feito os exames, aqueles que nunca entrarão na lista, mesmo que tenham morrido dessa doença. Já são mais de 11 mil mortes oficialmente! E muita gente continua agindo como se nada estivesse acontecendo! Está acontecendo!!! Pessoas estão perdendo suas vidas! E tudo o que você precisa fazer para que a situação não fique pior, é ficar em casa, se puder!!! Não tem leitos para todo mundo. Não tem respiradores para todo mundo. Ontem foi Dia das Mães. Quantas mães perderam seus filhos para essa doença maldita? Quantos filhos perderam suas mães? Eu sei que morrem pessoas todos os dias, de diferentes causas, e toda dor causada por uma perda é insuportável. Mas em relação ao coronavírus, você pode fazer algo para ajudar: você só precisa ficar em casa. Sei que têm pessoas que não podem ficar em casa, mas quem puder, por favor, por favor, fique em casa! Não é hora de pensar só em si mesmo. É hora de pensarmos no próximo. De colocar em prática o que Jesus nos ensinou: amar ao próximo como a nós mesmos. E se amamos o nosso próximo, nós cuidamos! E mesmo que você seja de outra religião, ou até mesmo se não tiver religião: amar ao próximo, não pensar apenas em si mesmo é simplesmente fazer o Bem. É básico, é fundamental. Praticar o bem não depende de nenhuma religião.


Ok. Vou respirar fundo e tentar fazer esta resenha. Não estou em condições de falar de livro nenhum hoje, mas vou tentar. Porque também é uma forma de me distrair, de aliviar um pouco o coração. Embora falar de A Arte da Guerra seja algo complicado e eu não saiba nem por onde começar.rs

Já tinha ouvido falar muito deste livro e visto citações dele em vários lugares, mas nunca levei a sério a ideia de lê-lo, assim como só falo que vou ler O Príncipe, de Maquiavel, mas no fundo não tenha real intenção de ler. Só que um dos temas do Desafio Literário Livreando de 2020 é ler um autor chinês. E eu não tinha nada na lista. Aí lembrei do tal A Arte da Guerra e decidi que me obrigaria a lê-lo. Gostei? Não exatamente.

"A Lei da Guerra se baseia no engano."

O livro foi escrito séculos antes de Cristo. Não encontrei uma data certa, mas pelo que parece foi uns quatro séculos a.C. É uma obra de Sun Tzu (que ninguém sabe se existiu de verdade) e tinha como objetivo dar conselhos, instruções para se vencer uma guerra, para sair vitorioso sempre. São estratégias de guerra, estratégias militares. Ou seja, o tipo de livro que não é para mim, até porque não suporto guerras. E ver técnicas de engano e manipulações nesta obra não me agradou nada. Embora isso não me impeça de perceber o quanto é inteligente e veja que muitas dessas técnicas acabam sendo empregadas e úteis em outras áreas da vida de uma pessoa.

As estratégias presentes nesse livro são, hoje em dia, muito utilizadas no meio empresarial, pelo que li. Mas podem ser utilizadas por qualquer pessoa. Como qualquer livro, você pode absorver o que lhe faz bem, o que lhe é útil e descartar aquilo que não lhe serve. Eu descartei quase tudo.kkkkk

"Se as tropas inimigas estão em ordem, tente bagunçá-las; se estão unidas, semeie a discórdia."

Ao ler este livro conseguimos perceber como tanta coisa escrita nele é utilizada amplamente, até mesmo na política. Às vezes achamos que uma atitude de um político é pura tolice, mas na verdade ele sabe exatamente o que está fazendo, faz parte da estratégia dele. Cada passo é calculado. E o que muito já vimos ser praticado: a discórdia, a separação da população. É dividindo que se conquista, não é mesmo? E a população em vez de se unir, independentemente de opinião ou posição política, se deixa dividir. Sempre.

"Conheça a si mesmo e ao inimigo e, em cem batalhas, você nunca correrá perigo."

O trecho acima é um dos poucos com os quais eu concordo. Em tudo na vida, é necessário que conheçamos a nós mesmos, nossas qualidades e defeitos, nossos pontos de força e fraqueza. Bem como é importante que saibamos quem são as pessoas ao nosso redor. Para não permitirmos que o outro utilize nosas próprias qualidades e defeitos contra nós. Para não nos deixarmos enganar ou sermos manipulados. Também concordo e tentarei levar pra vida o trecho que diz: "Utilize a ordem para enfrentar a desordem, utilize a calma para enfrentar os agitados." 

O livro é bem curtinho e dá para ler em um dia. As instruções contidas nele são divididas em 13 capítulos, cada um com um título importante dentro do contexto da estratégia militar. É um clássico e reconheço seu valor, até mesmo, como eu disse, absorvi o que considerei bom, mas não é um livro que eu voltaria a ler.

"Uma pessoa com raiva pode recuperar a serenidade, e o ressentido pode ser apaziguado, mas um Estado arruinado não se recupera, e os mortos não podem voltar à vida."

Este último trecho é forte e nos serve para refletirmos... Sobre muitas coisas.


-> DLL 20: Um livro de autor chinês


29 de fevereiro de 2020

Falsa Acusação: Uma História Verdadeira - T. Christian Miller e Ken Armstrong

Título Original: A False Report: A True Story of Rape in America
Tradutora: Daniela Belmiro
Editora: Leya
Edição de: 2018
Páginas: 336
12ª leitura de 2020
Vencedores do Prêmio Pulitzer

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: Um livro eletrizante, importante e perturbador, Falsa acusação é baseado numa história real e num artigo vencedor do Prêmio Pulitzer de jornalismo investigativo, que foi publicado no site de uma ONG na internet e viralizou em questão de horas. Como num episódio de Law & Order, os jornalistas T. Christian Miller e Ken Armstrong acompanham o trabalho incansável e a dedicação de duas detetives para colocar um estuprador em série na cadeia e dar voz às suas vítimas – fazendo também uma análise da maneira ultrajante como as mulheres são tratadas quando denunciam casos de violência sexual.


Eu não sei, realmente não sei, como falar deste livro. De um livro que já tem lugar entre os meus favoritos do ano (e da vida) e que me deixou tão destroçada. Com uma sensação de vazio, de revolta, de medo... de injustiça. Sei que há justiça no final (se trata de uma história real, então, não venham falar que é spoiler, por favor!), mas não para todas. Muitas e muitas vítimas de estupro nunca conseguem a justiça merecida. Nunca. E ver tudo isso neste livro acabou comigo. Minhas emoções estão uma bagunça só e me sinto realmente muito mal. Já não tenho nem mais forças para chorar.

Antes de tudo, ressalto que se trata de uma história real. E que existem inúmeros "gatilhos". Neste livro, através do brilhante trabalho de dois jornalistas, que resolveram levar a público a história dessas vítimas e de toda a investigação (e a falta dela) para pegar o estuprador, conheceremos de modo bastante próximo do leitor, as mulheres que foram atacadas por Marc O'Leary, um pouco de suas vidas e de todo o terror que viveram. E mais: os jornalistas se dedicaram ainda a mostrar as raízes históricas das falhas ocorridas nas investigações em Washington, que remontam à "ensinamentos" deixados por um juiz que viveu no século XVII, que foi responsável inclusive pela execução de mulheres julgadas e condenadas por serem "bruxas". É incrível como um passado tão distante pode ainda provocar consequências tantos séculos depois... E como o trabalho para conscientizar a população e capacitar investigadores e autoridades envolvidas no julgamento de crimes sexuais é contínuo, não pode parar. Quanto mais pessoas trabalham em prol das vítimas, dos seus direitos, mais e mais pessoas precisam continuar, é algo que nunca chegará ao fim. Porque ainda existe muito machismo e ceticismo, muita gente que prefere duvidar ou culpar as vítimas.

20 de dezembro de 2019

A Rosa Branca - Inge Scholl

Não ficção/ História/ Segunda Guerra Mundial/ Resistência ao nazismo
Título Original: Die Weiße Rose
Tradutores: Anna Carolina Schäfer, Eline de Assis Alves, Eraldo Souza dos Santos, Flora Azevedo Bonatto, Janaína Lopes Salgado, Luana de Julio de Camargo, Renata Benassi e Yasmin Cobaiachi Utida
Editora 34
Edição de: 2014
Páginas: 272

Sinopse: O que pode fazer um punhado de jovens, munidos de um ideal de liberdade, um elevado senso ético e um mimeógrafo clandestino, diante do terror brutal de um Estado totalitário? Este livro conta a trajetória impactante e profundamente comovente da Rosa Branca, um grupo de estudantes da Universidade de Munique que, por meio da redação e distribuição de panfletos, teve a coragem de contestar o regime nazista.
Combinando memórias familiares com a transcrição dos folhetos originais e relatos de testemunhas da época, a autora narra a tomada de consciência de seus irmãos Hans e Sophie Scholl, bem como dos outros membros do grupo, que ousaram afirmar sua resistência contra o nacional-socialismo, até serem capturados e sumariamente condenados à morte em 1943.
Traduzido para vários idiomas, e com mais de um milhão de cópias vendidas na Alemanha, A Rosa Branca foi o ponto de partida para o filme homônimo de Michael Verhoeven (1982) e também Uma mulher contra Hitler, de Marc Rothemund (2005). Além de documentos inéditos relacionados à história da Rosa Branca, a presente edição inclui uma apresentação redigida pelas organizadoras Juliana P. Perez e Tinka Reichmann, da Universidade de São Paulo, e um posfácio do historiador alemão Rainer Hudemann escrito especialmente para o leitor brasileiro.



Comecei a ler este livro no dia 28 de julho do presente ano. Eu assisti um vídeo no canal literário Estante Alada no qual a Jaqueline mencionava o livro. Bastou isso para que ficasse louca atrás dele, mesmo temendo o preço, vez que foi publicado pela editora 34, cujos livros geralmente são caros.

Tentei esperar que baixasse de preço, mas fiquei com tanto medo de aparecer de repente como esgotado, que acabei comprando e já iniciando a leitura logo em seguida. Mas o que me levou a concluir a leitura somente na terça-feira passada, dia 17 de dezembro? A grande dor que este livro provocou dentro de mim.

"Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns poucos milhares de leitores, a busca por liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial."

Desde o primeiro dia de leitura eu chorei. Cada virar de página era um tormento, pois conseguia visualizar aqueles jovens na minha cabeça, sua coragem, sua fé, sua luta contra um regime que sabiam que provavelmente não conseguiriam vencer...  e o final terrível que todos eles tiveram.

Foi por isso que não tive forças para ler o livro de uma vez. Precisei de tempo. Necessitei "respirar" e intercalar a leitura com coisas diferentes, para poder aliviar meu coração. E quando finalmente terminei a leitura na terça-feira passada, não consegui vir aqui fazer a resenha. Não era capaz. Ainda não me sinto capaz.

3 de fevereiro de 2019

Maria Bonita - Adriana Negreiros


Nos anos 1920, mulher decente não largava o marido, quanto mais para fugir com cangaceiro. Mas Maria Bonita não seguiu as regras. Abandonou o casamento para se juntar ao bando de Lampião, passou fome, sede e foi constantemente perseguida pela polícia. Maria morreu jovem, aos 28 anos, sem jamais sonhar que um dia se tornaria um ícone popular. Décadas depois, passou a personificar a imagem da impetuosa guerreira, a Rainha do Cangaço, a Joana d'Arc da caatinga. 

No entanto, sua história desfaz a ideia de que, no cangaço, homens e mulheres tinham direitos iguais. Abusadas sexualmente, desrespeitadas em seus direitos mais fundamentais, dentro ou fora do bando as mulheres viviam subjugadas aos desejos dos homens. 

Neste livro, a jornalista Adriana Negreiros reapresenta, a partir de uma perspectiva feminina, a figura de Maria Bonita e descreve em cores vívidas o cangaço brasileiro. 



Palavras de uma leitora... 



- Antes de começar preciso dar dois avisos importantes.

Primeiro: Esta resenha pode conter SPOILER. Difícil dizer que a resenha de um livro de conteúdo histórico e não ficcional tem spoiler, mas para não me estressar (risos) melhor deixar o aviso. Porém, é importante também dizer que é uma biografia da mulher que se tornou um ícone cultural, conhecida dentro e fora do país, e cuja história não é segredo nenhum, existindo reportagens em jornais e revistas, tanto da própria época em que ela viveu quanto de momento posterior. 

28 de janeiro de 2018

Coragem de Mãe - Marie-Laure Picat

(Título Original: Le Courage d'une Mère
Tradutora: Inez Cabral
Editora: Fontanar/Objetiva
Edição de: 2010)


Em parte uma carta de amor, em parte o testemunho de uma vida de muita superação, Coragem de Mãe narra a luta de uma mulher que, condenada a morrer dentro de alguns meses, fez de tudo para encontrar uma família para seus quatro filhos. Sua história de vida, seu bom humor, sua convicção e sua força de espírito diante da adversidade já comoveram milhares de pessoas.




Palavras de uma leitora...



- Se você me perguntar como este livro veio parar em minhas mãos não saberei lhe responder. Não consigo recordar! Já tentei várias vezes e não me lembro. Acho (não tenho certeza) que o troquei quando fazia curso na rua em que existia uma loja onde você levava um livro e o trocava por outro. Não eram vendidos livros lá. Você simplesmente deixava um livro no lugar daquele que desejava. Sei que encontrei verdadeiros tesouros naquele lugar, mas a verdade é que não lembro de jeito nenhum se foi assim que encontrei Coragem de Mãe. Mas uma coisa é certa: jamais esquecerei esta história. Por mais que minha memória esteja uma grande porcaria, os anos poderão passar e nunca poderei deixar para trás todas as coisas que aprendi com a protagonista, com sua história real, com sua força. 

"Existem coisas que não mudarão nunca. Mesmo morta, continuarei sendo a mamãe de vocês para sempre."

Esta é a autobiografia de Marie-Laure Picat, uma mulher que, aos 36 anos de idade, descobriu que estava com câncer no fígado. Dona de um otimismo e desejo de viver contagiantes, ela não entregou os pontos de primeira. Lutou contra o câncer. Deu tudo de si para sobreviver. Tinha quatro filhos que dependiam dela e morrer não era bem uma opção. Todavia, após quimioterapias que não produziram o menor efeito sobre a doença e diante da impossibilidade de eliminar o tumor através de uma cirurgia, teve que encarar a dura realidade: não havia cura, ela estava em estado terminal. Os médicos, por mais relutantes que estivessem, tiveram que ser sinceros: ela tinha poucos meses de vida. Não duraria até o próximo ano. Aquele era o ano de 2008. 

"Assim que soube que ia morrer, tive apenas uma obsessão: que suas vidas mudassem o mínimo possível depois que eu partisse, que vivessem juntos, criados pelas pessoas que amam vocês."

Mesmo destroçada por dentro, não foi em si mesma, na injustiça de morrer tão jovem que ela pensou. Seus pensamentos foram para os seus filhos. O que seria deles? Quem cuidaria de suas crianças de 11, 9, 5 e 2 anos quando ela já não estivesse mais ali? Seriam separados? O governo se encarregaria do destino deles? Ela já aceitara o fato de que iria morrer, mas não aceitaria que seus filhos ficassem desamparados. Assim, aproveitou seus últimos meses de vida para buscar um lar seguro para suas crianças e, ao encontrá-lo, viu-se diante de uma porta fechada. Porque o governo e o sistema jurídico do país não permitiam que um pai ou mãe em estado terminal escolhesse com quem seus filhos ficariam. Ela não possuía o direito de decidir qual seria a família adotiva. Tinha encontrado o lar perfeito, mas o governo lhe disse que não. Não interessava que a família estivesse mais do que disposta a receber as crianças e tivesse estrutura para manter os quatro juntos. Tampouco importou o fato daquele ser o último desejo de uma mãe que sabia que iria morrer e tudo que queria era que seus filhos ficassem seguros. A resposta era um simples e terrível "não". 

"Quem melhor que eu podia julgar com que pais meus filhos seriam mais felizes?"

Uma pessoa menos forte talvez tivesse entrado em desespero e tivesse visto naquilo mais um motivo para desistir de tudo, entregar os pontos. Mas não Marie! Era a vida dos seus filhos que estava em jogo e ela faria o que fosse necessário para que eles ficassem exatamente com a família que ela escolhera. 

"A família dos meus filhos já estava escolhida. Julie, Thibault, Matthieu e Margot iriam para lá, ou eu não me chamaria Marie-Laure."

Sabendo que tinha pouquíssimo tempo para assegurar um futuro feliz aos seus filhos, Marie não ficou de braços cruzados. Se a lei e o governo diziam que não, ela levantaria a voz e faria aquele "não" virar um sim e se para isso seria preciso gritar na mídia, não hesitaria. E foi exatamente o que ela fez. De um momento para o outro ela deixou de ser uma "simples" mãe morrendo jovem demais e deixando quatro crianças órfãs e se transformou num caso de interesse nacional. Sua história emocionou e envolveu milhares de pessoas em toda a França e finalmente fez aqueles que não queriam ouvi-la, prestarem atenção. 

"Quando a PMC me disse 'não', vi uma porta se fechar para mim. Decidi arrombar essa porta, porque me pareceu o certo para meus filhos. Ainda não estava morta, podia agir: enquanto há vida, há esperança, não é? Hoje quero dizer a todos os que virem uma porta se fechar para não desistirem, para insistir, continuar a lutar."

O interesse da mídia incomodou o governo e o sistema jurídico do país. De repente, o telefone começou a tocar, Marie foi visitada pelo próprio prefeito e promessas de que seus filhos seriam recebidos pela família que ela escolhera foram feitas. A França não queria passar uma imagem errada, uma imagem de pura insensibilidade e falta de importância com o futuro de quatro crianças. Assim, o sistema começou a andar, papeladas foram sendo preparadas e quanto maior era a pressão da mídia e da população mais rápido as coisas corriam. No fim das contas, as crianças foram entregues à família substituta escolhida por Marie, sem terem que mudar de escola, sem terem que abandonar seus amigos e sua cidade. 

"De tanto levantar a voz, fiz com que as coisas se mexessem, burlei todas as regras, passei por cima da lei, essa lei estúpida que diz que é o juizado de menores que decide onde irão viver os órfãos."

Tudo o que essa mãe queria era que a mudança fosse o menos traumática possível, que seus filhos não perdessem os laços que tinham conquistado, que não fossem parar em abrigos e depois adotados em separado. Ela queria manter os quatro juntos e próximos daqueles que os conheciam de toda a vida. Será que era pedir demais? Era algo tão impossível para necessitar se desgastar em seus últimos meses? 

- É revoltante, sinceramente! A história inteira da Marie me causou diversos níveis de revolta e choque, mas senti vontade de gritar com todo o estresse que ela teve que passar porque uma lei estúpida não permitia que ela pudesse escolher a família dos seus filhos. É inacreditável algo assim! A vontade dela não importava, a felicidade de seus filhos era insignificante para aquele sistema. Só queriam seguir as "regras" e que se danasse amor, laços de sangue ou humanidade. Como se não bastasse lutar o máximo para se manter viva por alguns meses, para estar com seus filhos mais tempo e prepará-los para sua partida, Marie foi obrigada a travar uma guerra contra a lei e a política do país. Teve que gritar na mídia para que seus filhos tivessem o direito de permanecer juntos e com uma família em quem ela confiava. 

"Uma mãe ou um pai à beira da morte deveria passar o tempo que lhe resta aproveitando o contato com seus filhos, e não gastando suas forças num combate estúpido."

- Não consigo nem imaginar tudo o que a Marie passou. Me dá um nó na garganta me colocar no lugar dela. Não tenho filhos ainda, mas se um dia os tivesse e de repente me visse diante de uma doença terminal, da certeza de que iria morrer e não poderia criá-los, estar presente quando eles precisassem de mim, certamente enfrentaria a pior dor da minha vida. Uma dor que viria acompanhada de um total desespero, de uma sensação de impotência. Como deixar um filho pequeno sozinho? Como morrer sabendo que não teria ninguém para cuidar dele? Uma mãe jamais deveria passar por algo assim. É muito injusto, uma crueldade sem tamanho. E nenhum filho deveria perder seus pais ainda criança, quando mais necessitava deles, quando dependia inteiramente deles. O mundo é cheio de injustiças assim. Este livro não é ficção. Isso realmente aconteceu com a Marie, com seus filhos, com sua família. Uma doença maldita simplesmente um dia veio e destruiu tudo. Ela teve que fazer o máximo com os cacos que restaram. Teve que lutar para proteger seus filhos mesmo depois de sua morte. 

"O que meus filhos guardariam na memória de todos esses artigos publicados nos jornais? Foi por eles que eu quis dar meu depoimento nestas páginas, para que me conhecessem melhor, para que entendessem minha luta. Quando forem mais velhos, não estarei mais aqui para lhes dizer quem fui, quanto os amei e tudo que fiz por eles."

- Através das páginas deste livro não conhecemos apenas a luta dela pela segurança de seus filhos. Como este livro é uma espécie de lembrança para eles, para que soubessem quem foi a mãe deles quando estivessem mais velhos, Marie começa contando as coisas desde o princípio. Conhecemos a bebezinha abandonada pela mãe, que ficou horas e horas gritando com uma fralda suja que lhe deixou uma cicatriz por conta de uma queimadura provocada pelas horas em contato com sua pele. Conhecemos a infância miserável que ela teve sendo criada por um pai que a ignorava, mas que quando finalmente a notou foi para começar a violentá-la e manter esse padrão durante vários anos. Conhecemos a menina desesperada que confessou o que se passava para uma professora, mas que não recebeu a ajuda de ninguém, nem mesmo da lei e teve que retornar para o lado de um pai que abusava sexualmente dela enquanto a "justiça" fechava os olhos. Também somos levados até o passado de uma jovem que se viu grávida pela primeira vez e foi obrigada a enfrentar a dor de perder o primeiro filho. Conhecemos seus sonhos, suas dores, suas conquistas e perdas. Nos envolvemos profundamente e nos perguntamos como alguém que sofreu tanto, que passou por tantos pesadelos e sofria outro terrível golpe ao ser condenada à morte por uma doença terminal ainda podia sorrir, fazer piadas, ter um bom humor como o dela. Como ela conseguia?! Como tinha forças para tirar o melhor de tudo aquilo e não se entregar nunca? No lugar dela, eu jamais teria conseguido. Não mesmo. 

"Consegui para eles um novo lar e me assegurei de que não fossem separados, que crescessem juntos com pessoas formidáveis, no lugar que sempre conheceram. Essa luta eu a ganhei para eles."

- Marie-Laure Picat foi um exemplo. De mãe. De superação. De ser humano. Um exemplo que todos deveríamos seguir. Cresceu sem mãe, mas aprendeu sozinha a ser a melhor que seus filhos poderiam ter. Lutou por eles até o final. E não se permitiu perder. Foi violentada pelo pai dos 11 aos 14 anos de idade e poderia ter encontrado nessa grande tristeza, nessa monstruosidade motivos para se revoltar, para destruir a si mesma, mas não. Deu a volta por cima e não permitiu que aquele homem que jamais mereceu ter filhos afetasse toda sua vida. Viu o sistema falhar com ela quando procurou uma professora para pedir ajuda e foi obrigada a retornar à casa do seu agressor e viver com ele vários outros anos, mas nem por isso permitiu que aquele mesmo sistema calasse sua voz quando foi para proteger seus próprios filhos. Não pode fazer nada por si mesma quando criança, mas garantiria que seus filhos crescessem seguros, que fossem criados por boas pessoas. Não dá para aceitar, gente! Que alguém assim, que uma pessoa tão incrível e guerreira tenha morrido tão jovem. Por quê? Nunca vou entender. Nunca vou aceitar. Ela morreu em agosto de 2009, com 37 anos de idade. 

- É irônico e revoltante que uma mãe que tudo que desejava era criar seus filhos, amá-los e protegê-los tenha morrido dessa maneira enquanto certas desgraçadas que jogam seus filhos em latas de lixo, os afogam em banheiras ou fazem diversas outras monstruosidades fiquem por aí, muito bem a vida inteira. Que mundo é este?! 


- Com esta leitura eu concluí a Maratona Literária de Verão. Ele foi minha escolha para o terceiro tema que consistia em: ler um livro que aparentemente só você conhece. Como nunca tinha ouvido ninguém falar desta história, me pareceu uma excelente escolha. E realmente foi! Um livro incrível, que nos enche de lições maravilhosas e nos faz perceber o quanto somos ingratos. O quanto não valorizamos a sorte que temos por ter saúde, por ter tempo, por ter oportunidades que outras pessoas não têm. O simples fato de respirarmos, de podermos nos levantar dia após dia já é um privilégio enorme. 

Se quiserem conhecer os quatro livros que li para a maratona, basta clicar neste post aqui. Nele estão os links para todas as resenhas. A maratona possuía dois desafios extras, lembram? Eles não eram obrigatórios, a pessoa lia apenas se quisesse ou tivesse tempo. Os desafios oficiais eram os quatro que cumpri. Mas isso não significa que não lerei a minha escolha. :D Em breve vocês poderão conferir minha resenha sobre Sorrisos Quebrados, livro de Sofia Silva, uma portuguesa muito querida aqui no Brasil, que conquistou milhares de leitores com essa história emocionante. 

12 de junho de 2017

O Diário de Anne Frank


O Retrato da Menina por Trás do Mito

O depoimento da pequena Anne Frank, morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã, ainda hoje emociona milhões e leitores. Seu diário narra os sentimentos, os medos e as pequenas alegrias de uma menina judia que, como sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto.

Lançado em 1947, O Diário de Anne Frank se tornou um dos livros mais lidos no mundo. O relato tocante e impressionante das atrocidades e dos horrores cometidos contra os judeus faz deste livro um precioso documento e uma das obras mais importantes do século XX.



Palavras de uma leitora...


"Há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas, e tudo o que foi cuidadosamente construído, cultivado e criado será cortado e destruído, só para começar outra vez!"

- Acho o trecho acima forte e bem realista. Se ainda existem guerras espalhadas por este mundo, se dia após dia pessoas são explodidas, famílias são separadas, gente passa fome, a culpa é de todos nós. Sem exceção. Por que reclamamos, nos comovemos e choramos se na realidade não movemos um dedo para mudar esta realidade? Enquanto nós não mudarmos o mundo não vai mudar. Pelo menos, não para melhor. 

Faz uma semana que venho tentando fazer esta resenha. Diversos foram os motivos que me impediram. Problemas com o computador, provas na faculdade, cansaço insuportável... mas a verdade é que eu poderia ter pego meus blocos de papel e feito a resenha, mesmo que aos pouquinhos ao longo dos dias. Mas eu não conseguia. Porque o motivo principal é que ainda não tinha forças para parar e falar do Diário de Anne Frank. Não conseguia sequer pensar em começar a escrever sem que as lágrimas enchessem meus olhos e sufocassem minha garganta. Existem livros que nos marcam. E existem aqueles que se tornam parte de nós. Este é um deles. E não é ficção. Anne existiu. Ela morreu aos quinze anos de idade, em fevereiro de 1945. 

"[...] Ninguém é poupado. Os doentes, os velhos, as crianças, os bebês e as mulheres grávidas - todos são forçados a marchar em direção à morte."

- Anne Frank ganhou vários presentes maravilhosos em seu aniversário de 13 anos, mas nenhum foi tão importante como seu diário. Ela estava junto quando ele foi comprado, porém não fazia ideia que seria um dos seus presentes. A partir daquele momento, se tornaram inseparáveis. Poderia deixar qualquer de suas coisas para trás, mas seus livros e seu diário, não. 

Sua família havia fugido da Alemanha em 1934 em busca de paz e recomeço, no momento em que o país tornou-se um lugar arriscado para os judeus por conta da força que as manifestações antissemitas ganhava. Encontraram refúgio em Amsterdã, quando ainda tinham esperanças que a guerra não fosse acontecer e que tudo logo fosse acabar e voltar a ser como antes. Naquela época, mal podiam imaginar tudo o que lhes aconteceria. 

"Eu poderia passar horas contando a você o sofrimento trazido pela guerra, mas só ficaria ainda mais infeliz. Só podemos esperar, com toda a calma possível, que ela acabe. Judeus e cristãos esperam, o mundo inteiro espera, e muitos esperam a morte."

- As coisas correram bem durante os seis primeiros anos. Anne e sua família levavam uma vida normal, feliz e, de certo modo, despreocupada. Mas em 1940 o tormento começou. A 2ª Guerra Mundial tivera início em 1939 e não demorou para que os alemães invadissem a Holanda, trazendo com eles diversas proibições para o povo judeu que ali se refugiava. Às vezes Anne tinha a sensação que até respirar era proibido, embora tivesse tentado se adaptar às mudanças que começaram a acontecer em seu mundo até então seguro. 

"Ando de cômodo em cômodo, subo e desço escadas e me sinto como um pássaro de asas cortadas, que fica se atirando contra as barras da gaiola. 'Me deixem sair para onde existem ar puro e risos!', grita uma voz dentro de mim." 

- Mas o pesadelo teve início em julho de 1942, quando sua irmã mais velha, Margot, que tinha apenas 16 anos, recebeu uma notificação do governo alemão, que dizia que ela deveria se mudar para um campo de trabalho. Sabemos o que isso significava. Temendo pela segurança de sua filha e de todos eles, a família Frank antecipou a ida para um esconderijo, que ficou conhecido pelo mundo como o Anexo Secreto, localizado na empresa em que o pai de Anne trabalhava. 

"A primeira coisa que agarrei foi este diário e, depois, rolinhos de cabelos, lenços, livros da escola, um pente e algumas cartas antigas. Preocupada com a ideia de ir para um esconderijo, juntei as coisas mais malucas na pasta, mas não me arrependo. Para mim, as lembranças são mais importantes do que os vestidos."

- Aquele foi o último dia normal da vida de Anne. Ela foi obrigada a dar adeus para a sua casa, seus amigos, a gatinha que amava e muitas de suas coisas. Carregou com ela poucos pertences e muitos sonhos. Não deixando para trás a esperança que aquilo fosse só uma fase, algo passageiro. Que um dia o mundo seria diferente e então ela poderia ser a escritora que sonhava em ser.

Durante os dois anos que foi obrigada a permanecer escondida no Anexo Secreto, Anne encontrou consolo em seu diário, seu único amigo, para quem contava seus maiores segredos e desejos. Onde desabafava quando estava triste, onde se atrevia a dizer o que era obrigada a calar diante dos outros. Através de Kitty, nome dado por ela ao diário, conhecemos a alma de uma menina que teve a vida cruelmente interrompida por pessoas que não deveriam ser chamadas de seres humanos. 

"Quem mais, além de mim, vai ler estas cartas? Com quem mais, além de mim, posso procurar conforto?"

- Anne era uma adolescente intensa. Cheia de emoções, perguntas, sonhos, desejos e coragem. Alguém que precisava sentir a vida, que queria ir além de onde diziam que ela poderia ir. Que queria conquistar seu próprio espaço, seu próprio mundo e se eternizar através das palavras. Ela amava os livros, observar as pessoas, estudar mitologia e árvores genealógicas. Era diversas Annes numa só e queria gritar para o mundo o que estava preso em seu interior, o que ninguém poderia entender. Sua personalidade apaixonada provocava diversos conflitos entre ela e sua família que se intensificaram durante o período que passaram escondidos. Por suas palavras, temos uma ideia de como ela se sentia sozinha e rejeitada, buscando alguém que conseguisse entender o que ela não conseguia explicar, alguém que simplesmente a abraçasse e dissesse: Não.Você não está errada. É um ser humano e possui o direito de viver. De ser o que quiser. E eu estou aqui com você, irei te ajudar. Não vou te deixar." 

"Chorar pode trazer alívio, desde que você não chore sozinha. Apesar de todas as minhas teorias e meus esforços, sinto falta - todo dia e toda hora - de uma mãe que me compreenda."

- O relacionamento entre Anne e sua mãe era bastante complicado antes mesmo de irem para o esconderijo. Sensível e inteligente, ela não era capaz de suportar a maneira como a mãe a via e tratava, as brincadeiras que apenas a magoavam, as ofensas que a feriam. Conforme prosseguimos na leitura, vemos que Anne mencionava a mãe várias vezes e quando ela ficou menos crítica em relação à mãe, eu senti algo que não sei se todos sentiram ao ler seu diário. Embora pareça que a diminuição das críticas à mãe seja consequência do passar dos anos e o amadurecimento dela, a sensação que tive foi que Anne começou a não se importar mais. Começou a se desligar da mãe que ela tanto desejou que a compreendesse e consolasse. E eu desejei com todas as minhas forças que aquela mulher tivesse acordado. Percebido a filha maravilhosa que tinha e que tanto precisava que ela fosse sua mãe nem que fosse por um único dia. Não uma figura autoritária que achava que ela devia calar seus sentimentos e pensamentos, mas sim alguém que a abraçasse e confortasse. Que fosse seu apoio. 

"Não importava o que acontecesse, não importava que eu me comportasse mal, vovó sempre me defendia. Você me amava, vovó, ou será que também não me entendia?"

- Está sendo muito difícil para mim fazer esta resenha. Não só porque Anne existiu e foi assassinada de maneira tão cruel por aqueles monstros dos infernos. Mas também porque me identifico muito com a Anne. Porque, em vários momentos, fiquei chocada com a semelhança de pensamentos e sentimentos. Os conflitos dela com a mãe me fizeram recordar os próprios problemas que tive com a minha mãe durante minha adolescência (e tenho até hoje). As brigas, as lágrimas... Lembro de uma ocasião, quando eu estava no início da adolescência, em que minha mãe me magoou tanto que chorei até já não ter forças para nada. E, enquanto chorava, eu escrevia. Tudo o que ela tinha me feito, tudo o que eu estava sentindo. Ela odiava quando eu fazia isso. Quando começava a escrever sobre nossas brigas. Ela queria gritar e eu preferia desabafar com o papel. Minha mãe sempre tentava fazer as pazes comigo depois, diferente da mãe de Anne, e tínhamos nossos períodos de "paz", mas as brigas sempre retornavam. Minha mãe e eu pensamos muito diferente, embora sejamos ambas intensas em nossos sentimentos. Isso gera conflitos até hoje, mas aprendemos a nos entender e perdoar. Não tenho dúvidas de que minha mãe me ama, que daria a vida por mim se fosse preciso. Ela se sacrificou muitas vezes por mim. Abriu mão de muitas coisas por minha vida e a amo mais que tudo. Mas... ela nunca irá aprender a ser diferente.rs Conforme os anos se passaram e amadureci, aprendi a aceitá-la e não levar tão a sério tudo o que ela às vezes me diz. Penso que Anne viveu algo muitíssimo semelhante com a mãe dela. Mas, diferente de mim, não teve a oportunidade de ver como o relacionamento delas melhoraria com o passar do tempo. Ela não teve essa chance. 

Também fica evidente no diário de Anne a ligação que ela tinha com a avó e como sentia a sua falta. Nem começarei a falar da minha avó senão não terminarei esta resenha. Não serei capaz. Poderiam se passar cem anos, mas eu nunca conseguiria esquecer minha avó. A levo comigo sempre. Em meus pensamentos, em meu coração. E já faz quase dezesseis anos que a perdi. Mas o amor não morre, gente. O tempo não é capaz de destruir o que sentimos. 

"Sou sentimental, sei disso. Sou dependente e boba, sei disso também."

- Anne sempre foi extremamente sincera em seu diário. Sobre o que sentia, sobre o que vivia no Anexo Secreto, até mesmo nas críticas que fazia a si mesma. Através de suas palavras, temos uma ideia de como foi sua vida ali dentro, conhecemos seus medos, sua angústia, os pesadelos que muitas vezes a atormentavam. E mesmo diante de tudo o que passava e do pavor que sentia de que fossem encontrados e levados para campos de concentração, ela nunca deixou de ter fé. De acreditar em Deus. De sonhar com um futuro. Mesmo quando estava triste, ela tentava estar bem. Não concordava com o pessimismo dos outros. Acreditava que valia a pena pensar positivo e nunca deixar de acreditar. 

"[...] Meu medo desapareceu. Olhei para o céu e confiei em Deus."

- Eu sei que Deus não é culpado. Sei que a maldade simplesmente existe e que as coisas ruins que acontecem são resultado da crueldade dos próprios seres humanos. Que são as pessoas que fazem mal umas às outras e não Deus. Mas como posso não me revoltar? Como posso não gritar para o céu perguntando por quê? Por que Deus não impediu que a Anne morresse? Por que não a protegeu se ela confiou tanto nEle, se entregou a vida dela em Suas Mãos? Eu sei que todos estamos sujeitos a tudo neste mundo, gente. Mas sou humana. Não consigo evitar me revoltar. Não consigo não suplicar a Deus por respostas e por auxílio. Sempre irei implorar a Ele que socorra essas pessoas esquecidas pelo mundo no meio de guerras de diferentes tipos. Só queria que Deus não permitisse que coisas assim acontecessem. 

"Algum dia essa guerra terrível vai terminar. Chegará a hora em que seremos gente de novo, e não somente judeus!  Quem fez isso contra nós? Quem nos separou de todo o resto? Quem nos colocou neste sofrimento? Foi Deus que nos fez do jeito que somos, mas também é Deus que irá nos erguer no fim."

- Ao longo de seu diário, Anne fala sobre diversos assuntos. Seus amigos, a saudade que sente de alguns, o quanto se preocupava com uma amiga em especial que não conseguiu salvar... Fala sobre seu dia a dia, as invasões que a empresa onde ficava o Anexo Secreto sofreu. O pesadelo que teve em que era separada dos pais e levada para um campo de concentração. Fala sobre seus sentimentos, os livros que lia, o que estudava... as mudanças que foram acontecendo conforme ela crescia. Fala de assuntos que com certeza não ousaria desabafar com ninguém e que tenho minhas dúvidas se deveriam ou não fazer parte da versão publicada do diário. 

O diário de Anne foi publicado após sua morte, quando seu pai, único sobrevivente da família, lutou para que pelo menos o sonho da filha de ser eternizada pelas palavras se realizasse. Ela queria escrever, sonhava em ser escritora. Otto Frank fez todo o possível para que o mundo conhecesse o diário dela. Mas o diário possui três versões (o que é explicado no prefácio deste livro). Na edição definitiva, que é a que li, preparada por Otto Frank e a escritora Mirjam Pressler, estão publicadas partes antes omitidas. Ou seja, é uma publicação quase integral do diário da Anne (é necessário ler o prefácio do livro para entender por que eu disse "quase" integral), o que faz com que ele conte com passagens muito íntimas, que talvez ela não quisesse que fossem publicadas, na minha opinião. 

"O mundo virou de cabeça para baixo. As pessoas mais decentes são mandadas para campos de concentração, prisões e solitárias, enquanto os mais baixos dos mais baixos governam jovens e velhos, ricos e pobres."

- Pelas palavras de Anne, também tomamos conhecimento de algumas pessoas que eles perderam durante aquele período. Quando a família de Anne foi para o Anexo Secreto, uma outra família os acompanhou e, mais tarde, eles também esconderam uma outra pessoa. No total, oito pessoas viveram naquele esconderijo por dois anos, contando com a ajuda de duas secretárias da empresa e do chefe do pai de Anne, além de outras poucas pessoas que sabiam que eles estavam ali. Através dessas pessoas, Anne e os outros recebiam notícias do mundo exterior, de amigos que eram presos, torturados, que desapareciam ou eram mortos. De holandeses que também eram condenados por esconderem judeus. E era impossível não sentir medo. Não imaginar quando chegaria a vez deles...

"Um dia rimos do lado cômico da vida no esconderijo, e no dia seguinte (e há muitos dias assim) estamos apavorados, e o medo, a tensão e o desespero podem ser lidos em nossos rostos."

- Conforme o diário se aproxima do seu final abrupto, novas mudanças podem ser percebidas em nossa pequena Anne e sua família. O desespero que ela tentou afastar ao longo de muitas páginas, se faz mais e mais evidente, sobretudo depois que recebem a notícia que a polícia invadiu um esconderijo de judeus e levou os que se escondiam e quem os ajudava. Anne vai ficando cada vez mais angustiada e não consigo evitar a dor terrível que suas palavras me provocam. Dá para sentir o que ela sentia. Dá para imaginar seu medo e isso é insuportável.

"[...] Que chegue o fim, mesmo sendo cruel; pelo menos saberemos se vamos ser vencedores ou vencidos."

- Este livro tem grandes chances de ser o mais marcante do ano. Passei uma semana inteira sem conseguir ler um livro novo, sem decidir o que leria a seguir. Em cada momento eu me pegava lembrando da Anne, da família dela e pensando em tantas outras vidas que foram arrancadas durante aquela maldita guerra. E quantas ainda seguem sendo destruídas nos dias de hoje. Vivi algo semelhante ao ler "A Menina que Roubava Livros". Só que o diário da Anne é ainda mais doloroso porque é real. Porque são os pensamentos e as palavras de uma menina que tinha toda uma vida pela frente, que tinha fé, sonhos, que tinha o direito de viver, mas teve tudo roubado, incluindo a sua vida. 

"Aqueles terríveis alemães nos oprimiram e ameaçaram durante tanto tempo que a ideia de amigos e de salvação significa tudo para nós! Agora não são apenas os judeus, mas a Holanda e toda a Europa ocupada. Talvez, como diz Margot, eu até mesmo possa voltar para a escola em setembro ou outubro."

- É impossível não admirar a menina incrível que a Anne foi. Alguém que teria feito conquistas impressionantes se tivesse tido a oportunidade. Embora eu tenha me identificado com ela, encontrado muitas semelhanças entre nós duas (talvez por que, em nossa essência, nós seres humanos sejamos mais parecidos do que imaginamos), a Anne era muito diferente de mim em vários aspectos. Era muito inteligente, irônica e realista com tão pouca idade. Questionava diversas coisas, tinha opinião formada sobre os mais variados assuntos mesmo que os "adultos" preferissem que ela ficasse calada e é fascinante ler o que ela escrevia, sobre o que pensava. Há um momento, quase no final do diário, em que ela começa a refletir sobre a falta de importância que as pessoas em geral davam às mulheres. E, aos 15 anos de idade, ela queria entender aquilo. Ir além das respostas prontas que todos davam. Queria chegar ao fundo da questão. Depois de fazer um desabafo sobre a revolta que algo que leu lhe provocou, Anne continua, dizendo o seguinte:

"Não quero sugerir que as mulheres devam parar de ter filhos; pelo contrário, a natureza lhes deu essa tarefa, e é assim que deve ser. O que condeno é nosso sistema de valores e os homens que não reconhecem como é grande, difícil, mas lindo, o papel da mulher na sociedade."

- Eu li todo o diário de Anne, menos o último dia, menos a última anotação que ela fez no diário. Eu não conseguia, gente. Somente hoje, por causa da resenha, li a anotação final. 

O diário de Anne termina em 1º de agosto de 1944. As páginas foram encontradas caídas, espalhadas pelo chão depois que ela e todos os outros moradores do Anexo Secreto foram delatados e entregues aos nazistas. Não se sabe ao certo se Anne morreu em final de fevereiro ou início de março de 1945 (embora se acredite que foi em fevereiro). O que sim se sabe é que ela foi mais uma dos milhões de pessoas mortas na 2ª Guerra Mundial. 

As páginas de seu diário foram encontradas pelas duas secretárias que trabalhavam na empresa e ajudavam a esconder os moradores do Anexo Secreto. O único sobrevivente, entre os oito judeus que estavam escondidos ali, foi Otto Frank, pai de Anne. 

- Uma noite, depois de ler algumas páginas do diário da Anne, eu deitei, mas não consegui dormir. Levantei de novo e fui pesquisar sobre a história dela. Li muitas coisas... informações que não estão presentes neste livro. Coisas muito dolorosas de pessoas que testemunharam os momentos finais da Anne. 

- Espero que ninguém ache que eu dei algum spoiler aqui. Não é um livro de ficção, gente. Eu já conhecia a história dela muito antes de ler o livro. Sabia quem ela era, o que lhe aconteceu, sabia que seu pai era o único sobrevivente da família. Porque isso faz parte da História. Quem já leu sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto dos judeus já esbarrou na história da família Frank. 

É possível dar spoiler sobre a História? Eu sinceramente acho que não. Por isso, não considero spoilers as informações que dei nesta resenha. 

"Para mim, é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo ser transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão."

- O diário da Anne me nocauteou. Nunca serei capaz de esquecê-lo e, sobretudo, de esquecer essa menina tão cheia de vida, de sentimentos, de esperanças e sonhos. Acreditar que Hitler e todos que colaboraram com ele estão queimando no inferno não é consolo algum. Porque, ainda assim, Anne foi morta. A morte de Hitler não devolveu a vida dela. E de nenhuma das vítimas dele. Eu queria que ele tivesse sofrido os tormentos do inferno em vida antes dele finalmente morrer. Queria que ele tivesse sofrido muito durante vários anos. Que sentisse na pele o que fez àqueles milhões e milhões de pessoas. Que ele jamais descanse em paz, pois não merece qualquer paz!!! Acham que estou sendo dura demais, que uma boa pessoa deve perdoar a todos? Simplesmente é impossível para mim desejar algo de bom para um monstro que assassinou milhões de seres humanos. 

"Dá para chorar ao pensar no sofrimento das pessoas das quais a gente gosta; na verdade, daria para chorar o dia inteiro. O máximo que a gente pode fazer é rezar para que Deus faça um milagre e salve pelo menos alguns deles. E espero estar rezando bastante!"

Descanse em paz, Anne! Descanse em paz, Estrelinha! Espero que aí no céu você tenha feito as pazes com sua família. Que tenha reencontrado os seus amigos que também se foram. Que esteja feliz. A 2ª Guerra Mundial acabou, mas, infelizmente, ainda existem guerras acontecendo em diversos países. Como você bem previa que aconteceria. Porque a metamorfose não aconteceu nos seres humanos. Ainda não. Mas, como você, quero ter fé. Acreditar que um dia este mundo será melhor.

22 de maio de 2011

Mensagens de Esperança - Brooke e Keith Desserich (Uma história real)



Elena Desserich sonhava em ser professora. Apesar de seu tempo na Terra ter sido curto demais para a realização desse desejo, ela deixou uma verdadeira lição sobre a vida. Assim, muito esperta para sua idade, Elena nunca parou de ensinar as pessoas ao seu redor a valorizar o milagre do dia a dia, mesmo enquanto lutava contra uma forma rara de câncer cerebral.

Por meio de relatos pessoais e sinceros registrados em um diário como lembrança para a irmã mas nova de Elena, Brooke e Keith narram sua jornada enquanto resistiam aos impulsos de lutar contra o câncer de Elena a qualquer custo, por saberem qual seria o inevitável resultado. Página por página, este diário é um lembrete a todos os pais de que devem valorizar e aproveitar cada momento precioso que têm com seus filhos.

Mensagens de Esperança conta uma história de humildade e inspiração. Desde a época de seu diagnóstico, Elena realizou uma série de desejos, que iam desde vontades simples como andar de carruagem puxada por cavalos até grandes conquistas, como a de pintar um quadro que seria exposto em um museu de arte. Sua vida motivou a criação da fundação que hoje em dia ajuda crianças de todas as partes do mundo na luta contra o câncer.

As páginas deste livro guardam pequenos bilhetes que Elena manteve escondidos pela casa, sabendo que a família os encontraria quando ela não estivesse mais com eles. Eles mostram que, mesmo nos momentos mais difíceis, é possivel encontrar esperança e coragem por meio do amor altruísta.




Palavras de uma leitora...



- Eu já fiz resenhas difíceis antes... Falar de um livro muito bom, ótimo ou maravilhoso, sempre foi difícil, pois sempre me faltaram palavras, sempre achei que não disse o suficiente.. Já li livros marcantes na minha vida, histórias de amor, superação e vida incríveis... Já li livros escritos com todo o coração por autoras e autores que considero os melhores. Mas nunca havia lido um livro como esse. Nunca havia lido um livro real. Que não está apenas baseado na realidade, mas é a própria realidade, entende? É a primeira vez. E sabe de uma coisa? É o livro que mais me marcou até hoje... É o livro que mais me fez chorar, que mais provocou uma revolta intensa dentro de mim... que mais me fez pensar na minha própria vida... E que me fez perceber o quanto tenho reclamado por tão pouco...


- Hoje eu parei para pensar nas minhas atitudes... Eu estava lendo sobre os últimos momentos de Elena e no quanto ela pensou mais na família que deixaria para trás do que nela mesma. E eu lembrei de que, na semana passada mesmo, eu estava reclamando porque não tinha tempo para fazer tudo que queria num determinado dia. Eu fiquei furiosa na semana passada. Reclamei o tempo todo. Queria ter terminado a leitura desse livro ainda na semana passada e não tive tempo. Queria assistir minha novela favorita do momento na quarta-feira e não tive tempo. E eu reclamei e fiquei com um humor terrível durante boa parte do dia. Sim. Eu fui uma tola e só agora percebo isso... Só depois de ler os últimos momentos de Elena. Ela não reclamou. Não reclamou porque não tinha mais tempo para fazer tudo que queria na vida. Não reclamou porque não poderia realizar o sonho de ser mãe e professora. Não reclamou porque não se casaria e porque as outras crianças iriam para a escola no ano seguinte e ela não. Ela não reclamou de nada! E, acredite, ela sabia que estava morrendo. Sabia que tinha apenas mais alguns dias. E sabe o que ela fez? Ela quis estar perto da família, quis realizar desejos comuns como tomar um sorvete de chocolate.... Quis dançar nos braços do pai. Ela só quis aproveitar o tempo que ainda lhe restava. E ela só tinha seis anos.

- Recentemente, eu reclamei porque minha cor preferida de batom tinha acabado e eu teria que esperar a encomenda que fiz na Avon chegar. É. Eu fiz isso! Reclamei por isso! Não queria usar outra cor de batom, pois achava que aquela cor ficaria melhor. Só teria que esperar menos de um mês, mas estava revoltada por isso. Eu só teria que esperar a encomenda chegar... Ela chegaria em algum momento mesmo que atrasasse e eu estava irritada por isso.... Fico pensando agora no quanto os pais de Elena desejariam que fosse tão simples. O quanto eles gostariam de ter apenas que encomendar a cura para sua filha e aguardar que ela chegasse. Isso seria maravilhoso! Mas, infelizmente, não era tão simples. Não tinha como encomendar a cura. Não havia cura e nem por isso eles ficavam reclamando. Em vez de perder tempo com lamentações, eles tentavam aproveitar o máximo de tempo que teriam ao lado de sua filha. Cada segundo era precioso... Aposto que eles desejariam estar no meu lugar. Apenas irritados por coisas banais em vez de estarem imaginando se a filha deles estaria com vida no dia seguinte.


- Durante minha infância inteira e a maior parte da minha adolescência eu reclamei dos meus cabelos. Sempre gostei deles, mas nos dias em que eles não ficavam da maneira que eu queria, eu ficava muito mais do que furiosa. Chegava a gritar ou chorar de frustração. É... eu já fui assim. E ainda hoje fico assim de vez em quando... Irritada porque meu cabelo não está da maneira que eu quero. Já cheguei a puxar os cabelos com força e fazer um nó neles porque eles não estavam como eu queria! E quando eu li que a Elena estava perdendo os cabelos dela não aguentei. Foi mais uma lição. Meus cabelos não estão caindo... Estejam da maneira que eu quero ou não, eu pelo menos os tenho... Mas a pequena Elena, a menininha de seis anos que tinha tanto orgulho dos cabelos, que os enfeitava com todo o capricho, teve que ver seus cabelos perderem o brilho e ir embora... E ela não reclamou por isso. Óbvio que ela ficou triste, mas apenas assistiu. E ela tinha os cabelos tão lindos... Ela era tão linda... Ai, eu não sei nem o que pensar... E eu ainda não aceito... Não aceito que ela tenha morrido.


- Coloquei acima um pouco das idiotices que faço na vida, das reclamações tolas. Não me considero uma má pessoa por isso e nem uma pessoa fútil. Não. Não foi isso que Elena queria mostrar... Não foi isso que aprendi com sua história. O que tirei dos exemplos que coloquei acima foi que eu não quero continuar agindo assim, que eu não deveria agir assim. A partir de agora valorizarei ainda mais a minha vida. Meu tempo está curto para fazer tudo que desejo num mesmo dia? Eu tenho que agradecer porque ainda tenho mais dias pela frente... Sei que o amanhã pode não existir para ninguém, mas pelo menos não tenho uma doença terminal para controlar minha vida... para ditar prazos, para dizer até onde eu poderei ir.


- E agora eu tentarei falar da vida de Elena sem fazer comentários pessoais... Vai ser complicado, mas eu queria falar dela primeiro antes de colocar minha opinião sobre o livro. Abaixo colocarei fotos dela e alguns trechos do livro. Tentarei explicar o melhor possível, mas não prometo nada. Como disse, essa história me marcou como nenhuma e é quase impossível falar sobre ela aqui sem voltar a chorar, sem sentir que tudo foi muito injusto, sem sentir raiva ou revolta... Mas eu falo dos meus sentimentos depois... Agora vocês saberão um pouco mais sobre Elena Desserich, uma menina de seis anos que teve sua vida encerrada no dia 11 de agosto de 2007, por causa de um câncer cerebral raro e destruidor de vidas...





Nas palavras dos pais dela, assim era a Elena deles (isso foi escrito antes de sua morte e no início do diário):


"Ela sempre come os legumes antes.
Não se cansa de vestir roupas cor-de-rosa.
Sempre escreve o nome ao contrário - não porque não saiba escrevê-lo, mas porque "gosta de ver como fica".
Cruza as pernas quando se senta.
Não há nada melhor do que uma aula de educação artística, sem contar, é claro, com uma ida à biblioteca.
Ficção é melhor do que não ficção.
Prefere leite a refrigerante. Ela o serve em uma taça de vinho e diz "saúde".
Adora "frescurites" (babados e lacinhos).
Nada de calça, apenas vestidos.
Ela ama bebês.
Quando brinca de escolinha, é sempre a professora.
Gosta de cantar, mas não segura as notas mais altas. E, por favor, não lhe peça para dançar.
Sally (uma Chihuahua velha e mal-humorada) é o melhor animal de estimação que já teve.
Sempre dá para ter mais uma faixa de cabelo.
Tudo o que ela quer na vida é ser mãe.
Ela é simples. Ela é nossa Elena."








- Como já disse, fazer essa resenha não será nada fácil, pois meus sentimentos sempre influenciam minhas resenhas. O que eu sinto no momento (disse que iria falar dos meus sentimentos depois, mas não adianta!) é raiva, tristeza, revolta... Não posso dizer que esse livro me deixou feliz. Teve momentos em que eu sorri sim e até dei gargalhadas... E esses momentos eram sempre engraçados por causa da animação de Elena, suas travessuras (como assoar o nariz na camisa do pai de propósito só para poder provocá-lo um pouco...rsrs... E ela fez isso com várias camisas. Não era falta de lenços. Ela queria se "vingar" um pouquinho do papai...rsrs...), sua capacidade de surpreender os médicos e ultrapassar o prazo... E também por causa da capacidade de Gracie de nos fazer rir. Quando, por exemplo, ela decidiu que começaria um diário (Gracie tinha quatro anos na época. Creio que agora ela deve estar com oito anos.). A graça disso foi que, em vez de falar diário, ela falava "diarreia". E ela disse que começaria sua "diarreia" logo depois de comer feijão. Ela terminou o jantar e disse que iria começar sua "diarreia" naquele momento. Impossível não rir com isso, não? Mas, infelizmente, esse livro tem muitos momentos dolorosos... Do início ao fim. A gente sabe como ele vai terminar logo que começa  leitura. Sabe que no final Elena vai partir. Eu tive quase um ano para me preparar para ler essa parte... Mas quando chegou, eu desabei. E foi aí que a raiva começou. Senti raiva por ela ter partido mesmo sabendo que ela agora está descansando nos braços de Deus. Senti raiva das pessoas cruéis que vivem por muitos e muitos anos e fazem muita gente sofrer... Torturam, estupram, matam... E ficam vivos! Não tem câncer, não tem nenhuma doença terminal (existem as exceções, é claro. Existem aqueles assassinos, monstros, que felizmente vão para o inferno cedo.) e continuam destruindo vidas por vários anos. Como eu senti raiva disso! Queria que eles sim tivessem morrido. Eu não sentiria nem um pouco. Daria graças a Deus por isso. Mas uma menina????!!! Uma criança de 6 anos, com uma vida inteira pela frente e vários sonhos para realizar???!!! Um anjo que nunca fez nada a ninguém???!!! Me digam como posso aceitar isso?! Onde está a justiça? E eu me revoltei... Me revoltei hoje e me revoltei na semana passada, quando continuei a leitura desse livro depois de quase um ano... Eu havia começado a leitura desse livro no dia 14 de junho do ano passado (foi a data na qual adquiri o livro e eu sempre anoto a data na primeira página de cada livro). Chorei só em ler a parte na qual os pais dela dizem como era a Elena deles. Eu havia lido o resumo que está do lado de dentro da capa do livro e por isso sabia que ela iria morrer. E ao virar cada página, eu chorava mais. Consegui chegar perto da metade do livro, mas confesso que não tive forças para continuar e deixei o livro guardado. Eu queria continuar, queria conhecer um pouco mais dessa garotinha tão linda e corajosa, mas não tinha coragem para continuar naquele momento. Não é uma leitura fácil, sabe? Não é fácil ler que a Elena chorou ao ler furada mais vezes, não foi fácil ler que ela estava perdendo a fala, os movimentos da mão e a capacidade de andar... a sensibilidade dos joelhos... e muitas outras coisas. As palavras dos pais dela, que acompanharam tudo de perto, eram fortes demais para mim. Não que elas sejam complicadas. Eram palavras simples, fáceis de entender... e até demais. As emoções deles marcam cada página e eu não tinha forças para continuar lendo. Por isso interrompi a leitura e só a retomei na semana passada. Quase um ano depois.

Eu estava falando que me revoltei... E na semana passada eu tive uma conversa com Deus depois de ler a página 145 do livro. A conversa não foi agradável. Não que eu tenha sido ofensiva ao falar com Ele, mas eu queria respostas. Queria que ele me explicasse muita coisa e queria brigar com alguém... e culpar também. Por que tem que ter um culpado, certo? Sempre queremos responsabilizar alguém por algo que tenha acontecido e queremos que a pessoa pague por isso. Quando a menina Isabella Oliveira (nunca digo Nardoni, pois é o sobrenome do infeliz que a matou, seu próprio pai.) morreu eu quis que alguém pagasse. E enquanto assistia as reportagens pela televisão, eu orava, clamando a Deus por justiça. Queria ver o infeliz e sua mulher pagando pelo que fizeram com aquela menina. Não ficaria satisfeita se eles ficassem em liberdade. Eu queria que eles sofressem muito e que fossem atormentados pela lembrança do que fizeram até o último dia de suas vidas. E só fiquei aliviada quando ouvi que eles haviam sido condenados. Creio que também foram por Deus e isso me deixa ainda mais tranquila. Nada vai trazer a Isabella de volta, mas seus assassinos estão pagando e continuarão pagando para sempre... Enfim... Mas no caso da Elena, quem eu posso culpar?! Durante minha conversa com Deus, eu procurei um culpado, mas não encontrei. Não podia culpar a doença, pois isso não faria com que ela pagasse... eu queria alguém para culpar e desejar ver pagando, entende? Podia culpar os pais de Elena?! Devo acreditar que fizeram algo horrível em suas vidas que fez com que Deus resolvesse castigá-los tirando-lhes a filha? Não foi isso que aprendi sobre Deus ao longo da minha vida. Acreditar nisso seria destruir tudo que penso sobre Deus. Seria perder a fé nEle. Num Deus justo e que não pune inocentes no lugar de culpados. Não estou dizendo aqui que os pais dessa menina podem ter feito algo horrível na vida deles para causar a morte da filha. Eu estou dizendo justamente que não acredito nisso e que, se fosse verdade, se eles realmente tivessem feito, o Deus que eu sirvo não seria justo ao punir uma criança para punir os pais, entendem? Enfim... Descartando a possibilidade de culpar os pais... Quem eu culparia? A Elena?!!!!!! Uma criança de seis anos fez algo gravíssimo ao ponto de Deus jogar sobre ela um câncer fatal para que ela pagasse pelo seu erro com a própria vida???!!! Pelo amor de Deus, isso não existe! Uma criança é inocente. Não pode ser culpada por nada. Entendem que eu não tinha a quem culpar?! E eu queria que alguém pagasse! Uma vida inocente não pode se perder e ficar por isso mesmo. Não estava aceitando isso. E eu continuei "conversando" com Deus... E imagino que vocês sabem quem eu acabei desejando culpar, não é? Ou melhor, quem eu culpei. Não tenho orgulho de ter feito isso, mas sou humana e meu coração não conseguiu aceitar a morte dessa menina. E se temos um Deus que pode tudo... Por que ele permitiu que ela ficasse doente? Por que deixou ela morrer? Eu perguntei a Deus onde ele estava que não viu que essa criança precisou da ajuda dele!!! E a resposta veio no formato de duas coisas que já li faz algum tempo. Uma mensagem de reflexão e um livro. É uma resposta que eu já sabia. Numa mensagem de reflexão na qual uma mãe perde seu filho e ele escreve uma mensagem para ela do céu, Deus responde essa mesma pergunta que eu fiz: ele diz que estava ao lado do menino, como esteve do lado de Jesus. E, no livro, "A Cabana", há a mesma resposta. E eu já a conhecia.


- É estupidez tentar culpar Deus. Ele realmente poderia ter evitado a morte dessa criança, mas por algum motivo que não quero conhecer, Ele não o fez. Mas não foi Ele que a deixou doente. As doenças não escolhem as pessoas e não é Deus que decide quem vai ter uma doença e quem vai ter outra... ou quem não vai ter nenhuma. Faz simplesmente parte da vida. E eu sabia disso, mas, na minha revolta, eu queria culpar alguém. Creio que vocês estão desejando um resumo dessa história, certo? Sempre divido minhas resenhas em partes: opinião pessoal, resumo e opinião pessoal de novo. Eu sei, mas hoje as palavras estão fugindo do meu controle e toda vez que tento fazer o resumo, minhas emoções fazem eu desejar falar mais do que sinto sobre a história.... Mas vou tentar fazer um breve relato.... só que não é separado como nas outras resenhas...


- Tudo começou com uma dor de garganta. Uma infecção na garganta... Os pais de Elena a levaram ao médico e acabaram descobrindo o que sequer podiam imaginar. Que sua filha estava com câncer. E não só isso. Também souberam que era um câncer cerebral dos mais raros. Glioma pontino intrínseco difuso, é o nome que tem aqui no livro. Lhes falaram sobre as opções de tratamento e também lhe revelaram que Elena tinha no máximo mais 135 dias de vida. Imagine o que deve ser para um pai e uma mãe ouvirem isso... A partir daquele momento as vidas deles ficaram profundamente abaladas... Elena estava morrendo, a filhinha deles de apenas seis anos não iria crescer, casar e ser mãe como sonhava. Ela sequer chegaria aos sete anos.

Eles começaram o tratamento... Um tratamento muito difícil, onde Elena tinha que enfrentar radiação, quimioterapia e ser furada várias vezes... Tinha que ser anestesiada também e chorava porque não queria nada daquilo (foram momentos como esse... nos quais ela chorava, que me fizeram interromper a leitura). Dia após dia coisas diferentes aconteciam... Ou melhor, ela perdia os movimentos de partes diferentes do seu corpo. Ela perdeu a fala, a capacidade de mastigar e engolir, perdeu a sensibilidade nos joelhos, a capacidade de andar e mexer os braços... Seus dedos se doblaram para o lado de dentro da mão... Ela perdeu também a visão de um dos olhos, seu rosto também parou de se mexer e ela chegou ao ponto de nem poder sorrir... e, acredite, seus sorrisos eram lindos... Querem conhecer mais um pouco seus sorrisos?










Elena perdeu muito durante os 256 dias que viveu após o diagnóstico da doença. Ela sofreu, mas mesmo enquanto via seus movimentos parando ou não conseguia mais comer, ela nos ensinou muito. Mesmo sabendo que estava morrendo, ela continuou sorrindo e deixando sua marca nos corações das pessoas. Orientou a irmãzinha mais nova, escrevendo num caderno o que ela deveria fazer no jardim de infãncia, no ano que viria. Gracie começaria a ir para a escola. Ela também disse que era para a Gracie fazer o possível para ser a líder...rsrs... O que era uma honra enorme (Ela que o diga, pois tinha tido o privilégio de ser a líder... e se vocês prestaram atenção no que os pais dela falam no trecho que coloquei mais acima, sabem que ela adorava ser a líder). Disse que era para a Gracie se divertir muito e obedecer a professora... Também tinha que fazer silêncio no refeitório (só no refeitório...rsrs...). Mesmo muito doente já, Elena se deu ao trabalho de orientar a irmãzinha que começaria a estudar no ano seguinte. Ela fazia bem o papel de irmã mais velha. Elena também ensinou ao papai que estalar os dedos é feio. Ela não estava mais falando nessa época e, através de sinais, ela lhe disse para parar de estalar os dedos. Era uma mania dele, mas ela disse que era errado. E ela também ensinou que era possível ter esperança e amar mesmo sofrendo tanto. Ela sorria. Ela fazia corações, beijava e abraçava sua família, pedia obrigada e dizia que os amava. Elena lutou até o último instante e deixou sua marca bem cravada dentro de nós. Seu quadro, que ela havia pintado enquanto estava doente, teve um lugar especial no museu, foi proclamado o dia dela e ela até foi dama de honra no casamento da prima que ajudou a cuidar dela. Ela não dançou com o pai no seu aniversário de quinze anos, mas, dias antes de morrer, ela pediu para ele dançar com ela. Mostrou com seus olhos que estava feliz. E, durante três dias, faltando cinco dias para o seu fim, ela jogou carta com os pais, nadou e passou todos esses três dias se despedindo deles. Depois, ela entrou em coma e os deixou... Não completamente, é claro. Sua alma foi descansar, mas suas lembranças permanecerão sempre vivas... Ela nunca os deixará completamente....

- O que os pais de Elena não sabiam é que, Elena sabia muito mais do que todos. Eles fizeram possível para esconder a realidade dela, mas ela sabia. Tanto... que durante os nove meses que viveu após o diagnóstico, ela escondeu bilhetes pela casa... bilhetes que só poderiam ser encontrados depois que ela já não estivesse com eles. Bilhetes esses que não foram abertos nem depois de serem encontrados. Os primeiros que os pais dela encontraram, foram abertos... No que Keith (o pai dela) leu, havia corações e estava escrito que ela sentia muito por estar doente. Ele passou uma semana inteira chorando e não teve coragem de abrir os outros. Em cada cantinho da casa, ela deixou um bilhete falando do seu amor e do quanto lamentava por estar doente... Creio que nunca saberei o que estava escrito nos outros, mas creio que ela falava sempre do seu amor... Ela queria lhes dá forças para continuar, deixar um pedacinho dela e mostrar que os amava e não os culpava por nada. Me diz se é possível ler esse livro sem chorar? Não. Não é.


- Eu disse que iria colocar mais trechos do livro aqui, mas creio que já falei demais. Querem saber se eu recomendo o livro? Pois eu digo com todas as letras que sim! Eu recomendo essa história. Não será fácil lê-la, mas através da história de vida dessa menina, temos muito à aprender. Até hoje os pais dela recebem mensagens de pessoas que leram essa história e contaram o que aprenderam com ela. Pais que consideravam seus filhos irritantes, os veem com outros olhos agora. Pais que não tinham tempo para contar uma história para seus filhos, agora escolhem o maior livro. São pessoas que aprenderam a valorizar o que tem através da história de Elena.... Ela não marcou só a sua própria família... Marcou todos nós. Acredito que muitas famílias sem estrutura, pais que não tinham tempo para o amor e nem para os filhos, mudaram depois dessa história e tem uma chance de ser diferente. De valorizar a aproveitar cada instante como se fosse o último. A Elena salvou muitas vidas e disso eu tenho certeza. Aposto que ela sensibilizou muitos corações e impediu que futuros danos existissem na vida de muita gente. Muitas crianças tem muito o que agradecer a ela, pois seus papais agora os notam... Ela operou um milagre. Não venceu a doença, mas salvou vidas.








"Apesar de não conseguir me lembrar de todos os momentos de sua vida, consigo me lembrar das noites. As noites começavam com um banho e um livro. Ela sempre escolhia o maior, e nós sempre implorávamos pelo mais simples. [...] Nós líamos e ela escutava, mas conforme o livro ia ficando cansativo, pulávamos uma página; ela percebia e voltava na página pulada. Eu daria tudo para ter aquelas páginas de volta. Depois, terminávamos a noite com um beijo, carinhos e um comentário sobre como éramos orgulhosos. Aquelas eram noites que eu adoraria reviver.

Dizem que as coisas ficam mais fáceis com o tempo. Que um dia começamos a aceitar a morte. Na verdade, acho que nunca aceitarei. Mas começamos a valorizar os momentos mais simples da vida e, ao fazer isso, encontramos paz. No caso de Elena, ela foi a professora, e as lições que deixou estão em bilhetes em formato de coração escondidos pela casa. Ela nos ensinou a sermos pessoas melhores e uma família mais forte do que poderíamos imaginar.

Desde sua morte, as lições continuam fortes, mas também as emoções. Cada momento e cada atitude é um lembrete de seu legado. Mesmo assim, todos os dias Elena continua fazendo parte de nossa família. Suas fotos ainda decoram nossas paredes, e sua inspiração continua hoje nas ações de sua caridade. E, com isso, nunca esqueceremos.

Hoje, Gracie sabe de coisas que eu gostaria que ela não soubesse. Brooke e eu temos visão. O que antes era essencial agora é comum, e o que antes era prioridade, agora é secundário. Não sentimos medo. A morte é apenas parte da vida, e não um fim, e ela traz valor e foco ao que vemos como importante. Todos os dias enxergamos a vida como um presente, e todos os momentos como uma oportunidade. E fazemos isso porque Elena nos ensinou a lição mais valiosa de todas.

Um dia, passaremos essa lição a Gracie por meio das páginas deste diário. A maioria das coisas ela já vai saber. Mas talvez a ajude a amar seus filhos, acariciá-los quando eles saem da cama, e nunca pular uma página. Espero que sim. É uma lição de Elena, e nunca esquecerei.

(Palavras do pai de Elena, Keith Desserich, nas páginas 229 e 230 do livro)



- Depois da morte de Elena, os pais dela fundaram uma organização de combate ao câncer sem fins lucrativos. Para saber mais sobre ela, clique AQUI. Como disse, esse livro é o mais marcante que já li. E ele me fez lembrar de coisas que já havia aprendido antes e aprender muito mais. E eu o recomendo. Mesmo que você o leia bem devagar, com grandes intervalos de tempo... creio que é um livro que deveria ser lido por todos.
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