Sinopse: Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da históriaLina Vilkas é uma lituana de 15 anos cheia de sonhos. Dotada de um incrível talento artístico, ela se prepara para estudar artes na capital. No entanto, a noite de 14 de junho de 1941 muda seus planos para sempre.Por toda a região do Báltico, a polícia secreta soviética está invadindo casas e deportando pessoas. Junto com a mãe e o irmão de 10 anos, Lina é jogada num trem, em condições desumanas, e levada para um gulag, na Sibéria.Lá, os deportados sofrem maus-tratos e trabalham arduamente para garantir uma ração ínfima de pão. Nada mais lhes resta, exceto o apoio mútuo e a esperança. E é isso que faz com que Lina insista em sua arte, usando seus desenhos para enviar mensagens codificadas ao pai, preso pelos soviéticos.Cinzas na neve conta a história de um povo que perdeu tudo, menos a dignidade, a esperança e o amor. Para construir os personagens de seu romance, Ruta Sepetys foi à Lituânia a fim de ouvir o relato de sobreviventes dos gulags durante o reinado de horror de Stalin.
28 de maio de 2021
Cinzas na Neve - Ruta Sepetys
11 de dezembro de 2020
A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata - Mary Ann Shaffer e Annie Barrows
69ª leitura de 2020 (60ª resenha do ano)
Sinopse: Janeiro de 1946: enquanto Londres deixa para trás a sombria realidade da Segunda Guerra Mundial, a escritora Juliet Ashton busca um novo tema para seu próximo livro. Quem poderia imaginar que o encontraria na carta enviada por um homem desconhecido?
Morador da longínqua Guernsey, ilha britânica ocupada pelos nazistas durante a guerra, Dawsey Adams havia se deparado com o nome de Juliet na folha de rosto de Seleção de ensaios de Elia. Foi assim que decidiu corresponder-se com a autora. Talvez ela o ajudasse a encontrar mais livros do ensaísta romântico Charles Lamb.
Tem início, assim, uma correspondência intensa: na troca de cartas, Juliet toma conhecimento da Sociedade Literária de Guernsey, formada por Dawsey e seus amigos. De criadores de porcos a frenólogos, eles decidiram que um clube de livro seria o melhor álibi para não serem capturados pelos alemães.
Nas cartas que recebe de Dawsey e, depois, dos outros membros da sociedade, Juliet passa a conhecer a ilha, o gosto literário de cada um e uma famosa receita de torta de casca de batata, além do impacto transformador que a recente Ocupação alemã teve na vida de todos. Cativada por suas histórias, ela parte para Guernsey, e o que lá encontra irá transformá-la para sempre.
Escrito com senso de humor e delicadeza, este romance epistolar é uma celebração da palavra escrita em todas as suas formas.
É sempre mais difícil falar de um livro que se torna um favorito do nosso coração. Parece que as palavras simplesmente somem, escapam, e não sabemos como expressar o imenso amor que sentimos por uma história, a forma como ela nos atingiu e nos arrancou muitas lágrimas e sorrisos... assim, bem misturado mesmo. Em alguns momentos eu realmente ria e chorava ao mesmo tempo.
Histórias que possuem como tema a Segunda Guerra Mundial sempre são dolorosas, ainda que o escritor tente contar as coisas de forma mais leve, apelando para o humor para tornar menos pesados certos acontecimentos. Ainda assim, essas histórias machucam. Abrem feridas não totalmente cicatrizadas dentro de nós que nunca esquecemos o passado podre da humanidade. É o mesmo que se passa com livros que falam da escravidão, das ditaduras e diversas outras barbaridades que mancham de sangue o nosso mundo, que nós seres humanos insistimos em destruir ao mesmo tempo que destruímos uns aos outros. A Mary Ann Shaffer tenta muito tornar sua história bem leve, com muito humor, e embora eu tenha rido bastante com algumas cenas, eu também chorei muito. E o que mais me marcou neste livro foi justamente isso: o sofrimento que os personagens, por mais otimistas e corajosos que fossem, jamais seriam capazes de esquecer. Como um trecho do livro bem diz: "A guerra agora faz parte da história de nossas vidas, e não há como esquecê-la."
Eu não vou fazer um resumo muito grande do livro, pois a sinopse é bastante completa e te dá uma clara noção do que encontrará na história. Aqui temos um início bem parecido com o de Querida Sue (outro livro que me arrancou muitas lágrimas), quando há uma troca de cartas entre um leitor e uma escritora que nunca tinham se visto na vida, mas que se conectam através das palavras escritas como se fossem amigos de longa data.
Juliet, uma jovem escritora e jornalista de trinta e dois anos, não sabia sobre o que escrever agora que a guerra havia acabado e ela estava cansada da série de histórias que a tinha tornado famosa, mas que não lhe dava tanto prazer assim. Queria falar de algo diferente, mais profundo. Sua vida estava um tanto bagunçada, pois pouco antes do fim da guerra, seu apartamento foi bombardeado e ela perdeu tudo o que ali tinha, incluindo os livros que tanto amava. Mas o que lhe acontecera não era nada comparado com o que milhões de pessoas enfrentaram durante aquela sangrenta e desesperadora guerra.
"Mas a verdade é que estou deprimida - mais deprimida do que jamais estive durante a guerra. Tudo está tão destruído, Sophie: as ruas, os prédios, as pessoas. Particularmente as pessoas."
A vida sem perspectiva de Juliet muda quando ela começa a se corresponder com Dawsey Adams, um morador das Ilhas do Canal, local invadido e ocupado pelos nazistas durante a guerra, cujos habitantes sentiram de perto o terror de conviver com os inimigos. Dawsey havia encontrado um antigo livro que tinha pertencido a Juliet (seu nome e seu antigo endereço estavam na contracapa), então ele lhe escreve para lhe pedir o favor de indicar alguma livraria em Londres, que pudesse lhe enviar mais livros do autor, pois embora os nazistas tivessem partido, já não existiam mais livrarias em Guernsey.
Através da troca de cartas, Juliet fica sabendo sobre a Sociedade Literária e Torta de Casca de Batata de Guernsey e a forma como ela surgiu. Assim, acaba decidindo escrever sobre os membros daquela sociedade e como a literatura desempenhou um papel importante para tornar mais suportável os cinco anos em que estiveram sob o domínio do exército nazista. As cartas que antes trocava apenas com Dawsey, se tornam ainda mais significativas quando diversos outros moradores de Guernsey passam a lhe escrever e compartilhar suas experiências de leitura e de vida. Não demora para que ela se sinta parte daquele lugar e deseje conhecer pessoalmente aquelas pessoas que já sentia serem suas amigas.
E é assim que a narrativa é construída: por meio de cartas. Trata-se, portanto, de um romance epistolar, no qual a autora (e sua sobrinha Annie Barrows, que foi quem finalizou o livro, pois a tia adoeceu pouco antes de concluí-lo) mostra todo o seu talento. Sempre considerei a narrativa epistolar algo sensacional e muito difícil de funcionar se o autor não souber o que está fazendo. Tem que ter talento e tomar muito cuidado para não se perder e tornar a história algo sem nexo. Felizmente, as autoras fizeram um excelente trabalho, nos proporcionando uma leitura emocionante, fazendo com que nós leitores também nos sentíssemos parte de Guernsey e da vida dos personagens. Eu desejei muito me mudar para lá.rs Mas só se pudesse conhecer Dawsey, Amelia, Isola, Eli e seu avô, e a pequena Kit, o que é impossível, já que são todos fictícios (esta é a parte ruim da leitura, querermos que os personagens sejam reais).
Os membros da sociedade literária de Guernsey são muito diferentes uns dos outros e a maioria não tinha o hábito de ler. Eles tinham se reunido uma noite para comer um porco que tinham conseguido esconder dos nazistas. Era um período muito difícil, em que havia pouco o comer, em que tudo faltava. Acontece que após o excelente e raro jantar, alguns deles acabaram sendo parados pelos soldados inimigos (tinham violado o toque de recolher) e Elizabeth, com bastante coragem, inventou a mentira sobre uma reunião literária e que tão distraídos com os livros acabaram não percebendo o tempo passar. Era uma mentira difícil de "colar", mas contra todas as probabilidades funcionou. Então, Elizabeth resolveu tornar a mentira real e fundou a sociedade literária. Algo que se tornou um refúgio para aquelas pessoas, que viram na literatura uma chance de escapar, mesmo que por poucas horas, do horror da guerra.
"Nós nos agarramos aos livros e aos nossos amigos; eles nos faziam lembrar que havia um outro lado em nós. Elizabeth costumava recitar um poema. Não me lembro dele todo, mas começava assim: 'Será algo tão insignificante ter apreciado o sol, ter se alegrado na primavera, ter amado, ter pensado, ter feito, ter cultivado amizades verdadeiras?' Não é. Eu espero que, onde quer que esteja, ela se lembre disso."
Eu não consigo falar da Elizabeth sem chorar. E não posso dar spoiler. Portanto, não me verão mencionando muito sobre ela. Só digo que é a personagem que mais me marcou neste livro. Aquela que tornou a leitura tão especial, tão emocionante.
Como eu disse, o livro tem uma narrativa leve, divertida, que nos arranca sorrisos e até gargalhadas. Mas também não nos poupa das realidades brutais da guerra e é impossível segurar as lágrimas diante de certas lembranças dos personagens. Sentimos dor e sentimos ódio. Uma vontade enorme de matar aquelas pessoas cruéis, dignas de serem chamadas de monstros e que destruíram tantas vidas.
O livro fala de literatura, amizade, recomeço, fé, esperança... bondade. Amor em suas mais diversas formas. Mas também fala de fome, perdas, tortura, desaparecimentos e assassinatos. Não dá para falar de Segunda Guerra Mundial sem mencionar toda essa dor.
A história termina de forma engraçada e bonita, mas considerei um final tão abrupto! Eu cheguei a dar um grito aqui, chocada. Falei: "Não! Não acredito que elas terminaram o livro assim!"kkkkkk Fiquei frustrada?! Com certeza! Esperava um final diferente. Mesmo assim, isso em nada diminuiu o imenso amor que sinto por esta história. É uma querida do meu coração.
P.S.: Eu pensei em assistir o filme baseado no livro, mas antes resolvi ver o trailer. Resultado: não gostei. Pelo trailer já percebi que fizeram várias mudanças, inclusive na personalidade dos personagens. E isso me fez tomar a decisão de não ver o filme.
20 de dezembro de 2019
A Rosa Branca - Inge Scholl
Sinopse: O que pode fazer um punhado de jovens, munidos de um ideal de liberdade, um elevado senso ético e um mimeógrafo clandestino, diante do terror brutal de um Estado totalitário? Este livro conta a trajetória impactante e profundamente comovente da Rosa Branca, um grupo de estudantes da Universidade de Munique que, por meio da redação e distribuição de panfletos, teve a coragem de contestar o regime nazista.
Combinando memórias familiares com a transcrição dos folhetos originais e relatos de testemunhas da época, a autora narra a tomada de consciência de seus irmãos Hans e Sophie Scholl, bem como dos outros membros do grupo, que ousaram afirmar sua resistência contra o nacional-socialismo, até serem capturados e sumariamente condenados à morte em 1943.
Traduzido para vários idiomas, e com mais de um milhão de cópias vendidas na Alemanha, A Rosa Branca foi o ponto de partida para o filme homônimo de Michael Verhoeven (1982) e também Uma mulher contra Hitler, de Marc Rothemund (2005). Além de documentos inéditos relacionados à história da Rosa Branca, a presente edição inclui uma apresentação redigida pelas organizadoras Juliana P. Perez e Tinka Reichmann, da Universidade de São Paulo, e um posfácio do historiador alemão Rainer Hudemann escrito especialmente para o leitor brasileiro.
Tentei esperar que baixasse de preço, mas fiquei com tanto medo de aparecer de repente como esgotado, que acabei comprando e já iniciando a leitura logo em seguida. Mas o que me levou a concluir a leitura somente na terça-feira passada, dia 17 de dezembro? A grande dor que este livro provocou dentro de mim.
"Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns poucos milhares de leitores, a busca por liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial."
Desde o primeiro dia de leitura eu chorei. Cada virar de página era um tormento, pois conseguia visualizar aqueles jovens na minha cabeça, sua coragem, sua fé, sua luta contra um regime que sabiam que provavelmente não conseguiriam vencer... e o final terrível que todos eles tiveram.
Foi por isso que não tive forças para ler o livro de uma vez. Precisei de tempo. Necessitei "respirar" e intercalar a leitura com coisas diferentes, para poder aliviar meu coração. E quando finalmente terminei a leitura na terça-feira passada, não consegui vir aqui fazer a resenha. Não era capaz. Ainda não me sinto capaz.
4 de outubro de 2019
O Sal das Lágrimas - Ruta Sepetys
Título Original: Salt to the sea
Tradutora: Vera Ribeiro
Editora: Arqueiro
Edição de: 2019
Páginas: 320
Ficção histórica/Romance histórico
Sinopse: Inverno de 1945, Segunda Guerra Mundial. Quatro refugiados, quatro histórias. Joana, Emilia, Florian, Alfred. Cada um de um país diferente. Cada um caçado e assombrado pela tragédia, pelas mentiras e pela guerra. Enquanto milhares fogem do avanço do exército soviético na costa da Prússia, os caminhos desses quatro jovens se cruzam pouco antes de embarcarem em um navio que promete segurança e liberdade. Mas nem sempre as promessas podem ser cumpridas... Profundamente comovente, O sal das lágrimas se baseia em um acontecimento real. O navio alemão Wilhelm Gustloff foi afundado pelos russos no início de 1945, tirando a vida de mais de 9 mil refugiados civis, entre eles milhares de crianças. É o pior desastre marítimo da história, com seis vezes mais mortos que o Titanic. Ruta Sepetys, a premiada autora de Cinzas na neve (publicado anteriormente como A vida em tons de cinza), reconta brilhantemente essa passagem por meio de personagens complexos e inesquecíveis.
Em 30 de janeiro de 1945, o navio alemão Wilhelm Gustloff tentava levar em segurança, para longe das tropas e fúria soviéticas, milhares de refugiados civis, entre eles, estima-se que haviam cerca de 5 mil crianças. Na noite do mesmo dia, três torpedos, lançados de um submarino soviético, atingiram o navio. Em menos de duas horas, mais de 9 mil pessoas perderam suas vidas. O navio tinha capacidade para transportar cerca de 1.800 pessoas, mas estava levando mais de dez mil. É considerado o pior desastre marítimo da História. Muito pior que o do Titanic. Todavia, até ler este livro eu NUNCA sequer tinha ouvido falar sobre ele. Nem mesmo nos livros acadêmicos que li sobre a Segunda Guerra Mundial.
Não dá para colocar em palavras o quanto este livro me abalou. Como me apeguei aos personagens que a autora criou para contar esta história baseada em acontecimentos reais. Como os amei mesmo sabendo que poderiam não chegar vivos ao final da história, que poderiam fazer parte das mais de 9 mil pessoas que afundaram junto com o navio.
17 de janeiro de 2019
O Menino do Pijama Listrado - John Boyne
- Hoje aqui não há alegria. Esta é uma resenha triste sobre um livro que partiu meu coração. Talvez você já conheça a história. Eu a conheci anos atrás quando assisti a adaptação para o Cinema. Lembro do quanto chorei na época, mas mesmo assim quando soube que existia o livro quis lê-lo. Ainda que soubesse com antecedência que ficaria destroçada. Mas eu queria conhecer o Bruno e o Shmuel... de um modo que o filme não conseguiria mostrar.
Esta é uma história de amizade. De amor. Mas também de guerra e ódio. Há um pequeno menino de nove anos chamado Bruno que não entende por que as coisas estão tão diferentes. Há uma cerca e um campo de concentração, onde meninos de sua idade usam sempre pijamas e parecem muito tristes. Entre esses meninos está Shmuel. Aquele que se tornaria o seu melhor amigo.
- Bruno não entendia por que tinha que abandonar sua casa e seus amigos e mudar-se com a família para outro lugar. Não aceitava a decisão de seu pai e tudo o que sabia é que aquilo era culpa do tal Fúria, o homem desagradável que certa noite jantara em sua casa e provocara uma discussão entre os seus pais. Mas o Fúria transformou seu pai em comandante, o que quer que aquilo significasse, e todos precisavam se mudar por conta da nova "missão" que ele recebeu. Mesmo batendo o pé e deixando claro o quanto estava furioso com os acontecimentos, Bruno era apenas um menino de nove anos, cujos sentimentos não eram levados em conta diante de algo tão importante.
O consolo de Bruno era que a mãe também não parecia muito feliz e isso talvez os fizesse voltar para casa num futuro previsível, como ela costumava dizer, embora ele não soubesse o que seria um futuro previsível. Talvez significasse três semanas. Ou menos. Era sua esperança.
"Porém, havia algo a respeito da casa nova que fazia Bruno pensar que ninguém jamais ria por lá; que não havia motivo para riso e nada com que se alegrar."
Tudo era muito diferente na casa nova. Além de ela não ser tão grande quanto sua verdadeira casa, existiam soldados por toda parte, entrando e saindo como se fossem donos do lugar. Bruno não gostava deles, mas aquele que lhe provocava verdadeiro pavor era o tenente Kotler, um rapaz de dezenove anos que não hesitava em agir de maneira cruel com o servente que ia toda tarde até a casa de Bruno para cuidar dos legumes. O senhor Parvel. Aquele que era médico antes, mas agora não era mais, embora Bruno também não compreendesse isso.
Seus dias naquele lugar eram muito solitários, pois só contava com a companhia da irmã, que era um Caso Perdido, e gostava de aproveitar o fato de ser alguns anos mais velha para poder infernizá-lo. Daí o fato de ser um caso perdido. Mas existia uma coisa que despertava a curiosidade de Bruno: a cerca e que o tinha além dela. O lugar que ele conseguia ver da janela de seu quarto. Por que todas aquelas pessoas usavam pijamas? E com tantas crianças naquele lugar ele não deveria estar tão sozinho. Todavia, no fundo de seu coração sentia que não deveria falar com os pais para convidá-los, que existia alguma coisa errada, embora ele não soubesse o quê.
"Ah, aquelas pessoas", disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. "Aquelas pessoas... Bem, na verdade elas não são pessoas, Bruno."
Quando finalmente criou coragem para mencionar o que tinha visto, Bruno recebeu uma resposta muito estranha do pai. Porque quando olhava para aqueles seres humanos da janela de seu quarto eles certamente lhe pareciam pessoas. Um tanto diferentes dele, é verdade, pois estavam sempre com pijamas e pareciam muito pálidos e magros, mas ainda assim eram pessoas. E quando explorando o lugar escondido de seus pais ele conheceu Shmuel teve ainda mais certeza de que, independentemente do que o pai dissesse, não havia muita diferença entre ele e o outro menino.
Assim uma amizade improvável foi se construindo. Bruno ia toda tarde até a parte da cerca que parecia menos fixa para sentar-se diante de Shmuel e conversar. Eles não podiam brincar. Bruno não podia atravessar para o outro lado, bem como Shmuel não podia vir para o lado dele. No entanto, ele nunca se sentiu tão próximo de outro ser humano, nem mesmo quando tinha seus outros amigos na casa antiga. Com aquele menino que tinha sua idade e nascera no mesmo dia, mês e ano que ele, uma coincidência fascinante, ele sentia que poderia falar de qualquer coisa. Porém, seu coração se entristecia quando olhava para Shmuel e via como ele era tão magro e parecia sempre faminto. E seus olhos... neles existia uma tristeza tão grande como Bruno jamais vira em outra pessoa. Ele não entendia nada. E tinha medo de entender. Mas se tinha uma coisa que sabia é que seria amigo dele até o fim. Seriam amigos para sempre.
"Ele olhou para baixo e fez algo bastante incomum para a sua personalidade: tomou a pequena mão de Shmuel e apertou-a com força entre as suas.
'Você é o meu melhor amigo, Shmuel', disse ele. 'Meu melhor amigo para a vida toda'. [...]"
- Posso dizer com toda sinceridade que não tenho muita força para fazer esta resenha. Este livro me deixou mal. E tudo o que chorei com o filme não se compara ao pranto que este livro provocou. Quando estava chegando às páginas finais tive uma crise tão forte que assustei minha mãe e minha irmã, que não entendiam por que eu estava daquele jeito. Minha mãe sentou do meu lado enquanto eu chorava tanto que nem conseguia falar. E quando a crise diminuiu e pude explicar disse: "Eu não suporto mais este mundo, mãe. Não suporto mais tanta crueldade." E realmente não suporto, gente. Estou cansada de ver tantas infâncias perdidas, tantas crianças passando por coisas que nenhum ser humano deveria passar. Estou cansada das notícias de estupros, assassinatos, desaparecimentos. Estou cansada de uma humanidade que só sabe fazer o mal ao próximo. Quando isso vai acabar? Acho que nunca. Porque se tem uma coisa que o ser humano aprendeu ao longo dos séculos foi a ser cada vez pior.
"Mas, Luna, é apenas um livro." Acredito que todos aqui sabem que não. A Segunda Guerra Mundial existiu. Hitler existiu. O nazismo existiu, embora há quem diga que não e ainda há quem sabe que existiu e defende esse tipo de monstruosidade. O nazismo provocou a morte de milhões de pessoas. Não só com o Holocausto dos judeus, mas também com todos os vitimados pela guerra e outros grupos que eram perseguidos e eliminados: comunistas, deficientes físicos e/ou mentais, opositores do governo, religiosos, ciganos, homossexuais. E crianças não foram poupadas. Eu lembro que assisti uma resenha certa vez, de uma booktuber que tem um canal mais voltado para livros sobre História e crimes reais, na qual ela falou sobre o livro de uma mulher que viveu num campo de concentração. E o que me marcou nesta resenha foi que essa mulher tinha filhos e ela viu que as crianças mais novas, até determinada idade e os idosos eram enviados para uma parte diferente. Acreditando que aqueles grupos mais frágeis provavelmente estavam indo para um lugar melhor, que seriam poupados do trabalho forçado, ela mentiu sobre a idade de seus filhos, na esperança de salvá-los. Somente depois ela descobriu que aquele grupo separado (de crianças pequenas e idosos) foi o primeiro a ser executado. Porque as pessoas que faziam parte dele de nada serviam, por serem novos ou velhos demais. Foi nesse momento que parei de assistir a resenha. Não suportei continuar.
"E os caminhões nos levaram a um trem, e o trem.." Ele hesitou por um instante e mordeu o lábio. Bruno pensou que ele ia começar a chorar e não entendeu por quê.
"O trem era horrível", disse Shmuel. "Havia muitos de nós nos vagões, para começar. E não havia ar para respirar."
- Apesar de narrado em terceira pessoa o livro é contado de maneira simples, mostrando a visão de Bruno sobre os acontecimentos, da forma que uma criança tão nova enxergaria as coisas. E isso torna o livro mais difícil. Porque a gente consegue perceber o que Bruno não conseguia. Ele era muito inteligente e bondoso, nunca se esquecendo da educação que sua mãe lhe deu. E quando via algo que lhe parecia errado, como quando o tenente Kotler agrediu o servente Parvel (um dos judeus que estavam no campo de concentração, mas que era conduzido até a casa para descascar um monte de legumes todos os dias) ele não suportava. Enquanto seu pai, a mãe e a irmã viraram o rosto, desconfortáveis, Bruno caiu em prantos, pois aquilo estava muito errado e alguém precisava fazer alguma coisa. Não se devia bater num empregado. Aquilo não estava certo. E uma das coisas que atormentava a cabeça de Bruno sobre o Parvel era o fato de ele ter sido médico e ter deixado de ser. Nada daquilo fazia sentido para ele. Era tudo uma grande confusão.
Quando a amizade entre Bruno e Shmuel começa nosso coração se aperta ainda mais, pois até mesmo quem desconhecesse por completo a história do livro saberia que tudo poderia terminar mal, pelo simples fato do livro se passar durante a 2ª Guerra Mundial e tratar da amizade entre o filho de um comandante, responsável por um campo de concentração, e um judeu preso neste campo. A gente até poderia não saber como as coisas terminariam, mas diversas seriam as teorias que se passariam por nossa mente. Eu não vou dizer se o livro realmente termina mal ou se as coisas tomam um rumo inesperado e têm um final feliz. Deixo que vocês descubram lendo.
"Estamos corrigindo a história aqui."
- Como eu disse, o livro mostra a visão de Bruno sobre os acontecimentos, mesmo assim conseguimos perceber muita coisa através do que ele via ou escutava, embora ele próprio não entendesse. O trecho acima, por exemplo, mostra no que o pai dele e muitos outros personagens acreditavam. Bruno tinha um professor obcecado por História, mas uma História parcial, claro. E quando o menino confessou ao pai que odiava estudar história, seu pai lhe explicou a importância de tal matéria e que era justamente por conta disso que estavam onde estavam, corrigindo a história. Tais ensinamentos são transmitidos para a Gretel, irmã de Bruno, que tinha doze anos e compreendia melhor as coisas, embora não tudo. Foi Gretel que explicou ao menino que as pessoas do outro lado da cerca eram judeus e que, portanto, Bruno não poderia se misturar com gente daquela "laia".
"Estou perguntando: já que não somos judeus, o que nós somos então?"
"Somos o contrário"
"[...] 'Então, por que não gostamos deles?', perguntou ele.
'Porque são judeus', disse Gretel.
'Entendi. E o contrário e os judeus não se dão bem.'
'Não, Bruno', disse Gretel [...]"
- Mesmo após descobrir pela irmã o que tanto o diferenciava dos seres humanos do outro lado da cerca, que segundo o pai não eram pessoas, Bruno não se importou. Sua amizade com Shmuel continuou, sendo o seu segredo, já que ele teve ainda mais certeza de que não poderia contar a ninguém. Quando olhava para o amigo e para si mesmo ele não enxergava um judeu e um contrário. Enxergava outro menino como ele. Alguém com quem ele se importava muito e com quem pretendia brincar quando tudo aquilo terminasse e todos pudessem voltar para suas verdadeiras casas. Por que o que quer que estivesse acontecendo um dia terminaria, certo? E tudo voltaria ao normal.
A amizade entre os dois é muito bonita de acompanhar, mas também é triste demais. Várias coisas acontecem... sobre as quais nem comentarei. É doloroso ver a inocência das duas crianças que não entendiam o que havia de tão errado com o mundo, só sabiam que algo estava errado e que só podiam ser amigos se aquilo fosse um segredo. Bruno não sabia porque o amigo estava sempre com fome e tão magro, com a pele acinzentada, mas sempre levava um pouco de comida para ele quando se encontravam. Uma das cenas que me fez cair em prantos foi quando o Shmuel disse que já não sentia mais nada. O menino estava com o rosto todo machucado e Bruno acreditando que ele provavelmente tinha caído de uma bicicleta ou algum menino mais velho implicara com ele, perguntou:
"[...] Está doendo?
'Nem sinto mais', disse Shmuel.
'Parece que dói.'
'Já não sinto mais nada', disse Shmuel."
- Este "já não sinto mais nada" foi muito difícil para mim, pois resumiu numa só frase a situação desesperadora em que aquela criança estava, cada vez mais magra e debilitada, passando fome e fazendo trabalhos duros, sendo espancada pelos soldados (pois o livro diz isso nas entrelinhas) e encontrando um alento apenas nos momentos em que sentava de frente para o amigo para que conversassem. Shmuel era tão inteligente quanto Bruno, e ele parecia saber mais sobre a sua situação do que o outro garoto. E uma coisa bonita e muito triste era quando ele tentava poupar Bruno de certas verdades. Ele sabia que o amigo era muito bom e não merecia saber algumas coisas sobre o próprio pai, por exemplo. Então Shmuel o poupava, preferindo ficar em silêncio. A amizade entre os dois foi muito simples e verdadeira. E encerro esta resenha aqui porque sei que vou voltar a chorar.







