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28 de maio de 2021

Cinzas na Neve - Ruta Sepetys



Literatura norte-americana
Título Original: Between shades of gray 
Tradutora: Fernanda Abreu
Editora: Arqueiro
Edição de: 2019
Páginas: 240
Ficção Histórica

15ª leitura de 2021 (14ª resenha do ano)
 
Sinopse: Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da história

Lina Vilkas é uma lituana de 15 anos cheia de sonhos. Dotada de um incrível talento artístico, ela se prepara para estudar artes na capital. No entanto, a noite de 14 de junho de 1941 muda seus planos para sempre.

Por toda a região do Báltico, a polícia secreta soviética está invadindo casas e deportando pessoas. Junto com a mãe e o irmão de 10 anos, Lina é jogada num trem, em condições desumanas, e levada para um gulag, na Sibéria.

Lá, os deportados sofrem maus-tratos e trabalham arduamente para garantir uma ração ínfima de pão. Nada mais lhes resta, exceto o apoio mútuo e a esperança. E é isso que faz com que Lina insista em sua arte, usando seus desenhos para enviar mensagens codificadas ao pai, preso pelos soviéticos.

Cinzas na neve conta a história de um povo que perdeu tudo, menos a dignidade, a esperança e o amor. Para construir os personagens de seu romance, Ruta Sepetys foi à Lituânia a fim de ouvir o relato de sobreviventes dos gulags durante o reinado de horror de Stalin.




Quando você vê a imagem na capa já te bate uma tristeza e a certeza de que a história te fará chorar... O título te dá mais uma dica e a frase: "Quando a voz de uma garota quebra o silêncio da história" te provoca uma certa angústia. Pelo menos, foi isso que se passou comigo. Mas tudo foi intensificado por eu já ter lido e ficado em prantos com O Sal das Lágrimas, que é a sequência de Cinzas na Neve, embora eu tenha lido fora da ordem. Todavia, na verdade não há uma ordem a ser seguida, pois são histórias que podem ser lidas de maneira independente, vez que a única coisa que as liga é o parentesco entre a protagonista de Cinzas na Neve (Lina) e uma das protagonistas de O Sal das Lágrimas (Joana). Além, é claro, das duas histórias se passarem durante o reinado do demônio do Stálin e do outro demônio (Hitler). 

Eu não paro de pensar nesta história desde que terminei de lê-la. Sonhei com o livro mais de uma vez. Revejo as cenas em minha mente e fico refletindo sobre tantas coisas ao mesmo tempo... Eu gostaria de não escrever esta resenha de tão abalada que ainda me sinto. Gostaria de pular para outra história, falar de narrativas mais leves, de um romance água com açúcar daquele tipo que tanto amo e vocês sabem... Até mesmo falar de um suspense daqueles psicológicos e de dá calafrios seria mais fácil no momento. Tudo seria mais fácil do que falar de Cinzas na Neve. Do que revisitar toda aquela crueldade enquanto escrevo a resenha. 

Me vendo tão angustiada o dia inteiro ontem, minha mãe voltou a me fazer uma pergunta que ela já me fez várias vezes: "Por que leio este tipo de história se fico tão mal?" Porque preciso. Porque me obrigo a enfrentar as realidades das quais muitas vezes fugimos. Porque não quero esquecer. Nenhum ser humano deveria esquecer o que já aconteceu. A História existe não só para entendermos o presente, mas para que monstruosidades "perdidas" no passado não voltem a acontecer. 

11 de dezembro de 2020

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata - Mary Ann Shaffer e Annie Barrows


Literatura norte-americana
Título Original: The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society 
Tradutora: Léa Viveiros de Castro
Editora: Rocco
Edição de: 2009
Páginas:304

 69ª leitura de 2020 (60ª resenha do ano)

Sinopse: Janeiro de 1946: enquanto Londres deixa para trás a sombria realidade da Segunda Guerra Mundial, a escritora Juliet Ashton busca um novo tema para seu próximo livro. Quem poderia imaginar que o encontraria na carta enviada por um homem desconhecido?


Morador da longínqua Guernsey, ilha britânica ocupada pelos nazistas durante a guerra, Dawsey Adams havia se deparado com o nome de Juliet na folha de rosto de Seleção de ensaios de Elia. Foi assim que decidiu corresponder-se com a autora. Talvez ela o ajudasse a encontrar mais livros do ensaísta romântico Charles Lamb. 


Tem início, assim, uma correspondência intensa: na troca de cartas, Juliet toma conhecimento da Sociedade Literária de Guernsey, formada por Dawsey e seus amigos. De criadores de porcos a frenólogos, eles decidiram que um clube de livro seria o melhor álibi para não serem capturados pelos alemães. 


Nas cartas que recebe de Dawsey e, depois, dos outros membros da sociedade, Juliet passa a conhecer a ilha, o gosto literário de cada um e uma famosa receita de torta de casca de batata, além do impacto transformador que a recente Ocupação alemã teve na vida de todos. Cativada por suas histórias, ela parte para Guernsey, e o que lá encontra irá transformá-la para sempre. 


Escrito com senso de humor e delicadeza, este romance epistolar é uma celebração da palavra escrita em todas as suas formas. 



É sempre mais difícil falar de um livro que se torna um favorito do nosso coração. Parece que as palavras simplesmente somem, escapam, e não sabemos como expressar o imenso amor que sentimos por uma história, a forma como ela nos atingiu e nos arrancou muitas lágrimas e sorrisos... assim, bem misturado mesmo. Em alguns momentos eu realmente ria e chorava ao mesmo tempo. 


Histórias que possuem como tema a Segunda Guerra Mundial sempre são dolorosas, ainda que o escritor tente contar as coisas de forma mais leve, apelando para o humor para tornar menos pesados certos acontecimentos. Ainda assim, essas histórias machucam. Abrem feridas não totalmente cicatrizadas dentro de nós que nunca esquecemos o passado podre da humanidade. É o mesmo que se passa com livros que falam da escravidão, das ditaduras e diversas outras barbaridades que mancham de sangue o nosso mundo, que nós seres humanos insistimos em destruir ao mesmo tempo que destruímos uns aos outros. A Mary Ann Shaffer tenta muito tornar sua história bem leve, com muito humor, e embora eu tenha rido bastante com algumas cenas, eu também chorei muito. E o que mais me marcou neste livro foi justamente isso: o sofrimento que os personagens, por mais otimistas e corajosos que fossem, jamais seriam capazes de esquecer. Como um trecho do livro bem diz: "A guerra agora faz parte da história de nossas vidas, e não há como esquecê-la." 


Eu não vou fazer um resumo muito grande do livro, pois a sinopse é bastante completa e te dá uma clara noção do que encontrará na história. Aqui temos um início bem parecido com o de Querida Sue (outro livro que me arrancou muitas lágrimas), quando há uma troca de cartas entre um leitor e uma escritora que nunca tinham se visto na vida, mas que se conectam através das palavras escritas como se fossem amigos de longa data. 


Juliet, uma jovem escritora e jornalista de trinta e dois anos, não sabia sobre o que escrever agora que a guerra havia acabado e ela estava cansada da série de histórias que a tinha tornado famosa, mas que não lhe dava tanto prazer assim. Queria falar de algo diferente, mais profundo. Sua vida estava um tanto bagunçada, pois pouco antes do fim da guerra, seu apartamento foi bombardeado e ela perdeu tudo o que ali tinha, incluindo os livros que tanto amava. Mas o que lhe acontecera não era nada comparado com o que milhões de pessoas enfrentaram durante aquela sangrenta e desesperadora guerra. 


"Mas a verdade é que estou deprimida - mais deprimida do que jamais estive durante a guerra. Tudo está tão destruído, Sophie: as ruas, os prédios, as pessoas. Particularmente as pessoas."

 

A vida sem perspectiva de Juliet muda quando ela começa a se corresponder com Dawsey Adams, um morador das Ilhas do Canal, local invadido e ocupado pelos nazistas durante a guerra, cujos habitantes sentiram de perto o terror de conviver com os inimigos. Dawsey havia encontrado um antigo livro que tinha pertencido a Juliet (seu nome e seu antigo endereço estavam na contracapa), então ele lhe escreve para lhe pedir o favor de indicar alguma livraria em Londres, que pudesse lhe enviar mais livros do autor, pois embora os nazistas tivessem partido, já não existiam mais livrarias em Guernsey.


Através da troca de cartas, Juliet fica sabendo sobre a Sociedade Literária e Torta de Casca de Batata de Guernsey e a forma como ela surgiu. Assim, acaba decidindo escrever sobre os membros daquela sociedade e como a literatura desempenhou um papel importante para tornar mais suportável os cinco anos em que estiveram sob o domínio do exército nazista. As cartas que antes trocava apenas com Dawsey, se tornam ainda mais significativas quando diversos outros moradores de Guernsey passam a lhe escrever e compartilhar suas experiências de leitura e de vida. Não demora para que ela se sinta parte daquele lugar e deseje conhecer pessoalmente aquelas pessoas que já sentia serem suas amigas. 


E é assim que a narrativa é construída: por meio de cartas. Trata-se, portanto, de um romance epistolar, no qual a autora (e sua sobrinha Annie Barrows, que foi quem finalizou o livro, pois a tia adoeceu pouco antes de concluí-lo) mostra todo o seu talento. Sempre considerei a narrativa epistolar algo sensacional e muito difícil de funcionar se o autor não souber o que está fazendo. Tem que ter talento e tomar muito cuidado para não se perder e tornar a história algo sem nexo. Felizmente, as autoras fizeram um excelente trabalho, nos proporcionando uma leitura emocionante, fazendo com que nós leitores também nos sentíssemos parte de Guernsey e da vida dos personagens. Eu desejei muito me mudar para lá.rs Mas só se pudesse conhecer Dawsey, Amelia, Isola, Eli e seu avô, e a pequena Kit, o que é impossível, já que são todos fictícios (esta é a parte ruim da leitura, querermos que os personagens sejam reais). 


Os membros da sociedade literária de Guernsey são muito diferentes uns dos outros e a maioria não tinha o hábito de ler. Eles tinham se reunido uma noite para comer um porco que tinham conseguido esconder dos nazistas. Era um período muito difícil, em que havia pouco o comer, em que tudo faltava. Acontece que após o excelente e raro jantar, alguns deles acabaram sendo parados pelos soldados inimigos (tinham violado o toque de recolher) e Elizabeth, com bastante coragem, inventou a mentira sobre uma reunião literária e que tão distraídos com os livros acabaram não percebendo o tempo passar. Era uma mentira difícil de "colar", mas contra todas as probabilidades funcionou. Então, Elizabeth resolveu tornar a mentira real e fundou a sociedade literária. Algo que se tornou um refúgio para aquelas pessoas, que viram na literatura uma chance de escapar, mesmo que por poucas horas, do horror da guerra.


"Nós nos agarramos aos livros e aos nossos amigos; eles nos faziam lembrar que havia um outro lado em nós. Elizabeth costumava recitar um poema. Não me lembro dele todo, mas começava assim: 'Será algo tão insignificante ter apreciado o sol, ter se alegrado na primavera, ter amado, ter pensado, ter feito, ter cultivado amizades verdadeiras?' Não é. Eu espero que, onde quer que esteja, ela se lembre disso."

 

Eu não consigo falar da Elizabeth sem chorar. E não posso dar spoiler. Portanto, não me verão mencionando muito sobre ela. Só digo que é a personagem que mais me marcou neste livro. Aquela que tornou a leitura tão especial, tão emocionante. 


Como eu disse, o livro tem uma narrativa leve, divertida, que nos arranca sorrisos e até gargalhadas. Mas também não nos poupa das realidades brutais da guerra e é impossível segurar as lágrimas diante de certas lembranças dos personagens. Sentimos dor e sentimos ódio. Uma vontade enorme de matar aquelas pessoas cruéis, dignas de serem chamadas de monstros e que destruíram tantas vidas. 


O livro fala de literatura, amizade, recomeço, fé, esperança... bondade. Amor em suas mais diversas formas. Mas também fala de fome, perdas, tortura, desaparecimentos e assassinatos. Não dá para falar de Segunda Guerra Mundial sem mencionar toda essa dor. 


A história termina de forma engraçada e bonita, mas considerei um final tão abrupto! Eu cheguei a dar um grito aqui, chocada. Falei: "Não! Não acredito que elas terminaram o livro assim!"kkkkkk Fiquei frustrada?! Com certeza! Esperava um final diferente. Mesmo assim, isso em nada diminuiu o imenso amor que sinto por esta história. É uma querida do meu coração. 


P.S.: Eu pensei em assistir o filme baseado no livro, mas antes resolvi ver o trailer. Resultado: não gostei. Pelo trailer já percebi que fizeram várias mudanças, inclusive na personalidade dos personagens. E isso me fez tomar a decisão de não ver o filme. 



20 de dezembro de 2019

A Rosa Branca - Inge Scholl

Não ficção/ História/ Segunda Guerra Mundial/ Resistência ao nazismo
Título Original: Die Weiße Rose
Tradutores: Anna Carolina Schäfer, Eline de Assis Alves, Eraldo Souza dos Santos, Flora Azevedo Bonatto, Janaína Lopes Salgado, Luana de Julio de Camargo, Renata Benassi e Yasmin Cobaiachi Utida
Editora 34
Edição de: 2014
Páginas: 272

Sinopse: O que pode fazer um punhado de jovens, munidos de um ideal de liberdade, um elevado senso ético e um mimeógrafo clandestino, diante do terror brutal de um Estado totalitário? Este livro conta a trajetória impactante e profundamente comovente da Rosa Branca, um grupo de estudantes da Universidade de Munique que, por meio da redação e distribuição de panfletos, teve a coragem de contestar o regime nazista.
Combinando memórias familiares com a transcrição dos folhetos originais e relatos de testemunhas da época, a autora narra a tomada de consciência de seus irmãos Hans e Sophie Scholl, bem como dos outros membros do grupo, que ousaram afirmar sua resistência contra o nacional-socialismo, até serem capturados e sumariamente condenados à morte em 1943.
Traduzido para vários idiomas, e com mais de um milhão de cópias vendidas na Alemanha, A Rosa Branca foi o ponto de partida para o filme homônimo de Michael Verhoeven (1982) e também Uma mulher contra Hitler, de Marc Rothemund (2005). Além de documentos inéditos relacionados à história da Rosa Branca, a presente edição inclui uma apresentação redigida pelas organizadoras Juliana P. Perez e Tinka Reichmann, da Universidade de São Paulo, e um posfácio do historiador alemão Rainer Hudemann escrito especialmente para o leitor brasileiro.



Comecei a ler este livro no dia 28 de julho do presente ano. Eu assisti um vídeo no canal literário Estante Alada no qual a Jaqueline mencionava o livro. Bastou isso para que ficasse louca atrás dele, mesmo temendo o preço, vez que foi publicado pela editora 34, cujos livros geralmente são caros.

Tentei esperar que baixasse de preço, mas fiquei com tanto medo de aparecer de repente como esgotado, que acabei comprando e já iniciando a leitura logo em seguida. Mas o que me levou a concluir a leitura somente na terça-feira passada, dia 17 de dezembro? A grande dor que este livro provocou dentro de mim.

"Seis pessoas, seis panfletos mimeografados, uns poucos milhares de leitores, a busca por liberdade e respeito. Nada mais perigoso para um regime ditatorial."

Desde o primeiro dia de leitura eu chorei. Cada virar de página era um tormento, pois conseguia visualizar aqueles jovens na minha cabeça, sua coragem, sua fé, sua luta contra um regime que sabiam que provavelmente não conseguiriam vencer...  e o final terrível que todos eles tiveram.

Foi por isso que não tive forças para ler o livro de uma vez. Precisei de tempo. Necessitei "respirar" e intercalar a leitura com coisas diferentes, para poder aliviar meu coração. E quando finalmente terminei a leitura na terça-feira passada, não consegui vir aqui fazer a resenha. Não era capaz. Ainda não me sinto capaz.

4 de outubro de 2019

O Sal das Lágrimas - Ruta Sepetys

Literatura norte-americana
Título Original: Salt to the sea
Tradutora: Vera Ribeiro
Editora: Arqueiro
Edição de: 2019
Páginas: 320
Ficção histórica/Romance histórico

Sinopse: Inverno de 1945, Segunda Guerra Mundial. Quatro refugiados, quatro histórias. Joana, Emilia, Florian, Alfred. Cada um de um país diferente. Cada um caçado e assombrado pela tragédia, pelas mentiras e pela guerra. Enquanto milhares fogem do avanço do exército soviético na costa da Prússia, os caminhos desses quatro jovens se cruzam pouco antes de embarcarem em um navio que promete segurança e liberdade. Mas nem sempre as promessas podem ser cumpridas... Profundamente comovente, O sal das lágrimas se baseia em um acontecimento real. O navio alemão Wilhelm Gustloff foi afundado pelos russos no início de 1945, tirando a vida de mais de 9 mil refugiados civis, entre eles milhares de crianças. É o pior desastre marítimo da história, com seis vezes mais mortos que o Titanic. Ruta Sepetys, a premiada autora de Cinzas na neve (publicado anteriormente como A vida em tons de cinza), reconta brilhantemente essa passagem por meio de personagens complexos e inesquecíveis.



Estou aqui tentando recuperar o controle, tentando falar deste livro extremamente marcante sem desmoronar, sem cair em prantos outra vez. Mas toda vez que lembro de tudo o que li em O sal das lágrimas, o nó na garganta volta e as lágrimas também. Esta história me marcou demais. Se cravou no meu coração e ao mesmo tempo arrancou um pedaço dele. Nunca poderei esquecê-la.

Em 30 de janeiro de 1945, o navio alemão Wilhelm Gustloff tentava levar em segurança, para longe das tropas e fúria soviéticas, milhares de refugiados civis, entre eles, estima-se que haviam cerca de 5 mil crianças. Na noite do mesmo dia, três torpedos, lançados de um submarino soviético, atingiram o navio. Em menos de duas horas, mais de 9 mil pessoas perderam suas vidas. O navio tinha capacidade para transportar cerca de 1.800 pessoas, mas estava levando mais de dez mil. É considerado o pior desastre marítimo da História. Muito pior que o do Titanic. Todavia, até ler este livro eu NUNCA sequer tinha ouvido falar sobre ele. Nem mesmo nos livros acadêmicos que li sobre a Segunda Guerra Mundial.

Não dá para colocar em palavras o quanto este livro me abalou. Como me apeguei aos personagens que a autora criou para contar esta história baseada em acontecimentos reais. Como os amei mesmo sabendo que poderiam não chegar vivos ao final da história, que poderiam fazer parte das mais de 9 mil pessoas que afundaram junto com o navio.

17 de janeiro de 2019

O Menino do Pijama Listrado - John Boyne

(Título Original: The boy in the striped pyjamas: a fable
Tradutor: Augusto Pacheco Calil
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2013)

É muito difícil descrever a história de O menino do pijama listrado. Normalmente, o texto de orelha traz alguma dica sobre o livro, alguma informação, mas nesse caso acreditamos que isso poderia prejudicar sua leitura, e talvez seja melhor realizá-la sem que você saiba nada sobre a trama. 

Caso você comece a lê-lo, embarcará em uma jornada ao lado de um garoto de nove anos chamado Bruno (embora este livro não seja recomendado a garotos de nove anos). E cedo ou tarde chegará com Bruno a uma cerca. 

Cercas como essa existem no mundo todo. Esperamos que você nunca se depare com uma delas. 



Palavras de uma leitora...


- Hoje aqui não há alegria. Esta é uma resenha triste sobre um livro que partiu meu coração. Talvez você já conheça a história. Eu a conheci anos atrás quando assisti a adaptação para o Cinema. Lembro do quanto chorei na época, mas mesmo assim quando soube que existia o livro quis lê-lo. Ainda que soubesse com antecedência que ficaria destroçada. Mas eu queria conhecer o Bruno e o Shmuel... de um modo que o filme não conseguiria mostrar. 

Esta é uma história de amizade. De amor. Mas também de guerra e ódio. Há um pequeno menino de nove anos chamado Bruno que não entende por que as coisas estão tão diferentes. Há uma cerca e um campo de concentração, onde meninos de sua idade usam sempre pijamas e parecem muito tristes. Entre esses meninos está Shmuel. Aquele que se tornaria o seu melhor amigo. 

- Bruno não entendia por que tinha que abandonar sua casa e seus amigos e mudar-se com a família para outro lugar. Não aceitava a decisão de seu pai e tudo o que sabia é que aquilo era culpa do tal Fúria, o homem desagradável que certa noite jantara em sua casa e provocara uma discussão entre os seus pais. Mas o Fúria transformou seu pai em comandante, o que quer que aquilo significasse, e todos precisavam se mudar por conta da nova "missão" que ele recebeu. Mesmo batendo o pé e deixando claro o quanto estava furioso com os acontecimentos, Bruno era apenas um menino de nove anos, cujos sentimentos não eram levados em conta diante de algo tão importante. 

O consolo de Bruno era que a mãe também não parecia muito feliz e isso talvez os fizesse voltar para casa num futuro previsível, como ela costumava dizer, embora ele não soubesse o que seria um futuro previsível. Talvez significasse três semanas. Ou menos. Era sua esperança. 

"Porém, havia algo a respeito da casa nova que fazia Bruno pensar que ninguém jamais ria por lá; que não havia motivo para riso e nada com que se alegrar."

Tudo era muito diferente na casa nova. Além de ela não ser tão grande quanto sua verdadeira casa, existiam soldados por toda parte, entrando e saindo como se fossem donos do lugar. Bruno não gostava deles, mas aquele que lhe provocava verdadeiro pavor era o tenente Kotler, um rapaz de dezenove anos que não hesitava em agir de maneira cruel com o servente que ia toda tarde até a casa de Bruno para cuidar dos legumes. O senhor Parvel. Aquele que era médico antes, mas agora não era mais, embora Bruno também não compreendesse isso. 

Seus dias naquele lugar eram muito solitários, pois só contava com a companhia da irmã, que era um Caso Perdido, e gostava de aproveitar o fato de ser alguns anos mais velha para poder infernizá-lo. Daí o fato de ser um caso perdido. Mas existia uma coisa que despertava a curiosidade de Bruno: a cerca e que o tinha além dela. O lugar que ele conseguia ver da janela de seu quarto. Por que todas aquelas pessoas usavam pijamas? E com tantas crianças naquele lugar ele não deveria estar tão sozinho. Todavia, no fundo de seu coração sentia que não deveria falar com os pais para convidá-los, que existia alguma coisa errada, embora ele não soubesse o quê. 

"Ah, aquelas pessoas", disse o pai, acenando com a cabeça e sorrindo levemente. "Aquelas pessoas... Bem, na verdade elas não são pessoas, Bruno."

Quando finalmente criou coragem para mencionar o que tinha visto, Bruno recebeu uma resposta muito estranha do pai. Porque quando olhava para aqueles seres humanos da janela de seu quarto eles certamente lhe pareciam pessoas. Um tanto diferentes dele, é verdade, pois estavam sempre com pijamas e pareciam muito pálidos e magros, mas ainda assim eram pessoas. E quando explorando o lugar escondido de seus pais ele conheceu Shmuel teve ainda mais certeza de que, independentemente do que o pai dissesse, não havia muita diferença entre ele e o outro menino. 

Assim uma amizade improvável foi se construindo. Bruno ia toda tarde até a parte da cerca que parecia menos fixa para sentar-se diante de Shmuel e conversar. Eles não podiam brincar. Bruno não podia atravessar para o outro lado, bem como Shmuel não podia vir para o lado dele. No entanto, ele nunca se sentiu tão próximo de outro ser humano, nem mesmo quando tinha seus outros amigos na casa antiga. Com aquele menino que tinha sua idade e nascera no mesmo dia, mês e ano que ele, uma coincidência fascinante, ele sentia que poderia falar de qualquer coisa. Porém, seu coração se entristecia quando olhava para Shmuel e via como ele era tão magro e parecia sempre faminto. E seus olhos... neles existia uma tristeza tão grande como Bruno jamais vira em outra pessoa. Ele não entendia nada. E tinha medo de entender. Mas se tinha uma coisa que sabia é que seria amigo dele até o fim. Seriam amigos para sempre. 

"Ele olhou para baixo e fez algo bastante incomum para a sua personalidade: tomou a pequena mão de Shmuel e apertou-a com força entre as suas. 
'Você é o meu melhor amigo, Shmuel', disse ele. 'Meu melhor amigo para a vida toda'. [...]"

- Posso dizer com toda sinceridade que não tenho muita força para fazer esta resenha. Este livro me deixou mal. E tudo o que chorei com o filme não se compara ao pranto que este livro provocou. Quando estava chegando às páginas finais tive uma crise tão forte que assustei minha mãe e minha irmã, que não entendiam por que eu estava daquele jeito. Minha mãe sentou do meu lado enquanto eu chorava tanto que nem conseguia falar. E quando a crise diminuiu e pude explicar disse: "Eu não suporto mais este mundo, mãe. Não suporto mais tanta crueldade." E realmente não suporto, gente. Estou cansada de ver tantas infâncias perdidas, tantas crianças passando por coisas que nenhum ser humano deveria passar. Estou cansada das notícias de estupros, assassinatos, desaparecimentos. Estou cansada de uma humanidade que só sabe fazer o mal ao próximo. Quando isso vai acabar? Acho que nunca. Porque se tem uma coisa que o ser humano aprendeu ao longo dos séculos foi a ser cada vez pior. 

"Mas, Luna, é apenas um livro." Acredito que todos aqui sabem que não. A Segunda Guerra Mundial existiu. Hitler existiu. O nazismo existiu, embora há quem diga que não e ainda há quem sabe que existiu e defende esse tipo de monstruosidade. O nazismo provocou a morte de milhões de pessoas. Não só com o Holocausto dos judeus, mas também com todos os vitimados pela guerra e outros grupos que eram perseguidos e eliminados: comunistas, deficientes físicos e/ou mentais, opositores do governo, religiosos, ciganos, homossexuais. E crianças não foram poupadas. Eu lembro que assisti uma resenha certa vez, de uma booktuber que tem um canal mais voltado para livros sobre História e crimes reais, na qual ela falou sobre o livro de uma mulher que viveu num campo de concentração. E o que me marcou nesta resenha foi que essa mulher tinha filhos e ela viu que as crianças mais novas, até determinada idade e os idosos eram enviados para uma parte diferente. Acreditando que aqueles grupos mais frágeis provavelmente estavam indo para um lugar melhor, que seriam poupados do trabalho forçado, ela mentiu sobre a idade de seus filhos, na esperança de salvá-los. Somente depois ela descobriu que aquele grupo separado (de crianças pequenas e idosos) foi o primeiro a ser executado. Porque as pessoas que faziam parte dele de nada serviam, por serem novos ou velhos demais. Foi nesse momento que parei de assistir a resenha. Não suportei continuar. 

"E os caminhões nos levaram a um trem, e o trem.." Ele hesitou por um instante e mordeu o lábio. Bruno pensou que ele ia começar a chorar e não entendeu por quê. 
"O trem era horrível", disse Shmuel. "Havia muitos de nós nos vagões, para começar. E não havia ar para respirar."

- Apesar de narrado em terceira pessoa o livro é contado de maneira simples, mostrando a visão de Bruno sobre os acontecimentos, da forma que uma criança tão nova enxergaria as coisas. E isso torna o livro mais difícil. Porque a gente consegue perceber o que Bruno não conseguia. Ele era muito inteligente e bondoso, nunca se esquecendo da educação que sua mãe lhe deu. E quando via algo que lhe parecia errado, como quando o tenente Kotler agrediu o servente Parvel (um dos judeus que estavam no campo de concentração, mas que era conduzido até a casa para descascar um monte de legumes todos os dias) ele não suportava. Enquanto seu pai, a mãe e a irmã viraram o rosto, desconfortáveis, Bruno caiu em prantos, pois aquilo estava muito errado e alguém precisava fazer alguma coisa. Não se devia bater num empregado. Aquilo não estava certo. E uma das coisas que atormentava a cabeça de Bruno sobre o Parvel era o fato de ele ter sido médico e ter deixado de ser. Nada daquilo fazia sentido para ele. Era tudo uma grande confusão. 

Quando a amizade entre Bruno e Shmuel começa nosso coração se aperta ainda mais, pois até mesmo quem desconhecesse por completo a história do livro saberia que tudo poderia terminar mal, pelo simples fato do livro se passar durante a 2ª Guerra Mundial e tratar da amizade entre o filho de um comandante, responsável por um campo de concentração, e um judeu preso neste campo. A gente até poderia não saber como as coisas terminariam, mas diversas seriam as teorias que se passariam por nossa mente. Eu não vou dizer se o livro realmente termina mal ou se as coisas tomam um rumo inesperado e têm um final feliz. Deixo que vocês descubram lendo. 

"Estamos corrigindo a história aqui."

- Como eu disse, o livro mostra a visão de Bruno sobre os acontecimentos, mesmo assim conseguimos perceber muita coisa através do que ele via ou escutava, embora ele próprio não entendesse. O trecho acima, por exemplo, mostra no que o pai dele e muitos outros personagens acreditavam. Bruno tinha um professor obcecado por História, mas uma História parcial, claro. E quando o menino confessou ao pai que odiava estudar história, seu pai lhe explicou a importância de tal matéria e que era justamente por conta disso que estavam onde estavam, corrigindo a história. Tais ensinamentos são transmitidos para a Gretel, irmã de Bruno, que tinha doze anos e compreendia melhor as coisas, embora não tudo. Foi Gretel que explicou ao menino que as pessoas do outro lado da cerca eram judeus e que, portanto, Bruno não poderia se misturar com gente daquela "laia". 

"Estou perguntando: já que não somos judeus, o que nós somos então?"
"Somos o contrário"

"[...] 'Então, por que não gostamos deles?', perguntou ele.
'Porque são judeus', disse Gretel.
'Entendi. E o contrário e os judeus não se dão bem.'
'Não, Bruno', disse Gretel [...]"

- Mesmo após descobrir pela irmã o que tanto o diferenciava dos seres humanos do outro lado da cerca, que segundo o pai não eram pessoas, Bruno não se importou. Sua amizade com Shmuel continuou, sendo o seu segredo, já que ele teve ainda mais certeza de que não poderia contar a ninguém. Quando olhava para o amigo e para si mesmo ele não enxergava um judeu e um contrário. Enxergava outro menino como ele. Alguém com quem ele se importava muito e com quem pretendia brincar quando tudo aquilo terminasse e todos pudessem voltar para suas verdadeiras casas. Por que o que quer que estivesse acontecendo um dia terminaria, certo? E tudo voltaria ao normal. 

A amizade entre os dois é muito bonita de acompanhar, mas também é triste demais. Várias coisas acontecem... sobre as quais nem comentarei. É doloroso ver a inocência das duas crianças que não entendiam o que havia de tão errado com o mundo, só sabiam que algo estava errado e que só podiam ser amigos se aquilo fosse um segredo. Bruno não sabia porque o amigo estava sempre com fome e tão magro, com a pele acinzentada, mas sempre levava um pouco de comida para ele quando se encontravam. Uma das cenas que me fez cair em prantos foi quando o Shmuel disse que já não sentia mais nada. O menino estava com o rosto todo machucado e Bruno acreditando que ele provavelmente tinha caído de uma bicicleta ou algum menino mais velho implicara com ele, perguntou:

"[...] Está doendo?
'Nem sinto mais', disse Shmuel.
'Parece que dói.'
'Já não sinto mais nada', disse Shmuel."

- Este "já não sinto mais nada" foi muito difícil para mim, pois resumiu numa só frase a situação desesperadora em que aquela criança estava, cada vez mais magra e debilitada, passando fome e fazendo trabalhos duros, sendo espancada pelos soldados (pois o livro diz isso nas entrelinhas) e encontrando um alento apenas nos momentos em que sentava de frente para o amigo para que conversassem. Shmuel era tão inteligente quanto Bruno, e ele parecia saber mais sobre a sua situação do que o outro garoto. E uma coisa bonita e muito triste era quando ele tentava poupar Bruno de certas verdades. Ele sabia que o amigo era muito bom e não merecia saber algumas coisas sobre o próprio pai, por exemplo. Então Shmuel o poupava, preferindo ficar em silêncio. A amizade entre os dois foi muito simples e verdadeira. E encerro esta resenha aqui porque sei que vou voltar a chorar. 

28 de julho de 2017

Querida Sue - Jessica Brockmole

(Título Original: Letters from Skye
Tradutora: Vera Ribeiro
Editora: Arqueiro
Edição de: 2014)

Uma carta dá início a uma história de amor que nem duas guerras poderão apagar

Março de 1912: Elspeth Dunn, uma poetisa de 24 anos, nunca viu o mundo além de sua casa na remota Ilha de Skye, na Escócia. Por isso fica empolgada ao receber a primeira carta de um fã, David Graham, um estudante universitário da distante América. Os dois começam a trocar correspondências - compartilhando os segredos mais íntimos, os maiores desejos e os livros favoritos - e fazem florescer uma amizade que, com o passar do tempo, se torna amor. Porém a Primeira Guerra Mundial toma a Europa e David se oferece como voluntário, deixando Elspeth em Skye com nada além de esperanças de que ele sobreviva.

Junho de 1940: É o início da Segunda Guerra Mundial e Margaret, filha de Elspeth, está apaixonada por um piloto da Força Aérea Real. A mãe a adverte sobre os perigos de se entregar ao amor em tempos de guerra, mas a jovem não entende por quê. Então, durante um bombardeio, uma parede de sua casa é destruída e, de dentro dela, surgem cartas amareladas pelo tempo. No dia seguinte, Elspeth parte, deixando para trás apenas uma carta datada de 1915. Com essa única pista em mãos, a jovem decide ir em busca da mãe e, nessa trajetória, também precisará descobrir o que aconteceu à família muitos anos antes. 

Querida Sue é uma história envolvente contada em cartas. Com uma escrita sensível e cheia de detalhes de épocas que já se foram, Jessica Brockmole se revela uma nova e impressionante voz no mundo literário. 



Palavras de uma leitora... 


- Creio que é a primeira vez que começo a escrever a resenha aqui no blog sem antes colocar a sinopse. Claro que quando vocês lerem este post tudo já estará arrumadinho, formatado, com a sinopse em seu devido lugar antes do "Palavras de uma leitora..."rsrs Acontece que só tenho cerca de uma hora e trinta minutos para tentar colocar em palavras tudo o que sinto por esta história. Depois terei que me arrumar correndo para ir trabalhar. Por isso, comecei pela resenha em si. 

Sabe quando a intuição te leva a ler um livro especial? E não apenas uma história especial, mas uma das mais preciosas da sua vida. Aquela que você quer guardar num cantinho único e folhear todos os dias, se possível. Aquela que te arrancou lágrimas diretamente da alma, te preencheu de sentimentos lindos e ao mesmo tempo deixou um vazio que não poderá ser ocupado nunca. Foi exatamente o que aconteceu comigo ao ler Querida Sue. Ah, gente! Nunca mais serei a mesma. Livros realmente transformam pessoas. Sem sombra de dúvidas! Livros são capazes de nos marcar, de cravar-se como cicatrizes dentro de nós. O que seria da minha vida sem os livros? Acho que não existiria uma vida. 

- Foi num dia como outro qualquer. Eu estava fazendo minha costumeira visita às Lojas Americanas (meu lugar preferido para comprar livros, seguido de perto pela Saraiva, é óbvio!) quando vi alguns livros em promoção. Daquelas promoções de verdade, sabe? Peguei alguns livros, li suas sinopses e fiquei com vontade de trazer vários, mas quando bati os olhos em Querida Sue, senti uma coisa diferente. Não sei explicar. Eu o peguei nos braços (sim, foi bem assim mesmo!) e antes mesmo de ler a sinopse o quis demais. Como eu queria aquela história! Pensei comigo mesma: "Com tantos livros dos quais já ouvi falar para comprar por que escolher justamente um do qual você nunca ouviu nada?" O que era Querida Sue? Não fazia a menor ideia. Embora leia muitas resenhas na blogosfera literária, nunca tinha esbarrado numa resenha sobre essa história. Mesmo assim, soube que precisava desse livro. E não sairia de lá sem comprá-lo. 

Minha pilha de leituras nunca diminui, como vocês já sabem, por isso fui adiando a leitura dele. Mas o comprei ano passado, gente! E não pensei duas vezes ao colocá-lo na meta literária deste ano. :) Sim, ele saiu passando na frente de diversos livros.rsrs E o li num dos momentos que mais necessitava. Estou aqui chorando outra vez!kkkkkkk Sinceramente, não sei como ainda tenho lágrimas! A Jessica Brockmole fez de tudo para me desidratar durante esta leitura. 

- Existem escritores maravilhosos espalhados por este mundo. Sei disso! Muitos eu sequer terei a oportunidade de conhecer um dia, infelizmente. Outros já tive o privilégio de ler. Mas entre todos esses escritores talentosos e que nos fazem sentir um milhão de coisas, existe aquela parcela especial. Existem aqueles que possuem mais que talento... Que nasceram para escrever, que vieram com algo além desde o nascimento, entende? Para mim, a autora de Querida Sue tem esse algo especial. Eu mais do que viajei durante a leitura, queridos! Realmente  me senti dentro da história, sentindo absolutamente tudo com os personagens. E não queria que acabasse. Adoraria fazer parte da vida deles para sempre. 

Ainda não consegui parar de chorar. Mas não me sinto triste. Estou muito feliz por ter conhecido esta história. É um privilégio e tanto! Por favor, me digam que a Jessica escreveu mais histórias como esta e que elas também foram publicadas no Brasil! Eu necessito ler tudo o que ela tiver escrito. E o que ainda venha a escrever. Já foi direto para minha lista de autoras mais que queridas. 

"Eu devia ter lhe contado. Devia tê-la ensinado a proteger seu coração. Ensinado que uma carta nem sempre é apenas uma carta. As palavras na folha são capazes de inundar a alma. Ah, se você soubesse..."

- Não sei por onde começar. Como a Sue, me sinto sem palavras. Como colocar no papel tudo o que sentimos, tudo o que uma história nos provocou? Meus pensamentos estão desorganizados e minhas emoções, então! Queria não ter que trabalhar hoje. Queria poder ir para a Ilha de Skye, onde tudo começou entre eles, e visitar o lugar em que a Elspeth viveu e onde recebeu as cartas que mudariam toda sua vida. Mais do que isso, queria voltar no tempo, a um ano em que eu nem sonhava em existir... 1912. Março de 1912. Quando a vida da nossa protagonista realmente começou. 

É possível se apaixonar por alguém que você nunca viu em sua vida? Por uma pessoa com a qual você apenas trocava cartas? Pode o amor invadir as palavras escritas e atingir seu coração antes mesmo que se possa perceber? Embora fosse uma poetisa sonhadora, que vivia afastada do mundo "real", Elspeth não teria acreditado em algo assim... antes de receber a primeira carta. 

- Embora fosse uma escritora muito querida por todos os que tiveram a oportunidade de ler seus poemas, ela jamais tinha recebido a carta de um fã. Por isso, qual não foi seu choque quando aquele americano atrevido lhe escreveu. Ele tinha ganhado o livro de presente de um amigo, pois suas histórias ainda não tinham sido publicadas nos EUA. E ficara tão encantado por toda emoção que transparecia daqueles versos, que tivera a ousadia de lhe enviar uma carta, mesmo acreditando que ela se perderia numa pilha de outras enviadas por fãs. E com isso, deu início a tudo... A uma história de amor que tempo e guerra alguma seria capaz de destruir. 

"Uma vez, faz muito tempo, eu me apaixonei. Um amor inesperado, estonteante. Que eu não quis deixar partir."

O que era para ser apenas uma inocente troca de cartas entre uma escritora e seu fã, não demorou nada para tornar-se algo mais profundo, algo que não queriam perceber. Ela era uma jovem mulher casada, que não conhecia outra vida que não fosse aquela. Jamais saíra de sua pequena ilha, pois tinha tanto medo do mar que se transformara em prisioneira de seu mundo, sem jamais ter coragem de conhecer todos os lugares que sonhava em ir. Ele era um estudante universitário que não sabia bem o que desejava da vida, apenas que não era cursar medicina como seu pai impusera. Ele queria viver. Sentir. Se apaixonar. E nos versos de sua querida poetisa, encontrava a paz que não conseguia enxergar no vazio que eram seus dias naquele campus. Amá-la foi natural. Ninguém era capaz de entendê-lo melhor que ela. Quanto mais lhe escrevia mais desejava largar tudo e conhecê-la. Mesmo que ela fosse casada. Ainda que fosse um pecado desejar tê-la ao seu lado. Quem pode mandar no coração? Quem é capaz de controlá-lo? 

"Mas então veio a comoção da guerra, e não era hora nem lugar para um novo amor. Numa guerra, as emoções podem ficar confusas, as pessoas podem desaparecer, as opiniões podem mudar. Talvez tenha sido um erro eu me apaixonar tão de repente."

Por anos eles se corresponderam. Cada carta era esperada ansiosamente, pois ambos sentiam que viviam por aqueles momentos, mesmo que tentassem controlar tudo o que sentiam. Não podiam se amar. Era errado. Por isso, nunca se atreviam a colocar em palavras o amor que aquelas cartas despertaram. Ela continuava com sua vida ao lado de um homem distante e ele decidira ficar noivo, prestes a começar seu próprio caminho. Então, por que não conseguiam parar de escrever? Por que ele não era capaz de sentir nada pela noiva? Eram os lábios de sua querida Sue que ele desejava. Era o toque de sua pele na dele. Então, a 1ª Guerra Mundial começara... e diante da possibilidade de uma perda definitiva finalmente tiveram coragem para viver aquele amor. No momento equivocado. Porque cada instante juntos era seguido de meses de separação. E sempre pairava sobre eles o adeus... aquele que não seriam capazes de enfrentar... 

"Não me deixe partir para o front sem tê-la tocado pela primeira vez, sem ter ouvido a sua voz dizer meu nome. Não me deixe partir para o front sem levar uma lembrança sua no coração."

Ano de 1940. Em plena 2ª Guerra Mundial, Margaret apaixona-se perdidamente por um piloto da Força Aérea Real. Jamais entregara seu coração antes, mas quando estava com ele, esquecia-se do mundo. De tudo. Sabia que poderia perdê-lo, que naquela guerra nada era garantido. Um dia simplesmente poderia receber uma carta informando sua morte. Mas não queria deixar de viver, de amá-lo. Nem mesmo a oposição de sua mãe a impediriam de seguir em frente com aquele romance. Mas quando uma bomba cai em sua rua e as paredes de sua casa revelam cartas amareladas pelo tempo, todo o mundo de Margaret sofre um tremendo abalo. Conseguindo esconder apenas uma carta datada de 1915, antes que sua mãe recolhesse e guardasse todas as outras, ela não consegue entender quem poderia ser Sue e por que sua mãe ficara tão transtornada ao olhar para aquelas cartas. Como se não bastasse isso, ela desaparece logo em seguida e Margaret não faz ideia de para onde possa ter ido. Teriam aquelas cartas alguma coisa a ver com o desaparecimento de Elspeth? O que se esconderia no passado de sua mãe? Num passado do qual a vida inteira ela se negou a falar... 

"Afora eu, minha mãe passou as duas últimas décadas sozinha. Até vê-la naquela noite de bombardeio, na noite em que a guerra lhe rasgou o coração, eu nunca saberia. Nunca teria visto quanto ela era solitária. Nunca teria descoberto o que ela perdeu."

- Querida Sue intercala presente e passado de uma maneira cuidadosa e fascinante. Ora acompanhamos os acontecimentos do ano de 1940 ora voltamos para 1912 e todos os outros anos que seguiram antes do abrupto fim. E uma coisa que vocês talvez não saibam é que essa história não possui um narrador imparcial, uma terceira pessoa que nada tem a ver com o livro e apenas nos conta como tudo aconteceu. Não tem nada disso. Nem mesmo um narrador-personagem contando toda a história. Não tem nada daquilo com o que estamos acostumados. A história nos é mostrada TODA por cartas. Não existe um só capítulo, uma só página que seja diferente. O livro é escrito em cartas, gente! Algo que eu nunca tinha visto antes. 

Os trechos que coloquei nesta resenha são trechos das cartas trocadas entre os personagens. Tudo o que conhecemos vem das palavras que escreveram. Achei que não daria certo, que em algum momento a autora precisaria narrar algo, mas não. A história flui naturalmente dessa maneira peculiar e quanto mais lemos as cartas mais desejamos conhecer todas as outras. Nós invadimos a vida dos personagens, conhecendo seus segredos mais profundos, tristezas, alegrias, amores, medos, perdas... Entendem agora por que me sinto tão perto deles? 

"Penso nisso muitas vezes, Sue. Aqui estou. Não importa onde eu esteja no mundo, 'aqui estou'."

- Esta é uma das histórias que mais me emocionaram nesta vida. Como era possível eu viver num mundo em que não tivesse lido este livro?! Sinto algo muito forte e lindo por ter tido a chance de ler as cartas de Elsepth e David. Por ter conhecido a Margaret e seu querido Paul... Por ter sentido tudo com eles. Como esquecê-los? Nem nascendo de novo. 

"Certa vez você me falou, há muito tempo, que era muito clichê dizer que se podia amar alguém para sempre. Existe alguma palavra que signifique 'por mais tempo do que para sempre'? É por esse tempo que eu a amarei. 
Agora, para sempre, e depois. Amo você."

- Me dói ter que me separar do livro. Sei que preciso conhecer outras histórias que também me apaixonarão. Mas mesmo enquanto eu as ler, seguirei pensando em Querida Sue e dormirei com o livro sob o meu travesseiro. Por algum tempo... 

Esta foi minha sexta leitura para a Maratona Literária de Inverno 2017. A história de Elspeth e David preenche o Desafio 7: ler um livro que se passe em um período histórico importante. O livro se passa durante as 1ª e 2ª Guerras Mundiais. Restam só 3 livros agora! Será que conseguirei cumprir todos os desafios até o dia 30?! Veremos!rsrs 

"A guerra é impulsiva, ela me disse, e o que nos resta não passa de fantasmas."

Obs.: Quer um conselho? Se encontrar esta história numa livraria, supermercado, sebo ou qualquer outro lugar no qual esteja à venda, compre-a!!! Não desperdice a oportunidade! Porque dei uma olhada no site da Saraiva hoje e o livro aparecia como indisponível. Não tive tempo de conferir outros sites ainda, mas suspeito que vai ser difícil para as pessoas encontrarem este livro. :( O que aparecia para venda na Saraiva era apenas o ebook. Graças a Deus, não desperdicei minha chance em 2016 e tenho o meu exemplar de Querida Sue ao meu lado. Amo demais esta história! Muito mais do que podem imaginar. 

12 de junho de 2017

O Diário de Anne Frank


O Retrato da Menina por Trás do Mito

O depoimento da pequena Anne Frank, morta pelos nazistas após passar anos escondida no sótão de uma casa em Amsterdã, ainda hoje emociona milhões e leitores. Seu diário narra os sentimentos, os medos e as pequenas alegrias de uma menina judia que, como sua família, lutou em vão para sobreviver ao Holocausto.

Lançado em 1947, O Diário de Anne Frank se tornou um dos livros mais lidos no mundo. O relato tocante e impressionante das atrocidades e dos horrores cometidos contra os judeus faz deste livro um precioso documento e uma das obras mais importantes do século XX.



Palavras de uma leitora...


"Há uma necessidade destrutiva nas pessoas, a necessidade de demonstrar fúria, de assassinar e matar. E até que toda a humanidade, sem exceção, passe por uma metamorfose, as guerras continuarão a ser declaradas, e tudo o que foi cuidadosamente construído, cultivado e criado será cortado e destruído, só para começar outra vez!"

- Acho o trecho acima forte e bem realista. Se ainda existem guerras espalhadas por este mundo, se dia após dia pessoas são explodidas, famílias são separadas, gente passa fome, a culpa é de todos nós. Sem exceção. Por que reclamamos, nos comovemos e choramos se na realidade não movemos um dedo para mudar esta realidade? Enquanto nós não mudarmos o mundo não vai mudar. Pelo menos, não para melhor. 

Faz uma semana que venho tentando fazer esta resenha. Diversos foram os motivos que me impediram. Problemas com o computador, provas na faculdade, cansaço insuportável... mas a verdade é que eu poderia ter pego meus blocos de papel e feito a resenha, mesmo que aos pouquinhos ao longo dos dias. Mas eu não conseguia. Porque o motivo principal é que ainda não tinha forças para parar e falar do Diário de Anne Frank. Não conseguia sequer pensar em começar a escrever sem que as lágrimas enchessem meus olhos e sufocassem minha garganta. Existem livros que nos marcam. E existem aqueles que se tornam parte de nós. Este é um deles. E não é ficção. Anne existiu. Ela morreu aos quinze anos de idade, em fevereiro de 1945. 

"[...] Ninguém é poupado. Os doentes, os velhos, as crianças, os bebês e as mulheres grávidas - todos são forçados a marchar em direção à morte."

- Anne Frank ganhou vários presentes maravilhosos em seu aniversário de 13 anos, mas nenhum foi tão importante como seu diário. Ela estava junto quando ele foi comprado, porém não fazia ideia que seria um dos seus presentes. A partir daquele momento, se tornaram inseparáveis. Poderia deixar qualquer de suas coisas para trás, mas seus livros e seu diário, não. 

Sua família havia fugido da Alemanha em 1934 em busca de paz e recomeço, no momento em que o país tornou-se um lugar arriscado para os judeus por conta da força que as manifestações antissemitas ganhava. Encontraram refúgio em Amsterdã, quando ainda tinham esperanças que a guerra não fosse acontecer e que tudo logo fosse acabar e voltar a ser como antes. Naquela época, mal podiam imaginar tudo o que lhes aconteceria. 

"Eu poderia passar horas contando a você o sofrimento trazido pela guerra, mas só ficaria ainda mais infeliz. Só podemos esperar, com toda a calma possível, que ela acabe. Judeus e cristãos esperam, o mundo inteiro espera, e muitos esperam a morte."

- As coisas correram bem durante os seis primeiros anos. Anne e sua família levavam uma vida normal, feliz e, de certo modo, despreocupada. Mas em 1940 o tormento começou. A 2ª Guerra Mundial tivera início em 1939 e não demorou para que os alemães invadissem a Holanda, trazendo com eles diversas proibições para o povo judeu que ali se refugiava. Às vezes Anne tinha a sensação que até respirar era proibido, embora tivesse tentado se adaptar às mudanças que começaram a acontecer em seu mundo até então seguro. 

"Ando de cômodo em cômodo, subo e desço escadas e me sinto como um pássaro de asas cortadas, que fica se atirando contra as barras da gaiola. 'Me deixem sair para onde existem ar puro e risos!', grita uma voz dentro de mim." 

- Mas o pesadelo teve início em julho de 1942, quando sua irmã mais velha, Margot, que tinha apenas 16 anos, recebeu uma notificação do governo alemão, que dizia que ela deveria se mudar para um campo de trabalho. Sabemos o que isso significava. Temendo pela segurança de sua filha e de todos eles, a família Frank antecipou a ida para um esconderijo, que ficou conhecido pelo mundo como o Anexo Secreto, localizado na empresa em que o pai de Anne trabalhava. 

"A primeira coisa que agarrei foi este diário e, depois, rolinhos de cabelos, lenços, livros da escola, um pente e algumas cartas antigas. Preocupada com a ideia de ir para um esconderijo, juntei as coisas mais malucas na pasta, mas não me arrependo. Para mim, as lembranças são mais importantes do que os vestidos."

- Aquele foi o último dia normal da vida de Anne. Ela foi obrigada a dar adeus para a sua casa, seus amigos, a gatinha que amava e muitas de suas coisas. Carregou com ela poucos pertences e muitos sonhos. Não deixando para trás a esperança que aquilo fosse só uma fase, algo passageiro. Que um dia o mundo seria diferente e então ela poderia ser a escritora que sonhava em ser.

Durante os dois anos que foi obrigada a permanecer escondida no Anexo Secreto, Anne encontrou consolo em seu diário, seu único amigo, para quem contava seus maiores segredos e desejos. Onde desabafava quando estava triste, onde se atrevia a dizer o que era obrigada a calar diante dos outros. Através de Kitty, nome dado por ela ao diário, conhecemos a alma de uma menina que teve a vida cruelmente interrompida por pessoas que não deveriam ser chamadas de seres humanos. 

"Quem mais, além de mim, vai ler estas cartas? Com quem mais, além de mim, posso procurar conforto?"

- Anne era uma adolescente intensa. Cheia de emoções, perguntas, sonhos, desejos e coragem. Alguém que precisava sentir a vida, que queria ir além de onde diziam que ela poderia ir. Que queria conquistar seu próprio espaço, seu próprio mundo e se eternizar através das palavras. Ela amava os livros, observar as pessoas, estudar mitologia e árvores genealógicas. Era diversas Annes numa só e queria gritar para o mundo o que estava preso em seu interior, o que ninguém poderia entender. Sua personalidade apaixonada provocava diversos conflitos entre ela e sua família que se intensificaram durante o período que passaram escondidos. Por suas palavras, temos uma ideia de como ela se sentia sozinha e rejeitada, buscando alguém que conseguisse entender o que ela não conseguia explicar, alguém que simplesmente a abraçasse e dissesse: Não.Você não está errada. É um ser humano e possui o direito de viver. De ser o que quiser. E eu estou aqui com você, irei te ajudar. Não vou te deixar." 

"Chorar pode trazer alívio, desde que você não chore sozinha. Apesar de todas as minhas teorias e meus esforços, sinto falta - todo dia e toda hora - de uma mãe que me compreenda."

- O relacionamento entre Anne e sua mãe era bastante complicado antes mesmo de irem para o esconderijo. Sensível e inteligente, ela não era capaz de suportar a maneira como a mãe a via e tratava, as brincadeiras que apenas a magoavam, as ofensas que a feriam. Conforme prosseguimos na leitura, vemos que Anne mencionava a mãe várias vezes e quando ela ficou menos crítica em relação à mãe, eu senti algo que não sei se todos sentiram ao ler seu diário. Embora pareça que a diminuição das críticas à mãe seja consequência do passar dos anos e o amadurecimento dela, a sensação que tive foi que Anne começou a não se importar mais. Começou a se desligar da mãe que ela tanto desejou que a compreendesse e consolasse. E eu desejei com todas as minhas forças que aquela mulher tivesse acordado. Percebido a filha maravilhosa que tinha e que tanto precisava que ela fosse sua mãe nem que fosse por um único dia. Não uma figura autoritária que achava que ela devia calar seus sentimentos e pensamentos, mas sim alguém que a abraçasse e confortasse. Que fosse seu apoio. 

"Não importava o que acontecesse, não importava que eu me comportasse mal, vovó sempre me defendia. Você me amava, vovó, ou será que também não me entendia?"

- Está sendo muito difícil para mim fazer esta resenha. Não só porque Anne existiu e foi assassinada de maneira tão cruel por aqueles monstros dos infernos. Mas também porque me identifico muito com a Anne. Porque, em vários momentos, fiquei chocada com a semelhança de pensamentos e sentimentos. Os conflitos dela com a mãe me fizeram recordar os próprios problemas que tive com a minha mãe durante minha adolescência (e tenho até hoje). As brigas, as lágrimas... Lembro de uma ocasião, quando eu estava no início da adolescência, em que minha mãe me magoou tanto que chorei até já não ter forças para nada. E, enquanto chorava, eu escrevia. Tudo o que ela tinha me feito, tudo o que eu estava sentindo. Ela odiava quando eu fazia isso. Quando começava a escrever sobre nossas brigas. Ela queria gritar e eu preferia desabafar com o papel. Minha mãe sempre tentava fazer as pazes comigo depois, diferente da mãe de Anne, e tínhamos nossos períodos de "paz", mas as brigas sempre retornavam. Minha mãe e eu pensamos muito diferente, embora sejamos ambas intensas em nossos sentimentos. Isso gera conflitos até hoje, mas aprendemos a nos entender e perdoar. Não tenho dúvidas de que minha mãe me ama, que daria a vida por mim se fosse preciso. Ela se sacrificou muitas vezes por mim. Abriu mão de muitas coisas por minha vida e a amo mais que tudo. Mas... ela nunca irá aprender a ser diferente.rs Conforme os anos se passaram e amadureci, aprendi a aceitá-la e não levar tão a sério tudo o que ela às vezes me diz. Penso que Anne viveu algo muitíssimo semelhante com a mãe dela. Mas, diferente de mim, não teve a oportunidade de ver como o relacionamento delas melhoraria com o passar do tempo. Ela não teve essa chance. 

Também fica evidente no diário de Anne a ligação que ela tinha com a avó e como sentia a sua falta. Nem começarei a falar da minha avó senão não terminarei esta resenha. Não serei capaz. Poderiam se passar cem anos, mas eu nunca conseguiria esquecer minha avó. A levo comigo sempre. Em meus pensamentos, em meu coração. E já faz quase dezesseis anos que a perdi. Mas o amor não morre, gente. O tempo não é capaz de destruir o que sentimos. 

"Sou sentimental, sei disso. Sou dependente e boba, sei disso também."

- Anne sempre foi extremamente sincera em seu diário. Sobre o que sentia, sobre o que vivia no Anexo Secreto, até mesmo nas críticas que fazia a si mesma. Através de suas palavras, temos uma ideia de como foi sua vida ali dentro, conhecemos seus medos, sua angústia, os pesadelos que muitas vezes a atormentavam. E mesmo diante de tudo o que passava e do pavor que sentia de que fossem encontrados e levados para campos de concentração, ela nunca deixou de ter fé. De acreditar em Deus. De sonhar com um futuro. Mesmo quando estava triste, ela tentava estar bem. Não concordava com o pessimismo dos outros. Acreditava que valia a pena pensar positivo e nunca deixar de acreditar. 

"[...] Meu medo desapareceu. Olhei para o céu e confiei em Deus."

- Eu sei que Deus não é culpado. Sei que a maldade simplesmente existe e que as coisas ruins que acontecem são resultado da crueldade dos próprios seres humanos. Que são as pessoas que fazem mal umas às outras e não Deus. Mas como posso não me revoltar? Como posso não gritar para o céu perguntando por quê? Por que Deus não impediu que a Anne morresse? Por que não a protegeu se ela confiou tanto nEle, se entregou a vida dela em Suas Mãos? Eu sei que todos estamos sujeitos a tudo neste mundo, gente. Mas sou humana. Não consigo evitar me revoltar. Não consigo não suplicar a Deus por respostas e por auxílio. Sempre irei implorar a Ele que socorra essas pessoas esquecidas pelo mundo no meio de guerras de diferentes tipos. Só queria que Deus não permitisse que coisas assim acontecessem. 

"Algum dia essa guerra terrível vai terminar. Chegará a hora em que seremos gente de novo, e não somente judeus!  Quem fez isso contra nós? Quem nos separou de todo o resto? Quem nos colocou neste sofrimento? Foi Deus que nos fez do jeito que somos, mas também é Deus que irá nos erguer no fim."

- Ao longo de seu diário, Anne fala sobre diversos assuntos. Seus amigos, a saudade que sente de alguns, o quanto se preocupava com uma amiga em especial que não conseguiu salvar... Fala sobre seu dia a dia, as invasões que a empresa onde ficava o Anexo Secreto sofreu. O pesadelo que teve em que era separada dos pais e levada para um campo de concentração. Fala sobre seus sentimentos, os livros que lia, o que estudava... as mudanças que foram acontecendo conforme ela crescia. Fala de assuntos que com certeza não ousaria desabafar com ninguém e que tenho minhas dúvidas se deveriam ou não fazer parte da versão publicada do diário. 

O diário de Anne foi publicado após sua morte, quando seu pai, único sobrevivente da família, lutou para que pelo menos o sonho da filha de ser eternizada pelas palavras se realizasse. Ela queria escrever, sonhava em ser escritora. Otto Frank fez todo o possível para que o mundo conhecesse o diário dela. Mas o diário possui três versões (o que é explicado no prefácio deste livro). Na edição definitiva, que é a que li, preparada por Otto Frank e a escritora Mirjam Pressler, estão publicadas partes antes omitidas. Ou seja, é uma publicação quase integral do diário da Anne (é necessário ler o prefácio do livro para entender por que eu disse "quase" integral), o que faz com que ele conte com passagens muito íntimas, que talvez ela não quisesse que fossem publicadas, na minha opinião. 

"O mundo virou de cabeça para baixo. As pessoas mais decentes são mandadas para campos de concentração, prisões e solitárias, enquanto os mais baixos dos mais baixos governam jovens e velhos, ricos e pobres."

- Pelas palavras de Anne, também tomamos conhecimento de algumas pessoas que eles perderam durante aquele período. Quando a família de Anne foi para o Anexo Secreto, uma outra família os acompanhou e, mais tarde, eles também esconderam uma outra pessoa. No total, oito pessoas viveram naquele esconderijo por dois anos, contando com a ajuda de duas secretárias da empresa e do chefe do pai de Anne, além de outras poucas pessoas que sabiam que eles estavam ali. Através dessas pessoas, Anne e os outros recebiam notícias do mundo exterior, de amigos que eram presos, torturados, que desapareciam ou eram mortos. De holandeses que também eram condenados por esconderem judeus. E era impossível não sentir medo. Não imaginar quando chegaria a vez deles...

"Um dia rimos do lado cômico da vida no esconderijo, e no dia seguinte (e há muitos dias assim) estamos apavorados, e o medo, a tensão e o desespero podem ser lidos em nossos rostos."

- Conforme o diário se aproxima do seu final abrupto, novas mudanças podem ser percebidas em nossa pequena Anne e sua família. O desespero que ela tentou afastar ao longo de muitas páginas, se faz mais e mais evidente, sobretudo depois que recebem a notícia que a polícia invadiu um esconderijo de judeus e levou os que se escondiam e quem os ajudava. Anne vai ficando cada vez mais angustiada e não consigo evitar a dor terrível que suas palavras me provocam. Dá para sentir o que ela sentia. Dá para imaginar seu medo e isso é insuportável.

"[...] Que chegue o fim, mesmo sendo cruel; pelo menos saberemos se vamos ser vencedores ou vencidos."

- Este livro tem grandes chances de ser o mais marcante do ano. Passei uma semana inteira sem conseguir ler um livro novo, sem decidir o que leria a seguir. Em cada momento eu me pegava lembrando da Anne, da família dela e pensando em tantas outras vidas que foram arrancadas durante aquela maldita guerra. E quantas ainda seguem sendo destruídas nos dias de hoje. Vivi algo semelhante ao ler "A Menina que Roubava Livros". Só que o diário da Anne é ainda mais doloroso porque é real. Porque são os pensamentos e as palavras de uma menina que tinha toda uma vida pela frente, que tinha fé, sonhos, que tinha o direito de viver, mas teve tudo roubado, incluindo a sua vida. 

"Aqueles terríveis alemães nos oprimiram e ameaçaram durante tanto tempo que a ideia de amigos e de salvação significa tudo para nós! Agora não são apenas os judeus, mas a Holanda e toda a Europa ocupada. Talvez, como diz Margot, eu até mesmo possa voltar para a escola em setembro ou outubro."

- É impossível não admirar a menina incrível que a Anne foi. Alguém que teria feito conquistas impressionantes se tivesse tido a oportunidade. Embora eu tenha me identificado com ela, encontrado muitas semelhanças entre nós duas (talvez por que, em nossa essência, nós seres humanos sejamos mais parecidos do que imaginamos), a Anne era muito diferente de mim em vários aspectos. Era muito inteligente, irônica e realista com tão pouca idade. Questionava diversas coisas, tinha opinião formada sobre os mais variados assuntos mesmo que os "adultos" preferissem que ela ficasse calada e é fascinante ler o que ela escrevia, sobre o que pensava. Há um momento, quase no final do diário, em que ela começa a refletir sobre a falta de importância que as pessoas em geral davam às mulheres. E, aos 15 anos de idade, ela queria entender aquilo. Ir além das respostas prontas que todos davam. Queria chegar ao fundo da questão. Depois de fazer um desabafo sobre a revolta que algo que leu lhe provocou, Anne continua, dizendo o seguinte:

"Não quero sugerir que as mulheres devam parar de ter filhos; pelo contrário, a natureza lhes deu essa tarefa, e é assim que deve ser. O que condeno é nosso sistema de valores e os homens que não reconhecem como é grande, difícil, mas lindo, o papel da mulher na sociedade."

- Eu li todo o diário de Anne, menos o último dia, menos a última anotação que ela fez no diário. Eu não conseguia, gente. Somente hoje, por causa da resenha, li a anotação final. 

O diário de Anne termina em 1º de agosto de 1944. As páginas foram encontradas caídas, espalhadas pelo chão depois que ela e todos os outros moradores do Anexo Secreto foram delatados e entregues aos nazistas. Não se sabe ao certo se Anne morreu em final de fevereiro ou início de março de 1945 (embora se acredite que foi em fevereiro). O que sim se sabe é que ela foi mais uma dos milhões de pessoas mortas na 2ª Guerra Mundial. 

As páginas de seu diário foram encontradas pelas duas secretárias que trabalhavam na empresa e ajudavam a esconder os moradores do Anexo Secreto. O único sobrevivente, entre os oito judeus que estavam escondidos ali, foi Otto Frank, pai de Anne. 

- Uma noite, depois de ler algumas páginas do diário da Anne, eu deitei, mas não consegui dormir. Levantei de novo e fui pesquisar sobre a história dela. Li muitas coisas... informações que não estão presentes neste livro. Coisas muito dolorosas de pessoas que testemunharam os momentos finais da Anne. 

- Espero que ninguém ache que eu dei algum spoiler aqui. Não é um livro de ficção, gente. Eu já conhecia a história dela muito antes de ler o livro. Sabia quem ela era, o que lhe aconteceu, sabia que seu pai era o único sobrevivente da família. Porque isso faz parte da História. Quem já leu sobre a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto dos judeus já esbarrou na história da família Frank. 

É possível dar spoiler sobre a História? Eu sinceramente acho que não. Por isso, não considero spoilers as informações que dei nesta resenha. 

"Para mim, é praticamente impossível construir a vida sobre um alicerce de caos, sofrimento e morte. Vejo o mundo ser transformado aos poucos numa selva, ouço o trovão que se aproxima e que, um dia, irá nos destruir também, sinto o sofrimento de milhões. E, mesmo assim, quando olho para o céu, sinto de algum modo que tudo mudará para melhor, que a crueldade também terminará, que a paz e a tranquilidade voltarão."

- O diário da Anne me nocauteou. Nunca serei capaz de esquecê-lo e, sobretudo, de esquecer essa menina tão cheia de vida, de sentimentos, de esperanças e sonhos. Acreditar que Hitler e todos que colaboraram com ele estão queimando no inferno não é consolo algum. Porque, ainda assim, Anne foi morta. A morte de Hitler não devolveu a vida dela. E de nenhuma das vítimas dele. Eu queria que ele tivesse sofrido os tormentos do inferno em vida antes dele finalmente morrer. Queria que ele tivesse sofrido muito durante vários anos. Que sentisse na pele o que fez àqueles milhões e milhões de pessoas. Que ele jamais descanse em paz, pois não merece qualquer paz!!! Acham que estou sendo dura demais, que uma boa pessoa deve perdoar a todos? Simplesmente é impossível para mim desejar algo de bom para um monstro que assassinou milhões de seres humanos. 

"Dá para chorar ao pensar no sofrimento das pessoas das quais a gente gosta; na verdade, daria para chorar o dia inteiro. O máximo que a gente pode fazer é rezar para que Deus faça um milagre e salve pelo menos alguns deles. E espero estar rezando bastante!"

Descanse em paz, Anne! Descanse em paz, Estrelinha! Espero que aí no céu você tenha feito as pazes com sua família. Que tenha reencontrado os seus amigos que também se foram. Que esteja feliz. A 2ª Guerra Mundial acabou, mas, infelizmente, ainda existem guerras acontecendo em diversos países. Como você bem previa que aconteceria. Porque a metamorfose não aconteceu nos seres humanos. Ainda não. Mas, como você, quero ter fé. Acreditar que um dia este mundo será melhor.
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