11 de novembro de 2020

Fique Comigo - Ayòbámi Adébáyò


Literatura Nigeriana
Tradutora: Marina Vargas
Tradução de: Stay with me
Editora: Harper Collins 
Edição de: 2018
Páginas: 240

66ª leitura de 2020 (57ª resenha do ano)

Sinopse: Finalista do Baileys Women’s Prize for Fiction, este romance de estreia inesquecível ambientado na Nigéria dá voz a marido e esposa enquanto eles contam a história de seu casamento ― e as forças que ameaçam destruí-lo.

Yejide e Akin se apaixonaram na faculdade e logo se casaram. Apesar de muitos terem esperado que Akin tivesse várias esposas, ele e Yejide sempre concordaram que o marido não seria poligâmico. Porém, após quatro anos de casamento ― e de se consultar com médicos especialistas em fertilidade e curandeiros, tomar chás estranhos e buscar outras curas improváveis ―, Yejide não consegue engravidar. Ela está certa de que ainda há tempo, mas então a família do marido aparece na sua casa com uma jovem moça que eles apresentam como a segunda esposa de Akin. Furiosa, chocada e lívida de ciúmes, Yejide sabe que o único modo de salvar seu casamento é engravidar. O que, enfim, ela consegue ― mas a um custo muito maior do que poderia ter imaginado. 

Um romance eletrizante e de enorme poder emocional, Fique comigo não apenas debate as questões familiares da sociedade nigeriana, como também demostra com realismo as mazelas e as dificuldades políticas enfrentadas pela população desse país nos anos 1980. No entanto, acima de tudo, o livro faz a pergunta: o quanto estamos dispostos a sacrificar em nome da nossa família?



Ela sempre desejou ser amada... Ter alguém que procuraria por ela se desaparecesse... Que sentiria a sua falta, que se importaria. Filha da segunda esposa de seu pai, que era polígamo e teve quatro ou cinco esposas aos mesmo tempo, mesmo numa família grande Yejide se sentia sozinha, uma intrusa dentro do seu próprio lar e tendo como único "aliado" apenas um pai que insistia em fazê-la recordar que seu nascimento lhe arrancara o grande amor da vida dele. 

Tendo perdido a mãe logo ao nascer, Yejide nunca conseguiu chamar nenhuma de suas madrastas de mãe, sabia que era desprezada por todas elas, que seus próprios meio-irmãos eram ensinados a excluí-la, a fazê-la se sentir sozinha. Pelas costas do pai sempre a tratavam muito mal e tudo o que ela mais desejava era fugir daquela vida. Em seu coração ainda acreditava que teria sua própria família. Que conheceria um homem que se contentaria em ter somente a ela como esposa, que juntos teriam três, quatro filhos e seriam muito felizes. Era o seu sonho. Sua esperança. 

"As coisas que importam estão dentro de mim, encerradas em meu peito como em um túmulo, onde permanecerão para sempre, meu baú de tesouros sepultados."

Ela o conheceu quando estava na faculdade. Como suas madrastas e todo o resto da família acreditavam que ela seria uma fracassada, que nunca conseguiria nada, Yejide lutou para cursar a faculdade. Como a viam como uma "perdida", ela decidiu que se casaria virgem. Sua existência se baseava em provar aos outros que ela não seria o que eles queriam. E Akin se mostrou compreensivo desde o primeiro instante. Eles se apaixonaram praticamente à primeira vista. Ela já tinha sido beijada por outros rapazes, mas somente os beijos dele a atingiam, a faziam sentir coisas que nunca antes experimentara. Ao seu lado ela se sentia amada. Era possível partilhar todos os seus segredos e inseguranças, seus sonhos e medos. 

Em pouco tempo estavam casados. Tudo era perfeito. Ela tinha sua profissão e ele também era bem-sucedido. Tinham seu lar, eram compatíveis de muitas formas e se divertiam com as tentativas de seus parentes de interferirem em suas vidas. Eram cúmplices, verdadeiros companheiros... pelo menos era nisso que Yejide acreditava. Foi nisso que ela acreditou por quatro anos. Que ninguém seria capaz de separá-los, que não existiam segredos entre os dois, que sempre poderia confiar no homem com quem se casara. Isso até aquela mulher ser levada até sua casa e apresentada como a segunda esposa de Akin.

"Hoje digo a mim mesma que foi por isso que me esforcei para aceitar cada nova humilhação: para ter alguém que procurasse por mim caso eu desaparecesse." 

O golpe foi forte demais. O choque, a descrença, a angústia... Não. Akin jamais teria a coragem de fazer aquilo com ela. Ele sabia o que ela tinha passado na infância, como odiava a poligamia, que não se casaria com um homem que quisesse ter mais de uma esposa. Ele sabia. Então, não podia ser verdade. Akin não poderia ter se casado com outra mulher, muito menos pelas suas costas. Devia ser uma brincadeira. Uma piada de mau gosto. 

Mas era verdade. De um momento para o outro, a vida de Yejide vira um inferno. Tudo o que ela dava como certo desmorona. Ela lutava desde o início do seu casamento para poder engravidar. Tinha tentado de tudo e os exames diziam que não havia nada de errado em seu corpo, que nada a impedia de engravidar. Então, embora sofresse por ainda não ter conseguido dar um filho a Akin, nunca passou pela sua cabeça que ele buscaria outra mulher. Que apenas por ela não ter engravidado nos quatro primeiros anos de casamento, ele se acharia no direito de quebrar todas as promessas e traí-la daquela forma. E o pior era vê-lo agindo como se tudo estivesse bem. Como se o que fez fosse algo absolutamente normal e aceitável. Como se ela não tivesse motivos para se sentir traída e em pedaços. 

"Não me sentiria melhor durante muito tempo. Já estava me desfazendo, como um lenço amarrado às pressas que se afrouxa e cai no chão antes que o dono perceba."

No entanto, mesmo destroçada ela ainda o amava. E precisava salvar seu casamento. A única maneira de impedir que a segunda esposa roubasse de maneira definitiva o homem que ela escolhera para estar ao seu lado por toda a vida... era engravidar. Ela precisava dar-lhe um filho. Deus teria piedade dela. Ele lhe daria o seu milagre, o seu bebê. Desistir não era uma opção. Ela salvaria seu casamento. 

Apenas lembrar deste livro já me deixa péssima. Com um aperto no peito, uma angústia enorme. Me arrependo muito de tê-lo lido, confesso. Preferia nunca ter conhecido esta história. Nunca ter mergulhado na dor da Yejide e em toda a violência que é cometida contra ela. 

Não. Não darei spoiler. Dizer que a protagonsta sofre violência em diversos níveis não é spoiler. Vocês precisariam ler para compreender, pois as coisas não são explícitas. E a autora cria um drama tão forte, "pinta" alguns personagens como pobres coitados que se "sacrificavam" por amor, que somente com muita atenção é que conseguimos perceber a violência... em suas mais diversas formas. Eu chorei muito com e pela Yejide. Sua dor atingiu um ponto vulnerável dentro de mim, de alguma maneira me identifiquei com ela... com sua solidão, seu desejo de ser amada e a traição que ela sofre daqueles que deveriam protegê-la. Em muitos momentos eu desejei sacudi-la, fazê-la acordar, parar de acreditar que as pessoas mudariam, que ainda era possível salvar o que estava perdido desde o começo. O sofrimento dela me marcou demais. Sinto como se eu própria mergulhasse num abismo quando recordo tudo o que se passou neste livro. É uma história que me fez muito mal. Que me deixou apenas dor. E por isso eu preferia nem ter lido. 

"Quando o fardo é pesado demais e o carregamos por muito tempo, até mesmo o amor se verga, racha, fica prestes a se despedaçar, e às vezes se despedaça de fato."

Já li muitos livros pesados, de fazer os olhos ficarem inchados de tanto chorar, mas a maioria deles, como O Caçador de Pipas e Corações Feridos, por exemplo, me deixou algo de bom, mesmo no meio de todo o inferno que os personagens viveram. São livros que me acrescentaram de alguma maneira, que me deixaram lições, que mesmo me fazendo mal também me fizeram bem. Fique Comigo não me deixou nada de positivo. Eu fiquei depressiva depois de concluir a leitura, chorando de um jeito como se eu própria tivesse sentido tudo no lugar da protagonista. Fiquei péssima, com um mal estar muito forte, como se estivesse ficando doente. Cheguei a decidir que não faria resenha, que não suportaria sequer falar deste livro. Mas mudei de ideia hoje, pois desde que terminei de lê-lo não consigo me concentrar em nenhum outro livro. Então, resolvi fazer a resenha na tentativa de me libertar um pouco da Yejide, da sua dor e todos os acontecimentos de sua vida. 

A história é contada em forma de carta. Na verdade, não são cartas trocadas entre os personagens nem nada, mas a narrativa nos faz sentir como se os protagonistas Yejide e Akin estivessem escrevendo um para o outro, entende? Eles estão contando a história deles para nós leitores, mas a sensação que fica é que estão falando um com o outro, que é algo particular, íntimo, que nos exclui. Em alguns momentos, também parece uma conversa com eles mesmos. Sabe quando falamos sozinhos?rsrs Ou quando escrevemos num diário, confessando coisas para nós mesmos. É uma narrativa diferente. Bem íntima e muito intensa. Mergulhamos profundamente nos sentimentos dos protagonistas, como se estivéssemos passando por tudo aquilo. Quer dizer... Mergulhamos nos sentimentos da Yejide. Nos do Akin, não. Sobre este personagem me recuso a falar senão vou começar a explodir aqui e não conseguirei parar. Apenas digo isso: eu o odeio. Com todas as minhas forças. 

"Talvez, quando pedimos ao Senhor que nos livre do mal, estejamos na verdade pedindo que nos livre de nós mesmos."

O livro começa pelo ano de 2008 e o que é narrado neste início nos confunde e preocupa. Já começamos a leitura em tensão, imaginando o que aconteceu para que as coisas chegassem àquele ponto. Então, logo em seguida a autora nos leva ao ano de 1985 para nos contar o que deu errado, para nos contar a história dos dois do ponto de vista deles. 

É uma história que nos rouba a energia. Eram dementadores, certo? Os monstros que provocavam pavor no Harry Potter? Que tiravam a felicidade e deixavam somente escuridão e desespero. É meio assim que me sentia enquanto lia este livro. Que ele estava me roubando o ânimo, a alegria e deixando somente dor. Só isso já mostra o talento da autora. Porque um autor conseguir envolver tanto assim os leitores é muito difícil. Não é qualquer autor que consegue fazer você sentir tanto assim uma história. 

Mas mesmo reconhecendo o talento da autora, a escrita maravilhosa e envolvente, vai demorar muito até eu ter coragem de ler outra história dela. Não quero ficar tão destroçada como fiquei com este livro. Tudo o que quero agora é conseguir esquecer que o li. Mas já sei que será impossível. 



-> DLL 20: Um livro de autor africano



3 de novembro de 2020

Frankenstein - Mary Shelley



Literatura Inglesa
Título Original: Frankenstein, or, The Modern Prometheus
Tradutor: Christian Schwartz
Editora: Penguin & Companhia das Letras
Edição de: 2015
Páginas: 424

62ª leitura de 2020 (56ª resenha do ano)

Sinopse: O arrepiante romance gótico de Mary Shelley foi concebido quando a autora tinha apenas dezoito anos. A história, que se tornaria a mais célebre ficção de horror, continua sendo uma incursão devastadora pelos limites da invenção humana. Obcecado pela criação da vida, Victor Frankenstein saqueia cemitérios em busca de materiais para construir um novo ser. Mas, quando ganha vida, a estranha criatura é rejeitada por Frankenstein e lança-se com afinco à destruição de seu criador. Este volume inclui todas as revisões feitas por Mary Shelley, uma introdução da autora e textos críticos de Percy B. Shelley e Ruy Castro. Há ainda um apêndice com textos de Lorde Byron e do dr. John Polidori.



Observe-se que esta leitura consta como a 62ª do ano, mas a de E Não Sobrou Nenhum consta como 63ª. Isso ocorre porque Frankenstein foi minha última leitura de outubro E Não Sobrou Nenhum foi a primeira de novembro.rs Eu só inverti a ordem das resenhas. 

Na resenha do livro da Agatha Christie (resenha aqui) eu comentei que recentemente tinha lido dois livros nos quais existiam personagens brincando de Deus. No da referida autora era um psicopata que tinha decidido julgar e condenar pessoas por seus pecados, aplicando a pena que ele considerava adequada. Só que se você pensar bem, a crueldade do assassino e seus jogos eram tão doentios, que não era bem "brincar de Deus", mas sim brincar de diabo.

Já em Frankenstein as coisas são bem diferentes. Não se trata de ninguém querendo "fazer justiça" com as próprias mãos, mas sim de um cientista que se considera o máximo, o "escolhido" para descobrir os mistérios da vida e decide que vai criar outro ser humano.... no laboratório. Que vai descobrir o que "dá vida", qual é essa essência que faz um ser humano surgir do nada e "respirar", como Adão, lá no livro de Gênese, na Bíblia Sagrada. Não estou mencionando religião porque sou cristã, mas sim porque o próprio livro vai fazer tais comparações, principalmente quando conhecemos o ponto de vista da Criatura feita por Victor Frankenstein. 

"[...] seguindo as pegadas já deixadas, serei o pioneiro de um novo método, explorarei forças desconhecidas e revelarei ao mundo os mais profundos mistérios da criação."

Só que na Bíblia, Deus criou Adão do pó da terra e "soprou o fôlego da vida em suas narinas, e o homem se tornou ser vivo." (Gênese 2, versículo 7). O Dr. Victor Frankenstein não pretendia criar nenhum novo ser humano do pó da terra, mas sim de restos de cadáveres que ele pegava em cemitérios, por mais horror que sua própria atitude lhe provocasse. Ele queria satisfazer seu desejo pessoal, seu ego, ao conseguir dar vida a alguém, e não lhe importava (naquele momento) que estivesse fazendo seu experimento com restos de corpos de outras pessoas, que tinham vivido e mereciam respeito, que ele estava violando os restos mortais de seus semelhantes. Ele chega a pensar o seguinte, como justificativa para o que estava fazendo: "Para examinar as causas da vida, devemos antes recorrer à morte." E logo através desse egoísmo e loucura do protagonista, percebemos que aquela experiência estava fadada desde o princípio a provocar resultados monstruosos. Que se ele realmente conseguisse dar vida ao que ele estava criando, os resultados seriam os piores possíveis. E que, definitivamente, ele estava mexendo com o que não devia, estava ultrapassando limites, sem ter a capacidade de lidar com as consequências

"O que poderá deter o coração determinado e o desejo resoluto de um homem?"

E eis que ele trabalha loucamente durante dois anos (creio que foram dois anos, já não lembro bem), se tornando irreconhecível para as pessoas ao seu redor, tão focado em seu experimento que já não se importava com nada mais, nem com a família que há muito não recebia notícias suas. Ele então cria um ser mais alto e forte do que qualquer outro ser humano, mais resistente aos climas, com capacidade de ser mais veloz, só que com a aparência de um monstro. Uma aparência capaz de provocar repulsa e pavor em qualquer pessoa. Só que sua criatura ainda não "respirava" e o livro não deixa claro qual é o "segredo da vida" que o Dr. Victor Frankenstein descobriu capaz de fazer alguém começar a respirar, ter vida. Já ouvi falar que em filmes inspirados no livro, isso ocorre através de eletricidade, raios, sei lá.rs Nunca vi nenhum filme sobre esta história, então não sei como é feito nos filmes. Mas no livro, quando eu passei pela cena, não entendi como aconteceu, pela minha leitura da cena eu digo que não ficou claro. Enfim... 

"Depois de dias e noites de esforço e cansaço inimagináveis, logrei descobrir a causa da geração da vida; e, mais importante, tornei-me capaz de reanimar matéria morta."

Depois de muitos esforços, ele finalmente consegue o que tanto queria: sua criação estava viva. Ele tinha se tornado o Criador de um ser humano único (ou algo próximo de um ser humano), tinha realizado o seu sonho. E o que ele faz quando a Criatura abre os olhos e sorri para ele?! Foge desesperado.

Sim, sabíamos desde o princípio que Victor era um covarde, um homem fraco e mimado, acostumado a ter o que queria, mas que não tinha maturidade nenhuma para lidar com suas próprias atitudes. Enquanto sua Criatura ainda não respirava, tudo estava perfeito. Ele estava feliz da vida, todo orgulhoso de si, com a certeza que a faria viver. Mas quando consegue que a Criatura tenha "fôlego de vida", se desespera. Percebe o que fez e foge, deixando à própria sorte o pobre coitado que não pediu para existir. Alguém que embora já fosse tecnicamente "adulto" em tudo era como uma criança inocente, jogada num mundo desconhecido, abandonada pelo pai, pelo seu Criador. É claro que ele iria colher as consequências de suas atitudes, embora pensasse que fugindo e se recusando a encarar o que tinha feito tudo ficaria perfeitamente bem. 

"E tu, no entanto, meu criador, detestas e rejeitas esta tua criatura, à qual tua arte te liga por laços que somente é possível romper pelo aniquilamento de um de nós. Estás disposto a me matar. Como te atreves a brincar assim com a vida?"

E o livro vai girar em torno justamente das consequências do que o Dr. Victor Frankenstein tinha feito, ao brincar de Deus e fugir de suas responsabilidades, abandonando seu "filho", fingindo que ele não existia. A história já começa anos depois, através das cartas trocadas entre um jovem aventureiro chamado Walton e sua irmã Margaret. Durante uma viagem, Walton e sua tripulação acabam encontrando um homem quase morto e o aceitam em seu navio, dando a ele todo o cuidado necessário na tentativa de que ele se recupere. Este homem doente é Victor. Logo, Walton começa a ver o desconhecido como um amigo e os dois se aproximam muito. Tudo isso ficamos sabendo através das cartas que Walton escreve para a irmã. 

Atormentado por seu passado, pelo terror que ele provocou e ao ver no amigo alguém muito parecido com ele em suas ambições de mexer com os mistérios da natureza, Victor decide contar toda a sua história e implora para o amigo não cometer os mesmos erros que ele cometeu. Assim, somos levados ao passado e descobrimos tudo o que aconteceu...

"Lembras que sou tua criatura; deveria ter sido teu Adão, mas parece que acabei como o anjo caído do qual tiraste a felicidade por pecado nenhum."

No trecho acima, um dos que mais me impactou, a criatura, atormentada por toda rejeição sofrida e pela forma como seu próprio criador queria sua morte, faz uma comparação com a história bíblica. Reflete sobre o fato que ele deveria ter sido para Victor como Adão foi para Deus, mas em vez disso acabou condenado como Lúcifer, o anjo caído que se transformou em demônio após ter desejado ser como Deus, ter tentado ocupar o lugar de Deus. Só que a diferença entre a criatura e o anjo caído é que ela não tinha cometido nenhum pecado. É essa injustiça, essa dor que mais machuca a criatura. Saber que não tinha feito nada para merecer a maneira como Victor a tratou e como queria sua destruição.

Claro que não vou contar tudo o que se passou entre criador e criatura porque seria spoiler, mas digo que essa é uma história que se fixa em nós por todas as reflexões que ela provoca, pela revolta que sentimos por todas as injustiças cometidas contra a Criatura e contra outros personagens no livro. A sensação de impotência, de não poder mudar coisas que até nos dias de hoje se repetem, como falhas do Poder Judiciário, preconceitos, descaso, a falta de empatia de muitos... O livro vai ter como tema central as questões referentes a relação entre um criador egoísta e irresponsável e sua criatura abandonada, mas também vai trazer muito da responsabilidade da sociedade pelas pessoas que ela rejeitou. O livro nos faz refletir sobre crianças abandonadas por suas famílias, pessoas humilhadas e seriamente afetadas pela sociedade... Enfim... Nós acabamos pensando em muitos assuntos e o que fica  ao término da leitura é uma sensação de tristeza. É algo parecido com o que sentimos quando lemos Capitães da Areia, do Jorge Amado.

"Tu, que és meu criador, serias capaz de destroçar-me em pedaços, triunfante; lembra disso e então me diz por que deveria eu apiedar-me do homem mais do que ele se apieda de mim?"


A autora aborda a seguinte discusão: é possível alguém nascer bom e ser corrompido pela sociedade? Se tornar cruel a partir da forma como é tratado pelos outros? E ela própria dá a resposta através do desenvolvimento da história: sim, é possível. Depois de apanhar tanto, de só receber ódio e agressão, um ser humano pode sim se revoltar e romper com a bondade que levava no coração e devolver aos outros exatamente o que estava recebendo deles. 

Frankenstein não é um livro de terror, embora seja considerado um. É muito mais um livro filosófico, creio. Uma história com o objetivo de fazer o leitor refletir... parar para pensar em questões sobre existência, injustiças, discriminação, abandono... A Criatura feita por Victor vai fazer várias coisas horríveis que vão sim nos revoltar, mas são as cenas em que ela conta a versão dela, o que se passou depois que foi abandonada por seu Criador, que nos fazem sentir vontade de chorar, que nos atingem a alma. Por uma coisa chamada empatia. Ao nos colocarmos no lugar dela, nos imaginando abandonados à própria sorte e recebendo de TODO MUNDO apenas ódio e violência, conseguimos compreender o que a levou a se tornar o que se tornou. Eu odiei a Criatura?! Sim, a odiei pelas coisas horríveis que ela fez. Mas também sofri muito por tudo o que ela passou. Eu pude compreender sua dor. E meu maior desprezo era pelo Victor e por aqueles que contribuíram para destruir aquela Criatura, destruir sua essência, os sentimentos bons que ela tinha. Eu senti muita tristeza e revolta com esta história. 

É fácil falarmos que não faríamos isso ou aquilo quando não passamos pelo que o outro passou. É muito fácil julgarmos de fora. Falta muito no mundo a capacidade de sentir empatia, de se colocar no lugar do outro. Se as pessoas pensassem mais no seu próximo, se refletissem antes de tomar uma atitude que pode causar mal ao outro, afetar a vida da outra pessoa... O mundo com certeza não seria o caos que é. Não seria um lugar perfeito e livre da maldade, claro. Não sou ingênua. Mas com certeza não seria o que é hoje. 


2 de novembro de 2020

E Não Sobrou Nenhum - Agatha Christie



Literatura Inglesa
Título Original: And Then There Were None
Tradutor: Renato Marques de Oliveira
Editora: Globo
Edição de: 2014
Páginas: 400

63ª leitura de 2020 (55ª resenha do ano)

Sinopse: Uma ilha misteriosa, um poema infantil, dez soldadinhos de porcelana e muito suspense são os ingredientes com que Agatha Christie constrói seu romance mais importante. Na ilha do Soldado, antiga propriedade de um milionário norte-americano, dez pessoas sem nenhuma ligação aparente são confrontadas por uma voz misteriosa com fatos marcantes de seus passados.

Convidados pelo misterioso mr. Owen, nenhum dos presentes tem muita certeza de por que estão ali, a despeito de conjecturas pouco convincentes que os leva a crer que passariam um agradável período de descanso em mordomia. Entretanto, já na primeira noite, o mistério e o suspense se abatem sobre eles e, num instante, todos são suspeitos, todos são vítimas e todos são culpados.

É neste clima de tensão e desconforto que as mortes inexplicáveis começam e, sem comunicação com o continente devido a uma forte tempestade, a estadia transforma-se em um pesadelo. Todos se perguntam: quem é o misterioso anfitrião, mr. Owen? Existe mais alguém na ilha? O assassino pode ser um dos convidados? Que mente ardilosa teria preparado um crime tão complexo? E, sobretudo, por quê?

São essas e outras perguntas que o leitor será desafiado a resolver neste fabuloso romance de Agatha Christie, que envolve os espíritos mais perspicazes num complexo emaranhado de situações, lembranças e acusações na busca deste sagaz assassino. Medo, confinamento e angústia: que o leitor descubra por si mesmo porque E não sobrou nenhum foi eleito o melhor romance policial de todos os tempos.




Uau!!! Pensem num livro simplesmente MARAVILHOSO!!! Em relação à leitura, novembro começou muito bem, com uma história cinco estrelas (mas que merecia MUITO MAIS!!!) e favoritada!!! Eu não imaginava! De modo algum poderia imaginar que E Não Sobrou Nenhum se tornaria o meu livro preferido da Agatha Christie. Depois de ter lido alguns livros dela que me decepcionaram, eu desanimei, acreditando que dificilmente uma outra história que eu viesse a ler da autora conseguiria chegar aos pés de Assassinato no Expresso do Oriente ou O Misterioso Caso de Styles. Todavia, este livro sobre o qual agora escrevo conseguiu superá-los e de maneira brilhante! Que livro!!!

Eu ainda estou um pouco em choque.rsrs Não que o final tenha sido uma completa surpresa, mas ainda assim eu não passei perto de saber como o assassino (quando falo "assassino" não significa que não possa ser uma assassina, ok?) fez tudo ou tive certeza absoluta de quem era ele. Cheguei a suspeitar dessa pessoa, mas fui tola em descartá-la. Todavia, me deixa um tanto feliz ter descoberto uma parte importante do jogo doentio que ele planejou. Pelo menos aquilo eu acertei!kkkkkkkkk

Não sei como falar de um livro tão sensacional como este! Não sei mesmo! Fiquei aqui literalmente de boca aberta, chocada em como o psicopata do livro era inteligente, como estava sempre dez passos a frente, como prendeu todos em sua teia. Foi cruel?! Sim! Mas inegavelmente brilhante. Este é um dos livros mais maravilhosos que já li! Eis um fato!rsrs

Tudo começa com um misterioso convite. Dez pessoas, muito diferentes umas das outras e sem nenhuma aparente conexão, são atraídas até uma ilha conhecida como a Ilha do Soldado, um lugar isolado e perfeito para os planos do assassino. A maioria recebeu uma carta suspostamente escrita por pessoas que a conheciam ou oferecendo uma oportunidade de emprego irrecusável. O juiz Wargrave, por exemplo, recebe uma carta de uma amiga do seu passado, alguém que ele não via há muitos anos, o convidando para passar uns dias na ilha. Vera Claythorne queria muito um emprego melhor (algo que o assassino parecia saber) e recebe uma carta de uma suposta senhora Una Nancy Owen lhe oferecendo uma vaga como secretária. O General Macarthur recebe uma carta de alguém que desejava recordar os velhos tempos; o remetente assinava como Owen. Um casal recebe o convite para trabalhar na ilha, o marido como mordomo e a esposa como cozinheira. E assim prossegue... Cada uma das dez pessoas é atraída de uma maneira diferente, e o remetente nem sempre assinava ou se "apresentava" (através de terceiros) com o mesmo nome. 

Quando todos chegam à ilha ficam um tanto perturbados pela maneira como ela fica no meio do nada, bem afastada do resto da população, sendo impossível sair dali sem um barco... só que não havia nenhum barco ali. Apenas um morador do povoado mais próximo ia até a ilha e levava mantimentos e tudo o que fosse necessário, tendo sido contratado para isso. Foi ele quem transportou todos os hóspedes do suposto senhor Owen. E deveria aparecer toda manhã... o que não acontece

Os hóspedes ficam intrigados ao descobrirem que nenhum dos dez convidados tinha visto o senhor Owen pessoalmente e que alguns nem sequer tinham recebido um convite dele, mas de alguém que assinou com outro nome. Tudo fica mais misterioso quando são comunicados do "atraso" de seu anfitrião, que por um imprevisto ainda não tinha chegado na ilha. 

Logo na primeira noite, após o jantar, uma Voz acusa todos os presentes de crimes do passado. Uma Voz que parecia saber tudo sobre suas vidas... De onde ela estava vindo?! Que absurdo era aquilo?! Uma brincadeira de mau gosto? Sim... Uma brincadeira letal... Um dos dez morre bem diante dos olhos dos outros. Na mesma noite. Imediatamente depois do choque provocado pela voz misteriosa. Teria a pessoa, por algum motivo desconhecido, envenenado a si mesma?! Mas quando um segundo cadáver é encontrado na manhã seguinte, os oito sobreviventes percebem que aquele era um jogo planejado por alguém louco e cruel e que tentar sobreviver era tudo o que poderiam fazer. 

Não havia maneira de escapar da ilha. Quando uma tempestade se aproxima, até mesmo enviar sinais buscando atrair o socorro de alguém se torna impossível. O tempo estava contra eles. A qualquer momento outra morte poderia acontecer. Quem seria o próximo?! Sobraria alguém?! 

Determinados a sobreviverem, eles decidem encontrar o assassino antes que fosse tarde demais. Mas depois de revirarem a ilha inteira (que não era grande e tinha apenas a casa e um pouco de natureza em volta) percebem algo extremamente assustador: não havia ninguém na ilha além dos oito ainda vivos e os dois corpos. O que significava... que o assassino era um dos oito. 

Quem seria?! Quais eram os seus motivos? Desesperados, com medo uns dos outros, os convidados terão que encarar os pecados do seu passado e tentar não pagarem com a própria vida por erros que jamais poderiam consertar. 

Está aí a primeira questão: algo que descobrimos logo no início da história é que ninguém ali era inocente. Todos tinham feito alguma coisa bem grave no passado e tinham escapado impunes. Ou a lei tinha falhado em puni-los ou eram situações que iam além da lei. Mas simplesmente não havia nenhum anjinho entre os convidados, ninguém isento de culpa. Logo, é possível perceber que o assassino (ou assassina) queria se fazer de Deus (é o segundo livro que leio recentemente e que tem alguém brincando de Deus: o outro foi Frankenstein) e sentenciar todos os seus hóspedes à morte. Na verdade, no momento em que foram atraídos até ali eles já estavam sentenciados. Na ilha ocorreria a execução da pena. Sim, todos tinham sido convidados para morrer (por isso que parece que em outros países o livro foi lançado até com o título de Convite para a Morte) e para sobreviver será necessário ser muito mais esperto do que o psicopata. 

Na história existem os suspeitos mais óbvios e aqueles que consideramos capazes de cometer tais crimes, mas não imaginamos como eles poderiam fazer. Ao longo da história vamos descartando muitos deles, até que percebemos uma coisinha que eu tinha deixado passar durante parte da leitura. E que não posso comentar para não correr o risco de dar spoilers. Mas foi ali que acabei descobrindo um dos segredos do final e fiquei muito feliz por isso.kkkkkkk. Já que não acertei quem era o assassino (ou assassina) era um conforto pelo menos ter adivinhado parte do jogo dele, de suas estratégias.rs

A Agatha Christie brinca com a gente como o assassino brinca com suas vítimas. Quando temos certeza de algo percebemos que não temos certeza é de coisa alguma!kkkkkk Vocês sabem como sou exigente com romances policiais e livros de suspense. Que minhas duas leituras recentes do gênero (leituras de outubro) foram completas decepções, histórias que considerei muito fracas e óbvias demais. E existiram livros da própria autora que apenas me entediaram. Então, dá para imaginar minha felicidade ao ler esta obra-prima!!! Um livro tão bem escrito, com uma trama complexa e perfeitamente desenvolvida, com um final capaz de nos deixar chocados. Se fosse possível eu dava muitíssimas mais estrelas à história. O triste é que dificilmente lerei outro livro da autora ou de outros autores do gênero que consiga superar E Não Sobrou Nenhum

Ah! Eu já estava esquecendo! Sabem aquelas cantigas infantis, que passam de geração em geração?! O assassino, que ama jogar com o psicológico de suas vítimas, vai utilizar uma cantiga infantil para dar pistas aos seus convidados de como ocorrerá cada morte. Assustador, não é mesmo? Eu fiquei horrorizada! Toda vez que lia a cantiga (pois precisava voltar sempre nela para tentar adivnhar como seria a próxima morte), eu sentia medo. Nunca antes a tinha escutado, não a conhecia, mas depois deste livro será impossível esquecê-la. Segue um trechinho dela:

"Dez soldadinhos saem para jantar, a fome os move;
Um deles se engasgou, e então sobraram nove.

Nove soldadinhos acordados até tarde, mas nenhum está afoito;
Um deles dormiu demais, e então sobraram oito."

E a cantiga vai até o final que dá título ao livro: E não sobrou nenhum. A cantiga termina com essa frase. E isso nos faz pensar no massacre que vai ser se os oito sobreviventes não conseguirem parar o assassino a tempo (pois conforme o título, a intenção do assassino é que não sobre ninguém). Uma vez que ele já tem preparada para cada um, uma morte "especial", sempre seguindo o passo a passo da cantiga infantil. 

Nem preciso dizer o quanto recomendo esta história, certo? Se você nunca leu nada da Agatha Christie, comece por este livro!!! Eu queria poder voltar no tempo e lê-lo todo outra vez! Comecei a leiura ontem à noite e terminei hoje de manhã, ou seja, levei menos de vinte e quatro horas para concluir a leitura, algo que dificilmente estava ocorrendo até com livros curtinhos. É que eu simplesmente não conseguia parar de ler esta história!

Era para eu estar publicando a resenha de Frankenstein, que foi minha última leitura do mês de outubro, mas ainda nem a escrevi.rs Quando comecei a ler E Não Sobrou Nenhum imaginei que levaria alguns dias para concluir a leitura e nesse meio tempo escreveria a resenha de Frankenstein, mas como terminei o livro rapidamente e precisava muito falar sobre ele, a resenha do outro livro acabou tendo que esperar.rs

Não deixem de ler este livro, queridos!!! Recomendo demais!




-> DLL 20: Um livro policial



 

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