11 de novembro de 2020

Fique Comigo - Ayòbámi Adébáyò

Tempo de leitura:


Literatura Nigeriana
Tradutora: Marina Vargas
Tradução de: Stay with me
Editora: Harper Collins 
Edição de: 2018
Páginas: 240

66ª leitura de 2020 (57ª resenha do ano)

Sinopse: Finalista do Baileys Women’s Prize for Fiction, este romance de estreia inesquecível ambientado na Nigéria dá voz a marido e esposa enquanto eles contam a história de seu casamento ― e as forças que ameaçam destruí-lo.

Yejide e Akin se apaixonaram na faculdade e logo se casaram. Apesar de muitos terem esperado que Akin tivesse várias esposas, ele e Yejide sempre concordaram que o marido não seria poligâmico. Porém, após quatro anos de casamento ― e de se consultar com médicos especialistas em fertilidade e curandeiros, tomar chás estranhos e buscar outras curas improváveis ―, Yejide não consegue engravidar. Ela está certa de que ainda há tempo, mas então a família do marido aparece na sua casa com uma jovem moça que eles apresentam como a segunda esposa de Akin. Furiosa, chocada e lívida de ciúmes, Yejide sabe que o único modo de salvar seu casamento é engravidar. O que, enfim, ela consegue ― mas a um custo muito maior do que poderia ter imaginado. 

Um romance eletrizante e de enorme poder emocional, Fique comigo não apenas debate as questões familiares da sociedade nigeriana, como também demostra com realismo as mazelas e as dificuldades políticas enfrentadas pela população desse país nos anos 1980. No entanto, acima de tudo, o livro faz a pergunta: o quanto estamos dispostos a sacrificar em nome da nossa família?



Ela sempre desejou ser amada... Ter alguém que procuraria por ela se desaparecesse... Que sentiria a sua falta, que se importaria. Filha da segunda esposa de seu pai, que era polígamo e teve quatro ou cinco esposas aos mesmo tempo, mesmo numa família grande Yejide se sentia sozinha, uma intrusa dentro do seu próprio lar e tendo como único "aliado" apenas um pai que insistia em fazê-la recordar que seu nascimento lhe arrancara o grande amor da vida dele. 

Tendo perdido a mãe logo ao nascer, Yejide nunca conseguiu chamar nenhuma de suas madrastas de mãe, sabia que era desprezada por todas elas, que seus próprios meio-irmãos eram ensinados a excluí-la, a fazê-la se sentir sozinha. Pelas costas do pai sempre a tratavam muito mal e tudo o que ela mais desejava era fugir daquela vida. Em seu coração ainda acreditava que teria sua própria família. Que conheceria um homem que se contentaria em ter somente a ela como esposa, que juntos teriam três, quatro filhos e seriam muito felizes. Era o seu sonho. Sua esperança. 

"As coisas que importam estão dentro de mim, encerradas em meu peito como em um túmulo, onde permanecerão para sempre, meu baú de tesouros sepultados."

Ela o conheceu quando estava na faculdade. Como suas madrastas e todo o resto da família acreditavam que ela seria uma fracassada, que nunca conseguiria nada, Yejide lutou para cursar a faculdade. Como a viam como uma "perdida", ela decidiu que se casaria virgem. Sua existência se baseava em provar aos outros que ela não seria o que eles queriam. E Akin se mostrou compreensivo desde o primeiro instante. Eles se apaixonaram praticamente à primeira vista. Ela já tinha sido beijada por outros rapazes, mas somente os beijos dele a atingiam, a faziam sentir coisas que nunca antes experimentara. Ao seu lado ela se sentia amada. Era possível partilhar todos os seus segredos e inseguranças, seus sonhos e medos. 

Em pouco tempo estavam casados. Tudo era perfeito. Ela tinha sua profissão e ele também era bem-sucedido. Tinham seu lar, eram compatíveis de muitas formas e se divertiam com as tentativas de seus parentes de interferirem em suas vidas. Eram cúmplices, verdadeiros companheiros... pelo menos era nisso que Yejide acreditava. Foi nisso que ela acreditou por quatro anos. Que ninguém seria capaz de separá-los, que não existiam segredos entre os dois, que sempre poderia confiar no homem com quem se casara. Isso até aquela mulher ser levada até sua casa e apresentada como a segunda esposa de Akin.

"Hoje digo a mim mesma que foi por isso que me esforcei para aceitar cada nova humilhação: para ter alguém que procurasse por mim caso eu desaparecesse." 

O golpe foi forte demais. O choque, a descrença, a angústia... Não. Akin jamais teria a coragem de fazer aquilo com ela. Ele sabia o que ela tinha passado na infância, como odiava a poligamia, que não se casaria com um homem que quisesse ter mais de uma esposa. Ele sabia. Então, não podia ser verdade. Akin não poderia ter se casado com outra mulher, muito menos pelas suas costas. Devia ser uma brincadeira. Uma piada de mau gosto. 

Mas era verdade. De um momento para o outro, a vida de Yejide vira um inferno. Tudo o que ela dava como certo desmorona. Ela lutava desde o início do seu casamento para poder engravidar. Tinha tentado de tudo e os exames diziam que não havia nada de errado em seu corpo, que nada a impedia de engravidar. Então, embora sofresse por ainda não ter conseguido dar um filho a Akin, nunca passou pela sua cabeça que ele buscaria outra mulher. Que apenas por ela não ter engravidado nos quatro primeiros anos de casamento, ele se acharia no direito de quebrar todas as promessas e traí-la daquela forma. E o pior era vê-lo agindo como se tudo estivesse bem. Como se o que fez fosse algo absolutamente normal e aceitável. Como se ela não tivesse motivos para se sentir traída e em pedaços. 

"Não me sentiria melhor durante muito tempo. Já estava me desfazendo, como um lenço amarrado às pressas que se afrouxa e cai no chão antes que o dono perceba."

No entanto, mesmo destroçada ela ainda o amava. E precisava salvar seu casamento. A única maneira de impedir que a segunda esposa roubasse de maneira definitiva o homem que ela escolhera para estar ao seu lado por toda a vida... era engravidar. Ela precisava dar-lhe um filho. Deus teria piedade dela. Ele lhe daria o seu milagre, o seu bebê. Desistir não era uma opção. Ela salvaria seu casamento. 

Apenas lembrar deste livro já me deixa péssima. Com um aperto no peito, uma angústia enorme. Me arrependo muito de tê-lo lido, confesso. Preferia nunca ter conhecido esta história. Nunca ter mergulhado na dor da Yejide e em toda a violência que é cometida contra ela. 

Não. Não darei spoiler. Dizer que a protagonsta sofre violência em diversos níveis não é spoiler. Vocês precisariam ler para compreender, pois as coisas não são explícitas. E a autora cria um drama tão forte, "pinta" alguns personagens como pobres coitados que se "sacrificavam" por amor, que somente com muita atenção é que conseguimos perceber a violência... em suas mais diversas formas. Eu chorei muito com e pela Yejide. Sua dor atingiu um ponto vulnerável dentro de mim, de alguma maneira me identifiquei com ela... com sua solidão, seu desejo de ser amada e a traição que ela sofre daqueles que deveriam protegê-la. Em muitos momentos eu desejei sacudi-la, fazê-la acordar, parar de acreditar que as pessoas mudariam, que ainda era possível salvar o que estava perdido desde o começo. O sofrimento dela me marcou demais. Sinto como se eu própria mergulhasse num abismo quando recordo tudo o que se passou neste livro. É uma história que me fez muito mal. Que me deixou apenas dor. E por isso eu preferia nem ter lido. 

"Quando o fardo é pesado demais e o carregamos por muito tempo, até mesmo o amor se verga, racha, fica prestes a se despedaçar, e às vezes se despedaça de fato."

Já li muitos livros pesados, de fazer os olhos ficarem inchados de tanto chorar, mas a maioria deles, como O Caçador de Pipas e Corações Feridos, por exemplo, me deixou algo de bom, mesmo no meio de todo o inferno que os personagens viveram. São livros que me acrescentaram de alguma maneira, que me deixaram lições, que mesmo me fazendo mal também me fizeram bem. Fique Comigo não me deixou nada de positivo. Eu fiquei depressiva depois de concluir a leitura, chorando de um jeito como se eu própria tivesse sentido tudo no lugar da protagonista. Fiquei péssima, com um mal estar muito forte, como se estivesse ficando doente. Cheguei a decidir que não faria resenha, que não suportaria sequer falar deste livro. Mas mudei de ideia hoje, pois desde que terminei de lê-lo não consigo me concentrar em nenhum outro livro. Então, resolvi fazer a resenha na tentativa de me libertar um pouco da Yejide, da sua dor e todos os acontecimentos de sua vida. 

A história é contada em forma de carta. Na verdade, não são cartas trocadas entre os personagens nem nada, mas a narrativa nos faz sentir como se os protagonistas Yejide e Akin estivessem escrevendo um para o outro, entende? Eles estão contando a história deles para nós leitores, mas a sensação que fica é que estão falando um com o outro, que é algo particular, íntimo, que nos exclui. Em alguns momentos, também parece uma conversa com eles mesmos. Sabe quando falamos sozinhos?rsrs Ou quando escrevemos num diário, confessando coisas para nós mesmos. É uma narrativa diferente. Bem íntima e muito intensa. Mergulhamos profundamente nos sentimentos dos protagonistas, como se estivéssemos passando por tudo aquilo. Quer dizer... Mergulhamos nos sentimentos da Yejide. Nos do Akin, não. Sobre este personagem me recuso a falar senão vou começar a explodir aqui e não conseguirei parar. Apenas digo isso: eu o odeio. Com todas as minhas forças. 

"Talvez, quando pedimos ao Senhor que nos livre do mal, estejamos na verdade pedindo que nos livre de nós mesmos."

O livro começa pelo ano de 2008 e o que é narrado neste início nos confunde e preocupa. Já começamos a leitura em tensão, imaginando o que aconteceu para que as coisas chegassem àquele ponto. Então, logo em seguida a autora nos leva ao ano de 1985 para nos contar o que deu errado, para nos contar a história dos dois do ponto de vista deles. 

É uma história que nos rouba a energia. Eram dementadores, certo? Os monstros que provocavam pavor no Harry Potter? Que tiravam a felicidade e deixavam somente escuridão e desespero. É meio assim que me sentia enquanto lia este livro. Que ele estava me roubando o ânimo, a alegria e deixando somente dor. Só isso já mostra o talento da autora. Porque um autor conseguir envolver tanto assim os leitores é muito difícil. Não é qualquer autor que consegue fazer você sentir tanto assim uma história. 

Mas mesmo reconhecendo o talento da autora, a escrita maravilhosa e envolvente, vai demorar muito até eu ter coragem de ler outra história dela. Não quero ficar tão destroçada como fiquei com este livro. Tudo o que quero agora é conseguir esquecer que o li. Mas já sei que será impossível. 



-> DLL 20: Um livro de autor africano



Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

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