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15 de novembro de 2019

Malone morre - Samuel Beckett

Literatura Irlandesa
Título Original: Malone meurt
Tradutora: Ana Helena Souza
Editora: Folha de São Paulo
Edição de: 2016
Páginas: 128
Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura #16

Sinopse: Um dos maiores escritores da segunda metade do século XX, o irlandês Samuel Beckett (1906-1989) recebeu o Nobel de Literatura em 1969 e ficou para sempre lembrado pela peça Esperando Godot. No entanto, o ponto alto de sua obra está em narrativas como Malone morre (1951), segundo livro da trilogia composta ainda por Murphy e O inominável. Trata-se quase de literatura abstrata: sem enredo, trama, personagens. No livro, um homem muito velho está preso, nu e inválido, a uma cama do que parece ser um hospital. Toma uma sopa diária e escreve a lápis, num caderno, uma espécie de diário em que mistura pensamentos e histórias sem sentido de pessoas que talvez possam ter sido ele mesmo, não se sabe. Como é comum em Beckett, observa-se e reflete-se sobre o quase nada da vida, tratada com humor sinistro, como se fosse um acúmulo de banalidades fúteis, do qual pouco sobra na memória dos narradores beckettianos – doentes, velhos, mendigos, palhaços. 




Eu realmente entendi este livro?! Claro que não!

Já tinha ouvido falar antes do Samuel Beckett, mas foi só por conta de alguns desafios literários que resolvi apostar nesta história. E que desafio, meu Deus do céu! O livro nos deixa com uma forte sensação de que não compreendemos nada. Que simplesmente nada sabemos de coisa alguma no livro.kkkkkkkkk Foi um erro lê-lo? Não. Porque em muitos momentos eu cheguei sim a me envolver e destacar trechos que mexeram comigo.

"Estarei em breve apesar de tudo completamente morto enfim."

O livro já começa por este trecho tão impactante, no qual o narrador afirma que em breve estará morto. Se você iniciar a leitura sem ter lido a sinopse ficará se perguntando por que ele tinha tanta certeza de que não demoraria a morrer. Mas como eu sempre leio a sinopse antes, sabia do que o narrador estava falando.

Na história temos um homem muito idoso, doente, fraco, aparentemente em seus últimos dias de vida. A velhice acabará por levá-lo, seu tempo na Terra está se esgotando e ciente deste fato, o narrador começa a registrar lembranças, pensamentos desordenados e momentos do seu dia a dia num caderno, utilizando um lápis que ele não sabe bem como foi parar ali. E por falar em "ali"...

"Situação atual. Este quarto parece ser meu. Não posso explicar de outro modo que me deixem aqui. Faz tempo."

O narrador, protagonista da história, não faz ideia de onde está ou como chegou ali. É um quarto, do qual não pode sair se simplesmente desejar. É um manicômio? Um hospital? Um asilo? Não se sabe. Mas o próprio narrador acrescenta: "Não é um quarto de hospital ou de manicômio, isso se sente." Assim, ele próprio tem a impressão de que está numa espécie de asilo, embora não possa ter certeza. Na realidade, certezas não fazem parte desta narrativa. Não se pode confiar no que é contado pelo narrador, pois por conta de suas confusões e momentos de aparente desorientação, não sabemos se as coisas contadas por ele são ou não reais. Se não se tratam apenas de devaneios, ilusões.

Por incrível que pareça, é justamente esse "não saber de nada" que torna o livro tão intrigante. Queremos nos conectar ao personagem, conhecer seu passado, sua vida e isso nos é negado o tempo inteiro pelo autor. É como se tentássemos abrir uma porta trancada à chave, mas não tivéssemos a chave correta. Então, forçamos, tentamos de outras maneiras, até mesmo lutamos para arrombá-la, mas nada funciona. É assim que me senti durante a leitura: mantida do lado de fora, de propósito. Porque aquele era o objetivo do autor.

"Não vou falar dos meus sofrimentos. Metido no mais profundo deles, não sei nada. É aí que morro, à revelia de minha carne estúpida. O que se vê, o que grita e se agita, são os restos."

Apesar da barreira que existe entre o narrador, sua história e nós leitores, isso não nos impede de sentir um profundo incômodo pela situação de total miséria e abandono vivida pelo protagonista. Ali naquele lugar desconhecido, que nada tem de seguro ou confortável, se alimentando apenas uma vez por dia (com sopa) e preso a uma cama, da qual não possui forças para se levantar, pois seus membros não lhe obedecem mais, o personagem está totalmente vulnerável, dependendo da bondade (ou não) de estranhos. Imaginar uma situação tão horrível nos provoca agonia. Eu me sentia sufocada, como se uma mão estivesse apertando minha garganta, de tão agoniada que fiquei.

"Vou abrir meus olhos, me ver tremer, engolir minha sopa, olhar o montinho das minhas posses, dar ao meu corpo as velhas ordens que sei que é incapaz de executar, consultar minha consciência caduca, estragar minha agonia para vivê-la melhor, já longe do mundo que se dilata enfim e me deixa passar."

É muito triste ver o personagem nesta situação. Sentir o vazio daquela vida, a solidão, a velhice que lhe tirou tanto. A ausência de pessoas que se preocupem com ele, que estejam ao seu lado em seus últimos momentos. Isso faz com que nos sintamos mal. Se torna uma leitura muito desgastante emocionalmente.

Durante boa parte do livro sequer sabemos o nome do narrador. E, então, do nada ele "solta" que se chama Malone, mas eu não confiei muito nessa informação, como se nem mesmo o seu nome ele de fato recordasse ou quisesse nos contar. Há a utilização intensa do recurso do fluxo de consciência, o que acaba por nos fazer reler páginas para tentarmos nos "encontrar". Não há divisão em capítulos, partes nem nada parecido. Os parágrafos são muito longos e o narrador faz uma mistura louca de lembranças, histórias inventadas (ou não) e momentos de cada dia vivido ali naquele quarto. Ao mesmo tempo em que aparentemente está compartilhando algumas de suas lembranças, ele começa a contar uma história qualquer e no meio disso tudo nos conta o que aconteceu no seu dia. E aí começa a falar de coisas nas quais pensa... Enfim... É uma confusão só! Parece que vamos enlouquecer antes de conseguir compreender o que se passa no livro.kkkkkkkk...

"Viver e inventar. Tentei. Devo ter tentado. Inventar. Não é a palavra. Viver também não. Não faz mal. Tentei."

Não é uma leitura fácil. Embora flua bem no início, logo começamos a nos perder e sentir que absolutamente nada faz sentido ou que não estamos entendendo algo que deveríamos entender.rs Recomendo para quem quiser se desafiar a ler algo diferente. Bem diferente!rs

Mas, como eu disse, não me arrependi de ler. Realmente me comovi com a situação do protagonista e me senti angustiada com o que ele estava passando em seus últimos dias de vida.



11 de janeiro de 2019

A Obscena Senhora D - Hilda Hilst


Logo nas primeiras linhas de A obscena senhora D o leitor é aspirado pela voracidade do texto. No entanto, o que ocorre aqui é diferente daquele impulso comum em livros de suspense, que nem o sono consegue deter.

O mistério na obra de Hilda Hilst (1930-2004) não acontece na trama, mas na forma como sua escrita nos lança num abismo, arrasta como uma vertigem. Se o princípio sugere um monólogo, a multiplicação de vozes e de registros que vêm em seguida impede a certeza na unidade de alguém que narra.

A letra D no título é outra manifestação desse mistério, uma indeterminação que sugere experiências de desamparo, desaparecimento, desabrigo ou até mesmo Deus.

O fluxo quase irracional das frases, as anomalias gramaticais, o modo áspero com que a autora funde o sagrado e o profano podem dar a impressão de um livro difícil, daqueles que a maioria desiste antes do fim. Ao contrário destes, porém, A obscena senhora D é difícil de fechar. Quando acaba, dá vontade de recomeçar para sentir tudo de novo. 
Cássio Starling Carlos Crítico da Folha




Palavras de uma leitora...



- Se vocês pudessem ver minha cara agora... Evidentemente fui muito pretensiosa ao imaginar que tinha maturidade literária o suficiente para encarar Hilda Hilst. O resultado? Quebrei a minha cara.rs

Ano passado me desafiei a ler Clarice Lispector, apostando em sua obra Perto do Coração Selvagem. E por mais difícil e tumultuosa que tenha sido a leitura eu sobrevivi. E até comprei outro livro dela para ler futuramente. Sofri muito lendo Clarice pela primeira vez, pois a história era pesada, do tipo que te empurra para baixo, de deixa com uma sensação de sufocamento. E são tantos pensamentos da protagonista, tanta confusão e dor e maldade, que é impossível não nos sentirmos mal ao fim da leitura. Mas, como eu disse, sobrevivi. E acreditei que poderia enfrentar uma obra da Hilda Hilst. 

Na minha inocência imaginei que a Clarice era a autora mais difícil entre as duas. Ambas tem em comum a utilização do recurso do fluxo de consciência em suas histórias, o que faz com que algumas de suas obras (não sei se todas) sejam mais introspectivas, se passando mais dentro da mente dos personagens, porém mesclando-se com momentos do cotidiano e confundindo por completo quem está lendo.rs São livros distintos e complexos. A Obscena Senhora D, por exemplo, na minha edição possui 52 páginas, mas eu senti como se tivesse mais de 500, só para vocês terem uma noção. Na verdade, um livro de quinhentas páginas seria menos desgastante de ler.rs 

"[...] queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não existe mas é crua, é viva, o Tempo."

- No início do livro acreditamos que estamos prestes a ler uma história que será contada pela própria protagonista, uma senhora de sessenta anos, recentemente viúva, que se chama Hillé, mas que também era conhecida como Senhora D, nome que seu marido lhe deu. Não como um nome carinhoso, pelo que entendi, mas porque a protagonista vivia fazendo inúmeras perguntas para as quais não existiam respostas, numa eterna busca por algo, por um sentido que jamais encontraria. Era Senhora D, D de Derrelição, de Desamparo, nas próprias palavras dele. De uma mente inquieta e em derrocada. 

Percebemos desde as primeiras páginas que Hillé não é uma pessoa mentalmente sã. Pelo menos, não para o que conhecemos como sanidade mental. Vai muito além de uma busca por respostas, por querer compreender certos porquês. Ela é muito parecida com a Joana de Perto do Coração Selvagem, só que muito mais intensa e perturbada, muito mais sozinha, abandonada... perdida. Sobretudo após perder o marido Ehud, cinco anos mais velho que ela, e o único que parecia conseguir se não contê-la, pelo menos impedi-la de ultrapassar o limite entre a lucidez e a loucura. Ele era o fio que a prendia à realidade. Sem ele? Tudo ruiu de vez. 

"não estou bem, Ehud
ninguém está bem, estamos todos morrendo"

- O trecho acima é escrito exatamente assim no livro. Quem conhece a obra sabe que o livro inteiro não obedece às normas da língua portuguesa. Não está nem aí para regra nenhuma. Há até uma nota no início explicando que por conta da licença poética utilizada pela autora o texto seria mantido exatamente como a Hilda desejou, vez que foi escrito assim de propósito. Talvez para dificultar ainda mais a vida de nós leitores.kkkkkk... Voltando ao trecho... Enquanto está pensando em inúmeras outras coisas há um momento em que a Hillé faz uma pausa e penetra a lembrança quando ela disse não estar bem e seu marido respondeu que ninguém está bem, pois todos estamos morrendo. E como eu sei que é o Ehud quem responde? Como? Por mera suposição.rsrs Só lendo vocês compreenderão que é muito fácil nos perdermos ao longo da leitura. Eu tive que voltar páginas muitas vezes, pois não se especifica quem fala o que e quando. Nada é linear, nada é marcado, nada é definido, sabe? Conforme nos acostumamos com o mundo louco do livro até conseguimos identificar com mais facilidade quando ela está lembrando, pensando e quando é outra fala que surge, outro personagem, outro momento. Mas é complicado. E muito!


"Por que me chamo Hillé e estou na Terra? E aprendi o nome das coisas, das gentes, deve haver muita coisa sem nome, milhares de coisas sem nome, e nem porisso elas deixam de ser o que são, eu se não fosse Hillé seria quem? Alguém olhando e sentindo o mundo
Alguém, nome de ninguém"

Eu demorei um certo tempo para compreender que o desequilíbrio emocional da protagonista vinha desde a infância provavelmente (igual a Joana de Perto do Coração Selvagem) e que ela conheceu o marido ainda quando menina. Que a sua busca por respostas foi se transformando em obsessão e que conforme os anos foram se passando e ela foi chegando à velhice as coisas foram piorando, tornando a linha que a separava da loucura cada vez mais tênue. A morte do marido foi a gota que fez o copo transbordar, que a lançou direto ao abismo, mas antes mesmo de ele falecer ela já estava muito mal. Tinha se mudado definitivamente para um vão debaixo das escadas. Morava ali, estava todo o tempo naquele lugar. 

"Senhora D, é definitivo isso de morar no vão da escada? você está me ouvindo Hillé? olhe, não quero te aborrecer, mas a resposta não está aí, ouviu? nem no vão da escada, nem no primeiro degrau aqui de cima, será que você não entende que não há resposta?"

Com a morte dele, ela perdeu uma efetiva conexão com a realidade. Mergulhou por completo em seus pensamentos, em suas buscas, não cuidava dos peixes, pois isso era algo que ele fazia, então os peixes também morreram e ela os substituiu por peixes de papel e os carregou para debaixo das escadas, os mantendo dentro do aquário onde ficavam os peixes de verdade. Tinha surtos em que gritava com os vizinhos, xingava, tirava a roupa inteira e assustava quem passava pela janela. Os vizinhos passaram a vê-la como uma louca e enquanto uns sentiam piedade, em outros isso despertava a maldade e a zombaria. O desejo de fazer mal. 

"loucura é o nome da tua busca. esfacelamento. cisão.
derrelição."

- Embora o livro aparentemente se passe todo durante o tempo (dias, meses?) em que ela vive no vão das escadas e tenha como principal personagem a mente da Senhora D, há outras vozes, outros personagens que também se manifestam na história. Temos a voz do Ehud, que nos é apresentado pelas lembranças dela... sendo que em alguns momentos não sabemos se ela está lembrando ou imaginando. Temos ainda as vozes de alguns vizinhos, a do pai dela (em suas lembranças) e outros. 

Um momento que achei muito interessante foi quando, em sua confusão de pensamentos, ela recordou o conselho que seu marido deu antes de falecer, o pedido para que ela não ficasse sozinha, que buscasse um outro alguém, que se afastasse de sua vertigem. Ele sabia, na minha opinião, que ela não conseguiria sobreviver por muito tempo. Que ela se perderia por completo se não tivesse alguém para mantê-la conectada com a vida. 

"quando eu não estiver mais evita o silêncio, a sombra, procura o gesto, a carícia, um outro, e que ele conheça o teu corpo como eu conheci, ensina-o se for inábil e tímido, busca tua salvação, empurra o espírito para uma longa viagem, afasta o espírito"

Quem é muito sensível a certos palavreados (risos) não deve de modo algum apostar nesta leitura. Palavrões rolam soltos. E a personagem fala das partes íntimas do corpo sem qualquer pudor. Sabe aquelas palavras mais vulgares? Pois bem. Vai encontrar neste livro. E as descrições de momentos de intimidade também. Com crueza. Explicitamente. Não posso nem citar um trecho como exemplo porque meu blog é aberto para todo público de leitores. Não vou definir uma faixa etária para leitores do livro porque este não é meu papel, mas certamente eu não recomendaria para menores de dezoito anos. Mas isto sou eu que estou dizendo. Porque não acho que uma obra que tem uma carga erótica tão grande seja recomendada para menores de idade. Porque não é um romance daqueles de banca que lemos e tem cenas de sexo, cenas de amor bonitinhas. Aqui é cru. É disso que estou falando: as cenas são muito cruas.

"[...] porque todas as perdas estão aqui na Terra, e o Outro está a salvo, nas lonjuras, en el cielo, a salvo de todas as perdas e tiranias, e como é essa coisa de nos deixar a nós dentro da miséria? que amor é esse que empurra a cabeça do outro na privada e deixa a salvo pela eternidade sua própria cabeça?"

- De todos os trechos que me impressionaram este é o meu preferido. O que me fez pensar bastante aqui. No meio das buscas da Hillé e de sua confusão de pensamentos também existia uma busca por Deus, por ouvi-lo, por senti-lo, por estar com Ele. Por sentir que Ele se importava com ela. Só que tais momentos não são separados de outras lembranças da personagem, é tudo muito junto e há uma mistura, como a sinopse mesmo diz, de "sagrado com profano". E se o leitor for do tipo que não sabe separar obra literária de sua religião vai acabar por se sentir ofendido, indignado, querendo condenar a autora por fazer semelhante coisa. É necessário separar as coisas, gente. Ter um pouco de maturidade. Eu, por exemplo, sou católica, mas isso nunca atinge minhas leituras. Leio de tudo. Inclusive vou ler Saramago este ano.kkkkkkk... 

"lembra-te que perguntaste como ficava a alma na loucura? quando te fores, responde-me de lá."

- Se alguém aqui já leu este livro me diga se não se sentiu tão perturbado quanto a personagem durante a leitura e se conseguiu concluí-la sem se sentir literalmente mal. Eu fiquei com o corpo pesado, como se existisse algo sobre os meus ombros. É um livro muito desgastante. E, no fim, chegamos à conclusão de que não entendemos coisa alguma.rs Bem... eu até entendi, mas quem garante que não entendi tudo errado?!kkkkkk

Quem estuda profundamente a literatura, os gêneros literários e tudo mais certamente aprecia bastante os livros em que há a utilização do recurso do fluxo de consciência e devem estudar atentamente, com bastante dedicação, autores como Clarice, Hilda Hilst, Virginia Woolf, James Joyce... Os dois últimos eu também terei que ler este ano por conta dos desafios dos quais resolvi participar (sim, sou louca), mas será uma leitura normal e não um estudo dos livros. Portanto, acho que não enlouqueço mais do que o necessário. Agora aqueles que estudam essas obras... Esses merecem todo o meu respeito! São sobreviventes. Verdadeiros guerreiros. Porque não são livros fáceis não. De modo algum. 

"E nunca nos compreendemos como existências, atados os dois como cão e cadela, mas teu sonho era o meu, teu sangue, tua vida a minha"

- Dei 4 estrelas ao livro. Imagino sim que ele possivelmente seja digno de mais, só que sou uma leitora normal, na média, e sem a maturidade literária necessária para uma obra como esta. Sou humilde o suficiente para reconhecer isso. Não tenho a bagagem literária para um livro como este e nem recomendo a história para qualquer pessoa, mas somente para quem se sente preparado ou quer apostar num gênero diferente, quer arriscar uma leitura mais densa e desgastante. É uma experiência única sim, vale a pena, mas é diferente. Vai chocar, vai perturbar e confundir. Mas é bem possível que você compreenda o livro muito melhor do que eu consegui. Porque confesso: cheguei ao fim acreditando que entendi nada.rs 

Quando voltarei a ler Hilda Hilst? Daqui a uns cinco, dez anos, talvez?!rsrs A Clarice eu devo voltar a ler agora em 2019, mas a Hilda eu vou aguardar mais um bom tempo. Porque, como eu disse, não estou preparada para as obras dela. Não estou mesmo. 

- Bem... Com este livro eu concluí o primeiro mês de três desafios: Literatura Nacional, Clássicos e Mulheres em Foco. Saiba mais sobre eles clicando aqui. 

18 de novembro de 2018

Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector


"Perto do Coração Selvagem", romance de estreia de Clarice Lispector, assombrou leitores e críticos logo após sua publicação, em 1943. Tendo uma voz narrativa que ora incorpora o mundo interior da protagonista Joana, ora a contempla de fora, o livro alterna dois tempos: a infância, na qual a personagem interroga seres e coisas, e um presente intemporal como a eternidade, em que as vicissitudes de um casamento que jamais representou uma ilusão resumem os outros pequenos desastres que reconduzem a personagem a sua inadequação primordial. Com uma escrita tateante, sonâmbula, Clarice Lispector não recapitula de modo linear as vivências de Joana (como a morte do pai ou a separação do marido, visto desde sempre como um estranho), mas flagra o instante em que cada experiência ou cada encontro eclode com seu enigmático significado, apresentando-se como via de acesso ao "selvagem coração da vida" - conforme a frase de Joyce que, por sugestão do escritor Lúcio Cardoso, Clarice Lispector utilizou na epígrafe e no título desse livro que inaugura uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira. 



Palavras de uma leitora...


- A sinopse acima é bem completa resumindo de maneira perfeita esta história. Portanto, eu nem preciso escrever nada.rs E, definitivamente, sequer me sinto preparada para começar a falar deste livro tão diferente e... perturbador. Ainda me sinto confusa, um tanto quanto perdida. 

Quem nunca ouviu falar da Clarice Lispector na época do colégio? Eu passei por textos dela durante as aulas de Literatura, mas nunca senti um desejo grande de conhecer algum dos seus livros. Essa vontade só surgiu quando decidi apostar mais nos clássicos e de tanto o nome da autora aparecer nos sites de pesquisa resolvi colocá-la na minha lista. E não. Eu não estava enganada: sabia bem que a autora tinha uma escrita que incomodava e confundia os leitores. Que seus livros são densos, do tipo que você precisa ler quando realmente se sentir pronto. Eu não estava preparada e por isso caí de cabeça no chão.kkkkkk... 

Sério. Embora eu já tenha lido outras histórias que mexem com nosso psicológico e nos deixam com aquela energia pesada, como se estivéssemos com o peso do mundo sobre os ombros, nada poderia me preparar para a leitura de Perto do Coração Selvagem. E, conforme a sinopse, este foi o trabalho de estreia da autora. Imagine como não devem ser suas outras obras!rsrs 

"Nem o prazer me daria tanto prazer quanto o mal, pensava ela surpreendida. Sentia dentro de si um animal perfeito, cheio de inconsequências, de egoísmo e vitalidade."

- Este é apenas um trechinho do segundo capítulo do livro. Meu exemplar está todo marcado, pois eu destaquei muitos trechos ao longo da leitura, um mais impactante que outro. Ficava tão chocada com alguns que os relia várias vezes para ver se estava realmente lendo direito ou se minha vista estava me pregando peças.rsrs Me perdia em meus próprios pensamentos, tão transtornada com as ideias da protagonista, com suas experiências de vida e a grande confusão que havia dentro da mente dela. Cheguei a pensar que no final ela acabaria por se suicidar, de tão atormentada que parecia, tão fora de órbita. Não estou dando nenhum spoiler, estou só dizendo o que eu achei que aconteceria. Joana, a protagonista desta história, é uma mulher muito perturbada, do tipo que te provoca compaixão, medo, desprezo, choque e até mesmo uma espécie de empatia. E no final ficamos com a sensação de que corremos vários quilômetros para irmos parar no mesmíssimo lugar de partida. 

"[...] como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?"

- A história não segue uma linha do tempo muito certa, bem como não se passa sempre no mundo exterior. Como a sinopse bem ressalta o livro se divide entre os acontecimentos no exterior e interior de Joana. De repente estamos dentro da cabeça dela (desejando desesperadamente sair dali), obrigados a ler o que ela pensa, o labirinto que é aquela mente e só queremos fugir, porque é demais para nossa própria cabeça, uma confusão tão grande que nos esgota física e emocionalmente e aí precisamos interromper a leitura ou não conseguiremos lidar com as responsabilidades do dia, de tão transtornados que ficamos com as coisas que se passam no interior da protagonista. E quando menos imaginamos somos levados para o que está acontecendo do lado de fora, o casamento em crise, fadado ao fracasso desde que ambos disseram "sim", o convívio dela com outros membros da família e aí vamos do passado ao presente e vice-versa sem nenhum aviso, o que nos faz ter que prestar mais atenção na leitura para não nos perdermos. 

"Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome."

- Joana é uma personagem que era bem diferente das outras pessoas ainda quando criança. Sempre muito questionadora, não aceitava respostas prontas. Ela sempre buscava mais, queria entender até mesmo o que não possuísse explicação, algo que testava a paciência daqueles que conviviam com ela, embora pelo que podemos perceber seu pai tentasse ter uma relação boa com ela, que não tinha mãe e era criada apenas por ele. Ao mesmo tempo que ela nos parece ter sido uma criança insensível, incapaz de sentir empatia por alguém, também parecia extremamente sensível, necessitada de amor e sem saber como buscá-lo, como provocá-lo nas pessoas. E isso nos angustia e confunde. Há um episódio no livro, pouco antes de ela ser enviada para um internato, no qual o comportamento da menina, que sabia que suas atitudes tinham consequência, mas não se importava com isso, acaba por assustar muito sua tia. Joana tinha perdido o pai e foi enviada para ser criada por essa tia, que era casada e tinha sua própria filha já crescida. Embora a mulher tenha tentado estabelecer uma conexão com a menina passou a se sentir cada vez mais incomodada em sua presença, de tão profundos e e perturbadores que eram os olhares de Joana. Ela despertava medo nos próprios familiares e depois de um episódio em particular a tia decidiu que já não a queria mais em sua casa e decidiu por mandá-la para um internato, para se livrar "daquele problema". Confesso que eu própria senti medo da protagonista.kkkkkkkk... Não dela quando criança, mas da mulher adulta. Da que tinha pensamentos tão... nem sei como explicar. 

"Porque ela nascera para o essencial, para viver ou morrer. E o intermediário era-lhe o sofrimento."

- Como eu disse, o livro não segue uma linha do tempo e nem intercala presente e passado de uma maneira marcada. Não. Uma hora estamos no presente e no trecho seguinte poderemos estar no passado de Joana e é realmente necessário estar atento para não se perder. Além de sermos levados à infância da protagonista também acompanhamos um pouco de seu relacionamento com seu marido Otávio, personagem que também nos causa certo incômodo ao longo da leitura. E ainda tem Lídia, a amante de Otávio, que apesar de não aparecer tanto também deixa sua marca na história. Basicamente o livro acaba por se concentrar nesses três personagens, embora eu ache que a segunda personagem principal seja a mente de Joana.rsrs 

"Viver sobre si mesmo, sobre seu passado, sobre as pequenas vilezas que cometera covardemente e a que covardemente continuava unido. Otávio pensava que ao lado de Joana poderia continuar a pecar."

O interessante de se comentar sobre o Otávio, além do fato de ele ser vil, é que fica nítido que ele decidiu se casar com Joana, abandonando a mulher de quem estava noivo, porque ela era forte. Porque existia alguma coisa nela que ele sentia que sempre tinha buscado em sua vida. Todavia, logo no início do casamento ele se sente preso, não porque estivesse enganado sobre ela ao se casar, mas porque a mesma personalidade que o atraía e lhe dava o que ele desejava também o sufocava, lhe roubando a vontade de viver. Porque a força de Joana era sombria, ele se sentia controlado por ela e com desejos de escapar. No entanto, também queria permanecer. 

"Certamente você estava esperando de mim grandes bondades, apesar do que disse agora sobre minha maldade. Mas a bondade me dá realmente ânsias de vomitar."

- Joana é uma personagem que nos provoca muitos sentimentos contraditórios. Ela é bipolar, sendo levada da alegria incontrolável à tristeza profunda em questão de instantes, com pensamentos tão tumultuados, passando tantos momentos perdida em seu interior, que cheguei a considerar que ela passou boa parte de sua existência vivendo o que se passava em seu interior do que levando uma vida normal do lado de fora. E o que mais me assustava na personagem era a sua maldade latente. Como se a qualquer momento ela pudesse fazer algo terrível, como se a crueldade que ela carregava pudesse explodir de repente. Eu senti muito medo dela. Ela não era normal. E definitivamente não era boa. Joana não sentia piedade de ninguém (talvez um pouco apenas dos animais). Nem amor. Ela queria ser amada, mas existiam momentos nos quais ela também não queria isso. 

Não posso, todavia, negar que Joana nos impressiona com sua força e sua introspecção. Boa parte do livro se passa dentro da personagem e apesar de isso nos sufocar (quase literalmente) também nos faz refletir sobre a maneira como ela enxergava as coisas. É perturbador, sem sombra de dúvidas, mas também é fascinante.rs

- Dei 4 estrelas ao livro, por ser uma obra incrível e conseguir nos atingir de maneira tão forte. Pretendo sim continuar lendo as obras da autora, mas da próxima vez escolherei bem o momento.kkkkkk... Porque é aquele tipo de narrativa que nos desgasta. Que nos rouba a energia e por isso é preciso estar preparada. 

"De súbito recordou-se: ainda agora pensara-o, talvez antes de encostar o braço no de Otávio, talvez naquele momento em que tivera vontade de gritar... Cada vez mais tudo era passado... E o passado tão misterioso como o futuro."

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