Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

8 de outubro de 2021

O Vilarejo - Raphael Montes



Contos
Literatura Brasileira
Editora: Suma de Letras
Edição de: 2015
Páginas: 109

 28ª leitura de 2021 (21ª resenha do ano)

Sinopse: Em 1589, o padre e demonologista Peter Binsfeld fez a ligação de cada um dos pecados capitais a um demônio, supostamente responsável por invocar o mal nas pessoas. É a partir daí que Raphael Montes cria sete histórias situadas em um vilarejo isolado, apresentando a lenta degradação dos moradores do lugar, e pouco a pouco o próprio vilarejo vai sendo dizimado, maculado pela neve e pela fome. As histórias podem ser lidas em qualquer ordem, sem prejuízo de sua compreensão, mas se relacionam de maneira complexa, de modo que ao término da leitura as narrativas convergem para uma única e surpreendente conclusão.




Esta foi minha primeira experiência com uma obra do Raphael Montes. Na verdade, como a série da Netflix "Bom dia, Verônica" é baseada no thriller homônimo escrito por ele e pela Ilana Casoy e a própria série tem o roteiro assinado pelos dois, não é bem minha primeira experiência... Eu já sabia que era um escritor que aposta em histórias pesadas, do tipo que você deve ler apenas se tiver o estômago forte. Eu não tenho, mas me iludi acreditando que um livro de cerca de 100 páginas, com apenas sete contos não poderia ser muito assustador.rs Me iludi bonito!

Assim que li o prefácio de O Vilarejo e descobri poucas páginas depois que cada capítulo teria em seu título o nome de um demônio, percebi que estava com problemas.kkkkkk Eu não conseguia nem ler tais nomes e ao mergulhar no primeiro conto me senti tão aterorrizada, chocada e enojada que até agora não sei como consegui prosseguir com a leitura. 

No conto, cujo subtítulo é Banquete para Anatole (o título é o nome do demônio associado à gula, mas não vou escrever na resenha o nome de nenhum deles, então só colocarei os subtítulos de cada conto), temos uma importante ligação com os outros seis contos. O autor faz a escolha de começar pelo final... ou por parte do final. Nós sabemos logo de cara o que vai acontecer com os demais moradores do vilarejo e nos contos seguintes ficamos sabendo o que se passou na vida deles antes daquele macabro fim. 

Foi, para mim, a história mais assustadora de todas. Embora todos os sete contos sejam terríveis, de nos arrepiar de horror e causar náuseas e revolta, Banquete para Anatole ficou em minha mente. Me pego lembrando de todo aquele pesadelo, da crueldade, do terror... do medo e do choque que tomaram conta de mim. 

Os subtítulos dos demais contos são: As irmãs Valia, Velma e Vonda; O negro caolho; A doce Jekaterina; A verdadeira história de Ivan, o ferreiro; O porquinho de porcelana da Sra. Branka; Um homem de muitos nomes. E eu não sei dizer qual deles é o mais assustador. Todos possuem histórias que nos mostram o pior dos seres humanos. Como somos capazes de qualquer coisa... Como há tanta crueldade neste mundo... "Os seres humanos me assombram" (concordo com a Morte, narradora de A menina que roubava livros). Não importa quantas notícias eu leia ou assista todos os dias, quantos livros narrem a podridão da humanidade, nunca deixarei de ficar chocada. Eu não consigo compreender como alguém seja capaz de tanta violência, seja tão ruim... 

O último conto presente no livro liga de maneira impressionante todos os contos, nos revelando algo que até já poderíamos imaginar, mas a maneira como o autor conduz a última história é fascinante e foi o que me fez dar 4 estrelas ao livro, quando eu daria 3. Foi O homem de muitos nomes que fez a leitura inteira ser mais do que simplesmente "boa" e merecer 4 estrelas. Lembrando sempre que minhas resenhas são pessoais e que esta, obviamente, é uma opinião pessoal. 

Ao mesmo tempo que ao fim da leitura eu desejei conhecer outras obras do autor, também sei que meu medo me impedirá de ler outros dos seus livros por muitos anos.kkkkkk


27 de outubro de 2020

O Fantasma de Canterville - Oscar Wilde



Literatura Irlandesa
Tradutor: J. F. Stacul
Editora: POE
Edição de: 2020
Páginas: 42

60ª leitura de 2020 (54ª resenha do ano)

Sinopse: Oscar Wilde foi um dos principais nomes da literatura mundial, responsável por uma produção literária que refletia sobre a sociedade inglesa do século XIX, a partir de um rico universo ficcional. Em O fantasma de Canterville, o autor desenvolve uma sátira bem humorada da aristocracia inglesa e um debate profícuo sobre as diversidades culturais existentes entre os Estados Unidos e a Inglaterra. Além disso, Wilde reconstrói as narrativas de terror, por meio de uma divertida paródia.




Vocês já devem ter percebido que este mês resolvi fazer leituras mais temáticas, tanto pelo mês das crianças quanto pelo mês das bruxas. E nada melhor do que encerrar o mês com uma boa história sobre fantasmas, né?! (se bem que pretendo, se der tempo, publicar a resenha de Frankenstein no dia 31) Só que esta história de fantasma é um tanto diferente.rs

Aqui não temos um conto com o intuito de assustar o leitor, mas sim fazê-lo rir com uma divertida paródia das típicas histórias de terror. O "terrível" fantasma de Canterville, que durante séculos aterrorizava os moradores daquela propriedade e seus visitantes, acaba provando do próprio veneno quando uma peculiar família americana compra a propriedade, com fantasma e tudo, e não demonstra um pingo de medo das diversas tentativas do perverso de transformar suas vidas num inferno. Pelo contrário! Cansados das "gracinhas" do intruso, eles decidem dar-lhe umas tantas lições. 

O Sr. Otis, um americano de posses, decide comprar Canterville Chase, mesmo contra os conselhos de seus amigos, que achavam aquilo uma grande tolice, já que a propriedade era conhecida por ser assombrada. Na verdade, o antigo dono também tentara deixar claro que existia um fantasma habitando aqueles cômodos e que nem mesmo ele e seus parentes conseguiram viver no local. Mas o Sr. Otis não se importou, pois não tinha medo de coisas sobrenaturais. 

Logo, ele se muda com toda sua família, e o fantasma não demora a começar o seu "trabalho", mas é surpreendido pelo comportamento inacreditável dos novos moradores. Nunca, em todos os seus séculos de morto, tinha sido tão ofendido! Sempre conseguira enlouquecer as pessoas de medo, levando-as muitas vezes à morte, mas agora se via ridicularizado e atormentado, sem saber o que fazer de sua morte e sem ter para onde ir.

O conto é bem engraçado em diversos momentos e somente numa determinada cena sentimos um pouco de tristeza, quando descobrimos as circunstâncias da morte do homem que agora era aquele fantasma. Mas não pensem que ele era um pobre coitado, um inocente injustiçado! Ele tinha sido um homem perverso, que assassinou a própria esposa e depois de alguns anos "desapareceu". Mas mesmo enquanto fantasma, seguia sendo cruel, fazendo as pessoas sofrerem e ficando satisfeito quando conseguia fazê-las se matar ou as levava a completa loucura. 

O final é bem satisfatório, algo que eu não esperava, mas que fazia sentido. A personagem Virgínia, filha do Sr. Otis, no início parece que não terá um papel muito importante na história, mas ela tem destaque nos acontecimentos finais. 

É um conto bem curtinho e que recomendo! Nos traz um outro lado do escritor famoso por sua perturbadora obra O Retrato de Dorian Gray



-> DLL 20: Um livro de autor irlandês


30 de agosto de 2020

A Panqueca Fugitiva, o Resmungão e outros contos nórdicos


Adaptação de Augusto Pessôa 
Editora: Rocco
Edição de: 2015
Páginas: 96

47ª leitura de 2020 (45ª resenha do ano)

Sinopse: Os contos nórdicos são hstórias compartilhadas pelos povos germânicos que habitaram a Escandinávia, sobretudo a Islândia. Uma cultura transmitida oralmente, como toda cultura popular, de geração para geração. Essas narrativas chegaram até nós por meio de textos medievais escritos durante e após o processo cristianização da região. E, como acontece com toda cultura popular, são textos vivos, em permanente transformação, de acordo com as necessidades de cada sociedade. 

Com humor e perspicácia, Augusto Pessôa pesquisou e adaptou oito contos nórdicos, carregados de simbolismo e arquétipos que os tornam universais. 




Por estar lendo um livro que tem me provocado muita angústia (Capitães da Areia, do Jorge Amado), eu não consegui começar a ler o livro planejado para um dos temas deste mês do Desafio Literário Livreando 2020. Então, escolhi esta pequena coletânea de contos nórdicos bem no último momento, por acreditar que era algo leve, que leria rapidinho e que traria um certo alívio em meio a uma leitura que é densa e está acabando com o meu emocional.rs

E este livro é realmente muito leve, trazendo histórias simples e encantadoras, bem o que eu precisava para aquecer um pouco meu coração. 

Aqui temos oito contos, cada um mais envolvente que o outro. No primeiro, A boa mulher, conhecemos a história de um casal que vivia numa fazenda distante e que economizava para quando tivesse filhos. Eles eram muito felizes e em tudo a esposa era bondosa com o marido. Um dia, o marido resolveu vender uma das vacas e caminhou um longo tempo atrás de alguém que aceitasse comprá-la, mas não teve êxito, ninguém queria pagar pela vaca. Ao retornar, encontrou um homem com um cavalo e sugeriu uma troca, o que foi aceito. Então, ele seguiu adiante com o cavalo e a vaca passou a pertencer ao outro. Todavia, ao longo do caminho outras trocas de animais são feitas até o desfecho da história, que eu achei incrível. Gostei bastante deste conto. 

O segundo, Os sete potros, é ainda melhor que o primeiro. Nele temos um casal muito pobre que criara três filhos com bastante dificuldades. Um dia, o mais velho decide que vai sair pelo mundo em busca do próprio destino, mas não é bem-sucedido, pelo contrário, retorna ferido e disposto a nunca mais colocar os pés para fora de casa. O segundo resolve tentar a sorte e acaba encontrando os mesmos problemas que o irmão. Então, o caçula decide buscar emprego no mesmo local que seus irmãos e passar no desafio que eles não conseguiram. Os dois zombam, acreditando que ele também voltaria traumatizado. Simplesmente amei este conto! O segredo estava em fazer as coisas da maneira correta, sem enganar alguém que depositara a confiança em você. 

Não irei falar de todos os contos para não acabar tirando a graça de quem vai ler.rsrs O conto A raposa e o urso, por exemplo, dispensa comentários. Sabemos que as raposas, em todas as histórias, são sempre muito espertas e neste conto aqui não é diferente. 

O quarto conto é muito divertido e um dos meus preferidos. Florisbela e Bela Flor traz a história de uma rainha que queria muito ser mãe e suspirava de tristeza por não ter filhos. Até que a mulher do jardineiro lhe entregou uma semente, que ela deveria plantar seguindo várias instruções e uma delas era regar apenas com a mão direita, caso contrário ela iria acabar se arrependendo. Mas a rainha se esqueceu dessa regra e regou tanto com a mão direita quanto com a esquerda. Surgiu uma árvore e, tempos depois, da árvore nasceram duas meninas, uma linda e adorável e a outra desgrenhada e rebelde. A adorável ela chamou de Bela Flor e a rebelde de Florisbela. É um conto que nos surpreende, pois não imaginamos como a história iria se desenrolar e eu amei o que aconteceu! 

O conto O Resmungão traz uma história hilária e tão envolvente quanto as outras, até mais na verdade. Nele temos cinco mulheres que queriam muito ter filhos e um dia encontraram um ovo enorme, do tamanho de um homem. Cada uma quis o ovo para si e brigaram até decidir que todas ficariam com ele. E se revezavam para chocá-lo.rs Até que num determinado dia saiu uma voz de dentro do ovo, pedindo comida. A mulher terminou de abrir o ovo e dele saiu uma "criança".... Bem, não exatamente uma criança, mas um homem com rosto de menino. As mães fizeram de tudo para alimentá-lo, mas o "menino" nunca estava satisfeito, estava sempre pedindo mais comida e elas não tinham condições de sustentá-lo. Então, o mandaram embora. E o homem-menino foi. Não digo mais nada, pois vale a pena conhecer o final por conta própria.rs

Não existe nenhum conto neste livro do qual eu não tenha gostado, o que me surpreendeu, porque é raro apreciarmos todos os contos presentes numa coletânea. São ótimos para serem lidos em qualquer idade, pois divertem e encantam. Eu me senti bem mais leve, tranquila, depois de lê-los. Foi realmente uma ótima escolha! 


-> DLL 20: Um livro de sua cor preferida (minha cor preferida é azul)


 

18 de julho de 2020

Histórias de Amor - Rubem Fonseca

Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 1997
Páginas: 136


37ª leitura de 2020

Sinopse: O título romântico deste livro dificilmente enganará os leitores de Rubem Fonseca. São histórias de amor, certamente, mas sem o sentimentalismo convencional do gênero. Na ficção aguçada desse grande prosador brasileiro, amor e morte estão sempre presentes. Nestas histórias, de inquientante ambiguidade e humor ferino, um lado claro (humanidade, compaixão, ternura) e outro escuro (angústia, dor) se contrapõem em perturbadora harmonia.




Esta foi minha primeira experiência com as obras do Rubem Fonseca e posso dizer que já estou traumatizada.kkkkk...

Pela sinopse eu já sabia que não encontraria no livro uma coletânea de contos de amor, que de "histórias de amor" o livro não tinha nada.rs Mesmo assim, fiquei em choque, pois de modo algum esperava por personagens e histórias tão... tão... perturbadores.

São ao todo sete contos, sendo o último o mais longo. No primeiro, temos um homem sofrendo uma imensa dor pela iminente morte de seu ente querido, que esteve ao seu lado por quase duas décadas. Esta foi a única história do livro que pude considerar como realmente uma história de amor. Fiquei muito tocada pelo sofrimento do personagem e desejando que a morte não ocorresse, que algo impedisse aquela tristeza, aquele adeus tão definitivo.

Já o segundo conto nos causa um choque e uma revolta enormes. Nele temos uma víbora, uma mulher perversa e vingativa, que pede ao namorado que mate uma criança, porque ela quer fazer a mãe do menino sofrer. Conseguem acreditar em algo assim?! Eu quis entrar na história e acabar com essa desgraçada! Mandá-la para o inferno de onde ela não deveria ter saído!

No terceiro conto temos um pai que decidiu nunca voltar a se casar depois da morte de sua esposa e que mandou a única filha para um colégio interno, no qual ela poderia receber toda a educação e atenção que ele não poderia lhe dar. Ele ia com frequência visitá-la e quando ela se formou e cursou a faculdade, tudo o que ele quis foi que sua filha estivesse ao seu lado por um tempo e depois pudesse se casar e dar a ele o neto que tanto desejava. Este pai havia descoberto que tinha pouco tempo de vida. E queria passá-lo com sua única filha. Só que essa filha tinha planos muito diferentes para sua própria vida...

No quarto conto, um assassino de aluguel é contratado para matar uma mulher. Ele não sabia os motivos, não perguntara. Só deveria fazer seu trabalho e sumir. Nada de muito complicado. Só que... ao conseguir um emprego na casa dela e passar a conviver com aquela atormentada senhora, que estava sendo aterrorizada constantemente e se acreditava louca, ele começa a se sentir incomodado, pois em tudo ela o fazia recordar a mãe que gostaria de ter... É quando ele percebe que precisará tomar uma séria decisão...

No quinto conto dois amigos resolvem se casar, para a alegria de seus familiares que sempre desejaram vê-los juntos. A moça sempre foi apaixonada pelo amigo, já ele só a via como irmã. Após o casamento, mesmo passando a vê-la como mulher e de desejá-la, ele tem grandes dificuldades para fazer amor. O problema não é com outras, mas apenas com ela, o que o deixa bastante confuso e frustrado.

No sexto conto, dois detetives investigam o assassinato de uma adolescente que estudava e morava num colégio de freiras. Ela havia sido estrangulada e o assassino levara a medalha que ela carregava presa a uma corrente no pescoço. O detetive Guedes estava disposto a prosseguir com a investigação e ouvir testemunhas e suspeitos de maneira imparcial e profissional, mesmo que a morte de uma menina de doze anos fosse algo que mexesse com qualquer ser humano. Já o seu parceiro, detetive Leitão, um católico fanático, que julgava e condenava a todos conforme sua visão da religião e de Deus, via um suspeito já como culpado baseado em seus preconceitos e seu fanatismo. Não ouvia nenhuma opinião que fosse diferente da sua. E não tinha nenhum problema em abusar de sua autoridade, inclusive agindo com clara violência. Este conto se concentra no fanatismo religioso, na intolerância religiosa e na violência policial, e isso é mostrado de uma forma que nos provoca muita angústia. Ficamos mais do que chocados com a injustiça que é cometida, com toda a crueldade. Eu fiquei muito abalada.

O sétimo e último conto da coletânea traz um casal que se conheceu por acaso durante uma festa de Ano Novo. De início, sequer confessaram seus nomes verdadeiros. Após aquela noite, se encontravam em segredo, cheios de mistérios, amando o gosto de "proibido" daquela relação. Mas depois de alguns meses aquilo deixou de ser excitante e passaram a querer mais. E conforme começam a confessar seus segredos e descobrem que ambos são casados... percebem que precisam fazer alguma coisa para transformar aquele relacionamento em algo duradouro. Queriam ficar juntos, queriam se casar. O fato de já serem casados era realmente um problema...

Nunca imaginei que as histórias do Rubem Fonseca eram tão... intensas. Eu não estava preparada para tudo o que encontrei nestes contos, mas a leitura valeu a pena sim. A escrita dele é envolvente, quando começamos a ler não conseguimos parar, mesmo que as histórias nos provoquem certo incômodo. 



-> DLL 20: Um livro de contos


16 de abril de 2020

Vidas na Noite - Aione Simões


Literatura Brasileira
Editora: Independente
Edição de: 2018

20ª leitura de 2020

Sinopse: Um bar pode ser palco para muitas histórias: começos, transformações, pontos finais. Vidas na Noite é uma antologia com cinco contos de diferentes gêneros — do jovem adulto ao chick-lit, passando por trhiller psicológico e erótico — para narrar as diferentes tramas que se desenvolvem simultaneamente em um estabelecimento noturno. Cada conto, uma emoção. Cada história, uma vida única. Vidas na Noite é um convite para encarar as várias facetas de nossa própria existência.





Este é um livro curtinho com 5 contos bem diferentes uns dos outros, mas que acabam se interligando por se passarem num mesmo cenário: um bar. Local por onde passam centenas de pessoas numa mesma noite, cada uma com seus próprios dramas, segredos e passado. Quantas vidas distintas passam por um mesmo lugar... Quantos "livros" diferentes, com seus próprios começos, meios e fins...

Na primeira história, Pesos e medidas, temos duas adolescentes que são melhores amigas. Uma delas está comemorando o aniversário no bar do tio, tendo convidado pessoas que não davam a mínima para ela, mas pelas quais a garota desejava ser "aceita". Para completar, sua autoestima estava péssima e ela se sentia muito gorda e disposta a passar fome para ter o "peso ideal". O conto gira em torno da tristeza que ela sente por tudo estar correndo mal no seu aniversário, por desejar comer e sentir que não pode, pois precisa emagrecer... E a amiga dela tentando fazê-la compreender que passar fome não é o caminho e que ela necessita entender que precisa de ajuda. 

Na segunda história, Os habitantes do 9º, temos um personagem que está atormentado por ter sofrido uma dupla traição, tendo sido traído pela namorada e pelo melhor amigo que ainda achavam que ele tinha que perdoar o fato de ter sido apenas uma noite, um erro que não voltaria a se repetir. Ele fica lembrando dos momentos bons e trava uma luta consigo mesmo, pois sempre considerou a traição algo imperdoável, mas, por outro lado, ainda ama a garota. Não gostei do final desse conto. Não posso falar meus motivos para não ter gostado, pois teria que dar spoiler. 

Gatilho é o terceiro conto desta antologia e é também o meu preferido, por tocar no tema transtorno de ansiedade e relacionamento abusivo. A protagonista desta história saiu de uma relação muito ruim, na qual sofria agressões psicológicas (que muitas vezes podem ser piores que as físicas) e que quase destruíram a sua mente. 

Todavia, mesmo longe daquele que lhe fez tanto mal, ela ainda precisa lidar com os traumas e a sensação de que ele ainda tem o poder de controlar sua vida, que segue vivendo conforme as regras e influência dele. Nos sentimos "sufocados" lendo esse conto, pois é fácil nos colocarmos no lugar dessa mulher e entender o que ela está passando. Gostei da maneira como o conto terminou e imagino que, apesar de sua decisão, ela ainda precisará percorrer um longo caminho até realmente estar livre. 

O quarto conto, Domado descontrole, nos traz uma história "bem quente", sensual, de dois personagens que estão no primeiro encontro e sentem uma forte conexão. São duas pessoas livres, independentes, que enlouquecem juntas, sem pensar em nada, desejando viver apenas o momento. É bom para quem curte histórias eróticas, com um toque de sadomasoquismo. Eu, particularmente, não curto muito, portanto, é um dos contos que menos me agradou. 

O começo de tudo é o último conto da antologia e traz a ligação entre os quatro contos anteriores. Clara é funcionária do bar no qual as outras quatro histórias acontecem e tudo se passa numa mesma noite. Ela decidiu pedir demissão e está cumprindo o aviso prévio. Deseja seguir seus próprios sonhos, mas está atormentada por ter tido que abrir mão de alguém que amava, por saber que ele não aguentaria um relacionamento à distância. É bem legal acompanhar este conto não só pela história da Clara, mas principalmente por vermos como ela cruza o caminho dos personagens dos outros contos, que estão tão concentrados em suas próprias vidas e não notam muito ao seu redor. 

De modo geral, é uma antologia que me agradou bastante e me deixou desejando ler outras histórias da autora. A escrita da Aione é deliciosa e tudo flui muito bem, chega a ficar aquele gostinho de quero mais, pois acabamos desejando saber o que aconteceu com alguns personagens depois daquela noite. Dá para ler em menos de uma hora e recomendo bastante!


-> DLL 20: Um livro de capa roxa/lilás



31 de dezembro de 2019

Cântico de Natal / Os Carrilhões - Charles Dickens

Literatura Inglesa
Título Original: A Christmas Carol / The Chimes
Tradutor: John Green
Edição de: 2004
Páginas: 183

Sinopse: Os historiadores de literatura consideram Charles Dickens uma figura proeminente no romance inglês do século XIX, chegando mesmo alguns a apontá-lo como o maior romancista que a Inglaterra já produziu. 
Sua obra, impregnada de mistério, é aparentada com o romance gótico e constitui um vasto painel melodramático da Londres industrial de 1830-1850. 
Entre romances e contos, Dickens escreveu várias obras-primas. Sua postura essencialmente sentimental expressou-se com muita nitidez em seus contos de Natal. Cântico de Natal (1843) é quase um conto de fadas; tornou-se parte integrante da mitologia natalina anglo-saxônica. Outro texto de Dickens sobre a mesma temática é Os Carrilhões (1845), incluído neste volume. 



"Sua maior felicidade era abrir caminho através das estradas atravancadas da vida, tendo sempre a distância toda e qualquer simpatia humana."

Em Cântico de Natal, Ebenezer Scrooge era um homem muitíssimo rico, que não tirava qualquer proveito do dinheiro, fosse para si mesmo ou para os outros. Gostava de saber que tinha dinheiro e o guardava como seu bem mais precioso, seu único amor. Maltratava seu empregado e lhe pagava o mínimo possível, mesmo sabendo que não era o suficiente para ele sustentar sua família. 

Não ajudava o próximo, não amava ninguém e recusava toda e qualquer tentativa de aproximação de seu sobrinho, que era sua única família. Era uma pessoa fria, até mesmo cruel, e desprezava com todas as suas forças o Natal. Não se permitia ser amado e estava muitíssimo satisfeito com sua existência solitária e vazia. Até que...

... seu antigo sócio, Jacob Marley, aparece em sua casa. Não seria nada surpreendente, exceto pelo fato de que Marley tinha morrido há alguns anos. Chocado por tão inesperada visita, ele recebe, de um profundamente triste ex-sócio, que vagava pelo mundo por conta de todos os seus inúmeros erros passados, a notícia de que será visitado por três espíritos, um após o outro. O Espírito dos Natais Passados, o Espírito dos Natais Presentes e o Espírito dos Natais Futuros. 

Embora Scrooge acredite que tudo não passou de um terrível pesadelo, não demora a perceber que aquela era a mais incrível realidade e que deveria considerar tais visitas como uma segunda chance. Uma oportunidade que se desperdiçada poderia condená-lo a um futuro que nem ele mesmo desejaria ao pior inimigo. 

"- A conduta de um homem pode fazer prever o seu fim - disse Scrooge -, mas se ele muda de vida, também o seu fim não será modificado?"

Eu já tinha ouvido falar muito desse conto, mas não sabia de fato do que se tratava. Acho que teve até uma adaptação dos filmes da Barbie (lembram dos filmes da Barbie que eram releituras de contos de fadas? Eu assistia sempre!), mas eu assisti muito tempo atrás e já não lembrava da história. 

Scrooge é aquele tipo de pessoa que precisa passar por um grande susto para aprender a dar valor à vida. Ele era amargo, frio, um homem que não se importava com absolutamente ninguém, que ficava feliz em fazer os outros sofrerem, principalmente seu funcionário, a quem tratava com toda ignorância. Então, quando recebe a visita dos espíritos, que o levam ao seu passado, a alguns momentos do presente e, por fim, ao futuro que poderia ter (e certamente teria), ele se vê diante de uma realidade que não queria encarar e o medo enorme de ter um fim como o que lhe é mostrado. 

É um conto que fala de compaixão, solidariedade, amor ao próximo. Que trata dos valores que realmente importam... que ensina a olhar para as outras pessoas, que passam por dificuldades piores que as nossas, e estender a mão, oferecer a ajuda que você puder dar. Às vezes até mesmo um sorriso pode tornar o dia de alguém melhor. E nem isso Scrooge fazia. Nem mesmo sorrir para outra pessoa ou dizer "Bom dia!". Ele estava condenando a própria alma com sua crueldade, com sua frieza. Felizmente, ele aprende a lição. 

"História mágica de uns sinos que anunciavam a saída de um ano velho e a entrada de um ano novo"

O trecho acima pode nos dar a ilusão de que em Os Carrilhões encontraremos um levíssimo conto sobre a virada de ano. Uma ilusão mesmo, pois de leve este conto não tem nada. Muito pelo contrário! É um conto que me fez chorar, me provocou uma enorme revolta e sensação de impotência.

Nele temos Toby Veck, um senhor de mais de sessenta anos de idade, que trabalhava como "moço de recados", único trabalho que encontrara e que o tornava dependente da boa vontade dos outros, que sempre lhe pagavam o que consideravam "suficiente" (e estava longe de sê-lo). Eram tempos muito difíceis para as pessoas pobres, que muitas vezes não tinham o que comer ou onde morar.

Toby tinha o hábito de conversar com os carrilhões, conjunto de sinos que ficavam no alto da Igreja, pois acreditava que, inexplicavelmente, eles eram capazes de consolá-lo, de dizer-lhe palavras de conforto. Naquela noite, com fome, mas sem esperanças de se alimentar, foi surpreendido por sua linda filha, uma jovem trabalhadora, que mesmo levando uma vida tão terrível era capaz dos mais belos sorrisos, de uma alegria contagiante. Ela levou o jantar do pai, dobradinhas, "um verdadeiro luxo", algo que ele não imaginava poder comer nem tão cedo, vez que era um alimento caro naquelas épocas. Meg usara todo o dinheiro que ganhara naquele dia (quando nem imaginava que fosse ser paga, pois os patrões pagavam quando queriam) para poder dar aquela alegria ao pai. Ele comeu com imenso prazer, fazendo todo o possível para fazer aquele jantar delicioso render e assim poder apreciá-lo devagar.

Ocorre que ele estava jantando em umas escadas que faziam parte de uma residência desconhecida. Logo descobriria que ali vivia um juiz, homem aparentemente afável, generoso, mas que não passava de um corrupto que sentia prazer em condenar aqueles que não podiam se defender, ou seja, os pobres.

"Não sei o que será de nós, os pobres. Meu Deus, faz com que caminhemos para algo melhor no Novo Ano que se aproxima!"

Através deste encontro extremamente desagradável com o juiz, Toby acaba sabendo das intenções dele e do chamado "Pai dos Pobres" de condenar à prisão um tal de Will Fern, homem que fora para Londres em busca de emprego, mas que foi encontrado à noite dormindo num alpendre com a sobrinha de nove anos, vez que não tinham onde dormir. Não tinham dinheiro para nada. Aquilo foi considerado uma grande "afronta" para o "justo" juiz, que decidiu fazer de Will um exemplo ao prendê-lo por ser "um vagabundo". E o digníssimo "Pai dos Pobres" concordava completamente com aquela "sentença".

Quis o destino que Toby, após saber de tão injusto castigo que estava reservado para aquele homem, esbarrasse num desconhecido, que caminhava tristemente com uma criança nos braços. Logo descobriu que se tratava do tal Will Fern e fez o que qualquer ser humano digno de ser chamado de ser humano faria: informou o que o juiz pretendia fazer com ele e, vendo que ele não tinha onde ficar, ofereceu sua humilde casa para abrigá-lo e protegê-lo dos olhos das autoridades.

Este conto mexeu demais comigo, me causou um grande impacto. Foram muitas as cenas que provocaram um nó na minha garganta, mas uma das que mais me emocionaram foi aquela na qual o Toby pegou todas as moedas que tinha para comprar um pouco de chá e toucinho para alimentar o Will e a pequena Lilian. Como a quantidade não era suficiente para alimentar os quatro, ele fingiu não gostar de chá nem de toucinho e sua filha Meg fez o mesmo. Assim, os dois ficaram vendo o Will e a pequena Lilian comerem e beberem e o que mais doeu em mim foi a imensa alegria que eles sentiram ao fazer aquilo por aqueles dois desconhecidos. Eles se sentiam muito bem em poder dar aquele pequeno alimento para o Will e a sobrinha, se sentiam em paz por terem feito aquilo, por eles terem se alimentado. Gente, o Toby não tinha nada! Nada, nada! Mas mesmo assim se privou de comer para alimentar outras pessoas que também não tinham o que comer. São os pobres ajudando os pobres, enquanto aqueles que têm condições financeiras de fazer algo ficam em suas bolhas, achando que os menos favorecidos estão nessas condições porque querem.

Há muito amor neste conto. Aquele amor que não espera nada em troca, que é humilde e puro. Lendo esta história você sente um imenso desprezo por aquelas autoridades imundas, aquela gente corrupta e odiosa, mas ao mesmo tempo sente imenso amor por Toby, Meg, Will e Lilian, além de outras pessoas humildes como eles, mas que tinham um coração maravilhoso e ajudavam uns aos outros.

Não vou dar spoiler dos acontecimentos mais importantes do conto. Só digo que Os Carrilhões é especial e deveria ser mais conhecido e amado que Cântico de Natal.

"E, assim, possa o Ano Novo ser um ano feliz para vós e para muitos outros cuja felicidade depende de vós! E, assim, que cada ano seja mais feliz que o anterior, e que os mais humildes dos nossos irmãos não sejam privados do legítimo quinhão de felicidade que Deus lhes destinou."

Feliz Ano Novo! 

25 de novembro de 2019

Felicidade Clandestina - Clarice Lispector

Literatura Brasileira
Editora: Rocco
Edição de: 1998
Páginas: 160
Coletânea de contos

Sinopse: Publicado pela primeira vez em 1971, Felicidade clandestina reúne 25 contos que falam de infância, adolescência e família, mas relatam, acima de tudo, as angústias da alma. Como é comum na obra de Clarice Lispector, a descrição dos ambientes e das personagens perde importância para a revelação de sentimentos mais profundos. "Felicidade clandestina" é o nome do primeiro conto. Como em muitos outros, é narrado na primeira pessoa, e mostra que o prazer da leitura é solitário e, quando difícil de ser conquistado, torna-se ainda maior. A história, como outras do livro, acontece no Recife, onde a autora passou sua infância.
Temas caros ao universo clariceano estão presentes neste livro: a relação mágica com os animais, a descoberta do outro, as inúmeras possibilidades de se escrever uma história, a presença do inesperado no cotidiano previsível. Nos textos de cunho autobiográfico é possível flagrar, por exemplo, momentos da infância marcados pelos sentimentos mais diversos; da euforia das descobertas ao choque das frustrações, como em "Restos do carnaval" ou em "Cem anos de perdão".
Entre os 25 contos de Felicidade clandestina, há textos originalmente publicados em jornal e outros que faziam parte dos livros A legião estrangeira, Para não esquecer e A descoberta do mundo. A maioria trata de recordações familiares e de infância, mas todos testemunham os mais profundos segredos da alma humana.



Eu comecei a ler este livro em maio deste ano, depois de assistir a Isabella Lubrano, do canal Ler Antes de Morrer, falando do conto "O Grande Passeio". No mesmo dia adquiri o e-book na Amazon e iniciei a leitura. O que foi uma experiência maravilhosa! Mas após ler os sete primeiros contos, acabei tendo que priorizar a conclusão de outras coletâneas e deixei o livro um pouco de lado. :( Todavia, agora em novembro resolvi finalizar a leitura e trazer a resenha de cada um dos 25 contos presentes no livro, tudo reunido num único post. 

Antes de tudo, colocarei aqui os comentários que fiz sobre os sete primeiros contos:

"Era uma velha sequinha que, doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo."

O conto O Grande Passeio é para ser lido com um lenço ao lado, pois vai atingir um ponto sensível em seu interior. :( Ele traz a história de uma senhora idosa que sofre de demência, possivelmente Alzheimer, embora o texto não deixe claro. Ela é uma senhora adorável, muito doce e simpática, mas que sofreu severas perdas na vida, não tendo mais sua família ao lado. Seus filhos morreram de maneira muito triste e seu marido também se foi. Só restou ela. Sem ter quem se importasse. Precisando contar apenas com a "caridade" das pessoas que, no início, até sentiam pena, mas depois enxergavam nela um fardo, algo que não queriam mais em suas casas. Assim, ela acabava não parando por muito tempo numa casa e logo era enviada para a próxima pessoa "caridosa", que não demoraria a se cansar de sua presença, por mais boazinha e quase invisível que ela fosse. 

"Tivera pai, mãe, marido, dois filhos. Todos aos poucos tinham morrido. Só ela restara com os olhos sujos e expectantes quase cobertos por um tênue veludo branco."

É muito duro acompanhar o quanto essa senhora sofre com o descaso, a negligência das pessoas. Entendo que ela não era da família delas, mas era um ser humano e a tratavam quase como um objeto qualquer. Isso dói dentro da gente, pois além de sentirmos pela personagem, sentimos por nós mesmos. Porque é fácil nos colocarmos no lugar de Mocinha (como ela preferia ser chamada, mas seu nome era Margarida) e imaginarmos nossa velhice. E se estivermos sozinhos? E se não tivermos forças para cuidar de nós mesmos, se dependermos da caridade dos outros? Só nos imaginarmos na situação de Mocinha já é duro, doloroso! :( E a forma como o conto termina destroça nosso coração. 

Este conto acaba por nos fazer pensar também nos tantos idosos que estão abandonados por aí, rejeitados por suas próprias famílias, tratados com desprezo pela sociedade... Quando estagiei por um tempo num determinado hospital eu vi idosos que não recebiam sequer uma visita, embora tivessem família. Isso partia meu coração. Porque eles ficavam olhando para o nada, sabendo que naquele horário outras pessoas internadas estariam recebendo seus familiares. Este foi apenas um dos motivos para eu ter ficado longe da Enfermagem por tantos anos... não tinha coração para suportar tanta dor. Era comum eu chegar em casa chorando quase todos os dias. Admiro muito as pessoas que trabalham cuidando daqueles que se encontram em situação de vulnerabilidade, porque é preciso muita força para suportar, para não desmoronar e perder por completo a fé no ser humano. 

31 de outubro de 2019

Contos de Terror, de Mistério e de Morte - Edgar Allan Poe

Literatura norte-americana
Título Original: Tales of mistery and terror
Tradutor: Oscar Mendes
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2017
Páginas: 240

Sinopse: Edgar Allan Poe é considerado um dos criadores do conto policial, além de ter contribuído para o desenvolvimento da ficção científica. Escritor, poeta e crítico literário, ficou especialmente conhecido por suas histórias macabras, tanto em prosa quanto em verso. Neste Contos de terror, de mistério e de morte estão reunidas algumas de suas melhores narrativas e, dialogando com elas, ao final do volume, o aclamado poema "O corvo", que se tornou emblemático da produção literária do autor norte-americano. Como resultado temos uma coletânea em que se associam medos reais a casos extraordinários, o espetacular e o surpreendente em concentradas doses do mais puro terror.





Quando comecei a ler este livro, em fevereiro, sabia que dificilmente conseguiria terminá-lo logo, vez que não me sinto confortável com o gênero terror. E, de fato, não terminei. Cheguei a ler dois outros contos em março, porém depois deixei o livro de lado e fui ler coisas mais leves.rsrs

Só agora em outubro retomei a leitura do livro, disposta a me desafiar neste mês do horror (por conta do Dia das Bruxas). Separei algumas histórias desconfortáveis que tenho aqui em casa e coloquei como metas do mês. Se lerei todas elas algum dia?! Só Deus sabe...rs

Antes de tudo, colocarei aqui os comentários que fiz sobre os três primeiros contos: 

Comecei por Berenice. Sei que em algum momento da minha vida eu assisti um filme inspirado numa obra do Edgar Allan Poe. Era um filme que tinha alguma coisa de corvo, mas não lembro bem da história. Enfim... Sabia que os contos dele eram assustadores, mas quando comecei a ler Berenice pensei que não tinha terror nenhum, era só conversa. E aí fui chegando perto do final e suspeitando de uma coisa. Mas pensei: "Não! Ele não faria isso!". Pois bem. O protagonista perturbado deste conto, obcecado pela prima Berenice, com a qual cresceu, fez exatamente o que eu temia que ele fizesse. E claro que a cena me deixou arrepiada dos pés à cabeça. Senti um frio dentro de mim. E fechei os olhos tentando me livrar da imagem daquela cena. O grande vilão deste conto é o próprio protagonista e é ele quem narra toda a história. Ele é um ser humano extremamente doentio. Alguém que eu jamais iria querer que cruzasse o meu caminho. 

16 de setembro de 2019

Contos Estranhos - Bram Stoker

Literatura Irlandesa 
Título Original: Dracula's guest and other weird stories
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2018
Páginas: 168


Sinopse: Reconhecido como um dos maiores mestres do terror da literatura mundial, Bram Stoker produziu textos dos mais variados gêneros. Este volume traz a antologia Contos estranhos, publicada pela viúva Florence Stoker em 1914, dois anos após a morte do escritor. A obra reúne nove histórias curtas, entre as quais a famosa “O hóspede de Drácula”. Com enredos tão distintos quanto surpreendentes, os contos que compõem esta coletânea são ao mesmo tempo uma prova da genialidade do autor e uma nova porta de entrada para os leitores que já conhecem a história do vampiro mais ilustre da literatura.



Se tem uma coisa que vocês não veem muito por aqui são histórias de terror.rsrs Eu sou fã de suspense, sobretudo o psicológico, mas nunca gostei de obras de terror, que me provocam pesadelos quando não me impedem de dormir. É um gênero do qual acredito que nunca serei fã. Todavia, adquiri alguns livros do Bram Stoker (um box com três volumes), bem como uma coletânea de contos do Edgar Allan Poe e pensei: "Por que não arriscar? Quem sabe consigo lê-los sem morrer do coração..." 

Em fevereiro li uma das histórias presentes em Contos Estranhos (A Profecia da cigana, comentada neste post aqui). Em março li A índia (comentada aqui), que me deixou aterrorizada. Depois não me atrevi a continuar lendo o livro.kkkkkkkkkk... Só agora em setembro resolvi criar coragem e ler as sete histórias restantes. Nesta resenha juntarei os comentários que fiz sobre os dois contos mencionados acima e falarei dos demais contos.

9 de setembro de 2019

Negrinha - Monteiro Lobato


Literatura Brasileira
Editora: Globo, selo Biblioteca Azul
Edição de: 2009
Páginas: 212
Coletânea de contos
Onde comprar: Amazon


Sinopse: Negrinha é um livro de contos realistas lançado em 1920, com personagens que representam a população brasileira das décadas iniciais do século XX. Nele Lobato revela uma terra onde o poder é exercido arbitrariamente pelos coronéis e expõe a mentalidade escravocrata que persiste décadas depois da Abolição. Estão retratados em suas páginas tipos tão diversos quanto um fazendeiro falido, o jardineiro que faz poesia das flores, a viúva cruel, uma criança negra maltratada e o gramático ranzinza.




Quem estiver acompanhando meus posts mensais sobre os contos que estou lendo desde o início do ano, vai perceber que esta resenha na verdade é apenas uma junção de todos os comentários que já fiz sobre cada conto presente na coletânea Negrinha, do Monteiro Lobato. Ao todo são 17 contos presentes neste livro. Três deles eu li em 2017 e fiz resenhas individuais, portanto deixarei o link de cada uma delas neste post. Os outros quatorze contos eu li agora em 2019 e reunirei aqui todos os comentários que fiz mensalmente. :)

Link das resenhas dos três primeiros contos, lidos em 2017:

Negrinha (conto extremamente forte)

Todos os meus comentários sobre os demais contos: 

Ao ler Bugio Moqueado fiquei com os braços arrepiados de verdadeiro pavor. E o pior foi que li à noite, o que é quase certo resultar em pesadelo.

Não vou entregar nenhum segredo da história. Só digo que o personagem é um "ouvinte". Ele está participando de um jogo, então acaba por se distrair ouvindo uma conversa entre uns senhores que estavam próximos dele. Curioso para saber como a história da qual o homem estava recordando terminaria, ele se deixou levar e mal prestava atenção no jogo. Envolvido, nem percebeu o rumo que a história tomava e foi pego de surpresa como aconteceu comigo, quando o final chegou e foi digno de um filme de terror.

6 de setembro de 2019

O Sol na Cabeça - Geovani Martins


Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2018
Páginas: 120
Onde comprar: Amazon


Sinopse: O sol carioca esquenta a prosa destes treze contos que retratam a infância e a adolescência de moradores de favelas como jamais foram retratados. O prazer dos banhos de mar, as brincadeiras de rua, a adrenalina da pichação, as paqueras e o barato do baseado são modulados tanto pela violência da polícia e do tráfico quanto pela discriminação racial indisfarçável no olhar da classe média amedrontada. Com a estreia de Geovani Martins, a literatura brasileira encontra a voz de seu novo realismo. 



Não sei nem por onde começar a falar de O Sol na Cabeça, livro que reúne treze impactantes contos do autor Geovani Martins, nascido em Bangu, que morou em outras comunidades do Rio de Janeiro, como a Rocinha, antes de ir para o Vidigal. Nesta coletânea, aborda assuntos que geralmente ficam à margem da literatura, mas que se propôs a mostrar, para cutucar a sociedade, incomodar até o ponto que não pudéssemos mais ignorar. Aqui temos a realidade nua e crua mesclada com a ficção. Temos situações das quais parte da sociedade sequer ouviu falar.. Uma realidade de desespero, onde já se parece nascer condenado. 

"Esses polícia é tudo covarde mermo, dando baque no feriado, com geral na rua, em tempo de acertar uma criança."

Eu já tinha ouvido falar bastante do livro, tanto li resenhas positivas quanto negativas. E foi a proposta da obra que me fez desejar conhecê-la. Porque puxando pela memória não conseguia recordar algum momento em que tenha lido algo semelhante. Ainda que tenha lido alguns livros que falam de situações de miserabilidade, violência e outras realidades tão angustiantes, nunca tinha passado por um livro que falasse das comunidades, do tráfico de drogas, das crianças e adolescentes que crescem nesse ambiente, sem oportunidades, sem esperanças, mas que ainda assim querem acreditar em alguma coisa... ainda assim brincam na rua, mesmo com o risco da troca de tiros a qualquer momento... que vão à praia para tomar banho e curtir o momento de lazer, como qualquer carioca, mas que acabam sendo vistos com desprezo pelos "playboys" e abordados pela polícia.... Enfim... São tantas situações mostradas pelo autor que sentimos um nó na garganta e uma sensação de vazio quando terminamos de ler. 

4 de setembro de 2019

Contos Escolhidos - Machado de Assis

Literatura Brasileira
Editora: Martin Claret
Edição de: 2012
Páginas: 375

Sinopse: Machado de Assis é um dos mais renomados contistas da literatura brasileira. Transitando entre os diversos tipos de contos - do tradicional ao moderno -, seus textos são originais e complexos. São contos cheios de acontecimentos intensos - quase sempre envolvidos num clima de tensão -, repletos de personagens polêmicos e ambíguos e de jogos e armadilhas textuais que induzem à dúvida, relativizando a maior parte das ideias e levando o leitor a refletir sobre suas "certezas". Contos escolhidos é uma seleção baseada em antologias preparadas pelo próprio autor, com seus contos mais marcantes, quais sejam: Missa do galo, Conto de escola, Cantiga de esponsais, Teoria do medalhão, O espelho, A cartomante, A causa secreta, Mariana, O enfermeiro, Um cão de lata ao rabo, A chinela turca, Uns braços, Frei Simão, Aurora sem dia, O segredo do bonzo, Verba testamentária, Conto alexandrino, Noite de almirante, Ex cathedra, O caso da vara, Uma noite, Maria Cora, Um homem célebre, Miss Dollar, Marcha fúnebre, Pai contra mãe, Capítulo dos chapéus, Uma senhora, Dona Paula, A igreja do diabo. 



Olá, queridos!

Quem estiver acompanhando meus posts mensais sobre os contos que estou lendo desde o início do ano, vai perceber que esta resenha na verdade é apenas uma junção de todos os comentários que já fiz sobre cada conto presente na coletânea Contos Escolhidos, do Machado de Assis. Ao todo são 30 contos presentes neste livro. Dez deles eu li em 2017 e fiz resenhas individuais, portanto deixarei o link de cada uma delas neste post. Os outros vinte contos eu li agora em 2019 e reunirei aqui todos os comentários que fiz mensalmente. :)

Link das resenhas dos 10 primeiros contos, lidos em 2017:


Todos os meus comentários sobre os demais contos:

Em A Chinela Turca temos um jovem numa noite normal da vida de um moço abastado, cuja maior preocupação é encontrar sua amada num baile. Só que no momento em que ele estava se preparando para sair um amigo de seu pai o visitou, meio que o intimando a ler seu manuscrito, vez que o indivíduo resolvera se tornar escritor de drama. Claro que ele poderia ter dito não, que estava de saída, mas o outro com sua lábia o convenceu a se atrasar para o compromisso. Você pensa que nada de mais vai acontecer. Que é apenas um conto do cotidiano. Só que as coisas dão tal reviravolta que no final ficamos de queixo caído. Pelo menos, eu fiquei.kkkkkkk.. Simplesmente chocada e encantada pela forma como o autor desenvolveu o conto para segurar a surpresa que seria o final. Foi um dos melhores contos que já li do meu amado Machado. 

30 de agosto de 2019

Contos e Crônicas lidos - Agosto/2019



Finalmente concluí a leitura do livro Contos Escolhidos, do Machado de Assis, onde estão reunidos trinta contos, em sua maioria, incríveis. Em 2017 li dez desses contos, passei 2018 sem ler nenhum e retomei com força este ano, lendo os vinte restantes ao longo dos últimos meses. :)

"Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão."

Pai contra mãe é um conto que li pela primeira vez na faculdade, alguns anos atrás. Tínhamos que lê-lo e debater sobre os assuntos abordados na história e o importante título, que por si só já chamava a atenção. 

Lembro que tive certa dificuldade com o texto, pois acredito que era minha primeira experiência de leitura completa de um texto do autor.rs Mas agora, ao relê-lo, a leitura fluiu de forma tranquila, embora siga sendo um dos contos mais marcantes que já li do Machado de Assis. 

Temos como protagonista/antagonista deste conto, Cândido Neves, um vagabundo, por assim dizer, que nunca parava em emprego algum porque inventava várias desculpas para não ficar. 

Acontece que o sujeito resolve se casar com uma jovenzinha chamada Clara, mesmo não tendo condições de sustentá-la. Pior que isso, contra todos os conselhos, resolvem ter um bebê, sem ter dinheiro para alimentá-lo.

29 de julho de 2019

Contos lidos - Julho/2019



Este mês não li muitos contos. Foram apenas cinco: dois do Machado de Assis, um do Monteiro Lobato e dois da Clarice Lispector. Foi um mês longo, mas apesar disso muito corrido, o que dificultou manter em dia algumas leituras. 

Em Miss Dollar, do Machado de Assis, conhecemos a cadelinha cujo nome dá título ao conto. Apesar de sua participação ser importante, ela não é a real protagonista, mas sim o Dr. Mendonça, um homem apaixonado por cachorros e que dá abrigo para a pequena Miss Dollar, até que descobre quem são seus verdadeiros donos. Então, se colocando no lugar daquelas pessoas que estavam infelizes sem a cadelinha amada, ele vai até a residência delas e lhes entrega a pequena. Acontece que isso o faz conhecer Margarida, uma jovem viúva pela qual ele se apaixona perdidamente. Aqui temos Machado de Assis no seu melhor (e raro) estilo romântico.rs

Marcha Fúnebre traz a história de um homem que recebe a notícia da morte de seu inimigo. Embora não gostasse do falecido, ele não deixa de sentir certa compaixão e fica pensando no fato do outro ter sofrido muito antes de morrer, vez que vinha definhando há tempos. Ele então fica com isso na cabeça, pensando que desejaria para si mesmo uma morte súbita, algo que mal sentisse. E o conto vai se desenvolver em torno das reflexões dele. 

Já do Monteiro Lobato li o conto A facada imortal que demorei bastante para entender e necessitei de uma segunda leitura para finalmente "decifrar" o texto. Isso porque não sabia o que era "fazer sangrar", "facada" e coisas assim, no contexto da história. Só depois de ler pela segunda vez é que compreendi que o personagem principal do conto, Indalício, era um jovem que tinha como "dom" utilizar sua lábia para arrancar dinheiro dos outros. Mas ele não o fazia como alguém que pede esmola. Não. Ele o fazia de modo astuto e elegante, fazia a pessoa lhe "emprestar" o dinheiro (sem que ele tivesse a intenção de devolver) atingindo de alguma forma o ponto fraco daquela pessoa, fosse bajulando, apelando para a vaidade do outro... Só que existia um amigo, Raul, que era um pão-duro, alguém que não emprestava nada para ninguém e a quem todos sabiam que Indalício nunca conseguiria enganar. Então, Indalício resolve que esse será seu desafio, fazer Raul ceder. 



Come, meu filho é um conto curtinho, de menos de duas páginas, que eu achei divertido. Nele temos um menino que para ludibriar a mãe que quer que ele coma (mas ele não quer comer), começa a falar sem parar sobre diversos assuntos. Como o fato de ensinarem que a Terra é redonda, sobre pepino parecer irreal e algumas coisas não terem gosto daquilo que são chamadas, e para ele definitivamente carne não tem gosto de carne.rs

Perdoando Deus é um conto mais complexo, que nos faz refletir bastante sobre o que conhecemos de nós mesmos. A protagonista está caminhando num dia bonito, em que se sente em paz consigo mesma, se sente livre, percebendo o mundo, o mar, os edifícios, tudo ao seu redor. E ela se sente tão em paz e conectada com a natureza e com o próprio Deus, que sente que pode amar tudo, de forma natural, um carinho tão puro quanto o de uma mãe. E ela vai pensando nisso até quase pisar num rato morto. E é quando se revolta. Porque de tudo que poderia cruzar seu caminho foi justamente um rato, um animal que lhe provocava pânico desde que se entendia por gente. E ali estava a prova de que não era possível amar "tudo e todas as coisas". 

"E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar?"

Depois que a raiva passa o episódio lhe provoca novas reflexões e é aí que o conto se torna mais profundo. Eu amo a forma como a Clarice Lispector nos faz olhar para dentro de nós, pensar em coisas sobre as quais não refletiríamos normalmente. Por que amamos Deus? Por que amamos alguém? O que algo ou alguém precisa ter para despertar nosso amor?

"É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é." 

Apesar de ter lido poucos contos este mês, os que li valeram a pena. :) 


1 de julho de 2019

Contos e Crônicas lidos - Junho/2019


Em junho eu resolvi começar pelas crônicas. Geralmente leio primeiro contos para só no final do mês ler uma crônica e outra. Mas eu estava com saudades do Caio Fernando Abreu e resolvi mergulhar nas palavras dele no dia 12/06. Sonho com o dia em que terei uma coletânea com todos os contos e crônicas deste autor. Este livro que tenho é muito curto, tem duzentas e poucas páginas, enquanto a obra dele é vasta. 

"Sentado à beira do caminho, o homem cansado ficou quieto, espiando a vida que passava."

Esta foi a primeira crônica que li no mês, intitulada Uma fábula chatinha. Apesar de terminar de uma forma um tanto engraçada, ela me fez refletir bastante sobre a vida, sobre como tudo é fugaz. Vale realmente a pena lê-la. 

E falando em textos que nos fazem refletir, Querem acabar comigo diz tantas verdades que eu fechei o livro e fiquei pensando durante um longo tempo... É isto que tanto aprecio no autor: a capacidade de nos transportar para dentro do texto, para nos conectar e nos fazer pensar em nossas escolhas, nossos erros, nossa realidade... o que permitimos que os outros nos façam. Amo demais os textos dele!
Topo