8 de outubro de 2019

Caim - José Saramago

Tempo de leitura:
Literatura Portuguesa
Editora: Companhia das Letras
Edição de: 2009
Páginas: 172

Sinopse: Se, em O Evangelho segundo Jesus Cristo, José Saramago nos deu sua visão do Novo Testamento, neste Caim ele se volta aos primeiros livros da Bíblia, do Éden ao dilúvio, imprimindo ao Antigo Testamento a música e o humor refinado que marcam sua obra. Num itinerário heterodoxo, Saramago percorre cidades decadentes e estábulos, palácios de tiranos e campos de batalha, conforme o leitor acompanha uma guerra secular, e de certo modo involuntária, entre criador e criatura. 
Para atravessar esse caminho árido, um deus às turras com a própria administração colocará Caim, assassino do irmão Abel e primogênito de Adão e Eva, num altivo jegue, e caberá à dupla encontrar o rumo entre as armadilhas do tempo que insistem em atraí-los. A Caim, que leva a marca do senhor na testa e portanto está protegido das iniquidades do homem, resta aceitar o destino amargo e compactuar com o criador, a quem não reserva o melhor dos julgamentos. Tal como o diabo de O Evangelho, o deus que o leitor encontra aqui não é o habitual dos sermões: ao reinventar o Antigo Testamento, Saramago recria também seus principais protagonistas, dando a eles uma roupagem ao mesmo tempo complexa e irônica, cujo tom de farsa da narrativa só faz por acentuar.




Esta é a primeira vez que me desafio a ler Saramago, um autor muitíssimo querido por milhares de leitores, mas também desprezado por outros.rs Afinal de contas, não é possível agradar todo mundo.

Eu acreditei, sinceramente, que teria sérios problemas com o autor. Tanto por ele tocar em temas bíblicos utilizando de muito sarcasmo quanto por sua escrita peculiar (sem travessão, com vírgula no lugar de ponto final, com perguntas sem ponto de interrogação, com nomes próprios com letra minúscula, com trechos que se confundem com fluxo de consciência, e por aí vai...), mas a verdade é que foi bem tranquilo ler Caim.

"A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele."

Este é um livro que precisei ler com a Bíblia do lado. Sério! Como o autor resolveu dar um passeio pelo Antigo Testamento (conjunto de livros bíblicos com os quais SEMPRE tive sérios problemas, mesmo sendo cristã desde a infância), fazendo uma releitura de vários acontecimentos, eu precisei da Bíblia para comparar. Já li os livros que o autor mencionou implícita e explicitamente, mas não tenho uma memória perfeita, capaz de lembrar de tudo o que li. Por isso, foi necessário pegar minha Bíblia para ver até que ponto as falas e cenas eram "reais", ou seja, estavam realmente nos livros sagrados.

"Ao contrário do que costuma dizer-se, o futuro já está escrito, o que nós não sabemos é ler-lhe a página"

Antes de iniciar a leitura, eu pensava que a história se concentraria apenas no livro de Gênesis, que é quando ocorre o primeiro homicídio registrado na Bíblia: o assassinato de Abel, pelas mãos de seu próprio irmão, Caim. Mas as coisas não são bem assim. O autor passa por outros livros da Bíblia, como Êxodo, Josué, Jó e por aí vai. Nós fazemos uma viagem por vários momentos terríveis, de grande violência e destruição. E fazemos essa viagem dolorosa ao lado de Caim, quem nutre, ao longo de todo o livro, um ódio profundo por Deus.


Para falar de Caim e Abel, o autor, obviamente, precisaria passar pelo princípio, ou seja, por Adão e Eva, seus pais. E a ironia do Saramago já se faz presente logo nas primeiras páginas, quando ele questiona o surgimento do "pecado original" e o fato do primeiro homem e da primeira mulher terem sido expulsos do Jardim do Éden por terem comido um fruto que lhes dava conhecimento (do bem e do mal). E ele continua, dizendo: "Em segundo lugar, brada aos céus a imprevidência do senhor, que se realmente não queria que lhe comessem do tal fruto, remédio fácil teria, bastaria não ter plantado a árvore, ou ir pô-la noutro sítio, ou rodeá-la por uma cerca de arame farpado."

Saramago também recria, com modificações, a cena em que ocorre a oferta do sacrifício, quando Abel, sendo um pastor de ovelhas, oferece em sacrifício um cordeiro; e Caim, sendo lavrador, oferece os produtos da terra, do seu trabalho, do seu suor. Porém, Deus recebe com alegria o sacrifício de Abel e rejeita o de Caim, o que o deixa perplexo.

As modificações acontecem em relação ao caráter e atitudes de ambos. O autor conta que os irmãos eram muito unidos, desde a infância, ao ponto de provocar inveja em outras mães. Onde um ia o outro ia atrás e se amavam como não se via em parte alguma. Todavia, após o episódio da oferta rejeitada por Deus, o coração dos dois se transformou. Abel se engrandeceu, ficou arrogante e zombou do irmão que até momentos antes amava tanto. O desprezou e atormentou com a humilhação que o outro sofreu. Caim, por sua vez, ainda tentou compreender o que tinha acontecido, porém foi tomado de mais e mais revolta ao ponto de premeditar a morte do próprio irmão e executá-lo sem hesitação. Segundo o autor, não porque desejasse matar Abel, mas porque não podia matar o próprio Deus, a quem passara a odiar.

"Que fizeste com o teu irmão, perguntou, e caim respondeu com outra pergunta, Era eu o guarda-costas de meu irmão, Mataste-o, Assim é, mas o primeiro culpado és tu, eu daria a vida pela vida dele se tu não tivesses destruído a minha"

Quanto ao motivo para Deus ter poupado a vida de Caim (colocando nele um sinal que impediria que qualquer um pudesse feri-lo, sob pena de sete vezes ser castigado aquele que lhe matasse), o autor alega que foi porque Deus reconheceu, mesmo a contragosto, que também era culpado pela morte de Abel, conforme o Caim do livro afirma na discussão que tem com o Criador. Isso porque foi a sua rejeição que transformou o coração dos dois irmãos, que tornou em inimigas duas pessoas que antes tanto se amavam. E, como Caim diz para o deus do livro, se ele quisesse impedir aquele crime, teria impedido com facilidade, mas nada fez. Deixou acontecer e só apareceu quando tudo já tinha terminado, quando Abel já estava morto. Se podendo impedir um crime, Deus não o impede, então torna-se cúmplice dele, é o que Caim basicamente afirma.

Tendo Caim cometido tão terrível crime e sido marcado por Deus para que ninguém o matasse, condenado a andar perdido pela terra, acompanhamos sua vida, sua punição, quando ele deixa o lar que conhecia e começa a vagar de um lado para o outro, em situações precárias, com fome e frio e com o remorso, que, embora o autor não destaque, está sim presente. Ele se arrepende de ter matado o irmão, mas o tempo não pode voltar.

Andando pelas cidades, sem rumo, Caim acaba conhecendo outros personagens bíblicos, bem como alguns mitológicos (como Lilith, uma personagem da mitologia, que alguns dizem ter sido a primeira mulher, antes de Eva). Com Lilith ele acaba tendo um "romance", se tornam amantes e protagonizam as cenas "quentes" do livro. Todavia, por conta da maldição provocada por seu pecado, não pode ficar num mesmo lugar, e por isso vai embora.

É quando, sem compreender como aquilo acontecia (um pouco de ficção científica no livro), Caim consegue "viajar no tempo", ir para um outro momento, viajando pelo passado, presente e futuro e testemunhando acontecimentos cruéis, violentos, ordenados pelo Deus que ele aprendera a odiar.

"O que não pode ser bom é um deus que dá ordem a um pai para que mate e queime na fogueira o seu próprio filho só para provar a sua fé"

Caim acaba conhecendo Abraão, Isaac, Sara, Moisés, Noé, Josué, Jó e outros personagens bíblicos, sempre presenciando cenas violentas, que só aumentam o seu desprezo pelo Criador. Como o momento em que Deus mandou Abraão sacrificar Isaac como prova de sua fé, ainda que o pai tenha sido impedido no último instante (mas só o fato de mandar um pai fazer algo tão terrível já era inaceitável), ou a cena em que as cidades de Sodoma e Gomorra foram destruídas. Ele presencia também no livro outras cenas (realmente existentes na Bíblia) em que destruições terríveis são provocadas e mulheres e crianças são assassinadas "pelos servos de Deus".

Uma das piores cenas, que eu nem lembrava que realmente estava presente no Antigo Testamento, foi da morte de Acã (no livro de Josué) quando por sua traição (ele tinha pego alguns objetos que não deveria e isso provocou a ira de Deus) ele foi condenado junto com toda sua família (filhos e filhas, que eram inocentes, que não tinham culpa do erro do pai), sendo todos brutalmente assassinados e só após essas mortes a ira de Deus se acalmou (????). É difícil ler tais cenas e saber que não foram inventadas pelo autor, que estão realmente presentes na Bíblia.

"Seja como for, os inocentes já vêm acostumados a pagar pelos pecadores"

Embora seja um livro de ficção, no qual o autor não poupa sarcasmo e debocha sem dó nem piedade de personagens e momentos bíblicos, muitos diálogos e violências estão realmente presentes na Bíblia, o que me provocou muita tristeza, embora sejam cenas pelas quais eu já tinha passado antes e conhecia, tendo, inclusive, as questionado na época em que era evangélica e que voltei a questionar quando me tornei católica e participei da catequese. Claro que as explicações dos pastores, padres e catequistas nunca foram suficientes para justificar a violência inaceitável do Antigo Testamento, parte da Bíblia que eu costumo evitar, pois meu coração nunca conseguiu entender (e aceitar) que tanta crueldade fosse cometida supostamente por ordem e vontade de Deus.

Este não é um livro que qualquer um conseguirá ler. É preciso lê-lo com a mente aberta e de preferência não ser uma pessoa intolerante (se você é um leitor de mente aberta, entende-se que não é intolerante, óbvio), saber separar suas crenças religiosas da leitura de um livro de ficção. Caso contrário irá se ofender, levará para o lado pessoal e fará parte do grupo de leitores que odeia o autor.rs Felizmente, não faço parte deste grupo. :)

Eu já li O Código da Vinci e AMEI, então, não costumo me ofender com livros assim, embora o José Saramago tenha um humor bem ferino e o livro seja BEM diferente da história do Dan Brown, não dá nem para comparar as duas histórias.

Muitos dos questionamentos do Caim deste livro são coisas sobre as quais eu própria já refleti e que me fizeram viver um período em que não tinha os melhores pensamentos sobre Deus. Acredito que mesmo alguns cristãos (como eu sou) já viveram alguma fase de dúvidas, de perguntas sem respostas, de raiva, de revolta... Se somos seres pensantes, racionais, se temos um cérebro, é normal refletirmos, é normal questionarmos.

Eu prefiro mil vezes o Novo Testamento, os ensinamentos de Jesus Cristo, que eram amor, compaixão, perdão, humanidade. Quando falo de Jesus sempre me sinto em paz, sempre me sinto próxima de Deus. No Antigo Testamento nos foi apresentado um Deus que nos parecia vingativo, rancoroso e violento. No Novo Testamento, com a vinda de Jesus, conhecemos a Verdade, um Deus completamente diferente. Jesus é o meu maior exemplo de Amor, é Ele que me guia, só os ensinamentos dEle me importam.

Ler Caim não mudou em nada a minha fé. É um livro que eu não esperava apreciar tanto e que me fez resolver apostar em muitas outras obras do autor, por sua escrita envolvente, por seus questionamentos e reflexões, por ele não ter medo de tocar em assuntos que podem provocar polêmica e intolerância. Eu gosto de autores corajosos.

Esta é uma das minhas resenhas mais diferentes. Gosto muito de sair da minha zona de conforto, de me desafiar a ler outros livros, de diferentes gêneros e até que toquem em temas delicados para mim. É muito bom se desafiar e se permitir abrir cada vez mais a mente. Podemos até não gostar de um determinado livro, mas pelo menos nos demos a chance de formarmos nossa própria opinião.

Observação: comentários ofensivos serão, obviamente, excluídos. Comente com educação e respeito! Desde já agradeço.

Até breve, queridos! Espero que tenham gostado da resenha!

Bjs!

Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

6 comentários:

  1. Olá, Luna.

    No meu caso, não seria bem questão de ter mente aberta, mas sim de não ter paciência para a leitura kkkkkk
    O autor realmente é amado e odiado, são poucas as histórias dele que me deixa com vontade de realizar a leitura, essa é uma das que eu passarei longe. Ainda mais por essa questão de você ter lido o livro com uma bíblia ao lado rs

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  2. Oi Luna!
    Sou uma pessoa de mente aberta, mas as dúvidas, debates e discordâncias=sobre certas leituras nos fazem crescer e ver outro ponto de vista que não tínhamos assimilado ainda. Quando Deus fez o mundo ele deixou bem claro nosso livre arbítrio e tudo que aconteceu em sequencia foram pelos nossos próprios erros, tem algumas passagens do Velho testamento que também não gosto de ler, e já me perguntei a mesma coisa sobre qual seria a vontade de Deus ( vingança, morte, crueldade) e cheguei a uma conclusão que foi por isso ele mandou Jesus Cristo para nos arrepender de nossos pecados e sermos salvos.
    Não conheço o autor, mas sinceramente esse não seria um livro que leria no momento, quem sabe mais a frente tenho paciência em encarar o deboche e o sarcasmo do autor referente as passagens da Bíblia. Parabéns pela resenha, obrigado pela dica, bjs!

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  3. Oi, que bom saber que sua primeira experiência com o autor lhe motivou a ler mais livros dele, realmente foi corajoso ele criar uma história com base nas histórias bíblicas, pode provocar sentimentos bem controversos nos leitores religiosos.

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  4. Li em 2010 e adorei o livro pela ousadia e pela possibilidade de ouvirmos um personagem que foi vilanizado em outra narrativa. Sou ateia e não acredito que a bíblia seja a palavra de Deus ou qualquer coisa do tipo, mas gostei de saber que você apreciou a leitura e que isso não influenciou em nada o seu sentimento para com Deus. Acho que este é o tipo de coisa que revalida sua convicção de fé e que além disso, te torna uma leitora mais abrangente, passeando por outros gêneros.
    Beijos

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  5. Olá Luna!!!
    Eu acabo de adicionar o livro nos livros que quero ler, pois achei a história bastante interessante e já fiquei me perguntando como irei me sentir ao ler. Também li "O Código da Vinci" e outros livros que cutucam o que "sabemos" e não tenho problema com isso.
    Adorei a resenha, pois achei ela super completa e com detalhes mais enriquecedores.
    Parabéns!!!

    lereliterario.blogspot.com

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  6. Oi td bem?
    Não sei se leria esse por causa da temática, mas já li outro livro do autor e aproveitei bastante a leitura, apesar de ter sido um livro para vestibular, ou seja, de leitura obrigatoria rs
    Espero que vc possa se aventurar em outros livros dele
    bjo

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