24 de janeiro de 2020

O Sorriso da Hiena - Gustavo Ávila

Tempo de leitura:
Literatura Brasileira
Editora: Verus
Edição de: 2017
Páginas: 266

5ª leitura de 2020

Sinopse: É possível justificar o mal quando há a intenção de fazer o bem?
Atormentado por achar que não faz o suficiente para tornar o mundo um lugar melhor, William, um respeitado psicólogo infantil, tem a chance de realizar um estudo que pode ajudar a entender o desenvolvimento da maldade humana. Porém a proposta, feita pelo misterioso David, coloca o psicólogo diante de um complexo dilema moral. Para saber se é um homem cruel por ter testemunhado o brutal assassinato de seus pais quando tinha apenas oito anos, David planeja repetir com outras famílias o mesmo que aconteceu com a sua, dando a William a chance de acompanhar o crescimento das crianças órfãs e descobrir a influência desse trauma no crescimento delas. Mas até onde William será capaz de ir para atingir seus objetivos? Em O sorriso da hiena, Gustavo Ávila cria uma trama complexa de suspense e jogos psicológicos, em uma história que vai manter o leitor fisgado até a última página enquanto acompanha o detetive Artur Veiga nas investigações para desvendar essa série de crimes que está aterrorizando a cidade.



Quando comecei a leitura deste livro não sabia bem o que esperar. Sabia, é claro, que se tratava de um suspense psicológico e este foi o meu principal motivo para apostar nele. Todavia, não sabia muito mais do que o que estava escrito na sinopse. Não imaginava que seria um livro tão brutal, que já começa com uma cena apavorante, que me fez perder o fôlego, em choque. 

"Era impossível distinguir o motivo do brilho nos olhos atrás da máscara. Havia, ao mesmo tempo, algo de vivo e de morto em seu jeito de olhar."

Um assassino extremamente sádico está destruindo famílias e traumatizando profundamente crianças de apenas oito anos, mas para ele tudo faz parte de um viciante jogo. Ele tem um plano. Nada foi feito por acaso e para conseguir atingir o seu objetivo final só precisaria de cinco crianças com o coração e a mente destroçados e um psicólogo disposto a fazer qualquer coisa "por um bem maior", até mesmo tornar-se cúmplice de um psicopata... ou não?

Marcelo, a primeira vítima, era apenas um menino de oito anos que tinha uma infância complicada por conta do pai agressivo e da mãe negligente, mas nunca imaginou passar por um pesadelo tão grande como o de estar amarrado e amordaçado enquanto um monstro mascarado cometia as piores crueldades contra as duas pessoas que ele mais amava na vida. E então o homem mau se foi... levando tudo... Deixando apenas o silêncio e uma dor confusa, pois não conseguia entender como podia existir pessoas tão malvadas, capazes de machucar quem não lhes tinha feito mal algum. Então, a polícia, que não fazia ideia de onde o assassino escondera os corpos dos pais do menino, decidiu que precisava que o menino traumatizado falasse e para isso nada melhor que encaminhá-lo para a terapia com o brilhante psicólogo infantil William, tão famoso no meio acadêmico, cujo maior sonho na vida é conseguir realmente ser capaz de ajudar os outros, mesmo que para isso precise seguir caminhos um tanto tortuosos. 

"Basta a vida tocar no lugar certo para despertar o pior em qualquer pessoa."

Ao receber o primeiro e-mail do assassino, ele sentiu como se alguém no mundo finalmente o entendesse e isso era assustador. Pior que isso era considerar a proposta do psicopata... O que ele se tornaria se aceitasse aquele acordo? Fosse qual fosse sua resposta, o monstro por traz daqueles e-mails seguiria matando. Mas se William aceitasse a proposta poderia tirar algum bem de todo aquele mal, como seu antigo professor dizia: "Não é errado usar uma coisa ruim pra fazer algo bom." Mas seriam os seus motivos tão altruístas assim, ou no fundo era mais parecido com o assassino do que suportaria admitir? 

Em meio aos assassinatos brutais cometidos por David e os dilemas morais de William, o detetive Artur Veiga tenta montar esse complexo quebra-cabeça e capturar o assassino que parece estar sempre um passo a frente da polícia.

"Um monstro assim pode estar em qualquer lugar."

Este é um livro que me causou grande angústia, pois, embora eu seja fã de suspenses psicológicos, não gosto quando há crianças no meio (motivo pelo qual até hoje não consegui ler o famoso "Quarto", mesmo tendo o livro há algum tempo). Se é difícil quando as vítimas são pessoas adultas, é insuportável quando elas são crianças. E aqui neste livro são meninos e meninas de apenas oito anos, que veem seus pais serem brutalmente assassinados e depois ainda precisam suportar assistir o assassino levar seus corpos para longe, enquanto ficam largados na cena do crime, esperando que alguém perceba que há algo errado e chame ajuda. São crianças que ficam quebradas pelo resto da vida, cuja lembrança daqueles momentos de horror nunca irá se apagar. Eu literalmente tremia só de imaginar o pesadelo que elas viveram, a dor insuportável de ver a vida se esvair do corpo daqueles que elas mais amavam: seus pais, seu porto seguro. Uma pessoa capaz de fazer isso com uma criança merece uma morte lenta e dolorosa... depois de passar muitos e muitos anos apodrecendo na cadeia!

"Você consegue entender por que eu estou fazendo isso? [...] Alguém entenderia?"

O psicopata desta história, como a sinopse bem diz, um dia foi uma vítima. Nós já começamos a leitura com a cena da morte terrível dos pais dele, executados diante dos seus olhos. É uma cena muito dolorosa e é preciso fechar o livro por alguns instantes e respirar fundo antes de continuar. Eu entendo que ele passou por uma dor insuportável, não consigo nem imaginar como foi difícil para ele crescer e seguir em frente. Um pesadelo como esse é impossível de superar, claro que entendo isso e sinto muitíssimo pela criança que ele foi, por tudo o que aquele monstro arrancou dele. Mas nada no mundo justifica o que ele fez com aquelas famílias inocentes... repetindo com outros o que fizeram com ele. Simplesmente se tornou tão demoníaco quanto o monstro que matou seus pais. Na verdade, se tornou alguém pior que ele... e David (o assassino) bem sabia disso. Mas precisava matar... não sentia prazer, mas necessidade. Principalmente depois que descobriu que poderia testar sua teoria. Queria descobrir se era um assassino por causa do trauma que sofreu ou se já nascera um monstro, se sua maldade era de nascença ou resultado da crueldade de outra pessoa. E nada melhor que observar o efeito da sua maldade naquelas crianças... enquanto acompanhasse o crescimento delas, depois da perda brutal dos pais. Não há dúvidas de que David não era apenas um ser humano profundamente cruel, incapaz de empatia, de sentir piedade. Ele também era muito doente, de uma forma assustadora. E conseguia se passar pela pessoa mais normal do mundo, o que acaba nos fazendo olhar ao nosso redor com mais atenção e... medo. 

"- Ainda há um coração batendo aí, sr. William. Não deixe ele endurecer, senão o senhor não vai poder ajudar ninguém."

Não há muito o que eu possa falar sobre o William sem dar spoilers. Apenas que meu sangue ferve quando penso neste personagem e a vontade de... Respira fundo, Luna! Paro por aqui, pois realmente correria o risco de dar muitos spoilers se falasse mais alguma coisa sobre o indivíduo. 

Já o detetive Artur Veiga... Ele é um homem que tem síndrome de Asperger e por conta disso possui dificuldades para interagir com outras pessoas, ser "sociável". Assim, é uma pessoa muito sincera (o que não é sempre uma boa coisa.rs), que fala o que pensa e entende tudo de maneira literal, para irritação de alguns de seus colegas, que são obrigados a suportar seu jeito duro e direto, já que ele é um dos melhores detetives do local. Embora seja brilhante, não é bom em lidar com as vítimas, preferindo se concentrar em solucionar os homicídios, já que para os sobreviventes traumatizados existiam os médicos. Seu papel, portanto, era pegar os criminosos. Não valia a pena esperar sensibilidade da parte dele, mesmo quando os sobreviventes eram crianças. Confesso que o jeito insensível dele me incomodou durante algum tempo, já que eu própria sou sensível, emotiva e não lido bem com pessoas frias. Mas ao longo da leitura eu passei a sentir uma espécie de carinho pelo personagem, pois sua inteligência, sua atenção aos detalhes e dedicação para solucionar o caso me impressionaram. Percebi que mais que demonstrar sentimentos, o importante para ele era parar o assassino antes que mais vítimas fossem feitas. E ao ver outras pessoas supostamente "sensíveis" provocarem mais estragos do que a insensibilidade dele seria capaz de causar, ele acabou se tornando o meu personagem preferido da história. Às vezes as pessoas que demonstram menos sentimentos são as que mais se importam, não é verdade? E aquelas que parecem tão boas... são verdadeiros demônios em pele de cordeiro. Não é algo que acontece só nos livros, infelizmente. 

"A vida simplesmente acertou o martelo no nervo certo, e o chute pegou o que estava pela frente."

Nem sei dizer o que neste livro causa mais frustração e sofrimento, se o fato do assassino parecer estar sempre em vantagem, conseguindo o que quer, ou a maneira como essas crianças e outras pessoas na história foram traídas. Como eu disse, é difícil falar de certas coisas sem dar spoiler e não quero estragar a leitura de ninguém. Por isso, não dá para explicar como certas cenas me revoltaram, como eu quis acabar pessoalmente com a vida de certos personagens. Enfim... Esta história mexeu muito comigo. Principalmente porque monstros como os presentes neste livro existem aos montes por aí. 

Gostei muito da escrita do autor e a maneira como ele explorou o psicológico de seus personagens, nos fazendo refletir sobre certas coisas e como todos nós somos capazes de tudo. A linha entre o certo e o errado nem sempre é tão óbvia e às vezes acaba sendo bem frágil, quase inexistente. A mente humana é complexa e pessoas boas podem sim se transformar naquilo que elas mais temem ou desprezam. 

O final deste livro foi simplesmente... Nossa! Vi poucos livros com um final tão perfeito, tão fechado e inesperado. Realmente não imaginava que fosse terminar assim! 

Quero ler outros livros do autor, mas precisarei de um tempo. Meu emocional não aguenta ler com frequência livros tão pesados assim. 



-> DLL 20: Um livro de autor brasileiro


Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

16 comentários:

  1. Ola Luna
    Parece um enredo arrepiante
    Ao ler o que voce escreveu sobre o fato de que ele matava para saber se ele ele era um assassino porque passou por coisas terriveis ou se era um assassino de nascença ja mostra o quanto cruel deve ser o livro
    Geralmente livros com personagens psicopatas deixam um ponto de interrogaçao na minha mente
    Fico pensando :eles sáo doentes ?como podem cimeter assassinatos sem sentir nada ?E tambem pergunto como e a cabeça dos autores ao criar entedos assim ? Hoje a gente ve tanta coisa esquisita tanto na vida real como na ficticia Fiquei morrendo de curiosidade em saber como o autor finalizou o livro
    Bjs

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    1. Olá, Eliane!

      O livro é muito angustiante, dói em nós o que ele faz com essas famílias e com essas crianças.

      Também fico me perguntando como alguém pode conseguir matar com tanta frieza. A pessoa precisa ser muito cruel, muito vazia de sentimentos bons para fazer algo assim.

      Acredito que os autores se baseiam na realidade do mundo para escrever essas histórias. Imagino que eles também ficam angustiados enquanto escrevem.

      O final do livro é sensacional, mas nos deixa revoltados. Eu fiquei furiosa!

      Bjs!

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  2. eu li esse livro no final do ano e também me surpreendi com a história e o final e já quero muito ler outros livros do autor!
    a linha tênue entre o certo e errado é bem frágil mesmo, concordo.

    ótima resenha!
    Virando Amor

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  3. Olá...
    Eu adorei encontra essa resenha aqui... Também amo suspense psicológicos e O SORRISO DA HIENA é um livro que sempre quis realizar a leitura, pois, sempre recebo inumeras recomendações desse livro. Porém, assim como voce, não aguento ler nenhuma maldade com crianças e isso me destrói num ponto que não consigo suportar, por isso, sempre evito leituras que envolvam crianças sofrendo.
    Gostei de saber que o final foi tão perfeito assim, mas, pelo motivo que citei acho que não é uma leitura que leria no momento.
    Bjo

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  4. Olá, tudo bem? Bom, ainda não li o livro mas quero muito ler! Espero ter a oportunidade de fazer essa leitura este ano ainda pois a obra é muito elogiada e favorita de muitos amigos meus!
    Um beijo.

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  5. Oi, Luna!
    Tenho esse livro aqui em casa, já que a minha mãe leu ele a algum tempo atás. Além disso, já vi diversas resenhas sobre ele, mas devo admitir, a sua foi a primeira que realmente me deixou com vontade de ler. Adoro thrilers, mas faz algum tempo que não leio nada do gênero e estou precisando achar algo muito bom.
    Ótima resenha!
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com/2020/01/resenha-cartas-de-amor-aos-mortos.html

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  6. Oiiii,

    Eu já fiquei angustiada só de ler sua resenha! Socorro! Realmente não é meu tipo de história porque eu fico muito mal, mas estou verdadeiramente indignada com o Psicologo, obvio que com o psicopata também, mas cogitar aceitar uma proposta destas é aceitar um absolutismo de que os fins justificam os meios, e assim as crianças que perdem seus pais acabam virando ratos de laboratório para que eles possam configurar um parâmetro de análise para a maldade humana. Para quem gosta deste tipo de história parece ser bem interessante, mas eu admito que se lesse ficaria perturbada e revoltada kkkk.

    Beijinhos...
    http://www.equipenerd.com.br/

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  7. Oi, Luna!
    Menina, esse livro! O tempo inteiro, durante a leitura, ele me deixou passada haha e o final realmente é de tirar o chapeu. Demorei bastante pra criar coragem para ler, mas super vale a pena né, a escrita do Gustavo me surpreendeu bastante e apesar de querer ler mais histórias dele, vou levar um tempo pra isso, porque assim como você, preciso de um loooongo tempo para recuperar haha
    Beijo!

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  8. Fiquei angustiada só de ler sua resenha, imagina ler essa história? Menina, que personagens complexos e com tons completamente horríveis. Esse David então nem se fala. Sabe o que é pior? É saber que pessoas assim realmente existem na vida real e que pode ser alguém que mora ao nosso lado. Deus o livre!!!! Enfim, li a sua resenha toda e apesar de ter super gostado, confesso que não penso em ler esse livro. Acho que é forte demais pra mim.
    Parabéns


    Bjus
    https://www.ventoliterario.blogspot.com

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  9. Li este livro há um tempo e me recordo de ter gostado bastante da história e da forma como foi escrita. O final também chamou minha atenção!
    Amo livros neste estilo e costumo devorar um atrás do outro.

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  10. Oi, Luna.
    Esse livro está na minha lista de desejos desde que foi lançado! Eu amo thrillers e quanto mais pesados, melhor. Lido super bem com esse tipo de história e acho que não terei problema em relação às crianças... Não é algo que costuma me incomodar! Mas eu entendo que isso seja bem ruim para você. Eu sou assim para histórias com animais!
    Com certeza quero ler esse livro!
    beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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  11. Olá, tudo bem? AH que bom que gostou da história! Eu cheguei a ver comentários tanto positivos quanto negativos, e ainda não sei bem o que pensar. Pela sua resenha posso esperar ficar com o coração na boca, e ter altos sentimentos. Adorei a resenha!
    Beijos

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  12. Eu estou aos poucos me aventurando no gênero, então anotarei essa dica. Fico imaginando como deve ser insuportável enfrentar alguns problemas ao decorrer da trama, principalmente por apresentar crianças na narrativa, mas, parece uma excelente obra.

    Beijos,
    Blog PS Amo Leitura

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  13. Quero muito ler essa obra, ela prendeu minha curiosidade desde o ano passado quando a conheci. Ela está na minha lista de desejados e pretendo ler em breve.

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  14. Olá tudo bem?

    Ainda não conhecia esse livro e fiquei bem interessada tanto pela premissa como pela sua resenha. Apesar disso, ainda não estou tão familiarizada com esse gênero, então talvez eu consiga ler essa história mais tarde. Acredito que ainda não tenho estomago o suficiente.

    Beijos

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  15. Olá amoreca

    Não conhecia o livro, pela capa confesso que não me interessou em nada.
    A temática suspense psicológico me assusta um pouco sabe, preciso de coisas mais lever no momento.
    Pelo que li em sua resenha, vou reencontrar vários momentos meus e não to a fim disso agora entende.
    Pra um outro momento a dica tá anotadíssima por aqui!
    Ótima resenha!


    Beijokas
    www.facesdeumacapa.com.br

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