3 de maio de 2021

A Letra Escarlate - Nathaniel Hawthorne

Tempo de leitura:



Literatura norte-americana
Título Original: The scarlet letter
Tradutor: Christian Schwartz
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 336

12ª leitura de 2021 (12ª resenha do ano)

Sinopse: Na rígida comunidade puritana de Boston do século XVII, a jovem Hester Prynne tem uma relação adúltera que termina com o nascimento de uma criança ilegítima. Desonrada e renegada publicamente, ela é obrigada a levar sempre a letra “A” de adúltera bordada em seu peito. Hester, primeira autêntica heroína da literatura norte-americana, se vale de sua força interior e de sua convicção de espírito para criar a filha sozinha, lidar com a volta do marido e proteger o segredo acerca da identidade de seu amante. Aclamado desde seu lançamento como um clássico, A letra escarlate é um retrato dramático e comovente da submissão e da resistência às normas sociais, da paixão e da fragilidade humanas, e uma das obras-primas da literatura mundial.




Paciência é algo que não venho tendo neste ano de 2021, em que tantas coisas ruins já aconteceram só nesta primeira metade do ano. Acredito que este tenha sido o principal motivo para o livro receber três estrelas e ter escapado por pouco das 2 estrelas. Não tive paciência com a maior parte dos personagens de A Letra Escarlate. E nem com o autor! Mas... Pensando bem... Mesmo se estivéssemos vivendo um período maravilhoso ainda assim teria sentido vontade de esganar a maioria dos personagens desta história.  

Eu cheguei a considerar não escrever esta resenha, de tão revoltada que esta história me deixou! Mas quando um livro consegue gerar um "incômodo" tão grande no leitor vale a pena falar sobre ele. 

"[...] convinha a uma gente para a qual religião e lei eram quase a mesma coisa, e em quem ambas se entrelaçavam profundamente, que o mais leve e o mais severo castigo público fossem tornados igualmente respeitáveis e terríveis. Escassa e fria era a condescendência que um condenado naquele limiar poderia esperar da plateia."

O século é o XVII, que por si só já diria muita coisa. Todavia, para completar a sorte da nossa protagonista, a jovem Hester, ela faz parte de uma comunidade puritana de Boston, que não admite erros, nada que fuja de suas regras. As consequências são sempre muito graves, em alguns casos até mesmo a pena de morte. E era o que algumas pessoas inclusive chegaram a desejar para Hester: que ela tivesse sido condenada à morte por seu "crime". E qual foi o grande crime desta mulher? Se envolver intimamente com um homem sem ser casada com ele. Considerada "adúltera", embora todos acreditassem que o marido dela tinha morrido no mar (considerando que tinha sumido desde a última viagem e isso já fazia muito tempo), foi severamente condenada por sua comunidade e presa para aguardar o julgamento legal, mesmo grávida. 

Após um tempo na prisão, e com sua bebê já nos braços, recebeu como sentença um período na cadeia e a eterna exposição pública ao ter que carregar presa ao peito a letra "A" escarlate, como marca do seu adultério. Qualquer pessoa que visse aquela letra saberia o seu significado e jogaria sobre ela toda a força do seu desprezo. Embora ainda fosse membro daquela sociedade, foi excluída de tudo, não tendo mais amigos, não podendo mais frequentar os lugares sem que recebesse olhares de ódio. Era muito para qualquer pessoa aguentar, mas Hester não estava disposta a simplesmente desistir. Por mais que o desespero ameaçasse levá-la à loucura, buscava em seu interior toda a força necessária para suportar toda aquela injustiça. 

"Segurava nos braços uma criança, um bebê de cerca de três meses, que piscou e escondeu o rostinho da vívida luz do dia; isso porque sua existência, até ali, não lhe permitira conhecer nada além da penumbra cinzenta de uma masmorra ou de outro tipo de cela escura de prisão."

Por mais que os magistrados, pastores e demais autoridades, bem como a população, exigissem que ela revelasse o nome do homem que com ela pecou, Hester, mesmo ameaçada por seu silêncio, se negou a dizer uma só palavra sobre o assunto. Havia prometido para si mesma que jamais diria o seu nome para aquela gente, que se não pôde proteger a si mesma e ao seu bebê, pelo menos protegeria a ele. E cega pelo amor que parecia nutrir por esse homem misterioso, não conseguia enxergar a covardia dele. Que a abandonou à própria sorte. Que permitiu que ela e sua filha enfrentassem sozinhas o preconceito e a crueldade da sociedade. Sem recursos, poderiam ter passado fome, se Hester não tivesse buscado forças para se dedicar a costurar para manter a si mesma e a filha. 

Ainda que a sociedade a odiasse, não podia negar o enorme talento que ela tinha para a costura. Tudo o que ela fazia era perfeito e não eram capazes de resistir a ter suas roupas feitas por ela, pela adúltera que excluíram, renegaram. Quando era para costurar, ela tinha permissão para entrar em suas casas, para falar com eles. Até mesmo as autoridades mais importantes requisitavam seus serviços. Por mais hipócrita que aquela gente fosse, Hester nada dizia, pois dependia daquele trabalho para sobreviver, quando as opções para uma mulher, sobretudo em sua situação, eram praticamente inexistentes. Sem aquilo, não poderia dar à filha nem o básico para sobreviver. 

"[...] por mais arrogante que fosse sua postura, Hester possivelmente agonizava diante daqueles que se aglomeravam para vê-la, como se seu coração tivesse sido atirado no meio da rua para que todos escarnecessem dele e o pisoteassem."


Sufocada pela dor de cada dia, Hester encontrava na pequena Pearl, o inocente fruto de seu pecado, tanto um pouco de alívio quanto uma renovação diária do seu tormento. Amava sua filha mais que tudo, porém não conseguia se livrar das dúvidas, do desespero, dos medos que as regras que violou jogavam sobre ela. Para a sociedade, Pearl era filha do demônio, não era uma criança "normal", deveria ser tão excluída quanto a mãe ou "salva", sendo afastada de Hester. Dividida entre o amor e o medo de eles estarem certos, ainda assim ouve seu coração de mãe e luta com todas as forças para manter a filha ao seu lado. Mas até quando conseguiria resistir às supostas verdades de sua comunidade, de sua religião? Para eles, ela era uma vil pecadora. Nociva para a própria filha. Nociva para qualquer pessoa que se aproximasse dela. Indigna de perdão. 


E tudo piora na vida dela quando seu marido, que ela própria acreditava que estava morto, retorna, justamente no dia em que ela é exposta em público pela primeira vez. Chocado por ver sua esposa sobre um cadafalso sendo humilhada pela comunidade local, após tomar consciência dos motivos que a levaram até ali, resolve forçá-la a jamais revelar às pessoas que ele era o seu marido, pois não admitiria que seu nome fosse jogado na lama com o dela. Que seu pecado o atingisse e manchasse também. Todavia, mais do que isso, o que ele queria era vingança. 


Através da pressão psicológica consegue que ela prometa não revelar sua identidade e com o passar do tempo se prepara para fazer da vida dela um inferno. Onde quer que ela estivesse, ele seria sua sombra, seu carrasco. E faria o que fosse preciso para descobrir a identidade do seu amante. Do homem que roubou a sua mulher, do homem que ele odiava mais do que qualquer coisa na Terra. Ainda que se consumisse por inteiro, os faria pagar pelo que tinham feito. 


Existe alguma possibilidade desta história terminar bem? É claro que não!


"[...] para suavizar o sombrio desfecho de uma história de dor e fragilidade humanas."


Coloquei o trecho acima só para dizer que o que eu disse sobre não existir possibilidade da história terminar bem não é spoiler. Logo no primeiro capítulo, em determinado trecho, o autor oferece ao leitor uma rosa colhida de uma roseira posicionada às portas da prisão de onde Hester sairá. Ele diz que tal rosa tanto pode simbolizar o florescimento moral que vai ser revelado na história quanto uma forma de tentar suavizar o desfecho sombrio dos acontecimentos. Então, ele nos oferece a rosa já adiantando que o desfecho da história não será bom. Isso tudo já no primeiro capítulo. Então, ninguém inicia a leitura acreditando que existirá um "felizes para sempre". 


E eu realmente imaginava que a história seria pesada, cheia de julgamentos e preconceitos, cheia de injustiças. E acreditava que estava preparada para isso, mas não estava. Sobretudo pela maneira como o autor escolheu contar a história: sendo o próprio narrador alguém que também decide ser juiz e condenar a protagonista de quem ele, supostamente, estava do lado, quem ele supostamente defendia contra os "malvados" puritanos. E isso foi o que mais me incomodou na história inteira: o papel que o narrador desempenha, a maneira como sua defesa estava condicionada à perfeição da mocinha. O autor cria um ideal de perfeição, de virtude. 


"Não podia mais se valer do futuro para ajudá-la a enfrentar o sofrimento presente. O dia de amanhã traria consigo mais um julgamento; e também o dia seguinte, assim como o outro; cada um com seu próprio julgamento, e no entanto sempre aquele mesmo que, agora, já era extremamente penoso suportar."


Toda vez que Hester se submetia à condenação, ao julgamento, que aceitava em silêncio o enorme sofrimento, o narrador falava maravilhas sobre ela, ao ponto de vê-la como santa, alguém que conquistou a santidade pelo martírio. Mas bastava a Hester levantar um pouco o rosto, tentar se rebelar, demonstrar seus reais sentimentos (de revolta e ódio contra quem a oprimia, sobretudo o marido) para o narrador insinuar que ela não tinha aprendido nada, que talvez o sofrimento passado ao longo daqueles anos não tivesse bastado. Ele defendia Hester sim contra os puritanos, mas exigia dela santidade, pureza, virtude. E essa virtude só era enxergada se ela estivesse em constante sofrimento. O narrador queria a dor da Hester, só se ela estivesse em dor era que ele a valorizava. E isso me deu asco. A maneira machista e desumana como a mocinha foi tratada não só pelos personagens, mas, como eu disse, pelo próprio narrador. Hester nunca foi defendida por ser ela mesma. Toda defesa que ela recebia (e que era bem precária) vinha somente quando a idealizavam. Sendo ela mesma só recebia desprezo. E se sorrisse o mundo desabava sobre sua cabeça. Eu senti muita dor por esta mulher. O destino dela foi cruel demais! Ao ponto de todos a fazerem crer que realmente merecia aquele tipo de vida. De ela aceitar que aquele era seu destino e que merecia passar por todo aquele sofrimento até o fim. 


O "amado" da Hester não merece sequer uma menção aqui, pois quando penso nele só sinto nojo, desprezo pela imensa fraqueza de caráter, por ter pensado apenas em si mesmo. Tudo parecia girar em torno dele. Nunca se importou de verdade com a Hester e com a filha e ainda tinha a cara de pau de querer que ela se preocupasse com ele, que o ajudasse, que o salvasse! Ele sofreu? Sim. Vivia em angústia, se condenando sozinho, mas não por ter abandonado a mulher que confiou nele e o amou. Ele sofria por si mesmo. Era egoísta, só pensava na própria vida, na própria dor. Lamento muito pela Pearl ter tido alguém assim como pai. Embora, é claro, ele nunca tenha desempenhado o papel de pai, abandonando a criança antes do nascimento. 


Já o marido da Hester era o demônio em forma de gente. Que homem ruim! Eu própria tinha medo quando ele aparecia na história. Alguém cuja simples presença conseguia gelar o ambiente, tornar tudo mais sombrio, mais desesperador. Esta mocinha só teve azar na vida. Estava cercada por todos os lados de pessoas que só queriam o seu mal. E admiro muito a imensa força que ela teve. Sua vida foi muito triste, mas sem dúvidas ela teve uma força interior impressionante. 


"É mérito da natureza humana o fato de que, se o egoísmo não entrar na equação, amamos com muito mais facilidade do que odiamos."


O posfácio do livro traz uma visão sobre a história bem diferente da minha, já que defende que o autor colocou a Hester numa posição de grande heroína e que esteve ao lado dela contra os puritanos da história. Não foi essa a impressão que a história me passou e como a resenha é sobre a minha experiência de leitura, é a minha opinião que deixo aqui. Idealizar uma mulher, exigir dela santidade, ficar do lado dela apenas quando ela era "perfeita" não é nobre, não é admirável. Porque quando Hester se rebelava, ela era vista com desprezo pelo próprio narrador. Então... É como se passa no mundo machista em que vivemos: quando uma mulher é vítima de violência, é sempre para a vítima que a sociedade vira os olhos. Primeiro, tenta enxergar se ela teve "culpa", se "provocou" a situação, na tentativa de encontrar desculpas para o agressor. "Ah, o marido bateu nela, mas ela também, né? Por que foi fazer aquilo? Se ela não tivesse agido assim..." Entendem o que quero dizer? A mulher é sempre julgada e condenada mesmo quando é vítima. Só é diferente quando é vista como santa, aí sim é defendida com unhas e dentes por algumas pessoas. Porque até mesmo hoje em dia o mundo ainda exige das mulheres perfeição. Não podemos ter sentimentos verdadeiros, fazer escolhas livres, temos sempre que satisfazer o ideal de alguém. E isso, não! 

Este livro fez sentido para sua época. Nos dias de hoje, não é uma história que tenha me conquistado, não é uma história que eu tenha visto com bons olhos. Amo muito a Hester e sua filhinha e queria que a vida delas tivesse sido diferente. Mas se a linha narrativa do autor foi sempre como a presente no livro A Letra Escarlate, então não desejo voltar a ler algo escrito por ele. 



Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers. Mãe da minha eterna princesa Luana e dos meus príncipes Celestino, Felipe e Damon (gatinhos filhos do coração). Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

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