25 de maio de 2020

Orlando - Virginia Woolf

Tempo de leitura:
Literatura Inglesa
Título Original: Orlando
Tradutora: Laura Alves
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2018
Páginas: 200

26ª leitura de 2020

Sinopse: A fascinante história de Orlando compreende mais de três séculos. O fato de ter envelhecido não mais que trinta anos ao longo desse período lhe permitiu viver a fantasia de assumir diversos papéis na sociedade inglesa, indo de um jovem membro da aristocracia elisabetana a uma mulher moderna do século XX. Somando experiências nesta jornada através da história, a personagem de Virginia Woolf é livre não apenas das restrições do tempo, mas também das imposições da sexualidade, numa narrativa brilhante que reflete de maneira espirituosa e feminista sobre a natureza dos sexos.




Sei que passei duas semanas longe do blog, mas é que meu ritmo de leitura não anda muito legal. Existem dias nos quais só pego no livro à noite, poucos minutos antes de dormir. Estamos vivendo um período muito complicado e às vezes eu só quero assistir um filme com a minha mãe e a minha irmã (moramos na mesma casa, portanto, estamos em isolamento social juntas), ouvir minhas músicas preferidas, falar com Deus ou simplesmente ficar no meu canto quietinha, sem pensar em nada, só descansando a mente. Estou lendo num ritmo diferente, bem mais lento. Mas não estou preocupada com isso. As resenhas virão conforme eu termine as leituras, não pretendo ficar me cobrando como fazia em anos anteriores.

Todavia, meus problemas com Orlando, que é um livro até mesmo curto e enganosamente "rápido de ler", não foram nem provocados por essa mudança no meu ritmo de leitura. Eu tive dificuldades com o livro em si, com a escrita da Virginia Woolf. Comecei a lê-lo acreditando que terminaria em, no máximo, uma semana e que encararia de boa a história. E a história de modo algum é ruim, mas eu levei uma baita surra do estilo narrativo da autora, que me fez avançar a passos de tartaruga e acreditar que NÃO chegaria o dia em que concluiria a leitura do livro.rs Sério, gente! Eu pensei: "É melhor desistir, não vou conseguir terminar." Mas vocês sabem o quanto detesto abandonar uma história, por isso me obriguei a seguir em frente. E, finalmente, trezentos anos depois (risos), encerrei este sofrimento.kkkk

"A casa não era mais inteiramente sua, suspirou. Pertencia agora ao tempo; à história; estava fora do contato e do controle dos vivos."

O livro traz a ideia de uma suposta biografia de uma pessoa chamada Orlando. O narrador seria o seu biógrafo, que em 1928 decidiria contar a incrível história de vida dessa pessoa que atravessou os séculos, vivendo diversas aventuras, sobrevivendo a quase todos que conheceu. Assim, para contar em detalhes a vida de Orlando, o biógrafo volta no tempo... e mergulhamos com ele no século XVI, período de nascimento do nosso protagonista.

"Voltou à primeira página e leu a data, 1586, escrita por sua mão de menino."

Nascido numa família tradicional, importantísima em sua época, Orlando vivia em contato com outros nobres e até mesmo teve uma grande proximidade com a rainha Elizabeth I, que veio inclusive a alimentar uma certa paixão pelo jovem, quando ele estava com pouco mais de quinze anos e passou a viver perto dela, a seu convite. Só que o rapaz não retribuiu os seus sentimentos. Sonhador e romântico, estava sempre apaixonado por uma moça diferente e "respirava" poesia. Na corte teve diversos amores e ficou noivo de uma mulher respeitável e perfeitamente adequada para se tornar sua esposa... até conhecer a misteriosa Sasha (nome que ele inventa para ela, pois gostava de dar nomes para as pessoas em vez de chamá-las por seus nomes verdadeiros), mulher que será responsável por sua primeira grande decepção amorosa e relevante, de certa forma, para os primeiros acontecimentos "fantásticos" do livro.

"Pois o filósofo tem razão ao dizer que nada mais espesso do que a lâmina de uma faca separa a felicidade da melancolia; e prossegue opinando que são gêmeas; e daí chega à conclusão de que todos os sentimentos extremos são aparentados da loucura;"

A grande decepção que Sasha provoca não destroça apenas o coração do nosso protagonista, mas também a sua vida e seus planos na corte, vez que, ao desencadear um escândalo com sua relação proibida com a moça (enquanto estava comprometido com uma dama querida na corte), ele acabou sendo expulso e caindo em desgraça. Retirando-se para sua propriedade no campo, tomado por imensa dor, num determinado dia nosso protagonista não acordou no horário habitual. Quando seu empregado foi acordá-lo, percebeu que ele mal parecia respirar.

Fizeram de tudo para despertá-lo, mas nada funcionava. Era como se sua mente se recusasse a acordar e assim os dias se passaram. Uma semana inteira! E aí, "do nada", Orlando se levantou da cama como se nada tivesse acontecido, como se nem sequer um dia tivesse se passado desde que ele entrou num coma provocado, aparentemente, pela dor emocional.

"No entanto, suspeitava-se de que alguma transformação tivesse acontecido na sua mente, pois, embora perfeitamente racional, ele parecia mais grave e mais calmo em seus modos do que antes, parecia guardar uma recordação imperfeita de sua vida passada."

Se o livro contasse apenas as aventuras e desventuras do jovem protagonista no século XVI não teria nada de muito interessante. Orlando era sonhador e muito ingênuo, se deixando afetar facilmente pelos comentários das outras pessoas, dado a intenso sofrimento emocional. Queria ser poeta, mas bastou um comentário negativo sobre seus versos para que ele mergulhasse novamente em profunda dor e desesperança.

Acontece que a história vai muito além dos dramas vividos pelo protagonista naquele período... Ao longo da narrativa, descobrimos que Orlando é imortal, que ele atravessará vários séculos até chegar ao século XX, precisamente ao ano de 1928, quando a história é contada. Mais que isso, Orlando sofrerá também uma fantástica transformação:

"Orlando foi homem até os trinta anos; nessa ocasião tornou-se mulher e assim permaneceu daí por diante."

Incrível, não é mesmo? Quando o narrador diz que ele foi homem até os 30 anos, está falando no sentido literal, anatômico. A partir daquela fase de sua vida, Orlando simplesmente sofreu uma transformação em todo seu corpo, passando a estar num corpo de mulher; ele se transforma em mulher. O que não é nenhum spoiler, pois você já começa a leitura sabendo de tudo isso.

Utilizando desta "magia" a autora tinha claramente a intenção de abordar a discussão de gêneros, do que faz uma pessoa homem ou mulher, das limitações impostas pelos costumes, pela sociedade e a liberdade de ser e fazer o que quiser com a própria vida. Orlando era homem, mas também era mulher. Mesmo quando seu corpo se transforma, sua essência permanece a mesma. Seus sentimentos, seus desejos. Ele vive uma mistura forte em seu interior e, em determinado momento da história, vai se sentir livre para viver os amores que quiser, tanto com homens quanto com mulheres. Ele se permitirá a liberdade. E questionará em várias cenas o que nos define, o que esperam de nós e como isso costuma entrar em conflito com o que realmente queremos. A autora debocha muitas vezes dos costumes da sociedade e do papel imposto às mulheres.

"[...] era homem; era mulher; conhecia os segredos e partilhava as fraquezas de cada um. Era o mais desconcertante e atordoante estado de espírito."

O que mais me encantou na história não foi nem o fato de Orlando (mesmo quando se transforma em mulher, o nome continua o mesmo) atravessar os séculos e viver tantas épocas diferentes, tantos períodos distintos da história do seu país e do mundo. O que o livro tem de mais fascinante é a transformação dele em mulher. A forma como ele precisa se adaptar, como começa a criticar as imposições sofridas por ambos os sexos, como tudo aquilo era ridículo, todas aquelas limitações eram absurdas. Ela, agora mulher, precisa se submeter ao que se espera dela, mas ao mesmo tempo vai passando por cima de vários costumes e vivendo seus amores conforme sente vontade.

"No entanto, é difícil dizer se Orlando era mais homem ou mais mulher, e isso não pode ser resolvido agora."

Sabe quando um livro é muito bom, a história em si é muito boa, mas a escrita do autor estraga tudo? É assim que me sinto em relação ao livro. Eu gostei muito da história em si (a partir da transformação de gênero da personagem, antes eu não estava gostando muito do livro não), mas a narrativa foi muito difícil. Me cansava demais, eu tinha que ficar voltando muitas vezes nos parágrafos, às vezes precisava voltar páginas inteiras, pois me perdia na história e isso só foi me desanimando, aumentando a minha irritação.rs

"Por isso, ao mesmo tempo, a sociedade é tudo e a sociedade é nada. A sociedade é a mais poderosa mistura do mundo e a sociedade em si não existe."

 Eu não apreciei a escrita da Virginia Woolf, mas gostei demais da história. Conseguem entender? Na hora de classificar, por conta de todos os problemas que tive com a narrativa, o fato de quase ter abandonado por já estar tão cansada, desgastada com o estilo narrativo dela, o livro acabou por receber 3 estrelas, embora eu considere que a história em si merecia mais.

Além dos assuntos importantes abordados no livro e a ironia deliciosa da autora (sim, não gostei da escrita dela, mas apreciei todos os toques de ironia presentes no livro), outra questão pela qual passamos na obra é o fato do ser humano ter o hábito de exaltar os escritores antigos e menosprezar os de sua própria época. No livro vemos isso quando um personagem, do mesmo período de Shakespeare, fala dos escritos dele com evidente desprezo dizendo que os "autores antigos" sim eram maravilhosos, que a literatura nunca mais seria como foi antigamente. Muitos fazem isso nos dias atuais, não é verdade? Colocam os clássicos num pedestal e desprezam os livros que não fazem parte dessa lista. Assim, a autora acaba dando uma sacudida nos pseudointelectuais e eu apreciei demais isso. Embora o livro tenha sido escrito em 1928, essa "sacudida" se aplica perfeitamente a muitos leitores do presente, que desprezam a literatura contemporânea e diversos gêneros, muitos que nem se deram ao trabalho de conhecer antes de julgar, por simples preconceito.


-> DLL 20: Um livro que você não terminou (se encaixa porque iniciei a leitura em abril, mas só consegui terminar ontem, dia 24/05)



Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

6 comentários:

  1. Li pouca coisa de Virgina na minha vida, na real, quase nada.
    A narrativa dela nunca me fez a cabeça, é bem pessoal mesmo, agora gosto do que se tem no Teatro dela, acho intenso.
    Orlando tem uma história bem curiosa, gostei de saber que ele é imortal. E as aventuras dele de fato parece ser curiosas no demais não me fez a cabeça

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  2. Virginia Woolf me intimida!!! Sempre ouço elogios parsa suas obras e do quanto a autora é intensa em seus escritos e isso me afasta um pouco porque tenho medo de não absorver toda esta intensidade. Mas ainda quero elr algo dela!!!

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  3. Oi Luna!
    Que livro é esse?
    Achei muito interessante sua resenha deixando claro sua opinião sobre o personagem, fiquei intrigada nesse sofrimento constante dele em achar seu verdadeiro lugar, sendo imortal deve ser complicado passar séculos e formar uma vida. E os conflitos amorosos fiquei com um nó na cabeça kkk. Obrigado pela dica, vai ser fascinante ler esse livro e conhecer a autora, parabéns pela resenha. Bjs!

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  4. Não conhecia esse livro dela, quer dizer, eu já tinha visto o livro, mas não sabia sobre o que falava. Achei um tanto parecido com Entrevista com o Vampiro, mas considerando as épocas em que foram escritos, entrevista é que segue a proposta desse.
    att,

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  5. Olá Luna!!!
    Meu professor de literatura diz que ler Virginia é o mesmo que ler Clarice, pois ambas as autoras são bem complexas em sua escrita. Eu tenho vontade de ler Orlando mas não sei se estou preparada pela escrita da Virginia e não minto que gostei de saber um pouco mais da história que eu só me interessei por conta da temática da mesma.

    lereliterario.blogspot.com

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  6. Confesso que nunca tinha ouvido falar em Virginia, mas seu post me capturou de uma forma, que me levou a pesquisar mais e mais e só tem comentários bons acerca dela. Quero conhecê-la e absorver tudo presente em suas obras. Adorei a resenha, fez eu adicionar mais um livrinho na lista da falência

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