16 de agosto de 2019

O Quinze - Rachel de Queiroz

Tempo de leitura:

Literatura Nacional
Editora: José Olympio
Edição de: 2016
Páginas: 160
Onde comprar: Amazon

*Lido emprestado da biblioteca pública


Sinopse: O quinze foi o primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz. A história se dá em dois planos: um enfocando o vaqueiro Chico Bento e sua família; o outro, a relação afetiva entre Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora.



"Dignai-vos ouvir nossas súplicas, ó castíssimo esposo da Virgem Maria, e alcançai o que rogamos. Amém."

Naquele dia, como em tantos outros, Dona Inácia suplicava pelas chuvas, única esperança para seu povo que estava enfrentando a grande seca de 1915, vendo o gado morrer, a terra desolada e a fome se espalhando pelo sertão cearense. Conceição, sua neta de 22 anos que estava passando as férias ao seu lado, não acreditava que suas orações adiantariam de alguma coisa. Não choveria. Aquele era o início de um longo período de fome e miséria, marcado por desespero e mortes. 

"- Ô sorte, meu Deus! Comer cinza até cair morto de fome!"

Determinada a tirar a avó daquele lugar, Conceição a convence a ir embora com ela para a capital, onde trabalhava como professora, e a situação de vida era bem diferente. Sabia que aquele apego pela antiga fazenda da família, no Logradouro, apenas acabaria por matar sua avó, sozinha, sem filhos, durante uma seca tão brutal. 

Mas ao fim daquelas férias, Conceição não deixaria para trás apenas as lembranças da infância e os livros que já conhecia de cor... Deixaria também o seu primo Vicente, quem quase não encontrava ao longo dos anos, mas que todos que os conheciam desde meninos sabiam que ela amava. Tentara fazê-lo entender que o melhor era ir embora também, mas Vicente, teimoso e amante da terra, não se deixava persuadir. Aquele era o seu lugar. Ali morreria. Jamais faria parte do mundo dela. 


"[...] Vicente sempre fora assim, amigo do mato, do sertão, de tudo o que era inculto e rude. Sempre o conhecera querendo ser vaqueiro como um caboclo desambicioso, apesar do desgosto que com isso sentia a gente dele."

Vicente não negaria para si mesmo que lhe doía ver, mais uma vez, Conceição partir. Desejava fazê-la ficar ao seu lado, enfrentando as dificuldades da vida com ele, mas sabia que era inútil. Ela era moça culta, que estudara e construíra uma carreira. Ele era homem do mato e que tinha horror pelos livros. Eram incompatíveis de diversas formas, mas seu coração parecia não entender. 

"No entanto, agora, Conceição estava bem longe. Separava-os a agressiva miséria de um ano de seca; era preciso lutar tanto, e tanto esperar para ter qualquer coisa de estável a lhe oferecer!"

Mas a miséria que já se espalhava pelo sertão, logo afastou seus pensamentos daquele amor impossível. Seu gado estava morrendo, mal era possível alimentar sua família quanto mais os animais e até o que dar-lhes de comer era difícil de encontrar para comprar, pois muitas coisas já tinham se esgotado. A luta era diária e parecia uma batalha perdida. Sem água e com a terra toda desolada pela seca, o gado emagrecia e caía doente, muitos dos animais morrendo pelo caminho. Não era muito diferente do que acontecia com os próprios seres humanos, que iam adoecendo a olhos vistos e também ficavam pela estrada... 

"Teve um súbito desejo de emigrar, de fugir, de viver numa terra melhor, onde a vida fosse mais fácil e os desejos não custassem sangue."

Quando parava para pensar em toda aquela miséria e nos animais que ia perdendo diariamente, bem como nas notícias de amigos e conhecidos que tinham sucumbido e já não existiam mais, cogitava abandonar tudo e ir para um lugar melhor, recomeçar sua vida. Ser egoísta como o fora seu irmão, que agora era doutor e mal lembrava dos pais. Mas a verdade é que não podia abandonar as suas terras, os seus pais e irmãs, nem por amor à Conceição e muito menos por amor a si mesmo. Talvez aquela seca também levasse a sua vida, mas morreria lutando... Morreria naquele que era o seu lugar. 

"- Olha a Rendeira! E apontava para uma vaca pintada de preto e branco, que, magra e quieta à beira da estrada, parecia esperar a família fugitiva para uma derradeira despedida. [...] A Rendeira fitou em todos os seus grandes olhos dolorosos, donde escorria uma lista clara sobre o focinho escuro, como um caminho de lágrimas."

Chico Bento não pôde optar por ficar em sua casinha, perto do Quixadá. Com a seca cada vez mais impiedosa, sua patroa soltara o gado restante para morrer pela estrada, pois não tinha mais condições de arcar com as despesas. Com isso, Chico Bento ficou sem seu emprego e transtornado pelo desespero, tanto por amor aos bichos que morreriam de fome quanto por sua própria família, pois era pai de cinco filhos e não tinha com o que alimentá-los. O jeito era migrar. Conseguir as passagens que o governo estava dando aos retirantes. Todavia, ao ir atrás das passagens, esbarrou na ambição de outros, que em vez de darem o que fora determinado pelo governo estavam vendendo

Com a angústia se fazendo cada vez mais presente, arriscou ir a pé, com o filho de colo e os outros quatro pequenos, junto à sua esposa. Uma viagem quase suicida, vez que a água e a alimentação eram escassas e não teriam onde dormir em segurança. O sol não perdoava, queimava seus corpos e aumentava a fome e a sede.

" Apesar da fadiga do longo dia de marcha, Chico Bento levantou-se e saiu; a garganta seca e ardente, parecendo ter fogo dentro, também lhe pedia água."

Era impossível ficar, mas partir também se mostrava um grande risco. E ao olhar para seus filhos famintos e com lágrimas escorrendo pelo rosto, e sua mulher com o desespero envelhecendo sua face antes tão alegre, Chico Bento se perguntava quantos deles chegariam ao final da viagem com vida... 

"Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas."

Quando peguei este livro na biblioteca pública para ler, eu sabia que a história contida em suas páginas não era bonita, que tratava da grande seca de 1915, que marcou profundamente a vida de muitos cearenses. Ainda assim, não imaginei que um livro de apenas 160 páginas me causaria tanta dor, me deixaria em lágrimas tantas vezes... Ler esta história mudou algo dentro de mim. Me apresentou uma realidade com a qual nunca antes tive contato e me ensinou demais... me transformou. É isso que os bons livros fazem: nos mudam. 

Eu não tinha noção do quanto o livro era pesado, apesar da narrativa ser bem simples, despretensiosa. Quando vi a história de amor não declarado de Vicente e Conceição achei que o livro seguiria esse rumo, se focando mais nos dois. Todavia, veio o Chico Bento e sua família e aí... Nossa! Ler as coisas narradas pela autora... aquela situação de tanto desespero, de tanta fome e sede, de tantas lágrimas... isso acaba com a gente. Sobretudo porque ali tinham crianças. Cinco crianças na corda bamba da vida, chorando porque seus estômagos estavam vazios e doíam. Suplicando à "mãezinha" que lhes desse algo de comer. Eu chorei tanto com essas cenas! E o pequenino, ainda um bebê de colo, que mamava no peito, mas ao sugar não saía mais leite, de tanto que a mãe estava desnutrida... Isso é insuportável. Ver o bebê chorando e emagrecendo, com a dor marcando os olhinhos que deveriam ser inocentes e felizes... As crianças sujas caminhando debaixo do sol que as queimava, tentando encontrar uma planta ou um animal pelo caminho para poderem comer e não achando nada. E isso vai resultar numa das cenas mais dolorosas que já li na vida. 

"Dia a dia, com forças que iam minguando, a miséria escalavrava mais a cara sórdida, e mais fortemente os feria com a sua garra desapiedada." 

É claro que nem todos vão sobreviver. Não é sequer spoiler dizer algo assim. Tudo era miséria, gente. Muitas pessoas estavam morrendo de fome e desidratação. Assim como os animais que caíam e não levantavam mais, o mesmo acontecia com muitos seres humanos castigados por aquela seca infernal. Mas ver a morte de determinado personagem me provocou tanta dor.... não só pela morte, mas também a forma como ele morreu, o motivo. Dói na alma. Agora enquanto escrevo e lembro da cena sinto toda aquela dor de novo... Nunca vou esquecer. 

"Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra da mesma cruz."

Embora a história também seja sobre Vicente e Conceição, quase não lembramos deles ao ver tantas pessoas passando por sofrimentos piores. Vicente estava passando por uma situação horrível, é verdade, e também me comovi com sua luta, com sua garra, por ele nunca desistir. Todavia, os outros estavam passando por tanta coisa mil vezes pior que já quase não pensava mais neste personagem, por mais que ele seja importante no livro. E Conceição, então! Ela estava distante de tudo aquilo. Não passava fome, tinha seu emprego de professora, seu amor pelos livros e seus preconceitos todos. E aí chegamos aos meus problemas com a personagem. Ainda que eu gostasse um pouco dela no início da história e torcesse para que seu amor pelo Vicente tivesse final feliz, com o tempo Conceição só foi me irritando. Ela trabalhava como voluntária no Campo de Concentração, um local criado para meio que abrigar os retirantes que iam chegando quase mortos de desnutrição e desidratação. Ali levava alimentos e objetos básicos. Era um gesto de bondade, certo? Talvez. A verdade é que Conceição não parecia se importar de verdade, como se fizesse aquilo só por caridade e nada mais. Além disso, o modo como ela falou de uma moça lá do sertão, que talvez estivesse envolvida com o Vicente, me provocou enorme desgosto. Ela disse algo como: nunca esperou que ele se "sujasse" com uma negra. E embora a avó dela tentasse amenizar a situação, como se ela só estivesse se comportando daquele jeito por ciúmes, minha antipatia pela Conceição já tinha se fortalecido. E o nojo que ela sentia pelos retirantes, que obviamente estavam sujos e queimados pelo sol. Entendam: por mais que ela se desdobrasse em ajudar, que estendesse a mão para socorrer, dentro dela existia aquele preconceito horrível, aquele nojo, aquela repulsa, sabe? 

Além disso, a insensibilidade dela ao tomar certa decisão, me fez querer esganá-la. Não posso contar o que ela fez, pois seria spoiler, mas foi algo que me chocou, não acreditei que ela fosse ter coragem de fazer algo como aquilo. E não pude perdoá-la. 

Não digo que a personagem não possua qualidades, ela tem várias. É uma mulher muito forte e decidida, com um olhar bem racional, pesando sempre os prós e contras, até mesmo no que se refere ao amor. Por mais que gostasse do Vicente, não se deixava cegar pelos sentimentos e refletia sobre as diferenças entre eles, que representavam um grande obstáculo, segundo os planos para sua própria vida. A questão é que Conceição possui defeitos que não consegui suportar. O que me fez terminar a leitura sem gostar dela. 

"Carecia esperar que o feijão grelasse, enramasse, floreasse, que o milho abrisse as palmas, estendesse o pendão, bonecasse, e lentamente endurecesse o caroço; e que ainda por muitos meses a mandioca aprofundasse na terra as raízes negras... Tudo isso era vagaroso, e ainda tinham que sofrer vários meses de fome."

Mas como eu disse antes, o mais importante neste livro não é Conceição e seu amor por Vicente ou vice-versa. O essencial neste livro é a seca e suas consequências. É a forma crua como a autora aborda um assunto com o qual talvez nunca antes tenhamos tido contato, uma realidade distinta da de pessoas que não sobrevivem do cultivo, das terras, e que dependem tanto do clima. A seca de 1915 não é ficção, apesar dos personagens da história serem fictícios. Essa seca aconteceu e a autora passou por ela em sua infância, o que provavelmente a inspirou a escrever O quinze

Este é um livro que recomendo muito. O leitor talvez tenha certa dificuldade com algumas palavras desconhecidas, características do vocabulário nordestino. Mas não é nada que uma pesquisa básica no Google para descobrir o significado não resolva. E conforme prosseguimos na leitura nos acostumamos com as palavras que não conhecíamos e passamos a entender seu significado pelo contexto. 

Se quiser ter o coração partido, leia esta história! Se quiser conhecer mais de outras regiões do Brasil e suas realidades, leia este livro! Recomendo MUITO! 


Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

7 comentários:

  1. Livros assim deixa a gente coo o coração despedaçado
    Ainda não li mas sabemos de todo o sofrimento desse povo guerreiro vemos a luta dessa povo que conviveu e convive com a seca e eles tem a minha admiração e respeito

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  2. Nossa, eu não sabia que era assim também este livro e acredito que é um livro que narra momentos bem atuais também, mesmo que seja algo muito dolorido e adoro a escrita da autora, porque o português antigo me atrai muito, deve ser de uma dor realmente enorme ler.

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  3. Oi Luna.
    Confesso que não sou o maior leitor de clássicos nacionais, mas ultimamente tenho estado aberto a conhecer melhor alguns deles, e foi muito bom ter lido sua resenha porque primeiro fiquei querendo ler este, e segundo porque já estou alerta sobre o quanto o livro é realmente pesado.
    Gostei também da forma como a autora parece desenvolver bem assuntos bem pertinentes sem deixar a parte do romance tomar conta de tudo. É um livro que me parece ter críticas sociais importantes.
    Entrará na minha lista de desejados com certeza.
    Abraço.

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  4. Olá, tudo bem? Que relato mais lindo e mais sincero! Esse acabou sendo o primeiro livro do Leia Mulheres da minha cidade, muito por conta do seu significado e da carga dele, não poderiamos ter escolhido melhor, essa realmente é uma obra que nos faz desaguar.

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  5. Olá, tudo bem?

    Me senti muito triste só de ler sua resenha, se eu ler o livro acho que desmorono. É muito forte e desolador. Quando falou sobre Conceição, achei sinceramente que ela seria a "salvadora da pátria", mas já peguei raiva só pela sua resenha. Acho que é vergonhoso falar que nunca li nada nem dessa autora, nem com essa carga toda, mas irei ler, só para aprender e entender melhor essa época.

    Beijos

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  6. Oi Luna!
    Ainda não li esse livro, mas já ouvi falar muito dele, gosto muito de livros que nos trás reflexões e que envolve bastante sentimentos conflituosos, pela sua resenha deu para perceber que o livro tem uma carga muito grande e que sim devemos ler porque temos uma pequena ideia de como é, mas lendo temos uma visão mais ampla das necessidades do povo nordestino. Parabéns pela resenha, já estou anotando a dica e curiosa para ler. Bjs!

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  7. Um tema forte, tenho tendência a fugir um pouco por saber q se trata de uma história real, a forma como a seca é retratada no livro parece bem condizente com o ocorrido na época!!! Parabéns pela resenha.

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