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6 de maio de 2018

O Caçador de Pipas - Khaled Hosseini

(Título Original: The Kite Runner
Tradutora: Maria Helena Rouanet
Editora: Nova Fronteira
Edição de: 2005)


O caçador de pipas é uma narrativa insólita e eloquente sobre a frágil relação entre pais e filhos, entre os seres humanos e seus deuses, entre os homens e sua pátria. Uma história de amizade e traição, que nos leva dos últimos dias da monarquia do Afeganistão às atrocidades de hoje. 



Palavras de uma leitora... 



- Esta edição do livro não vem com sinopse na contracapa. Então eu peguei apenas um trechinho do resumo que tem nas "orelhas" dele e coloquei acima. Só para terem uma ideia significativa do que é esta história. Acreditem: o trecho acima diz muito. É a essência do que você vai encontrar ao mergulhar nessas páginas... Esteja preparado, pois é uma viagem muito turbulenta e que deixará marcas impossíveis de apagar. Cicatrizes que duram toda uma vida. Parece que as minhas ainda sangram. 

Sabe aquela história que você tem há anos parada na sua estante não porque não teve tempo de ler, mas por puro e completo medo? Sempre fugi deste livro. Ganhei em 2011 e desde o começo me sentia tensa quando me aproximava dele. Até mesmo quando ia limpar a estante. Pensei em me desfazer dele várias vezes, confesso. Não sabia exatamente spoilers da história, mas tinha lido resenhas que me provocaram pavor. Que me indicavam que não era um livro para ler e esquecer, seguir com a vida normalmente depois. E o fato de eu ter uma noção do que era o Afeganistão quando ganhei o livro também contribuiu para isso. Quem nunca leu nada ou assistiu uma reportagem sobre esse país e o inferno na Terra que as pessoas suportavam? 

Ele entrou para minha lista de leituras do ano por causa do desafio 12 Meses Literários. Era para ser minha leitura de abril, mas o medo acabou falando mais alto outra vez e só o encarei no final do dia 29, quando não dava mais tempo de terminá-lo a tempo já que são mais de 360 páginas de história. 

- Incrível que tenha se tornado um dos melhores livros que li. Uma história que merecia ganhar uma centena de prêmios por toda a riqueza, por todo o talento do autor... pela maneira como me fez entrar no livro e acompanhar de perto a vida dos personagens... Amir, meu querido Hassan (meu coração ainda dói tanto por ele), baba, Sohrab, Ali. Mesmo se eu vivesse outras vidas não seria capaz de esquecê-los. 

"Pensei na vida que eu levava até que aquele inverno de 1975 chegou para mudar tudo. E fez de mim o que sou hoje."

Tudo começou num inverno, em 1964, quando Hassan nasceu, cerca de um ano depois de Amir. Enquanto o segundo era filho de um homem rico e muito importante em Cabul, Hassan não passava de um hazara, alguém visto com desprezo pela sociedade, e filho do empregado mais antigo da família. Ali, seu pai, havia crescido com o pai de Amir, era seu companheiro de brincadeiras, mas nunca houve um dia em que o outro o tivesse chamado de amigo. E a história entre Amir e Hassan era uma repetição da dos seus pais. Todavia, o final foi diferente... abrupto e cruel para todos.

Tendo perdido a mãe logo ao nascer, Amir passou boa parte da vida tentando ganhar o amor do pai e sentindo que estava abaixo de todas as suas expectativas, que nunca seria alguém digno do orgulho e respeito daquele que tinha lhe dado a vida. Dividia suas frustrações, segredos e esperanças com Hassan, embora nem sempre fosse necessário, pois com um simples olhar seu companheiro de travessuras parecia lê-lo, saber o que ele pensava. Mas Amir não considerava Hassan um amigo. Como poderia? Alguém como ele não poderia ser amigo de um hazara, seria se rebaixar, descer demais. Brincava com Hassan porque ele estava disponível, porque era seu empregado e deveria fazer o que ele quisesse, certo? Assim como limpava o chão de sua casa, preparava seu café da manhã e passava suas roupas, deveria brincar sempre que ele quisesse. 

Enquanto Hassan o adorava e seria capaz de tudo por ele, numa lealdade cega que só se fortaleceu conforme eles cresciam, Amir se ressentia do laço que os unia, da necessidade que tinha de sempre estar com ele, de sua bondade e humildade. Não entendia como ele podia ser tão fiel e feliz levando uma vida tão distinta da dele, num casebre em seu quintal, não podendo frequentar a escola como ele, não sabendo ler e sendo humilhado por outras pessoas. Não entendia como podia sempre manter um sorriso no rosto e perdoá-lo mesmo quando suas atitudes eram imperdoáveis. 

Não sabendo definir bem que tipo de relação tinha com aquele menino que era sua lembrança mais remota, Amir o amava e odiava, se sentia mal quando o faziam chorar, mas também zombava dele quando tinha oportunidade. Torcia por sua felicidade, mas o invejava mesmo sabendo que era o lado privilegiado, que tinha tudo o que o outro jamais teria. Todavia, invejava sim: sua coragem, sua certeza, seus sonhos... Porque Hassan era a metade boa daquela relação doentia. Porque ele era o que Amir nunca conseguiria ser. 

E, então, um dia aconteceu. Do mesmo modo que um inverno os uniu, cerca de doze anos antes, também foi num inverno que tudo se rompeu. Para sempre. Era o ano de 1975. A monarquia já havia caído e Cabul não demoraria a enfrentar uma guerra desigual e, anos mais tarde, a chegada dos Talibãs. Tudo o que conheciam seria extinto. Muitas vidas seriam destruídas. Mas para Amir e Hassan tudo terminou bem antes, em 1975. O que restou depois? O vazio... o vazio deixado pela mais terrível das traições. Porque o sangue derramado naquele dia afetaria o futuro de muitas pessoas.

"Porque foi justamente nesse inverno que Hassan parou de sorrir."

- Sempre gostei do inverno. Não do frio (simplesmente não suporto tempo frio), mas por sua melancolia, por me fazer pensar... por me levar tão longe em pensamentos. Todavia, sinto que nunca mais conseguirei ver o inverno com os mesmos olhos. Que sempre verei aquele menino na minha frente, conformado com algo que não merecia... sofrendo uma grande crueldade, mas... pior que isso... sendo traído de uma maneira insuportável. Ah, Hassan! Como eu queria ter te ajudado. Como queria fazer o que Amir não fez. Não é preciso vencer todas as guerras. Algumas estão perdidas desde o início. Sabe o que importa? Ter alguém lutando ao seu lado. Saber que você não está sozinho. Que alguém se importa o suficiente para não te abandonar mesmo sabendo que irão perder. 

"Mas havia algo de fascinante, embora de um jeito doentio, em implicar com Hassan. Era um pouco como brincar de torturar insetos."

- Eu odiei o Amir. Durante boa parte da história o sentimento permaneceu, intensificando conforme ele me mostrava mais e mais claramente o seu lado podre. Odiava a criança cruel, que sugava tudo de bom que o Hassan lhe oferecia, dando em troca maldade. Sentia vontade de agredi-lo quando ele zombava daquele menino que sempre esteve ao seu lado, que o defendia de qualquer pessoa, que arriscava a si mesmo para vê-lo bem, mesmo que o preço a pagar fosse alto. Quando ele mentia para o Hassan... quando se aproveitava do fato de ele não poder ler ou frequentar a escola... Enquanto meu pequeno e querido personagem era de uma inocência tocante e uma lealdade sem limites, Amir já tinha dentro de si um lado obscuro e covarde. Era um egoísta. Do tipo que sempre colocaria a si mesmo em primeiro lugar. Que se visse alguém apanhando ao seu lado, fingiria que nada estava acontecendo e ainda culparia a pessoa por se atrever a apanhar perto dele. E durante muitos anos ele realmente permanece igual. Mas um dia... um dia o passado retorna. Cobrando com juros os seus pecados. E é aí que meu ódio por ele se transforma em algo diferente. Não sei se amor, mas um sentimento forte. Um dia ele finalmente se torna digno do meu perdão. Embora fosse tarde demais de muitas formas. 

"No inverno de 1975 vi Hassan correr atrás de uma pipa pela última vez."

- Na madrugada de ontem, enquanto todos aqui em casa dormiam, eu chorava. Porque era tudo o que eu podia fazer. Não chorava apenas por Hassan, Ali, Amir e todos os personagens que de um modo ou de outro conquistaram meu coração. Chorava por um mundo que não posso mudar. Que não tem salvação. Chorava pelas crianças aterrorizadas na Síria, por aquelas que ficaram órfãs, por aquelas que foram vítimas de tantas barbaridades... por aquelas que morreram. Chorava por aqueles que são sufocados por governos totalitários e não sabem o que é viver em liberdade. Sofria pelas vidas perdidas em guerras passadas e pelas guerras que atormentam o mundo atualmente, enquanto grandes potências apenas observam ou se movem em interesse próprio. Sofria pela maldade espalhada pelo mundo que parece sempre sair ganhando. E sentia tanta raiva! Tanta revolta! 

Sofria também por todas as crianças que tiveram a sua infância roubada. Que tiveram o seu direito à inocência violado. Seja num país em guerra ou não... existem milhares, talvez milhões, de crianças que tiveram que crescer cedo demais, que tiveram a luz da ingenuidade apagada dos seus olhos. 

"E ouça o que lhe digo, Amir jan: no final, o mundo sempre sai ganhando. As coisas são assim, pura e simplesmente..."

- A história começa cerca de vinte e seis anos após aquele maldito inverno. Conhecemos primeiro o Amir adulto, já com seus trinta e oito anos, atormentado por fantasmas do passado... por uma época longínqua. Um telefonema inesperado, por alguém que estava do outro lado do mundo e que unia de diferentes maneiras a sua vida atual ao que um dia ele viveu, traz de volta tudo aquilo que ele tanto tinha tentado esquecer. A partir daí seguimos com ele por suas lembranças... numa viagem extremamente dolorosa. É assim que conhecemos Hassan... é assim que nos apegamos a ele. Pelas lembranças daquele que um dia o traiu. Que lhe virou as costas, mas que nunca foi capaz de livrar-se do sangue derramado. Do sangue que sujava as suas mãos. 

Mas o que aconteceu com Hassan? Ele morreu? Naquele inverno? Amir fez algo contra ele ou permitiu que alguém fizesse? E por que tantas vidas foram afetadas, mesmo décadas depois, como num efeito dominó? Eu também fiz suposições. Muitas. E consegui acertar o que era antes mesmo que fosse revelado, conforme conhecia os personagens. Fiquei tão conectada a eles que era capaz de prever o próximo passo de cada um. E, não. Não contarei o que acontece. Talvez vocês achem que já sabem por conta do que falei, mas não. Tudo o que eu disse não revela nada. Apenas faz com que criem teorias. 

"Existe um Deus, tem que existir, e agora vou rezar, vou pedir que Ele me perdoe por não ter Lhe dado a devida importância durante todos esses anos, que me perdoe por eu ter traído, mentido e pecado impunemente, e só ter pensando em recorrer a Ele nos momentos de necessidade; pedir-Lhe que seja clemente e misericordioso como o Seu livro diz que Ele é."

- Nada do que eu disse é suficiente para fazê-los sentir tudo o que essa história provoca dentro de nós. Não contei nem um décimo. É muito mais que um livro sobre a amizade (de muitas maneiras unilateral) entre dois meninos que mamaram no mesmo seio e cresceram juntos, um vivendo na casa grande e tendo todos os privilégios, e outro passando seus dias num casebre do mesmo quintal sabendo que provavelmente terminaria seus dias ali, sem nunca sequer poder ler os livros que tanto amava e só conhecia através das palavras de seu agha (senhor), quem ele amava como a um irmão e idolatrava como um deus. É mais que isso. A história vai além, interligando a vida de vários personagens, nos fazendo mergulhar no Afeganistão de 1964 até 2001, nos fazendo conhecer sua História, sua cultura, costumes, religião. Nunca tive um contato tão próximo com o islamismo e o Corão antes de ler esse livro. Nunca entendi bem. Sempre soube que não era uma religião que pregava ódio, pois tive uma professora, uma historiadora fantástica, que conhecia bem o Alcorão. Mas eu desconhecia as semelhanças que ele tem com a Bíblia que conhecemos, com os personagens bíblicos. Há em O Caçador de Pipas uma referência direta a Abraão e o sacrifício do cordeiro, quando Abraão esteve prestes a sacrificar seu filho Isaac, mas Deus enviou o cordeiro e mandou que ele não tocasse no filho. Eu não fazia ideia que Abraão também era um personagem importante para os muçulmanos. 

- O livro também nos traz a realidade das guerras enfrentadas no Afeganistão. A queda da monarquia após um golpe efetuado por parentes do rei, a invasão soviética que provocou a morte de tantas pessoas e o pior de tudo: a ascensão do governo extremista Talibã. Quem nunca tremeu ao ouvir a palavra "talibã"? Eu gelo até hoje. Em O Caçador de Pipas podemos ter uma noção do que os talibãs fizeram com o povo afegão, da destruição em massa que eles provocaram. Violências em público, apedrejamento, enforcamento, estupros e assassinatos gratuitos. Qualquer um que fosse contra o governo talibã pagava bem caro. Foi nesse período que ocorreu o genocídio dos hazaras, quando soldados talibãs invadiram muitas casas numa região de predominância hazara, disparando em diversas famílias e arrastando homens e meninos para execuções públicas nas ruas. Milhares de pessoas morreram. Foi um grande massacre. 

- É possível que, como eu, vocês também tenham se perguntado o que são "hazaras". Hassan, meu personagem preferido do livro, era um hazara, algo que intensificava as humilhações que ele sofria e fazia com que a sociedade o considerasse menos valioso que o objeto mais medíocre. Portanto, eu fui pesquisar quem eram os hazaras. Segundo a Wikipédia: "Os hazaras são um povo que sofre profunda discriminação étnica dentro do seu próprio país, pois a maioria fundamentalista sunita, viam os hazaras como infiéis que mereciam morrer. Eles não tinham a aparência que devia ter um afegão e não faziam suas devoções como devia fazer um muçulmano. Dizia um ditado afegão: "Aos tadjiques o Tadjiquistão, aos usbeques o Usbequistão, e aos hazaras o goristão (cemitério).




Este foi o meu livro escolhido para ler em abril no Desafio 12 Meses Literários. Todavia, pelos motivos que expliquei no início da resenha, adiei a leitura e não concluí a tempo. Mesmo assim li. :) 
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