31 de março de 2020

A Dama das Camélias - Alexandre Dumas Filho

Tempo de leitura:
Literatura Francesa
Título Original: La dame aux camélias
Tradutora: Caroline Chang
Editora: L&PM Pocket
Edição de: 2004
Páginas: 224
16ª leitura de 2020

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: Armand Duval é um jovem estudante de Direito na Paris de meados do século XIX. Jovem recatado, vindo de uma respeitável família burguesa interiorana, apaixona-se por Marguerite Gautier, nada mais nada menos que a mais cobiçada cortesã dos salões e teatros parisienses. Marguerite – vendida, corrompida, perdulária, amante de vários homens – corresponde ao amor do jovem, que provoca uma reviravolta na vida da jovem prostituta. Mas o futuro dos dois amantes enfrenta os mais rígidos obstáculos.
Escrito pelo francês Alexandre Dumas filho a partir da sua experiência autobiográfica com a cortesã Marie Duplessis, A dama das camélias é uma das mais célebres narrativas longas do século XIX – o próprio século de ouro do romance europeu. No livro, lançado em 1848 com enorme sucesso, assim como em toda a sua obra, Alexandre Dumas filho – filho bastardo do autor de O conde de Monte Cristo, Os três mosqueteiros – faz um ajuste de contas com a sociedade que o humilhara. A dama das camélias foi adaptado para o cinema e teatro inúmeras vezes, entre as quais na ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. A engenhosidade da estrutura, a limpidez e beleza do estilo, a honestidade no tratamento de uma das mais antigas facetas da sociedade humana – a prostituição – e a pungência com que desvenda as hipocrisias humanas fazem-na a obra-prima de Alexandre Dumas filho, que ainda hoje se lê de um fôlego só.



Não sei nem como começar a falar deste livro que mexeu tanto com as minhas emoções e me fez ficar um longo tempo refletindo, "viajando" para bem longe do "agora". Fiquei perdida em pensamentos ao final desta leitura, tentando entender como a vida pode nos levar para tão longe dos nossos sonhos. É comum dizerem que a vida é feita de escolhas, que você colhe o que plantou. Mas... Nem sempre isso é verdade. Muitas vezes o destino, ou seja lá que nome você prefira dar, nos aprisiona numa realidade na qual "escolha" é utopia, na qual colhemos não o que plantamos, mas as consequências do que foi plantado por outras pessoas. 

"Exorto o leitor a se convencer da veracidade desta história, da qual todos os personagens, com exceção da heroína, ainda vivem."

Filho bastardo do grande escritor de O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas filho foi afastado da mãe ainda pequeno e matriculado em ótimas instituições de ensino para que lhe fosse assegurada uma boa educação. Se por um lado a dor de sua mãe lhe serviu de inspiração para a criação de suas personagens femininas, por outro lado, o talento de seu pai e os círculos aos quais teve acesso o incentivaram a tornar-se escritor. Em sua juventude, apaixonou-se por uma famosa cortesã com quem manteve um relacionamento por alguns poucos anos, até perceber que seria impossível continuar. Pouco tempo mais tarde, ainda muito jovem, ela veio a falecer de tuberculose e o impacto de sua morte serviu de fonte de inspiração para que o autor escrevesse aquela que se tornaria a sua mais famosa obra: A Dama das Camélias, romance de cunho autobiográfico, que até hoje emociona milhares e milhares de leitores no mundo todo. 

"Pobre moça", eu me dizia ao entrar em minha casa. "Deve ter morrido de modo muito triste, pois, no seu mundo, só se tem amigos quando se está bem." E, involuntariamente, eu me compadecia da sorte de Marguerite Gautier. 

A história começa já com a morte da protagonista, nossa pobre Marguerite, que tinha pouco mais de vinte anos quando acabou falecendo de tuberculose, mesma doença que acometeu sua mãe e que ela dizia ter sido a única herança deixada por sua genitora. Do passado dessa jovem pouco sabemos a leitura inteira. A única coisa significativa é que ela foi agredida pela mãe ao longo de doze anos (conforme descobrimos durante uma conversa dela com o Armand) e que foi "introduzida" como cortesã naquele círculo social por um determinado nobre. Em que circunstâncias ela cresceu e o que a levou até ali não sabemos. Porque basicamente o que nos é contado é a vida de Marguerite a partir do momento em que ela conhece Armand Duval e são as lembranças dele, o ponto de vista dele, que eterniza a jovem mulher, cujo destino foi sofrer e cujo túmulo nenhum daqueles que tanto a "adoraram" em vida se importaram em visitar. 

"Marguerite era bela, mas assim como a requintada vida dessas mulheres causa alvoroço, a morte delas não o faz."

O narrador dessa história, quem nos conta o amor proibido vivido por Marguerite e Armand, não teve participação direta nos acontecimentos, nem sequer foi amigo próximo do casal enquanto a jovem era viva. Ele a conhecia de vê-la passar, mas nunca trocaram uma palavra. Foi o acaso que o tornou confidente de Armand, pouco tempo depois do falecimento da moça, e desta forma conhecer profundamente o amor e a dor vivida pelos dois. 

Um cartaz anunciava um leilão de móveis, com objetos de grande valor. Leilão este realizado após a morte da proprietária dos bens. Por curiosidade, o narrador resolveu visitar o apartamento, que estava aberto ao público. Enquanto admirava os móveis e objetos que continham diferentes iniciais, testemunhas silenciosas dos diversos amantes que aquela jovem teve em sua curta vida, ele recordou uma outra moça, cuja tristeza de certa forma o marcou. Louise era filha de uma velha cortesã que em sua velhice exigiu que a filha a sustentasse do mesmo modo que foi sustentada, sendo a moça pouco mais que uma criança. A inocência daquele rosto e o sofrimento visível para qualquer pessoa o impressionaram. Jogada numa vida da qual não queria fazer parte, sendo obrigada pela mãe a se prostituir para sustentá-la, Louise engravidou bem cedo e o que momentaneamente lhe deu alegria (a única alegria que o destino lhe deu e que também arrancou) significou a sua morte: não querendo que um bebê atrapalhasse as coisas, a "mãe" de Louise a forçou a abortar e poucos meses depois a jovem veio a falecer, em decorrência do procedimento realizado pela parteira. 

A história de Louise e outras situações que testemunhou em sua vida fizeram o narrador pensar duas vezes antes de julgar e condenar uma mulher. Foi também naquela menina que ele pensou enquanto caminhava pelo apartamento de Marguerite e embora não a conhecesse bem, a tristeza que sentia pela outra o fez sofrer por aquela. 

"Por que nos faríamos mais rígidos que Cristo?"

Embora tivesse comparecido ao leilão por simples curiosidade e não pretendesse adquirir nada, um livro acabou por chamar a atenção do narrador. Um exemplar de Manon Lescaut, que poderia ser facilmente encontrado por um preço acessível em todo lugar. Mas algo naquele livro, que havia pertencido à Marguerite, o atraía e não desistiu até adquiri-lo, mesmo pagando por ele um preço bem acima do normal. 

Na dedicatória daquele exemplar estava a assinatura de Armand Duval e seria justamente esse livro que aproximaria Armand do narrador. 

Ao receber a carta de Marguerite enquanto ele estava no exterior, quando uma separação amarga pôs fim ao amor que viveram, Armand ficou desesperado e partiu imediatamente, desejando rever sua amada, segurar suas mãos no último instante. Mas o destino não lhe permitiu chegar a tempo. Assim, transtornado pelo sofrimento, ele descobriu que todos os objetos do apartamento tinham sido leiloados e que o livro que tinha dado à Marguerite também estava entre os bens vendidos. Descobrindo o nome e o endereço do comprador, foi até a casa dele (do narrador da história) suplicar que ele lhe devolvesse aquele livro, que estava disposto a pagar para tê-lo de volta. O narrador, comovido pela dor daquele jovem, não aceita o dinheiro, apenas lhe entrega o livro, sabendo que para Armand aquele objeto significava muito. É a partir daí que os dois se aproximam, se tornando grandes amigos. É o narrador que será testemunha de uma das cenas mais dolorosas do livro, que nos remete ao clássico O Morro dos Ventos Uivantes. Por não ter visto Marguerite em seus últimos momentos, Armand necessitava vê-la mesmo que morta... e ela já estava enterrada, então vocês podem ter uma ideia do que ele vai fazer. A cena é muito triste. Me levou imediatamente ao morro dos ventos uivantes e à dor do Heathcliff pela morte da Catherine. 

"- E quando penso - retomou - que ela morreu sem que eu a pudesse rever, e que jamais a verei novamente. [...] não me perdoo por tê-la deixado morrer assim. Morta! Morta! Pensando em mim, escrevendo e dizendo o meu nome, pobre querida Marguerite!"

É após a impactante cena em que Armand vê o corpo de Marguerite (que tinha sido enterrado há mais de um mês) e sofre um abalo emocional profundo, caindo vítima de uma febre cerebral e ficando preso à cama, que somos levados de volta ao passado. Armand, creio que numa tentativa de encontrar algum perdão diante de Deus por todo o mal que fez à sua amada antes da morte dela (coisas que vocês só irão descobrir lendo o livro), resolve contar tudo ao narrador, que agora era seu amigo e testemunha de seu sofrimento. 

"Nos consolamos, contando aquilo que sofremos."

Percebemos, ao longo da leitura, que não se trata apenas de um desabafo, de contar a dor para que ela diminua. Armand sentia culpa, muita culpa, e a conversa que ele tem com o narrador acaba sendo uma espécie de confissão. Como eu disse, a sensação que tive era que Armand buscava o perdão de Deus e também o de Marguerite, a quem ele não teve tempo de rever, de suplicar que o perdoasse e o deixasse livre daquela culpa. Ele cometeu muitos erros. Embora tenha sido a única pessoa que a amou nesta vida, embora tenha desejado construir um futuro ao lado dela... por ter sido o único homem que ela amou e, portanto, sendo o único que tinha o poder de feri-la de verdade, foi também a pessoa que mais a magoou. E isso torna a história dessa pobre moça ainda mais triste do que ela já seria. Ao acompanharmos as páginas finais, quando temos acesso às palavras da Marguerite (os escritos de seu diário), não suportamos a intensidade daquele sofrimento. Foi nessas cenas finais que caí em prantos. Foi nesse momento que o livro se tornou mais doloroso para mim. Até ali eu estava conseguindo me controlar, mas depois de ler o que ela escreveu e ainda as palavras da amiga que esteve com ela nos últimos dias... não deu mais. Todo o controle escapou. Sofri demais por essa protagonista. Por tudo o que lhe foi negado. Por toda dor que teve que suportar. Por todas as escolhas que não pôde fazer. 

"Oh! Eu daria dez anos da minha vida para chorar uma hora a seus pés."

Eu não sei muito o que pensar do Armand, sinceramente. Ele era um jovem de vinte e quatro anos, recém-formado em direito e que levava a vida de maneira despreocupada como outros jovens de sua época, embora fosse um tanto mais introvertido. Ele não tinha responsabilidades e se envolver com prostitutas era algo comum aos jovens do seu círculo social. Algo aceitável para a sociedade, desde que não passasse disso e não provocasse "escândalos". Quando se percebe interessado pela Marguerite, uma jovem cortesã que tinha sido amante de grandes membros da nobreza, ele acha que logo ficará curado dessa "paixão". Então, ele era mais um que apenas queria usá-la, embora, diferente de outros, não tivesse fortuna o suficiente para mantê-la no luxo ao qual ela estava acostumada. O que de modo algum o faz desistir. Ele precisava dela. Precisava possuí-la para se libertar daquele sentimento. Mas...

O momento em que consegue se aproximar dela é justamente uma noite em que Marguerite passa muito mal. Acometida por uma tosse muito forte, ela tem dificuldade para respirar, bem como a tosse a faz colocar sangue pela boca, numa cena que provoca certo impacto em quem está lendo. Neste momento já percebemos que Marguerite está seriamente doente, embora ela vá ter períodos de aparente melhora quando os sintomas praticamente desaparecem. É nesta cena que Armand derruba as defesas da protagonista. Porque enquanto para as duas outras pessoas presentes na ocasião aquele sofrimento não fosse "nada" (mesmo que uma dessas pessoas fosse supostamente sua melhor amiga) para Armand foi terrível. Ele ficou verdadeiramente preocupado com ela e como nenhum ser humano jamais se importou com sua dor, Marguerite ficou vulnerável. Ela se permitiu vê-lo como alguém diferente dos outros homens, como se ele realmente a amasse. E não quis com ele uma relação de cortesã com seu cliente. Ela quis o amor. Ela quis uma relação normal e jogou tudo para o alto em nome desse sentimento. 

"Você me ama como se eu jamais tivesse pertencido a alguém, e tremo à ideia de que mais tarde, se arrependendo do seu amor e vendo o meu passado como um crime, você me force a me jogar, novamente, na existência em meio à qual você me resgatou. Pense: agora que experimentei uma nova vida, eu morreria ao retornar àquela outra."

Dói ver o quanto Marguerite acreditou que poderia ser feliz, que aquela relação poderia dar certo. A ingenuidade dela parte nosso coração, pois acredito que qualquer leitor consegue perceber que os sentimentos do Armand por ela são frágeis, influenciáveis. Talvez seja apenas uma impressão minha, mas eu não confiei no sentimento do Armand. Não confiei cem por cento, entende? Eu sabia que ele sentia algo por ela, mas não sei se chamaria aquele sentimento de amor. Possivelmente era amor sim, até porque ele tenta realmente esquecer o passado dela, tenta ter uma relação normal com ela... mas se era amor não era forte o suficiente para resistir aos obstáculos.

Mesmo após terminar a leitura fiquei sem saber o que pensar do Armand. Não me sinto no direito de afirmar que ele não a amou de verdade, pois no fundo acredito que, do modo dele, a amou sim. A amou do modo que sabia amar. Sofreu bastante pelas ilusões destruídas e por seus próprios erros. Mas sigo pensando que toda a dor que explode com a morte da Marguerite foi... culpa. Ele não suportava a culpa. 

"Quando penso que ela agora está morta, pergunto-me se Deus jamais me perdoará o mal que fiz."

É um livro profundo e doloroso. Qualquer pessoa com um mínimo de sensibilidade vai se comover. Do Armand confesso que não tenho muita pena. Me desculpem, mas não considerei que merecia tanto assim que eu sofresse por ele. De certa forma, vocês percebem que não simpatizei tanto assim com o personagem. Não gosto que as pessoas fiquem ferindo aquelas que elas dizem amar, muito menos quando ferem de propósito, se aproveitando do poder que têm sobre aqueles que as amam. E é justamente o que o Armand faz. Ele fere de propósito. E não serei eu a ter pena por ele não ter tido tempo de pedir perdão por seus erros, quando foi a Marguerite quem ficou destroçada por culpa dele. Se tem alguém que merece o meu carinho e as minhas lágrimas é a Marguerite. O fim dela foi muito triste, toda sua vida foi uma tristeza e amar não passou de um castigo. Ela não merecia nada disso. Não merecia esse sofrimento. Lembrarei dessa personagem por toda minha vida, como até hoje lembro da Lucíola, de José de Alencar. 

"É preciso que tenhamos feito muito mal antes de nascer, ou que gozemos de uma felicidade muito grande depois de nossa morte, para que Deus permita que esta vida tenha todas as torturas da expiação e todas as dores da provação."

Eu recomendo muito a leitura deste livro. Dei 5 estrelas sem pensar duas vezes e só não favoritei porque queria que o autor tivesse mostrado o passado da Marguerite, a história de vida dela antes de ela conhecer o Armand. 


Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

7 comentários:

  1. Já ouvi tanto o título deste livro e não sabia que ele era do Alexandre Dumas. Jpa fiquei bem interessada e sua resenha está completíssima.
    Beijos

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  2. Olá, tudo bem? Sempre é maravilhoso quando descobrimos uma história que mexe com nossas emoções né?! Não conhecia a obra, admito, porém após seus relatos fiquei super curiosa. É uma temática que também me abala e mexe com minhas emoções, então dica super anotada! Adorei!
    Beijos

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  3. Olá tudo bem ?
    Adoro livros que tocam a nossa almam, falam com nosso interior. Esses são os livros que realmente cumprem um propósito. É um livro forte e que eu não conhecia.
    Adorei sua resenha.
    Beijos
    www.estilo-gisele.blogspot.com.br

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  4. Oi, Luna.
    Que delícia essa sua resenha. É sempre bom encontrar críticas de livros clássicos!
    Adorei saber mais sobre a história! Fiquei com bastante vontade de ler!
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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  5. Oi, Luna! Eu não tive oportunidade de ler ainda esse clássico, mas já conhecia a história do autor. Sabia que era uma história meio autobiográfica, mas a intensidade do romance realmente me surpreendeu.
    bjos
    Lucy - Por essas páginas

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  6. Nossa, eu li esse livro há muitos anos atrás. Confesso que não lembrava totalmente do desenrolar da história, e ler suas impressões me fez ter vontade de reler a obra. Hoje meu gosto literário é bem diferente desse, mas clássico é clássico, né.

    ;D
    Nelmaliana Oliveira
    Profissão: leitora

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  7. Oie, que resenha mais linda! Certamente a minha professora de literatura ia amar ler isso aqui hahaha. Eu também acho essa uma literatura bastante dolorosa porque mexe tanto com o sentimentalismo, né? A gente realmente fica muito tempo pensando a respeito, é uma leitura que reverbera.

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