13 de julho de 2020

Flores para Algernon - Daniel Keyes

Tempo de leitura:
Literatura norte-americana
Título Original: Flowers for Algernon
Tradutora: Luisa Geisler
Editora: Aleph
Edição de: 2018
Páginas: 288

36ª leitura de 2020

Sinopse: Uma cirurgia revolucionária promete aumentar o QI do paciente. Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual severa, é selecionado para ser o primeiro humano a passar pelo procedimento. O experimento é um avanço científico sem precedentes, e a inteligência de Charlie aumenta tanto que ultrapassa a dos médicos que o planejaram. Entretanto, Charlie passa a ter novas percepções da realidade e começa a refletir sobre suas relações sociais e até o papel de sua existência. 
Delicado, profundo e comovente, Flores para Algernon é um clássico da literatura norte-americana. A obra venceu o prêmio Nebula e inspirou o filme Os Dois Mundos de Charlie, ganhador do Oscar de Melhor Ator, um musical na Broadwaye homenagens e referências em diversas mídias.




Eu tinha ouvido falar muito sobre este livro, mas de modo algum poderia imaginar que ele me marcaria tanto. Que me destroçaria. Que me faria pensar em tantas coisas...

Não sei como falar de tudo o que sinto, do quanto fui impactada pelo Charlie e a história dele. Como chorei até não ter mais forças. Quando nos colocamos no lugar deste protagonista sentimos sua dor em nossa pele, sentimos como se tudo aquilo estivesse acontecendo em nossa vida. E é simplesmente horrível. 

"[...] inteligência e educação sem doses de afeto humano não valem droga nenhuma."

Charlie Gordon é um homem de 32 anos com uma deficiência intelectual grave, que desde os 15 anos trabalhava como faxineiro na padaria de um amigo de seu tio. Muito esforçado, sonhava em aprender a ler e escrever, algo que nunca tinha conseguido, e por isso buscou se matricular em aulas especiais voltadas para adultos com problemas de aprendizado, que lutavam para aprender o máximo que pudessem. 

Inocente como uma criança, acreditava ter muitos amigos entre seus colegas de trabalho e não percebia o desprezo, a zombaria e os ataques deles, enxergando tudo como uma "brincadeira", incapaz de notar a maldade daqueles que tanto admirava e tinha como sua família. Não conseguia recordar o seu passado. Esquecia logo em seguida muito do que aprendia; em suas próprias palavras "não sabia pensar", não lembrava como tinha chegado naquela padaria na qual trabalhava há dezessete anos e nem quem eram os seus pais, se estavam vivos ou mortos, onde moravam... Nada. Seu passado era como uma página manchada, na qual todas as informações tinham sido cobertas com tinta. 

Por conta de seu esforço em aprender a ler e escrever, mesmo com inúmeras dificuldades, foi escolhido como o primeiro ser humano a ser submetido a uma cirurgia que prometia "tornar a pessoa inteligente". Os cientistas envolvidos no experimento viam que as vantagens, as chances de sucesso eram muito maiores que os riscos e tinham quase total confiança que daria certo. 

"Depois da operasão vou tentar ser esperto. Vou tentar com toda minha força."

Fascinado com a promessa de ser tão esperto quanto as outras pessoas e com isso fazer mais amizades, Charlie aceita ser usado naquela experiência, mesmo que também sentisse medo. A cirurgia acaba sendo um grande sucesso, possibilitando que ele vá muito além de simplesmente aprender a ler e escrever. Sua inteligência supera as expectativas. Quanto mais o tempo passa, mais inteligente, excepcional ele se torna, ao ponto de ser considerado um gênio. Mas... tudo na vida tem um preço. 

"Apenas pouco tempo atrás aprendi que as pessoas riam de mim. Agora consigo ver que inconscientemente me juntei a eles, rindo de mim mesmo. Isso dói mais que tudo."

Com a inteligência desenvolvida, as manchas de seu passado começam a ser eliminadas e com elas... muitas lembranças, enterradas no mais profundo do seu ser, são recuperadas. Lembranças dolorosas. Afiadas como uma faca. Capazes de muitos danos... Além disso, com a cirurgia e o desenvolvimento mental, a inocência de sua infância, mantida por tanto tempo por conta de sua deficiência, também o deixa... fazendo com que ele enxergue a verdade sobre os seus "amigos". 

Confrontado pelo mundo real e a capacidade nociva do ser humano, Charlie se questionará se terá valido realmente a pena saber... Se não teria sido melhor permanecer no escuro. 

"O que fiz para que me odiassem tanto?"

Eu sei em que tipo de mundo nós vivemos. Sei que o ser humano é capaz das mais terríveis coisas. Sei que muita injustiça é cometida e que nunca entenderei por que milhares de pessoas passam por grandes sofrimentos a vida inteira, mal conhecendo a felicidade, o amor, a proteção, a paz. Mesmo assim, sempre que leio um livro que "revela" mais da capacidade destrutiva daqueles chamados de seres humanos, não consigo evitar me sentir chocada, revoltada... Pensando como, meu Deus!, as pessoas conseguem ser tão ruins... Eu chorei muito com este livro. Principalmente quando o passado de Charlie começou a ser mostrado. Ninguém maltrata uma criança ou qualquer outra pessoa, simplesmente porque ela não consegue aprender o que se está tentando ensinar. Ninguém maltrata nem mesmo um animal por ele não fazer as coisas do jeito que a pessoa quer. Qualquer suposto ser humano que faça isso, com uma pessoa ou com um animal, tem um sério problema. E esse problema é a maldade. Somente alguém muito ruim é capaz de coisas tão desprezíveis como as que fizeram com o Charlie em seu passado. 

E imaginem o que é para uma criança ser maltratada não só por estranhos, por pessoas de fora, mas também por aqueles que deveriam protegê-la. Isso foi o que mais partiu meu coração. Eu quis pegar o Charlie e escondê-lo do mundo, quis agredir a família dele, quis fazer com eles o que fizeram com aquela criança. Eu senti muito ódio. E nada no mundo me fez perdoar os lixos de seres humanos que fizeram tanto mal ao Charlie. Eles não mereciam perdão nenhum. 

É difícil falar racionalmente sobre Flores para Algernon quando ainda estou tomada pela emoção. Quando ainda sofro tanto ao lembrar de tantas cenas. Charlie foi muito mais forte do que eu jamais seria nesta ou em qualquer outra vida. Jamais teria a sabedoria dele, sua capacidade de recomeçar... de enfrentar um passado tão cheio de dor e ainda assim lutar por um futuro. 

Eu cresci muito com o Charlie. Conforme ele ia se desenvolvendo rapidamente e se tornando um grande gênio, muito tinha a nos ensinar. Todavia, os ensinamentos começaram bem antes disso. Quando era visto por todos como um "retardado mental" e desprezado por isso, ele nos ensinava sobre gentileza, dedicação, sobre amar e ajudar o próximo.... Sobre nunca desistir. Lutar sempre para realizar um sonho, mesmo que tudo esteja contra nós, mesmo que pareça impossível alcançar aquilo que tanto sonhamos. Eu nunca poderei esquecê-lo. Nem o Charlie inocente, com tantas dificuldades e aquele sorriso ingênuo no rosto e nem o Charlie pós-cirugia, que se tornou um homem tão inteligente e passou a questionar tantas coisas sobre si mesmo, os outros e o mundo. Que "enxergou" a realidade, mas não se conformou. Eu vivi tantas coisas com este personagem... Ainda me sinto dentro da história. Ainda não consigo me despedir do livro. 

"Sinto medo. Não da vida ou da morte ou do nada, mas de desperdiçá-la como se eu nunca tivesse existido."

Tudo o que conhecemos na história é através das palavras do Charlie, numa narrativa epistolar, em forma de relatórios, como se fossem diários. Para poderem acompanhar o desenvolvimento do protagonista, os cientistas envolvidos no experimento ao qual ele foi submetido, pedem que comece a escrever "relatórios de progresso" antes mesmo da cirurgia e que siga escrevendo depois, para que eles possam saber o que se passa na cabeça dele e como a sua escrita e seu raciocínio se desenvolveriam. Ao todo temos 17 relatórios de progresso, ou seja, 17 capítulos. E não se enganem com o fato do livro ter apenas 288 páginas. Muita coisa acontece. Sorrimos, mas também derramamos muitas lágrimas ao longo da leitura. E ao final sentimos como se tivéssemos corrido vários quilômetros, pois encerramos o livro esgotados. Física e emocionalmente. 

"A solidão me dá uma chance de ler e pensar, e agora que as memórias estão voltando de novo, de redescobrir meu passado, de descobrir quem e o que realmente sou. Se algo der errado, pelo menos terei isso."

É um livro que com certeza recomendo MUITO. Sem pensar duas vezes, sem hesitar. Aprendi demais com esta história e ela me fez refletir sobre muita coisa importante, sobre situações na minha própria vida. Não a leria de novo, pelo tanto que sofri, mas jamais a esquecerei. Não coloquei o livro na minha lista "racional" de favoritos, mas meu coração tem outras ideias. Embora eu não aceite que o livro seja um favorito, por conta de algo que se eu falasse seria spoiler, meu coração me diz que o favoritou e não está nem aí para o que penso.rs

Flores para Algernon foi escolhido para uma leitura coletiva da qual participei no WhatsApp. Foi maravilhoso tê-lo lido em grupo, pois eu necessitava muito falar sobre o que sentia, sobre coisas que não poderia compartilhar com vocês na resenha, pois seriam spoilers enormes sobre o livro. É por isso que amo tanto leituras coletivas e já participei de várias este ano: porque podemos conversar sobre o livro lido, sem medo de estragar a leitura de ninguém, já que quando o debate acontece, todos já leram e não há problema em falar sobre tudo o que aconteceu no livro.rs


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Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

6 comentários:

  1. ola tudo bem ? então esse livro está deixando muita gente com lagrimas ,vi booktuber resenhando e chorando sobre esse livro
    esse livro é uma perola que foi escrito em 1966 e hoje ao ser relançado traz esses questionamentos a respeito do ser humano e do quanto ele pode ser cruel ,e pensar que ainda hoje nós vemos crianças sendo maltratadas porque as vezes não consegue realizar um trabalho escolar ... isso acontece com mais frequencia do que deveria ,infelizmente .Ainda não li o livro mas quero muito e só não participp de leituras coletivas porque sempre o livro escolhido eu não tenho .Não compro livros fora de uma boa promoçao
    mas que bom que a experiencia com leituras coletivas está sendo bom para voce
    bjs

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    1. Olá, Eliane!

      Eu quase desidratei de tanto chorar. É uma história que mexe muito com a gente. Ficamos pensando justamente nisso, no quanto o ser humano pode ser ruim, como maltrata pessoas que não podem se defender, que não tiveram as mesmas oportunidades. Enfim... O mundo é muito injusto.

      Eu geralmente participo das leituras coletivas quando já tenho o livro, físico ou em e-book da Amazon. Flores para Algernon eu tenho em e-book, que comprei numa baita promoção que teve ano passado, se não me engano. Se não for assim, realmente a leitura coletiva acaba não valendo a pena, pois nos faz gastar mais.

      Obrigada, querida!

      Bjs!

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  2. Sua resenha me emocionou!!!
    Eu amo demais esse livro e ele é um dos favoritos da vida e eu acho que deveria ser leitura obrigatória para todo ser humano. Vivemos em um mundo cheio de pessoas horrorosas que precisam realmente se dar conta do mal que fazem aos outros com suas atitudes mesquinhas.
    Amo, amo e amo esse livro.

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  3. Sua resenha me tocou e confesso que me deixou bem curiosa para ler essa obra. O bom de participar de LC é isso: compartilhar todos os sentimentos com outras pessoas, sem se preocupar com spoiler. Enfim, adicionando esse livro na minha listinha, pois ele parece bem intenso e um tipo de leitura que eu realmente gosto.

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  4. Oi oi,
    Ainda não li essa obra, mas só leio resenhas tocantes e que me emocionam imensamente e tudo por causa do enredo e do personagem muito bem construído e desenvolvido. Espero ler ainda esse ano e gostar tanto quanto você e todos que leram e se emocionaram com Charlie.

    Beijoss, Enjoy Books

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  5. Já tinha lido vários comentários por aí sobre esse livro, mas não tinha lido uma resenha sobre ele anda. O enredo parece se realmente intenso e impactante, você me despertou a curiosidade, quando der quero ler esse livro.

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