29 de junho de 2020

A Morte de Ivan Ilitch - Lev Tolstói

Tempo de leitura:

34ª leitura de 2020

Sinopse: Obra do escritor russo Liev Tolstói, publicada em 1886, retrata a história de um juiz de instrução bem posicionado socialmente que fica doente de uma hora para outra. Ao se confrontar com a morte, Ivan Ilitch começa a perceber o vazio de uma vida baseada em aparências. Sua percepção se amplia à medida que observa a reação à doença da família e dos colegas de trabalho, para quem ele havia se tornado um estorvo a ser evitado. A narrativa, célebre pela profundidade que atinge em menos de cem páginas, é um acerto de contas de Ivan Ilitch consigo mesmo, quando se vê na mais absoluta solidão. Considerada por muitos literatos a mais perfeita novela da literatura universal, A morte de Ivan Ilitch ganha versão em HQ pelas mãos do quadrinista Caeto (premiado por Memória de elefante), com base na tradução de Boris Schnaiderman.






Literatura Russa
Título Original: Smiert Ivana Ilitcha
Tradutor: Irineu Franco Perpetuo
Editora: Folha de São Paulo
Edição de: 2016
Páginas: 80
35ª leitura de 2020

Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura #4

Sinopse: Célebre por romances monumentais como Anna Kariênina e Guerra e paz, o conde russo Lev Nikoláievitch Tolstói era também um mestre da narrativa curta, como fica evidente em A morte de Ivan Ilitch, que Paulo Rónai considerava "a mais perfeita e a mais vigorosa" de todas as novelas. Tolstói utiliza a agonia de um jurista bem-sucedido para refletir sobre questões filosóficas como o sentido da vida e a inevitabilidade da morte, e sua opção por uma linguagem simples e direta não deve ser confundida com falta de elaboração literária. Na opinião de Vladímir Nabókov, "ninguém na década de 1880 escrevia assim na Rússia", e a novela pode ser vista como precursora do modernismo russo, mesclando "toques de fábula", uma "entonação terna e poética" e um "tenso monólogo mental", no qual Tolstói aplica a técnica de fluxo de consciência. Despojamento vocabular e sofisticação estilística se unem em uma narrativa profunda e poderosa.





Como eu tinha que ler uma HQ para o Desafio Literário Livreando 2020 e escolhi A Morte de Ivan Ilitch, decidi que eu poderia ler também o texto integral, pois nunca dou preferência para uma adaptação. Sempre prefiro o texto completo e me sentiria muito incomodada se ficasse só com a HQ, até porque eu tenho o livro físico e é uma história com menos de 100 páginas.

Ironicamente, levei quatro dias para terminar a leitura da HQ e poucas horas para ler o texto integral.kkkkkk Isso provavelmente se deve ao fato de eu não ter o hábito de apostar em histórias em quadrinhos e a leitura me causou certa estranheza; eu queria voltar ao meu "normal" e ficava abandonando o livro o tempo todo. Só avancei na leitura da HQ quando peguei o texto integral para ler. Só assim é que deu certo.rs

"A história pregressa da vida de Ivan Ilitch era a mais simples e corriqueira, e a mais terrível."

O livro nos traz a história de Ivan Ilitch, um juiz de quarenta e cinco anos que se vê, de repente, diante da morte. Ele sempre manteve o total controle da própria vida, batalhando para chegar onde desejava, para se ver rodeado de pessoas importantes, para se sentir parte de um círculo social que ele tanto admirava. Mesmo com altos e baixos, tinha chegado a alcançar parte do que tanto sonhara e vivia a "fachada" ideal. Até que... um gosto "estranho" na boca e uma dor na lateral da barriga começa a incomodá-lo.

O que, inicialmente, ainda não era uma dor intensa nem nada, começa a se agravar. E com isso vem o mau humor. Tudo o irritava, tudo o tirava do sério. Não conseguia mais se concentrar direito no trabalho ao qual tanto se dedicara por quase duas décadas... nem mesmo seu jogo preferido era capaz de acalmá-lo. A dor estava ficando insuportável. E o médico que ele consultara não deixara claro se o que tinha era grave, se era possível levá-lo à morte. Só que ele estava ficando tão mais debilitado com o passar dos dias, que passou a te certeza da morte, mesmo que isso o levasse ao completo desespero.

Consultar outros especialistas se transformou em necessidade. Precisava de uma segunda, terceira, quarta... quantas opiniões fossem! Até mesmo buscara um homeopata. Mas todos os tratamentos sugeridos (cada médico dizia uma coisa e passava um tratamento diferente) não provocaram nenhuma melhora. Ele sentia a morte cada vez mais perto... até mesmo podia vê-la. Ela parecia determinada a levá-lo. Não importava quantos médicos buscasse ou quais tratamentos seguisse... a sua hora havia chegado.

"Não existirei, e o que existirá? Nada existirá. E para onde vou quando não existir mais?"

Quando a história começa, Ivan Ilitch já está morto. Isso não é spoiler para ninguém. Está na primeira página. Seus "amigos" ficam sabendo do ocorrido através do jornal. E o que eles sentem? Tristeza pela morte do amigo querido? Não mesmo! Eles ficam um tanto empolgados... porque a morte de Ivan Ilitch representaria transferências e promoções. Alguém ficaria com o cargo dele, agora desocupado. E aquele que ficasse no lugar dele também deixaria uma posição anterior vaga... Então, tudo gira em torno disso entre os amigos do falecido. Ninguém ali gostava dele de verdade.

Algo semelhante também ocorre em sua casa. Ele não se casara por amor. Passara boa parte da sua vida ao lado de uma mulher que desprezava e que parecia nutrir sentimentos semelhantes por ele. Um casamento de conveniência que se transformou em completa frieza com o passar dos anos. Nem mesmo se respeitavam. Assim, ela não lamentou com sinceridade a perda. Pensava apenas no que conseguiria tirar do governo em razão da morte de seu marido. Sua filha mais velha estava prestes a se casar e começar a própria família e seu filho caçula era o único que parecia sentir de verdade a sua morte.

Esta leitura nos provoca angústia por conta da agonia do protagonista. Embora o livro comece por sua morte, nós somos levados de volta ao seu passado e o narrador vai nos contando sobre o curso de Direito, os primeiros anos como funcionário público até que Ivan chegasse a juiz de instrução, se casasse, tivesse filhos (alguns deles tendo morrido ainda na infância), as dificuldades financeiras e os anos bons. Mas em todo tempo percebemos: tudo o que ele construiu foi uma fachada, uma vida de aparências. Ele ambicionava fazer parte dos círculos mais altos da sociedade e tudo o que construiu foi para aparentar algo que nunca existiu, foi para satisfazer seu orgulho. E no fim foi tudo tão... vazio. Simplesmente isso: puro vazio.

"Chorava devido ao desamparo, à terrível solidão, à crueldade das pessoas, à crueldade de Deus, à ausência de Deus." 

A HQ é bem fiel ao livro original. Ela mantém toda a essência da história e as ilustrações são muito boas, embora eu sinta uma estranheza por não estar acostumada a ler histórias em quadrinhos. É algo que ainda preciso aprender.rs Todo sofrimento físico e emocional do protagonista fica evidente nas imagens e as partes mais importantes do texto integral foram preservadas. Eu gostei das duas leituras. Não é uma história arrebatadora, mas mexe com a gente, nos faz refletir sobre a vida e a morte... sobre o sentido de existir e o destino de todos nós. Sentimos compaixão pelo protagonista, por sua dor... pelo tormento emocional que ele vive ao perceber que está mesmo morrendo, que nada o que fizesse impediria o inevitável fim.

É uma história que sim, vale a pena ler. Não se tornou inesquecível, mas foi uma boa leitura.



-> DLL 20: HQ



Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

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