30 de setembro de 2020

Vidas Secas - Graciliano Ramos

Tempo de leitura:


Literatura Brasileira
Editora: Record
Edição de: 2020
Páginas: 176 

52ª leitura de 2020 (49ª resenha do ano)




Ano passado eu li O Quinze, da Rachel de Queiroz. Um livro que mexeu com minhas estruturas, que abalou minhas emoções e me deixou realmente muito mal. Com uma sensação de agonia. É, sem sombra de dúvidas, um livro que jamais esquecerei. Assim, quando a Kelly, do canal Aventuras na Leitura, colocou Vidas Secas, do Graciliano Ramos, entre os livros a serem lidos no clube de leitura que ela criou no Telegram, eu fquei dividida entre a grande vontade de ler a história e o medo enorme de ficar tão destroçada quanto fiquei com O Quinze

Todavia, Vidas Secas não me provocou o mesmo impacto. Sim, me fez sofrer. Sim, me fez pensar demais no desespero imenso das pessoas que passaram pela seca, das vidas que foram perdidas (tanto de pessoas quanto de animais) e toda a desigualdade social abordada no livro. Mas o estilo narrativo do autor e sua mania de repetição acabou por tornar o livro algo diferente do que eu esperava. Foi sim uma leitura importante e com cenas de abalar qualquer pessoa, mas eu não apreciei a escrita do autor e a forma como ele construiu a história e, sobretudo, os personagens. 

Em suas 124 páginas (minha edição tem 176, mas a história só vai até a página 124), o autor conta a história de Fabiano, sua esposa sinha Vitória, seus dois filhos e a cachorrinha Baleia. 

Descendente de uma família de vaqueiros, Fabiano não teve a oportunidade de estudar, repetindo o destino de seu avô e de seu pai. Vivendo em condições bastante humildes e sob a autoridade de patrões que exigiam tudo de suas forças, mas o enganavam na hora do pagamento, sempre pagando menos do que o devido e ele tendo que aceitar calado para não ser dispensado. 

"Era uma sorte ruim, mas Fabiano desejava brigar com ela, sentir-se com força para brigar com ela e vencê-la."

Sua esposa e seus filhos, bem como sua cachorrinha, tinham acabado de sobreviver a uma terrível seca. Passaram fome, caminhando até passar mal, em busca de algum lugar onde pudessem ter o mínimo para viver, onde ele conseguisse um emprego, um canto para dormir, uma esperança. Foi quando chegaram naquela fazenda e ele conseguiu convencer o dono a contratá-lo. O pior tinha passado, mas a ameaça de outra seca persistia. Era um destino cruel e tudo o que Fabiano gostaria era de poder lutar contra aquela realidade. Mas não tinha forças. Não tinha os meios necessários. Sem alternativas, precisava se submeter e ensinar seus filhos a aceitarem o mesmo. Um dia eles cresceriam e precisavam aprender a fazer o mesmo serviço que o pai, a aceitar a autoridade dos patrões e do governo, a se conformar. 

"Sabia perfeitamente que era assim, acostumara-se a todas as violências, a todas as injustiças."

E o livro vai girar em torno dessa família. Seu destino e seus questionamentos, a situação de miséria na qual vivem e a impossibilidade de mudarem de vida, por mais esperança que alguns deles tenham. Conhecemos um pouco de cada um deles, mas a história acaba por se concentrar mais no Fabiano, um personagem pelo qual até agora eu não sei o que sinto. Terminei a leitura no domingo, hoje já é quarta-feira, e sigo sem saber se gosto ou não do personagem. Acho que nunca saberei. 

A sinha Vitória, esposa dele, foi uma personagem pela qual senti uma mistura confusa de sentimentos. Existiram momentos nos quais admirei sua força, sua esperança, sua vontade de ter uma vida diferente e ir em busca disso. Mas em outros momentos eu senti raiva do seu comportamento, a falta de paciência com os filhos e com a cachorrinha. Ela chegava ao ponto de ser violenta tanto com os filhos quanto com a cachorrinha Baleia e isso me incomodava bastante. Não gosto desse tipo de cena. Eu entendo o contexto, a situação em que viviam e que nenhum ser humano é perfeito, que criar os filhos não é fácil, ainda mais numa realidade como aquela. Sei que ela amava as crianças e a cachorrinha, mas as cenas de agressões me incomodaram muito. E o Fabiano não agia diferente. Na verdade, o comportamento dele era ainda pior. Daí eu dizer que não sei o que sinto por ele, pois na maior parte do tempo ele me provocou raiva. 

Outra coisa que me desagradou na história foi a maneira como queriam condicionar as crianças a terem o mesmo destino, a seguir o mesmo caminho. Quem mais fazia isso era o Fabiano, a sinha Vitória até queria um futuro diferente para os filhos, mas ele parecia entender que deveria educar os meninos a serem como ele, a ter a mesma vida de sofrimentos e submissão. Mais uma vez eu digo que compreendo o contexto da história, mas eram situações que me incomodavam, pois se as crianças faziam perguntas, questionavam, eram silenciadas, os pais se sentiam irritados por elas quererem saber. No entanto, existiram momentos nos quais o próprio Fabiano, em seus pensamentos, desejou que os filhos pudessem ter a oportunidade de estudar. Ele não acreditava que isso fosse mesmo possível, mas desejava. 

"Os meninos eram uns brutos, como o pai. Quando crescessem, guardariam as reses de um patrão invisível, seriam pisados, maltratados, machucados por um soldado amarelo."

A história não aborda só a seca, a miséria, a fome e as gritantes desigualdades sociais, mas também a violência policial e a arbitrariedade do Estado através de cenas que nos provocam muita revolta. Ver pessoas serem tratadas como se fossem "nada" só porque não sabiam se defender, não tinham ninguém por elas, não possuíam estudos ou recursos, me fazia sentir uma imensa raiva e uma sensação de impotência. O tempo passa e nada muda realmente. Porque mesmo nos dias de hoje ainda vemos situações como as vividas neste livro.


"Muito bom uma criatura ser assim, ter recurso para se defender. Ele não tinha. Se tivesse, não viveria naquele estado."

O que mais mexeu com minhas emoções, mais me abalou, foi o que se passou com a cachorrinha Baleia. Não posso falar sobre o assunto para não dar spoilers, mas foi algo que me deixou em estado de choque. Se eu fosse falar tudo o que penso sobre aquilo não só soltaria vários spoilers, como acabaria usando várias palavras de baixo calão para expressar o ódio que senti com aquelas cenas. 

Apesar de ser um livro importante e de ter sim mexido bastante comigo, como eu disse antes, não apreciei a escrita do autor. Não gostei da construção dos personagens e da história e certamente passará um longo tempo até eu dar outra chance aos seus livros. 



-> DLL 20: Um livro nacional
 


Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

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