Persuasão foi o último trabalho completo de Jane Austen. O livro conta a história de Anne Elliot, uma moça que "fora obrigada a ser prudente na juventude, e aprendera o romantismo à medida que envelhecia: a sequela natural de um começo antinatural". Anne é uma das heroínas mais tranquilas e reservadas de Austen, mas, ao mesmo tempo, é uma das mais fortes e abertas às mudanças. O livro enaltece a constância do amor numa época turbulenta na história da Inglaterra: as guerras napoleônicas. Escrito nesse período, o romance descreve como uma mulher pode permanecer fiel ao seu passado e, ainda assim, pensar em um futuro feliz. Austen expõe de maneira sutil como uma mulher pode passar por cima das convenções sociais e das restrições femininas em busca da felicidade.
Palavras de uma leitora...
- A capa acima não é da edição que li, mas sim da que desejo com todo o meu coração.rs Eu a namoro sempre que a vejo nas livrarias, mas sempre acabo tendo que comprar outros livros. :( Faço isso porque tenho vários livros na lista de prioridades e essa edição de Persuasão acaba não sendo por eu já ter o livro em outra edição (que é aquela rosa linda que vem com três histórias). A sinopse acima também não é da que li.
De qualquer forma, a tradução é a mesma e ambas as edições são da Martin Claret. Amo todos os detalhes da minha rosa, é realmente linda. Ocorre que é pesada e um tanto desconfortável para a leitura (letras muito juntas, apertadas ao ponto de você misturar as linhas e ter que voltar a leitura). Tive que ler o livro só quando estava em casa, pois era impossível carregar por aí.rsrs Por isso que quando li Razão e Sensibilidade foi numa edição de bolso. Eu tenho a edição azul de luxo também, contendo outras três histórias da autora, mas não há a menor possibilidade de lê-las nela. Terei que comprar livrinhos de bolso ou ler em e-book. É uma edição que serve para colecionar, mas dificulta muito ler. Enfim...
- Vocês sabem que me apaixonei perdidamente por Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade. E que coloquei como meta ler todos os livros que a autora escreveu. Todavia, mesmo guardando com carinho essas duas histórias no coração, Persuasão conseguiu um canto exclusivo, especial. A construção dos personagens foi perfeita e a ambientação como sempre nos faz desejar estar nos lugares mencionados, sentimos até que estamos realmente lá, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos. E das protagonistas que conheço a Anne consegue se destacar, mesmo com seu jeito reservado e tímido, mesmo tendo cometido o grave erro de se deixar persuadir pelos outros. De abrir mão do homem que amava porque seus familiares e sua amiga não o aceitavam, não o consideravam digno dela. O preço que pagou foi alto, sem dúvidas. E ter a noção disso tornava tudo pior.
"Passaram-se poucos meses entre o começo e o fim daquele relacionamento; mas alguns meses não foram suficientes para pôr um fim nos sofrimentos que ele provocara em Anne."
Talvez jamais o revisse na vida. Ou, quem sabe, seus caminhos poderiam voltar a se cruzar quando ele já estivesse casado e pai dos filhos que deveriam ser deles. Nem sempre o destino nos permite consertar os erros do passado, as escolhas que tomamos podem alterar todo o nosso futuro, com consequências que nos marcam de uma forma ou de outra. E ao longo dos oito anos que se passaram desde que Frederick partiu, após o rompimento do relacionamento, Anne nunca conseguiu deixar de pensar nele. Mas tentava. Dia após dia levava a vida a qual se condenou, não aceitando nenhum outro homem, nenhuma outra proposta de casamento, porque sabia que não poderia ser feliz com alguém que não fosse ele. Vivendo numa casa com familiares que sabia que não faziam a menor questão de sua companhia ou se importavam se ela estava bem ou não. Foi a essas pessoas que ela deu ouvidos anos antes. E mesmo que sua amiga sim tivesse boas intenções, ao contrário de seu pai e irmã, a verdade é que nunca deveria ter rejeitado aquele que seu coração desejava.
Agora aos vinte e sete anos e prestes a ter que abandonar o lar no qual crescera para ir viver em Bath com o pai e a irmã, Anne não sabia bem o que sentia. Sobretudo porque os inquilinos de seu pai, que passariam a viver em seu antigo lar, eram parentes dele, do homem que não esquecera. E não demora nada para que Frederick retorne à sua vida, mas não para reatar qualquer laço rompido. Não retorna por ela, mas para estar próximo de seus entes queridos e encontrar uma noiva adequada para finalmente estabelecer-se. Assim, obrigada a vê-lo por conta dos conhecidos em comum Anne acaba acompanhando dolorosamente de perto o progresso de sua relação com Louisa, a mocinha aparentemente perfeita e dona dos afetos dele. Alguém que não se deixaria persuadir, que não teria o defeito que para Frederick era o pior de todos. Que era imperdoável.
"Ele a amara ardentemente e nunca amara outra mulher tanto quanto a ela; mas, a não ser por um natural sentimento de curiosidade, não tinha nenhum desejo de tornar a encontrá-la. O poder dela sobre ele acabara para sempre."
Mas teria o amor do passado morrido com a dor e a distância? Seria Frederick realmente indiferente à Anne do presente? Seria incapaz de perdoar os seus erros e recomeçar? O tempo... ele pode destruir muitas coisas, mas nunca um amor verdadeiro...
- Eu me emocionei muito com a história deste casal. É a primeira vez que os casais formados pela autora me causam tal impacto e olha que o Frederick durante o livro quase todo não recebe tanto destaque assim, sendo a história concentrada mais na Anne. Mesmo assim eu senti muito por eles. Por tantos anos perdidos, por tudo o que poderiam ter vivido. Não posso culpar o mocinho pelo fim do relacionamento. Sei que foi a Anne a errar, mas tenho que considerar que ela tinha apenas dezenove anos na época e nada conhecia do mundo, deixando que os "adultos" decidissem o que era adequado ou não e fortemente influenciada pela amizade com Lady Russell, cujos conselhos lhe eram tão importantes. Fez o que os outros queriam, mas enquanto sua família e sua amiga tão bem seguiram com suas próprias vidas foi ela a sofrer. Foi ela quem perdeu. E passou tantos anos sem realmente viver, estando à sombra da irmã, sendo praticamente invisível em sua casa. Ela era quem tinha ficado vazia.
"Antes, eram tudo um para o outro! Agora, nada!"
- Não suportei nem por um instante a família da Anne. Que gente mais insuportável! Pessoas hipócritas, superficiais, que só se importavam com posição social e assuntos fúteis. Ao que parece a Anne tinha puxado à falecida mãe, mas acho que sua personalidade forte e sua inteligência eram muito próprias. Ela era uma mulher incrível, capaz de causar admiração em muitos dos personagens, mas insignificante para a própria família. A insensibilidade deles, o desprezo latente com o qual a tratavam me causou muita revolta. Eu sentia vontade de esganá-los, sobretudo por ver a maneira como a Anne estava acostumada com aquele tratamento, em sempre ser anulada, menosprezada pelas pessoas que deveriam amá-la, mas que só se lembravam de sua existência quando queriam usá-la. Eu só queria que ela acordasse e fosse embora. Que os mandasse para o inferno!
- Outra questão é a tal da lady Russell. Mesmo sendo uma mulher boa e quase uma mãe para a Anne também era cheia de preconceitos e se acreditando no direito de se meter na vida da mocinha. Não consegui gostar dessa mulher. A verdade dela não tinha que ser a verdade da Anne e foram os seus preconceitos e malditas boas intenções que tanto influenciaram a mocinha, por causa dos laços de afetos que as uniam. Eu não consegui suportá-la. Gente intrometida assim só causa problemas para aqueles que julgam amar. E não posso perdoá-la por preferir a posição social que a felicidade daquela que tanto protegia.
- Foi um livro que me provocou muitos sentimentos confusos. Revolta, amor, tristeza, alívio, medo... eu sentia muito medo do casal não ficar junto. Temia que tudo estivesse perdido, que não existisse retorno. Não vou dizer se o final é feliz ou não, mas posso afirmar que foi o livro da Jane Austen que mais me provocou angústia. Quando eu via o Frederick e a Louisa juntos eu é que sentia vontade de chorar.
"Anne não desejava mais aqueles olhares e palavras. A fria polidez e a cerimoniosa graça demonstradas por ele eram piores do que tudo."
Enquanto a Anne estava lá forte e com aquela tranquilidade exterior que escondia seus sentimentos dos olhares das outras pessoas. Ela estava conformada. E eu querendo que ela fosse até ele e o obrigasse a escutá-la! Mas as coisas vão dar uma baita reviravolta, lhes garanto!rsrs E provocar sentimentos ainda mais intensos em nós leitores. É simplesmente a melhor história da autora para mim. E não sei se conseguirei amar mais algum outro livro dela do que esse. Se sentirei o mesmo, se eles conseguirão chegar aos pés deste livro.
- Acredito que uma lição ensinada por esta história é não deixarmos que os outros tomem decisões por nós, não importa o quão bem intencionadas elas sejam. Temos o direito de fazermos nossas próprias escolhas e suportarmos as consequências delas. E nunca deixarmos de fazer algo, de seguir um sonho porque nossa família ou nossas amizades não acham que aquilo é bom para nós. Ouvir conselhos é importante, mas sermos incapazes de pensarmos e decidirmos por nós mesmos é muito grave. :( Anne aprendeu isso de maneira dolorosa e muitas eram as chances de nunca mais recuperar o que tinha perdido. A vida não é piedosa. Ela não vai ficar nos dando várias oportunidades de consertar nossos erros. E o tempo definitivamente não para. Ele passa... e como passa!
"[...] ele não conseguia vê-la sofrer sem desejar reconfortá-la."
- Este livro foi minha última leitura do mês de setembro e nem sabia se conseguiria fazer a resenha. Não encontrava as palavras, não sabia nem por onde começar. Só me pegava pensando... refletindo... e analisando minhas próprias escolhas.rs Sim, a história realmente mexeu muito comigo. Demais.





