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10 de junho de 2020

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Literatura norte-americana
Título Original: Fahrenheit 451
Tradutor: Cid Knipel
Editora: Biblioteca Azul (Editora Globo)
Edição de: 2012
Páginas: 216

29ª leitura de 2020

Sinopse: Ray Bradbury (1920-2012) renovou a literatura quando, em plena Guerra Fria, escreveu Fahrenheit 451, um marco da ficção científica. Se fosse realmente ficção científica. Fahrenheit 451 é, na verdade, uma obra política, uma distopia - ou antiutopia. "Ficção científica é uma ótima maneira de fingir que você está falando do futuro quando, na realidade, está atacando o passado recente e o presente", afirmou o escritor. Fahrenheit 451 foi considerado um grande crítica aos regimes políticos opressores do século XX e previu transformações sociais simbolizadas atualmente pela influência da TV. Publicado originalmente em 1953, é uma obra atemporal, redescoberta a cada nova geração. 


Sabe quando você ama tanto um livro, mas tanto mesmo, que não consegue falar sobre ele?! Estou assim desde que concluí a leitura de Fahrenheit 451. Eu tinha muitas expectativas, mas o livro conseguiu superar todas elas! Desde então estou "travada", sem conseguir explicar nem mesmo para mim a forma como a história me marcou. Eu sei o que sinto, mas não consigo me expressar. Só sei que amo, amo, AMO e amo!

"[...] o que aconteceria se os livros fossem incinerados, varridos da face da Terra até o ponto em que o único vestígio de milênios de tradição humanista estivesse alojada na memória de alguns poucos sobreviventes? Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens, para apagar de vez a memória dos livros? [Trecho do Prefácio]"

Imagine o quanto é desesperador para nós leitores, amantes incondicionais dos livros, lermos uma história que fala sobre a queima dos livros. Não simplesmente da censura, mas da completa destruição do conhecimento, do senso crítico, de milhares e milhares de anos de História. Em Fahrenheit 451, os livros se tornam proibidos. Ninguém pode tê-los, ninguém pode lê-los. Quem ousasse ir contra a maioria esmagadora da população e contra o Estado, correria três riscos: ir para um hospício, ser preso ou... assassinado (com uma injeção letal ou queimado junto com os livros).

Nesta história, a maioria das pessoas vive feliz... ou tomada pela ilusão de felicidade. As pessoas têm tudo o que desejam e todo o entretenimento necessário para nem sequer saber o que é tristeza. Os televisores estão em cada uma das paredes de suas salas, interagindo com os moradores; os carros só podem ser dirigidos em altíssima velocidade (para que ninguém tenha o desprazer de PENSAR enquanto dirige) e quem se atreve a descumprir essa regra pode ser seriamente punido. As famílias não conversam, não alimentam mais quaisquer afetos uns pelos outros e isso as deixa felizes. Mal se dão conta da presença daqueles que deveriam amar, passam todo o tempo absorvidas, alienadas pela mídia, pelos programas feitos especialmente para manipulá-las a não pensar. Recebem as informações "maquiadas" pelo Estado e nem sequer passa por suas cabeças duvidar daquilo que lhes é mostrado. Todos os cidadãos perderam por completo a capacidade de agirem por si mesmos. São aquilo que o Estado deseja. E acreditam numa felicidade inexistente.

3 de dezembro de 2019

O Processo - Franz Kafka

Literatura Alemã*
Título Original: The trial
Tradutor: Caio Pereira
Editora: Novo Século
Edição de: 2017
Páginas: 272

*O romance é de língua alemã, mas Franz Kafka nasceu em Praga, pertencente ao Império Austro-Húngaro na época (atual República Tcheca). 
Sinopse: Romance dos mais importantes do século XX, O processo narra a história de Josef K., funcionário exemplar de um banco importante que, ao acordar na manhã de seu trigésimo aniversário, descobre-se réu de um processo sem saber os motivos que levaram a tal situação. Ao tentar desvendar as causas de ser processado por um crime não especificado, K. luta por seus direitos ao longo da narrativa, recorrendo a diversas pessoas no intuito de desvendar não apenas sua situação, mas também a causa de o processarem. Com um final inesperado, a obra nos leva a refletir sobre um poder judiciário que se mostra falho e vulnerável. Sem dúvida, um romance sobre a angústia e a frustração do ser humano em uma sociedade opressora e limitada pela burocracia.




Eu cheguei a um ponto em que acreditava, de verdade, que nunca terminaria de ler este livro. 

Iniciei a leitura em 20/08, na ingenuidade de que leria o livro em uma semana.kkkkkk... Mas logo nas primeiras páginas, com a loucura evidente que permeava cada cena, acabei cedendo ao desespero e passando longos períodos sem sequer tocar no livro. Eu o evitava o máximo que conseguia. 

Quem acompanha o blog sabe que Franz Kafka definitivamente não é um dos meus autores preferidos. Eu tenho sérios problemas com a escrita dele, não tanto pelo absurdismo presente em suas obras (afinal de contas eu li O Estrangeiro, de Albert Camus, e gostei), mas pela construção de personagens, pela narrativa que não me atrai, pelos caminhos que ele percorre no desenvolvimento de suas histórias. Dele, eu já li A Metamorfose (duas vezes), Carta ao Pai, O Artista da Fome e agora O Processo. E posso dizer, com certeza, que não chegará o dia em que amarei este escritor, embora reconheça sua importância mundial, sendo suas obras estudadas em tantos países e influenciado diversos escritores pelo mundo afora.

29 de janeiro de 2019

Vox - Christina Dalcher

(Título Original: Vox
Tradutor: Alves Calado
Editora: Arqueiro
Edição de: 2018)


O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. 

Esse é só o começo... 

Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. 
Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. 

...mas não é o fim. 

Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz. 



Palavras de uma leitora...


- Desde o seu lançamento no ano passado Vox se tornou um dos livros mais comentados pelos leitores. Eu ouvia falar desta história o tempo todo e o fato de a mesma ser comparada com O Conto da Aia foi o que realmente me motivou a lê-la. Quem acompanha o blog sabe que a distopia criada pela autora Margaret Atwood se tornou uma das minhas leituras preferidas, embora também seja uma das mais angustiantes. 

Por este motivo que mesmo ansiosa para começar a leitura eu não a iniciei logo. Esperei que uma amiga pudesse ler o livro comigo, pois ler um livro como este não é fácil. Provoca muito desgaste emocional e vontade de desabafar com alguém, de saber que outra pessoa está sentindo a mesma revolta, a mesma impotência e desejo de acabar com a raça de certos personagens. Vox me perturbou muito, sobretudo porque nada o que ocorre neste livro é impossível de acontecer. Muito pelo contrário! E é isto que assusta. Perceber que nossas escolhas erradas, nossa falsa sensação de segurança, de que temos direitos garantidos que nada nem ninguém pode abalar, pode acabar com tudo. Pode colocar loucos no poder. Fanáticos religiosos que com sua lábia conseguem alienar boa parte da população e fazê-la considerar todas as escolhas tomadas pelo governo como certas, em benefício do país. Foi o que se passou em Vox. Um alerta para todo o mundo, como se a História mundial já não fosse aviso o suficiente. Mas como tendemos a ter memória curta (e seletiva) atrocidades do passado tendem a se repetir. 

"- Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como 'permissão do cônjuge' e 'consentimento paterno'. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada."

- Jean McClellan era mãe de quatro filhos e  se tornara uma importante neurolinguista em seu país. Casada há muitos anos com Patrick, um cientista que fazia parte do conselho do Governo, nunca ligou muito para os movimentos feministas, um dos motivos que a afastaram de sua melhor amiga Jackie, quem participava ativamente de tais movimentos. Ainda na época da faculdade elas se desentenderam, pois Jackie era incapaz de entender como Jean podia viver numa bolha, sem encarar a realidade da fragilidade de direitos que as mulheres possuíam e a necessidade de se lutar sempre, para que os direitos já adquiridos fossem mantidos e outros fossem conquistados. Jean achava tudo aquilo uma baboseira e puro histerismo e as duas acabaram por cortar todas as relações. 

Mas era nela que Jean mais pensava quando via tudo o que considerava como certo... escapar. Ser destruído sem que pudesse fazer nada. Por que não pensou antes? Por que se manteve inerte? Agora não podia voltar no tempo. Era tarde demais. 

"Nunca mais falei com Jackie. Em noites como esta, gostaria de ter falado. Talvez as coisas - a coisa da eleição, a coisa da nomeação, a coisa da confirmação, a coisa da ordem executiva - não tivessem chegado a este ponto."

- Tudo começou a dar errado antes mesmo de Sam Myers ganhar as eleições para presidente. Um movimento que até então não parecia tão forte, guiado por um fanático chamado de Carl Corbin, que acreditava que era necessário limpar o país de correntes e ideologias nocivas, para o bem da Família e a retomada dos ensinamentos bíblicos como bases de uma nação, tomou força de repente. Jean e muitas outras mulheres não conseguiram prever isso, embora as feministas estivessem atentas muitos anos antes sobre a possibilidade de isso vir a acontecer. Como o Cinturão da Bíblia não era forte em seu estado, Jean não prestou muita atenção nele. Afinal de contas, quem daria ouvidos à tanta besteira? Vivia em pleno século XXI e todo o alarde em torno de determinadas crenças dominarem o país não passava disso. Mas estava enganada. E pagava um preço alto demais por seu erro. 

"E não pense que serão todos homens. As Recatadas do Lar vão estar do lado deles."

Quando Sam Myers assumiu o poder tudo já estava perfeitamente organizado. Tendo o reverendo Carl Corbin como o verdadeiro cérebro por trás de todas as mudanças, começou a pôr em prática tudo o que tinha sido arquitetado, contando com o apoio de boa parte da população, que seguia os ensinamentos de Carl como se ele fosse um deus e acreditava fielmente no Movimento Puro. 

"Aprendi que, assim que um plano é estabelecido, tudo pode acontecer da noite para o dia."

- No início, quando as coisas começaram a se mostrar muito ruins, algumas pessoas ainda conseguiram fugir, buscar exílio, refúgio em outros países. Mas logo o novo Governo tomou as providências necessárias para garantir o controle total sobre a população. Os passaportes de todas as mulheres foram cancelados e suas contas passaram a ser administradas por seus respectivos responsáveis (maridos, pais, parentes próximos). Mulheres foram arbitrariamente proibidas de trabalhar, tendo suas funções passadas para homens escolhidos pelos representantes do governo. Elas deveriam contentar-se em cuidar da casa, do marido e dos filhos, pois era assim que Deus desejava que as coisas fossem, segundo as crenças daquele líder religioso. E, definitivamente, deveriam permanecer em silêncio, pois era uma vergonha uma mulher atrever-se a contestar seu marido em público ou interferir de qualquer forma em suas decisões. E como simplesmente mandá-las se calar não bastava... por que não colocar em prática outros dos planos já anteriormente estabelecidos?

"[...] Cada página berrava um fundamentalismo de extrema direita."

- O silêncio foi obtido de maneira bastante eficaz. Os homens do governo, fortemente armados, buscavam as mulheres, crianças e bebês (do sexo feminino), onde quer que elas estivessem. As instruções foram brevemente dadas, as deixando cientes de que saberiam maiores detalhes através de seus responsáveis, e então uma pulseira aparentemente inofensiva e regulada para identificar a voz da pessoa que a tivesse em seu braço, foi colocada em todas as pessoas do sexo feminino, ainda que fossem crianças de poucos anos ou bebês. Tal pulseira concedia apenas o direito de dizer 100 palavras ao longo das 24 horas do dia. Algo que Jean considerou patético e uma brincadeira de mau gosto. De modo algum aquilo poderia ser real, mas ela descobriu de maneira bastante dolorosa o quanto aquilo era sério. E o que acontecia quando as 100 palavras eram ultrapassadas. 

Em choque, diante de todas as mudanças que estavam sendo implementadas, e sabendo que já não era possível parar tudo aquilo, ela assistiu impotente as notícias sobre o que estava acontecendo com aquelas tidas como as minorias. Feministas de todo o país estavam sendo perseguidas e silenciadas pelas forças armadas, condenadas a campos de concentração, onde sequer teriam direito ao total de 100 palavras. Homossexuais que constituíram famílias tinham seus filhos arrancados de seus braços, entregues para o parente "puro" mais próximo. Enquanto eles também eram condenados a campos de concentração, tendo como "quarto" de dormir uma cela que seria dividida com alguém do sexo oposto, no intuito de "curá-los" de seus desvios. As pessoas que cometiam adultério também eram jogadas nos mesmos campos, condenadas ao silêncio e ao trabalho forçado perpétuo, até que suas forças se esvaíssem e morressem. 

As meninas já não podiam mais frequentar as mesmas escolas que os meninos. Proibidas de ler e escrever, aprendiam somente o necessário para em breve serem perfeitas esposas e mães, sendo o casamento precoce (logo na adolescência) incentivado. Os pais deveriam casar cedo as suas filhas, com homens que eles julgassem apropriados, não importando o que as meninas ou suas mães tivessem a dizer sobre o assunto. E as mesmas deveriam engravidar rapidamente, para perpetuar a espécie humana. 

"Acho que, se algum dia as coisas voltarem ao normal, eles vão usar aquele velho clichê: Eu só estava cumprindo ordens
Onde foi que já ouvimos isso?"

Como aceitar a nova realidade? Como entender que já não podia se comunicar direito com o próprio marido ou educar seus filhos? Todos os seus livros tinham sido trancados, longe de seu alcance. Seu computador e outros objetos de trabalho também lhe foram tirados. Qualquer folha de papel era proibida. As correspondências eram entregues somente ao Patrick. E existiam câmeras por toda a parte na rua e na entrada e nos fundos de sua casa, para impedir que as mulheres se comunicassem mesmo pela linguagem de sinais. E aquelas que fossem pegas infringindo as novas leis não teriam sequer direito a um julgamento.

 O medo dominava muitas das mulheres e tinha o efeito eficaz de paralisar e impedir qualquer forma de manifestação, de revolta. Mas Jean estava por um fio. Sua filha nunca aprenderia a ler e escrever. Seus filhos já tinham se acostumado a não ouvir mais o som da sua voz e se comunicarem apenas com o pai. Jean estava começando a perceber que já não conseguia olhar para o marido com os mesmos olhos, que mesmo sabendo que ele não era responsável por tudo aquilo e que abominava todas as mudanças ela estava começando a odiá-lo. Mas pior que tudo isso era perceber que seu filho mais velho, com apenas dezessete anos, se transformara num inimigo dentro de sua própria casa. Um perigo para ela e para Sonia. Era preciso fazer alguma coisa. 

"Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers. 
Na verdade, eu não fui votar."

- A oportunidade surge quando o irmão do presidente sofre um terrível acidente, que provoca uma lesão neurológica que o impossibilita de comunicar-se com as outras pessoas. Conhecida como afasia de Wernicke, esta lesão não rouba das pessoas as palavras orais ou a escrita, mas tira delas a compreensão. Assim, todas as palavras que saíssem da boca delas, por mais fluentes e elegantes que fossem, seriam carentes de sentido. Da mesma forma, elas não conseguiriam compreender o que outras pessoas lhes perguntassem. Com esta afasia a compreensão se perde por completo

Jean era uma cientista muito talentosa e estava trabalhando num soro anti-Wernicke quando sua pesquisa foi interrompida pelo governo. Todo o processo já estava bastante adiantado e se aquele malditos doentes não a tivessem silenciado e impedido de trabalhar já teria a tão sonhada cura para aquela séria lesão, devolvendo a tantas pessoas a capacidade de comunicação que tinham perdido, fosse por um traumatismo craniano ou um derrame cerebral. 

Todavia, com o acidente sofrido pelo irmão do presidente, o governo percebe que necessita de Jean mais do que nunca. Porque somente ela poderia terminar aquele soro... Ainda atordoada pelos acontecimentos repentinos, Jean percebe que aquela era a sua chance.... de recuperar a sua voz e descobrir o que eles de fato pretendiam. 

Qual o real motivo para quererem tanto o soro anti-Wernicke? E até que ponto Jean seria necessária? As respostas podem ser mais aterrorizantes do que ela poderia imaginar... e a inteligência era tudo o que ela possuía para jogar contra um governo que seria capaz de qualquer coisa por poder. 

"Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível."

- Este livro me fez refletir sobre muitas coisas e me deixou bastante angustiada. Diversas vezes tive que interromper a leitura e equilibrar com um livro mais leve, um romance de época, para conseguir manter o controle emocional. Para não me deixar sufocar pelo mundo criado pela autora e tão possível de se tornar uma realidade se a sociedade continuar não prestando atenção em quem vota e por quê. Se continuar se deixando levar pelo que governantes e políticos bastante inteligentes querem que as pessoas acreditem. As pessoas estão acreditando nas coisas mais absurdas possíveis e um dia já não terão capacidade de pensar criticamente e se voltar contra sistemas opressivos e injustos. 

Jean era uma incrédula e uma inocente. Ela dava como certo tudo o que possuía. Outras mulheres já tinham lutado antes dela e tinham adquirido muitos direitos. Para que continuar lutando? Qual o sentido? Era baboseira. Ela tinha muito o que fazer para se preocupar com as besteiras ditas por sua amiga. Não viu o país se dividir. Não viu o fanatismo se espalhar e ganhar imensa força. Não viu nada acontecer, concentrada demais em si mesma. Ela nem sequer foi votar. E quando acordou, quando percebeu o rumo que o país estava tomando já era tarde demais. Sua voz já não seria ouvida. Qualquer manifestação seria sufocada. Com a divisão provocada na sociedade, eles conquistaram. O dividir para conquistar foi utilizado de forma muito eficaz. E mesmo lendo um livro como este as pessoas seguirão cegas, o que é mais triste. :( E o preço é sempre pago por todos, sobretudo pelos mais vulneráveis. 

"- Eu te amo, mamãe. Eu te amo muito. 
Bastam oito palavras para fazer meu coração palpitar."

- O livro possui cenas muito difíceis, que machucam algo dentro de nós. A gente só quer que aquela injustiça acabe e que o fanático que continuava alienando a população queimasse no inferno por todas as atrocidades cometidas, toda a destruição que estava provocando. Uma coisa muito dura é ver o próprio filho da Jean, Steve, se transformar. Com as novas matérias introduzidas na escola ele começa a receber a mesma lavagem cerebral que outros rapazes de sua idade e não demora para considerar tudo aquilo certo, alimentando uma insensibilidade dentro de si. É triste demais ver a Jean recordando o menino pequeno que ele foi, a criança que confiava nela, que ela pegava no colo e consolava. E então ela era obrigada a ver no que seu filho, ainda um adolescente, tinha se transformado. Isso é difícil demais. 

"Quero lutar e não sei como."

- Com este livro também percebemos a importância das palavras. De não permitir que sua voz seja calada. De lutar sempre, da forma que conseguir. Em épocas de ditaduras, muitas pessoas, por mais oprimidas que sejam pelos governos ditatoriais, não se calam. Mesmo utilizando de metáforas e outras técnicas capazes de não tornar tão explícito o que querem dizer, escritores, músicos e artistas em geral utilizavam o que tinham para transmitir uma mensagem de resistência e esperança. O que nos remete a um trecho importante do livro no qual um personagem relembra que "o mal triunfa quando homens bons não fazem nada." Uma grande verdade, não é mesmo? O pior não é uma pessoa má cometer as piores atrocidades, destruindo outros seres humanos sem compaixão. Não. O pior é quando pessoas boas não fazem absolutamente nada, se limitando a assistir ou virar o rosto para o outro lado. Como a música "Embora Doa" mesmo diz "há sempre outro canal", "embora doa nada fiz para mudar". 

"- Há uma resistência?
O mundo parece doce quando digo isso. 
- Querida, sempre há uma resistência."

- O livro é muito bom e recomendo para todos! Leiam! Simplesmente leiam! Aproveitem a oportunidade que têm de ler. Aproveitem os presentes que livros significam para nossas vidas. O mundo precisa de mais leitores. De mais livros. De mais pensamento crítico. Seja o que for no que você acredite, se lembre sempre de antes de tudo ser um ser humano. E defender os direitos humanos. Ainda que determinada violação não te atinja pense sempre que quando atinge um semelhante está te atingindo também. E nenhuma crueldade deve ser tolerada. Seja contra pessoas ou animais. 

A única crítica negativa que tenho a fazer sobre o livro é em relação ao final. Depois de ter conduzido de maneira brilhante o livro inteiro achei que a autora se apressou muito na reta final. Ficou tudo corrido e algumas coisas não foram explicadas. Existem resenhas por aí dizendo que o livro é o primeiro de uma série. Então, talvez essas respostas sejam obtidas nos próximos volumes, se for realmente uma série. 

9 de dezembro de 2018

O Conto da Aia - Margaret Atwood

(Título Original: The Handmaid's Tale
Tradutora: Ana Deiró
Editora: Rocco
Edição de: 2017)

Visão assustadora de uma sociedade radicalmente anulada por uma revolução teocrática no século XXI, O conto da aia tornou-se um dos romances mais poderosos de nossos tempos. Nas palavras da própria Margaret Atwood, "a República de Gilead é construída sobre a base das raízes puritanas do século XVII que sempre estiveram por baixo da América moderna que pensávamos conhecer". 



Palavras de uma leitora...


Depois de tanto ter ouvido falar deste livro decidi que não havia momento melhor para adquiri-lo do que no Dia Internacional da Mulher, quando a Saraiva fez uma mega promoção, concedendo 50% de desconto na compra de cada livro. Foi a melhor promoção do ano, sem dúvidas.rs E embora eu tenha desejado ler o livro assim que o tive em minhas mãos o medo acabou falando mais alto, pois o pouco que sabia sobre a história era o suficiente para me deixar apavorada. 

Foi somente com o projeto Leitura Coletiva que tive coragem de apostar na história, uma vez que não faria a leitura sozinha e poderia desabafar com os outros leitores, sabendo que eles estariam passando pela mesma angústia.kkkkkk... Assim, ao longo de três semanas, fui atormentada pela realidade de O Conto da Aia, quando um governo teocrático e totalitário se levantou e anulou os direitos das pessoas após um repentino golpe de Estado, com o assassinato do presidente dos Estados Unidos e a execução dos membros do Congresso. E sabe de uma coisa? O livro se passa em pleno século XXI (final do século XX e início do século XXI pelo que pude perceber). Isso é o mais assustador. A história se passa numa época em que existia uma grande liberdade, direitos garantidos, mulheres trabalhando e sendo independentes, movimentos feministas e de LGBT, defesa do não preconceito racial, entre outros movimentos pela defesa dos direitos humanos. As pessoas eram livres e jamais passaria pela mente delas que um dia tudo poderia chegar ao fim. Que seus direitos não eram tão garantidos assim. Que uma Constituição poderia ser derrubada e direitos humanos ignorados. 

"Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção. Não havia nem um inimigo que se pudesse identificar.
Cuidado, disse Moira para mim, ao telefone. Está vindo por aí.
O que está vindo por aí?, perguntei."

- As coisas aconteceram tão de repente que as pessoas não tiveram nem tempo para reagir. Apavoradas com o ataque terrorista, que elas acreditavam ter sido praticado por radicais islâmicos, nem lutaram quando a suspensão da Constituição foi decretada e os direitos suprimidos. O estado de sítio era necessário, certo? Era uma situação de emergência, segurança nacional. Ninguém podia se preocupar com suas próprias liberdades quando o país inteiro estava ameaçado. Assim a população esperou, temerosa, sem entender o que de fato estava acontecendo. Mas quando tudo ficou claro já era tarde demais. Não havia mais chance de luta. Não tinha como escapar. 

"Então me lembrei de algo que eu tinha visto, mas não havia reparado na ocasião. Não era o exército. Era outro exército."

- Primeiro foram as prostitutas que desapareceram das ruas. Mas quem se importava? Elas incomodavam. Eram uma vergonha para as famílias de bem, destruidoras de lares. As demais mulheres até ficaram aliviadas com aquela "limpeza", embora não soubessem o que de fato havia acontecido com elas. Alguém precisava fazer algo, diziam. Uma providência precisava ser tomada e a população ficou contente. Qualquer objeto pornográfico (revistas, filmes etc) tornou-se proibido. Era crime grave possuir qualquer coisa do tipo em sua residência. Mas até aí tudo bem. 

Então num belo dia uma nova lei foi criada: a partir daquele momento mulheres não poderiam trabalhar. Ter uma profissão. Advogadas, médicas, engenheiras, bibliotecárias, o que fosse... todas dispensadas de uma hora para outra. Suas contas congeladas. Afinal de contas, a nova lei também dizia que mulheres não poderiam possuir bens. Maridos ou outros parentes próximos é que deveriam administrar as coisas. O dinheiro delas passaria para as mãos deles. 

"Houve passeatas, é claro, muitas mulheres e alguns homens. Mas foram menores do que se teria imaginado. Creio que as pessoas estavam com medo. E quando se tornou de conhecimento público que a polícia ou o exército, ou fossem lá quem fossem, abririam fogo quase que tão logo quaisquer das passeatas começassem, as passeatas pararam."

- Foi natural a leitura tornar-se proibida. Era algo venenoso, letal. Quem fosse pego lendo poderia sofrer um castigo severo, até mesmo ter uma de suas mãos amputadas. Os letreiros das lojas foram trocados por desenhos, livros foram recolhidos, alguns destruídos, outros guardados pelos que detinham o poder. Mulheres não podiam saber ler. Deveriam esquecer a vida que tinham tido até então. Tudo estava acabado e o melhor seria se conformar. Era hora de trazer de volta as leis do Antigo Testamento, ou o que o novo governo interpretava dele. Uma nova era começava. 

Quem possuía alguma religião cristã e era legalmente casado (leia-se: primeiro casamento) no início foi deixado relativamente em paz. Eram pessoas de família, cidadãos corretos. Desde que não se metessem no que acontecia com os outros tudo estaria bem para eles. Por um tempo. Mas homens e mulheres divorciados e que construíram uma nova família foram considerados adúlteros pela lei. Assim o casamento era ilegal e tais mulheres deveriam tornar-se propriedade do governo. Os filhos delas? Confiscados. Arrancados de seus braços e entregues aos escolhidos pelo governo. 

Assim foi que aconteceu com a protagonista, a aia que nos conta sua história e como o mundo que ela até então conhecia chegou ao fim. Como perdeu a sua filhinha e o homem a quem amava. Como passava cada dia sem saber se eles ainda estavam vivos. Se um dia seria o corpo de Luke que ela veria pendurado no Muro, onde ficavam expostas as pessoas executadas pelo regime. 

"Não há ninguém que eu possa amar, todas as pessoas que eu podia amar estão mortas ou em outro lugar. Quem sabe onde estão ou quais são seus nomes agora? Poderiam muito bem não estar em lugar nenhum, como eu estou para elas. Também sou uma pessoa desaparecida."

- Como Luke havia sido casado antes dos dois construírem sua própria família, Offred (nome dado pelo governo) foi uma das tantas mulheres sequestradas durante a República de Gilead e levadas para o Centro Vermelho, onde deveriam ser educadas (leia-se: lavagem cerebral) para se tornarem aias. Após uma rígida reeducação, com ensinamentos bíblicos distorcidos, punições e manipulações eficazes, essas mulheres seriam entregues nas casas de membros do alto escalão do poder, que possuíam o direito de terem aias, servas que tinham como missão procriar. Dar-lhes filhos. Como a taxa de natalidade havia caído muitíssimo ao longo dos anos; fosse por conta de doenças sexualmente transmissíveis que provocavam esterilidade, fosse porque mulheres tinham optado por ligarem as trompas, fosse por conta de acidentes radioativos, epidemias, a questão é que ter filhos tornou-se um privilégio. Crianças eram raridade e extremamente desejadas pelas famílias que se formaram durante o novo regime. Desta forma as aias eram comuns nas casas dos poderosos Comandantes e toleradas pelas Esposas, uma vez que seriam apenas um objeto utilizado para trazer ao mundo os filhos que seriam delas, das Esposas. 

Offred já havia passado por uma outra casa antes de chegar a do seu atual Comandante. As coisas não tinham dado muito certo e lhe foi concedida uma segunda tentativa. Ela sabia que após a terceira sua vida chegaria ao fim. Mas que vida? O que ela de fato possuía? Nada. Nem mesmo a sua identidade. Cada dia cumpria as ordens que lhe eram dadas. Nas noites escolhidas pela Esposa e pelo Comandante ela era obrigada a deitar-se e deixar que eles utilizassem seu corpo como bem entendessem. Tinha que engravidar. E após nove meses ver seu bebê ser entregue aos braços de outra pessoa. Ser retirado dela como um dia sua filha também tinha sido. Já não tinha forças para chorar. Estava se acostumando. E isso era o pior. Ela estava começando a esquecer o passado, a sua vida. Por isso precisava nos contar a sua história. Manter vivo o pouco que ainda recordava e também deixar registrado aquilo no qual se transformou o país em que ela tinha vivido. 

"Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
Ninguém disse quando."

- Dá para vocês terem uma ideia do quanto esta história mexeu comigo. Com minhas emoções e minha mente. Com a minha já inseparável ansiedade. Se já sou nervosa e temerosa por natureza, ao ler O Conto da Aia isso foi elevado a décima potência. Sobretudo após os acontecimentos dos últimos meses no Brasil. As semelhanças com o passado da nossa nação e com o presente são gritantes. A forma como as pessoas foram manipuladas, levadas a acreditar que tudo aquilo era para o bem, que uma mudança era necessária, que o país tinha que ser salvo do mal, de quem tinha levado a nação para o buraco. Mas a mudança era melhor para quem? Como uma famosa frase do livro: "Melhor?, digo, em voz baixa, apagada. Como ele pode pensar que isto é melhor? Melhor nunca significa melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns." E é exatamente assim que funciona. As pessoas pensam tanto em seus direitos, no que elas consideram correto, no que lhes agrada e esquecem dos outros. Amar ao próximo é desnecessário, certo? Para que amar ao próximo se pensar no meu próprio umbigo é mais conveniente? Tanta hipocrisia me enoja. E o mesmo se passa no livro. Enquanto eram os direitos dos outros que estavam sendo atingidos ninguém se importou. Foi somente quando aquela realidade também os atingiu que entenderam a gravidade do que estava acontecendo e aí já era tarde demais. 

- Eu sofri demais com esta história. Não só por tudo o que aconteceu com as mulheres e também com os homens que tentaram se rebelar. Mas sobretudo por ver tantas semelhanças com tragédias já ocorridas no mundo. E a grande probabilidade de algo pior um dia acontecer. As pessoas são tão ingênuas. Acreditam tanto na garantia dos seus direitos, nas constituições de seus países, na proteção dada pelos direitos humanos. Não entendem, não conseguem perceber como tudo é frágil. Nada é garantido. Se você pensa o contrário lamento dizer que está se iludindo. Qualquer direito um dia pode ser destruído. Basta que um governo forte deseje isso. Se não fosse assim ditaduras não existiriam em pleno século XXI. E olha que os direitos humanos estão aí, eles e vários tratados sobre o assunto, assinados e ratificados pelas nações. E o que é pior: a ditadura escancarada ou aquela que é disfarçada de democracia? (frase já existente antes de ser levianamente mencionada por aí nos últimos anos). Antes de responder é melhor ler O Conto da Aia

"Sinto-me enterrada."

- Durante a República de Gilead muitas atrocidades foram cometidas, como os salvamentos de homens e mulheres. Médicos, padres, outros religiosos que se rebelavam contra o governo, maridos que não aceitavam a nova situação... Enfim... Eram variados aqueles executados pelo regime. Os sentenciados à morte eram brutalmente enforcados e pendurados no Muro para servir de exemplo, como em épocas anteriores da História do mundo. Os salvamentos de mulheres eram mais raros, pois elas tinham sido tão massacradas e anuladas que já não tinham forças para se rebelar. Mesmo assim ainda acontecia. Eram assassinadas da mesma maneira, na presença de outras mulheres, que deveriam manifestar abertamente apoio aos assassinatos, quer quisessem ou não. Como os homens também tinham seus corpos pendurados no Muro, como uma coisa qualquer, sem direito a um enterro digno. 

"O momento da traição é o pior, o momento em que você sabe, além de qualquer dúvida, que foi traído: que algum outro ser humano desejou a você tamanho mal."

Mas nem todas as mulheres se tonaram aias (propriedades do governo para servirem de barriga de aluguel, escravas para procriação. Vestes vermelhas), ou Esposas ("privilegiadas" escolhidas para se casarem com os Comandantes. Vestes azuis), econoesposas (esposas concedidas a homens pobres. Vestes que eram mistura de cor vermelha, azul e verde), marthas (criadas das casas, que limpavam, cozinhavam, eram empregadas domésticas. Vestes verdes), Tias (religiosas da República que faziam a lavagem cerebral nas aias no Centro Vermelho). Muitas mulheres também se viram numa posição diferente: decretadas NÃO MULHERES. Eram as que iam imediatamente para a execução ou para as Colônias. Entre elas estavam as muito idosas e inúteis, as bissexuais ou homossexuais, as que tinham feito algum procedimento cirúrgico para não engravidarem, as feministas, ateias, as freiras que não se convertiam e mesmo após torturas não aceitavam a nova religião, entre outras. Nas Colônias elas viviam o inferno. Era como ser assassinada lentamente. Tinham no máximo, na melhor das hipóteses, uns quatro anos de vida. Antes que os produtos tóxicos com os quais eram obrigadas a lidar as matasse. Isso se a fome não matasse antes. Os campos de concentração passam por sua mente ao ler isso? Pois bem. Também me lembrei deles. É algo semelhante. Até porque boa parte da população do país (e do mundo) não sabia da existência das Colônias. E quando sabiam não faziam ideia de que eram campos de tortura, de despejo humano, onde as pessoas trabalhavam sem descanso, passavam fome e eram envenenadas lentamente. 

"Acredito na resistência do mesmo modo que acredito que não pode haver luz sem sombra; ou melhor, não pode haver sombra a menos que também haja luz. Tem que haver uma resistência [...]"

- Claro que como em qualquer parte do mundo e sob qualquer regime totalitário surgem as resistências. Sempre haverá alguém para lutar por um mundo melhor, sempre haverá alguém que tentará mesmo sabendo que não viverá o suficiente para ver a mudança. Em O Conto da Aia não é diferente. Duas resistências distintas e interligadas surgem e se fortalecem ao longo dos anos. Mas a pergunta é: são suficientes para sequer abalar um governo que esperou pacientemente o momento perfeito para dar o seu golpe? Um governo tão bem preparado? Isso vocês só irão descobrir lendo, claro. Tudo o que eu disse aqui.... não é nem um terço do que vocês encontrarão no livro. E nem pode prepará-los para o que sentirão. Eu chorava tanto... sobretudo na metade da segunda semana de leitura, quando enfrentamos boa parte dos capítulos pesados. Mas quando a terceira semana de leitura foi chegando ao fim e vieram capítulos chocantes... eu própria já não tinha forças para chorar. O final foi impactante. De me deixar de boca aberta e coração acelerado. 

"Não deixe que os bastardos esmaguem você."

- Esta leitura é extremamente necessária. O Conto da Aia é um livro que deve ser lido por todos. Porque serve de alerta, porque chama a nossa atenção, nos dá aquela sacudida capaz de nos despertar. Aproveitem o privilégio que têm de ler. Se uma ditadura fosse implantada hoje tenha certeza que este seria um dos livros que seriam rapidamente proibidos. Livros sempre foram considerados perigosos, queridos. Porque eles nos fazem pensar. Nos dão conhecimento, despertam o pensamento crítico. Os livros mudam as pessoas. 




O Conto da Aia, como eu disse, foi nossa escolha para a Leitura Coletiva de novembro/dezembro. Ele se tornou um dos meus livros preciosos da estante. Que merece uma posição de destaque por ser especial. Este é um livro que me mudou. Que alterou algo dentro de mim e me fez ainda mais consciente da realidade não só do Brasil, mas do mundo. E como os movimentos feministas e os demais existentes pela luta dos direitos humanos são necessários. Os defenderei sempre. 

E os livros, queridos! Temos que incentivar mais e mais a leitura. Um mundo que desvaloriza a leitura tende a regredir. As pessoas precisam ler, precisam desenvolver o pensamento crítico. Senão qualquer um com um mínimo de capacidade de persuasão, com a lábia perfeita, conseguirá manipulá-las. Deem livros de presente! Emprestem livros! Comprem livros! Leiam e convençam suas famílias e amigos a lerem! O mundo precisa de mais leitores. 

"Não permitas que sofram demais. Se tiverem que morrer, que a morte seja rápida. Poderias até oferecer-lhes um Céu. Precisamos de Ti para isso. O Inferno podemos fazer nós mesmos."

29 de março de 2018

A Revolução dos Bichos - George Orwell

(Título Original: Animal Farm: a Fairy Story
Tradutor: Heitor Aquino Ferreira
Editora: Companha das Letras
Edição de: 2007)

Cansados da exploração a que são submetidos pelos humanos, os animais da Granja do Solar rebelam-se contra seus donos e tomam posse da fazenda, com o objetivo de instituir um sistema cooperativo e igualitário, sob o slogan "Quatro pernas bom, duas pernas ruim".

Mas não demora muito para que alguns bichos - em particular os mais inteligentes, os porcos - voltem a usufruir de privilégios, reinstituindo aos poucos um regime de opressão, agora inspirado no lema "Todos os bichos são iguais, mas alguns são mais iguais que outros."

A história da insurreição libertária dos animais é reescrita de modo a justificar a nova tirania, e os dissidentes desaparecem ou são silenciados à força. 



Palavras de uma leitora...


- Confesso para vocês: depois de ler romances tão maravilhosos nos últimos tempos eu não estava no clima para ler um livro com "pegada" política. Sobretudo considerando a atual situação política do país. Não era o tipo de leitura que eu queria fazer no momento, mas como o livro fazia parte do meu Desafio Mensal e o mês já está chegando ao fim não tive muita escolha.rsrs

Ao iniciar a leitura tinha uma boa noção do que encontraria. Todavia, por mais que esperasse me deparar com determinadas cenas de tortura e assassinatos, tão típicos de governos totalitários, nada me preparou para o que eu senti. Porque o livro desperta "memórias". De épocas que eu não vivi, mas estudei profundamente, revi em livros de ficção como A Menina que Roubava Livros e O Cavaleiro de Bronze, não ficção como O Diário de Anne Frank e filmes como O Menino do Pijama Listrado e Zuzu Angel. Além de documentários ao longo dos anos. Quanto mais lemos A Revolução dos Bichos mais evidente se torna a semelhança com diversos governos ditatoriais que marcaram o mundo e provocaram milhões de mortes. Que destruíram vidas de pessoas que o tempo tratou de condenar ao esquecimento. 

Não irei me aprofundar em temas políticos, mas uma coisa que me revolta bastante é ver determinados comentários na internet e fora dela (até mesmo de parentes) defendendo a volta de uma ditadura. Vocês já se depararam com textos assim? Eu já, para meu desespero e profunda decepção com a natureza humana. Me pergunto se essas pessoas têm alguma noção do que estão dizendo, se realmente sabem o que significa uma ditadura. Vários são os argumentos, mas essas pessoas parecem ignorar algo primordial: direitos humanos são violados quando uma ditadura é estabelecida. Sua opinião? Pode te condenar à morte se um governo ditador assim o decidir. Pessoas desaparecem, são torturadas, assassinadas por traições fictícias. Não se iluda: ditadura alguma consertaria um país. Muito pelo contrário. 

"O Homem é o nosso verdadeiro e único inimigo. Retire-se da cena o Homem e a causa principal da fome e da sobrecarga de trabalho desaparecerá para sempre."

- Tudo o que os animais da Granja do Solar conheciam era uma vida de sofrimento. Trabalhavam de sol a sol e viam os frutos de seus esforços serem consumidos desenfreadamente pelos seres humanos, enquanto eles ficavam com o resto dos restos e, às vezes, nem isso. Pelo simples fato de serem animais eram escravizados, maltratados e humilhados. Estavam cansados daquela vida de miséria, mas não sabiam como acabar com tudo aquilo. Porque o Homem era mais forte, inteligente e reprimiria facilmente qualquer tentativa de revolta. Mas, um dia, alguém apareceu com a solução. 

Após um sonho estranho, o Major, um porco sábio e ancião, reuniu todos os animais da Granja com a profecia de que chegaria um tempo em que todos os animais seriam livres, tratados como iguais. Que a fome e os maus-tratos seriam apenas uma lembrança ruim. Mas que, para isso, era necessário que os animais se reunissem e se rebelassem para derrotar o gênero humano. Pouco tempo depois, o Major veio a falecer, porém a semente plantada por suas palavras ficou no coração daqueles animais e instigou alguns, guiados por seus próprios interesses, a tramar o necessário para concretizar a tal profecia. 

Num momento de particular agonia dos animais, que estavam passando fome por negligência do dono da granja, os porcos, considerados os mais inteligentes da espécie animal, incitaram a rebelião que, por pegar de surpresa os moradores do local, foi bem-sucedida. Bola-de-Neve, o porco carismático e aparentemente preocupado com a população, bem como Napoleão, astuto e observador, sabiam bem o que estavam fazendo. Tinham o apoio do povo que os idolatrava. Era o cenário perfeito para um jogo de poder. 

"[...] jamais um animal deverá tiranizar outros animais. Fortes ou fracos, espertos ou simplórios, somos todos irmãos. Todos os animais são iguais."

No início, as coisas foram um verdadeiro mar de rosas. Qualquer animal, desde o mais belo cavalo até o pequenino rato possuía os mesmos direitos. Todos eram iguais e os frutos dos seus trabalhos pertenciam à coletividade. Havia equilíbrio, justiça, solidariedade. A felicidade se espalhava pela granja e os animais tinham a tão sonhada paz. Mas então...

... O leite retirado das vacas se tornou exclusivamente dos porcos. Nenhum animal poderia comer maçãs, pois os porcos, líderes da rebelião por serem os únicos que possuíam inteligência, precisavam mais delas do que os outros. Claro que tais privilégios não eram concedidos por vaidade ou egoísmo. Não. Tudo era pelo bem do povo. Os porcos comiam melhor e viviam em condições mais favoráveis, bem como tomavam todas as decisões, pelo bem dos outros animais. Eles eram completamente altruístas. 

E o que começou como uma sucessão de pequenos privilégios não demorou a se agravar. Mas o estopim veio quando Bola-de-Neve, o porco que queria melhorar a educação e as condições de trabalho (em tese) entrou em choque com Napoleão, o porco astuto, que em silêncio criava um exército pessoal e forte. Sabendo que Bola-de-Neve ganhava o apoio e simpatia dos demais, Napoleão decidiu instituir, a partir daquele momento, um governo intimidador, que venceria pelo medo. Acusando o adversário de diversas mentiras, o expulsou da Granja, utilizando seu exército para reprimir qualquer palavra em contrário. Logo em seguida, direitos começaram a ser suprimidos, vozes foram caladas, animais foram torturados e assassinados. E tudo era justificado com muita lábia e persuasão. 

"Ninguém mais que o Camarada Napoleão crê firmemente que todos os bichos são iguais. Feliz seria ele se pudesse deixar-vos tomar decisões por vossa própria vontade; mas às vezes poderíeis tomar decisões erradas, camaradas; e então, onde iríamos parar?"

Alguns animais, como o burro Benjamim, já não tinham mais qualquer ilusão: sabiam que tinham sido enganados e que qualquer coisa que lhes fosse dita tinha um tom de ameaça. Dominados, controlados por Napoleão e seus aliados, não tinham outra escolha senão se sujeitar à nova ordem. Sim, até existia outra alternativa: contrariar seu líder e morrer. Todavia, o pior era que a maioria dos animais sequer conseguia notar em que condições estava vivendo. Tão profundamente alienados e controlados estavam que não eram capazes de ver

"E assim prosseguiu a sessão de confissões e execuções, até haver um montão de cadáveres aos pés de Napoleão e um pesado cheiro de sangue no ar [...]"

- Inebriado pelo poder, querendo cada vez mais e com a política de eliminar qualquer um que ousasse pensar por si mesmo ou ganhasse a simpatia do povo que ele tinha controlado pelo pavor, Napoleão avançou o seu domínio, não se contentando apenas em possuir a Granja e todos os animais que viviam ali, mas unindo-se a outros líderes para expandir o seu controle e atingir outras fazendas. 

- Mentiras levantadas contra desafetos, traições fictícias punidas com a morte, condenações e execuções sem o devido julgamento, confissões provocadas por tortura... Isso com certeza te lembra não apenas um, mas diversos governos opressores que espalharam sangue ao longo dos anos, destruíram vidas por ambição, por poder. Sei que o autor provavelmente (leia-se: com certeza!) tinha em mente um determinado país ou regime político quando da criação de seu livro, sei que o livro foi vendido e utilizado como arma contra determinada ideologia política, mas ao lê-lo vi a síntese da maldade humana, um resumo chocante do que pode acontecer (e já aconteceu ao longo da História) quando entregamos o poder nas mãos das pessoas erradas, quando nos deixamos ser alienados, quando paramos de pensar por nós mesmos e seguimos a maré, apoiando e votando sem utilizar o cérebro. Muitos governos totalitários tiveram o apoio da população no princípio. As desgraças vieram depois.

"Aquelas cenas de terror e sangue não eram as que previra naquela noite em que o velho Major, pela primeira vez, os incitara à rebelião. [...] não podia compreender por quê - havia chegado uma época em que ninguém ousava dizer o que pensava, em que cachorros rosnadores e malignos perambulavam por toda parte e todos eram obrigados a ver camaradas feitos em pedaços após confessar os crimes mais chocantes."

- Este livro não me fez bem. Ainda assim, não me arrependo de lê-lo, pois ele nos provoca reflexões, nos faz pensar em assuntos que muitas vezes preferimos ignorar. A verdade é que vivemos num mundo em que muitos encontram-se tão alienados que, obviamente, não percebem. E seguindo essa maré, eu me pergunto, onde iremos parar... 

"As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco."
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