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23 de abril de 2021

A Morte da Sra. Westaway - Ruth Ware



Literatura Inglesa
Título Original: The death of mrs Westaway
Tradutora: Alyda Sauer
Editora: Rocco
Edição de: 2021
Páginas: 320

11ª leitura de 2021 (10ª resenha do ano)

Sinopse: "As cartas não dizem nada que você não saiba. Não podem revelar nenhum segredo nem ditar o futuro. Elas só podem mostrar o que você já sabe." Hal Westaway lê cartas de tarô no cais de Brighton e, desde a morte da mãe, luta diariamente para pagar suas contas e sobreviver. A notícia inesperada de uma herança pode mudar sua vida para sempre e, mesmo sabendo que tudo pode ser um enorme engano, ela decide acreditar... e jogar. Quando Hal Westaway recebe uma carta inesperada anunciando que ela herdou uma soma substancial de sua avó da Cornualha, aquilo lhe parece uma resposta às suas preces. Ela deve dinheiro a um agiota e as ameaças do sujeito estão cada vez mais agressivas: ela precisa botar a mão em dinheiro vivo o mais breve possível. Existe apenas um problema: as avós de Hal morreram há mais de vinte anos. A carta foi enviada à pessoa errada. Hal sabe, no entanto, que as técnicas que usa para “ler” as pessoas através do tarô podem ajudá-la a conseguir esse dinheiro. Se alguém tem habilidade para comparecer ao funeral de um estranho e reivindicar um espólio que não lhe pertence, é ela. Ao chegar à cerimônia, porém, Hal percebe que há algo muito, muito errado a respeito de toda aquela situação, e a herança está no centro de tudo. Mas Hal Westaway fez sua escolha, e não pode voltar atrás. Ela precisa continuar ou arriscar perder tudo. Até mesmo a própria vida. Uma velha casa, uma governanta assustadora, conflitos familiares e dilemas morais. Ingredientes clássicos que se tornam surpreendentes na voz de um dos grandes nomes contemporâneos do suspense, Ruth Ware.






Um thriller psicológico que bem poderia ser classificado como "um drama familiar letal"...

"Ela abriu o portão e as ferragens rangeram, um som baixo como um lamento através do barulho da chuva que a fez tremer mais ainda. Algo no tom daquele ruído lhe provocou um arrepio na nuca. Foi como se a casa estivesse morrendo de dor."

Sabe aquele tipo de livro que você não consegue parar de ler, que te rouba o sono e dá um nó na cabeça? A Morte da Sra. Westaway é exatamente assim. Eu pretendia seguir o cronograma que fiz, vez que foi uma história escolhida para leitura coletiva no grupo do Telegram, cujo debate só irá ocorrer em 05/05. Mas não consegui ser tão disciplinada.kkkk Eu encerrava um capítulo e já começava a ler o outro avidamente. Queria respostas e também descobrir se minha teoria estava certa, já que sempre tento adivinhar com antecedência o plot twist de um bom suspense.rs

Confesso que senti um pouco de medo durante a leitura, algo que não esperava. A atmosfera gótica, os passos silenciosos no escuro, luzes que não acendiam, cômodos proibidos... Quarto com grades na janela e trancas do lado de fora da porta... Tudo isso me provocava um certo pânico.

"Mas ali no alto só havia uma explicação, não eram grades para impedir alguém de entrar, e sim de sair."

A casa que se torna praticamente um personagem dentro da história, guardando terríveis segredos, é um lugar abandonado, com cômodos desgastados pelo tempo, cheios de poeira e teias de aranha. Não é que ninguém não morasse ali: a tal senhora Westaway, cuja morte desencadeia todo o drama e suspense do livro, viveu naquela propriedade até seu fim. A casa não estava "abandonada" por não ser habitada, mas sim porque ninguém se preocupou em conservá-la. 

"Ela descobriu que as verdades mais importantes muitas vezes estavam no que as pessoas não falavam [...]"

Ao longo da leitura senti como se aquela casa assustadora "falasse" e sentisse. Como se tivesse "apodrecido" por todo terror do qual foi testemunha. Toda dor e lágrimas sofridas entre suas paredes...

Harriet Westaway sabia o que era passar por privações em sua vida. Desde pequena precisava lidar com a falta de dinheiro, sendo sempre a criança mais pobre entre seus colegas de escola, vestindo roupas e sapatos usados e encarando de frente a situação com a coragem que sua mãe lhe ensinou. A mãe que era sua amiga, seu único familiar. A mãe que lutava dia após dia para sustentá-la, com quem ela viveu todos os bons e maus momentos. A mãe que morreu, vítima de um terrível acidente, dois dias antes do seu aniversário de 18 anos, deixando-a sozinha num mundo hostil, sem saber como seguiria em frente...

"Era a injustiça que machucava mais, feito ácido na garganta. Teve vontade de berrar contra a injustiça daquilo tudo. Quero uma trégua, ela queria soluçar. Só uma vez quero que aconteça uma coisa boa comigo."

Sendo jogada no mundo adulto de uma hora para outra, e sofrendo a dor de perder quem mais amava, ela buscou consolo no álcool e pegou um empréstimo com um agiota, na tentativa de continuar tendo um teto onde morar e algo para comer, mas este foi um dos piores erros de sua vida. Quanto mais trabalhava para pagar as dívidas mais elas aumentavam, num ciclo que não tinha fim. O que ela devia inicialmente se multiplica, tornando impossível quitar uma dívida que era muito superior ao valor que ela de fato tinha pego emprestado. Sem saber o que fazer e sem meios de fugir dos capangas do agiota, enviados para "cobrá-la", Hal tenta não ceder ao desespero... é quando uma misteriosa carta, endereçada à ela, tanto se apresenta como a solução para os seus problemas quanto a lança na direção de segredos do passado que deveriam ser mantidos enterrados...

Destinatário da carta: Harriete Westaway. Endereço: o seu, sem nenhum erro de digitação. Mas aquilo só poderia ser um estranho engano, pois era impossível que ela realmente fosse a pessoa que o remetente procurava. O advogado que lhe enviou a referida carta, comunicava o falecimento de sua avó, Hester Westaway, a data do funeral e o fato de Harriet ser uma das beneficiadas pelo testamento. Seria um alívio para todas as suas dívidas se não existisse um pequeno problema: seus avós tinham falecido muitos anos antes, o que a fazia ter a certeza de que não era a Harriet correta, que tudo não passava de um equívoco. 

Mas diante da situação desesperadora na qual se encontrava, e após sofrer mais uma ameaça do capanga do agiota ao qual devia dinheiro, ela decide arrumar suas coisas e ir até o funeral, se passar pela neta da falecida e colocar as mãos na sua parte da herança. Eram pessoas ricas, certo? Um pouco de dinheiro que ela conseguisse com aquele engano não afetaria suas vidas. Só que ao chegar à Igreja e ao longo do funeral, ela percebe que nada seria tão simples assim... Alguma coisa de muito errada havia naquela história. Por que nenhum dos filhos lamentava a morte da mãe? Por que se comportavam de forma tão estranha uns com os outros? 

"Não era apenas a sensação de uma casa negligenciada há muito tempo. Era algo mais sombrio, de um lugar que esconde segredos, onde pessoas foram tremendamente infelizes e ninguém apareceu para consolá-las."

Ao hospedar-se na casa para leitura do testamento, fica ainda mais surpresa ao perceber o quanto o local estava se deteriorando, como o ambiente era sombrio e triste... O quanto as pessoas que um dia viveram ali tinham sofrido? Sua vontade era de voltar correndo para sua antiga vida, mas tudo se complica gravemente quando descobre que todos os filhos da falecida haviam sido deserdados, sendo ela a única herdeira dos bens. O que parecia apenas um jogo inofensivo, pois um pequeno valor que ela acreditava que herdaria não afetaria ninguém, se torna extremamente perigoso após essa bombástica revelação. 

O que as pessoas estariam dispostas a fazer por dinheiro? Sufocada pelas próprias mentiras, ela decide escapar para a sua realidade, voltar para sua cidade, sua vida... Mas uma foto revira todo o seu mundo: ali, naquela imagem congelada no tempo, entre as pessoas reunidas, estava a sua mãe. O choque é grande demais e Hal tenta entender que ligação haveria entre sua mãe, aquela casa e aquelas pessoas. Que segredos se esconderiam no passado? Por que sua mãe nunca mencionou que tinha vivido ali? Disposta a descobrir toda a verdade, ela demora a perceber que o preço talvez fosse alto demais... Talvez custasse a sua própria vida. 

"[...] que segredo era esse, o segredo que era o cerne de todo aquele mistério, que tinha alguém disposto a matar para protegê-lo?"

Este é um livro que ao mesmo tempo que eu amei também odiei profundamente.kkkkkkk Fiquei muito mal com o final, embora tenha que reconhecer que uma vez que adivinhei os principais segredos bem antes da metade da leitura, poderia muito bem saber como tudo terminaria, mas a verdade é que me neguei a suspeitar dessa pessoa. Me deixei enfeitiçar, me deixei enganar. Eu não quis colocar tal pessoa na lista de suspeitos quando o mais lógico seria colocar a tal pessoa como principal suspeita, levando em conta tudo o que eu tinha adivinhado sobre os segredos da história. Mas eu fui imbecil, me apaixonei por uma personagem que era especialista em prender as pessoas em seus encantos para depois dar o bote. Eu caí direitinho, como a Hal também caiu. A diferença é que eu já tinha descoberto boa parte dos segredos que essa pessoa tentava esconder, Hal ainda não sabia, então... a grande estúpida fui eu mesma. Ainda não me perdoei por ter sido tão burra! E também sofro muito pelo monstro, psicopata do livro, ser justamente quem eu menos queria. 

"Hal podia ser qualquer coisa, menos um rato. E não seria presa de ninguém."

Eu conversava com uma amiga durante a leitura e dizia que o psicopata poderia ser qualquer pessoa, menos aquela pessoa. Que eu não suportaria que fosse quem eu tanto amava no livro. Sabe quando você descobre algo inconscientemente, mas não quer admitir aquilo conscientemente?rs No fundo eu sabia que poderia ser, mas me negava a aceitar. Dizia: "Não, não, não! A autora não pode fazer isso, a autora não vai fazer isso comigo!"kkkkkk Realmente, gente! Eu não imaginava que fosse sofrer tanto com o final deste livro. Vai demorar para eu conseguir superá-lo.

Não há nada mais que eu possa falar sobre a história sem correr o risco de soltar spoiler. Vocês podem ver que eu passo perto do spoiler nesta resenha, mas não chego a fazer nenhuma revelação importante, apenas passo bem pertinho disso.rs Dizer que o psicopata é quem eu menos queria, quem eu mais amava no livro, não significa dizer quem é, pois é impossível vocês saberem de qual personagem estou falando, exceto se já tiverem lido a história. :)

Se recomendo o livro? MUITO! Já quero ler outros livros da autora! 



11 de dezembro de 2020

A Sociedade Literária e a Torta de Casca de Batata - Mary Ann Shaffer e Annie Barrows


Literatura norte-americana
Título Original: The Guernsey Literary and Potato Peel Pie Society 
Tradutora: Léa Viveiros de Castro
Editora: Rocco
Edição de: 2009
Páginas:304

 69ª leitura de 2020 (60ª resenha do ano)

Sinopse: Janeiro de 1946: enquanto Londres deixa para trás a sombria realidade da Segunda Guerra Mundial, a escritora Juliet Ashton busca um novo tema para seu próximo livro. Quem poderia imaginar que o encontraria na carta enviada por um homem desconhecido?


Morador da longínqua Guernsey, ilha britânica ocupada pelos nazistas durante a guerra, Dawsey Adams havia se deparado com o nome de Juliet na folha de rosto de Seleção de ensaios de Elia. Foi assim que decidiu corresponder-se com a autora. Talvez ela o ajudasse a encontrar mais livros do ensaísta romântico Charles Lamb. 


Tem início, assim, uma correspondência intensa: na troca de cartas, Juliet toma conhecimento da Sociedade Literária de Guernsey, formada por Dawsey e seus amigos. De criadores de porcos a frenólogos, eles decidiram que um clube de livro seria o melhor álibi para não serem capturados pelos alemães. 


Nas cartas que recebe de Dawsey e, depois, dos outros membros da sociedade, Juliet passa a conhecer a ilha, o gosto literário de cada um e uma famosa receita de torta de casca de batata, além do impacto transformador que a recente Ocupação alemã teve na vida de todos. Cativada por suas histórias, ela parte para Guernsey, e o que lá encontra irá transformá-la para sempre. 


Escrito com senso de humor e delicadeza, este romance epistolar é uma celebração da palavra escrita em todas as suas formas. 



É sempre mais difícil falar de um livro que se torna um favorito do nosso coração. Parece que as palavras simplesmente somem, escapam, e não sabemos como expressar o imenso amor que sentimos por uma história, a forma como ela nos atingiu e nos arrancou muitas lágrimas e sorrisos... assim, bem misturado mesmo. Em alguns momentos eu realmente ria e chorava ao mesmo tempo. 


Histórias que possuem como tema a Segunda Guerra Mundial sempre são dolorosas, ainda que o escritor tente contar as coisas de forma mais leve, apelando para o humor para tornar menos pesados certos acontecimentos. Ainda assim, essas histórias machucam. Abrem feridas não totalmente cicatrizadas dentro de nós que nunca esquecemos o passado podre da humanidade. É o mesmo que se passa com livros que falam da escravidão, das ditaduras e diversas outras barbaridades que mancham de sangue o nosso mundo, que nós seres humanos insistimos em destruir ao mesmo tempo que destruímos uns aos outros. A Mary Ann Shaffer tenta muito tornar sua história bem leve, com muito humor, e embora eu tenha rido bastante com algumas cenas, eu também chorei muito. E o que mais me marcou neste livro foi justamente isso: o sofrimento que os personagens, por mais otimistas e corajosos que fossem, jamais seriam capazes de esquecer. Como um trecho do livro bem diz: "A guerra agora faz parte da história de nossas vidas, e não há como esquecê-la." 


Eu não vou fazer um resumo muito grande do livro, pois a sinopse é bastante completa e te dá uma clara noção do que encontrará na história. Aqui temos um início bem parecido com o de Querida Sue (outro livro que me arrancou muitas lágrimas), quando há uma troca de cartas entre um leitor e uma escritora que nunca tinham se visto na vida, mas que se conectam através das palavras escritas como se fossem amigos de longa data. 


Juliet, uma jovem escritora e jornalista de trinta e dois anos, não sabia sobre o que escrever agora que a guerra havia acabado e ela estava cansada da série de histórias que a tinha tornado famosa, mas que não lhe dava tanto prazer assim. Queria falar de algo diferente, mais profundo. Sua vida estava um tanto bagunçada, pois pouco antes do fim da guerra, seu apartamento foi bombardeado e ela perdeu tudo o que ali tinha, incluindo os livros que tanto amava. Mas o que lhe acontecera não era nada comparado com o que milhões de pessoas enfrentaram durante aquela sangrenta e desesperadora guerra. 


"Mas a verdade é que estou deprimida - mais deprimida do que jamais estive durante a guerra. Tudo está tão destruído, Sophie: as ruas, os prédios, as pessoas. Particularmente as pessoas."

 

A vida sem perspectiva de Juliet muda quando ela começa a se corresponder com Dawsey Adams, um morador das Ilhas do Canal, local invadido e ocupado pelos nazistas durante a guerra, cujos habitantes sentiram de perto o terror de conviver com os inimigos. Dawsey havia encontrado um antigo livro que tinha pertencido a Juliet (seu nome e seu antigo endereço estavam na contracapa), então ele lhe escreve para lhe pedir o favor de indicar alguma livraria em Londres, que pudesse lhe enviar mais livros do autor, pois embora os nazistas tivessem partido, já não existiam mais livrarias em Guernsey.


Através da troca de cartas, Juliet fica sabendo sobre a Sociedade Literária e Torta de Casca de Batata de Guernsey e a forma como ela surgiu. Assim, acaba decidindo escrever sobre os membros daquela sociedade e como a literatura desempenhou um papel importante para tornar mais suportável os cinco anos em que estiveram sob o domínio do exército nazista. As cartas que antes trocava apenas com Dawsey, se tornam ainda mais significativas quando diversos outros moradores de Guernsey passam a lhe escrever e compartilhar suas experiências de leitura e de vida. Não demora para que ela se sinta parte daquele lugar e deseje conhecer pessoalmente aquelas pessoas que já sentia serem suas amigas. 


E é assim que a narrativa é construída: por meio de cartas. Trata-se, portanto, de um romance epistolar, no qual a autora (e sua sobrinha Annie Barrows, que foi quem finalizou o livro, pois a tia adoeceu pouco antes de concluí-lo) mostra todo o seu talento. Sempre considerei a narrativa epistolar algo sensacional e muito difícil de funcionar se o autor não souber o que está fazendo. Tem que ter talento e tomar muito cuidado para não se perder e tornar a história algo sem nexo. Felizmente, as autoras fizeram um excelente trabalho, nos proporcionando uma leitura emocionante, fazendo com que nós leitores também nos sentíssemos parte de Guernsey e da vida dos personagens. Eu desejei muito me mudar para lá.rs Mas só se pudesse conhecer Dawsey, Amelia, Isola, Eli e seu avô, e a pequena Kit, o que é impossível, já que são todos fictícios (esta é a parte ruim da leitura, querermos que os personagens sejam reais). 


Os membros da sociedade literária de Guernsey são muito diferentes uns dos outros e a maioria não tinha o hábito de ler. Eles tinham se reunido uma noite para comer um porco que tinham conseguido esconder dos nazistas. Era um período muito difícil, em que havia pouco o comer, em que tudo faltava. Acontece que após o excelente e raro jantar, alguns deles acabaram sendo parados pelos soldados inimigos (tinham violado o toque de recolher) e Elizabeth, com bastante coragem, inventou a mentira sobre uma reunião literária e que tão distraídos com os livros acabaram não percebendo o tempo passar. Era uma mentira difícil de "colar", mas contra todas as probabilidades funcionou. Então, Elizabeth resolveu tornar a mentira real e fundou a sociedade literária. Algo que se tornou um refúgio para aquelas pessoas, que viram na literatura uma chance de escapar, mesmo que por poucas horas, do horror da guerra.


"Nós nos agarramos aos livros e aos nossos amigos; eles nos faziam lembrar que havia um outro lado em nós. Elizabeth costumava recitar um poema. Não me lembro dele todo, mas começava assim: 'Será algo tão insignificante ter apreciado o sol, ter se alegrado na primavera, ter amado, ter pensado, ter feito, ter cultivado amizades verdadeiras?' Não é. Eu espero que, onde quer que esteja, ela se lembre disso."

 

Eu não consigo falar da Elizabeth sem chorar. E não posso dar spoiler. Portanto, não me verão mencionando muito sobre ela. Só digo que é a personagem que mais me marcou neste livro. Aquela que tornou a leitura tão especial, tão emocionante. 


Como eu disse, o livro tem uma narrativa leve, divertida, que nos arranca sorrisos e até gargalhadas. Mas também não nos poupa das realidades brutais da guerra e é impossível segurar as lágrimas diante de certas lembranças dos personagens. Sentimos dor e sentimos ódio. Uma vontade enorme de matar aquelas pessoas cruéis, dignas de serem chamadas de monstros e que destruíram tantas vidas. 


O livro fala de literatura, amizade, recomeço, fé, esperança... bondade. Amor em suas mais diversas formas. Mas também fala de fome, perdas, tortura, desaparecimentos e assassinatos. Não dá para falar de Segunda Guerra Mundial sem mencionar toda essa dor. 


A história termina de forma engraçada e bonita, mas considerei um final tão abrupto! Eu cheguei a dar um grito aqui, chocada. Falei: "Não! Não acredito que elas terminaram o livro assim!"kkkkkk Fiquei frustrada?! Com certeza! Esperava um final diferente. Mesmo assim, isso em nada diminuiu o imenso amor que sinto por esta história. É uma querida do meu coração. 


P.S.: Eu pensei em assistir o filme baseado no livro, mas antes resolvi ver o trailer. Resultado: não gostei. Pelo trailer já percebi que fizeram várias mudanças, inclusive na personalidade dos personagens. E isso me fez tomar a decisão de não ver o filme. 



25 de outubro de 2020

Por que só as princesas se dão bem? - Thalita Rebouças


Literatura Brasileira
Literatura Infantil
Editora: Rocco
Edição: 2013
Páginas: 36

58ª leitura de 2020 (53ª resenha do ano)

Sinopse: Por que só as princesas se dão bem? é um conto de fada às avessas que vai conquistar as leitoras mirins. O livro traz o estilo bem-humorado da escritora que conquistou os adolescentes, agora contando a história de Bia, uma garota apaixonada por princesas... até se tornar uma!




Por que só as princesas se dão bem? é um livrinho voltado para um público infantil, é uma história para crianças pequenas, mas capaz de trazer leveza para pessoas de todas as idades, claro! É por isso que mesmo aos 26 anos eu decidi lê-lo!kkkkkk

Nele conhecemos a pequena Bia, uma criança muito esperta e questionadora, que está sempre enchendo a mãe de perguntas.rs E uma das coisas que ela não entende é por que só as princesas são felizes, só elas têm direito ao "felizes para sempre". Ela acredita que ser princesa é a melhor coisa do mundo e queria muito ser uma... E, como se uma fada madrinha ouvisse seu pedido, ela se torna princesa! Então percebe que as coisas não são bem como ela imaginava...

Sua mãe estava lendo um livro antes dela dormir e, misteriosamente, Bia vai parar dentro da história! Logo é cercada por várias assistentes e preparada para os milhares de eventos e obrigações e regras que toda princesa precisa seguir. Ela não podia fazer perguntas, tinha que vestir o que os outros escolhessem, comer somente o que outras pessoas decidissem, sequer poderia ir ao banheiro quando desejasse, mas somente quando os outros achassem apropriado!rs Eram muitas as regras, muitos os compromissos. Brincar?! Nem em pensamento! Enfim... Era uma vida muito infeliz. E tudo o que Bia mais desejava era voltar a ser ela mesma, voltar a ter sua vida. 

O livro traz uma visão nada cor-de-rosa dos contos de fadas. Nele, a vida de uma princesa é mais "real", não há "o felizes para sempre", com o príncipe encantado maravilhoso e uma vida de bailes e sorrisos e sonhos. Eu teria dó de ler uma história dessas para uma criança que ainda ama contos de fadas e sonha em ser princesa.rs Não leria, não!kkkkkk Mesmo assim, é uma história engraçada, com seu próprio final feliz e que nos faz pensar naquela questão de sempre considerarmos a vida do outro melhor que a nossa, a grama do vizinho mais verde, sabe? Através da experiência da Bia percebemos que muitas vezes o que consideramos "uma vida perfeita" não é nada daquilo e se trocássemos de lugar com a outra pessoa possivelmente iríamos desejar voltar correndo para nossa própria vida. Foi o que a Bia quis: apenas a sua própria vida de volta.

É uma historinha leve, bem rápida de ler, bastante engraçada e com um final bem feliz para nossa protagonista!rs



-> DLL 20: Um livro que tenha criança como personagem principal




30 de agosto de 2020

A Panqueca Fugitiva, o Resmungão e outros contos nórdicos


Adaptação de Augusto Pessôa 
Editora: Rocco
Edição de: 2015
Páginas: 96

47ª leitura de 2020 (45ª resenha do ano)

Sinopse: Os contos nórdicos são hstórias compartilhadas pelos povos germânicos que habitaram a Escandinávia, sobretudo a Islândia. Uma cultura transmitida oralmente, como toda cultura popular, de geração para geração. Essas narrativas chegaram até nós por meio de textos medievais escritos durante e após o processo cristianização da região. E, como acontece com toda cultura popular, são textos vivos, em permanente transformação, de acordo com as necessidades de cada sociedade. 

Com humor e perspicácia, Augusto Pessôa pesquisou e adaptou oito contos nórdicos, carregados de simbolismo e arquétipos que os tornam universais. 




Por estar lendo um livro que tem me provocado muita angústia (Capitães da Areia, do Jorge Amado), eu não consegui começar a ler o livro planejado para um dos temas deste mês do Desafio Literário Livreando 2020. Então, escolhi esta pequena coletânea de contos nórdicos bem no último momento, por acreditar que era algo leve, que leria rapidinho e que traria um certo alívio em meio a uma leitura que é densa e está acabando com o meu emocional.rs

E este livro é realmente muito leve, trazendo histórias simples e encantadoras, bem o que eu precisava para aquecer um pouco meu coração. 

Aqui temos oito contos, cada um mais envolvente que o outro. No primeiro, A boa mulher, conhecemos a história de um casal que vivia numa fazenda distante e que economizava para quando tivesse filhos. Eles eram muito felizes e em tudo a esposa era bondosa com o marido. Um dia, o marido resolveu vender uma das vacas e caminhou um longo tempo atrás de alguém que aceitasse comprá-la, mas não teve êxito, ninguém queria pagar pela vaca. Ao retornar, encontrou um homem com um cavalo e sugeriu uma troca, o que foi aceito. Então, ele seguiu adiante com o cavalo e a vaca passou a pertencer ao outro. Todavia, ao longo do caminho outras trocas de animais são feitas até o desfecho da história, que eu achei incrível. Gostei bastante deste conto. 

O segundo, Os sete potros, é ainda melhor que o primeiro. Nele temos um casal muito pobre que criara três filhos com bastante dificuldades. Um dia, o mais velho decide que vai sair pelo mundo em busca do próprio destino, mas não é bem-sucedido, pelo contrário, retorna ferido e disposto a nunca mais colocar os pés para fora de casa. O segundo resolve tentar a sorte e acaba encontrando os mesmos problemas que o irmão. Então, o caçula decide buscar emprego no mesmo local que seus irmãos e passar no desafio que eles não conseguiram. Os dois zombam, acreditando que ele também voltaria traumatizado. Simplesmente amei este conto! O segredo estava em fazer as coisas da maneira correta, sem enganar alguém que depositara a confiança em você. 

Não irei falar de todos os contos para não acabar tirando a graça de quem vai ler.rsrs O conto A raposa e o urso, por exemplo, dispensa comentários. Sabemos que as raposas, em todas as histórias, são sempre muito espertas e neste conto aqui não é diferente. 

O quarto conto é muito divertido e um dos meus preferidos. Florisbela e Bela Flor traz a história de uma rainha que queria muito ser mãe e suspirava de tristeza por não ter filhos. Até que a mulher do jardineiro lhe entregou uma semente, que ela deveria plantar seguindo várias instruções e uma delas era regar apenas com a mão direita, caso contrário ela iria acabar se arrependendo. Mas a rainha se esqueceu dessa regra e regou tanto com a mão direita quanto com a esquerda. Surgiu uma árvore e, tempos depois, da árvore nasceram duas meninas, uma linda e adorável e a outra desgrenhada e rebelde. A adorável ela chamou de Bela Flor e a rebelde de Florisbela. É um conto que nos surpreende, pois não imaginamos como a história iria se desenrolar e eu amei o que aconteceu! 

O conto O Resmungão traz uma história hilária e tão envolvente quanto as outras, até mais na verdade. Nele temos cinco mulheres que queriam muito ter filhos e um dia encontraram um ovo enorme, do tamanho de um homem. Cada uma quis o ovo para si e brigaram até decidir que todas ficariam com ele. E se revezavam para chocá-lo.rs Até que num determinado dia saiu uma voz de dentro do ovo, pedindo comida. A mulher terminou de abrir o ovo e dele saiu uma "criança".... Bem, não exatamente uma criança, mas um homem com rosto de menino. As mães fizeram de tudo para alimentá-lo, mas o "menino" nunca estava satisfeito, estava sempre pedindo mais comida e elas não tinham condições de sustentá-lo. Então, o mandaram embora. E o homem-menino foi. Não digo mais nada, pois vale a pena conhecer o final por conta própria.rs

Não existe nenhum conto neste livro do qual eu não tenha gostado, o que me surpreendeu, porque é raro apreciarmos todos os contos presentes numa coletânea. São ótimos para serem lidos em qualquer idade, pois divertem e encantam. Eu me senti bem mais leve, tranquila, depois de lê-los. Foi realmente uma ótima escolha! 


-> DLL 20: Um livro de sua cor preferida (minha cor preferida é azul)


 

21 de abril de 2020

Amoras - Emicida / Flávia e o Bolo de Chocolate - Míriam Leitão

Literatura Brasileira
Editora: Companhia das Letrinhas
Edição de: 2018
Páginas: 44
21ª leitura de 2020

Sinopse: Em seu primeiro livro infantil, Emicida conta uma história cheia de simplicidade e poesia, que mostra a importância de nos reconhecermos nos pequenos detalhes do mundo. Na música “Amoras”, Emicida canta: “Que a doçura das frutinhas sabor acalanto/ Fez a criança sozinha alcançar a conclusão/ Papai que bom, porque eu sou pretinha também”. E é a partir desse rap que um dos artistas brasileiros mais influentes da atualidade cria seu primeiro livro infantil e mostra, através de seu texto e das ilustrações de Aldo Fabrini, a importância de nos reconhecermos no mundo e nos orgulharmos de quem somos — desde criança e para sempre.




Este é um livrinho que resolvi ler "do nada". Inicialmente não estava nas minhas metas, mas eu estava um tanto triste e queria apostar numa leitura rápida e leve, que me desse um pouco mais de ânimo. 

Aqui temos uma historinha simples, mas muito importante por falar de aceitação, de amor próprio e de tolerância religiosa. Há menções à religião africana, ao cristianismo, ao islamismo... De um modo direto e lindo, mostrando que são apenas maneiras diferentes de praticar a fé e buscar um mesmo Bem. 

"Nesse planeta, Deus tem tanto nome diferente que, pra facilitar, decidiu morar no brilho dos olhos da gente."

A protagonista é uma menininha muito esperta e observadora e durante um passeio pelo pomar ao lado do pai, enquanto ele explicava que quanto mais pretinhas mais doces eram as amoras, que eram "o melhor que há", ela ficou muito feliz por ser parecida com as amoras, por ser "pretinha também". E aqui temos a questão da aceitação, de amar a si mesmo, de valorizar a sua cor de pele... entender que cada detalhe em nós foi feito com amor por Deus. É um livro de fácil leitura e compreensão pelas crianças e já quero que a minha priminha o leia (no momento ela está lendo Harry Potter e a Câmara Secreta). 

O autor também menciona Zumbi dos Palmares e Martin Luther King, enfatizando assim a sua intenção ao escrever este livro. E ele não apenas os menciona, mas ao final da leitura as crianças têm acesso a um glossário que explica de maneira bem simples quem eles foram, além de explicar também quem foi Obatalá e o que significa orixás, quilombo, o que é a África e quem é Alá


Literatura Brasileira
Editora: Rocco
Edição de: 2015
Págnas: 36
22ª leitura de 2020

*Lido no Kindle Unlimited

Sinopse: Em meio aos questionamentos da pequena Flávia sobre a sua pele marrom – tão diferente da pele branquinha da mãe –, a premiada jornalista Míriam Leitão aborda temas delicados como adoção e questões raciais de forma sensível e lúdica para os pequenos. Com belas ilustrações de Bruna Assis Brasil, a autora, ganhadora do Prêmio FNLIJ 2014 na categoria Escritor Revelação por seu livro infantil de estreia, A perigosa vida dos passarinhos pequenos, mostra que o mundo é feito de diferentes cores, pessoas e sabores. E que é justamente isso que o torna tão rico. Flávia e o bolo de chocolate é o terceiro livro infantil de Míriam Leitão, autora também de A menina de nome enfeitado.



Pense num livrinho apaixonante! Se gostei muito de Amoras simplesmente AMEI Flávia e o Bolo de Chocolate

Nele temos uma mulher que sonha muito em ser mãe, mas a vida não lhe permite engravidar. Ela era uma pessoa boa e querida por muitos, mas a tristeza por não ter um filho ia tomando conta dos seus dias. Até que ela encontrou a solução perfeita: adotar uma criança que não tivesse mãe e que a quisesse. Foi assim que Flávia, ainda bebezinha, se tornou parte de sua vida, se tornou a sua filhinha. Quando a viu pela primeira vez, Rita (a mãe) percebeu que aquela era sua menina, pois se apaixonou por ela naquele instante. 

Ao conseguir levá-la para casa, agora legalmente sua filha, Rita logo quis passear com a bebê e mostrá-la para todas as suas amigas, mas ainda que a maioria tivesse ficado feliz por ela, uma tratou de destacar as diferenças físicas entre as duas (a cor da pele) e dizer que seria impossível que aquela fosse a filha de Rita. Embora tenha ficado triste com a observação maldosa, que se preocupava mais com a diferença de cor da pele das duas, ela não se deixou desanimar e criou a filha com todo o seu amor. Elas aprendiam juntas, se divertiam, passeavam, eram muito unidas. Mas um dia...

"Flávia começou a chorar:
- Mãe, eu quero ser como você. 
- Como assim?
- Não quero ser marrom!
- É mesmo? Por quê?
- Eu quero ser branca como você.
- Mas por quê? Você é linda do jeito que é, toda marronzinha - falou a mãe."

Mesmo a mãe mostrando o quanto ela era linda e incrível do jeitinho que era, Flávia não se deixou convencer. Na sua opinião ela era feia por ter a pele marrom e queria ser branca como a mãe. Disse que tudo o que era marrom era feio e nada no mundo a fazia pensar diferente. Será que não?! É aí que o livro fica MARAVILHOSO pela maneira única e sensível que a Rita faz a filha abrir os olhos e enxergar a beleza de ser como era. Não vou dizer como ela faz isso, pois eu amei descobrir lendo. Só posso dizer que se tornou um dos meus livros queridinhos! 

Eu estava lendo "O Cortiço" para o tema deste mês do DLL 20, mas como Amoras e Flávia e o Bolo de Chocolate também se encaixam no desafio, resolvi continuar lendo O Cortiço, mas não mais para o projeto.


-> DLL 20: Um livro com um personagem negro


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