(Título original: Hamlet
Tradutor: José Antonio de Freitas
Editora: Martin Claret
Edição de: 2010)
Considerado o mais influente dramaturgo de todos os tempos e o maior escritor da literatura inglesa, William Shakespeare (1564-1616) escreveu poemas, comédias, tragédias e dramas históricos que foram traduzidos para os principais idiomas do mundo. Sua obra teatral, conservando toda a complexidade, mistério e encantamento no curso do tempo, é permanentemente representada no teatro e transposta para o cinema e televisão.
Hamlet, a tragédia do triste príncipe da Dinamarca enredado em intrigas, traições e vinganças, é uma das peças mais conhecidas e apreciadas do Bardo de Avon. Muitos estudiosos se debruçam sobre esta obra, que pode ser examinada e interpretada por diferentes perspectivas, tendo sido como objeto de estudo para Freud e Lacan, e inspirado escritos notáveis, como Goethe, Joyce e Dickens, entre outros.
Palavras de uma leitora...
- Cerca de dez anos atrás, curiosa por conta de todo o amor que muitas pessoas sentem pelas obras de Shakespeare, caí na besteira de dar uma chance ao livro Romeu e Julieta, uma das tragédias mais famosas do autor. Claro que já conhecia a história. É impossível passar pela vida sem obter spoilers desse livro.rsrs É uma história que costuma ser trabalhada nas salas de aula, que faz parte das bibliotecas escolares e vende aos montes ainda nos dias atuais. E não, eu nunca tive paciência para assistir nenhuma adaptação. Já tinha antipatia pela história antes de lê-la, confesso. Posso ser uma romântica incurável, mas Romeu e Julieta nunca me encantaram. Dois jovens apaixonados que se suicidam por amor. Ainda não consigo enxergar a magia que enfeitiça tantas pessoas. Tudo bem, eles não tinham intenção de se matar, pretendiam fugir juntos para viver seu grande amor, uma vez que suas famílias eram inimigas mortais e o amor entre eles era impossível. Mas fizeram tanta besteira, uma escolha mais estúpida que a outra que não consegui sentir compaixão, me comover nem nada. Tudo o que me prometi foi que nunca mais leria nada de Shakespeare.kkkkk...
Mas com o passar dos anos e os planos de ler mais clássicos, voltei atrás na minha decisão. Não custaria tanto assim pelo menos ler algumas de suas tragédias. Todavia, não estava na minha meta fazer isso este ano. Ocorre que a leitura de Emma, de Jane Austen, teve que ser adiada (era o clássico de julho) por causa do TCC e eu precisava incluir um novo clássico na lista, um que fosse mais curto e rápido de ler.
Como a leitura seria em grupo, com outras amigas no WhatsApp, deixei que elas escolhessem entre Antígona (de Sófocles) e Hamlet. O segundo acabou ganhando, o que me provocou certo desespero.rsrs Deveríamos começar a lê-lo no dia 20/07 e encerrar em 31/07. Eu até comecei a leitura no dia programado, mas só fui até a página 21. O livro estava me provocando tanto tédio que o deixei de lado e fui ler O que dizem seus olhos. Voltei para a peça apenas no dia 28/07 e abandonei de novo.kkkkkkkk... Dessa vez para ler Rebelde e Um mundo novo.rs O que posso fazer se o autor não consegue me envolver, gente?! E não é que eu tenha um sério problema em ler peças (tudo bem, não gosto muito), pois amei a experiência de ler Édipo Rei, de Sófocles (embora, definitivamente, tragédias não sejam para mim), um escritor muito mais antigo que Shakespeare, e que poderia ter me causado maior dificuldade. A questão é que não consigo simpatizar com as histórias do autor. Não me convencem. Tudo parece forçado demais.
- Concluí a leitura apenas no dia 31 e pode-se dizer que li o livro todo num dia, vez que antes só tinha chegado à página 21. E creio que ganhará o prêmio de história mais tediosa e estúpida do ano. Sério! Quanta baboseira num livro só! Começo a pensar que não existirá o dia em que verei as obras de Shakespeare com bons olhos.
"Há dois meses apenas que ele morreu... não, nem tanto... ainda não há dois meses..."
A história gira em torno de Hamlet e a quase certeza que ele tem de que seu pai foi traído e assassinado pelo próprio irmão, o atual rei da Dinamarca.
Muito apegado ao pai, ele não consegue superar a perda, estando ainda de luto enquanto todos os outros parecem ter seguido muito bem com suas vidas. Especialmente sua mãe, que em prantos sofreu a morte do marido, mas cerca de um mês depois já estava casada com seu irmão, dedicando a ele palavras de amor eterno. Hamlet vê com muita ironia e desprezo a relação entre os dois, a considerando incestuosa e inaceitável, nutrindo em seu coração não apenas o ódio pelo tio, mas também um ressentimento profundo em relação à mãe, quem ele passou inclusive a ver como uma rameira.
Paralelo a isso temos a jovem Ofélia, moça sonhadora e submissa, a quem Hamlet jura amor. Obediente ao pai, ela lhe confessa o interesse do jovem príncipe e Polônio proíbe terminantemente a filha de voltar a encontrar-se com o rapaz, pois seus mundos eram diferentes. E o príncipe nunca se casaria com alguém como ela.
Ocorre que uns soldados e oficiais, bem como o amigo de Hamlet (Horácio) ficam assombrados com o aparecimento de um espectro, que era a imagem do falecido rei. Sem saber o que pensar e repetindo-se a aparição, resolvem comunicar o fato ao príncipe, que decide ficar de guarda com eles para o caso do fantasma retornar.
Embora o espectro tenha se negado a falar com os outros pediu que Hamlet fosse com ele para lhe contar algo importante. Foi quando lhe revelou algo terrível: o fantasma que tanto se parecia com seu pai disse a ele que foi assassinado pelo irmão, inclusive relatando como ocorreu a morte e por que não houve suspeitas.
"[...] Porém, sabe tu, ilustre jovem: a serpente que mordeu teu pai e lhe tirou a vida agora cinge-lhe a coroa."
Transtornado, sem saber bem o que pensar, mas no fundo do seu coração acreditando que aquilo era verdade, se vê dividido entre a vingança e a dúvida que corroía sua mente. Em seu coração sabia que o tio, seu próprio sangue, tinha assassinado o irmão. Mas sua mente não sabia ao certo e necessitava de provas. Porque não poderia cometer um homicídio sem ter certeza de que a vítima mereceria a morte.
Hamlet, então, muda drasticamente de comportamento, o que faz o rei e a rainha desconfiarem que algo de errado se passava. Polônio, supondo que o príncipe enlouquecia de amor por ter sido privado da companhia de Ofélia, garante ao rei que aí residia o problema, algo que não tranquiliza o monarca, que começa a ver no sobrinho um obstáculo. Sua "loucura" era uma ameaça a todos ao seu redor e no amor que o povo sentia pelo jovem príncipe também existia um perigo. O melhor seria mandá-lo para longe...
Cada vez mais agitado e dizendo coisas aparentemente sem sentido, embora entremeadas de lucidez, Hamlet aproveita uma oportunidade única de testar o tio e comprovar se o que o espectro dissera era verdade ou algo vindo dos infernos para confundi-lo e fazê-lo perder a razão.
E a partir daí que começa um jogo de armadilhas e traições em que a morte parece um destino certo para quase todos os envolvidos.
- Eu não tenho nenhuma intenção de dar spoilers do livro. Embora todos saibamos começo, meio e fim da história de Romeu e Julieta sem sequer necessitarmos ler (risos), o mesmo não acontece com Hamlet. Eu, pelo menos, nada sabia antes de ler. Claro que pude prever os acontecimentos, afinal de contas, trata-se de uma tragédia. Bastava ter um leve conhecimento do que o autor gostava de colocar em suas peças para imaginar o rumo que as coisas tomariam. E não me surpreendi com absolutamente nada.
"[...] Mãe, por amor da salvação, não derrameis sobre a vossa alma o bálsamo enganador de que não é o vosso crime, e sim a minha loucura quem fala; isso apenas serve para cobrir com uma tênue película o lugar da úlcera, enquanto a gangrena sem ser vista, minando por baixo, infecciona tudo."
- Não tive paciência com nenhum personagem desta tragédia. Também não senti compaixão alguma. Todos me pareceram completos imbecis, incapazes de guiar a própria vida com um mínimo de inteligência. Todavia, o fato do livro ter me feito revirar os olhos de tédio e os personagens apenas terem me provocado repulsa não faz com que eu deixe de mencionar certos pontos. Como, por exemplo, a maneira como o Hamlet tratava a mãe.
Que ele estivesse de luto pela morte do pai eu entendo. E também não encaro muito bem o fato da mãe dele ter resolvido se casar com o cunhado um mês depois da morte do adorado marido. É algo que não seria bem visto nem nos dias atuais. Como o protagonista ironiza num determinado momento: o amigo não tinha chegado para o velório de seu pai, mas sim para o casamento de sua mãe, vez que é curto o intervalo de tempo entre um acontecimento e outro. Porém, nada dá a ele o direito de falar com a mãe daquela forma desprezível, nem ficar debochando ou chamando-a de rameira. Durante a leitura quase toda fica evidente como ele detesta a própria mãe, como julga e condena sem piedade. Impossível sentir um mínimo de afeto por um personagem desse tipo. Que se julgava tão acima de qualquer erro e considerava-se o dono de toda verdade e moral.
- Outro ponto é a intenção (na minha opinião) do livro ser apenas um espetáculo. É uma peça, que foi escrita mesmo para ser representada. Mas que não teve a preocupação de ter personagens consistentes, que nos fizessem acreditar, pelo menos, em metade do que eles aparentemente sentiam. Dá para visualizar o "show", a dramatização de relações familiares, impregnadas de traições, para impressionar quem lesse/assistisse. É algo muito diferente do que encontrei em Édipo Rei, por isso penso que deveria ter apostado em Antígona e não em Hamlet.rs
- Sei que muita gente morre de amores pelas obras do autor e deve estar querendo me esganar, mas, infelizmente, Shakespeare não é para mim. Não tenho paciência com tanto drama forçado e sem sentido. Claro que não sou nenhuma estudiosa das peças do autor, não sou especialista alguma. Apenas uma leitora. E talvez tenha quem diga que o livro é precioso, fonte de diversas reflexões, riquíssimo, inspiração de outros grandes autores (Shakespeare SEMPRE é) etc. Que ele aborda assuntos importantes e é um clássico de peso. Eu diria que existem outros diversos livros, entre clássicos e não clássicos, que tratam dos mesmos assuntos e são mil vezes mais interessantes.
- Uma curiosidade: descobri que muitas daquelas frases feitas que utilizamos (como: ser ou não ser, eis a questão) foram retiradas deste livro.rsrs Não posso negar que possui alguns trechos que realmente merecem destaque e eu marquei vários deles.
É a segunda vez que me decepciono com o autor. Então, já não sei se apostarei nas outras obras dele. Preciso pensar sobre o assunto.rs
- Esta foi minha última leitura do mês de julho, mas vocês provavelmente terão acesso à resenha no dia 02 de agosto. :)