15 de dezembro de 2018

Desejo e Escândalo - Lorraine Heath

(Título Original: Beyond Scandal and Desire
Tradutora: Thalita Uba
Editora: Harlequin
Edição de: novembro/2018)

Série Sins for all Seasons / Irmãos Trewlove - Livro 1

Mick Trewlove é um empresário de sucesso, mas não consegue esquecer seu passado. Filho ilegítimo de um duque, Mick foi entregue ainda bebê para uma mulher na periferia de Londres, onde foi criado. Ele não consegue se livrar do sentimento de vingança, e percebe uma oportunidade de revanche seduzindo a bela pretendente de seu meio-irmão - o filho legítimo do duque. 

Lady Aslyn Hastings é uma órfã criada pelo duque e pela duquesa de Hedley, e acaba de aceitar o filho deles, o conde de Kipwick, como futuro marido. Mas seu noivo é um homem muito ocupado que a mantém afastada de sua vida, e isso desperta em Aslyn o receio de uma relação monótona. Até que a paixão surge na forma do belo empresário Mick Trewlove, que parece compreendê-la tão bem. Ela sabe que uma Lady na sua posição deveria evitar aquele homem misterioso, mas ele é irresistível. 



Palavras de uma leitora... 


- É verdade que este semestre foi muito complicado. Período final da faculdade, com desafios de enlouquecer, TCC acabando com o resto da minha sanidade mental... Eu vivi momentos de muito estresse e por vezes isso até afetou o blog.rs Mas o que teria sido da minha vida sem os livros? Foram eles que me acalmaram. Que me possibilitaram algum alento. Sem as leituras maravilhosas que fiz o TCC certamente teria feito eu ir parar num hospício. Simples assim. 

E depois de uma leitura pesada como O Conto da Aia, que jogou na minha cara algumas verdades bastante necessárias de serem percebidas... tudo o que eu precisava para tranquilizar um pouco meu coração era um romance de época. Estava desesperada por uma leitura assim. Que me trouxesse magia, romantismo, a beleza que procuramos naquele amor arrebatador e de fazer suspirar. E encontrei exatamente o que buscava em Desejo e Escândalo

- Estava ansiosa por este lançamento desde quando algumas meninas começaram a postar a novidade no Instagram e depois que algumas amigas leram e amaram eu fiquei roendo as unhas esperando o meu exemplar chegar. Queria iniciar a leitura para ontem, pois imaginava que seria algo no estilo A Verdade sobre Amores e Duques, sabe? E não me decepcionei. A história é realmente linda e entendo os motivos para ser tão querida. 

Ano de 1840. Era para ser um dia feliz. Afinal de contas, seu primeiro bebê estava nascendo; um menino, fato que deveria torná-lo ainda mais desejado. Mas era um dia sombrio para o duque de Hedley, pois aquela criança não poderia crescer ao seu lado. Precisava ser descartada, escondida como um segredo sujo. Embora o remorso já começasse a corroê-lo por dentro não hesitou ao pegar a pequena trouxa nos braços e levá-la para seu destino. Sabendo que jamais poderia olhar para trás...

Mais de trinta anos depois, Mick Trewlove, o menino que seu pai rejeitou por ser um bastardo conquistara quase tudo o que desejava na vida. Um homem de negócios extremamente importante, ele galgou cada degrau no intuito não só de dar uma vida digna para sua mãe adotiva, que o acolhera ao invés de matá-lo como tinha sido paga para fazer, mas também de esfregar na cara do duque que ele havia vencido. Sem sua ajuda. Sem seu reconhecimento. E se fosse um homem diferente isso talvez bastasse, mas o desejo de vingança falava mais alto... e ele queria bem mais do que jogar seu sucesso na cara do pai que o desprezou... queria bem mais... Não importava se para conseguir o que desejava ele tivesse que arruinar a vida de uma moça inocente. 

"Ele era um homem forte, mas achava que, por ela, teria ficado de joelhos."

Só que os planos que pareciam tão simples antes sofrem um tremendo abalo no momento em que ele conhece Aslyn, a jovem lady que pretendia utilizar para vingar-se de seu pai. Porque ela não era nada do que ele imaginara. Porque o fazia ansiar por coisas que não poderia ter. Por uma vida a qual não tinha direito. Quando olhava em seus olhos... era como se toda a bondade que faltava no mundo estivesse ali. Mesmo tendo sido criada protegida das realidades da vida ela não tinha preconceitos. Não se sentia superior a ninguém e era capaz de comover-se e defender uma criança desconhecida como se tivesse nascido de seu próprio ventre. E quando sorria para ele... quando entregava o que sentia sem reservas... Mick sonhava, ainda que por alguns momentos, que um final feliz poderia surgir daquela história. Que poderia tê-la ao seu lado, não importava quantas pessoas dissessem que não. De que valia a vingança quando o amor estava ao alcance de suas mãos? E poderia escapar... se ele fizesse a escolha errada. 

- Logo nas primeiras páginas o livro já me prendeu. Eu não sabia se sentia ódio ou pena do pai do Mick, que ao mesmo tempo em que não hesitou ao abandonar o filho, sem saber ao certo que destino a criança teria, também parecia estar destroçado pela decisão tomada. Fiquei muito confusa, dividida e revoltada, mas aos poucos, conforme ia conhecendo os personagens, fui compreendendo que existia muito mais ali. E consegui descobrir o grande segredo por trás do nascimento e abandono do Mick antes mesmo da autora finalmente revelar.rs Eu juntei as peças e elas se encaixaram bem. Foi um desenlace perfeito. Um nó doloroso ficou em minha garganta, claro, pois era sofrimento demais para que eu pudesse ficar indiferente. Mas achei o final muito bonito e, de certa forma, justo. 

"Ela não era mais um meio para um fim. Tinha se tornado o fim em si."

Os protagonistas deste romance são duas pessoas muito fortes e determinadas, capazes de se entregar por inteiro ao amor. É muito fácil se apaixonar por eles. Não teve um só momento em que eu tenha sentido raiva ou vontade de esganá-los.rs Claro que não eram perfeitos, mas se importavam tanto com os outros e de forma tão natural, tão humana, que era impossível não torcer para que pudessem ter seu final feliz. Encontrar o amor mesmo num mundo sórdido. Aslyn me impressionou com sua coragem e sua fúria na hora de defender uma criança. Se eu já não gostasse dela antes ela teria se tornado minha personagem querida naquele instante, pois virou uma leoa e mostrou todo seu potencial quando protegeu um pequeno ser, cujo único pecado tinha sido nascer fora de um casamento. E seu amor tão profundo pelo Mick que a tornava disposta a enfrentar a reprovação da sociedade e todas as portas que se fechariam para ela se seguisse em frente com aquela relação... este amor tão lindo nos atinge. Quando uma personagem coloca a pessoa amada acima de qualquer coisa ela já conquista um lugar exclusivo no meu coração. :)

"Ela o amava. Era simples assim, complexo assim."

E falando nisso... não tem como eu não sorrir como uma boba ao recordar tudo o que o Mick fez por ela. Ele queria vingança?! Claro que sim. E tinha um certo direito de querer, embora usar uma pessoa inocente não fosse o caminho correto. Mas que vingança pode sobreviver à força do amor, me digam?! :D Com Aslyn ele aprende muito e descobre mais sobre si mesmo do que poderia sequer imaginar. E ainda que tenha feito algumas escolhas erradas, no final das contas não foi um idiota.rs E eu jamais poderia esquecer a forma como ele demonstrava seu amor através de atitudes simples, mas tocantes. A cena do pente, do cordão de pérolas que tinha sido da mãe dela, uma lembrança tão preciosa... Os jardins... a cena na carruagem... tudo era tão... Nem sei como colocar em palavras. Eles simplesmente mereciam uma vida juntos. Mereciam a felicidade. 

- Esta é uma história que devemos ler para sonhar. Na qual mergulhamos em busca de amor, de cenas apaixonantes e por vezes divertidas. Claro que há drama também, como a questão dos bebês ilegítimos e o destino ao qual eram condenados (e este assunto não é ficção, o que é mencionado pela autora realmente acontecia muito no passado, por mais revoltante que seja), mas ainda assim o livro é leve, capaz de provocar um quentinho no coração e uma vontade louca de ler outros livros do gênero, de preferência o resto da série. Sim! Se trata de uma série e já estou ansiosa pelos próximos livros. Eu percebi que a editora não colocou nenhum aviso de série na capa ou no interior do livro, mesmo assim acredito que a Harlequin pretende publicar os demais, uma vez que a autora já é muito querida entre nós fãs brasileiras e não sossegaremos até vermos a série toda completa aqui. :)

Se recomendo o livro?! Não preciso sequer pensar duas vezes! Recomendo MUITO. Sobretudo para os fãs de uma bela história de amor. O único problema é o grande desejo que sentimos de ler mais obras da autora.rs


*Este livro foi recebido em parceria com a editora Harlequin.

9 de dezembro de 2018

O Conto da Aia - Margaret Atwood

(Título Original: The Handmaid's Tale
Tradutora: Ana Deiró
Editora: Rocco
Edição de: 2017)

Visão assustadora de uma sociedade radicalmente anulada por uma revolução teocrática no século XXI, O conto da aia tornou-se um dos romances mais poderosos de nossos tempos. Nas palavras da própria Margaret Atwood, "a República de Gilead é construída sobre a base das raízes puritanas do século XVII que sempre estiveram por baixo da América moderna que pensávamos conhecer". 



Palavras de uma leitora...


Depois de tanto ter ouvido falar deste livro decidi que não havia momento melhor para adquiri-lo do que no Dia Internacional da Mulher, quando a Saraiva fez uma mega promoção, concedendo 50% de desconto na compra de cada livro. Foi a melhor promoção do ano, sem dúvidas.rs E embora eu tenha desejado ler o livro assim que o tive em minhas mãos o medo acabou falando mais alto, pois o pouco que sabia sobre a história era o suficiente para me deixar apavorada. 

Foi somente com o projeto Leitura Coletiva que tive coragem de apostar na história, uma vez que não faria a leitura sozinha e poderia desabafar com os outros leitores, sabendo que eles estariam passando pela mesma angústia.kkkkkk... Assim, ao longo de três semanas, fui atormentada pela realidade de O Conto da Aia, quando um governo teocrático e totalitário se levantou e anulou os direitos das pessoas após um repentino golpe de Estado, com o assassinato do presidente dos Estados Unidos e a execução dos membros do Congresso. E sabe de uma coisa? O livro se passa em pleno século XXI (final do século XX e início do século XXI pelo que pude perceber). Isso é o mais assustador. A história se passa numa época em que existia uma grande liberdade, direitos garantidos, mulheres trabalhando e sendo independentes, movimentos feministas e de LGBT, defesa do não preconceito racial, entre outros movimentos pela defesa dos direitos humanos. As pessoas eram livres e jamais passaria pela mente delas que um dia tudo poderia chegar ao fim. Que seus direitos não eram tão garantidos assim. Que uma Constituição poderia ser derrubada e direitos humanos ignorados. 

"Foi então que suspenderam a Constituição. Disseram que seria temporário. Não houve sequer nenhum tumulto nas ruas. As pessoas ficavam em casa à noite, assistindo à televisão, em busca de alguma direção. Não havia nem um inimigo que se pudesse identificar.
Cuidado, disse Moira para mim, ao telefone. Está vindo por aí.
O que está vindo por aí?, perguntei."

- As coisas aconteceram tão de repente que as pessoas não tiveram nem tempo para reagir. Apavoradas com o ataque terrorista, que elas acreditavam ter sido praticado por radicais islâmicos, nem lutaram quando a suspensão da Constituição foi decretada e os direitos suprimidos. O estado de sítio era necessário, certo? Era uma situação de emergência, segurança nacional. Ninguém podia se preocupar com suas próprias liberdades quando o país inteiro estava ameaçado. Assim a população esperou, temerosa, sem entender o que de fato estava acontecendo. Mas quando tudo ficou claro já era tarde demais. Não havia mais chance de luta. Não tinha como escapar. 

"Então me lembrei de algo que eu tinha visto, mas não havia reparado na ocasião. Não era o exército. Era outro exército."

- Primeiro foram as prostitutas que desapareceram das ruas. Mas quem se importava? Elas incomodavam. Eram uma vergonha para as famílias de bem, destruidoras de lares. As demais mulheres até ficaram aliviadas com aquela "limpeza", embora não soubessem o que de fato havia acontecido com elas. Alguém precisava fazer algo, diziam. Uma providência precisava ser tomada e a população ficou contente. Qualquer objeto pornográfico (revistas, filmes etc) tornou-se proibido. Era crime grave possuir qualquer coisa do tipo em sua residência. Mas até aí tudo bem. 

Então num belo dia uma nova lei foi criada: a partir daquele momento mulheres não poderiam trabalhar. Ter uma profissão. Advogadas, médicas, engenheiras, bibliotecárias, o que fosse... todas dispensadas de uma hora para outra. Suas contas congeladas. Afinal de contas, a nova lei também dizia que mulheres não poderiam possuir bens. Maridos ou outros parentes próximos é que deveriam administrar as coisas. O dinheiro delas passaria para as mãos deles. 

"Houve passeatas, é claro, muitas mulheres e alguns homens. Mas foram menores do que se teria imaginado. Creio que as pessoas estavam com medo. E quando se tornou de conhecimento público que a polícia ou o exército, ou fossem lá quem fossem, abririam fogo quase que tão logo quaisquer das passeatas começassem, as passeatas pararam."

- Foi natural a leitura tornar-se proibida. Era algo venenoso, letal. Quem fosse pego lendo poderia sofrer um castigo severo, até mesmo ter uma de suas mãos amputadas. Os letreiros das lojas foram trocados por desenhos, livros foram recolhidos, alguns destruídos, outros guardados pelos que detinham o poder. Mulheres não podiam saber ler. Deveriam esquecer a vida que tinham tido até então. Tudo estava acabado e o melhor seria se conformar. Era hora de trazer de volta as leis do Antigo Testamento, ou o que o novo governo interpretava dele. Uma nova era começava. 

Quem possuía alguma religião cristã e era legalmente casado (leia-se: primeiro casamento) no início foi deixado relativamente em paz. Eram pessoas de família, cidadãos corretos. Desde que não se metessem no que acontecia com os outros tudo estaria bem para eles. Por um tempo. Mas homens e mulheres divorciados e que construíram uma nova família foram considerados adúlteros pela lei. Assim o casamento era ilegal e tais mulheres deveriam tornar-se propriedade do governo. Os filhos delas? Confiscados. Arrancados de seus braços e entregues aos escolhidos pelo governo. 

Assim foi que aconteceu com a protagonista, a aia que nos conta sua história e como o mundo que ela até então conhecia chegou ao fim. Como perdeu a sua filhinha e o homem a quem amava. Como passava cada dia sem saber se eles ainda estavam vivos. Se um dia seria o corpo de Luke que ela veria pendurado no Muro, onde ficavam expostas as pessoas executadas pelo regime. 

"Não há ninguém que eu possa amar, todas as pessoas que eu podia amar estão mortas ou em outro lugar. Quem sabe onde estão ou quais são seus nomes agora? Poderiam muito bem não estar em lugar nenhum, como eu estou para elas. Também sou uma pessoa desaparecida."

- Como Luke havia sido casado antes dos dois construírem sua própria família, Offred (nome dado pelo governo) foi uma das tantas mulheres sequestradas durante a República de Gilead e levadas para o Centro Vermelho, onde deveriam ser educadas (leia-se: lavagem cerebral) para se tornarem aias. Após uma rígida reeducação, com ensinamentos bíblicos distorcidos, punições e manipulações eficazes, essas mulheres seriam entregues nas casas de membros do alto escalão do poder, que possuíam o direito de terem aias, servas que tinham como missão procriar. Dar-lhes filhos. Como a taxa de natalidade havia caído muitíssimo ao longo dos anos; fosse por conta de doenças sexualmente transmissíveis que provocavam esterilidade, fosse porque mulheres tinham optado por ligarem as trompas, fosse por conta de acidentes radioativos, epidemias, a questão é que ter filhos tornou-se um privilégio. Crianças eram raridade e extremamente desejadas pelas famílias que se formaram durante o novo regime. Desta forma as aias eram comuns nas casas dos poderosos Comandantes e toleradas pelas Esposas, uma vez que seriam apenas um objeto utilizado para trazer ao mundo os filhos que seriam delas, das Esposas. 

Offred já havia passado por uma outra casa antes de chegar a do seu atual Comandante. As coisas não tinham dado muito certo e lhe foi concedida uma segunda tentativa. Ela sabia que após a terceira sua vida chegaria ao fim. Mas que vida? O que ela de fato possuía? Nada. Nem mesmo a sua identidade. Cada dia cumpria as ordens que lhe eram dadas. Nas noites escolhidas pela Esposa e pelo Comandante ela era obrigada a deitar-se e deixar que eles utilizassem seu corpo como bem entendessem. Tinha que engravidar. E após nove meses ver seu bebê ser entregue aos braços de outra pessoa. Ser retirado dela como um dia sua filha também tinha sido. Já não tinha forças para chorar. Estava se acostumando. E isso era o pior. Ela estava começando a esquecer o passado, a sua vida. Por isso precisava nos contar a sua história. Manter vivo o pouco que ainda recordava e também deixar registrado aquilo no qual se transformou o país em que ela tinha vivido. 

"Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados.
Ninguém disse quando."

- Dá para vocês terem uma ideia do quanto esta história mexeu comigo. Com minhas emoções e minha mente. Com a minha já inseparável ansiedade. Se já sou nervosa e temerosa por natureza, ao ler O Conto da Aia isso foi elevado a décima potência. Sobretudo após os acontecimentos dos últimos meses no Brasil. As semelhanças com o passado da nossa nação e com o presente são gritantes. A forma como as pessoas foram manipuladas, levadas a acreditar que tudo aquilo era para o bem, que uma mudança era necessária, que o país tinha que ser salvo do mal, de quem tinha levado a nação para o buraco. Mas a mudança era melhor para quem? Como uma famosa frase do livro: "Melhor?, digo, em voz baixa, apagada. Como ele pode pensar que isto é melhor? Melhor nunca significa melhor para todo mundo, diz ele. Sempre significa pior, para alguns." E é exatamente assim que funciona. As pessoas pensam tanto em seus direitos, no que elas consideram correto, no que lhes agrada e esquecem dos outros. Amar ao próximo é desnecessário, certo? Para que amar ao próximo se pensar no meu próprio umbigo é mais conveniente? Tanta hipocrisia me enoja. E o mesmo se passa no livro. Enquanto eram os direitos dos outros que estavam sendo atingidos ninguém se importou. Foi somente quando aquela realidade também os atingiu que entenderam a gravidade do que estava acontecendo e aí já era tarde demais. 

- Eu sofri demais com esta história. Não só por tudo o que aconteceu com as mulheres e também com os homens que tentaram se rebelar. Mas sobretudo por ver tantas semelhanças com tragédias já ocorridas no mundo. E a grande probabilidade de algo pior um dia acontecer. As pessoas são tão ingênuas. Acreditam tanto na garantia dos seus direitos, nas constituições de seus países, na proteção dada pelos direitos humanos. Não entendem, não conseguem perceber como tudo é frágil. Nada é garantido. Se você pensa o contrário lamento dizer que está se iludindo. Qualquer direito um dia pode ser destruído. Basta que um governo forte deseje isso. Se não fosse assim ditaduras não existiriam em pleno século XXI. E olha que os direitos humanos estão aí, eles e vários tratados sobre o assunto, assinados e ratificados pelas nações. E o que é pior: a ditadura escancarada ou aquela que é disfarçada de democracia? (frase já existente antes de ser levianamente mencionada por aí nos últimos anos). Antes de responder é melhor ler O Conto da Aia

"Sinto-me enterrada."

- Durante a República de Gilead muitas atrocidades foram cometidas, como os salvamentos de homens e mulheres. Médicos, padres, outros religiosos que se rebelavam contra o governo, maridos que não aceitavam a nova situação... Enfim... Eram variados aqueles executados pelo regime. Os sentenciados à morte eram brutalmente enforcados e pendurados no Muro para servir de exemplo, como em épocas anteriores da História do mundo. Os salvamentos de mulheres eram mais raros, pois elas tinham sido tão massacradas e anuladas que já não tinham forças para se rebelar. Mesmo assim ainda acontecia. Eram assassinadas da mesma maneira, na presença de outras mulheres, que deveriam manifestar abertamente apoio aos assassinatos, quer quisessem ou não. Como os homens também tinham seus corpos pendurados no Muro, como uma coisa qualquer, sem direito a um enterro digno. 

"O momento da traição é o pior, o momento em que você sabe, além de qualquer dúvida, que foi traído: que algum outro ser humano desejou a você tamanho mal."

Mas nem todas as mulheres se tonaram aias (propriedades do governo para servirem de barriga de aluguel, escravas para procriação. Vestes vermelhas), ou Esposas ("privilegiadas" escolhidas para se casarem com os Comandantes. Vestes azuis), econoesposas (esposas concedidas a homens pobres. Vestes que eram mistura de cor vermelha, azul e verde), marthas (criadas das casas, que limpavam, cozinhavam, eram empregadas domésticas. Vestes verdes), Tias (religiosas da República que faziam a lavagem cerebral nas aias no Centro Vermelho). Muitas mulheres também se viram numa posição diferente: decretadas NÃO MULHERES. Eram as que iam imediatamente para a execução ou para as Colônias. Entre elas estavam as muito idosas e inúteis, as bissexuais ou homossexuais, as que tinham feito algum procedimento cirúrgico para não engravidarem, as feministas, ateias, as freiras que não se convertiam e mesmo após torturas não aceitavam a nova religião, entre outras. Nas Colônias elas viviam o inferno. Era como ser assassinada lentamente. Tinham no máximo, na melhor das hipóteses, uns quatro anos de vida. Antes que os produtos tóxicos com os quais eram obrigadas a lidar as matasse. Isso se a fome não matasse antes. Os campos de concentração passam por sua mente ao ler isso? Pois bem. Também me lembrei deles. É algo semelhante. Até porque boa parte da população do país (e do mundo) não sabia da existência das Colônias. E quando sabiam não faziam ideia de que eram campos de tortura, de despejo humano, onde as pessoas trabalhavam sem descanso, passavam fome e eram envenenadas lentamente. 

"Acredito na resistência do mesmo modo que acredito que não pode haver luz sem sombra; ou melhor, não pode haver sombra a menos que também haja luz. Tem que haver uma resistência [...]"

- Claro que como em qualquer parte do mundo e sob qualquer regime totalitário surgem as resistências. Sempre haverá alguém para lutar por um mundo melhor, sempre haverá alguém que tentará mesmo sabendo que não viverá o suficiente para ver a mudança. Em O Conto da Aia não é diferente. Duas resistências distintas e interligadas surgem e se fortalecem ao longo dos anos. Mas a pergunta é: são suficientes para sequer abalar um governo que esperou pacientemente o momento perfeito para dar o seu golpe? Um governo tão bem preparado? Isso vocês só irão descobrir lendo, claro. Tudo o que eu disse aqui.... não é nem um terço do que vocês encontrarão no livro. E nem pode prepará-los para o que sentirão. Eu chorava tanto... sobretudo na metade da segunda semana de leitura, quando enfrentamos boa parte dos capítulos pesados. Mas quando a terceira semana de leitura foi chegando ao fim e vieram capítulos chocantes... eu própria já não tinha forças para chorar. O final foi impactante. De me deixar de boca aberta e coração acelerado. 

"Não deixe que os bastardos esmaguem você."

- Esta leitura é extremamente necessária. O Conto da Aia é um livro que deve ser lido por todos. Porque serve de alerta, porque chama a nossa atenção, nos dá aquela sacudida capaz de nos despertar. Aproveitem o privilégio que têm de ler. Se uma ditadura fosse implantada hoje tenha certeza que este seria um dos livros que seriam rapidamente proibidos. Livros sempre foram considerados perigosos, queridos. Porque eles nos fazem pensar. Nos dão conhecimento, despertam o pensamento crítico. Os livros mudam as pessoas. 




O Conto da Aia, como eu disse, foi nossa escolha para a Leitura Coletiva de novembro/dezembro. Ele se tornou um dos meus livros preciosos da estante. Que merece uma posição de destaque por ser especial. Este é um livro que me mudou. Que alterou algo dentro de mim e me fez ainda mais consciente da realidade não só do Brasil, mas do mundo. E como os movimentos feministas e os demais existentes pela luta dos direitos humanos são necessários. Os defenderei sempre. 

E os livros, queridos! Temos que incentivar mais e mais a leitura. Um mundo que desvaloriza a leitura tende a regredir. As pessoas precisam ler, precisam desenvolver o pensamento crítico. Senão qualquer um com um mínimo de capacidade de persuasão, com a lábia perfeita, conseguirá manipulá-las. Deem livros de presente! Emprestem livros! Comprem livros! Leiam e convençam suas famílias e amigos a lerem! O mundo precisa de mais leitores. 

"Não permitas que sofram demais. Se tiverem que morrer, que a morte seja rápida. Poderias até oferecer-lhes um Céu. Precisamos de Ti para isso. O Inferno podemos fazer nós mesmos."

2 de dezembro de 2018

Tudo que assisti e li - setembro, outubro e novembro/2018 + lendo agora


- Olá, queridos!

Sim, eu realmente passei todos esses meses sem publicar o post mensal de resumos das minhas leituras, séries, filmes, novelas etc. Os motivos foram muitos, sobretudo o semestre final da faculdade, que se mostrou o pior de todos. Agora que o TCC finalmente passou (graças a Deus!) posso voltar a respirar melhor. Acredito. 

A última vez que eu tinha assistido um episódio de Grimm - Contos de Terror foi em novembro do ano passado, embora goste muito da série. Em setembro deste ano consegui ver apenas dois episódios (os episódios 15 e 16 da primeira temporada). Mas ainda tenho esperanças de assistir a série por completo.rsrs

A situação de Gilmore Girls é mais ou menos a mesma: estou na segunda temporada, mas em setembro só vi o episódio 4 e estou parada aí. Nunca mais vi nada. :( É triste porque também aprecio demais a série e sempre fico mais relaxada, com o ânimo melhor quando a vejo. 

Lei e Ordem - Unidade de Vítimas Especiais está em sua 20ª temporada e todos que acompanham o blog sabem que é minha série preferida de toda a vida. Nenhuma tem um lugar tão exclusivo no meu coração como ela.rs No entanto, até mesmo esta série foi afetada, vez que em outubro assisti o episódio 1 e depois não consegui acompanhar mais. É minha prioridade, nas próximas semanas, colocar os episódios em dia. 

Vale mencionar também que consegui ver três episódios da 7ª temporada de Once Upon a Time (12, 13, e 14) e morro de vontade de ver os demais, mas ainda não foi possível. 


- No final de setembro estreou a novela Espelho da Vida e nem se eu estivesse completamente surtada deixaria de ver. Vocês provavelmente sabem que não curto muito as novelas atuais da Globo, mas que sou fã incondicional da novela Além do Tempo, uma das minhas favoritas entre todas. E foi por saber que a novela era da mesma autora que fiquei ansiosa por sua estreia. Além disso, ela repete quase todos os atores de Além do Tempo, o que foi um ponto extremamente positivo. 

Embora se passe nos dias atuais, a novela possui cenas de outra época, da década de 30, quando a protagonista, vivendo então numa outra vida, foi assassinada com um tiro no coração. O acusado pelo crime foi o homem que ela amava, Danilo. Muitos anos mais tarde, já no presente, Cris está apaixonada por Alain, um diretor de cinema com um passado obscuro. Com a morte iminente do avô, Alain é obrigado a retornar a Rosa Branca, local no qual não gostaria de voltar a colocar os pés. Cris, então, decide ir com ele e é quando chega a esta pequena cidade do interior que acontecimentos estranhos começam a acontecer em sua vida e ela descobre que Júlia Castelo, a moça cuja vida foi tragicamente interrompida, tem uma grande relação com ela, uma vez que as duas são a mesma pessoa. Através de um espelho ainda mantido no interior da casa abandonada da falecida jovem, Cris consegue viajar no tempo e viver todas as emoções que Júlia viveu, bem como conhecer Danilo, por quem acaba se apaixonando e se vendo dividida entre Alain, seu amor real, e Danilo, o seu amor do passado. Além disso, ela descobre que boa parte das pessoas que fazem parte de sua vida estiveram em seu caminho no passado, com outros nomes, outras personalidades, mas as mesmas pessoas, a mesma essência. E que, talvez, essa seja a chance de consertar tudo o que deu errado antes. Um resgate. 

- Sei que o tema espiritismo/espiritualismo não é do agrado de muitos, mas eu AMO novelas com essa temática! Já vi várias e nunca me arrependi, sempre foram novelas lindíssimas. E quando são da Elizabeth Jhin não tem erro. :D Estou apaixonada por esta novela e torcendo para que tenha um final feliz. Para que a Cris não tenha o mesmo fim que a Júlia. 


E ainda falando em novelas maravilhosas... Depois de ter decidido não acompanhar Asas do Amor, resolvi voltar a ver novelas turcas com a estreia de Minha Vida e sua trama meio mexicana.rsrs Não perco um capítulo sequer! Ela já roubou meu coração e me preparo emocionalmente todos os dias, pois sei que a mocinha ainda vai sofrer muito ao longo dos muitos capítulos que esta novela possui. 

Bahar foi arrancada dos braços de sua mãe logo ao nascer, pois seu avô materno não admitia o relacionamento entre a filha Hasret e o amor da vida dela Mehmet. Então, ele decidiu trancafiar a filha e levar para longe a bebê, dizendo para todos que ambas morreram. Ela foi entregue a um empregado, que recebia mensalmente uma quantia para manter o silêncio e sustentar a garota. 

Muitos anos mais tarde, Bahar é uma jovem de um pouco mais de vinte anos que teve que trancar os estudos na faculdade para ajudar financeiramente sua família. Ela cresceu sendo maltratada por aquela que acredita ser sua mãe e explorada pela irmã, Efsun. O único que a ama é seu pai Ylias, que todavia é um fraco, dominado pela esposa e os caprichos de Efsun. 

Só que ao descobrir-se seriamente doente e com pouco tempo de vida, o avô de Bahar decide contar toda verdade para se ver perdoado pelos seus pecados. Então ele procura pelo pai biológico da menina para contar que ele tem uma filha, contudo sem revelar o nome dela. Decidido a consertar todas as coisas procura por Ylias e a esposa para informar que o acordo entre eles estava chegando ao fim, que Bahar seria entregue ao seu verdadeiro pai. Transtornada pela possibilidade de perder sua fonte de renda, Nuran (esposa de Ylias) empurra o senhor que ao bater com a cabeça acaba falecendo. Dispostos a esconder aquele segredo, ambos enterram o avô da mocinha no próprio quintal e entregam Efsun como a filha de Mehmet no lugar de Bahar. 

Quem assiste novelas mexicanas com certeza já conhece histórias muito parecidas, de troca/roubo de identidades. Em A Usurpadora, Paulina é obrigada a assumir o lugar de sua irmã Paola. Em Querida Inimiga, a suposta melhor amiga da protagonista rouba seu lugar junto a sua família. Em Marimar, a protagonista cresce sem saber que seu pai é um homem rico e importante etc etc etc. São muitas tramas e não daria para falar de todas, mas eu amo esse clichê.kkkkkkkk  

E vocês podem pensar assim: essa novela é atual, um exame de DNA resolveria a questão, provaria que Efsun não é a verdadeira filha do Mehmet. Bem... só que provas de DNA podem ser trocadas quando existe muito dinheiro em jogo. E é o que acontece já que a família de Efsun consegue comprar as pessoas do laboratório para que seja o DNA de Bahar a ser analisado com o nome da outra. 

A mocinha já está sofrendo muito nesta história e sei que ainda vai sofrer mais, porém torço muito para que o Ates esteja sempre ao lado dela e que juntos consigam superar todos os desafios e descobrir a verdade. Não vai ser fácil, mas é uma história que tem tudo para ser linda. Amo esse casal! :)


E os livros que li foram...



Em setembro



Em outubro


Em novembro

Observação: todas as resenhas disponíveis aqui

- Como podem perceber minha leitura foi sendo prejudicada com o passar dos meses e vários livros que faziam parte das minhas metas acabaram não sendo lidos, uma vez que para que a meta fosse cumprida eu precisaria ler pelo menos seis livros por mês e em outubro e novembro isso foi impossível. Assim atrasei alguns desafios. :(

No momento estou lendo três livros e pretendo começar outro amanhã, se Deus quiser. Então minhas leituras atuais são:




E como sou brasileira e não desisto nunca (risos) ainda pretendo ler alguns livros este ano mesmo que estejamos no último mês de 2018:

1- Revelações, Linda Howard (li até a metade)
2- Desejo e Escândalo, Lorraine Heath (parceria)
3- O Lobo Domado, Deborah Simmons
4- Uma Visita Inesperada, Deborah Simmons
5- Indias Blancas - Parte 1, Florencia Bonelli
6- Indias Blancas - Parte 2, Florencia Bonelli
7- Tudo o que Ela Sempre Quis, Barbara Freethy
8- A Utopia, Thomas More
9- Vox, Christina Dalcher

Boa sorte para mim!rsrsrs

Bjs!

18 de novembro de 2018

Perto do Coração Selvagem - Clarice Lispector


"Perto do Coração Selvagem", romance de estreia de Clarice Lispector, assombrou leitores e críticos logo após sua publicação, em 1943. Tendo uma voz narrativa que ora incorpora o mundo interior da protagonista Joana, ora a contempla de fora, o livro alterna dois tempos: a infância, na qual a personagem interroga seres e coisas, e um presente intemporal como a eternidade, em que as vicissitudes de um casamento que jamais representou uma ilusão resumem os outros pequenos desastres que reconduzem a personagem a sua inadequação primordial. Com uma escrita tateante, sonâmbula, Clarice Lispector não recapitula de modo linear as vivências de Joana (como a morte do pai ou a separação do marido, visto desde sempre como um estranho), mas flagra o instante em que cada experiência ou cada encontro eclode com seu enigmático significado, apresentando-se como via de acesso ao "selvagem coração da vida" - conforme a frase de Joyce que, por sugestão do escritor Lúcio Cardoso, Clarice Lispector utilizou na epígrafe e no título desse livro que inaugura uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira. 



Palavras de uma leitora...


- A sinopse acima é bem completa resumindo de maneira perfeita esta história. Portanto, eu nem preciso escrever nada.rs E, definitivamente, sequer me sinto preparada para começar a falar deste livro tão diferente e... perturbador. Ainda me sinto confusa, um tanto quanto perdida. 

Quem nunca ouviu falar da Clarice Lispector na época do colégio? Eu passei por textos dela durante as aulas de Literatura, mas nunca senti um desejo grande de conhecer algum dos seus livros. Essa vontade só surgiu quando decidi apostar mais nos clássicos e de tanto o nome da autora aparecer nos sites de pesquisa resolvi colocá-la na minha lista. E não. Eu não estava enganada: sabia bem que a autora tinha uma escrita que incomodava e confundia os leitores. Que seus livros são densos, do tipo que você precisa ler quando realmente se sentir pronto. Eu não estava preparada e por isso caí de cabeça no chão.kkkkkk... 

Sério. Embora eu já tenha lido outras histórias que mexem com nosso psicológico e nos deixam com aquela energia pesada, como se estivéssemos com o peso do mundo sobre os ombros, nada poderia me preparar para a leitura de Perto do Coração Selvagem. E, conforme a sinopse, este foi o trabalho de estreia da autora. Imagine como não devem ser suas outras obras!rsrs 

"Nem o prazer me daria tanto prazer quanto o mal, pensava ela surpreendida. Sentia dentro de si um animal perfeito, cheio de inconsequências, de egoísmo e vitalidade."

- Este é apenas um trechinho do segundo capítulo do livro. Meu exemplar está todo marcado, pois eu destaquei muitos trechos ao longo da leitura, um mais impactante que outro. Ficava tão chocada com alguns que os relia várias vezes para ver se estava realmente lendo direito ou se minha vista estava me pregando peças.rsrs Me perdia em meus próprios pensamentos, tão transtornada com as ideias da protagonista, com suas experiências de vida e a grande confusão que havia dentro da mente dela. Cheguei a pensar que no final ela acabaria por se suicidar, de tão atormentada que parecia, tão fora de órbita. Não estou dando nenhum spoiler, estou só dizendo o que eu achei que aconteceria. Joana, a protagonista desta história, é uma mulher muito perturbada, do tipo que te provoca compaixão, medo, desprezo, choque e até mesmo uma espécie de empatia. E no final ficamos com a sensação de que corremos vários quilômetros para irmos parar no mesmíssimo lugar de partida. 

"[...] como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione? como impedir que ele desenvolva sobre seu corpo e sua alma suas quatro paredes? E havia um meio de ter as coisas sem que as coisas a possuíssem?"

- A história não segue uma linha do tempo muito certa, bem como não se passa sempre no mundo exterior. Como a sinopse bem ressalta o livro se divide entre os acontecimentos no exterior e interior de Joana. De repente estamos dentro da cabeça dela (desejando desesperadamente sair dali), obrigados a ler o que ela pensa, o labirinto que é aquela mente e só queremos fugir, porque é demais para nossa própria cabeça, uma confusão tão grande que nos esgota física e emocionalmente e aí precisamos interromper a leitura ou não conseguiremos lidar com as responsabilidades do dia, de tão transtornados que ficamos com as coisas que se passam no interior da protagonista. E quando menos imaginamos somos levados para o que está acontecendo do lado de fora, o casamento em crise, fadado ao fracasso desde que ambos disseram "sim", o convívio dela com outros membros da família e aí vamos do passado ao presente e vice-versa sem nenhum aviso, o que nos faz ter que prestar mais atenção na leitura para não nos perdermos. 

"Ando sobre trilhos invisíveis. Prisão, liberdade. São essas as palavras que me ocorrem. No entanto não são as verdadeiras, únicas e insubstituíveis, sinto-o. Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome."

- Joana é uma personagem que era bem diferente das outras pessoas ainda quando criança. Sempre muito questionadora, não aceitava respostas prontas. Ela sempre buscava mais, queria entender até mesmo o que não possuísse explicação, algo que testava a paciência daqueles que conviviam com ela, embora pelo que podemos perceber seu pai tentasse ter uma relação boa com ela, que não tinha mãe e era criada apenas por ele. Ao mesmo tempo que ela nos parece ter sido uma criança insensível, incapaz de sentir empatia por alguém, também parecia extremamente sensível, necessitada de amor e sem saber como buscá-lo, como provocá-lo nas pessoas. E isso nos angustia e confunde. Há um episódio no livro, pouco antes de ela ser enviada para um internato, no qual o comportamento da menina, que sabia que suas atitudes tinham consequência, mas não se importava com isso, acaba por assustar muito sua tia. Joana tinha perdido o pai e foi enviada para ser criada por essa tia, que era casada e tinha sua própria filha já crescida. Embora a mulher tenha tentado estabelecer uma conexão com a menina passou a se sentir cada vez mais incomodada em sua presença, de tão profundos e e perturbadores que eram os olhares de Joana. Ela despertava medo nos próprios familiares e depois de um episódio em particular a tia decidiu que já não a queria mais em sua casa e decidiu por mandá-la para um internato, para se livrar "daquele problema". Confesso que eu própria senti medo da protagonista.kkkkkkkk... Não dela quando criança, mas da mulher adulta. Da que tinha pensamentos tão... nem sei como explicar. 

"Porque ela nascera para o essencial, para viver ou morrer. E o intermediário era-lhe o sofrimento."

- Como eu disse, o livro não segue uma linha do tempo e nem intercala presente e passado de uma maneira marcada. Não. Uma hora estamos no presente e no trecho seguinte poderemos estar no passado de Joana e é realmente necessário estar atento para não se perder. Além de sermos levados à infância da protagonista também acompanhamos um pouco de seu relacionamento com seu marido Otávio, personagem que também nos causa certo incômodo ao longo da leitura. E ainda tem Lídia, a amante de Otávio, que apesar de não aparecer tanto também deixa sua marca na história. Basicamente o livro acaba por se concentrar nesses três personagens, embora eu ache que a segunda personagem principal seja a mente de Joana.rsrs 

"Viver sobre si mesmo, sobre seu passado, sobre as pequenas vilezas que cometera covardemente e a que covardemente continuava unido. Otávio pensava que ao lado de Joana poderia continuar a pecar."

O interessante de se comentar sobre o Otávio, além do fato de ele ser vil, é que fica nítido que ele decidiu se casar com Joana, abandonando a mulher de quem estava noivo, porque ela era forte. Porque existia alguma coisa nela que ele sentia que sempre tinha buscado em sua vida. Todavia, logo no início do casamento ele se sente preso, não porque estivesse enganado sobre ela ao se casar, mas porque a mesma personalidade que o atraía e lhe dava o que ele desejava também o sufocava, lhe roubando a vontade de viver. Porque a força de Joana era sombria, ele se sentia controlado por ela e com desejos de escapar. No entanto, também queria permanecer. 

"Certamente você estava esperando de mim grandes bondades, apesar do que disse agora sobre minha maldade. Mas a bondade me dá realmente ânsias de vomitar."

- Joana é uma personagem que nos provoca muitos sentimentos contraditórios. Ela é bipolar, sendo levada da alegria incontrolável à tristeza profunda em questão de instantes, com pensamentos tão tumultuados, passando tantos momentos perdida em seu interior, que cheguei a considerar que ela passou boa parte de sua existência vivendo o que se passava em seu interior do que levando uma vida normal do lado de fora. E o que mais me assustava na personagem era a sua maldade latente. Como se a qualquer momento ela pudesse fazer algo terrível, como se a crueldade que ela carregava pudesse explodir de repente. Eu senti muito medo dela. Ela não era normal. E definitivamente não era boa. Joana não sentia piedade de ninguém (talvez um pouco apenas dos animais). Nem amor. Ela queria ser amada, mas existiam momentos nos quais ela também não queria isso. 

Não posso, todavia, negar que Joana nos impressiona com sua força e sua introspecção. Boa parte do livro se passa dentro da personagem e apesar de isso nos sufocar (quase literalmente) também nos faz refletir sobre a maneira como ela enxergava as coisas. É perturbador, sem sombra de dúvidas, mas também é fascinante.rs

- Dei 4 estrelas ao livro, por ser uma obra incrível e conseguir nos atingir de maneira tão forte. Pretendo sim continuar lendo as obras da autora, mas da próxima vez escolherei bem o momento.kkkkkk... Porque é aquele tipo de narrativa que nos desgasta. Que nos rouba a energia e por isso é preciso estar preparada. 

"De súbito recordou-se: ainda agora pensara-o, talvez antes de encostar o braço no de Otávio, talvez naquele momento em que tivera vontade de gritar... Cada vez mais tudo era passado... E o passado tão misterioso como o futuro."

Topo