23 de outubro de 2017

A criança que eu fui...

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A criança que eu fui gostaria de estar perto da pessoa que eu sou hoje?


Este é o tema mais difícil do desafio. Pelo menos para mim. E não necessito pensar muito na resposta. Definitivamente, a criança que fui um dia não gostaria de estar perto de quem sou hoje. 

Ela teria vergonha. Estaria decepcionada se me visse hoje. Se, de alguma parte, puder me enxergar, certamente se pergunta o que fiz com ela. Como pude esquecê-la assim... Deixar para trás tantas coisas que ela sonhou e compartilhou comigo. 

Sorrio ao recordá-la, embora meus olhos se encham de lágrimas. Ela era tão corajosa quando precisava ser. Mais emotiva do que sou hoje, porém também uma guerreira forte. Que brigava com unhas e dentes pelo que queria. Que acreditava no amanhã e lutava por ele. Sabia exatamente o que queria ser e ninguém seria capaz de fazê-la mudar de ideia. Ela seria médica. Curaria as pessoas. Se casaria pouco depois de completar dezoito anos e teria quatro filhos. Também adotaria. Toda sua vida estava planejada até os mínimos detalhes. 

Muitas vezes ela deitava no chão e sonhava com isso. Com o vestido branco, com os bebês que teria, com a casa cheia de crianças correndo para lá e para cá. Era um sonho clichê. Tradicional. Mas era o que ela queria mais que tudo. E tinha certeza que conseguiria. Esta é uma das coisas que mais invejo nela: a forma como ela tinha certeza das coisas. Como não vislumbrava impossível. 

A vida dela não era um mar de rosas. Todo o contrário. Teve muitos problemas, mas ela tinha a força que nunca terei. Está aí uma frase que ela não usaria: "nunca terei". Isso não existia para ela! Os outros poderiam dizer o que fosse e ela choraria quando ninguém estivesse olhando, profundamente magoada pelas palavras negativas que lhe dissessem, todavia nada seria capaz de roubar sua esperança. Ela acreditava no que poderia ser. Ela nunca deixou de acreditar. 

Não restou nada dela em mim. Num determinado momento, simplesmente a deixei partir. Negando-lhe seus sonhos. Fazendo escolhas que ela jamais faria. 

Não sou uma pessoa crescida, como diria o Pequeno Príncipe. Ainda brinco com os meus priminhos. Sou a única adulta que vira criança perto deles e entra na brincadeira. Sou quem eles sempre querem ter por perto e sempre digo que a Vitória deve ter sido minha filha numa outra vida, pois é grudada em mim. Ainda sei amar intensamente. Ainda grito, pulo e danço quando estou feliz. Mas...

Sinto falta daquela menina. Dos sonhos dela. De sua esperança. Ela acreditava e eu já não acredito mais. Não no mesmo que ela.

Ela só sabia amar, mesmo que às vezes quisesse odiar. Eu? Ainda sei amar, mas também aprendi a odiar. 

Sinto falta da inocência dela, da maneira como ela via o mundo. Dos seus risos sinceros, das explosões espontâneas quando estava triste. Mas tenho que aceitar que ela se foi para sempre...


- Este é meu décimo texto para o Projeto Escrevendo sem Medo. O tema mais difícil de todos. 


Este projeto foi criado pela Thamiris do blog Historiar. Clique aqui para conhecê-lo melhor. 

Leitora apaixonada por romances de época, clássicos e thrillers (não necessariamente nesta ordem). Mãe da gatinha Luana. Filha carinhosa. Irmã dedicada. Amiga para todas as horas. Acredita em Deus. E no poder do amor.

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