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10 de junho de 2020

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Literatura norte-americana
Título Original: Fahrenheit 451
Tradutor: Cid Knipel
Editora: Biblioteca Azul (Editora Globo)
Edição de: 2012
Páginas: 216

29ª leitura de 2020

Sinopse: Ray Bradbury (1920-2012) renovou a literatura quando, em plena Guerra Fria, escreveu Fahrenheit 451, um marco da ficção científica. Se fosse realmente ficção científica. Fahrenheit 451 é, na verdade, uma obra política, uma distopia - ou antiutopia. "Ficção científica é uma ótima maneira de fingir que você está falando do futuro quando, na realidade, está atacando o passado recente e o presente", afirmou o escritor. Fahrenheit 451 foi considerado um grande crítica aos regimes políticos opressores do século XX e previu transformações sociais simbolizadas atualmente pela influência da TV. Publicado originalmente em 1953, é uma obra atemporal, redescoberta a cada nova geração. 


Sabe quando você ama tanto um livro, mas tanto mesmo, que não consegue falar sobre ele?! Estou assim desde que concluí a leitura de Fahrenheit 451. Eu tinha muitas expectativas, mas o livro conseguiu superar todas elas! Desde então estou "travada", sem conseguir explicar nem mesmo para mim a forma como a história me marcou. Eu sei o que sinto, mas não consigo me expressar. Só sei que amo, amo, AMO e amo!

"[...] o que aconteceria se os livros fossem incinerados, varridos da face da Terra até o ponto em que o único vestígio de milênios de tradição humanista estivesse alojada na memória de alguns poucos sobreviventes? Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens, para apagar de vez a memória dos livros? [Trecho do Prefácio]"

Imagine o quanto é desesperador para nós leitores, amantes incondicionais dos livros, lermos uma história que fala sobre a queima dos livros. Não simplesmente da censura, mas da completa destruição do conhecimento, do senso crítico, de milhares e milhares de anos de História. Em Fahrenheit 451, os livros se tornam proibidos. Ninguém pode tê-los, ninguém pode lê-los. Quem ousasse ir contra a maioria esmagadora da população e contra o Estado, correria três riscos: ir para um hospício, ser preso ou... assassinado (com uma injeção letal ou queimado junto com os livros).

Nesta história, a maioria das pessoas vive feliz... ou tomada pela ilusão de felicidade. As pessoas têm tudo o que desejam e todo o entretenimento necessário para nem sequer saber o que é tristeza. Os televisores estão em cada uma das paredes de suas salas, interagindo com os moradores; os carros só podem ser dirigidos em altíssima velocidade (para que ninguém tenha o desprazer de PENSAR enquanto dirige) e quem se atreve a descumprir essa regra pode ser seriamente punido. As famílias não conversam, não alimentam mais quaisquer afetos uns pelos outros e isso as deixa felizes. Mal se dão conta da presença daqueles que deveriam amar, passam todo o tempo absorvidas, alienadas pela mídia, pelos programas feitos especialmente para manipulá-las a não pensar. Recebem as informações "maquiadas" pelo Estado e nem sequer passa por suas cabeças duvidar daquilo que lhes é mostrado. Todos os cidadãos perderam por completo a capacidade de agirem por si mesmos. São aquilo que o Estado deseja. E acreditam numa felicidade inexistente.

9 de setembro de 2019

Negrinha - Monteiro Lobato


Literatura Brasileira
Editora: Globo, selo Biblioteca Azul
Edição de: 2009
Páginas: 212
Coletânea de contos
Onde comprar: Amazon


Sinopse: Negrinha é um livro de contos realistas lançado em 1920, com personagens que representam a população brasileira das décadas iniciais do século XX. Nele Lobato revela uma terra onde o poder é exercido arbitrariamente pelos coronéis e expõe a mentalidade escravocrata que persiste décadas depois da Abolição. Estão retratados em suas páginas tipos tão diversos quanto um fazendeiro falido, o jardineiro que faz poesia das flores, a viúva cruel, uma criança negra maltratada e o gramático ranzinza.




Quem estiver acompanhando meus posts mensais sobre os contos que estou lendo desde o início do ano, vai perceber que esta resenha na verdade é apenas uma junção de todos os comentários que já fiz sobre cada conto presente na coletânea Negrinha, do Monteiro Lobato. Ao todo são 17 contos presentes neste livro. Três deles eu li em 2017 e fiz resenhas individuais, portanto deixarei o link de cada uma delas neste post. Os outros quatorze contos eu li agora em 2019 e reunirei aqui todos os comentários que fiz mensalmente. :)

Link das resenhas dos três primeiros contos, lidos em 2017:

Negrinha (conto extremamente forte)

Todos os meus comentários sobre os demais contos: 

Ao ler Bugio Moqueado fiquei com os braços arrepiados de verdadeiro pavor. E o pior foi que li à noite, o que é quase certo resultar em pesadelo.

Não vou entregar nenhum segredo da história. Só digo que o personagem é um "ouvinte". Ele está participando de um jogo, então acaba por se distrair ouvindo uma conversa entre uns senhores que estavam próximos dele. Curioso para saber como a história da qual o homem estava recordando terminaria, ele se deixou levar e mal prestava atenção no jogo. Envolvido, nem percebeu o rumo que a história tomava e foi pego de surpresa como aconteceu comigo, quando o final chegou e foi digno de um filme de terror.

6 de novembro de 2017

As Fitas da Vida e O Drama da Geada - Monteiro Lobato (contos)


Negrinha é um livro de contos realistas lançado em 1920, com personagens que representam a população brasileira das décadas iniciais do século XX. Nele Lobato revela uma terra onde o poder é exercido arbitrariamente pelos coronéis e expõe a mentalidade escravocrata que persiste décadas depois da Abolição. Estão retratados em suas páginas tipos tão diversos quanto um fazendeiro falido, o jardineiro que faz poesia das flores, a viúva cruel, uma criança negra maltratada e o gramático ranzinza.



Palavras de uma leitora...



- Depois de ter lido o conto que abre e dá título a este livro, pensei que passaria muito tempo antes que eu criasse coragem de ler outra história do Monteiro Lobato. Todavia, hoje resolvi arriscar... Cheia de medo, mas arrisquei!rs

Em As Fitas da Vida conhecemos a comovente história de um senhor idoso, que foi soldado e combateu na Guerra do Paraguai, mas que depois acabou sozinho, esquecido por todos, condenado por uma doença que lhe roubou a visão. Ele se sentia inútil e desamparado, encontrando nas recordações de um tempo distante um frágil consolo. 

Mas sua vida sofre uma reviravolta quando acaba embarcando com um destino diferente do que imaginava: deveria estar a caminho do Asilo dos Inválidos da Pátria, mas, por um equívoco, o colocaram junto com os homens que estavam indo para  a Hospedaria dos Imigrantes e dali para as lavouras de café, onde trabalhariam. Ninguém se importava muito em despachá-lo para o lugar correto. Era só um caco de gente, alguém imprestável com quem ninguém perderia tempo. 

"Não tinha olhos para guiar-se, nem teve olhos alheios que o guiassem. Triste destino o dos cacos de gente..."

Um funcionário daquela Hospedaria, porém para e pergunta ao idoso o que ele fazia ali e é quando o homem conta a sua história. Comovido com o que se passava com aquele senhor, o funcionário leva sua história até o diretor do local e é aí que as coisas tomam um rumo inesperado... 

- A história é simples, mas nos emociona, nos faz pensar em tantas coisas... Eu fico pensando no quanto existem pessoas por aí que acreditam que nunca irão envelhecer. Que serão sempre fortes e "úteis", autossuficientes, sem precisar de ninguém. Não têm paciência com seus pais ou avós, maltratam idosos. Esquecem que a vida dá voltas e um dia podemos parar num mesmo lugar. 

Achei muito linda a maneira como o conto terminou. O senhor tinha tanta fé numa pessoa de seu passado. Tanta certeza que sua vida seria diferente se reencontrasse aquele alguém... Foi impossível não sorrir ao perceber que ele tinha motivos para acreditar. 


O Drama da Geada, por sua vez, nos traz uma história muito mais triste e com um final que nos parte o coração. 

Um fazendeiro, profundamente dedicado à sua terra e ao trabalho, ergueu com seu esforço e suor a fazenda que possuía. Participou ativamente de cada construção desde as pequenas até as maiores e sua plantação de café era todo o seu orgulho. Era o resultado do seu trabalho, sua obra-prima. Mas aquele mês era o que lhe dava pesadelos. Mês de geadas... um mês que poderia passar sem grandes turbulências ou... destruir toda a sua vida. Estava nas mãos do destino.

Embora tivesse uma fazenda que dava lucros, o fazendeiro contraíra dívidas e hipoteca. Sua salvação, a chance de livrar-se dos credores e continuar tocando sua vida em paz, estava naquela plantação de café... que poderia morrer com uma forte geada. O tempo não estava bom. E quanto pior ficava maior era o desespero daquele trabalhador. 

"Virá? Não virá? Deus sabe!...
  Seu olhar mergulhou pela janela, numa sondagem profunda ao céu límpido.
- Hoje, por exemplo, está com jeito. Este frio fino, este ar parado..."

- Eu nada entendo de agricultura, lavouras, fazenda... É grego pra mim. Não faço a menor ideia de como funcionam. Eu compro o café no mercado, já embalado, pronto para consumo. Bem como tomate, cenoura, batatas e tudo o mais... Eles já nos chegam preparados e sei que mesmo os produtos "vegetais" necessitam de uma preparação, de pessoas que trabalham a terra, que lidam dia a dia com o cultivo da terra mesmo que hoje em dia talvez tenham auxílio de máquinas. Como disse, não faço a menor ideia de como é a plantação de coisa alguma. Sou leiga no que se refere a isso. No entanto, entendo de sonhos. Entendo de esforços e perdas. 

Imagine o que é dar todo o seu tempo, sua vida a uma coisa... Dedicando-se de corpo e alma a isso e e de repente ver todos os seus sonhos, tudo o que você construiu, ameaçado, correndo sérios riscos de ser destruído. Só que mais do que perder aquela plantação, o fazendeiro que lutou tanto para levar uma vida digna e tranquila ao lado de sua família, corria o risco de perder até o teto que tinha. Era como se todos os seus esforços tivessem sido em vão. Como se nada tivesse valido a pena. E é muito triste. Sobretudo porque o conto tem um final que nos deixa em choque. É o que eu chamaria de injustiça. E a vida, definitivamente, não é justa. 

- Monteiro Lobato, pelo que pude perceber dos três contos que li, segue uma linha mais "crua", real em seus contos. Ele mostra situações passíveis de acontecer. E que aconteceram. Em algum lugar deste país mesmo... com alguém, em outra época, em outro momento... Seus contos são humanos, mostrando trechos da vida de seus personagens... Cenas que podem parecer banais, mas que possuem uma força e nos causam impacto. Que mexem com a gente. 

Estou amando conhecer suas obras, mas não são leituras fáceis. Pelo menos, não para mim. 

20 de outubro de 2017

Negrinha - Monteiro Lobato (conto)


Negrinha é um livro de contos realistas lançado em 1920, com personagens que representam a população brasileira das décadas iniciais do século XX. Nele Lobato revela uma terra onde o poder é exercido arbitrariamente pelos coronéis e expõe a mentalidade escravocrata que persiste décadas depois da Abolição. Estão retratados em suas páginas tipos tão diversos quanto um fazendeiro falido, o jardineiro que faz poesia das flores, a viúva cruel, uma criança negra maltratada e o gramático ranzinza.



Palavras de uma leitora...



- Se você ainda não leu este conto e não é fã de spoiler, pule esta resenha! Porque, com toda certeza do mundo, terá spoiler. Impossível falar deste conto sem explodir. 

Há algum tempo já, eu desejava ler uma história do Monteiro Lobato. Cresci assistindo O Sítio do Picapau Amarelo. Me encantava a turminha formada pela Narizinho, o Pedrinho e a traquinas Boneca Emília. Tia Nastácia, Saci Pererê, A Cuca, o Pesadelo... todos eles ficaram em minha memória. Sinto saudades. E ainda hoje paro para rever alguns episódios quando ligo a TV e passo por algum canal que exibe reprises. Que época boa aquela em que eu me perdia na inocência de acompanhar as aventuras e desventuras dos personagens! Ah, se pudesse voltar! Suspiros...

Quando vi a resenha da Isa no canal Ler Antes de Morrer sobre o conto Negrinha, o nome do autor me chamou a atenção. Não tencionava começar minha leitura do Monteiro por este livro de contos, afinal de contas, seu conteúdo é adulto e polêmico. Nada parecido com O Sítio do Picapau Amarelo. Porém, uma feira de livros ficou durante o mês de setembro na cidade em que estudo. E foi quase por acaso que esbarrei neste livro. 

Não tinha a menor intenção de comprá-lo. Estava atrasada para a minha aula e já tinha comprado o livro que queria. Mas o livro Negrinha estava tão lindo, embalado, novinho, novinho que não pude resistir.rs Sobretudo quando vi que era do selo Biblioteca Azul, da editora Globo. Desde que adquiri minha edição de As Relações Perigosas que tenho toda uma queda por esta editora. A editora capricha muito nos livros. São deliciosos ao toque, com capas bem feitas, páginas suaves e que não cansam os olhos. Enfim... Amo! Não pude desperdiçar a minha oportunidade de trazer o livro para casa. 

- Só que a resenha da Isa não me preparou para o que senti ao ler este conto. Sério, gente! Eu tremia durante a leitura. O livro não parava de balançar em minhas mãos. E quando finalmente terminei de ler a história desta menininha de sete anos, um nó insuportável sufocou minha garganta. Pode ser um conto apenas. Ficção. Mas não dá para evitar a certeza de que ele retrata a situação de diversas crianças que sofreram durante a escravidão, o período que imediatamente se seguiu após a Abolição da Escravatura e que até mesmo nos dias atuais seguem sofrendo diversos tipos de tortura. E isso é terrível. É insuportável ler uma história tão visceral, tão crua e realista. Não me fez nenhum bem. 

"No entanto, aquele choro nunca vinha sem razão. Fome quase sempre, ou frio, desses que entanguem pés e mãos e fazem-nos doer..."

- Este trecho dói em você? Pois em mim, sim. O conto já começa nos provocando choque e angústia. Negrinha (não sei o verdadeiro nome da menina, se era este ou não) era uma criança de sete anos, que teve a má sorte de nascer numa época em que pessoas eram escravas das outras pelo simples fato de terem a pele escura. Porque o ser humano era um bicho pior do que é hoje em dia e se divertia fazendo de outros seres humanos seus escravos. Ela nasceu pouco antes do fim da escravatura, mas ficou órfã aos quatro anos de idade e isso a deixou aos "cuidados" da "boa e caridosa" Dona Inácia, a mulher que era dona de sua mãe e que por ter um "coração tão bondoso" decidiu criar a pobre criança órfã. 

Excelente mulher, sem sombra de dúvidas! Tão boa que me pergunto se não era parente do próprio diabo. A víbora, desgraçada, filha de chocadeira e tão maldita quanto todas as pragas que existem (respira fundo, Luna!), achava uma afronta o fim da escravidão. Para ela aquilo era uma besteira, um absurdo e se ressentia por não poder mais ter escravos e livrar-se do tédio às custas deles. Como lhe dava saudades da época em que podia torturar livremente seus escravos, dar as surras que lhe aliviavam a alma... Em síntese: fazer com eles o que bem entendesse, o que sentisse vontade de fazer no momento. E é óbvio que não foi por bondade alguma que ela decidiu ficar com a menina. 

"O corpo de Negrinha era tatuado de sinais, cicatrizes, vergões. Batiam neles os da casa todos os dias, houvesse ou não houvesse motivo."

- A principal diversão da filha da p. que se considerava uma pessoa virtuosa e caridosa, era torturar a criança. Ela não precisava de nenhum motivo, inventava o que queria. Sentia verdadeiro prazer em machucar a menina, deixar marcas em seu corpo, impedi-la de sorrir e ser criança, de brincar, de sonhar. Sufocava sua alma. E quando a repetição dos mesmos castigos lhe cansava, inventava coisas piores, como a cena na qual ela colocou um ovo na água fervente e quando ele ficou bem quente, colocou na boca da menina e depois tampou, para impedi-la de cuspir, para que ela sentisse por completo toda a dor que aquela crueldade lhe provocaria. E durante todo o tempo em que a criança sofria, ela sentia prazer! Não nego que senti vontade de matar essa desgraçada! Maldita, mil vezes maldita! 

"O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana. Conservava Negrinha em casa como remédio para os frenesis."

- É horrível demais tudo o que essa criança passa, gente. Não dá para aguentar algo assim. Senti meu coração se partir por ela e uma fúria enorme esquentar meu sangue. Uma criança! Apenas uma criança que nunca soube o que era ser amada, protegida. Que necessitava de carinho, proteção, de sonhos, de infância. Mas que teve tudo roubado e destruído por causa da maldade de outro ser humano. Não me venham dizer que aquela mulher "era uma pessoa de sua época", com uma mentalidade "de sua época". Isso é uma desculpa esfarrapada e estúpida para a crueldade. Eu não aceito isso. Desde o início dos tempos sempre existiu a maldade. Bem como a bondade. As pessoas simplesmente se aproveitavam e seguem se aproveitando de costumes desumanos para deixarem fluir o que de pior tem nelas. Optam pela maldade e inventam desculpas para se justificarem. A víbora que torturou a menina neste conto merecia era queimar no inferno. Mas antes comer o pão que o diabo amassou e ter a morte mais lenta e dolorosa possível. Ninguém pode fazer algo assim com uma criança e depois não pagar de algum modo. Eu acredito que a Vida tem sua própria justiça. E que esse tipo de lixo paga, ainda que não vejamos, que jamais saibamos, esse tipo de gente cruel tem de volta o mal que causou. 

"Negrinha olhou para os lados, ressabiada, com o coração aos pinotes. Que aventura, santo Deus! Seria possível? Depois pegou a boneca. E, muito sem jeito, como quem pega o Senhor Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta."

- Transcrevendo este trecho, não consegui evitar sentir de novo a dor que me invadiu quando o li pela primeira vez. A alegria inocente da menina que nunca antes tinha visto uma boneca. Que nunca pôde brincar, que jamais teve um brinquedo sequer. E ao ver aquelas crianças felizes, mimadas e protegidas como ela também tinha o direito de ser, ela ficou completamente encantada e confusa também. Não entendia por que as outras crianças podiam correr e brincar e ela não. E quando viu a boneca... Foi um sonho. Pegou a boneca nos braços com suavidade, querendo que aquele momento durasse para sempre. E ali também começou sua morte. 

- As meninas que emprestaram a boneca para ela eram sobrinhas da miserável que a torturava. Durante aquelas férias, elas ficaram hospedadas na casa e através delas Negrinha conheceu uma realidade bem diferente da sua e entendeu que existia uma vida distinta. Que as coisas não eram assim em todos os lugares. Com isso, seus olhos se abriram e parte de sua inocência ficou para trás. Compreendeu a maldade. E isso... isso a matou. A depressão que se seguiu quando as meninas foram embora, levando a boneca e a vida que ela também gostaria de ter, a matou. Pouco tempo depois, ela faleceu. Sem que ninguém chorasse por ela. Sem que ninguém se recordasse dela com amor e tristeza.

- Pelo que lembro do que a Isa disse na resenha dela sobre o conto, o Monteiro Lobato é visto por muitos como um autor racista. Não conheço a história dele. Tudo o que eu sabia sobre o autor era que ele era o criador do Sítio do Picapau Amarelo. Não pesquisei sobre a vida dele depois de assistir a resenha. Não pesquisei antes de ler o conto e nem depois. Tenha ele sido racista ou não, impossível negar que o conto Negrinha é uma crítica crua e direta ao racismo. Fica difícil acreditar que um autor racista escreveria uma história tão real e que mostrasse um desprezo tão grande pela sociedade hipócrita e racista da época. Monteiro descreve com extrema ironia a vilã da história, a grande dama, a "virtuosa cristã" que torturava uma menina só por causa da cor da pele da criança. Só um cego não enxergaria que todo suposto elogio que ele faz à desgraçada da Dona Inácia, na verdade é uma ofensa. Todos os elogios ao monstro em forma de gente na verdade eram puro desprezo, repulsa. A triste e nojenta ironia que existia no fato de uma cristã, uma pessoa que se considerava temente a Deus, tratar de maneira tão desumana uma criança. Ele ataca a "bondosa" senhora e não a menina. A mostra como o monstro que ela era. Assim como nos mostra que a criança era uma vítima, alguém que teve a vida destruída porque quem tinha o poder quis. 

- Ainda não li os demais contos deste livro. Não faço ideia de quando os lerei. Se os demais contos seguirem o exemplo deste, terei que me preparar muito antes de lê-los. Porque um conto como Negrinha é muito forte. 
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