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3 de novembro de 2020

Frankenstein - Mary Shelley



Literatura Inglesa
Título Original: Frankenstein, or, The Modern Prometheus
Tradutor: Christian Schwartz
Editora: Penguin & Companhia das Letras
Edição de: 2015
Páginas: 424

62ª leitura de 2020 (56ª resenha do ano)

Sinopse: O arrepiante romance gótico de Mary Shelley foi concebido quando a autora tinha apenas dezoito anos. A história, que se tornaria a mais célebre ficção de horror, continua sendo uma incursão devastadora pelos limites da invenção humana. Obcecado pela criação da vida, Victor Frankenstein saqueia cemitérios em busca de materiais para construir um novo ser. Mas, quando ganha vida, a estranha criatura é rejeitada por Frankenstein e lança-se com afinco à destruição de seu criador. Este volume inclui todas as revisões feitas por Mary Shelley, uma introdução da autora e textos críticos de Percy B. Shelley e Ruy Castro. Há ainda um apêndice com textos de Lorde Byron e do dr. John Polidori.



Observe-se que esta leitura consta como a 62ª do ano, mas a de E Não Sobrou Nenhum consta como 63ª. Isso ocorre porque Frankenstein foi minha última leitura de outubro E Não Sobrou Nenhum foi a primeira de novembro.rs Eu só inverti a ordem das resenhas. 

Na resenha do livro da Agatha Christie (resenha aqui) eu comentei que recentemente tinha lido dois livros nos quais existiam personagens brincando de Deus. No da referida autora era um psicopata que tinha decidido julgar e condenar pessoas por seus pecados, aplicando a pena que ele considerava adequada. Só que se você pensar bem, a crueldade do assassino e seus jogos eram tão doentios, que não era bem "brincar de Deus", mas sim brincar de diabo.

Já em Frankenstein as coisas são bem diferentes. Não se trata de ninguém querendo "fazer justiça" com as próprias mãos, mas sim de um cientista que se considera o máximo, o "escolhido" para descobrir os mistérios da vida e decide que vai criar outro ser humano.... no laboratório. Que vai descobrir o que "dá vida", qual é essa essência que faz um ser humano surgir do nada e "respirar", como Adão, lá no livro de Gênese, na Bíblia Sagrada. Não estou mencionando religião porque sou cristã, mas sim porque o próprio livro vai fazer tais comparações, principalmente quando conhecemos o ponto de vista da Criatura feita por Victor Frankenstein. 

"[...] seguindo as pegadas já deixadas, serei o pioneiro de um novo método, explorarei forças desconhecidas e revelarei ao mundo os mais profundos mistérios da criação."

Só que na Bíblia, Deus criou Adão do pó da terra e "soprou o fôlego da vida em suas narinas, e o homem se tornou ser vivo." (Gênese 2, versículo 7). O Dr. Victor Frankenstein não pretendia criar nenhum novo ser humano do pó da terra, mas sim de restos de cadáveres que ele pegava em cemitérios, por mais horror que sua própria atitude lhe provocasse. Ele queria satisfazer seu desejo pessoal, seu ego, ao conseguir dar vida a alguém, e não lhe importava (naquele momento) que estivesse fazendo seu experimento com restos de corpos de outras pessoas, que tinham vivido e mereciam respeito, que ele estava violando os restos mortais de seus semelhantes. Ele chega a pensar o seguinte, como justificativa para o que estava fazendo: "Para examinar as causas da vida, devemos antes recorrer à morte." E logo através desse egoísmo e loucura do protagonista, percebemos que aquela experiência estava fadada desde o princípio a provocar resultados monstruosos. Que se ele realmente conseguisse dar vida ao que ele estava criando, os resultados seriam os piores possíveis. E que, definitivamente, ele estava mexendo com o que não devia, estava ultrapassando limites, sem ter a capacidade de lidar com as consequências. 

"O que poderá deter o coração determinado e o desejo resoluto de um homem?"

E eis que ele trabalha loucamente durante dois anos (creio que foram dois anos, já não lembro bem), se tornando irreconhecível para as pessoas ao seu redor, tão focado em seu experimento que já não se importava com nada mais, nem com a família que há muito não recebia notícias suas. Ele então cria um ser mais alto e forte do que qualquer outro ser humano, mais resistente aos climas, com capacidade de ser mais veloz, só que com a aparência de um monstro. Uma aparência capaz de provocar repulsa e pavor em qualquer pessoa. Só que sua criatura ainda não "respirava" e o livro não deixa claro qual é o "segredo da vida" que o Dr. Victor Frankenstein descobriu capaz de fazer alguém começar a respirar, ter vida. Já ouvi falar que em filmes inspirados no livro, isso ocorre através de eletricidade, raios, sei lá.rs Nunca vi nenhum filme sobre esta história, então não sei como é feito nos filmes. Mas no livro, quando eu passei pela cena, não entendi como aconteceu, pela minha leitura da cena eu digo que não ficou claro. Enfim... 

"Depois de dias e noites de esforço e cansaço inimagináveis, logrei descobrir a causa da geração da vida; e, mais importante, tornei-me capaz de reanimar matéria morta."

Depois de muitos esforços, ele finalmente consegue o que tanto queria: sua criação estava viva. Ele tinha se tornado o Criador de um ser humano único (ou algo próximo de um ser humano), tinha realizado o seu sonho. E o que ele faz quando a Criatura abre os olhos e sorri para ele?! Foge desesperado.

Sim, sabíamos desde o princípio que Victor era um covarde, um homem fraco e mimado, acostumado a ter o que queria, mas que não tinha maturidade nenhuma para lidar com suas próprias atitudes. Enquanto sua Criatura ainda não respirava, tudo estava perfeito. Ele estava feliz da vida, todo orgulhoso de si, com a certeza que a faria viver. Mas quando consegue que a Criatura tenha "fôlego de vida", se desespera. Percebe o que fez e foge, deixando à própria sorte o pobre coitado que não pediu para existir. Alguém que embora já fosse tecnicamente "adulto" em tudo era como uma criança inocente, jogada num mundo desconhecido, abandonada pelo pai, pelo seu Criador. É claro que ele iria colher as consequências de suas atitudes, embora pensasse que fugindo e se recusando a encarar o que tinha feito tudo ficaria perfeitamente bem. 

"E tu, no entanto, meu criador, detestas e rejeitas esta tua criatura, à qual tua arte te liga por laços que somente é possível romper pelo aniquilamento de um de nós. Estás disposto a me matar. Como te atreves a brincar assim com a vida?"

E o livro vai girar em torno justamente das consequências do que o Dr. Victor Frankenstein tinha feito, ao brincar de Deus e fugir de suas responsabilidades, abandonando seu "filho", fingindo que ele não existia. A história já começa anos depois, através das cartas trocadas entre um jovem aventureiro chamado Walton e sua irmã Margaret. Durante uma viagem, Walton e sua tripulação acabam encontrando um homem quase morto e o aceitam em seu navio, dando a ele todo o cuidado necessário na tentativa de que ele se recupere. Este homem doente é Victor. Logo, Walton começa a ver o desconhecido como um amigo e os dois se aproximam muito. Tudo isso ficamos sabendo através das cartas que Walton escreve para a irmã. 

Atormentado por seu passado, pelo terror que ele provocou e ao ver no amigo alguém muito parecido com ele em suas ambições de mexer com os mistérios da natureza, Victor decide contar toda a sua história e implora para o amigo não cometer os mesmos erros que ele cometeu. Assim, somos levados ao passado e descobrimos tudo o que aconteceu...

"Lembras que sou tua criatura; deveria ter sido teu Adão, mas parece que acabei como o anjo caído do qual tiraste a felicidade por pecado nenhum."

No trecho acima, um dos que mais me impactou, a criatura, atormentada por toda rejeição sofrida e pela forma como seu próprio criador queria sua morte, faz uma comparação com a história bíblica. Reflete sobre o fato que ele deveria ter sido para Victor como Adão foi para Deus, mas em vez disso acabou condenado como Lúcifer, o anjo caído que se transformou em demônio após ter desejado ser como Deus, ter tentado ocupar o lugar de Deus. Só que a diferença entre a criatura e o anjo caído é que ela não tinha cometido nenhum pecado. É essa injustiça, essa dor que mais machuca a criatura. Saber que não tinha feito nada para merecer a maneira como Victor a tratou e como queria sua destruição.

Claro que não vou contar tudo o que se passou entre criador e criatura porque seria spoiler, mas digo que essa é uma história que se fixa em nós por todas as reflexões que ela provoca, pela revolta que sentimos por todas as injustiças cometidas contra a Criatura e contra outros personagens no livro. A sensação de impotência, de não poder mudar coisas que até nos dias de hoje se repetem, como falhas do Poder Judiciário, preconceitos, descaso, a falta de empatia de muitos... O livro vai ter como tema central as questões referentes a relação entre um criador egoísta e irresponsável e sua criatura abandonada, mas também vai trazer muito da responsabilidade da sociedade pelas pessoas que ela rejeitou. O livro nos faz refletir sobre crianças abandonadas por suas famílias, pessoas humilhadas e seriamente afetadas pela sociedade... Enfim... Nós acabamos pensando em muitos assuntos e o que fica  ao término da leitura é uma sensação de tristeza. É algo parecido com o que sentimos quando lemos Capitães da Areia, do Jorge Amado.

"Tu, que és meu criador, serias capaz de destroçar-me em pedaços, triunfante; lembra disso e então me diz por que deveria eu apiedar-me do homem mais do que ele se apieda de mim?"


A autora aborda a seguinte discusão: é possível alguém nascer bom e ser corrompido pela sociedade? Se tornar cruel a partir da forma como é tratado pelos outros? E ela própria dá a resposta através do desenvolvimento da história: sim, é possível. Depois de apanhar tanto, de só receber ódio e agressão, um ser humano pode sim se revoltar e romper com a bondade que levava no coração e devolver aos outros exatamente o que estava recebendo deles. 

Frankenstein não é um livro de terror, embora seja considerado um. É muito mais um livro filosófico, creio. Uma história com o objetivo de fazer o leitor refletir... parar para pensar em questões sobre existência, injustiças, discriminação, abandono... A Criatura feita por Victor vai fazer várias coisas horríveis que vão sim nos revoltar, mas são as cenas em que ela conta a versão dela, o que se passou depois que foi abandonada por seu Criador, que nos fazem sentir vontade de chorar, que nos atingem a alma. Por uma coisa chamada empatia. Ao nos colocarmos no lugar dela, nos imaginando abandonados à própria sorte e recebendo de TODO MUNDO apenas ódio e violência, conseguimos compreender o que a levou a se tornar o que se tornou. Eu odiei a Criatura?! Sim, a odiei pelas coisas horríveis que ela fez. Mas também sofri muito por tudo o que ela passou. Eu pude compreender sua dor. E meu maior desprezo era pelo Victor e por aqueles que contribuíram para destruir aquela Criatura, destruir sua essência, os sentimentos bons que ela tinha. Eu senti muita tristeza e revolta com esta história. 

É fácil falarmos que não faríamos isso ou aquilo quando não passamos pelo que o outro passou. É muito fácil julgarmos de fora. Falta muito no mundo a capacidade de sentir empatia, de se colocar no lugar do outro. Se as pessoas pensassem mais no seu próximo, se refletissem antes de tomar uma atitude que pode causar mal ao outro, afetar a vida da outra pessoa... O mundo com certeza não seria o caos que é. Não seria um lugar perfeito e livre da maldade, claro. Não sou ingênua. Mas com certeza não seria o que é hoje. 


13 de julho de 2020

Flores para Algernon - Daniel Keyes

Literatura norte-americana
Título Original: Flowers for Algernon
Tradutora: Luisa Geisler
Editora: Aleph
Edição de: 2018
Páginas: 288

36ª leitura de 2020

Sinopse: Uma cirurgia revolucionária promete aumentar o QI do paciente. Charlie Gordon, um homem com deficiência intelectual severa, é selecionado para ser o primeiro humano a passar pelo procedimento. O experimento é um avanço científico sem precedentes, e a inteligência de Charlie aumenta tanto que ultrapassa a dos médicos que o planejaram. Entretanto, Charlie passa a ter novas percepções da realidade e começa a refletir sobre suas relações sociais e até o papel de sua existência. 
Delicado, profundo e comovente, Flores para Algernon é um clássico da literatura norte-americana. A obra venceu o prêmio Nebula e inspirou o filme Os Dois Mundos de Charlie, ganhador do Oscar de Melhor Ator, um musical na Broadwaye homenagens e referências em diversas mídias.




Eu tinha ouvido falar muito sobre este livro, mas de modo algum poderia imaginar que ele me marcaria tanto. Que me destroçaria. Que me faria pensar em tantas coisas...

Não sei como falar de tudo o que sinto, do quanto fui impactada pelo Charlie e a história dele. Como chorei até não ter mais forças. Quando nos colocamos no lugar deste protagonista sentimos sua dor em nossa pele, sentimos como se tudo aquilo estivesse acontecendo em nossa vida. E é simplesmente horrível. 

"[...] inteligência e educação sem doses de afeto humano não valem droga nenhuma."

Charlie Gordon é um homem de 32 anos com uma deficiência intelectual grave, que desde os 15 anos trabalhava como faxineiro na padaria de um amigo de seu tio. Muito esforçado, sonhava em aprender a ler e escrever, algo que nunca tinha conseguido, e por isso buscou se matricular em aulas especiais voltadas para adultos com problemas de aprendizado, que lutavam para aprender o máximo que pudessem. 

Inocente como uma criança, acreditava ter muitos amigos entre seus colegas de trabalho e não percebia o desprezo, a zombaria e os ataques deles, enxergando tudo como uma "brincadeira", incapaz de notar a maldade daqueles que tanto admirava e tinha como sua família. Não conseguia recordar o seu passado. Esquecia logo em seguida muito do que aprendia; em suas próprias palavras "não sabia pensar", não lembrava como tinha chegado naquela padaria na qual trabalhava há dezessete anos e nem quem eram os seus pais, se estavam vivos ou mortos, onde moravam... Nada. Seu passado era como uma página manchada, na qual todas as informações tinham sido cobertas com tinta. 

Por conta de seu esforço em aprender a ler e escrever, mesmo com inúmeras dificuldades, foi escolhido como o primeiro ser humano a ser submetido a uma cirurgia que prometia "tornar a pessoa inteligente". Os cientistas envolvidos no experimento viam que as vantagens, as chances de sucesso eram muito maiores que os riscos e tinham quase total confiança que daria certo. 

"Depois da operasão vou tentar ser esperto. Vou tentar com toda minha força."

Fascinado com a promessa de ser tão esperto quanto as outras pessoas e com isso fazer mais amizades, Charlie aceita ser usado naquela experiência, mesmo que também sentisse medo. A cirurgia acaba sendo um grande sucesso, possibilitando que ele vá muito além de simplesmente aprender a ler e escrever. Sua inteligência supera as expectativas. Quanto mais o tempo passa, mais inteligente, excepcional ele se torna, ao ponto de ser considerado um gênio. Mas... tudo na vida tem um preço. 

10 de junho de 2020

Fahrenheit 451 - Ray Bradbury

Literatura norte-americana
Título Original: Fahrenheit 451
Tradutor: Cid Knipel
Editora: Biblioteca Azul (Editora Globo)
Edição de: 2012
Páginas: 216

29ª leitura de 2020

Sinopse: Ray Bradbury (1920-2012) renovou a literatura quando, em plena Guerra Fria, escreveu Fahrenheit 451, um marco da ficção científica. Se fosse realmente ficção científica. Fahrenheit 451 é, na verdade, uma obra política, uma distopia - ou antiutopia. "Ficção científica é uma ótima maneira de fingir que você está falando do futuro quando, na realidade, está atacando o passado recente e o presente", afirmou o escritor. Fahrenheit 451 foi considerado um grande crítica aos regimes políticos opressores do século XX e previu transformações sociais simbolizadas atualmente pela influência da TV. Publicado originalmente em 1953, é uma obra atemporal, redescoberta a cada nova geração. 


Sabe quando você ama tanto um livro, mas tanto mesmo, que não consegue falar sobre ele?! Estou assim desde que concluí a leitura de Fahrenheit 451. Eu tinha muitas expectativas, mas o livro conseguiu superar todas elas! Desde então estou "travada", sem conseguir explicar nem mesmo para mim a forma como a história me marcou. Eu sei o que sinto, mas não consigo me expressar. Só sei que amo, amo, AMO e amo!

"[...] o que aconteceria se os livros fossem incinerados, varridos da face da Terra até o ponto em que o único vestígio de milênios de tradição humanista estivesse alojada na memória de alguns poucos sobreviventes? Qual seria o próximo passo da barbárie? Queimar os próprios homens, para apagar de vez a memória dos livros? [Trecho do Prefácio]"

Imagine o quanto é desesperador para nós leitores, amantes incondicionais dos livros, lermos uma história que fala sobre a queima dos livros. Não simplesmente da censura, mas da completa destruição do conhecimento, do senso crítico, de milhares e milhares de anos de História. Em Fahrenheit 451, os livros se tornam proibidos. Ninguém pode tê-los, ninguém pode lê-los. Quem ousasse ir contra a maioria esmagadora da população e contra o Estado, correria três riscos: ir para um hospício, ser preso ou... assassinado (com uma injeção letal ou queimado junto com os livros).

Nesta história, a maioria das pessoas vive feliz... ou tomada pela ilusão de felicidade. As pessoas têm tudo o que desejam e todo o entretenimento necessário para nem sequer saber o que é tristeza. Os televisores estão em cada uma das paredes de suas salas, interagindo com os moradores; os carros só podem ser dirigidos em altíssima velocidade (para que ninguém tenha o desprazer de PENSAR enquanto dirige) e quem se atreve a descumprir essa regra pode ser seriamente punido. As famílias não conversam, não alimentam mais quaisquer afetos uns pelos outros e isso as deixa felizes. Mal se dão conta da presença daqueles que deveriam amar, passam todo o tempo absorvidas, alienadas pela mídia, pelos programas feitos especialmente para manipulá-las a não pensar. Recebem as informações "maquiadas" pelo Estado e nem sequer passa por suas cabeças duvidar daquilo que lhes é mostrado. Todos os cidadãos perderam por completo a capacidade de agirem por si mesmos. São aquilo que o Estado deseja. E acreditam numa felicidade inexistente.

29 de janeiro de 2019

Vox - Christina Dalcher

(Título Original: Vox
Tradutor: Alves Calado
Editora: Arqueiro
Edição de: 2018)


O governo decreta que as mulheres só podem falar 100 palavras por dia. A Dra. Jean McClellan está em negação. Ela não acredita que isso esteja acontecendo de verdade. 

Esse é só o começo... 

Em pouco tempo, as mulheres também são impedidas de trabalhar e os professores não ensinam mais as meninas a ler e escrever. 
Antes, cada pessoa falava em média 16 mil palavras por dia, mas agora as mulheres só têm 100 palavras para se fazer ouvir. 

...mas não é o fim. 

Lutando por si mesma, sua filha e todas as mulheres silenciadas, Jean vai reivindicar sua voz. 



Palavras de uma leitora...


- Desde o seu lançamento no ano passado Vox se tornou um dos livros mais comentados pelos leitores. Eu ouvia falar desta história o tempo todo e o fato de a mesma ser comparada com O Conto da Aia foi o que realmente me motivou a lê-la. Quem acompanha o blog sabe que a distopia criada pela autora Margaret Atwood se tornou uma das minhas leituras preferidas, embora também seja uma das mais angustiantes. 

Por este motivo que mesmo ansiosa para começar a leitura eu não a iniciei logo. Esperei que uma amiga pudesse ler o livro comigo, pois ler um livro como este não é fácil. Provoca muito desgaste emocional e vontade de desabafar com alguém, de saber que outra pessoa está sentindo a mesma revolta, a mesma impotência e desejo de acabar com a raça de certos personagens. Vox me perturbou muito, sobretudo porque nada o que ocorre neste livro é impossível de acontecer. Muito pelo contrário! E é isto que assusta. Perceber que nossas escolhas erradas, nossa falsa sensação de segurança, de que temos direitos garantidos que nada nem ninguém pode abalar, pode acabar com tudo. Pode colocar loucos no poder. Fanáticos religiosos que com sua lábia conseguem alienar boa parte da população e fazê-la considerar todas as escolhas tomadas pelo governo como certas, em benefício do país. Foi o que se passou em Vox. Um alerta para todo o mundo, como se a História mundial já não fosse aviso o suficiente. Mas como tendemos a ter memória curta (e seletiva) atrocidades do passado tendem a se repetir. 

"- Vocês não fazem ideia, senhoritas. Absolutamente nenhuma ideia Estamos a um passo de voltar à pré-história, meninas. Pensem nisso. Pensem onde vocês vão estar, onde suas filhas vão estar, quando os tribunais atrasarem os relógios. Pensem em expressões como 'permissão do cônjuge' e 'consentimento paterno'. Pensem em acordar um dia e descobrir que não têm voz em nada."

- Jean McClellan era mãe de quatro filhos e  se tornara uma importante neurolinguista em seu país. Casada há muitos anos com Patrick, um cientista que fazia parte do conselho do Governo, nunca ligou muito para os movimentos feministas, um dos motivos que a afastaram de sua melhor amiga Jackie, quem participava ativamente de tais movimentos. Ainda na época da faculdade elas se desentenderam, pois Jackie era incapaz de entender como Jean podia viver numa bolha, sem encarar a realidade da fragilidade de direitos que as mulheres possuíam e a necessidade de se lutar sempre, para que os direitos já adquiridos fossem mantidos e outros fossem conquistados. Jean achava tudo aquilo uma baboseira e puro histerismo e as duas acabaram por cortar todas as relações. 

Mas era nela que Jean mais pensava quando via tudo o que considerava como certo... escapar. Ser destruído sem que pudesse fazer nada. Por que não pensou antes? Por que se manteve inerte? Agora não podia voltar no tempo. Era tarde demais. 

"Nunca mais falei com Jackie. Em noites como esta, gostaria de ter falado. Talvez as coisas - a coisa da eleição, a coisa da nomeação, a coisa da confirmação, a coisa da ordem executiva - não tivessem chegado a este ponto."

- Tudo começou a dar errado antes mesmo de Sam Myers ganhar as eleições para presidente. Um movimento que até então não parecia tão forte, guiado por um fanático chamado de Carl Corbin, que acreditava que era necessário limpar o país de correntes e ideologias nocivas, para o bem da Família e a retomada dos ensinamentos bíblicos como bases de uma nação, tomou força de repente. Jean e muitas outras mulheres não conseguiram prever isso, embora as feministas estivessem atentas muitos anos antes sobre a possibilidade de isso vir a acontecer. Como o Cinturão da Bíblia não era forte em seu estado, Jean não prestou muita atenção nele. Afinal de contas, quem daria ouvidos à tanta besteira? Vivia em pleno século XXI e todo o alarde em torno de determinadas crenças dominarem o país não passava disso. Mas estava enganada. E pagava um preço alto demais por seu erro. 

"E não pense que serão todos homens. As Recatadas do Lar vão estar do lado deles."

Quando Sam Myers assumiu o poder tudo já estava perfeitamente organizado. Tendo o reverendo Carl Corbin como o verdadeiro cérebro por trás de todas as mudanças, começou a pôr em prática tudo o que tinha sido arquitetado, contando com o apoio de boa parte da população, que seguia os ensinamentos de Carl como se ele fosse um deus e acreditava fielmente no Movimento Puro. 

"Aprendi que, assim que um plano é estabelecido, tudo pode acontecer da noite para o dia."

- No início, quando as coisas começaram a se mostrar muito ruins, algumas pessoas ainda conseguiram fugir, buscar exílio, refúgio em outros países. Mas logo o novo Governo tomou as providências necessárias para garantir o controle total sobre a população. Os passaportes de todas as mulheres foram cancelados e suas contas passaram a ser administradas por seus respectivos responsáveis (maridos, pais, parentes próximos). Mulheres foram arbitrariamente proibidas de trabalhar, tendo suas funções passadas para homens escolhidos pelos representantes do governo. Elas deveriam contentar-se em cuidar da casa, do marido e dos filhos, pois era assim que Deus desejava que as coisas fossem, segundo as crenças daquele líder religioso. E, definitivamente, deveriam permanecer em silêncio, pois era uma vergonha uma mulher atrever-se a contestar seu marido em público ou interferir de qualquer forma em suas decisões. E como simplesmente mandá-las se calar não bastava... por que não colocar em prática outros dos planos já anteriormente estabelecidos?

"[...] Cada página berrava um fundamentalismo de extrema direita."

- O silêncio foi obtido de maneira bastante eficaz. Os homens do governo, fortemente armados, buscavam as mulheres, crianças e bebês (do sexo feminino), onde quer que elas estivessem. As instruções foram brevemente dadas, as deixando cientes de que saberiam maiores detalhes através de seus responsáveis, e então uma pulseira aparentemente inofensiva e regulada para identificar a voz da pessoa que a tivesse em seu braço, foi colocada em todas as pessoas do sexo feminino, ainda que fossem crianças de poucos anos ou bebês. Tal pulseira concedia apenas o direito de dizer 100 palavras ao longo das 24 horas do dia. Algo que Jean considerou patético e uma brincadeira de mau gosto. De modo algum aquilo poderia ser real, mas ela descobriu de maneira bastante dolorosa o quanto aquilo era sério. E o que acontecia quando as 100 palavras eram ultrapassadas. 

Em choque, diante de todas as mudanças que estavam sendo implementadas, e sabendo que já não era possível parar tudo aquilo, ela assistiu impotente as notícias sobre o que estava acontecendo com aquelas tidas como as minorias. Feministas de todo o país estavam sendo perseguidas e silenciadas pelas forças armadas, condenadas a campos de concentração, onde sequer teriam direito ao total de 100 palavras. Homossexuais que constituíram famílias tinham seus filhos arrancados de seus braços, entregues para o parente "puro" mais próximo. Enquanto eles também eram condenados a campos de concentração, tendo como "quarto" de dormir uma cela que seria dividida com alguém do sexo oposto, no intuito de "curá-los" de seus desvios. As pessoas que cometiam adultério também eram jogadas nos mesmos campos, condenadas ao silêncio e ao trabalho forçado perpétuo, até que suas forças se esvaíssem e morressem. 

As meninas já não podiam mais frequentar as mesmas escolas que os meninos. Proibidas de ler e escrever, aprendiam somente o necessário para em breve serem perfeitas esposas e mães, sendo o casamento precoce (logo na adolescência) incentivado. Os pais deveriam casar cedo as suas filhas, com homens que eles julgassem apropriados, não importando o que as meninas ou suas mães tivessem a dizer sobre o assunto. E as mesmas deveriam engravidar rapidamente, para perpetuar a espécie humana. 

"Acho que, se algum dia as coisas voltarem ao normal, eles vão usar aquele velho clichê: Eu só estava cumprindo ordens. 
Onde foi que já ouvimos isso?"

Como aceitar a nova realidade? Como entender que já não podia se comunicar direito com o próprio marido ou educar seus filhos? Todos os seus livros tinham sido trancados, longe de seu alcance. Seu computador e outros objetos de trabalho também lhe foram tirados. Qualquer folha de papel era proibida. As correspondências eram entregues somente ao Patrick. E existiam câmeras por toda a parte na rua e na entrada e nos fundos de sua casa, para impedir que as mulheres se comunicassem mesmo pela linguagem de sinais. E aquelas que fossem pegas infringindo as novas leis não teriam sequer direito a um julgamento.

 O medo dominava muitas das mulheres e tinha o efeito eficaz de paralisar e impedir qualquer forma de manifestação, de revolta. Mas Jean estava por um fio. Sua filha nunca aprenderia a ler e escrever. Seus filhos já tinham se acostumado a não ouvir mais o som da sua voz e se comunicarem apenas com o pai. Jean estava começando a perceber que já não conseguia olhar para o marido com os mesmos olhos, que mesmo sabendo que ele não era responsável por tudo aquilo e que abominava todas as mudanças ela estava começando a odiá-lo. Mas pior que tudo isso era perceber que seu filho mais velho, com apenas dezessete anos, se transformara num inimigo dentro de sua própria casa. Um perigo para ela e para Sonia. Era preciso fazer alguma coisa. 

"Tento me convencer de que não é minha culpa. Eu não votei no Myers. 
Na verdade, eu não fui votar."

- A oportunidade surge quando o irmão do presidente sofre um terrível acidente, que provoca uma lesão neurológica que o impossibilita de comunicar-se com as outras pessoas. Conhecida como afasia de Wernicke, esta lesão não rouba das pessoas as palavras orais ou a escrita, mas tira delas a compreensão. Assim, todas as palavras que saíssem da boca delas, por mais fluentes e elegantes que fossem, seriam carentes de sentido. Da mesma forma, elas não conseguiriam compreender o que outras pessoas lhes perguntassem. Com esta afasia a compreensão se perde por completo. 

Jean era uma cientista muito talentosa e estava trabalhando num soro anti-Wernicke quando sua pesquisa foi interrompida pelo governo. Todo o processo já estava bastante adiantado e se aquele malditos doentes não a tivessem silenciado e impedido de trabalhar já teria a tão sonhada cura para aquela séria lesão, devolvendo a tantas pessoas a capacidade de comunicação que tinham perdido, fosse por um traumatismo craniano ou um derrame cerebral. 

Todavia, com o acidente sofrido pelo irmão do presidente, o governo percebe que necessita de Jean mais do que nunca. Porque somente ela poderia terminar aquele soro... Ainda atordoada pelos acontecimentos repentinos, Jean percebe que aquela era a sua chance.... de recuperar a sua voz e descobrir o que eles de fato pretendiam. 

Qual o real motivo para quererem tanto o soro anti-Wernicke? E até que ponto Jean seria necessária? As respostas podem ser mais aterrorizantes do que ela poderia imaginar... e a inteligência era tudo o que ela possuía para jogar contra um governo que seria capaz de qualquer coisa por poder. 

"Às vezes eu refletia sobre isso, sobre como crianças podem se transformar em monstros, como aprendem que matar é certo e a opressão é justa, como em uma única geração o mundo pode mudar tanto até ficar irreconhecível."

- Este livro me fez refletir sobre muitas coisas e me deixou bastante angustiada. Diversas vezes tive que interromper a leitura e equilibrar com um livro mais leve, um romance de época, para conseguir manter o controle emocional. Para não me deixar sufocar pelo mundo criado pela autora e tão possível de se tornar uma realidade se a sociedade continuar não prestando atenção em quem vota e por quê. Se continuar se deixando levar pelo que governantes e políticos bastante inteligentes querem que as pessoas acreditem. As pessoas estão acreditando nas coisas mais absurdas possíveis e um dia já não terão capacidade de pensar criticamente e se voltar contra sistemas opressivos e injustos. 

Jean era uma incrédula e uma inocente. Ela dava como certo tudo o que possuía. Outras mulheres já tinham lutado antes dela e tinham adquirido muitos direitos. Para que continuar lutando? Qual o sentido? Era baboseira. Ela tinha muito o que fazer para se preocupar com as besteiras ditas por sua amiga. Não viu o país se dividir. Não viu o fanatismo se espalhar e ganhar imensa força. Não viu nada acontecer, concentrada demais em si mesma. Ela nem sequer foi votar. E quando acordou, quando percebeu o rumo que o país estava tomando já era tarde demais. Sua voz já não seria ouvida. Qualquer manifestação seria sufocada. Com a divisão provocada na sociedade, eles conquistaram. O dividir para conquistar foi utilizado de forma muito eficaz. E mesmo lendo um livro como este as pessoas seguirão cegas, o que é mais triste. :( E o preço é sempre pago por todos, sobretudo pelos mais vulneráveis. 

"- Eu te amo, mamãe. Eu te amo muito. 
Bastam oito palavras para fazer meu coração palpitar."

- O livro possui cenas muito difíceis, que machucam algo dentro de nós. A gente só quer que aquela injustiça acabe e que o fanático que continuava alienando a população queimasse no inferno por todas as atrocidades cometidas, toda a destruição que estava provocando. Uma coisa muito dura é ver o próprio filho da Jean, Steve, se transformar. Com as novas matérias introduzidas na escola ele começa a receber a mesma lavagem cerebral que outros rapazes de sua idade e não demora para considerar tudo aquilo certo, alimentando uma insensibilidade dentro de si. É triste demais ver a Jean recordando o menino pequeno que ele foi, a criança que confiava nela, que ela pegava no colo e consolava. E então ela era obrigada a ver no que seu filho, ainda um adolescente, tinha se transformado. Isso é difícil demais. 

"Quero lutar e não sei como."

- Com este livro também percebemos a importância das palavras. De não permitir que sua voz seja calada. De lutar sempre, da forma que conseguir. Em épocas de ditaduras, muitas pessoas, por mais oprimidas que sejam pelos governos ditatoriais, não se calam. Mesmo utilizando de metáforas e outras técnicas capazes de não tornar tão explícito o que querem dizer, escritores, músicos e artistas em geral utilizavam o que tinham para transmitir uma mensagem de resistência e esperança. O que nos remete a um trecho importante do livro no qual um personagem relembra que "o mal triunfa quando homens bons não fazem nada." Uma grande verdade, não é mesmo? O pior não é uma pessoa má cometer as piores atrocidades, destruindo outros seres humanos sem compaixão. Não. O pior é quando pessoas boas não fazem absolutamente nada, se limitando a assistir ou virar o rosto para o outro lado. Como a música "Embora Doa" mesmo diz "há sempre outro canal", "embora doa nada fiz para mudar". 

"- Há uma resistência?
O mundo parece doce quando digo isso. 
- Querida, sempre há uma resistência."

- O livro é muito bom e recomendo para todos! Leiam! Simplesmente leiam! Aproveitem a oportunidade que têm de ler. Aproveitem os presentes que livros significam para nossas vidas. O mundo precisa de mais leitores. De mais livros. De mais pensamento crítico. Seja o que for no que você acredite, se lembre sempre de antes de tudo ser um ser humano. E defender os direitos humanos. Ainda que determinada violação não te atinja pense sempre que quando atinge um semelhante está te atingindo também. E nenhuma crueldade deve ser tolerada. Seja contra pessoas ou animais. 

A única crítica negativa que tenho a fazer sobre o livro é em relação ao final. Depois de ter conduzido de maneira brilhante o livro inteiro achei que a autora se apressou muito na reta final. Ficou tudo corrido e algumas coisas não foram explicadas. Existem resenhas por aí dizendo que o livro é o primeiro de uma série. Então, talvez essas respostas sejam obtidas nos próximos volumes, se for realmente uma série. 

31 de dezembro de 2017

O Resgate no Mar (Parte 2) - Diana Gabaldon

(Título Original: Voyager
Tradutora: Geni Hirata
Editora: Saída de Emergência
Edição de: 2015)


3º Livro da Série Outlander


Claire Randall finalmente conseguiu voltar no tempo e reencontrar Jamie Fraser na Escócia do século XVIII, mas sua história está longe do final feliz. O casal terá que superar muitos obstáculos, de fantasmas a perseguições marítimas, mas o principal deles são os vinte anos que se passaram em suas respectivas épocas desde a última vez que se viram. 

Se a intensa paixão e o desejo entre eles não parecem ter diminuído nem um pouco, o mesmo não se pode dizer sobre a confiança. Jamie agora é um homem endurecido pelo que aconteceu após a Batalha de Culloden. Claire, por sua vez, precisa lidar com o segundo casamento de seu amado e suportar a saudade de Brianna, que ficou sozinha no ano de 1968. 

A união dos dois será posta à prova quando o sobrinho de Jamie for sequestrado. Juntos, eles precisarão singrar pelos mares e cruzar as Índias Ocidentais para resgatá-lo, provando mais uma vez que nada é capaz de deter uma história de amor que vence as fronteiras do tempo e do espaço.



Palavras de uma leitora...


- Às vezes eu desejo esganar alguns autores. É um sentimento comum, creio. Inúmeras vezes fervi de raiva da minha autora preferida (Florencia Bonelli), mas penso que nenhuma autora nunca me provocou tanta revolta quanto a Diana Gabaldon. Se a FB é sádica não sei nem como chamar a DG. 

"- Sabe o que é viver vinte anos sem coração? Ser apenas parcialmente humano e acostumar-se a viver com o que restou, preenchendo os buracos com qualquer coisa à mão?"

- Nada acaba fácil na primeira parte de O Resgate no Mar. Após serem vítimas de uma emboscada, é hora de Claire e Jamie tomarem a esperançosa e ao mesmo tempo difícil decisão de voltar para casa. Para Lallybroch, a terra em que Jamie cresceu e amava com todo seu coração, mas foi obrigado a transferir para seu sobrinho, nos tempos mais difíceis anteriores à Batalha de Culloden. Sabia que se mantivesse as terras para si, elas seriam tomadas pelos ingleses. Sem opção, a manteve na família da única maneira possível e não se arrependia. Mas retornar... como sonhara com este momento! 

Todavia, voltar para casa não era uma tarefa tão simples quanto parecia. Embora Lallybroch fosse um refúgio era também um local que guardava sérios segredos, de um passado de separação e recomeços. Como contar para a Claire toda a verdade? Como encarar a possibilidade de perdê-la outra vez? Não estava pronto. Talvez não estivesse nunca. 

"Eu teria dado a minha vida, por ela e por você. Se preciso, meu coração e minha alma, também..."

- Embora tenha incentivado a Claire a voltar para seu tempo, vinte anos atrás, Jamie nunca conseguiu se livrar da dor que parecia rasgar seu coração. Fizera o melhor por ela e pela filha que ela esperava. Mas como não sentir raiva, ciúmes, mágoa por ter sido outro a criar sua filha? Por ter sido outro a acordar dia após dia ao lado de sua mulher? Ninguém podia culpá-lo por odiá-la, mesmo que a amasse mais que a sua própria vida. Ninguém também poderia condená-lo por casar-se outra vez, quando acreditara que só voltaria a ver a Claire após sua morte. O fato dela reaparecer não mudava as coisas. Não alterava a passagem do tempo e tudo o que aconteceu naqueles vinte anos. Não era possível apagar o passado, muito menos voltar atrás. 

"Estávamos fazendo o melhor possível para nos matar, alimentados pela raiva de anos separados - a minha por ele ter me mandado embora, a dele por eu ter ido, a minha por Laoghaire, a dele por Frank."

- Claire não sabia o que esperar ao chegar a Lallybroch, mas certamente não era a recepção dúbia de Jenny, sua cunhada, alguém que tinha sido uma grande amiga num passado distante. De quem ela sentira imensa falta e desejava intensamente rever. Mas toda a amizade parecia ter se rompido com os anos, pois a Jenny que a recebeu não parecia querê-la por perto. Não parecia considerá-la mais nada. E tudo piora quando um segredo chocante é revelado de uma maneira inesperada, fazendo-a perceber que talvez já não conhecesse o homem por quem tinha voltado. Por quem, mais uma vez, ela largou tudo. Onde tinha ido parar a promessa de nunca mentirem um para o outro? Quem era o estranho que fizera amor com ela, mas guardara para si algo que os afetava diretamente, algo que ela não poderia perdoar?

Transtornada após descobrir que Jamie casara outra vez, que estava casado naquele momento e era pai de duas meninas, ela mal conseguia pensar. Estava preparada para aquela possibilidade. Antes de voltar, sabia o que poderia encontrar. Não era isso o que mais doía. Além da mentira, o que era insuportável era saber que ele reconstruíra sua vida ao lado de Laoghaire. De todas as mulheres que ele poderia ter escolhido, foi justamente ela. Aquela responsável por um dos piores momentos de Claire, quando ela foi acusada de bruxaria, julgada e quase condenada à morte na fogueira. Por culpa daquela mulher, de Laoghaire. Não! Ela poderia perdoar qualquer coisa, menos aquilo. 

"- Durante tantos anos - disse ele - por tanto tempo, eu fui tantas coisas, tantos homens diferentes. [...] Mas aqui - disse ele, tão baixinho que mal podia ouvi-lo -, aqui no escuro, com você... eu não tenho nenhum nome."

- Disposta a ir embora outra vez, para longe de toda dor que a atingia sempre que estava perto de Jamie, ela foge de Lallybroch. Mas existem decisões que não podem ser tomadas. Escolhas que a vida não nos permite fazer. Como se afastar novamente? Como deixar outra vez o único homem que seu corpo desejava, que seu coração amava e que ela recordava mesmo dormindo, mesmo inconsciente? Se existia destino, o seu, sem sombra de dúvidas, era ao lado dele. 

Ainda magoada por suas mentiras e pressentindo que ele ainda ocultava outros segredos, Claire fica. Mesmo sabendo que dificilmente teria paz ao seu lado. Podia recordar a tranquilidade da vida em sua época, o chuveiro elétrico, os confortos de um tempo avançado. Não era uma vida desagradável, mas era uma vida sem amor. Uma vida em que Jamie não existia. 

"- Eu o amo - disse, e não precisava dizer-lhe que eu realmente falava do fundo do coração."

O retorno de Claire ao século XVIII, ao lado de Jamie, não é pacífico. É tumultuado, recheado de saudades e revolta, amor e ódio, paixão e ciúmes... de sentimentos fortes e confusos. Mas nada se comparava ao que eles, juntos, ainda enfrentariam. O mesmo destino que os uniu, os separou por vinte longos anos. E ainda não estava satisfeito. Porque um amor como o deles parecia possuir a necessidade de sempre ser posto à prova.

- Imagino que a Claire e o Jamie não tenham problema de coração. Senão, com certeza, já estariam mortos há muito tempo. Não sei qual é o problema da Diana Gabaldon com eles. Caramba, será que nunca bastará para ela?! Os dois já comeram o pão que o diabo amassou e dançou em cima, mas a autora não parece satisfeita. Vocês que acompanham a série sabem tudo o que eles enfrentaram. Todo o sangue literalmente derramado, todos os momentos de agonia física e emocional, todos os fantasmas que nunca os abandonarão, as lembranças... e a separação. Mas vem a autora com mais problemas, mais dor! Tem hora que dá vontade de gritar de raiva. Não suporto mais ver meu casal sofrendo! Não aguento mais tantas reviravoltas! 

" - Deus sabe que há um feitiço em sua vida, Jamie, ou já teria morrido uma dúzia de vezes."

- Sem sombra de dúvidas! Foram tantas as vezes em que o Jamie esteve perto da morte que nem dá para contar. Sem mencionar a Claire que também escapou por bem pouco vezes sem conta. Mas em O Resgate no Mar é tiro, facada, sequestro, tentativa de estupro, epidemias, ameaça de execução por enforcamento, outra separação, quase afogamento no mar (uma, duas, três, quatro... vezes!). Fiquei me perguntando se o casal realmente passou mais tempo junto ou separado neste livro. Sério! E se eles são imortais. Porque nenhum ser humano normal escapa tantas vezes da morte. Nem mesmo possuindo uma tremenda sorte!rs

- No entanto, apesar de eu ter me irritado muito com a autora ao longo da leitura e todas as "aventuras" que o casal é obrigado a enfrentar (se tivessem escolha eles viveriam uma vida bem tranquila numa casinha de campo, criando seus filhos e esquecendo-se do mundo), este é o meu livro preferido da série.kkkkk... Verdade que acontecem coisas demais, ao ponto de tornarem-se um tanto quanto inverossímeis, impossíveis de acreditar. A autora exagerou. Mesmo assim, foi o livro que mais apreciei, a leitura que me tocou de um jeito especial. Os outros dois livros foram maravilhosos, mas O Resgate no Mar tem um lugar de destaque no meu coração. Talvez porque as emoções estavam mais fortes, talvez porque também vivi com eles a separação de vinte anos e os vi mudar, serem atingidos pelo passar do tempo. Depois de tudo o que vivemos juntos, é normal que a leitura do terceiro livro tenha sido mais forte, mais impactante. 

"- Amar você me levou ao inferno mais de uma vez, Sassenach; mas eu correria o risco outra vez, se necessário."

- O que sempre me faz voltar para Outlander? O que me prende tanto à série? Fácil de descobrir: o amor que uniu e separou Claire e Jamie. O amor que a fez atravessar dois séculos... mais de uma vez. O amor que os obrigou a sacrifícios dolorosos demais de recordar, que os fez desejar e aceitar a morte... se com isso pudessem salvar o outro. É um amor inexplicável, incondicional. Um amor que nada poderia matar. Eu mudo cada vez que leio a história deles. Cresço mais, me torno alguém melhor e com mais esperança. Os únicos personagens que já viveram coisas semelhantes ao que Claire e Jamie viveram e me tocaram tanto como eles foram aqueles construídos pela Florencia Bonelli. Nunca pensei que sentiria algo parecido com o que senti com Isaura e Roger, Micaela e Carlo, Rafaela e Artémio, Eliah e Mat... mas aí conheci Outlander... 

"Pensei rapidamente naquela lápide na Escócia, com seu nome gravado, e reconfortei-me com sua distância. Fosse quando fosse, nossa separação não aconteceria em breve. E mesmo quando e onde acontecesse - ainda deixaríamos Brianna."

- Quem nunca leu esta série realmente não faz ideia do que está perdendo. Existem livros que não fazem a menor diferença em nossa vida se não lemos. Livros que podemos passar pela vida sem conhecer. Mas existem outros... que não ler é como passar pela vida sem realmente viver. E não brinco quando digo isso. Existem histórias que necessitamos conhecer. Que nos transformam, que nos marcam profundamente. Carrego comigo cicatrizes de histórias que li. De histórias que se tornaram parte do que sou, que construíram a pessoa que sou hoje. Não me envergonho dessas marcas. As carrego com orgulho em meu coração. 

"- Então me beije, Claire - sussurrou ele. - E saiba que você significa mais para mim do que a própria vida e que não me arrependo de nada."

E assim termino o ano de 2017. :D Existe maneira melhor?! Faltando poucas horas para o final de um ano que foi difícil, desafiador e ao mesmo tempo maravilhoso em seus devidos momentos (risos), eu escolhi como último post do ano a resenha de O Resgate no Mar. Minha família me disse que sou louca, que necessito de tratamento, mas não me importei e larguei tudo que precisava fazer para sentar na frente do computador e falar do meu casal querido. E, como o Jamie não se arrepende de nada, eu também não me arrependo. :)

Adeus 2017!!!! Feliz Ano Novo, queridos!
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