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14 de dezembro de 2022

Lírios de Sangue - Carmem O.




Literatura Brasileira
Editora: Novo Século
Edição de: 2016
Páginas: 144

Sinopse: Até onde vai sua dor? Sua percepção da realidade? Seu lirismo?
Despretensiosamente, Lírios de sangue é o relato simples e talvez poético daqueles que estão no momento mais crítico de suas vidas: o confronto com a doença, com as fraquezas do corpo, com nossa mente desnuda de defesas. Nossa fragilidade exposta, escancarada. 

São relatos de quem vive diariamente essa condição humana. 

Há uma entrega, uam aceitação dos dois lados. O paciente e o médico. Aprendizado mútuo de ambos. No final, cúmplices, querem o mesmo objetivo: VIVER. 

E cada um, inevitavelmente, levará um pouco do outro por onde for. 





Um dia, hace años, eu contei aqui como um determinado livro me "atraiu", me "escolheu" num momento da vida em que tanto necessivava das palavras que transbordavam de suas páginas. 

Tardes de Maio é o nome dele.... Do livro que falava de dor, perdas, recomeços... Da poesia que está em tudo, até na morte. Da passagem, do adeus, mas também da vida. Naquele momento, minha Luana ainda estava viva. Não havia doença. Não havia desespero. Não sentia o gosto amargo do imenso pânico de perdê-la. Nem as facadas do luto. 

Agora... Aconteceu de novo. A Carmem O. passou novamente por minha vida, com seus textos tão impactantes. Lírios de sangue... Faz sentido, né? Que às vésperas do mês de dezembro, às vésperas do primeiro ano de morte da minha princesa, este livro tenha esbarrado em mim. Não foi coincidência. Foi o destino falando. Outra vez. 

"Há analgésico para essa dor
Há paz para o seu conflito
Pena que você sorri tão pouco"

Era noite de 29 de novembro de 2022... Só Aquele que me roubou minha pequena sabe como eu estava me sentindo, atormentada pelo fato que o mês de dezembro estava chegando... As lembranças não paravam de me golpear com força, com crueldade. Imagens que só quem já presenciou a morte de uma pessoa ou animalzinho querido consegue entender... Eu estava desnorteada. Estava no ônibus, voltando do trabalho e sentindo que não conseguiria sequer chegar em casa antes de desabar em prantos. 

Foi quando desci do ônibus e em vez de pegar o próximo na rodoviária, caminhei para o shopping... querendo apenas andar e andar. Parei numa feira de livros localizada no térreo. E meus olhos imediatamente foram atraídos pela cor vermelha. Ele estava ali, me esperando: Lírios de sangue

"A vida sempre será um sopro
Um sopro difícil de entender."

Lembro que peguei o livro e o apertei contra o peito antes de ir até o caixa para pagar. Sentia uma necessidade urgente de abri-lo e iniciar a leitura. De encontrar nele o conforto que eu estava buscando. Queria ser confortada, sentir-me "abraçada" pelas palavras... sentir que alguém compreendia o que eu estava sentindo. O vazio. O medo. A dor...

Concluí a leitura em 30.11.22. Acho que chorei com quase todas as crônicas e poesias presentes no livro. Me emocionei demais com as diversas histórias de pessoas lutando pela vida ou simplesmente entendendo que o momento chegara, que era hora de partir... Nossa! Este livro me "quebrou" em pedacinhos, mas também me fez um bem tão grande que eu não saberia como expressar em palavras. 

"Teve que se fechar em si mesma por puro mecanismo de defesa. E assim construiu seu Muro de Berlim, de onde via, espectadora, sua guerra fria entre a vida e a morte."

Como eu disse ao fazer a resenha de Tardes de Maio em setembro de 2019: A autora desta coletânea de crônicas e poemas é uma cardiologista que trabalha com pacientes críticos, alguém que já esteve em contato muitas vezes com a dor e a morte. Através de sua própria experiência de vida e relembrando pacientes que teve a oportunidade de conhecer, nos traz esses textos tão simples, mas tão profundos ao mesmo tempo. Muitas das crônicas tratam de pacientes, de momentos vividos no hospital, vidas que se foram, outras que possivelmente se recuperaram... Cada texto tem algo que nos cativa, que nos provoca uma confusão de emoções. Você não sabe sequer explicar o que sente... é algo que toma conta do seu coração e te faz pensar e pensar em muitas coisas.

O que eu disse naquela época se aplica tambem ao livro Lírios de sangue, pois são crônicas e poemas baseados na experiência da autora como médica que lida diariamente com pacientes em estado grave, e tem a oportunidade de testemunhar diversas histórias, e de aprender muito com aqueles que estão quase de partida. 

"Saudades. Tenho de tudo. Do que foi, do que poderia ter sido e do que ainda será. Tenho saudades hoje dos que vejo todos os dias e daqueles que nunca mais verei."

Não sei dizer qual crônica me emocionou mais... Eram tantas realidades diferentes. Dores dos que vão, dos que ficam e precisam lidar com a saudade... Lutas diárias contra a depressão, contra o lúpus, contra o diabetes, o câncer... Perdas e vitórias. Sorrisos e lágrimas. Eu chorava até mesmo quando a autora terminava uma crônica com um "final feliz", quando determinado paciente conseguia sobreviver. Me dava uma emoção tão grande, pois era uma segunda chance. Era precioso saber que alguém tinha recebido uma segunda chance. 

Carmem O. tem o dom de nos tocar profundamente com suas palavras, de nos golpear com realidades duras e terríveis, ao mesmo tempo em que nos faz valorizar o sol, a chuva, o vento que bagunça nossos cabelos. Valorizar o fato de respirarmos. De ainda estarmos aqui, por mais difícil que seja a vida. 

Nunca vai ser fácil viver. Sempre existirão perdas. É inevitável. Mas o sol sempre nascerá depois da tempestade, não é verdade? Ainda que demore um pouco. Ele vai nascer. Belo, iluminando nossos dias cinzentos. 

"Viver é flertar constantemente com nossa fragilidade
Escancarada em nossa cara, luminosa, como um letreiro de motel. 
Não somos especiais. 
Super-heróis de ninguém
Carne
Ossos 
Dor.
Aproveite. 
Amanhã
Pode não chegar."

Ler este livro quando eu estava cheia de dor foi um presente da Vida, do Destino e, quem sabe, de Deus, por mais que meu relacionamento com Ele não esteja muito bom. Sei que este livro não surgiu em meu caminho à toa. Eu precisava dele. Precisava do seu conforto.

Escolhi o dia de hoje, 14 de dezembro, para publicar esta resenha. O motivo vocês podem imaginar: hoje completa um ano que minha princesa se foi. Que partiu deste mundo e me deixou sozinha. 

Sabe no que quero acreditar hoje? Que ela me vê do Céu. E que está feliz. Que não há nenhuma dor. Que ela brinca e pula com outros gatinhos enquanto Jesus olha sorrindo. Que ela dorme do lado dEle, como sempre dormiu do meu lado na cama. 

Há quem não entenda este amor todo que sinto pela minha princesa. "Era só uma gata, um animal, não era gente." Já ouvi muito isso. E eu não sinto raiva de ninguém que não compreende o que sinto. Não preciso que entendam. Não escolhi amar minha pequena filha. Ela me escolheu e preencheu minha vida com tanto amor, que seria impossível não amá-la com todas as minhas forças. Sempre irei amá-la. Sempre sentirei sua falta. Mas quero estar bem. Porque eu prometi, um ano atrás, enquanto ela partia, que ficaria bem. Que seria feliz para que ela pudesse estar em paz. E que um dia estaríamos juntas de novo. Sei que estaremos. Um dia, quando minha hora também chegar, eu irei para junto dela. E nunca mais haverá uma separação. Nunca mais haverá dor. 

Um ano sem você, minha filha... Apenas sem sua presença física. Porque dentro de mim você sempre estará viva. Nunca esquecerei os lindos momentos que vivemos juntas. Você sempre será o meu anjo. Te amo. Para sempre. 



20 de janeiro de 2020

Mensagem - Fernando Pessoa

Literatura Portuguesa
Editora: Novo Século
Edição de: 2018
Páginas: 79

4ª leitura de 2020

Sinopse: Obra repleta de símbolos enigmáticos, Mensagem é um mergulho no passado de Portugal por meio de alusões míticas que compõem o período de glória marítimo e o de declínio que a nação transpirava na época em que o livro foi escrito. Em tom muitas vezes apoteótico, Fernando Pessoa busca um sentido que explique a ascensão e a decadência de sua terra natal. 
Mensagem é o único livro do poeta editado em vida, e nos põe em contato com poemas sublimes em sua forma e conteúdo. Nele vemos, sobretudo, emergir a importância da memória do mito e da memória coletiva. 





Eu ouvi falar deste autor praticamente a minha vida toda, mas nunca antes tive a oportunidade de conhecer suas obras. Somente no final de 2018 ao receber um cartão presente de uma amiga é que resolvi aproveitá-lo para adquirir o box com três livros do autor, pois morria de vontade de ler, sobretudo, o Livro do Desassossego

Mensagem, publicado originalmente em 1934, é um dos livros que fazem parte do box e por ser o mais curto decidi começar por ele.rs O que não foi necessariamente uma boa ideia

"Os Deuses vendem quando dão.
Compra-se a glória com desgraça.
Ai dos felizes, porque são 
Só o que passa!"

Dividida em três partes (Brasão, Mar português, O encoberto) esta é uma coletânea de poemas com um forte nacionalismo, que relembra antigas glórias portuguesas e lamenta a sua decadência. E é aí que surge o problema: para compreender todos o simbolismo presente na obra e as menções a antigos reis e heróis nacionais é preciso possuir certo conhecimento da História de Portugal, buscar lá na memória coisas que talvez tenha aprendido na escola, sendo que da maioria delas é possível que, na realidade, nunca sequer tenha ouvido falar. 

"Volve a nós teu rosto sério,
Princesa do Santo Graal, 
Humano ventre do Império, 
Madrinha de Portugal!"

Foram poucos os nomes mencionados nos poemas dos quais eu consegui lembrar de ter aprendido algo muitos anos atrás, nas aulas de história. A maioria dos nomes nada significou para mim, por não saber nada sobre eles, mas é perceptível que para o autor significavam muito. 

Apesar de sentir falta de saber mais da história de Portugal para entender melhor o livro, isso não me impediu de ser impactada por alguns versos, além de o ar saudoso do autor ao relembrar o período dos descobrimentos, ter me levado de volta à sala de aula, quando eu ficava sentada escrevendo o que o professor ditava, com uma grande vontade de aprender. Faz tanto tempo que não sou aquela criança tão inocente, que passava a maior parte do tempo estudando, imaginando e sonhando, que a nostalgia dos poemas do autor realmente me deixaram nostálgica também.

" 'Screvo meu livro à beira-mágoa. 
Meu coração não tem que ter. 
Tenho meus olhos quentes de água. 
Só tu, Senhor, me dás viver."

Esta é uma coletânea de poemas bem curtinha, nesta edição possui apenas 79 páginas, e dá para ler em mais ou menos uma hora, até menos, e seria uma leitura bem fácil se não fosse todo o simbolismo e história do país que exigem de nós leitores uma pesquisa mais profunda para entender de verdade cada um dos poemas. 

Como um todo, foi uma leitura válida e apreciei a escrita do autor, tão cheia de sentimentos e amor por seu país. Apreciei como uma porta de entrada para as tantas obras dele. O próximo livro que lerei do autor, sem dúvidas, será o Livro do desassossego, para assim mergulhar um pouco mais nas profundezas dessa alma artística. 

"Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem, 
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro. 
Ó Portugal, hoje és nevoeiro..."


-> DLL 20: Um livro de poesia

3 de dezembro de 2019

O Processo - Franz Kafka

Literatura Alemã*
Título Original: The trial
Tradutor: Caio Pereira
Editora: Novo Século
Edição de: 2017
Páginas: 272

*O romance é de língua alemã, mas Franz Kafka nasceu em Praga, pertencente ao Império Austro-Húngaro na época (atual República Tcheca). 
Sinopse: Romance dos mais importantes do século XX, O processo narra a história de Josef K., funcionário exemplar de um banco importante que, ao acordar na manhã de seu trigésimo aniversário, descobre-se réu de um processo sem saber os motivos que levaram a tal situação. Ao tentar desvendar as causas de ser processado por um crime não especificado, K. luta por seus direitos ao longo da narrativa, recorrendo a diversas pessoas no intuito de desvendar não apenas sua situação, mas também a causa de o processarem. Com um final inesperado, a obra nos leva a refletir sobre um poder judiciário que se mostra falho e vulnerável. Sem dúvida, um romance sobre a angústia e a frustração do ser humano em uma sociedade opressora e limitada pela burocracia.




Eu cheguei a um ponto em que acreditava, de verdade, que nunca terminaria de ler este livro. 

Iniciei a leitura em 20/08, na ingenuidade de que leria o livro em uma semana.kkkkkk... Mas logo nas primeiras páginas, com a loucura evidente que permeava cada cena, acabei cedendo ao desespero e passando longos períodos sem sequer tocar no livro. Eu o evitava o máximo que conseguia. 

Quem acompanha o blog sabe que Franz Kafka definitivamente não é um dos meus autores preferidos. Eu tenho sérios problemas com a escrita dele, não tanto pelo absurdismo presente em suas obras (afinal de contas eu li O Estrangeiro, de Albert Camus, e gostei), mas pela construção de personagens, pela narrativa que não me atrai, pelos caminhos que ele percorre no desenvolvimento de suas histórias. Dele, eu já li A Metamorfose (duas vezes), Carta ao Pai, O Artista da Fome e agora O Processo. E posso dizer, com certeza, que não chegará o dia em que amarei este escritor, embora reconheça sua importância mundial, sendo suas obras estudadas em tantos países e influenciado diversos escritores pelo mundo afora.

2 de setembro de 2019

Tardes de Maio - Carmen O.

Literatura Brasileira
Editora: Novo Século
Edição de: 2017
Páginas: 240
Selo: Talentos da Literatura Brasileira

Sinopse: Tardes de Maio é um livro que conta de maneira suave, seja "cronificando" ou poetizando, a vida/morte das pessoas nos seus momentos mais caros. O que poderia ser mais significativo do que os instantes finais daqueles que amamos? Como você se imaginaria vivenciando um processo de entrega e desprendimento da vida? O que mudaria para você? Sua vida faria mais sentido? São essas questões que nos permeiam e nunca temos tempo (ou temos medo) para refletir. A vida nos é dada para momentos de pura beleza e significado. A morte, também. Carmen O. nos apresenta uma miscelânea de crônicas e poemas de uma forma leve e solta. Palavras jogadas ao vento para que cheguem ao coração de cada um que estiver disposto a sentir.



Já experimentou ler um livro simplesmente por ler? Não porque é do seu gênero ou autor preferido. Não porque foi publicado por aquela editora que ama. Ou porque foi fortemente recomendado por um amigo ou alguém com gostos literários parecidos. Não porque todo mundo estava lendo e falando do livro. Mas sim ler simplesmente por ler. Uma história da qual nunca ouviu falar. Recomendada por ninguém. De um autor que você nunca leu. Apenas deixar o livro te escolher. Foi o que eu fiz. 

Tardes de Maio me escolheu numa feira de livros. Existiam vários livros conhecidos, histórias que já me foram indicadas, que eram famosas e tudo o mais. Porém, naquele dia em particular, meu estado emocional pedia por algo diferente. Não queria livro famoso. Não queria história que estivesse na minha lista de desejados. Eu queria apenas deixar que algum livro "falasse comigo". Foi quando a capa dele chamou a minha atenção. Não sabia quem era Carmen O. e ninguém nunca tinha me recomendado o livro. Ele estava embalado, então, não tinha como folheá-lo, mas li a sinopse e foi o suficiente para confirmar as minhas suspeitas de que Tardes de Maio estava me chamando, querendo que o trouxesse para casa, que lhe desse uma chance. Eu não podia decepcioná-lo. Afinal de contas, não é todo dia que um livro escolhe você.rs 

8 de abril de 2018

O Despertar do Lírio - Babi A. Sette

(Editora: Novo Século
Edição de: 2016)

Série Flores da Temporada - Livro 2


Lilian Radcliffe é uma jovem viúva e está feliz com sua vida isenta de emoções. Culpa do luto que não larga? Lilian jurou fidelidade ao marido no leito de morte.

Paralelamente, conhecemos Simon Thorn, homem frio e libertino, dono do maior antro de jogos de Londres. Ele está a um passo de realizar seu plano de vingança contra o culpado pela fama de assassino que recebera anos atrás. O problema é que o canalha está morto, e ele terá de usar a sua viúva recatada a fim de atingir seus objetivos.

De um lado, ela precisa manter sua honra intacta; de outro, ele quer seduzi-la e desmoralizá-la. No entanto, Lilian nunca se sentiu tão vulnerável e atraída por um homem. E Simon, por sua vez, demonstra sentimentos que nunca imaginara sentir por uma mulher. A vingança e a honra se abalam quando nasce entre ambos uma paixão incontrolável. Mas, para ficarem juntos, terão de enfrentar segredos e mágoas profundas, um castelo trancado há seis anos, palco de uma morte misteriosa e, sobretudo, encarar os fantasmas do passado que assombram suas consciências. 



Palavras de uma leitora...



"[...] ele tinha algo de sombrio. 
Podia até não ser o barão assassino como era conhecido, mas Lilian soube que deveria se manter afastada dele ou correria riscos que ela não queria nem mesmo listar."

Eu não deveria estar aqui. Era para estar dormindo, tenho que acordar cedo. Mas sinto que não seria certo estar em qualquer outra parte. Não quando estou tão conectada à história, quando tudo em mim é emoção. 

Ainda estou chorando. Claro que ninguém deveria confiar em minhas lágrimas para dizer se um livro é bom ou ruim. Sou chorona desde que me entendo por gente. Choro se o céu está azul e se estiver cinza choro ainda mais.kkkkk Mas se sinto tudo intensamente minhas emoções ficam ainda mais loucas quando se trata de livros. Eu odeio com força, mas quando amo... é de verdade. Com todo o coração. 

"[...] sentia algo ainda maior, uma necessidade louca de protegê-la, de tirá-la dos olhos de todos, de levá-la embora junto a si, carregá-la nos braços, sumir."

Vocês sabem o ódio violento que A Promessa da Rosa provocou em mim. Que não perdoei o Arthur, que quis esfolá-lo em praça pública e matá-lo com minhas próprias mãos. E que ele afetou minhas leituras subsequentes. Quando pensava no livro dele meu sangue fervia e sentia que poderia fazer o livro em pedaços, que seria apenas uma questão de tempo até ter um ataque e estraçalhá-lo.  

Quando o mês de abril começou e eu tive que cumprir a meta de ler O Despertar do Lírio, continuação da série Flores da Temporada, que contaria a história da Lilian, irmã da protagonista de A Promessa da Rosa, eu levantei todas as minhas defesas contra o livro. Iniciei a leitura cheia de reservas, repulsa, ódio puro mesmo. E quando, logo no prólogo, a autora veio com uma cena em que o Arthur aparecia quase tive um troço. 

Simplesmente não era para ter acontecido. Com tudo contra esta história, com todo o ódio que eu estava disposta a sentir por ela, depois do inferno em que a autora me fez mergulhar com o primeiro livro, não era para eu ter amado a história de amor entre a Lilian e o Simon. Não era. Mas aconteceu. Estou rendida. Totalmente entregue a tanto amor. Mas como não amá-los? Como não ser arrebatada por protagonistas tão apaixonantes e capazes de tudo pelo amor que sentem um pelo outro? Pessoas que lutaram contra todos, até contra si mesmos, para serem felizes. Para se permitirem uma segunda chance. 

"Lilian deixou a peça mais importante nas mãos de Simon; ela deixou com ele não o orgulho ou a honra que acreditava antes ser o que tinha de mais vital. Lilian deixou com ele o seu coração."

- Não quero que esta resenha fique longa demais. Quero que a leiam até o fim. Que sintam pelo menos um pouquinho do que encontrarão nesta linda história de amor e superação, de perdão e recomeço. Não farei um resumo da história. Deixo que a sinopse se encarregue disso. 

A vida pode te derrubar. Seus golpes geralmente são fortes. Se ela quer que você caia então vai bater com  força. E se certificar de que permaneça no chão

- Quando conheci o Simon no primeiro livro eu gostei dele. Foram breves as suas aparições e não me prepararam para o choque que levei quando finalmente o revi em seu próprio livro. Me perguntei quem diabos era aquela pessoa. E fiquei furiosa. Muito. Aquele homem cínico, libertino, que participava de "momentos" tão degradantes não era o personagem que eu tinha conhecido. E sua sede de vingança contra uma mulher que nada lhe fez, a vontade que ele tinha de arruiná-la publicamente, de destroçar tudo aquilo que era importante para ela me incomodou. Só que prossegui com a leitura e quando cheguei na página 34 finalmente percebi: era uma releitura. A autora, por algum motivo que ainda não entendo (mas fico feliz por ela ter sido tão ousada.kkkkkk), se desafiou a escrever uma espécie de releitura de um dos maiores e mais sórdidos clássicos mundiais: As Relações Perigosas, de Choderlos de Laclos. Não reconhecem? Pensem então numa minissérie da Globo, exibida dois anos atrás, intitulada Ligações Perigosas. Recordaram? Pois bem... 

Quando notei as semelhanças e a existência dos personagens principais de um dos meus clássicos preferidos pensei com ironia: "Pago para ver. Vou pagar para ver a autora transformar uma história originalmente trágica e sombria num romance apaixonante." Eu não estava confiante, confesso. Ainda sentia raiva da autora (por mais irracional que seja) por conta da sacanagem do primeiro livro, por ela ter feito com que me envolvesse por uma história em que o protagonista masculino era um verme da pior espécie. Estava determinada a soltar os cachorros sobre O Despertar do Lírio. Gritar todo o meu ódio aos quatro ventos e fazer uma resenha BEM negativa, revoltada inclusive por ela pegar meu clássico e estragá-lo. Mas a autora me fez pagar a língua.kkkkkkk... Ela não só transformou o livro num romance arrebatador como conseguiu fazer uma leitora que a odiava passar a amá-la.kkkkk... Oh, mundo louco!

"- Perdoe-me, Lilian - ele disse com a voz rouca.
- Pelo quê?
- Apenas me perdoe."

Quando se aproximou da Lilian, o Simon realmente tinha a intenção de se vingar. Foram anos nutrindo um ódio pelo homem que destruiu sua vida, que o fez ser acusado por todos de um crime que não cometeu. Homem esse que agora estava morto e não podia mais responder por seus atos. A única forma de sentir-se pelo menos um pouco vingado era utilizando a viúva do desgraçado, a mulher recatada, pudica e intocável, que toda a sociedade admirava e respeitava. Poderia ser injusto, mas isso já não lhe importava mais. Se tinham tirado todos os seus sonhos, destruído de uma só vez tudo em que ele acreditava por que não poderia fazer o mesmo? Não sentiria remorsos. Era incapaz de sentimentos. Há anos deixara de ter um coração. 

Pelo menos, era nisso que ele acreditava, claro.rsrs Mas logo que o Simon conhece a Lilian pessoalmente algo dentro dele responde. E não estou falando apenas de desejo. Ele se sentiu atraído por ela, apesar da nossa mocinha se esconder sob camadas e camadas de uma roupa ridícula e que a cobria por inteiro. Seus olhos, a maneira sincera como ela sorria, a forma como ruborizava facilmente e a verdade que transparecia de suas palavras o envolveu. Lilian era um alento num mundo de falsidades. Tudo nela era autêntico. Fazia com que ele sentisse coisas que não imaginava mais desejar, que não queria. Enquanto a sociedade o desprezava abertamente, jogando o passado em sua cara, Lilian acreditava nele, enxergava uma humanidade que ninguém mais via. Para todos ele era o barão assassino. Para Lilian... era um ser humano ferido, alguém que ela estava disposta a curar. 

"- Eu a amo, vai ficar tudo bem. Eu a amo, meu amor, vai ficar tudo bem, tudo bem - ele repetia como uma oração.
Nem se deu conta do que declarava em voz alta, para si mesmo, para todos os deuses se eles assim desejassem ouvir."

Quanto mais profundamente conhecia o Simon maior era o meu medo. Sentia pavor de a autora estragá-lo, de transformá-lo em alguém que eu não suportaria. Não queria odiá-lo. Não poderia. Mas... todo o meu pânico foi em vão. O Simon jamais seria capaz de ferir a Lilian, nunca faria à ela o grande mal que o Arthur fez à Kathe. Ele era um homem de verdade. E nem o mundo cruel no qual se afundou após a morte da primeira esposa e a acusação implacável da sociedade foi capaz de apagar a sua essência. Com ele a Lilian sempre se sentiria amada, protegida, desejada... ele seria seu lar. 

Ele a fez conhecer a si mesma, não ter medo de mostrar-se sem reservas, de ser tudo o que poderia ser. Não a julgava por suas vontades, por seus medos, pela vida que teve antes ou desejava ter. Com ele... poderia ser ela mesma. Podia ser mulher. Quando eles se amavam, quando se tocavam de várias maneiras diferentes e em qualquer parte, eu sorria encantada! Eram lindas! As cenas de amor dos dois eram perfeitas! Intensas, explícitas, mas que não nos faziam duvidar nem por um instante de que realmente existia amor ali. Que faziam amor. Ele a amava e adorava com seu corpo. Recebia o que ela entregava com toda sua alma e dava o que possuía. Em cada beijo uma confissão, em cada carícia uma parte de um coração ferido que ela estava curando. 

"- Não, Lilian, se você morresse, me levaria junto. - Ele semicerrou os olhos tentando esconder a emoção. - Meu coração está ligado ao seu, entende?"

Não existem palavras que possam transmitir um por cento sequer de tudo o que vivemos ao lados dos personagens, de tudo o que eles passam e a maneira como encontram um no outro o que tanto esperavam sem saber. Ambos tinham sido machucados pela vida, pelas pessoas que amaram, por um mundo de aparências e hipocrisias. Eles nem sabiam que ainda acreditavam no amor, que ainda desejavam ser queridos por alguém, sentir-se amados. Mas quando percebem... tudo deixa de existir. O passado fica como deveria estar: enterrado. A vingança, o ódio, a vontade de machucar como tinha sido machucado... tudo morre. O Simon... Deus! Não tenho como falar tudo o que ele faz! Poucos mocinhos são assim. Tão loucamente apaixonados... capazes de entregar tudo pela mulher amada. E ele tinha sido tão destroçado... Tudo o que fizeram com ele... Nossa! Eu não poderia culpá-lo se ele não acreditasse em mais nada. Ele tinha todos os motivos do mundo para nunca mais permitir que o amor o deixasse vulnerável. Mas quando se apaixona por ela... Ele se entrega por inteiro. De uma forma que nos rouba o fôlego. Eu morria cada vez que ele olhava para ela, todas as vezes em que a defendia com unhas e dentes, sempre que a amava com tanta paixão e ternura. Cada momento era único. Inesquecível. 

"- É aqui a minha casa - ele sussurrou enquanto a amava. - Eu a amo."

Ambos crescem muito ao longo do livro. A construção dos personagens foi de um cuidado enorme. A autora se dedicou a fazer uma história coerente, para que realmente acreditássemos em tudo o que acontecia entre o casal, para que o amor deles nos tocasse. No início, eu não dava nada pela Lilian. Era uma personagem apagada, que parecia se contentar com uma vida vazia. E a autora nos dá essa imagem da personagem para depois ir nos revelando mais e fazê-la se revelar diante dos nossos olhos. A Lilian muda demais. E não é de uma vez, não é forçado. Ela cresce com cada experiência, com o amor que o Simon lhe dava, com o choque recebido por algumas verdades que foi forçada a encarar... Fiquei muito surpresa. Foi delicioso acompanhar o processo de amadurecimento dela, vê-la desabrochar, mostrar todo o potencial que manteve oculto do mundo. Ela se torna uma personagem incrível, daquelas que eu admiro. Se tem uma coisa que lamento é um dia tê-la julgado, visto apenas a aparência. E se não tivesse dado uma chance à história dela nunca descobriria a mocinha maravilhosa que ela era e o quanto a sua história me roubaria o fôlego, não conheceria o Simon... Não teria a chance de me apaixonar por um dos melhores mocinhos que existe. E já não sou capaz de imaginar um mundo em que não conheça este personagem. Ah, Simon! Como te amo! Como sofro por tudo o que você passou e me encho de felicidade por ter conseguido se reconstruir das cinzas. Se tem alguém que merecia ser feliz era você. Poucas mocinhas têm a chance de serem tão amadas como a Lilian será por você

"[...] eu vou amá-la, suave e devagar, com força e rápido, até você ter certeza e ficar gravado em sua pele que só estou em paz e feliz quando estou em casa."

Eu queria falar muito mais... Queria tanto!kkkkkk... Mas está na hora de encerrar a resenha, certo?rs
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