Mostrando postagens com marcador Editora Martin Claret. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Editora Martin Claret. Mostrar todas as postagens

23 de junho de 2020

Antologia Poética - Florbela Espanca

Literatura Portuguesa
Editora: Martin Claret
Edição de: 2015
Páginas: 298

32ª leitura de 2020 
(releitura)

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada.. a dolorida... (...)
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!...




Este é um livro que eu já tinha lido e relido algumas vezes. Tenho uma grande conexão com os poemas da Florbela, como não acontece quando leio nenhum outro poeta. Então, sempre que me sinto bem triste ou ansiosa tenho dois refúgios: o livro O Morro dos Ventos Uivantes (meu preferido da vida!), da autora Emily Brontë e os poemas da Flor.

Foi o que aconteceu em abril deste ano. Com essa pandemia provocando tantas tragédias e mexendo profundamente com nossas vidas e emoções, eu precisei mais do que nunca recorrer aos escritos da Florbela, aos seus versos tão tocantes, seus sonetos que me arrebatam. Precisei tocar, abraçar o livro, ler cada soneto em voz alta, na tentativa de calar o mundo por uns momentos. De esquecer a realidade.

Em abril eu li até a metade e depois fui lendo um poema vez ou outra, sempre quando me sentia "sufocada", angustiada. Mas agora em junho eu peguei o livro novamente e o li por inteiro. Porque se em abril estava desesperada, agora em junho, quando o Brasil ultrapassou mais de um milhão de pessoas infectadas pelo coronavírus e mais de 50 mil mortes, "desespero" seria um eufemismo. Estou para além disso... me sinto destroçada. Nem sei expressar o que sinto. Lamento muito por cada vida perdida, cada família que está atravessando esse luto tão insuportável. Só posso pedir que Deus conforte cada coração. E que tenha misericórdia de todos nós.

Me refugiar nos poemas da Flor era uma das melhores coisas que poderia fazer para não afundar numa crise de ansiedade. Vocês sabem que já falei desta minha querida poetisa aqui no blog outras vezes. Falei especificamente sobre ela no post Minha poetisa querida: Florbela Espanca, falei do soneto A Um Livro e ainda fiz resenha sobre um de seus livros, o meu preferido Livro de Mágoas. Mas esta é a primeira vez que falarei da Antologia Poética completa, que reúne seis livros da autora.

A Antologia Poética é o trabalho mais caprichado que já vi uma editora fazer dos livros da minha poetisa amada. Publicada pela editora Martin Claret, ela é em capa dura, com detalhes delicados, com uma página em azul abrindo cada um dos livros presentes na antologia. Reúne todos os livros de poemas publicados pela Flor em vida, bem como aqueles que só se tornaram de conhecimento dos leitores após sua morte.

Como abertura do livro, temos as duas únicas coletâneas de poemas publicadas enquanto a autora era viva: Livro de Mágoas, que eu considero o mais profundo, aquele que me toca como nenhum outro; e Livro de Sóror Saudade, que também traz sonetos que falam com a gente, como se a autora dissesse que sentia exatamente o que sentimos, que compreende nosso coração. Sim, quando falo de poesia eu sou assim sentimental mesmo! E com orgulho!rs

Dos 33 poemas presentes em Livro de Mágoas, dezessete são meus preferidos. Entre eles:

"Este livro é de mágoas. Desgraçados
Que no mundo passais, chorai ao lê-lo!
Somente a vossa dor de Torturados
Pode, talvez, senti-lo... e compreendê-lo."

[Trecho do soneto Este Livro...; página 17]


Já o Livro de Sóror Saudade possui 37 poemas e entre eles tenho como um dos mais queridos:

"A luz desmaia num fulgor d' aurora, 
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outrora...

[Trecho do soneto Anoitecer; página 69]


Os quatro outros livros que fazem parte da antologia só vieram a ser publicados postumamente. Muitos dos poemas que fazem parte deles foram escritos pela autora vários anos antes de ela falecer, mas que por um motivo ou outro acabaram não sendo lançados. Charneca em Flor, por exemplo, ela estava tentando publicar quando sua vida chegou ao fim. Ela morreu aos 36 anos, exatamente no dia do seu aniversário. Charneca em Flor foi publicado meses depois. Ele possui 47 poemas, entre eles tenho como um dos meus favoritos:

"Quem me dirá se, lá no alto, o céu
Também é para o mau, para o perjúrio?
Para onde vai a alma, que morreu?
Queria encontrar Deus! Tanto o procuro!"

[Trecho do soneto Quem Sabe?; página 131]


Os outros livros de poemas da autora, presentes nesta antologia da Martin Claret são: Reliquiae (com 34 poemas); Trocando Olhares que possui 53 poemas e a curiosidade é que muitos deles não são sonetos (regra geral, a autora seguia a estrutura dos sonetos); e O Livro D'Ele, com 31 poemas. De todos os seis, o único que posso dizer que não gosto tanto assim é justamente este último. Do Livro D'Ele eu só tenho um poema que amei, mas ironicamente é um dos meus preferidos de toda a obra poética da autora:

"Versos! Versos! Sei lá o que são versos...
Pedaços de sorriso, branca espuma, 
Gargalhadas de luz, cantos dispersos.
Ou pétalas que caem uma a uma..."

[Trecho do soneto Versos; página 298]


Eu recomendo muito, muito, muito esta antologia! Porém, os poemas da Flor são quase sempre melancólicos, carregados de sentimentos intensos, de dor, de angústia... são como montanha-russa, ora você encontra versos cheios de alegria, ora cheios de lágrimas (na maior parte das vezes falam de sofrimento ou saudade). Como sinto uma forte conexão com a escrita da autora, com a maioria dos seus versos, eles acabam provocando sentimentos positivos em mim, me consolam, me acalmam... Mas não posso afirmar que você sentirá o mesmo ao lê-los, claro.

O que quero muito é conhecer os contos da autora. Sim! Ela não escreveu apenas poesia. Ficou mais conhecida por conta delas, mas também é autora de contos. E ainda não li nenhum. Preciso corrigir isso logo! :D



-> DLL 20: Um livro de autor português



14 de junho de 2020

Crime e Castigo - Fiódor Dostoiévski

Literatura Russa
Título Original: Prestuplênie i nakazánie
Tradutor: Oleg Almeida
Editora: Martin Claret
Edição de: 2016
Páginas: 681

30ª leitura de 2020

Sinopse: Crime e castigo é um daqueles romances universais que, concebidos no decorrer do romântico século XIX, abriram caminhos ao trágico realismo literário dos tempos modernos. Contando nele a soturna história de um assassino em busca de redenção e ressurreição espiritual, Dostoiévski chegou a explorar, como nenhum outro escritor de sua época, as mais diversas facetas da psicologia humana sujeita a abalos e distorções e, desse modo, criou uma obra de imenso valor artístico, merecidamente cultuada em todas as partes do mundo. O fascinante efeito que produz a leitura de Crime e castigo - angústia, revolta e compaixão renovadas a cada página com um desenlace aliviador - poderia ser comparado à catarse dos monumentais dramas gregos. 



É óbvio que esta resenha não será digna do livro. Será impossível transmitir um pouquinho que seja da riqueza desta história, que provoca tantas reflexões, que mexe com nossos sentimentos e envolve por inteiro. Faz alguns dias que terminei a leitura, mas não conseguia escrever sobre ela. O que se passou comigo ao ler Fahrenheit 451 também ocorreu com Crime e Castigo.

"Não refletia em nada, nem sequer conseguia refletir, mas de repente sentiu, com todo o seu ser, que não tinha mais liberdade espiritual nem força de vontade, e que tudo já estava decidido em definitivo."

O livro nos traz a história de Raskólnikov, um jovem muito pobre que sai de sua cidade e vai para São Petersburgo na tentativa de melhorar de vida, cursando Direito. Só que as coisas não são como ele imaginava. O dinheiro que sua mãe mandava, com tanto sacrifício, não era suficiente para ajudá-lo nem com o aluguel de um quartinho humilde, e mal tinha dinheiro para comer. Não demorou para ele ter que abandonar os estudos e os planos de vir a ter uma vida diferente, o que afetou de maneira drástica a sua mente que já era um tanto inquieta. Sabia que era inteligente, que tinha potencial para ser o que quisesse, mas a sua situação, sua falta de recursos era um obstáculo praticamente intransponível para a realização dos seus sonhos. O que era extremamente injusto.

Enquanto o desespero tomava cada vez mais posse de sua mente, a depressão o debilitava e não conseguia mais se relacionar de maneira saudável com ninguém, afastando-se até de quem queria ajudá-lo; uma idosa calculista enriquecia às custas das desgraças dos outros que precisavam empenhar tudo o que tinham para pagar um aluguel ou smplesmente para ter algum dinheiro para se alimentar e à sua família. Além disso, aquela mulher também escravizava a própria irmã, submetendo-a a diversos maus-tratos. Assim, com a mente já transtornada e tendo como incentivo um artigo que ele próprio escrevera algum tempo antes, Raskólnikov decide que a resposta para todos os seus problemas se encontrava no assassinato daquela mulher... Os fins justificam os meios... Certo?!

"A sensação de infinito asco, que começara a apertar e enfastiar o seu coração ainda quando ia visitar a velha, tornou-se agora tão grande e explícita que o moço não sabia mais onde se esconder da sua angústia."

Acontece que após cometer o crime, Raskólnikov não sente a paz, o alívio que esperava. Não fica tranquilo com sua decisão, com suas mãos sujas de sangue. A febre que o alucinava, a angústia que jamais o deixava... tudo se intensifica. Se vivia num inferno antes de se transformar num assassino, as coisas apenas pioram depois.

31 de dezembro de 2019

Cântico de Natal / Os Carrilhões - Charles Dickens

Literatura Inglesa
Título Original: A Christmas Carol / The Chimes
Tradutor: John Green
Edição de: 2004
Páginas: 183

Sinopse: Os historiadores de literatura consideram Charles Dickens uma figura proeminente no romance inglês do século XIX, chegando mesmo alguns a apontá-lo como o maior romancista que a Inglaterra já produziu. 
Sua obra, impregnada de mistério, é aparentada com o romance gótico e constitui um vasto painel melodramático da Londres industrial de 1830-1850. 
Entre romances e contos, Dickens escreveu várias obras-primas. Sua postura essencialmente sentimental expressou-se com muita nitidez em seus contos de Natal. Cântico de Natal (1843) é quase um conto de fadas; tornou-se parte integrante da mitologia natalina anglo-saxônica. Outro texto de Dickens sobre a mesma temática é Os Carrilhões (1845), incluído neste volume. 



"Sua maior felicidade era abrir caminho através das estradas atravancadas da vida, tendo sempre a distância toda e qualquer simpatia humana."

Em Cântico de Natal, Ebenezer Scrooge era um homem muitíssimo rico, que não tirava qualquer proveito do dinheiro, fosse para si mesmo ou para os outros. Gostava de saber que tinha dinheiro e o guardava como seu bem mais precioso, seu único amor. Maltratava seu empregado e lhe pagava o mínimo possível, mesmo sabendo que não era o suficiente para ele sustentar sua família. 

Não ajudava o próximo, não amava ninguém e recusava toda e qualquer tentativa de aproximação de seu sobrinho, que era sua única família. Era uma pessoa fria, até mesmo cruel, e desprezava com todas as suas forças o Natal. Não se permitia ser amado e estava muitíssimo satisfeito com sua existência solitária e vazia. Até que...

... seu antigo sócio, Jacob Marley, aparece em sua casa. Não seria nada surpreendente, exceto pelo fato de que Marley tinha morrido há alguns anos. Chocado por tão inesperada visita, ele recebe, de um profundamente triste ex-sócio, que vagava pelo mundo por conta de todos os seus inúmeros erros passados, a notícia de que será visitado por três espíritos, um após o outro. O Espírito dos Natais Passados, o Espírito dos Natais Presentes e o Espírito dos Natais Futuros. 

Embora Scrooge acredite que tudo não passou de um terrível pesadelo, não demora a perceber que aquela era a mais incrível realidade e que deveria considerar tais visitas como uma segunda chance. Uma oportunidade que se desperdiçada poderia condená-lo a um futuro que nem ele mesmo desejaria ao pior inimigo. 

"- A conduta de um homem pode fazer prever o seu fim - disse Scrooge -, mas se ele muda de vida, também o seu fim não será modificado?"

Eu já tinha ouvido falar muito desse conto, mas não sabia de fato do que se tratava. Acho que teve até uma adaptação dos filmes da Barbie (lembram dos filmes da Barbie que eram releituras de contos de fadas? Eu assistia sempre!), mas eu assisti muito tempo atrás e já não lembrava da história. 

Scrooge é aquele tipo de pessoa que precisa passar por um grande susto para aprender a dar valor à vida. Ele era amargo, frio, um homem que não se importava com absolutamente ninguém, que ficava feliz em fazer os outros sofrerem, principalmente seu funcionário, a quem tratava com toda ignorância. Então, quando recebe a visita dos espíritos, que o levam ao seu passado, a alguns momentos do presente e, por fim, ao futuro que poderia ter (e certamente teria), ele se vê diante de uma realidade que não queria encarar e o medo enorme de ter um fim como o que lhe é mostrado. 

É um conto que fala de compaixão, solidariedade, amor ao próximo. Que trata dos valores que realmente importam... que ensina a olhar para as outras pessoas, que passam por dificuldades piores que as nossas, e estender a mão, oferecer a ajuda que você puder dar. Às vezes até mesmo um sorriso pode tornar o dia de alguém melhor. E nem isso Scrooge fazia. Nem mesmo sorrir para outra pessoa ou dizer "Bom dia!". Ele estava condenando a própria alma com sua crueldade, com sua frieza. Felizmente, ele aprende a lição. 

"História mágica de uns sinos que anunciavam a saída de um ano velho e a entrada de um ano novo"

O trecho acima pode nos dar a ilusão de que em Os Carrilhões encontraremos um levíssimo conto sobre a virada de ano. Uma ilusão mesmo, pois de leve este conto não tem nada. Muito pelo contrário! É um conto que me fez chorar, me provocou uma enorme revolta e sensação de impotência.

Nele temos Toby Veck, um senhor de mais de sessenta anos de idade, que trabalhava como "moço de recados", único trabalho que encontrara e que o tornava dependente da boa vontade dos outros, que sempre lhe pagavam o que consideravam "suficiente" (e estava longe de sê-lo). Eram tempos muito difíceis para as pessoas pobres, que muitas vezes não tinham o que comer ou onde morar.

Toby tinha o hábito de conversar com os carrilhões, conjunto de sinos que ficavam no alto da Igreja, pois acreditava que, inexplicavelmente, eles eram capazes de consolá-lo, de dizer-lhe palavras de conforto. Naquela noite, com fome, mas sem esperanças de se alimentar, foi surpreendido por sua linda filha, uma jovem trabalhadora, que mesmo levando uma vida tão terrível era capaz dos mais belos sorrisos, de uma alegria contagiante. Ela levou o jantar do pai, dobradinhas, "um verdadeiro luxo", algo que ele não imaginava poder comer nem tão cedo, vez que era um alimento caro naquelas épocas. Meg usara todo o dinheiro que ganhara naquele dia (quando nem imaginava que fosse ser paga, pois os patrões pagavam quando queriam) para poder dar aquela alegria ao pai. Ele comeu com imenso prazer, fazendo todo o possível para fazer aquele jantar delicioso render e assim poder apreciá-lo devagar.

Ocorre que ele estava jantando em umas escadas que faziam parte de uma residência desconhecida. Logo descobriria que ali vivia um juiz, homem aparentemente afável, generoso, mas que não passava de um corrupto que sentia prazer em condenar aqueles que não podiam se defender, ou seja, os pobres.

"Não sei o que será de nós, os pobres. Meu Deus, faz com que caminhemos para algo melhor no Novo Ano que se aproxima!"

Através deste encontro extremamente desagradável com o juiz, Toby acaba sabendo das intenções dele e do chamado "Pai dos Pobres" de condenar à prisão um tal de Will Fern, homem que fora para Londres em busca de emprego, mas que foi encontrado à noite dormindo num alpendre com a sobrinha de nove anos, vez que não tinham onde dormir. Não tinham dinheiro para nada. Aquilo foi considerado uma grande "afronta" para o "justo" juiz, que decidiu fazer de Will um exemplo ao prendê-lo por ser "um vagabundo". E o digníssimo "Pai dos Pobres" concordava completamente com aquela "sentença".

Quis o destino que Toby, após saber de tão injusto castigo que estava reservado para aquele homem, esbarrasse num desconhecido, que caminhava tristemente com uma criança nos braços. Logo descobriu que se tratava do tal Will Fern e fez o que qualquer ser humano digno de ser chamado de ser humano faria: informou o que o juiz pretendia fazer com ele e, vendo que ele não tinha onde ficar, ofereceu sua humilde casa para abrigá-lo e protegê-lo dos olhos das autoridades.

Este conto mexeu demais comigo, me causou um grande impacto. Foram muitas as cenas que provocaram um nó na minha garganta, mas uma das que mais me emocionaram foi aquela na qual o Toby pegou todas as moedas que tinha para comprar um pouco de chá e toucinho para alimentar o Will e a pequena Lilian. Como a quantidade não era suficiente para alimentar os quatro, ele fingiu não gostar de chá nem de toucinho e sua filha Meg fez o mesmo. Assim, os dois ficaram vendo o Will e a pequena Lilian comerem e beberem e o que mais doeu em mim foi a imensa alegria que eles sentiram ao fazer aquilo por aqueles dois desconhecidos. Eles se sentiam muito bem em poder dar aquele pequeno alimento para o Will e a sobrinha, se sentiam em paz por terem feito aquilo, por eles terem se alimentado. Gente, o Toby não tinha nada! Nada, nada! Mas mesmo assim se privou de comer para alimentar outras pessoas que também não tinham o que comer. São os pobres ajudando os pobres, enquanto aqueles que têm condições financeiras de fazer algo ficam em suas bolhas, achando que os menos favorecidos estão nessas condições porque querem.

Há muito amor neste conto. Aquele amor que não espera nada em troca, que é humilde e puro. Lendo esta história você sente um imenso desprezo por aquelas autoridades imundas, aquela gente corrupta e odiosa, mas ao mesmo tempo sente imenso amor por Toby, Meg, Will e Lilian, além de outras pessoas humildes como eles, mas que tinham um coração maravilhoso e ajudavam uns aos outros.

Não vou dar spoiler dos acontecimentos mais importantes do conto. Só digo que Os Carrilhões é especial e deveria ser mais conhecido e amado que Cântico de Natal.

"E, assim, possa o Ano Novo ser um ano feliz para vós e para muitos outros cuja felicidade depende de vós! E, assim, que cada ano seja mais feliz que o anterior, e que os mais humildes dos nossos irmãos não sejam privados do legítimo quinhão de felicidade que Deus lhes destinou."

Feliz Ano Novo! 

4 de setembro de 2019

Contos Escolhidos - Machado de Assis

Literatura Brasileira
Editora: Martin Claret
Edição de: 2012
Páginas: 375

Sinopse: Machado de Assis é um dos mais renomados contistas da literatura brasileira. Transitando entre os diversos tipos de contos - do tradicional ao moderno -, seus textos são originais e complexos. São contos cheios de acontecimentos intensos - quase sempre envolvidos num clima de tensão -, repletos de personagens polêmicos e ambíguos e de jogos e armadilhas textuais que induzem à dúvida, relativizando a maior parte das ideias e levando o leitor a refletir sobre suas "certezas". Contos escolhidos é uma seleção baseada em antologias preparadas pelo próprio autor, com seus contos mais marcantes, quais sejam: Missa do galo, Conto de escola, Cantiga de esponsais, Teoria do medalhão, O espelho, A cartomante, A causa secreta, Mariana, O enfermeiro, Um cão de lata ao rabo, A chinela turca, Uns braços, Frei Simão, Aurora sem dia, O segredo do bonzo, Verba testamentária, Conto alexandrino, Noite de almirante, Ex cathedra, O caso da vara, Uma noite, Maria Cora, Um homem célebre, Miss Dollar, Marcha fúnebre, Pai contra mãe, Capítulo dos chapéus, Uma senhora, Dona Paula, A igreja do diabo. 



Olá, queridos!

Quem estiver acompanhando meus posts mensais sobre os contos que estou lendo desde o início do ano, vai perceber que esta resenha na verdade é apenas uma junção de todos os comentários que já fiz sobre cada conto presente na coletânea Contos Escolhidos, do Machado de Assis. Ao todo são 30 contos presentes neste livro. Dez deles eu li em 2017 e fiz resenhas individuais, portanto deixarei o link de cada uma delas neste post. Os outros vinte contos eu li agora em 2019 e reunirei aqui todos os comentários que fiz mensalmente. :)

Link das resenhas dos 10 primeiros contos, lidos em 2017:


Todos os meus comentários sobre os demais contos:

Em A Chinela Turca temos um jovem numa noite normal da vida de um moço abastado, cuja maior preocupação é encontrar sua amada num baile. Só que no momento em que ele estava se preparando para sair um amigo de seu pai o visitou, meio que o intimando a ler seu manuscrito, vez que o indivíduo resolvera se tornar escritor de drama. Claro que ele poderia ter dito não, que estava de saída, mas o outro com sua lábia o convenceu a se atrasar para o compromisso. Você pensa que nada de mais vai acontecer. Que é apenas um conto do cotidiano. Só que as coisas dão tal reviravolta que no final ficamos de queixo caído. Pelo menos, eu fiquei.kkkkkkk.. Simplesmente chocada e encantada pela forma como o autor desenvolveu o conto para segurar a surpresa que seria o final. Foi um dos melhores contos que já li do meu amado Machado. 

1 de janeiro de 2019

A Utopia - Thomas More

(Título Original: Utopia
Tradutora: Alda Porto
Editora: Martin Claret
Edição de: 2013)

Escrita no mesmo ano (1516) em que Maquiavel lançava seu fundamental O príncipe - A Utopia do inglês Thomas More descreve uma ilha imaginária permeada de justiça, liberdade e igualdade, opondo-se ao mundo em que o autor vivia: a Inglaterra dominada pelo rei Henrique VIII. 

Como em um jogo de espelhos, a ilha fictícia de Utopia é o oposto da Inglaterra do século XVI: dominada por conflitos entre a monarquia e a Igreja, por uma estrutura econômica que privilegiava algumas camadas da sociedade em detrimento de outras e pelo autoritarismo. 

A obra de More é um registro do universo humanista e se tornou modelo de todas as concepções posteriores do gênero. 



Palavras de uma leitora...


- Não. Eu não acordei num belo dia e pensei: por que não leio A Utopia? Não foi assim.kkkkkkk... Embora eu utilizasse esta palavra frequentemente (dizendo que isso ou aquilo é uma utopia/ilusão) e até soubesse que ela tinha sido inventada pelo Thomas More, nunca tive um real interesse em conhecer a obra. Era algo que fugia muito do tipo de leitura que costumo fazer. Ainda que esteja me habituando a ler cada vez mais clássicos, A Utopia ia um pouco além do que costumo ousar ler. A mesma coisa eu diria de O Príncipe, de Maquiavel, que está parado na minha estante, sem que eu tenha a coragem de ler.rs

Mas quem me conhece bem sabe que sou apaixonada por contos de fadas, especialmente o da Cinderela. :) E que minha adaptação preferida da vida é o filme Para Sempre Cinderela, brilhantemente protagonizado pela Drew Barrymore. Acredito até que meus motivos para amar tanto o conto é esta adaptação.rsrs Porque foi feita uma releitura maravilhosa da história, fazendo da nossa cinderela uma mocinha forte, determinada, que não se curva diante das situações e não espera que o príncipe encantado a salve. Muito pelo contrário! Danielle sempre salva a si mesma.rs Além disso é bastante instruída e seu livro preferido é... A Utopia.rs Agora já dá para entender por que decidi ler este livro!

Danielle, a cinderela neste filme, acredita na possibilidade de um mundo melhor, mais justo, em que as pessoas possam viver de maneira digna e não constantemente exploradas. Onde o pão não falte na mesa, onde o trabalho não seja insalubre e o salário seja suficiente para satisfazer as necessidades básicas e não seja quase todo consumido em impostos. Ela acredita em equidade. E isso porque uma vez, quando ainda era bem pequena, seu pai lhe trouxe de viagem um livro chamado A Utopia. Foi o último presente que recebeu do pai, pois pouco tempo depois ele morreu. Aquele livro se tornou seu bem mais precioso e um guia de vida. Ao tocar naquelas páginas sentia que o pai estava perto dela. 

- Há um trecho do filme em que Danielle está defendendo um criado que foi preso. Ela consegue juntar uma quantia para comprar a liberdade dele, mas não consegue. Então, diante do príncipe, defende sua causa: 

"Se o senhor submete seu povo a uma má educação e as maneiras são corrompidas na infância, e ainda por cima os castiga por aqueles crimes onde a educação os confinou... o que mais podemos concluir, Alteza, além do fato de que cria ladrões para depois puni-los?" [Filme Para Sempre Cinderela]

No trecho acima Danielle cita livremente um trecho presente no livro, conforme abaixo:

"[...] Vocês permitem que essas pessoas sejam criadas da pior forma possível e corrompidas de modo sistemático desde os primeiros anos de vida. Por fim, quando elas crescem e cometem os crimes que foram sem dúvida destinadas a cometer, desde a infância, começam a puni-las por roubarem!" [trecho do livro A Utopia. Editora Martin Claret, página 39]

No decorrer do filme são feitas outras menções ao livro e isso acabou por ir despertando o meu interesse ao longo dos anos. Assim resolvi apostar nesta obra e ver se ela conseguia provocar em mim a mesma paixão que a Danielle sentia. E não. Não me apaixonei pelo livro.rsrs

- A proposta do livro é boa e muito ousada, se considerarmos que Thomas More a escreveu no século XVI, quando a Inglaterra era controlada pelo rei Henrique VIII. Sim, o mesmo que rompeu com a Igreja Católica, fundou a Igreja Anglicana, se divorciou de Catarina de Aragão por capricho para casar-se com Ana Bolena e depois mandou executar a Ana porque sentiu vontade. Fora outras execuções pelas quais ele foi responsável, incluindo a do próprio Thomas More, que simplesmente foi condenado à morte por se negar a reconhecer o vaidoso rei como chefe da nova Igreja. Ele foi decapitado e seu corpo exposto para servir de exemplo, como era comum em vários momentos da História do mundo. Eu considero que foi arriscada a publicação de A Utopia já que o livro faz uma crítica explícita à forma de governo do referido rei. Todavia, considerando que o livro só veio a ser publicado na Inglaterra vários anos após a morte do autor... não foi tão arriscado assim. Ele publicou o livro em vida, mas em outro país.rs

- No livro conhecemos a famosa ilha Utopia através de um diálogo entre Raphael, o viajante que viveu em Utopia por cinco anos, e o próprio Thomas More. Raphael conta para seu novo amigo como era incrível aquele lugar, onde todos viviam de maneira digna e não existia o que chamamos de propriedade privada. Tudo pertencia à coletividade e várias famílias viviam numa mesma grande casa antes que ocorresse um novo rodízio e fossem mudadas de local para que uma nova família habitasse aquele lugar e trabalhasse no campo, se fosse o caso. Mas antes de continuar falando da maneira como as pessoas viviam nessa ilha fictícia é preciso voltar um pouco.rsrs

O livro é dividido em duas partes: Livro I e Livro II. Na primeira parte nota-se de maneira mais clara a crítica feita ao governo da Inglaterra quando Raphael expõe sua forma de ver o mundo e seus motivos para se negar a fazer parte da Corte de Henrique. 

"Para começo de conversa, a maioria dos reis está mais interessada na ciência da guerra - sobre a qual nada sei e nem quero saber - do que em técnicas úteis de tempos de paz."

Embora não ataque diretamente o monarca, Raphael parece reprovar a maneira como os reis (e aquele especificamente) gostavam de produzir guerra, de estar sempre em conflito com outros países. Algo que vai na contramão do que um verdadeiro rei deveria buscar: a paz. 

Entre as diversas críticas presentes nesta primeira parte do livro temos a pena capital a qual os condenados por roubo eram sentenciados. Daí aquele trecho presente no filme, lembram? Para Raphael era costume dos reis educarem através da opressão e da extrema miséria as pessoas para que elas se tornassem ladras, vez que a vida lhes dava apenas duas opções: roubar ou morrer de fome. Assim, condicionava as pessoas daquela forma e quando elas se viam tão desesperadas ao ponto de cometerem o roubo para poderem comer eram condenadas à morte. Este é o "criar ladrões para depois puni-los". Sobre este assunto o personagem Raphael ainda menciona o fato da pena capital violar o mandamento bíblico "Não matarás" dizendo que a interpretação dada como desculpa para admissão deste tipo de pena concede espaço para que a Bíblia seja sempre interpretada conforme os interesses de quem detém o poder. Sim, algo assim presente num livro escrito no século XVI! Fantástico, não é mesmo?rs

Boa parte da discussão presente nesta primeira parte é sobre o tratamento concedido aos criminosos, vez que Raphael considera a vida muito mais valiosa do que bens materiais, sendo inadmissível condenar alguém à morte por conta de um roubo. Ele defende como opção o trabalho forçado; em outras palavras: o trabalho escravo. E vou logo dizendo que o brilhante livro A Utopia não considera a escravidão como algo abominável. É errado matar alguém (a pena de morte é aceita em determinados casos em Utopia), mas ter escravos é perfeitamente aceitável. Tornar alguém escravo não é errado, sobretudo se essa pessoa cometeu algum crime. E na ilha fictícia em que a igualdade reinava, todos eram felizes e tratados de forma justa também existiam escravos. Então, a igualdade não era um direito de todos. 

Ainda entre os assuntos presentes na primeira parte e a afronta explícita ao rei, temos a questão levantada de que juízes podem ser de certa forma influenciados a satisfazer as vontades do monarca. Raphael fala de forma hipotética. Que algo assim poderia acontecer. 

"Um quinto recomenda-o exercer certo domínio sob os juízes, para que eles sempre deem um veredicto a seu favor. [...] Logo cada juiz expressará uma opinião diferente, um caso bastante claro começará a parecer controvertido, e se questionarão os mais simples fatos. Isso dará ao rei uma esplêndida chance de interpretar a lei em proveito próprio."

De maneira mais direta ainda ele insinua que um rei que vive no luxo enquanto boa parte da população passa fome não é digno de ser considerado rei. E se deixa o seu povo nestas condições é porque acredita que assim manterá tais pessoas sob controle, submissas às suas vontades. Logo, sendo incapaz de governar homens livres, exceto através da opressão, não sabe ser rei. 

São diversas as formas pelas quais o autor critica seu monarca no Livro I. E, na minha opinião, é a parte mais interessante de todo o livro. A segunda parte (Livro II), quando conhecemos mais profundamente a tal Utopia, não despertou tanto o meu interesse. E por isso digo que não me apaixonei pelo livro. Não vi nada de grandioso em Utopia, apenas uma verdadeira ilusão, em que as pessoas estavam condicionadas a uma forma de vida que também oprimia e elas não eram capazes de perceber. Uma sociedade que buscava uma suposta justiça social, mas admitia a escravidão. Em que mulheres tinham mais liberdade que na Inglaterra da época, mas que ainda assim estavam sujeitas ao controle dos parentes do sexo masculino. Em que as pessoas não eram tão livres assim para exercer qualquer ofício. E não tinham direito sequer a terem sua própria casa, nada sendo delas realmente. Que sociedade ideal é esta?! Como eu disse, a proposta é boa, a intenção ao mostrar uma sociedade mais evoluída, em que boa parte das pessoas viviam em igualdade de condições, felizes e se acreditando livres, em oposição à situação miserável em que os súditos do rei da Inglaterra viviam, é até legal. Mas as pessoas que viviam em Utopia também eram controladas. Estavam presas àquela forma de vida. Não eram livres para ter uma vida diferente daquela que lhes era determinada. E se desobedecessem de alguma forma às regras poderiam ser condenadas à escravidão. 

"A pena normal para qualquer crime importante consiste na escravidão. Os insulares afirmam que ela é tão desagradável para os criminosos quanto a sentença de morte, e mais proveitosa para a sociedade do que se livrar deles de imediato, pois trabalhadores vivos são mais valiosos que mortos, além de exercer uma influência dissuasória mais prolongada. Entretanto, se os condenados se revelarem recalcitrantes sob esse tratamento, e não obedecerem a nenhum tipo de disciplina na prisão, eles apenas os abatem como animais selvagens."

E falando em desobediência... Imagine que alguém numa determinada cidade da ilha quisesse visitar uma cidade vizinha para estar com um amigo. Ela podia simplesmente ir? NÃO. Tinha que ter permissão do Prefeito que lhe concederia um passaporte estipulando quando a pessoa deveria retornar. Caso alguém se atrevesse a viajar sem permissão e fosse pego seria conduzido de volta em "desgraça" e punido como desertor. Se cometesse tal infração pela segunda vez a pena era a escravidão. 

Não vou falar de todos os aspectos desagradáveis da ilha. Existiam pontos positivos como o incentivo para que as pessoas estudassem (para cargos pontuais em benefício da ilha), hospitais avançados e gratuitos, comida boa para todos (incluindo os escravos?), "liberdade religiosa"... Em resumo  posso dizer que o livro não conseguiu mais do que três estrelas. Porque não concordei com muitas das coisas aplicadas na tal ilha. Me pareceram bárbaras, por demais opressoras. A forma como a população era tão fortemente controlada e sequer notava me dava náuseas. Não leria esse livro novamente e está longe de representar um "mundo ideal". 

- Utopia, como eu disse, é uma palavra inventada pelo Thomas More. Significa literalmente "não lugar", lugar que não existe. Como também lhe foi dado o significado de algo fantasioso, imaginário, ilusório por conta da própria obra, eu costumo usar a palavra quando quero dizer que algo é ilusão.rs

Thomas More foi reconhecido como mártir e canonizado pela Igreja Católica por conta da causa de sua execução, que foi sua fidelidade aos ensinamentos católicos e sua fé em Deus. Ele era um homem muito religioso e culto e incentivava seus filhos (fossem meninos ou meninas) a estudarem, não fazendo distinção entre eles no que se refere à educação. 

- Um lado meu pensa que o autor, ao criar este "não lugar" estava agindo com ironia, debochando não só do governo da Inglaterra, mas também da sua ilha imaginária e sociedade ideal. Todavia, um outro lado acredita que para o Thomas More, Utopia realmente representava um modelo de sociedade e governo ideal se a outra opção era a realidade miserável da Inglaterra do século XVI. Naquela época realmente poderia ser um sonho maravilhoso viver num lugar como naquela ilha imaginária. E algumas coisas deveriam sim fazer parte de todas as sociedades: a valorização do trabalho humano, a diminuição de carga horária de trabalho (em Utopia trabalhavam seis horas diárias), o incentivo à educação, o desprezo pelo acúmulo de riquezas, no intuito de obter uma situação de maior igualdade. Utopia tinha aspectos muito positivos, mas tendo em vista que é um livro do século XVI, que tinha muito da mentalidade da época, também possui pontos negativos, como os que citei. Mas foram vários os trechos que marquei e que representam o que toda sociedade e governo deveriam praticar em nome de uma verdadeira equidade. 
Topo