17 de março de 2021

A Garota do Lago - Charlie Donlea


Literatura norte-americana
Título Original: Summit Lake
Tradutor: Carlos Szlak
Editora: Faro Editorial
Edição de: 2017
Páginas: 296

6ª leitura de 2021 (6ª resenha do ano)

Sinopse: ALGUNS LUGARES PARECEM BELOS DEMAIS PARA SEREM TOCADOS PELO HORROR...


Summit Lake, uma pequena cidade entre montanhas, é esse tipo de lugar, bucólico e com encantadoras casas dispostas à beira de um longo trecho de água intocada.
Duas semanas atrás, a estudante de direito Becca Eckersley foi brutalmente assassinada em uma dessas casas. Filha de um poderoso advogado, Becca estava no auge de sua vida. Era trabalhadora, realizada na vida pessoal e tinha um futuro promissor. Para grande parte dos colegas, era a pessoa mais gentil que conheciam.

Agora, enquanto os habitantes, chocados, reúnem-se para compartilhar suas suspeitas, a polícia não possui nenhuma pista relevante. 

Atraída instintivamente pela notícia, a repórter Kelsey Castle vai até a cidade para investigar o caso.

... E LOGO SE ESTABELECE UMA CONEXÃO ÍNTIMA QUANDO UM VIVO CAMINHA NAS MESMAS PEGADAS DOS MORTOS...

A selvageria do crime e os esforços para manter o caso em silêncio sugerem mais que um ataque aleatório cometido por um estranho. Quanto mais se aprofunda nos detalhes e pistas, apesar dos avisos de perigo, mais Kelsey se sente ligada à garota morta.

E enquanto descobre sobre as amizades de Becca, sua vida amorosa e os segredos que ela guardava, a repórter fica cada vez mais convencida de que a verdade sobre o que aconteceu com Becca pode ser a chave para superar as marcas sombrias de seu próprio passado...



Esta é uma resenha que eu realmente acreditei que não fosse escrever. Mesmo agora enquanto estou sentada na frente do computador, com a intenção de finalmente colocar em ordem meus pensamentos sobre a história, ainda não sei se conseguirei escrever algo coerente. E nada disso é culpa do livro, mas dos problemas que estou enfrentando (problemas de saúde na família) e que afetaram até meu prazer pela leitura. Os livros sempre funcionaram como refúgio na minha vida, mas são tantas coisas ao mesmo tempo que nem a leitura está conseguindo me tranquilizar, me dar a paz que sempre deu. 


Terminei de ler este livro já faz cerca de duas semanas e é sempre difícil falar de uma história depois que passou tanto tempo. Mas o li numa leitura coletiva e ontem consegui umas horas de "respiro" para fazer o debate com os outros leitores. Isso serviu para refrescar também minha memória sobre os acontecimentos do livro e considerar tentar escrever a resenha. Eis aqui minha tentativa.rs


Becca Eckersley era uma linda estudante de direito de vinte e dois anos, cursando a pós-graduação, como era desejo de seus pais, que sonhavam em ver a filha ser bem-sucedida na vida. Agradável, sorridente e gentil, mantinha fielmente seu núcleo de amizades conquistada logo no início da faculdade, e que não admitia a entrada de nenhum novo membro, por mais que eles tivessem outros amigos "por fora". O quarteto inseparável era composto por Becca, Gail, Brad e Jack, e causava admiração nos demais estudantes que entre eles não houvesse nenhum romance, pois era inviável que homens e mulheres conseguissem ser apenas amigos, ainda mais convivendo de maneira tão próxima (era comum as meninas dormirem, apenas dormirem, com os meninos em seu apartamento ou vice-versa) e compartilhando segredos e todos os momentos importantes. 


Todos os quatro tinham grandes planos para o futuro. Terminariam a faculdade com ótimas notas, cursariam a pós-graduação, alcançariam todo o sucesso sonhado. Mas tudo terminou de maneira violenta para Becca, na noite do dia em que chegou na casa de férias de seus pais, para passar um período sozinha, dedicado exclusivamente aos estudos. Naquela noite, após voltar de um café e passar algumas horas sentada na cozinha estudando, ela abriu a porta para o seu assassino. Para o homem que destruiria sua vida. Que a violentaria e agrediria, deixando-a largada para morrer, numa casa em que ela tinha vivido tantos momentos bons. Num lugar que ela considerava um refúgio. Jamais poderia imaginar que iria até ali apenas para ser assassinada. E muito menos que seria por ele... por alguém em quem confiava. 


"Ao longe, uma sirene ecoou na noite, baixinha no início, e depois, mais alta. A ajuda estava chegando, embora ela soubesse que era muito tarde."


A história começa de maneira brutal, com a cena da morte de Becca, assassinada em 17 de fevereiro de 2012. Quando eu disse que ela foi assassinada por alguém que conhecia e em quem confiava, é porque o livro deixa isso claro para a gente, logo nas primeiras páginas, pois ela sorri ao vê-lo aparecer, desliga o alarme e abre a porta para ele entrar. Era alguém de quem ela jamais esperaria uma traição tão grande, o que torna tudo pior para nós leitores. Porque nos apegamos muito à Becca e sentimos como se fosse com a gente a traição que ela sofre. Fico imaginando como seu coração despedaçou enquanto era atacada por alguém que ela deixou entrar, por alguém em quem tanto confiou. Sempre digo que a traição é o pior dos pecados. É da traição que parte todo mal. 


Após a cena de sua morte, o livro passa a intercalar presente e passado. No presente, duas semanas após o assassinato dela, conhecemos Kelsey Castle, uma jornalista que lidava com os próprios demônios e que foi enviada para a pequena cidade de Summit Lake para escrever sobre aquele chocante crime. Seu chefe não esperava que ela fosse enfrentar tantas complicações ao chegar ao local, incluindo tentativas misteriosas da polícia de abafar o crime e impedir qualquer pessoa de se aproximar da verdade. Tudo era muito estranho e a insistência das autoridades de que se tratava de um roubo seguido de morte era patética e surreal, pois a brutalidade do assassinato e o fato de apenas a bolsa de Becca ter sido levada (quando existiam muitos objetos de valor na casa) colocava em sérias dúvidas aquela tese. 


Ao mesmo tempo em que acompanhamos a luta de Kelsey para contar a história daquela jovem, cuja vida foi interrompida de maneira tão horrível, o autor nos leva ao passado de Becca, quatorze meses antes de sua morte, nos dando a oportunidade de conhecê-la, e de sofrer ainda mais por um destino que não poderíamos evitar. A vontade que temos é de mudar os acontecimentos, de avisá-la para não abrir a porta, de gritar que ela seria traída por alguém que amava. Queremos impedir sua morte, mesmo sabendo que é impossível. E o autor parte dos quatorze meses anteriores à tragédia e vai se aproximando, com o desenrolar da história, da noite de sua morte, para dessa vez revelar quem era o assassino. Essas cenas só se passam no final, claro, mas a repetição das cenas, só que com mais detalhes, causa uma imensa angústia em nós leitores, que somos obrigados a reviver aquele momento, sabendo como tudo terminaria. Isso nos causa muita tristeza.


O autor conseguiu escrever uma história tocante, abordando um tema muito real em nosso país e no mundo: o feminicídio. Mais uma vez digo que não estou falando demais, não é spoiler, pois são conclusões que qualquer leitor consegue tirar das primeiras páginas. Becca foi morta em razão de seu gênero. Foi brutalmente estuprada, agredida e deixada agonizando como se fosse um nada, como se sua vida fosse insignificante. Simplesmente por ser mulher. E isso fica completamente claro na cena inicial do livro, a cena em que ela é atacada e assassinada. 


A partir daquela cena, antes mesmo de conhecer seu passado, começamos a criar teorias. Quem seria o assassino? O pai, o irmão, algum outro parente, algum amigo, um namorado ou ex-namorado? Sabemos que era alguém em quem ela confiava muito e que sabia que ela estaria ali naquela noite. Alguém de quem ela não tinha medo. Que recebeu de braços abertos, sem jamais imaginar as intenções daquela pessoa. 


Digo que não é nada difícil descobrir quem é o desgraçado que a matou. O autor aponta para determinada direção e temos A CERTEZA de que foi tal pessoa. Sabe o que é não ter nenhuma dúvida de que tal pessoa foi o assassino? O autor nos joga na direção do monstro... apenas para confundir nossa cabeça depois. Ele provoca uma reviravolta interessante (e muito inteligente), fazendo com que descartemos nossa teoria e pensemos em outros suspeitos. E a surpresa acaba sendo grande no final. E nos faz refletir também sobre decisões que tomamos e que podem se voltar contra nós. Às vezes ajudamos sem esperar nada em troca. Ajudamos por amor, por nos colocarmos no lugar da outra pessoa. E ajudar é algo maravilhoso, claro. Nosso dever como seres humanos, de não olharmos apenas para nosso umbigo. Só que... às vezes temos que pensar antes de confiar. Antes de sairmos estendendo a mão. Porque pode acontecer de estendermos a mão para alguém que vai nos jogar no abismo depois. 


Este livro mexeu muito comigo e apreciei bastante a leitura como um todo, embora tenha sentido bastante angústia. Mas não pude dar cinco estrelas nem favoritar, pois por mais que seja um livro bem escrito e super envolvente, possui falhas evidentes. A história começa muito bem e de repente fica um tanto parada, apostando em repetições de pensamentos e diálogos que frustram um pouco o leitor. Mas esse não é nem o pior dos problemas, mas sim algumas pontas soltas e a forma como não conseguimos nos conectar com a Kelsey. 


O autor tinha a intenção de contar a história de duas mulheres, ligadas por um pesadelo em comum. Só que ele se concentra tanto na Becca e em nos fazer sofrer por ela, que esquece completamente da Kelsey. Ela parece estar ali apenas para solucionar o crime, quando percebemos pelo desenvolver da história que o autor queria que ela fosse protagonista também, mas não conseguiu nos conectar, nos fazer ter alguma ligação com a personagem. E não fui a única a sentir isso; como eu disse, li o livro numa leitura coletiva e os outros leitores também perceberam esse problema na história. É triste, pois a Kelsey tinha muito potencial e, infelizmente, não conseguimos sentir absolutamente nada por ela. 


Outro problema, tão grande quanto este, foi o fato de o autor, para desviar nossa atenção do assassino, criar situações que ficaram sem explicação, sem sentido. Determinados personagens agem de certa forma, mas no final não há nenhuma explicação. Ficaram pontas soltas, entende? Ficamos nos perguntando quais foram os motivos e a única conclusão é que o autor fez tal escolha apenas para nos desviar, só que ao deixar coisas importantes sem resposta, ele acabou prejudicando um pouco um livro que é muito bom. Mas creio que este é seu livro de estreia e para uma primeira história, sem dúvidas, ele arrasou! Então, crio ainda mais expectativas em relação aos seus próximos livros, que já quero ler!



-> DLL 21: Um livro que comprou pela capa



13 de março de 2021

O Castelo de Otranto - Horace Walpole


Literatura Inglesa
Título Original: The Castle of Otranto
Tradutor: Oscar Nestarez
Editora: Escotilha
Edição de: 2019
Páginas: 111 (e-book)

5ª leitura de 2021 (5ª resenha do ano)

Sinopse: O LIVRO QUE AJUDOU A FUNDAR O GÓTICO E O TERROR MODERNO

"Um conjunto de vívidos personagens ao estilo Harry Potter, aventuras sobrenaturais em cofres e adegas e eventos surpreendentes e inexplicáveis." – Telegraph


O principado de Otranto é governado pela família de Manfredo, herdeiro do título de príncipe e também de uma profecia. E, por causa disso, obcecado com sua linhagem – a única maneira de manter seu poderio. No entanto, às vésperas de concretizar o casamento de seu filho, estranhos fenômenos passam a assolar o castelo, culminando num terror sem fim.


Um clássico não se torna clássico à toa. E "O castelo de Otranto" é prova disso. Aqui nasce o pilar do gótico, do sobrenatural e do horror, responsável por influenciar nomes como Edgar Allan Poe, H.P. Lovecraft e Bram Stoker.


Esta edição, fielmente traduzida pelo autor e pesquisador Oscar Nestarez (que também é colunista da Revista Galileu), conta com extras como nota da editora, introdução do editor clássico e prefácios para a primeira e segunda edições.




Durante quase toda minha vida eu nem sabia que este livro existia. Foi somente há uns dois ou três anos que ouvi falar dele pela primeira vez e fiquei bem interessada, por ser considerado o fundador da literatura gótica, inspirando autores como Edgar Allan Poe e Bram Stoker. 

A minha curiosidade falou bem alto e resolvi dar uma oportunidade a este clássico. Confesso que com muitas expectativas, mesmo sem querer esperar demais. Sobretudo porque ainda não é um gênero que estou habituada a ler, ainda mais quando envolve "fantasmas" e outros elementos sobrenaturais. Sigo sendo muito medrosa.kkkkkk

Mas iniciei a leitura... e me surpreendi com a narrativa fácil e que fluía tão bem. Porém, o que a escrita do autor tinha de envolvente, seus personagens tinham de absurdos. Uns capazes das maiores maldades por terem poder para brincar com a vida das pessoas; e o que mais me irritava nesses vilões era a intromissão do autor na história, nos apontando motivos para justificá-los e compreender o imperdoável. Já outros personagens queriam ser santos e se sujeitavam a tudo, o que também tornou a história intragável para mim. Eram dois extremos que explodiriam com qualquer história: personagens cruéis livres para fazer o que quisessem, pois os bons nem sequer lutavam contra eles. O desfecho esperado seria o da vitória do mal, uma vez que os bons não resistiam. E livros assim deixam um gosto amargo na minha boca. 

Nesta história, que se passa no período medieval, temos um príncipe que parece nutrir um "ódio" todo especial pelas mulheres, que ele trata como se fossem suas propriedades, sem sentimentos e menos valiosas que o objeto mais medíocre sob seu poder. Sua esposa, apesar de ser constantemente maltratada o idolatra, chegando ao ponto de dizer que o ama até mais do que a seus próprios filhos e sendo o capacho no qual ele tanto ama pisar. 

A filha dele, Matilda, já está acostumada com os maus-tratos recebidos e nunca o enfrenta, temendo estar em sua presença e apenas sofrendo ao ver a maneira como a mãe, a quem tanto ama, é tratada. Matilda não quer se casar, pois não quer passar para as mãos de outro tirano, sonhando em entregar-se ao convento, onde poderia ter um pouco de alegria em sua vida. 

A única pessoa com quem Manfredo se importa é com seu filho, um rapaz com uma saúde muito fraca, mas que por ser homem é a esperança dele de dar continuidade a sua linhagem e evitar uma antiga profecia. Embora o rapaz ainda seja muito novo, o pai se apressa em casá-lo com uma bela e saudável jovem chamada Isabella, para que logo fossem providenciados os herdeiros (que deveriam ser meninos). Acontece que algo misterioso, violento e trágico acontece no dia do casamento, levando o príncipe ao desespero e à loucura... disposto a tudo para conseguir o que queria... não importando quem ele teria que machucar ou destruir no caminho. 

E a história vai girar em torno disso: da maldade do príncipe, a apatia das mulheres da família (tirando Isabella que é bastante corajosa mesmo acreditando não ser forte) e os estranhos fenômenos que ocorrem no castelo. Não é bem um livro de terror, mas tem toda a aura gótica esperada da história, já que foi o autor quem fundou a literatura do gênero. 

Se eu gostei do livro? Não muito. Eu me irritei bastante com os personagens e isso influenciou negativamente a história. 


-> DLL 21: Um livro clássico


Observação: Esta resenha já estava pronta há várias semanas, mas por estar enfrentando sérios problemas de saúde na família, eu não tive ânimo ou tempo de vir aqui para editá-la antes de publicar (algumas vezes faço as resenhas no blog e deixo no rascunho para depois com tempo editar). 2021 não começou bem e estou passando por problemas que têm me desgastado muito física e emocionalmente. Mas tenho fé que tudo ficará bem. 

Não abandonarei o blog. Logo, logo me organizarei para escrever a resenha de "A Garota do Lago" e finalizar algumas leituras que ficaram abandonadas nas últimas semanas. 

 

17 de fevereiro de 2021

O Navio Negreiro e outros poemas - Castro Alves

 


Literatura Brasileira
Editora: Melhoramentos
Edição de: 2013
Páginas: 163 (e-book)

4ª leitura de 2021 (4ª resenha do ano)

Sinopse: Como principal representante da poesia condoreira no Brasil, Castro Alves se utiliza de uma linguagem eloquente e grandiosa para denunciar os horrores da escravidão e lutar pela liberdade dos escravos. Nesta coletânea, destaca-se “O navio negreiro”, poema épico-dramático que narra o tráfico de negros trazidos da África para trabalhar como escravos no país. As atrocidades do sistema escravista ganham vida nestes poemas e transmitem toda a sensação de dor e privação das vítimas desse sistema.



Eu amo poesias, mas tenho uma dificuldade enorme para fazer resenhas sobre elas. Porque a experiência de lê-las é muito única, é um sentir que não dá para colocar em palavras. Sempre que mergulho num livro de poemas eu viajo para bem longe "do real", me perco em sentimentos e sensações... vou para bem longe de mim mesma. Me entrego ao que o poeta escreveu e me imagino na situação do eu lírico. O que nem sempre é uma experiência agradável.... Ainda mais quando lemos poemas que tratam da escravidão. 


Ler O Navio Negreiro e outros poemas foi muito desgastante emocionalmente. Eu fiquei abalada, inquieta, viajei para aquele período que marcou com sangue, tortura e muita dor a História do nosso país e do mundo. Não era capaz de ler muitos poemas por dia, pois sentia como se existisse um peso sobre mim, algo sufocante. E é admirável o talento e a sensibilidade do poeta para conseguir tornar tão vívidos os acontecimentos através de seus poemas. 


Castro Alves foi um jovem poeta da terceira geração do Romantismo e também um abolicionista, conhecido como "poeta dos escravos" ou poeta social, segundo informações que encontrei em pesquisas na internet. Teve uma vida bastante curta, falecendo aos 24 anos de idade, mas contribuiu de maneira importantíssima para sensibilizar outras pessoas a se envolverem com as causas sociais, humanitárias e abolicionistas. Me pergunto como pude passar pela escola e pela universidade sem jamais ter lido nem que fosse um dos seus poemas! Não acredito que tenha lido, pois teria sido impossível esquecê-los. Eles nos tocam profundamente, de uma maneira que tira o fôlego, que angustia. 


"Senhor, não deixes que se manche a tela
Onde traçaste a criação mais bela
De tua inspiração. 
O sol de tua glória foi toldado...
Teu poema da América manchado,
Manchou-o a escravidão." 
[Trecho do poema Ao romper d'alva]


Esta coletânea reúne 33 poemas que abordam temas imensamente dolorosos, que falam das mais diversas formas de violência praticadas ao longo dos séculos de escravidão. Da dor, fé e profunda tristeza de pessoas que apenas por sua cor de pele eram tratadas como objetos, como mercadorias, como algo sem sentimento. Que não eram vistas como seres humanos. Que foram roubadas de tudo... de sua liberdade, sua intimidade, sua família, sua vida... Tudo. Absolutamente tudo. A dívida que a sociedade possui não poderá ser paga nunca. 


Dói muito pensar nas pessoas que viveram e foram torturadas, subjugadas e mortas conforme a vontade de seus "senhores". Que foram separadas de suas famílias, que tiveram todos os seus direitos violados. É comum pensarmos, em momentos de grande desesperança, que "hoje em dia" falta amor no mundo. Que a ausência de amor é que provoca tanta violência, tanta crueldade. Mas não. Não é algo de "hoje em dia". Simplesmente sempre faltou amor no mundo. As pessoas, de maneira bastante seletiva, escolhem quem vão considerar seu "próximo", seu semelhante. Não é raro eu ter a dolorosa sensação de que tudo o que Jesus passou foi em vão. Não aprendemos nada. 


"Agora adota a escravidão por filha, 
Amolando nas páginas da Bíblia
O cutelo do algoz...
Sinto não ter um raio em cada verso
Para escrever na fronte do perverso:
'Maldição sobre vós!"

[Trecho do poema Confidência]



Quase todos os poemas me tocaram de alguma forma, me deixaram triste e revoltada, mas aquele que mais me abalou foi Tragédia no lar. Nossa! Apenas lembrar da história contada nele, a mãe que tem seu filho arrancado dos seus braços, pois seu "senhor" o vendeu... é de nos destroçar por dentro. É um poema de muita dor, as palavras dela, seus gritos, seu desespero... Nunca vou conseguir esquecer. 

A mãe, no poema Tragédia no lar, implora que aquele homem não leve o seu filho, que é apenas um bebê, inocente, que é tudo o que ela tem, que é sua única alegria. Suplica que ele se coloque em seu lugar, pois também tem filhos. O que ele sentiria se quisessem vender seus filhos? Se os levassem para serem escravos? Mas nada do que ela dissesse, suas súplicas... nada era capaz de comover aquele homem. E o poeta prossegue dizendo o motivo de tanta crueldade: 

"Porém nada comove homens de pedra, 
Sepulcros onde é morto o coração."

E eu concordo completamente. É preciso ser morto por dentro para fazer algo assim. Para arrancar um filho de sua mãe, para vender seres humanos, para escravizar pessoas. Este poema me abalou muito, me deixou em prantos, com tanta, tanta angústia. Porque não é um simples poema. Foi a realidade de muitas pessoas. Separadas de suas famílias... tratadas como se fossem nada. 

Eu recomendo os poemas deste livro, mas que leiam sabendo que vão se revoltar, que vão chorar, que ficarão com um sentimento muito ruim de desesperança, de tristeza por um passado que não podemos mudar. E um presente que ainda reflete esse passado. 

Quero ler tudo o que o Castro Alves teve a oportunidade de escrever, mas darei um intervalo de alguns meses, pois não tenho o emocional forte para ler muitos de seus poemas em sequência. Não tenho estrutura emocional para isso. As palavras dele são muito fortes. Sua escrita transborda sentimentos e nos inunda. Eu não estava preparada para tantos sentimentos dolorosos. Não estava preparada para a força de sua escrita. Mas já é um dos meus autores preferidos, com certeza! Só lamento ter demorado tanto para conhecê-lo. 



-> DLL 21: Um livro de autor brasileiro nunca lido. 




4 de fevereiro de 2021

O Médico e o Monstro - Robert Louis Stevenson

 



Literatura Escocesa 
Título Original: The Strange case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde
Tradutor: Marcos Marcionilo
Editora: Melhoramentos
Edição de: 2013
Páginas: 131 (e-book)

3ª leitura de 2021 (3ª resenha do ano)

Sinopse: Na efervescente Londres do século XIX, qual seria a relação secreta entre Dr. Henry Jekyll, um médico bem-sucedido, generoso, elegante e educado, e Mr. Hyde, um homem repugnante e assustador? É isso que o advogado Mr. Utterson vai tentar descobrir nesta história repleta de mistério e terror, um dos grandes clássicos da literatura universal.





Eu já tinha ouvido falar muito desta história. Inclusive na série Once Upon a Time existiram alguns episódios falando dela, o que só serviu para aumentar minha curiosidade, embora eu soubesse qual era o grande segredo do livro. 

Mas ao iniciar a leitura percebi o quanto tudo seria diferente do que eu imaginava. A narrativa era muito lenta e cansativa, do tipo que dá voltas e voltas, em vez de ir direto ao ponto. Os personagens não são carismáticos e um livro que poderia ser lido em pouco menos de duas horas se tornou tedioso, ao ponto do meu estresse com a enrolação do autor ser tão grande que quase abandonei o livro. Consegui terminar a leitura no último dia do mês de janeiro, mas não tinha realmente nenhuma vontade de escrever sobre a história. 

Nela é trabalhada a dualidade do ser humano, o que pode ser considerado spoiler para quem nunca ouviu falar do livro (o que é quase impossível, pois a questão central de O médico e o monstro é algo que já foi adaptado até para alguns episódios de vários desenhos animados), como não existe ninguém que seja completamente bom nem completamente mau. Que no interior de cada ser humano habita a bondade e a maldade e tendemos a escolher um lado, o que não significa que o lado "rejeitado" não possa se manifestar em algum momento. É uma teoria na qual eu própria acredito: que todo ser humano é capaz de qualquer coisa, mas geralmente "abraça" um dos seus lados e luta para permanecer sem contato com seu outro lado. 

Através do senhor Utterson, um advogado muito bondoso e querido por seus amigos, conhecemos a história do doutor Henry Jekyll, um profissional muito respeitado, que sempre tratava a todos com consideração e tentava levar uma vida o mais correta possível, sem jamais fazer mal a ninguém. Utterson fica muito perturbado quando Henry lhe entrega um testamento, que deveria ser cumprido caso ele morresse ou "desaparecesse". A perturbação acontece pelos termos do testamento, que deixavam tudo o que médico possuía para um completo desconhecido, um tal de Edward Hyde, que mais tarde o advogado vem a descobrir que se trata de um homem perverso, que desperta o pavor e o ódio em quem cruza o seu caminho. Como alguém como Henry deixaria tudo o que lutou para conquistar nas mãos de alguém tão desprezível como Hyde? Logo, ele chega à conclusão que seu amigo só pode estar sendo chantageado e que seria a sua obrigação ajudá-lo. 

Ao longo da história vão acontecer alguns crimes bem terríveis praticados por Hyde, o misterioso e desprezível ser que quase não parece humano. Isso não é spoiler, pois é algo falado desde o início da história. Sabemos que Hyde é muito ruim e que é capaz das mais monstruosas coisas. O que o autor guarda como "segredo" é a relação dele com o médico. Que grande poder ele possuía sobre o Henry? Que grande segredo é esse que ele guardaria sobre o médico, ao ponto de ele fazer tudo o que Hyde queria? O autor guarda a grande revelação para o final, mas como eu disse, já sabia disso praticamente desde a minha infância, graças aos desenhos animados.rs

É um livro curtinho, no e-book são 131 páginas, e daria para ser lido em menos de duas horas, se não fosse tão chato. A teoria trabalhada na história é incrível, fascinante, principalmente para quem, como eu, aprecia essas questões psicológicas, mas não gostei da narrativa do autor, da enrolação para chegar onde ele queria. Se a história tivesse sido escrita de maneira diferente eu teria curtido bastante o livro. 



-> DLL 21: Um livro de até 200 páginas



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